Nuno dirigiu-se ao seu carro. Aí chegado, sentou-se ao volante, levou as mãos à cara e deixou-se ficar por momentos assim. Como se necessitasse desse tempo, para reforçar a barreira de indiferença, que a presença de Luísa de algum modo ameaçava destruir.
Depois lentamente, pôs o veículo a trabalhar e arrancou suavemente.
Tinham-se passado dezasseis anos desde que Luísa de uma forma abrupta, terminara a relação que mantinham há dez meses. Sem outra explicação a não ser a de que era muito jovem, não desejava prender-se tão cedo. Ele sentira-se traído, usado. Amava-a e sonhava com ela como sua companheira, e mãe dos seus filhos. Pensava pedi-la em casamento logo que ela completasse os dezoito anos. Mas ela terminara tudo uns meses antes.
E ele ficara desesperado. Não era um adolescente. Tinha vinte e cinco anos e sabia muito bem o que queria da vida. Por ela, pelo seu amor, tinha até renunciado aos seus sonhos de partir para terras longínquas, para cuidar dos esquecidos de Deus. Claro, não podia arrastar uma jovem tão frágil e delicada como Luísa para semelhantes lugares. E não acreditava em relações à distância. Conhecia-se. Não seria útil em lugar algum se a sua cabeça e o seu coração estivessem a milhares de quilómetros.
Luísa era uma excelente atriz. Tão boa que ele estava convencido que ela o amava de igual modo. Mas o que ela queria era alguém que a iniciasse nos prazeres do sexo, e decerto o escolhera por pensar que seria mais experiente que os rapazes da idade dela. Pelo menos era o que a sua atitude lhe fazia crer. Ela mudara por completo depois que tinham feito amor. A princípio ele pensara que era por timidez. Mal sabia ele, que ela se estava a preparar, para se descartar dele. Claro. Deixara de ter utilidade. Nunca na sua vida sentira tal dor, e simultaneamente tal humilhação.
A sua mãe, na tentativa de lhe fazer esquecer, começou a convidar lá para casa, todas as filhas casadoiras das suas amigas. Para acabar com a situação, e também porque era o sonho de toda a sua vida, Nuno pusera em marcha o processo que o levaria para África, deixando a mãe destroçada. O pai, que sempre o apoiou, e que sabia das suas intenções para com Luísa, dizia-lhe que não valia a pena estar assim. Ele era muito novo, e o que não faltavam no mundo, eram mulheres carinhosas e dignas, capazes de retribuir o seu amor e serem companheiras dedicadas. Ele não acreditara na altura como não acreditava hoje.
Tornara-se num solitário. Luísa matara para sempre a sua fé nas mulheres. E ele conhecera muitas, naqueles dezasseis anos. Era um homem jovem e fisicamente saudável. Tinha desejos como qualquer outro e não fizera voto de castidade. Algumas aqueceram a sua cama, durante algumas horas. Algumas disseram mesmo que o amavam. Mas as suas declarações, resvalaram pela indiferença dele, como gotas de chuva pela vidraça.
Há três meses que tinha regressado. Pelos seus pais que estavam velhos e saudosos da presença do seu filho único, mas também porque ele já não era o mesmo homem de outrora. Estacionou junto do prédio onde morava. Um apartamento a cinquenta metros da casa dos seus progenitores. Suficientemente perto para os ver quase todos os dias, mas um lugar independente, onde podia lamber as suas feridas sem testemunhas.
E esta tarde estarei em Lisboa a fazer exames respiratórios, que não se fazem no Barreiro e que estão marcados há quase dois meses.





