3.5.18

RENASCER - XXVI





- Já vou, mãe.
A mãe olhou-o de sobrolho franzido
- Mas não devias. Que vais lá fazer filho? Fazer sofrer a rapariga?
- Prometi ao pai dela que ia almoçar com eles, hoje. Vão-se embora depois de amanhã. E talvez seja bom que tenha uma conversa franca com a Emília. Para que não restem mal-entendidos que a impeçam de poder seguir a sua vida.
- Então vai. E que Deus te acompanhe.
-Até logo, mãe.
Saiu. Junto do café encontrou alguns amigos, que se entretinham com amigos uma discussão sobre futebol. Cumprimentou-os e seguiu o seu caminho. Já ia longe o tempo em que ele gostava de se embrenhar em longas discussões sobre o tema. Depois que um homem quase morre e volta à vida, esta parece-lhe uma coisa muito valiosa para ser desperdiçada com discussões futebolísticas. Agora o que o preocupa é conseguir de novo a sua identidade, um emprego e cumprir a sua promessa. Depois quem sabe, talvez possa estudar à noite, tirar um curso que lhes permita melhorar a vida.
- Bom dia senhor Joaquim, - saudou
- Bom dia, rapaz, - respondeu o dono da casa. Queres sentar-te um pouco enquanto acabo de partir estas nozes. São para levar, na França não as pudemos comprar, são muito caras, - disse ele apontando o banco corrido onde se encontrava sentado frente à mesa, no quintal.
Um pouco acanhado o jovem sentou-se e ficou em silêncio vendo-o partir os restantes frutos.
- Gosta de viver em França, - perguntou sem saber de que outro assunto podia falar.
- Gostavas de estar na guerra? Decerto que não. De certo modo a emigração também é uma guerra. Vamos porque a vida nos obriga a isso, fazemos o melhor que sabemos, porque precisamos disso para construir um futuro melhor, mas quando à noite, deitamos a cabeça no travesseiro, a saudade aperta, e o sono tarda. Porém sabemos que não há outra saída, se queremos deixar para os nossos filhos uma vida melhor do que aquela que recebemos dos nossos pais. Pensas que a vida por lá é boa? Que vivemos como os franceses? Trabalhamos muito, ganhamos bem, mas se fizéssemos a mesma vida que eles fazem, o dinheiro mal chegaria para viver. Se queremos juntar algum que nos permita cumprir os nossos sonhos, temos que nos sujeitar a muitos sacrifícios. Estás a pensar emigrar?
- Não, foi só curiosidade.
- Não tens necessidade disso. Os teus pais, têm uma boa quinta, a vinha rende bem e decerto ficarás à frente dela quando saíres da tropa.
- Talvez não. Fui ferido com gravidade, e o trabalho no campo é pesado.
- Lá isso é. Acabei,- disse despejando a malga com o miolo das nozes num saco de pano feito de retalhos coloridos. - Anda, vamos entrar, o almoço deve estar quase pronto.



Não Kique a foto não foi tirada do Miradouro da Ponte 25 de Abril, onde eu nunca pus os pés.

15 comentários:

Pedro Coimbra disse...

Este conto é um retrato do Portugal antes de Abril de 74.
Abraço

Roaquim Rosa disse...

bom dia
vamos esperar pelo desenrolar deste almoço .
quem sabe surjam aqui novidades .
Em relação á foto , não vou sequer dar palpites pois é um tiro no escuro.
JAFR

Isa Sá disse...

A passar por cá para acompanhar a história!

Isabel Sá
Brilhos da Moda

Tintinaine disse...

Guerra e emigração, duas experiências por que também passei. Tirando a parte de morrer, de que tive a sorte de escapar, venha o diabo e escolha.
A Meteorologia prometeu-me um dia bonito para hoje, mas não cumpriu.
Bom dia para si, Elvira!

Os olhares da Gracinha! disse...

E assim vai-se integrando na sociedade!bj

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Continuo a acompanhar com interesse.
Um abraço e continuação de boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Jaime Portela disse...

A emigração era uma fuga para a frente, da guerra e da pobreza...
Cada vez gosto mais da sua narrativa. Parabéns.
Continuação de boa semana, amiga Elvira.
Beijo.

✿ chica disse...

Bom papo de amigos que se reencontram...Vamos esperando! bjs, chica

Cidália Ferreira disse...

O almoço tem tudo para correr bem.. Vamos a ver como corre! :)

Beijinhos

Gil António disse...

Acompanhando a estória.

* Antes de amar-te ... dormi sob as trevas do relento *
.
Deixando um abraço

© Piedade Araújo Sol disse...

Seguindo e gostando do desenrolar do conto.
beijinhos
:)

noname disse...

Este conto, bem pode ser visto como: Depois do 25 de Abril. Na verdade, não mudou assim tanto, salvo dar-se mais valor ao que parece ser, mais do que ao que realmente se é. A emigração continua, e os sacrifícios também :-(

Cantinho da Gaiata disse...

Vou ficar curiosa com o desenrolar deste almoço, vem lá história...
Beijo e bom fim de semana.

Lucia Silva disse...

Acompanhando encantada com a qualidade literária da história.
Beijos!

Ailime disse...

Boa tarde Elvira,
Gostei deste diálogo e da analogia entre emigração e guerra.
Sofrimento existe em ambas.
Beijinhos,
Ailime

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