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20.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXI

 



Anabela acordou sobressaltada. Sonhou que depois de muitos meses de luta constante com o doente, sem notar quaisquer melhoras, estava prestes a desistir.

Recusando-se a acreditar que o sonho podia ser um aviso do que ia acontecer, olhou o relógio e viu que eram apenas sete horas.  Saltou da cama, calçou os chinelos, vestiu o robe e foi abrir a persiana. O dia amanhecera de novo com bom tempo. Apesar do sol ainda demorar quase uma hora para aparecer no horizonte, a escuridão ia desaparecendo rapidamente e o céu até onde a serra deixava ver, mostrava um belo tom de azul. Abriu um pouco a janela e logo a fechou arrepiada com a lufada de ar gelado que entrou no quarto.

Decidida a começar a nova fase da sua vida, tomou banho, secou e prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo, vestiu-se, arrumou o quarto, pôs em cima da cama a sua bata branca e desceu ao piso inferior, sentindo o delicioso cheiro a café que impregnava o ambiente. Na cozinha Isilda preparava o pequeno-almoço.

- Bom dia, Isilda.

- Bom dia, Menina.

- Anabela, por favor. Nada de Menina. O doutor já acordou?

-Não sei. O Joaquim foi agora para o quarto, - disse pondo na mesa um prato com torradas. Não sei se gosta das torradas com manteiga ou doce, no jarro tem sumo natural, feito com as nossas laranjas, e há café na cafeteira. Ontem esqueci-me de lhe perguntar o que queria para o pequeno-almoço, mas se me disser o que costuma comer, amanhã já o farei. Agora estou à espera de que o meu homem me dê sinal de que o doutor já foi para o banho, para lhe ir limpar o quarto.

-Está tudo bem, não se preocupe. Na verdade, nunca como muito de manhã. Penso que temos de ver a dieta do doente. Se ele não tem apetite, se não come o suficiente, terá de tomar alguns suplementos vitamínicos.

- Bom dia, Menina. Apressa-te mulher que o doutor já está no banho, -disse Joaquim ao entrar na cozinha.

-Bom dia, Joaquim.  Por favor, trate-me por Anabela. Como está o doente hoje, muito rabugento? – perguntou, enquanto Isilda se apressava em direção ao quarto do doente e o marido se sentava à mesa para iniciar o pequeno-almoço.

- Não sei que lhe diga. Pela primeira vez não disse nada quando abri a persiana e puxei os cortinados para entrar a luz. Aliás não disse nada de nada. Nem sequer respondeu quando lhe disse bom dia.

- Bom, vou apanhar um pouco de ar. Pode levar-me o doente para a sala de tratamentos às dez horas?

- Claro. Mas e se o doutor não quiser ir?

- Estarei lá a essa hora. Se ele se negar a ir, avise-me.


E CHEGOU A PRIMAVERA




6.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XV


O cheiro a café acabado de fazer, acordou Helena. Ficou uns momentos em silêncio, tentando situar-se no dia exato, como quando alguém acorda antes de tempo. Ouviu a voz do filho. A empregada já teria chegado? Não. Era domingo ela tinha o dia livre. 

Logo de seguida ouviu a voz de Fernando. Saltou da cama, e olhou o relógio. Nove horas? Como era possível que tivesse dormido tanto? Vestiu o robe, e foi à casa de banho. Lavou a cara, os dentes, escovou o cabelo, e dirigiu-se à cozinha. 

Sentado à mesa com uma taça de cereais na frente, Diogo, tagarelava com Fernando enquanto ia comendo. Ele escutava a criança com ar divertido, tendo na sua frente um prato vazio e na mão, uma chávena de café. O cabelo húmido e a roupa da véspera, mostravam que já tinha tomado banho.

- Bom dia.
- Bom dia, - responderam em coro. Logo, Fernando  pôs-se de pé e disse:
-Senta-te. Faço-te já umas torradas. O Diogo queria ir acordar-te, mas consegui convencê-lo a ficar comigo. Bebes café, leite, ou as duas coisas?

- Por favor, Fernando, eu trato do meu pequeno-almoço.
- Porquê? Achas que não sei fazer torradas? Devias ter provado uma das que acabei de comer. Deliciosas. Vá lá, senta-te e desfruta das minhas capacidades de cozinheiro. Mas ainda não me respondeste. Café ou leite?
- Café, por favor.
- Mamã, vamos passear hoje? – Interrogou o menino.
-Se comeres tudo, vamos às compras ao Centro Comercial.
- Já estou a acabar. E olha que o tio Fernando, encheu-me a taça. Tu nunca a enches tanto.
- Estás a crescer, campeão. Precisas comer bem, - disse enquanto colocava um prato com duas torradas na frente dela, bem como o recipiente da manteiga e a faca. Virou-se para apanhar a chávena com o café, e por fim sentou-se.

A criança acabou de comer e saiu da mesa. Foi junto dele e perguntou:
- Queres brincar comigo?
Ele estendeu a mão e acariciou-lhe a cabeça. Mas Helena reparou que estava distante.
- Não é a esta hora, que dá aqueles desenhos animados de que gostas tanto, Diogo?
- Vou ver mamã, - disse correndo para a sala, a fim de ligar a televisão.


31.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXVI



Olhou o relógio. Quase meio dia. Pousou o livro na mesinha em frente ao sofá e ia levantar-se para preparar o almoço, quando o telemóvel tocou.

- Estou…

- Bom dia, Teresa! Sou o João Teixeira. Podes atender, ou estás muito ocupada?

Não precisava ter-se identificado, apesar de só terem conversado uma vez ela reconheceu de imediato a voz grave e um pouco rouca do empresário

-Posso atender.

-Como estás?

- Estou bem, só um pouco surpresa, não estava à espera da tua chamada, tão cedo.

-Cedo? Mas é quase hora de almoço…

- Não me referia à hora...

- Eu sei. Estou a ligar, para saber como vais: E também para te fazer um convite. Na Sexta-feira, vamos lançar um novo jogo de computador. É a continuação de um jogo lançado há anos e de grande sucesso, pelo que este está sendo esperado com grande expectativa e vai ser lançado em simultâneo em vários países. Vamos fazer aqui uma festa e gostava que viesses. Não poderei ir buscar-te, mas mando um motorista apanhar-te na morada que me indicares. Vens?

- Desculpa recusar o convite, mas deves compreender que não me sentiria bem numa festa onde não conheço ninguém a não seres tu, se é que podemos dizer que nos conhecemos. Além de que nunca fui muito amiga de festas e na atualidade a única coisa que quero é descansar. De qualquer modo obrigado pelo convite.

- Para te ser sincero, não fosse a minha presença obrigatória, enquanto criador do jogo, e também não iria.  De qualquer modo, não podemos criar uma relação de amizade, se não nos encontrarmos de vez em quando. Aceitas jantar comigo no sábado?

- Desculpa mais uma vez, mas ando muito sonolenta, deito-me com as galinhas, como dizem na aldeia.

- Nesse caso trocamos o jantar pelo almoço.

- Não acho que seja uma boa ideia. És muito conhecido, se algum jornalista nos vê juntos começam logo a querer saber quem sou, o que faço, e quando descobrirem que estou grávida nunca mais me deixam em paz.

- Confia em mim.  

- Nunca desistes?

- Daquilo que é importante para mim, nunca.

- Está bem.

- Está bem o quê? Eu não desistir ou tu almoçares comigo?

- Está bem, almoço contigo.

-Então sábado vou buscar-te ao meio-dia. Tens que me dar a morada.

- Vais dizer-me, que sendo tu um expert de computadores, não sabes já onde moro?

- Se vamos ter um filho, e por ele vamos ter que conviver, a primeira coisa que temos de aprender é a confiar um no outro. Eu disse-te que confiaria em ti, recordas-te? Logo por muita vontade que tivesse de verificar as informações que me deste ou de descobrir a tua morada, não o faria, pois isso seria uma prova de que não confio em ti, ou não sou de confiança.

Embora incrédula ela deu-lhe a morada e despediram-se depois dele confirmar que a iria buscar no sábado ao meio-dia.

5.12.19

CONTOS DE NATAL - O MENSAGEIRO



-O Pai Natal desapareceu!O Pai Natal desapareceu!- alertou, Jeremias, o chefe dos duendes.
Todos os duendes ficaram muito assustados com a notícia.
Era véspera de Natal e os presentes estavam quase todos prontos para serem distribuídos, mas... faltava o Pai Natal!
- Que vamos fazer? - perguntou um duende.
-Temos que o procurar.
-Sim! - disse o chefe - Germano pega num trenó e vai, com o Rudolfo, ver se encontras o Pai Natal.
- Mas, já são 9 horas da noite. E se não o encontrar?
- Nesse caso tenho que usar o segredo.
Esperaram que o Germano e o Rudolfo voltassem com notícias.
- Não encontrei o Pai Natal - disse o Germano muito triste.
- Bom! Nesse caso tenho mesmo que usar o tal segredo! - concluiu o Jeremias.
O Pai Natal estava muito preocupado porque já era quase meia-noite. Também estava muito cansado e com muito frio e, estava amarrado a uma cadeira numa casa de madeira.
No canto da casa estava um adulto sentado e falava com ele:
- Pois é Pai Natal! Agora como é que vais fazer para distribuíres os teus presentes? Este ano não...
O Pai Natal olhou para ele. Estava de boca aberta, pronto para dizer a próxima palavra, mas imóvel. O Pai Natal sorriu, olhou para o relógio que estava em cima da mesa, fechou os olhos, contou até dez e voltou a olhar para o relógio. Percebeu o que tinha acontecido e esperou.
Uma luz apareceu e, como por magia, desamarrou-o
- Pai Natal! O que lhe aconteceu? - perguntou o chefe dos duendes.
- Vamos ao meu gabinete e eu conto-lhe tudo - murmurou o Pai Natal.
No gabinete o Pai Natal revelou-lhe que tinha sido raptado.
-Raptado!? Mas porquê?
-Foi alguém que não gosta do Natal porque não tem família.
-Coitada dessa pessoa! Tenho pena dela!
-Mas isso vai ficar resolvido.
- Como, Pai Natal?
- Trouxe-a para trabalhar connosco.
- Foi uma boa ideia. Pai Natal, tenho uma coisa para lhe dizer.
- Diz!
- O senhor estava desaparecido e eu usei aquela coisa que só deve ser usada em caso de emergência. Peço desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Fizeste bem! Eu percebi que a tinhas usado.
- Mas pode ficar descansado, Pai Natal. Eu usei-a, sozinho, no meu gabinete. Ninguém ficou a saber que temos pó mágico capaz de parar o tempo! Graças a isso ainda vamos a tempo.
- Pois, ninguém dará por nada. Mas há uma coisa que todos deviam saber.
- O quê, Pai Natal?
- Que sou um mensageiro do Menino Jesus! Foi ele que enviou uma estrela para me salvar! Eu apenas distribuo os seus presentes.  É a ele que todas as crianças devem agradecer!


DANIELA DO CARMO    in Chiado Editora " Natal em Palavras" (Colectânea de Contos de Natal) 

5.11.19

UMA HISTÓRIA PARA REFLETIR



No Domingo, o Padre da minha paróquia na homilia contou uma história de que muito gostei. Cheguei a casa e escrevi-a
como ele a contou. Como não sabia se a autoria da história, era dele ou de outra pessoa, procurei na Internet e com poucas alterações encontrei-a em vários sites, sempre como sendo de autor desconhecido.  Aqui a deixo tal como ele a contou.




                                                 *************************



Um velho professor foi de férias aos Açores.  Um dia, passeava por um belo jardim, quando um homem jovem aproximou-se dele, cumprimentou-o e perguntou:
- O senhor lembra-se de mim?
O velhote olhou, mas não reconheceu o outro homem.
-Fui seu aluno na primária, lá no continente - diz o homem.  -Também sou professor.
- Olha que bom, - responde o velhote. - E de algum modo eu contribui para que escolhesse essa profissão?
O homem mais jovem pegou-lhe no braço, e disse:
- Venha daí, vamos sentar-nos.
Sentaram-se num banco e o mais novo falou:
-Quando eu andava na segunda classe, um dia um colega chegou à escola com um relógio novo. Era um relógio muito bonito, e eu nem relógio tinha, a minha família era muito pobre, o dinheiro mal chegava para comer. Não sei o que me deu, mas na hora do recreio fui ao vestiário e surripiei o relógio do bolso do casaco do meu colega.
A seguir entrámos na aula e o outro miúdo queixou-se do roubo. O senhor disse que ninguém saía da aula antes do relógio aparecer, e pediu que quem o tirou, o devolvesse. Fiquei apavorado, pensando na vergonha que meus pais iam sentir, na confiança dos colegas que ia perder e não tive coragem de entregar o relógio. Então o senhor mandou que todos nos levantássemos, fizéssemos uma fila indiana e fechássemos os olhos. O senhor ia meter a mão nos bolsos de cada um a fim de encontrar o relógio, mas ninguém podia abrir os olhos sob pena de ser castigado. Fiquei na fila a tremer esperando o momento em que encontrasse o relógio e me denunciasse. Mas o senhor pegou o relógio e continuou até ao fim da fila, e só então disse que podíamos abrir os olhos, já tinha o relógio. Entregou-o ao dono, mas não disse a ninguém quem o tinha. Naquele momento senti que tinha renascido. Eu tinha-me tornado um ladrão, tinha perdido a minha dignidade, e de repente o senhor devolveu a minha dignidade. A sua atitude era uma lição para mim, e naquele mesmo momento jurei a mim mesmo, que ia ser professor. Queria ser como o senhor. 
Calou-se emocionado e por fim perguntou:
-Porque o Senhor nunca me disse nada, nem mesmo quando estávamos sós?
- Meu jovem, - respondeu o velhote com um sorriso. - Até hoje, nunca soube quem tinha tirado o relógio. É que não foram só vocês que ficaram de olhos fechados. Antes de começar a meter as mãos nos vossos bolsos, também eu fechei os meus.




4.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IX








Estacionou o carro no único lugar vago perto da empresa, e dirigiu-se para a mesma.
Olhou o relógio antes de entrar na loja. Ainda faltava meia-hora para a abertura das portas ao público, embora ele soubesse que o seu irmão e as funcionárias já se encontravam lá dentro. Abriu a porta, entrou e voltou a fechá-la atrás de si.
Bons dias, - saudou.
Bons dias, - responderam as três pessoas que se encontravam
na loja nesse momento. O seu irmão e as duas empregadas que se afadigavam a marcar peças e a coloca-las nas prateleiras.
- Marco podes vir comigo ao escritório, ou ainda falta muito para acabarem?
- O que falta, não demora mais de cinco minutos, a Teresa e a Raquel acabam – respondeu o irmão largando a peça que tinha nas mãos, e seguindo-o. 
Uma vez no escritório, Marco colocou uma mão sobre o ombro do irmão ao mesmo tempo que perguntava:
-Há alguma novidade do hospital?
- Não. Se houver serei informado na hora, e ninguém me telefonou. Vem, vamos sentar-nos tenho que conversar contigo antes que o doutor Alcides chegue, -disse Gil sentando-se atrás da secretária e indicando ao irmão a cadeira ao seu lado.
- É assunto sério? – perguntou o irmão.
- É, se não fores capaz de levar a empresa com sucesso sozinho. Vou passar os meus sessenta por cento para ti. Uma prenda de aniversário, um pouco atrasada, mas ainda no mesmo mês.
- Mas isso representa muitos milhares de euros. Não posso aceitar, até porque na prática a empresa é tua, já que foi com dinheiro que me deste que a iniciei, e toda a sua expansão foi feita sempre exclusivamente por ti.
-E de que me serve o dinheiro, se não for para tornar felizes as pessoas que amo? Daqui a pouco quando chegar o advogado, vou tratar desse assunto e em breve, tudo passará para ti. Provavelmente terás que procurar um bom gestor, para te ajudar, principalmente se concretizares o projeto da nova loja em Faro. Bem sei que o gerente que temos no Porto é uma pessoa séria e competente, mas de qualquer modo não te poderás desligar completamente do seu funcionamento.Já conheces o ditado. "É o olho do dono que engorda o burro" O dr. Alcides, pode aconselhar-te na escolha. Ele tem bons conhecimentos, saberá decerto de algum bom gestor, que possas contratar.
- E a Laura? - perguntou o irmão
- O que é que tem a Laura? – admirou-se Gil
- Não vai ficar magoada em saber que passaste tudo para mim e a deixaste de fora?
- A Laura teve a Universidade paga assim como a sua especialização em Nova Iorque. Quando voltar a Portugal, vou montar-lhe a clínica dos seus sonhos. Não tem nada a ver com as lojas de desporto. É uma neurologista, lembras-te?
- Bom, só não queria mau ambiente entre nós, por causa dessa doação.
- Nunca haverá mau entendimento entre nós, Marco. Passamos por muitas dificuldades juntos e isso uniu-nos mais do que o sangue que nos corre nas veias.




9.10.19

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem enfermeira, arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto numero 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das três horas da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar que um dia ia ser sua mulher. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora nesta altura da vida, quando ainda tentava consolidar a sua carreira de enfermeira. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Todavia João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão, na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa,- insistira ele - não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já, acabei o curso agora, nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças - argumentara  ela. - E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável. E depois tenho a certeza que os nossos pais nos ajudarão nos primeiros tempos, até que consigas empregar-te.
-Mas Luísa, somos tão novos! Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso, nem quero, fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava, porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto, que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomara a pílula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro carácter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois daquela desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruir o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite de plantão, decorrera na maior normalidade, todavia Luísa acabou deixando o trabalho às oito horas da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto cansado, abriu-se num sorriso radioso.

Fim




27.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE VI






Olhou o relógio. Onze e meia. Dobrou a carta e meteu-a no bolso do casaco.
- Vou sair, qualquer emergência liga-me para o telemóvel – disse ao passar pelo gabinete da sua secretária.
Meteu-se no carro e dirigiu-se à morada indicada. Estacionou o carro no lado contrário da rua. Ao sair, observou o prédio. Notava-se que já tinha alguns anos mas estava bem conservado. Trinta e nove r/c direito dizia o envelope. Tocou a campainha. Uma senhora de meia-idade com uma criança ao colo, abriu-lhe a porta.
-Bom dia. A senhora é Isabel Sarmento?- perguntou.
- Se deseja falar com a Isabel ela foi ao centro de emprego, mas deve estar a chegar.
-Muito bem, eu espero no carro. Virou-lhe as costas e dirigiu-se à porta, mas quando a abriu viu uma mulher jovem do outro lado, e perguntou:
- Isabel Sarmento?
- Sim. Deseja alguma coisa?
- Falar consigo. O meu nome é Ricardo Medina.
A mulher ficou lívida e Ricardo teve a sensação que ela podia desmaiar a qualquer momento.
- Ri…cardo? O senhor é o Ricardo? Não pode ser! – balbuciou quase sem voz.
- Claro que não pode ser, - disse irritado. Como é que se atreveu a dar o meu nome a uma criança sem minha autorização?
-Senhor, - ela retorquiu, - não pudemos discutir este assunto no átrio do prédio. Se puder entrar, esclarecemos o assunto.
Abriu a porta e convidou-o a entrar. Indicou-lhe a sala. Natália, saiu da cozinha com a menina ao colo, e esta ao ver Isabel estendeu os braços para ela chamando, mãe, mãe… Isabel deu-lhe um beijo e disse: 
- A mãe agora não pode, meu amor. Natália por favor importa-se de lhe ir dando o almoço enquanto eu atendo este senhor?
-É bonita a sua filha - disse ele tentando ser amável.
- Não é minha filha, embora lhe queira como tal. É a Matilde e segundo a Susana, é sua filha.
Irritou-se de novo.
-Já lhe disse que não conheço nenhuma Susana. Porque não a chama e esclarecemos este assunto de uma vez por todas?
-Susana suicidou-se há dez meses. Se me der licença eu vou buscar a carta que ela me deixou. 
Retirou-se deixando-o atordoado. Que brincadeira mais idiota. Ele nunca conhecera nenhuma Susana. Tinha tanta certeza disso como tinha de saber que o sol nascia todos os dias.
Isabel voltou e estendeu-lhe a carta. Depois disse-lhe como uns pescadores encontraram o corpo irreconhecível entre as rochas e como o reconhecimento fora feito pelas roupas que ela vestia.
-Lamento - disse ele. Que idade tinha a sua irmã quando supostamente manteve uma relação comigo? E quando foi isso?
-Vinte anos. Há pouco mais de dois anos Susana disse que namorava consigo. Nunca a vira tão feliz e fiquei contente. Mas pouco tempo depois, disse-me que tinham acabado, caiu em depressão, e quando descobrimos que estava grávida já era tarde para um aborto. A menina tem quinze meses.


Amigos hoje vou sair bem cedinho para o Algarve, devo chegar já bem tarde, pelo que não estranhem a minha ausência.



9.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIV




Naquele momento Francisca entrou na sala. Trocara o fato do casamento por um conjunto de calça e blusa azul-escuro, de corte simples mas elegante. Sem maquilhagem, a farta cabeleira presa numa trança, de sabrinas, parecia ainda mais jovem.
O homem levantou-se e avançou para ela.  
- Estás mais calma? Não te preocupes, vai dar tudo certo. Ouves as crianças? Estão muito felizes com a brincadeira no jardim. Podes ir até lá, ou vê-las aqui da janela. A Graça está com elas. Tem tanto jeito para lidar com crianças que me admira de ainda não ter engravidado. – Olhou o relógio. São onze e quarenta, encomendei o almoço para o meio-dia e trinta. Vou tomar um duche, e trocar de roupa.
Afastou-se sem lhe dar tempo a responder. Francisca foi até à janela. Viu a cunhada com a pequenita no baloiço. Marta, a mais crescida descia o escorrega, seguida por João, rindo com aquela alegria que só as crianças têm. Abriu a porta e saiu para o jardim.
Simão perdia-se na perseguição de uma bela borboleta. Correu para ela mal a viu.
-Mãe, a “tia” Graça, disse que logo não voltamos para casa dos avós. É verdade que vamos ficar aqui para sempre?
- Sim filho, é verdade. A mãe já te tinha dito que estava a preparar o vosso quarto para ficarem a viver com a mãe.
- Mas não contaste que ias casar com o “tio” Afonso. Nem aos avós.
-Sabes filho, às vezes as pessoas têm segredos que não podem contar às outras. Mas depois vem um dia em que deixa de ser segredo e já se pode contar.
- Então o vosso casamento é segredo? Assim como o pai ser uma estrelinha no céu?
- Sim filho.
O menino com um ar sério disse:
- Fica descansada, não conto a ninguém.
Francisca acariciou-lhe a cabeça sorrindo.
-Vai brincar filho.
A criança não se afastou. Como se alguma coisa o preocupasse.
Perguntou:
- Também vais ser mãe da Ana e da Marta?
-De certo modo, sim filho. Tu sabes que todas as crianças devem ter um pai e uma mãe. A mãe delas, como o vosso pai é agora uma estrelinha no céu. Eu tentarei fazer o meu melhor, para que elas não se sintam tristes.
Naquele momento, chegou o almoço. Graça retirou a sobrinha do baloiço, e Francisca chamou as crianças que estavam no escorrega. Depois todos tomaram o caminho de casa.

reedição
Este Simão é um menino especial, não acham? Fiquem atentos a ele... .

11.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXV


                                                     Foto DAQUI


Ainda naquele dia, Clara iniciou uma nova rotina com as crianças. Depois do almoço subiram ao quarto, mas quando elas pensavam que iam dormir, Clara anunciou que tinham-se acabado as sestas. As aulas iam começar dentro de dez dias, e eles precisavam programar o seu relógio biológico, a fim de não adormecerem na sala de aulas, na parte da tarde. Assim sendo, e aproveitando que de tarde o terraço estava à sombra, ali iam ficar até à hora do lanche. Para os entreter, e desenvolver as suas capacidades criativas, deu a cada um uma folha em branco e lápis de cor pedindo-lhes que fizessem um desenho e depois contassem uma história sobre o desenho. Mais tarde depois do lanche, foram então para o jardim, onde tinham os seus aparelhos de brincar, baloiços e escorregas. A ideia de Clara era que eles esgotassem as suas reservas energéticas de modo a adormecerem facilmente apesar da ausência do pai na hora de se deitarem.
Ao jantar, não o vendo à mesa, voltou a tristeza, e apesar de todo o seu esforço, apenas comeram a sopa e a fruta.
Nos dias seguintes, Clara e o irmão revezaram-se nas brincadeiras com as crianças, na tentativa de que não se sentissem tão tristes com a partida do pai.
No Domingo a meio da tarde, Clara recebeu uma mensagem de Ricardo. Dizia que às seis horas iria estar com eles, via Skype. De modo que um pouco antes da hora marcada, reuniram-se os três na biblioteca.  Clara ligou o computador e aguardaram com ansiedade a ligação.
Apesar de saber que Ricardo tinha ido para o Afeganistão, só quando ele apareceu no ecrã, Clara soube que se encontrava em Pol-i-Charki, no arredores de Cabul, no Corpo do Exército Nacional Afegão, para apoiar o levantamento e treino daquela unidade, tendo por fim último a criação de condições para a sua autossustentação. Enquanto as crianças se atropelavam para fazer perguntas ao pai, contar as novidades dos últimos dias, e falarem das saudades que sentiam, Clara não deixava de observar Ricardo. Era estranho, ligar aquele homem com aquela farda camuflada, ao homem elegante que ela conhecia.
- Muito bem meninos, estou muito contente por ver que estão bem. Fiquei muito feliz com o vosso presente. Amo-vos muito. Mas apesar de aí ainda ser dia, aqui são quase onze horas da noite, e o pai tem que ir dormir. Quando puder volto a falar convosco. Agora se me derem licença queria falar um pouco com a Clara. Boa noite, meus filhos.
- Boa noite, pai. Dorme bem – despediu-se Bernardo formando com as mãozitas um coração.
-Boa noite pai. Volta depressa – disse a irmã fazendo um gesto como se abraçasse o pai.
- Vão ver se a Antónia precisa ajuda para por a mesa. Eu já lá vou ter, - disse Clara.
Acompanhou as crianças à porta e voltou para a secretária.
-Olá – saudou enquanto se maldizia por não lhe ocorrer nada mais criativo para dizer.
- Olá! Aquela gravação foi uma ideia genial. Vejo-a todas as noites. Ajuda-me a mitigar as saudades. Não tenho palavras para te agradecer.
- Não precisas de o fazer.
-Deixa-me continuar. Vou ficar aqui seis meses. Só podemos utilizar a Internet, para video-chamadas particulares à noite e numa sala todos ao mesmo tempo, apenas separados por um tabique, o que tira toda a privacidade a quem está a comunicar. Além disso não o podemos fazer todos os dias, nem todos ao mesmo tempo.  Por isso  temos uma escala onde nos inscrevemos. E poderemos fazê-lo  duas ou três vezes por mês. Não sei quando poderei voltar a falar. Vou ter que desligar agora.
E a imagem desapareceu sem que Clara tivesse tempo de responder.



2.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XVI



Na manhã seguinte, logo depois do pequeno-almoço, as crianças saíram para o jardim com o pai, enquanto Clara subia ao quarto deles.
Aí chegada deteve-se por momentos memorizando a decoração atual Ela não gostava de ver as camas encostadas à parede, uma oposta à outra, com todo o quarto vazio pelo meio. Dava-lhe uma sensação de isolamento, quando o que se devia desejar, era uma relação de proximidade, entre eles. Também não lhe agradava a posição das mesas secretárias.
Depois de um momento de hesitação, levou as secretárias para a parede de janelas que dava para o terraço. Afinal era a zona com mais luz. A melhor, para estudar, desenhar, ler. Na parede à direita, onde estava a cama rosa, havia duas portas. Uma da casa de banho, a outra comunicava com o seu quarto. Na parede da esquerda, havia apenas a porta de comunicação com o quarto de Ricardo. E na parede que dava para o corredor, a porta de entrada no quarto, situada quase na ponta do lado esquerdo.
Os dois roupeiros, iguais não eram muito grandes, e foram arrastados para essa parede. Ali, lado a lado, pareciam apenas um.  As duas camas ficaram na parede da esquerda, onde anteriormente só estivera a azul, mas apenas com a cabeceira encostada à parede. De seguida foi ao seu quarto e arrastou o cadeirão que tinha junto à janela para o quarto das crianças colocando-o encostado à parede entre as duas cabeceiras de camas. Por fim uma mesa-de-cabeceira, de cada lado das mesmas.
Recuou um pouco e olhou o quarto. Tinha perdido um pouco de espaço no centro, mas em compensação estava muito mais aconchegante, não só para as crianças, mais perto uma da outra, como para que cuidava delas. Não precisava sentar-se na cama de cada um, quer fosse para contar uma história, ou para lhes velar o sono se estivessem doentes.
Estava cansada. É certo que poderia ter pedido ajuda a Ricardo, ao irmão, ou até mesmo à empregada. Mas ela preferia fazer as coisas sozinha. Se não gostasse do resultado, desmanchava e experimentava outra opção. As outras pessoas nem sempre têm paciência para essas coisas.
Olhou o relógio. Já passava das onze. Tinha que ir tomar banho e mudar de roupa, antes da hora do almoço.
Enquanto tomava banho pensava que gostaria de ver a reação das crianças quando entrassem no quarto.
Fechou o duche, secou o cabelo. Juntou-o como se fora fazer um rabo-de-cavalo, mas em vez disso torceu-o e prendeu-o num gracioso coque. O mês de Agosto aproximava-se do fim, com dias de altas temperaturas. Vestiu uns calções de sarja azul e um top branco sem mangas.
Acabara de se vestir quando ouviu a algazarra  que as crianças faziam no quarto e desejando ver as suas reações abriu a porta de comunicação. Bernardo estava sentado no cadeirão, balançando as curtas pernitas nuas. Soraia andava de um lado para o outro rindo e batendo as palmas. A alegria deles chegou-lhe ao coração.
- Vamos, para o duche que está quase na hora de almoço, - disse entrando no quarto.
Os miúdos entraram na casa de banho, despiram os roupões e os fatos de banho, deixando-os no chão para se enfiarem na cabine do duche.
- A partir de hoje, sempre que dispam a roupa suja, colocam-na neste recipiente. As roupas espalhadas pelo chão dão à casa, um aspeto de gente desleixada e pouco limpa. E vocês não querem que pensem isso de vós, pois não?
- O que é aspeto - perguntou Bernardo.
- E o que é desleixado- quis saber a irmã.
- Então, aspeto é a aparência. É aquilo que as pessoas vêm quando olham. E desleixada, é uma pessoa que não tem cuidados consigo ou com a sua habitação. Tanto lhe dá que esteja limpo como sujo.
Acabara de lhes dar banho, enrolou uma toalha à volta de cada um, e disse:
-Vamos lá escolher a roupa que cada um vai vestir.


E não se esqueçam. 




17.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVIII


Horas depois, Miguel continuava sem conseguir dormir. Perguntava-se até onde o levaria uma promessa feita num momento de compaixão. Não se preocupava com os gastos. Não era rico, mas tinha o suficiente para não se preocupar com isso. Porém, nunca na sua vida, se tinha deparado com uma situação semelhante. E era muito desgastante. A ida ao médico não contribuíra em nada para melhor as suas expectativas. Bem pelo contrário. E se a família da jovem a encontrasse, e o acusasse de ser o causador do seu estado? Como podia defender-se? E se ela era menor? E se… e se… e se… Acabou por adormecer de cansaço, no meio de tanta cogitação. 
Acordou com alguém batendo à porta. Já era dia. Olhou o relógio.
Oito menos dez. Abriu a porta, e deparou-se com Adélia, a mulher que costumava fazer-lhe a limpeza da casa.
- Bom dia menino!
-Bom dia Adélia. Desculpe, esqueci que era quarta-feira, -disse afastando-se para deixar passar a mulher. Ela entrou. Se viu o sofá aberto, e as almofadas em cima da mesa, decerto que viu, mas nenhum comentário saiu da sua boca. Dirigiu-se à cozinha e Miguel foi atrás.
-Adélia, peço-lhe que não faça muito barulho. E não tente ir  ao quarto por enquanto. Está lá uma jovem dormindo.
A mulher, sorriu. Tinha mais de sessenta anos. Conhecera, Miguel era ainda rapariguita, quando sua mãe trabalhava lá em casa, e Miguel bebé de colo, ia com os pais, visitar a avó, já viúva. Às vezes, os pais deixavam o bebé lá em casa com a avó, por algumas horas, e Adélia adorava brincar com ele. Mesmo depois da trágica morte dos pais, num estúpido acidente, Miguel continuou a aparecer de vez em quando para dar um abraço à avó. Depois que esta morreu, a casa levou muito tempo desabitada. Um dia Miguel apareceu por lá, mandou fazer algumas obras à casa, que estava quase em ruínas, e desde aí vinha todos os anos, sempre no final do verão. Desde a primeira vez, que a contratara. Ia duas vezes por semana quando ele estava e uma vez por mês durante o resto do ano. Tinha por ele um amor quase maternal, e  uma fidelidade canina.
- Quero pedir-lhe outro favor. Não comente com ninguém a presença da jovem. Ela está doente, não tem ninguém, e eu tento ajudá-la. Não queria que fizesse maus juízos.
- Por quem é, Menino. Até parece que não me conhece, -disse ela um tanto agastada com a recomendação.- Quer que lhe faça o desjejum, ou come mais tarde?
- Não tenho fome. Como mais tarde. Vou tomar um duche.
- Então, se não se importa, eu vou levantar o sofá e vou para casa. Volto mais tarde. De qualquer modo pouco posso fazer com a menina a dormir.
-Faça com entender, Adélia.







5.7.18

O DIREITO À VERDADE - XVI





Helena levantou-se cedo na manhã seguinte. Sentia-se bem melhor mais repousada, e quase sem dores. Tomou banho, prendeu a sua farta cabeleira num rabo-de-cavalo, vestiu umas calças de ganga, um top branco, calçou uns ténis e desceu ao restaurante, onde tomou o pequeno-almoço, saindo de seguida disposta a ver o máximo possível da cidade até às onze horas. Depois regressaria ao hotel com tempo para se refrescar, mudar de roupa e esperar por Cláudio para o almoço.
Verificou pelo mapa, que a Igreja de Santa Cruz que pensava visitar na véspera ficava longe do hotel. Resolveu dar um passeio pelo parque que tinha na frente do hotel, e ir até à margem do Mondego. Pelo caminho deparou-se com o Museu da Água e aproveitou para o visitar.
Tirou umas fotografias no parque e ao rio e voltou para o hotel, onde chegou às onze horas e vinte minutos. Subiu ao quarto, trocou as calças de ganga e o top por um macacão de alças, estampado em tons de rosa e azul, que acentuava a sua silhueta e a fazia parecer mais alta. Completou o conjunto com uns sapatos de salto e um colar de várias voltas. Queria estar bem bonita, já que tinha decidido que era a primeira e a última vez que iria sair com Cláudio. No dia seguinte logo pela manhã, apanharia a camioneta para Viseu, e nunca mais o veria. No seu íntimo, sentia-se triste. Tinha vinte e três anos, e as únicas companhias masculinas com quem lidara, além do tio e do falecido primo, foram os seus colegas da Universidade, jovens como ela, ainda em formação e à procura de um rumo na vida. Cláudio era diferente. Era um homem feito, seguro de si. E com uns olhos capazes de derreterem até um icebergue. Um homem ao lado de quem, qualquer mulher se sentiria segura. Qualquer mulher menos ela. Tinha que se concentrar na missão que se propusera. Conhecer o seu pai, saber que tipo de homem era, talvez até contar-lhe quem ela era. Não era uma tarefa fácil. Afinal de contas só sabia o seu nome e que tinha uma quinta nos arredores de Viseu. Quantas quintas haveria nesses arredores? Olhou o relógio. Onze e cinquenta e cinco, Pegou na mala, deitou uma olhadela rápida ao espelho, e saiu do quanto, em direção à receção. Se Cláudio fosse pontual deveria estar a chegar. Saiu do elevador, e ele veio ao seu encontro sorrindo.
- Boa tarde, vejo que encontrei uma raridade. Uma mulher pontual, - disse estendendo-lhe a mão.
Ela olhou o relógio. Meio-dia em ponto. Sorriu.
- O Cláudio também foi pontual.
- Os homens são sempre pontuais. As senhoras é que se atrasam. Vamos?
Começaram a andar lado a lado. Ela perguntou:
-Como está a sua mãe?
-Muito bem. Deve ter alta amanhã.
- Que bom, - disse sincera. Sabia o que estava a sofrer com a partida da mãe. Não desejava o mesmo para ele.
Entraram no carro, que ele pôs em movimento, enquanto perguntava.
-Conhece a Quinta das lágrimas?
-Só de nome. É a primeira vez que estou em Coimbra.
Vamos almoçar ao restaurante Arcadas, no Hotel Quinta das Lágrimas. É um local muito bonito. Tenho a certeza de que vai gostar.







Então é assim. Já fui ao médico já tenho os tratamentos marcados, inicio segunda feira. 
E agradeço a todos a atenção e carinho que têm tido comigo.
 Bem Hajam