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17.7.24

O CONVITE

 




                                                  O CONVITE


Dezembro avançava frio, alternando por entre dias de chuva e nevoeiro. Estávamos a poucos dias do Natal e o sol que tanto amamos, andava arredio há duas semanas. Terminei o dia de trabalho, encerrei o computador, vesti o casaco e saí. Apesar do tempo frio, havia muita gente nas ruas, cujas montras muito iluminadas, mostravam os mais diversos artigos alusivos à época.

Morando perto do escritório onde trabalhava, em menos de dez minutos estava em casa.

 Despi e pendurei o casaco no bengaleiro, descalcei os sapatos de salto, que me faziam as pernas, mais esbeltas e bonitas, enquanto me atormentavam os pés com dores. Estendi-me no sofá tentando relaxar, mas logo a campainha tocou.

Descalça, aproximei-me da porta e espreitei pelo óculo.  Espantei-me ao ver o Pedro. Não era para menos, pois o julgava ainda em Londres. Abri a porta e ele entrou carregando uma mala que pousou no chão a seu lado e então abraçou-me com força e estalou dois ruidosos beijos no meu rosto.

 Não estranhei, éramos amigos desde criança, ambos filhos únicos, encontrámos um no outro os irmãos que nunca tivemos.  Sentámo-nos no sofá e então ele disse:

-Desculpa, ter aparecido assim de repente, mas a nossa amizade deu-me a confiança necessária para fazê-lo.

Segurou-me as mãos, os olhos brilhantes de felicidade e então contou-me como conheceu a Isabel, a sua fantástica história de amor, terminando com o convite para sua madrinha de casamento.

 

 

9.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE VII

 


Fora difícil terminar o curso grávida e longe da casa paterna, pois Quim terminara o curso no ano anterior, não tinha mais família do que o tio e padrinho, advogado em lisboa, que lhe pagara o curso e lhe oferecera trabalho no seu escritório, com possibilidades de chegar a sócio mais tarde. Por isso, contra a vontade dos seus pais, partiram para a capital logo após o casamento. E o facto de terem que viver com os tios do marido durante os primeiros tempos, também não era o seu sonho, mas ainda assim nunca se arrependera.

O marido compensava em amor, as saudades que ela tinha dos pais e irmão.

E também porque não dizê-lo os tios de Quim tentaram com todo o carinho apoiá-los naqueles tempos difíceis. E até mesmo após o nascimento de Sara eles foram para a bebé uns verdadeiros avós.

Quando a bebé fez dois anos resolveram pô-la na creche e ela conseguira ser professora num colégio particular e começaram então a pensar comprar uma casa ali perto, tinham algumas economias e Quim tinha uma boa carteira de clientes. Foi nessa altura que ao regressar do tribunal, Quim entrou no escritório do tio para lhe dar a notícia de mais um caso resolvido com sucesso e o encontrou de cabeça em cima da secretária.

 Inicialmente pensou que o tio se teria deixado dormir e já se retirava, quando alguma coisa lhe fez voltar atrás para o acordar. Embora o corpo ainda estivesse quente o tio já estava morto conforme constatara o pessoal médico da ambulância que Quim chamara. O advogado Jorge Simões sofrera um ataque súbito de paragem cardiorrespiratória consoante o resultado da autópsia relatava.

Deu uma volta na cama e olhou o relógio. Seis horas e quarenta e cinco minutos. Travou o despertador e com cuidado para não acordar o filho, levantou-se e dirigiu-se à casa de banho a fim de se despachar com a higiene matinal antes de ir acordar as meninas.

Depois de um duche rápido, vestiu-se e foi chamar a filha e sobrinha, seguindo depois para a cozinha a fim de preparar os pequenos almoços e os lanches para elas levarem.

Às sete e trinta e cinco, as duas garotas já tinham comido os cereais, lavado os dentes, preparado as mochilas, encontrando-se prontas para saírem, quando ouviram o som de um carro chegando.

- É o tio Fernando, temos que ir, -disse Sara dirigindo-se à mãe para lhe dar um beijo sendo imitada pela prima.

Laura acompanhou-as à porta fazendo as recomendações habituais. Fernando que tinha saído do automóvel, aproximou-se e disse:

-Convidas-me para o pequeno almoço? Não tenho clientes de manhã e não gosto de comer sozinho. Vou levá-las e volto, pode ser? – perguntou com uma expressão gaiata.

A jovem não soube como negar, apenas assentiu com um movimento de cabeça.

Fernando agradeceu sorrindo e voltou para o carro onde as jovens já aguardavam ansiosas.


15.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XVII



Isabel, tivera um dia complicado no escritório. O telefonema de Hélder, no fim da manhã, contribuíra para uma desconcentração na parte da tarde, que a obrigara a um esforço extra para fazer alguma coisa de útil. Felizmente que no dia seguinte era sábado, podia descansar um pouco. Cansada, tomou um relaxante banho, espalhou sobre o corpo um creme hidratante, enfiou uma curta camisa de dormir, o robe de seda, e sem ânimo para fazer jantar, pensou em fazer um chá e duas tostas.

 Acabara de pôr a chaleira ao lume com a água para o chá, quando a campainha tocou. Espreitou pelo ralo, e ficou sem cor ao reconhecer o escritor. Olhou para si mesma, para a roupa inapropriada para receber visitas, que vestia, mas acalmou-se ao pensar que ele não podia vê-la. Mas seria mesmo ele? porque iria ele procurá-la, se nunca o fez em dez anos? E além disso ele nem sabia onde ela morava. Devia estar enganada. Nesse momento a campainha voltou a tocar de forma impaciente. Voltou a espreitar. Não havia dúvida. Era ele. Abriu a porta, quando ele se aprestava para tocar pela terceira vez.

- O que estás aqui a fazer? Como soubeste onde morava?
- Se me convidares a entrar, posso responder a isso e a muito mais.
- Mas estás sozinho? E o Rex?
Ele sorriu. Sem se dar conta, perguntando pelo cão guia, ela tinha-se denunciado.

- Já não preciso dele, - disse tirando os óculos e deixando-a mirar-se nos belos olhos escuros. Mas vamos ficar a conversar aqui ao pé da porta? Não me deixas entrar?
- Sim, claro, desculpa. Vem para a sala. Senta-te. Vou só apagar o lume, ia fazer um chá.

Regressou logo a seguir. Ele estava de pé, com uma foto dos dois na mão. Tinha sido tirada pouco antes de se separarem dez anos antes, e a lembrança do que tinha acontecido na época tingiu de carmim, as faces da jovem.

- Senta-te. Suponho que convenceste a minha avó a dar-te a minha morada, - disse sentando-se no sofá em frente dele. Só não entendo para quê? Dez anos é muito tempo, para ainda te lembrares de mim.
- Dez anos Isabel? Pensas mesmo que não te reconheci? Que não sei que eras tu que estiveste a meu lado estes dois meses?

Ela perdeu a cor. Balbuciou.
- Como o soubeste? E desde quando?
- Senti-o no primeiro momento na praia, quando me saudaste. Não quis acreditar, pensei que estava a ficar maluco, e por isso não te respondi. Depois, procuraste-me para te ofereceres como secretária, e fiquei meio convencido que realmente eras tu, mas a certeza, só a tive quando leste para mim. Lembrava-me bem quantas vezes, tínhamos lido um para o outro há dez anos. Quando falaste do teu amigo, senti vontade de te abraçar e te dizer que não podias esconder-te. Estavas dentro de mim, achar-te-ia sempre, mas depois pensei que devias ter uma razão para te esconderes, quem sabe tinhas um namorado, noivo, sei lá. 

Dez anos, é muito tempo, não sabia nada de ti, podias até ter casado. Esperei que fosses tu a falar. Além disso que podia eu oferecer-te, na situação em que me encontrava?  Mas logo depois, começou a acontecer algo, com que eu já não sonhava. Começava a distinguir formas e movimentos. Então assim que acabámos o livro,  fiz a mala e parti para Barcelona, pois tinha sido lá que tinha tentado todos os tratamentos para recuperar a visão, quando tive alta depois do acidente.    



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22.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE VII


Três dias depois, no início da tarde, o telemóvel tocou. Não conhecia o número. Com mão tremente atendeu.
- Estou!
- Isabel Antunes?
-Sim
- Hélder Figueiredo. Está disponível para vir a minha casa, agora?
- Sim, claro. Vou já para aí.

Virou-se para a avó.
- Chamou-me. Não te esqueças que não deves dizer a ninguém, que estou cá.
 -Isto não está certo, filha. As pessoas conhecem-te. Vens para cá todos os anos. 
- Não te preocupes. Desde que não o digas ao casal que vive com ele, não estou a ver ninguém que lho vá dizer.

Pouco depois estava no escritório.
- Boa-tarde, senhor.
- Boa-tarde, Isabel. Se ainda está interessada no emprego, ele é seu. Pode começar amanhã às nove? O meu advogado deve trazer ainda hoje o contrato. Ou talvez amanhã de manhã. Tenho uma boa parte do meu próximo livro, gravado e espero que o consiga redigir rapidamente.
- Darei o meu melhor, senhor.
- Por favor, esqueça o senhor. Trate-me por Hélder.
- Se desejar, poderei começar agora mesmo a redigir, o livro. Não tenho nada para fazer de momento e posso adiantar já. É só dar-me o gravador.

Ele parecia surpreso.
-O gravador está na gaveta da direita.
- Redijo só para documento, ou deseja que imprima também?
- Preciso de uma cópia impressa, além da cópia em documento que deve ficar no computador e guarde outra cópia do documento numa pen drive
- Muito bem

Ela dirigiu-se ao computador que abriu, verificou a impressora, pôs-lhe papel, retirou o gravador e ligou-o. Começou a escrever, aquilo que ouvia. Segundos depois ouviu a porta bater e reparou que estava sozinha no escritório.

Trabalhou sem descanso durante duas horas, e depois deu-se um pequeno descanso. Continuava sem saber o pseudónimo dele, mas o que tinha ouvido era muito interessante, e o estilo lembrava-lhe o do seu escritor favorito, Tomás Reis.

Tomás Reis, o escritor mistério cujos livros eram  “best-seller” mas que ninguém conhecia. Seria Hélder o misterioso autor? Seria pelo facto de ter cegado que não se deixava conhecer? E que acontecera para ter perdido a visão?
 
Teria sido um acidente? Doença? Como ela desejaria saber. Porém de uma coisa tinha a certeza. Se queria manter-se junto dele, não podia fazer perguntas. Teria que ganhar a sua confiança para que as confidências pudessem chegar.
Retomou o trabalho, e ainda teclava quando às sete horas ele regressou ao escritório.

20.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE VI

 


Isabel abriu o portão e disse ao homem que estava no jardim, que ia por causa da vaga de secretária. Ele pediu-lhe para esperar, e entrou em casa. Voltou pouco depois e levou-a ao escritório. Ela ia olhando para a casa. Estava bonita, mais moderna, mas mais impessoal. Tão diferente daquilo que ela se recordava.

O homem abriu a porta, deu-lhe passagem e fechou-a atrás dela. Na sua frente, Hélder encontrava-se recostado num cadeirão, com o cão a seu lado. Tinha vestido umas calças cinzentas, e um polo azul-escuro.

Mentalmente fez as contas. Se ela tinha vinte e seis anos, ele tinha trinta e seis. Parecia mais velho. Tinha já alguns fios de cabelo branco. O rosto moreno, continuava bonito, apesar dos óculos escuros, que escondiam os outrora brilhantes, olhos castanhos.

- Bom-dia, - saudou. - Venho por causa da vaga de secretária.
- Bom-dia. A agência não me informou de que tinham mandado alguém.
- Bom, é que não vim mandada pela agência.
- Como assim?
- É que ouvi um comentário no talho, em que diziam que estava à procura de uma secretária. Eu estou a trabalhar num escritório de advocacia na cidade, mas como moro aqui se conseguisse empregar-me cá, era muito melhor para mim. Assim resolvi tentar a minha sorte.

- E diz que trabalha num escritório de advocacia? Naturalmente vai dar-me o nome e número de telefone para que possa confirmar e tomar referências.
- Claro, sem problema.
- Bom, se decidir dar-lhe o lugar, quero que saiba que não quero mexericos, não quero saber que a minha vida ande na praça pública. Também poderá, uma ou outra vez, sair mais tarde. De qualquer modo será sempre compensada monetariamente cada vez que o seu dia, vá para além do  horário normal.

- Não tenho por hábito falar da vida de ninguém,- retorquiu ela
- Já nos conhecemos? Parece-me que reconheço a sua voz, - disse franzindo a testa, como a procurar recordar-se.
 - Passei por si, ontem na praia e saudei-o. Deve ser daí – apressou-se a dizer Isabel.
- Talvez, – não parecia muito convencido. - Como disse que se chamava?
- Não disse. Chamo-me Isabel Antunes.

Era o apelido de sua mãe, antes do casamento. Tinha a certeza que apesar de não poder mudar o nome, ele não associaria aquele apelido a ela. Se é que ele se lembraria dela.
- Bom, deixe-me os seus dados, e o número de contacto. Terá notícias em breve.
Ela já estava preparada para isso. Retirou a folha da mala e estendeu-lha. Ele rodou o braço na procura do papel e encontrou-o.

- Bom dia, senhor, - disse ela voltando-se e encaminhando-se para a porta. Abriu-a e saiu. Mal chegou ao jardim ligou para o escritório e falou com a telefonista da empresa, dizendo-lhe que era provável que lhe ligassem para pedir referências sobre ela. Devia dar as melhores, como secretária, e de maneira nenhuma dizer que era advogada. Só então se dirigiu à casa da avó.
“A sorte está lançada. Vamos ver onde me levará” – murmurou.

13.1.21

SONHO AO LUAR -- PARTE III



Agora, Isabel tem vinte e seis anos, é advogada, trabalha num escritório de advocacia, e encontra-se de férias, que mais uma vez decidiu passar na casa da avó, que ela adora e com quem está a pensar, passar mais tempo. Na verdade, anda a estudar a hipótese de montar o seu próprio escritório de advocacia, na aldeia.
 
 A terra , tinha evoluído muito nos últimos anos, devido à proximidade da praia e da serra, o que a tornava única para o turismo. Ela nunca fora muito apegada aos pais. A mãe era professora,  e o pai médico, não dispunham de muito tempo para a filha, a quem não faltava nada material, mas faltava o carinho e atenção que uma jovem sensível como ela, necessitava. 

Por isso estava sempre a sonhar com as férias em casa da avó, e talvez por isso se tivesse apaixonado como uma tonta por Hélder Figueiredo.

A avó recebeu-a com o carinho de sempre. Disse que estivera à sua espera para jantar, mas como se fizera tarde e precisava tomar a medicação a horas certas, já jantara. Mas o seu prato estava no forno.

A jovem levou a mala para o seu quarto, lavou o rosto e voltou para a cozinha. Sentou-se à mesa. Enquanto comia ia conversando com a avó. A certa altura disse:

- Não sabia que o teu vizinho estava cá. Vi-o na praia.
- Sozinho? – Admirou-se a avó
- Sim. Estava sentado perto das dunas com um cão.
- Deve ser um cão guia, - disse a avó
- Um cão guia? - espantou-se a jovem. - Para que quer ele um cão guia?
- Ora filha, para que é que um cego, há de quer um cão guia?

Deixou cair o garfo, o rosto sem cor.

-Cego? O Hélder, está cego? Desde quando?
- Não sei. Sabes há quantos anos não o via? Dez anos. Há dez anos que ele não vinha para cá, que não sabia nada dele, quando de repente há três meses, chegou uma carrinha cheia de homens e começaram a remodelar a casa toda. E depois na semana passada, ele chegou com o cão e um casal idoso e instalaram-se. Ainda não falei com ele, mas encontrei-me no talho, com a mulher que vive lá em casa, e conversamos. Disse-me que é a cozinheira, o marido é motorista, e percebe um pouco de jardinagem e o patrão é escritor e está cego.

-Muito amigas se fizeram para que te contasse tudo isso.
-Sabes como é, nestas terras pequenas. Depois eu confessei-lhe que o conhecia desde menino. E sabes que mais? Disse-me que veio para escrever um novo livro e que anda à procura duma secretária para lhe ajudar.


13.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LVIII







Nessa mesmo dia, depois do almoço, que pela primeira vez desde que se mudara para aquela casa, Teresa fez mais cedo, para comer à mesa com João, ele lembrou a promessa que ela fizera de tomar uma decisão após os três meses.

- Muito bem, - disse ela – promessas são para se cumprir. Se tiveres um tempo livre, podemos fazê-lo em seguida, na sala.

- Mas não te queres deitar agora, para descansares um pouco?

- Não. Há seis semanas que praticamente não saio da cama. Estou cansada do descanso, - disse sorrindo.  Vou só ao quarto para tomar as vitaminas, e avisar a Sandra de que pode ir almoçar, uma vez que ela não quis vir almoçar connosco. Espera-me na sala.

Ele ficou ali, a vê-la afastar-se pelo corredor, o olhar perdido na saia rodada de flores miudinhas, dançando à volta das esbeltas pernas da jovem.

Pouco depois as duas estavam de volta, e enquanto Sandra se dirigia à cozinha, Teresa encaminhou-se para ele que lhe deu o braço e disse:

-Vamos para o escritório. Tens lá o mesmo conforto e temos maior privacidade. Sandra, – disse dirigindo-se à enfermeira - pode usar a sala depois do almoço, se quiser ver TV ou ler. Não precisa estar metida no quarto, uma vez que a Teresa lá não está.

Já no escritório-biblioteca, depois da jovem se ter acomodado no sofá, ele puxou um cadeirão e sentou-se frente a ela.

Por momentos ficaram os dois calados, como se nenhum deles soubesse como começar uma conversa, que punha em jogo a vida de cinco pessoas. Então Teresa começou:

-Há uns meses atrás, eu tinha um sonho. Queria muito ser mãe, mas por tudo o que já te contei, e não vou repetir, decidi ser mãe solteira. Tinha e tenho uma boa situação financeira, uma habitação que embora não se possa comparar com esta casa é um bom apartamento como viste, e está situada numa excelente zona. 

Tenho uma casa e um terreno numa aldeia no Norte, perto do rio e a menos de um quilómetro de umas termas bastante frequentadas. Cheguei a pensar vender a pastelaria, e a casa e construir nesse terreno, uma pensão rural. Nas termas existem bons hotéis, mas há muitos locais perto, que são cada vez mais procurados pelo turismo e não há nada de turismo rural nem lá nem nas localidades mais próximas. 

Claro que eu não estava a pensar conhecer o pai do meu filho, nem dividir com ele a sua educação e muito menos, que em vez de um bebé, viessem três e, portanto, sinceramente não sei como dar volta a esta situação. E tu, que pensas?

- Durante estas seis semanas conversámos muito, contei-te coisas que nunca me atrevera a contar a ninguém de modo que me conheces suficientemente bem para que não te escandalize o que vou dizer. Quando entraste no meu escritório e me disseste que trazias no ventre o meu filho, imediatamente pensei que iria propor-te casamento.

 Acredito que a educação de uma criança não fica completa, vivendo apenas com um dos progenitores. Por razões que bem conheces, não acreditava no amor, não confiava nas mulheres, e pensei que quando chegasse a hora te proporia o casamento como se de um negócio se tratasse. Era bom para o bebé viver com os dois, e a relação de amizade de que falavas não me convencia, pois, amigos não vivem juntos, e eu não aceitaria ver o meu filho, apenas quando tu estivesses disposta a permiti-lo.

 Por outro lado, imaginava que em qualquer altura, podias arranjar  um companheiro, ou muito simplesmente mudares de ideia e desaparecer com a criança e  eu não queria o meu filho a ser criado por outro homem, muito menos ver-me envolvido numa longa batalha judicial pela guarda da criança.


Amigos, estive ontem e vou estar hoje a descansar os olhos. 

Espero que no sábado, já esteja suficientemente bem para 

voltar ao vosso convívio.

6.11.20

CILADAS DA VIDA -- PARTE LV

 


Faltavam dez minutos para o meio dia, quando David telefonou. Depois de combinarem o restaurante e a hora, vestiu o casaco apertou o nó da gravata e saiu. Ao passar pela secretária de Olga disse:

-Vou almoçar com o David e não volto de tarde. Se puderes, depois de almoço, dá um saltinho lá acima ver a Teresa.

- Vai descansado. A Teresa está bem acompanhada. A Sandra é uma excelente profissional e gosta da muito dela.

-Eu sei. A Teresa também gosta dela. Aliás, disse-me que são as três,  muito carinhosas e simpáticas. Bom, até amanhã.

- Até amanhã. Bom almoço.

- Obrigado

O restaurante onde o irmão, tinha reservado mesa, em Belém foi uma agradável surpresa. O “Caseiro” não era muito grande e nada luxuoso, era mais um restaurante típico para turistas, mas David afirmou, que almoçava lá muitas vezes, por ficar perto do seu escritório e que a comida e atendimento eram muito bons. Só tinha um defeito, estava sempre cheio, e não se proporcionava ambiente para conversas como a que os dois iriam ter. Mas isso não era problema, já que depois do almoço podiam ir para o seu escritório e aí sim, podiam conversar sem interrupções, já avisara Irene a sua a sua assistente, de que  nessa tarde, não estaria para ninguém.

E João teve oportunidade de ver que o irmão tinha razão. O “polvo à lagareiro” pedido por ele estava bem confecionado e muito saboroso e o vinho tinto da casa, leve e frutado foi um ótimo acompanhamento. David escolheu dourada grelhada com legumes que também tinha um ótimo aspeto. A sobremesa e o café foram igualmente bons e o atendimento uma simpatia.

Após o almoço, David disse:

-Não sei onde deixaste  o carro, mas se estiver bem estacionado, talvez não valha a pena ires busca-lo, o meu escritório fica a menos de duzentos metros, é só atravessar a rua, e entrar na rua transversal, mas como ela só tem um sentido, para ires para lá, de carro, tens que dar uma grande volta e entrares por cima.

-Então vamos. Caminhar um pouco, para quem como eu, leva metade da vida sentado, só faz bem.

 O escritório de David não era muito grande, uma entrada ampla, a um canto da qual havia um balcão disposto em quadrado, dentro do qual, uma secretária, um computador, um telefone e uma cadeira giratória. Sob o balcão várias prateleiras, onde se viam algumas pastas de arquivos. No resto da sala dois sofás de couro, colocados de modo a apanhar duas paredes formando um angulo reto. Na parece em frente duas portas e entre elas um painel retratando um pedaço de floresta cortada por um rio.  Uma das portas dava para o gabinete de David, a outra para a casa de banho. David acabara de abrir a porta do seu gabinete, quando a porta de entrada se abriu, e entrou uma mulher alta, morena, de cabelo escuro. Não era muito jovem, usava óculos, e vestia um saia-casaco cinzento e uma camisa branca. João pensou que ela andaria mais ou menos pela idade de Olga.

-Boas tardes, - saudou

-Boa tarde, -responderam os dois homens. Depois David disse:

- Dona Irene, tal como lhe disse esta manhã, não me passe nenhuma chamada e se houver pedidos de consulta marque dia e hora consoante a disponibilidade da agenda. Para todos os efeitos eu estou no tribunal.

E então, entraram no gabinete dele.

23.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLIX



Dez minutos depois, João tinha as duas no seu escritório.

Explicou a situação que estava vivendo e terminou dizendo:

O que eu pretendo é que a Teresa não seja internada. Para isso preciso que a Sandra nos acompanhe ao hospital, fale com a médica e lhe diga que a Teresa vai ter o melhor acompanhamento pois terá sempre a seu lado uma enfermeira para cuidar dela. Leve a sua carteira profissional. Se isso evitar que ela fique internada, a Sandra deixará o serviço no posto médico e passará a cuidar exclusivamente dela. E tu Olga telefonas para a agência com quem costumamos trabalhar pois precisamos contratar mais duas profissionais de enfermagem. Uma para ficar lá em baixo no lugar da Sandra, outra para ficar aqui durante a noite. Não quero que a Teresa fique desacompanhada em nenhum momento.

 - Mas… e o meu trabalho quando a dona Teresa já não precisar de mim? – perguntou Sandra.

- Não se preocupe o seu lugar está garantido no posto médico. A nova enfermeira será avisada de que estará a fazer uma substituição durante um ano.

-E se a Teresa tem mesmo que ser internada? – perguntou Olga.

- Ainda que assim seja, não estará no hospital mais do que uma semana ou duas, até que recupere peso. Voltará para casa e precisará na mesma de quem cuide dela até que os bebés nasçam. E até depois disso, pois cuidar de três crianças ao mesmo tempo, não é tarefa para uma mulher só. Agora a Sandra vem comigo, vou-lhe apresentar a Teresa. Ela quer tomar banho, mas não a deixe fazê-lo sozinha, pode sentir tonturas ou até desmaiar pois segundo a médica disse está muito fraca. E tu Olga vem também. Gostaria que ela pudesse contar com a tua amizade.  Não tem família, e deve sentir-se muito assustada com tudo o que lhe está a acontecer. Além disso, depois enquanto a Sandra cuida da Teresa, precisamos falar. Outra coisa, não quero ouvir ou saber de mexericos na empresa sobre esta situação. Todos os contratos têm uma clausula de confidencialidade, e sinto-me livre para despedir qualquer um que a quebre.

Falava como se a advertência fosse para as duas, mas ambas sabiam que se dirigiam apenas à enfermeira.

Mais tarde depois das apresentações, e de terem conversado um pouco com Teresa ele disse:

- A enfermeira Sandra fica contigo e vai-te ajudar com tudo o que necessitares. Eu tenho que ir lá abaixo ao escritório, tenho uns assuntos a resolver, estarei de volta pelas dez e meia. Estejam preparadas quando voltar para irmos ao hospital. Vamos Olga?

Os dois saíram em silêncio e só quando chegaram ao andar de baixo, junto da secretária de Olga, João disse:

- Vem comigo. Não precisas trazer o bloco, quero apenas conversar.

Já no gabinete, João contou-lhe todas as emoções que sofrera em menos de vinte e quatro horas. Falou-lhe de David, do que ele lhe dissera, do registo de nascimento que lhe trouxera, diferente do seu e da carta que a mãe lhe escrevera e que ainda não tivera coragem de ler. Falou-lhe da emoção que sentiu ao saber que tinha um irmão, e ao descobrir pelas fotos que ela guardara, que afinal a mãe não se desfizera dele como se fosse um traste. Tinha a certeza de que na carta, ela lhe explicaria as suas razões, mas ainda não a lera, pois quando pensava fazê-lo recebera o telefonema da Teresa e depois que soubera que era uma gravidez múltipla e do perigo em que se encontrava, tudo o resto passara para segundo plano.

- Tenho medo que ela não consiga levar a gravidez até ao fim. Está tão magra, parece tão frágil…

-Mas deseja essas crianças com todo o seu coração e fará tudo por elas. Não temas, vai correr tudo bem.  Vou cancelar os teus compromissos para estes dois dias, e assim com o fim de semana, ficarás com quatro dias livres para digerires todas essas emoções. Achas bem?

-Faz isso. E trata do assunto das enfermeiras. É urgente. E que estejam disponíveis para começar hoje mesmo. Agora tenho que ir. São quase dez e meia.

 

21.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXII




Cumprimentou as empregadas, e os poucos clientes que havia aquela hora, e dirigiu-se à cozinha, onde se encontravam Hugo o padeiro, Mário o pasteleiro, e os três ajudantes Maria, Acácio e Alfredo. Depois de os cumprimentar, perguntou:
-Como correram as coisas por aqui durante a minha ausência?
- Se exceptuarmos o maior movimento no sábado por termos fornecido os doces e o bolo de casamento para a Quinta do Marquês, nos outros dias o movimento foi o habitual nesta altura do ano - respondeu Mário.
- Bom, quero dizer-vos que durante uns tempos vou ficar afastada. Daqui a pouco chegará a pessoa que ficará a gerir o negócio. Trata-se da Inês, a minha amiga, que todos conheceis, até por ser filha aqui do Mário. Quero que todos vós, a tratem com o mesmo respeito com que sempre lidaram comigo. Confio em vós, para que esta casa, que de certa maneira também é vossa, já que é o vosso local de trabalho, continue a ser o que tem sido até hoje. Um local de referência para quem a procura. Do seu sucesso, depende o meu e vosso ordenado.
- Vai para fora? – perguntou o padeiro.
- De momento não.
- E vais ter coragem, de não apareceres por aqui, morando a meia dúzia de metros? - perguntou Mário.
- A menos que por qualquer razão me chamem, terei sim. Com a Inês na gerência, a minha presença aqui, pareceria um ato de vigilância, como se não tivesse confiança no seu trabalho. Bom vou para o escritório.
Pouco depois, recolhia e metia num saco, os poucos objectos pessoais, que tinha na secretária. Depois abriu a carta da eletricidade, registou no livro das despesas a importância e arquivou a fatura.
Ligou o computador e verificou o email da empresa, enquanto pensava na decisão que tomara. Ia sentir saudade do movimento na pastelaria. Das conversas com os clientes, de ajudar a estender ou a rechear as massas, do cheiro do pão acabado de sair do forno, que se misturava com o aroma da canela, ou da baunilha, ou o cheiro forte do café. Porém estava convencida que tomara a melhor atitude. Pelo menos durante a gravidez. Apoiou os cotovelos na secretária, e apoiou a cabeça entre as duas mãos abertas, precisamente quando Inês entrava no pequeno gabinete, que servia de escritório.
- Bom dia! Não te sentes bem?
- Bom dia! Estou bem não te preocupes. Estava apenas a pensar, nas saudades que ia sentir do movimento na pastelaria. Foi a minha vida durante vários anos.
- Mas não tens que sentir saudades, moras a meia dúzia de metros, podes estar aqui sempre que te apeteça.
- Eu sei, mas prefiro não vir. Bom senta-te e vamos conversar. Ontem não falámos de ordenados, não sei quais são as tuas expectativas quanto a isso.
- Não as tenho. Tu dirás o que pensas que mereço em relação ao trabalho que irei executar, sem esquecer a minha prática inexistente.
Teresa referiu uma quantia e perguntou:
-Parece-te bem?


12.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVIII



- Mas também não pudemos disputar a criança como se ela fosse um objeto.
- E tu - disse ele tuteando-a pela primeira vez - deves ter já tomado uma decisão para me vires procurar. Posso saber qual a tua ideia?
- Deixa-me em paz durante os próximos três meses, - ela respondeu usando a mesma forma de tratamento. Esquece a ideia de processar o Centro Clínico, de pores o caso em praça pública e pensa na melhor solução para resolvermos o caso, pondo sempre em primeiro lugar o bem-estar da criança. Prometo-te que farei o mesmo. Depois disso, reunir-nos-emos e tomaremos uma decisão.
- Estás em vantagem, falaram-te de mim, disseram-te quem sou. Eu não sei quem ou como és. Quem me diz que durante estes três meses, não desapareces e nunca mais sei nada de ti, nem do bebé?
- Isso é uma tontice e tu não me pareces nada tonto. Em primeiro lugar se tencionasse fazer o que dizes, tê-lo-ia feito, imediatamente após saber o que se passava, e quando descobrisses a minha identidade, eu poderia estar em qualquer parte do mundo. Como já te disse, embora os meus recursos financeiros não se assemelhem aos teus, tenho o suficiente para viver razoavelmente bem em qualquer lugar,  até precisar voltar ao trabalho. E em vez disso, o que fiz foi vir ter contigo, procurar um entendimento. Em segundo lugar, não sou tão ingénua, que não saiba que mal ponha os pés para fora deste escritório, porás alguém a investigar-me e a vigiar-me, para que te informe, tão logo faça, o que pensas que vou fazer. Podia evitar-te o trabalho e dar-te todas essas informações, mas sei que não acreditarias em mim e farias as tuas próprias investigações na mesma.
Mirou-a de tal modo que Teresa sentiu um arrepio. Era como se quisesse mergulhar dentro dela, chegar ao seu coração, quiçá à sua alma. Ela ainda não o conhecia. Não sabia quão difícil era enganar aquele homem, mas não precisava nenhuma bola de cristal, para ver que era um tipo duro, dono de uma vontade férrea, alguém que ela não gostaria de ter como inimigo.
-Põe-me à prova – disse-lhe com voz rouca. - Fala-me de ti, diz-me quem és, e o porquê de teres recorrido à Procriação Medicamente Assistida. És uma mulher jovem, inteligente e bonita. Porque não te casaste e engravidaste de modo natural?
- Como sabes, que não me casei?
- Estaríamos aqui, a ter esta conversa, se fosses casada? - retorquiu 
Teresa pensou que ele tinha razão. Se fosse casada não teria recorrido àquele processo para engravidar. Resolveu arriscar.
- Nasci de mãe solteira, numa pequena aldeia, no vale de Lafões, perto das Termas de S. Pedro do Sul, onde vivi até terminar o Secundário. Depois vim para Lisboa, viver com uma tia-avó, para poder frequentar a Universidade. 
No último ano do curso, tive que abandonar os estudos e voltar à aldeia, para cuidar da minha mãe, gravemente doente. Depois da sua morte, regressei a Lisboa, para casa dessa minha tia.  A intenção era terminar o curso, mas estávamos a meio do ano letivo e enquanto esperava pelo fim desse ano e início do próximo, empreguei-me numa pastelaria e apaixonei-me pela vida de empresária de tal modo que quando o dono decidiu vender o negócio, com a ajuda da minha tia, que não tinha outros parentes que não eu, comprei-o. Sou a dona da pastelaria e padaria “Flor da Avenida”, na Avenida Estados Unidos da América.  Recorri ao PMA, porque desde menina sempre sonhei ser mãe e não estava interessada em nenhuma relação. O que realmente não esperava é que a vida me armasse esta cilada. Satisfeito?





E hoje a minha Princesa mais nova faz 1 ano






7.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVI







Olga bateu levemente à porta do escritório e entrou de seguida.
- O porteiro acaba de informar que está a subir a Teresa Sobral para a entrevista das dezasseis horas. Não está na minha agenda, esqueceste de me avisar? – perguntou.
- Como assim? Não marquei nenhuma entrevista para esta tarde, - disse João olhando-a com estranheza. - Para falar verdade, nunca ouvi tal nome. Será alguma cliente?
- Não sei, mas já deve estar lá fora. O que faço?
- Atende-a, pergunta-lhe qual o assunto e se for uma cliente encaminha-a para a secção de vendas. O Afonso também não telefonou hoje?
- Não. Sabes que ele só aparecerá quando conseguir uma informação válida. Bom vou ver o que quer a visita.
Olga saiu fechando a porta atrás de si e dirigiu-se para a sua secretária. A mulher que se encontrava de costas junto da janela, voltou-se e aproximou-se.
- Boa tarde! Venho falar como senhor João Teixeira.
- Boa tarde. Diz-me o seu nome por favor? – perguntou Olga pegando na sua agenda.
- Teresa Sobral. Mas não perca tempo a procurar, não está aí. Por favor, pode informar o seu chefe de que preciso muito de falar com ele?
- Não, sem saber qual o assunto. O doutor João é um homem muito ocupado, ainda há minutos me informou de que não devia interrompê-lo, e que devia passar a informação de que ele não estava.
-É uma pena, porque vou entrar na mesma, - disse encaminhando-se resolutamente para a porta, surpreendendo Olga que levou alguns segundos a reagir, o bastante para que Teresa abrisse a porta e se introduzisse no gabinete, perante o olhar atónito do homem que se encontrava sentado à secretária.
- Desculpa, surpreendeu-me e entrou sem autorização, - disse Olga da porta. - Chamo os seguranças?
- Não. Já que a senhora se deu a tanto trabalho para falar comigo, tenho curiosidade em saber o que a trouxe aqui. Volta para o teu lugar. Se for caso disso, eu mesmo chamo os seguranças.
A secretária saiu e por momentos reinou o silêncio no escritório. Depois João disse:
- Por favor, sente-se e diga-me ao que vem. Se é cliente deveria ter-se dirigido à secção de vendas e se pretende um emprego às Relações Públicas.
Ela sentou-se. Entre os dois a enorme secretária em madeira de mogno, e o silêncio.  Nervosa, Teresa remexia as mãos no colo sem saber como dizer ao que vinha. Pela primeira vez desde que saíra de casa, pensou que talvez se tivesse precipitado e estivesse a fazer asneira, mas já não havia como voltar atrás.
- Então, senhora, estou à espera.
Ela respirou fundo e disse:
-Eu também estou à espera, e se tudo correr bem vou esperar por nove meses…
João levantou-se de um salto, deu a volta à secretária e aproximou-se dela.
-Quem é você? E o que quis dizer com isso?
- Eu, sou a mulher que o senhor procura. Fui informada pelo meu médico do erro que o Centro Clínico cometeu ao fazer o procedimento, que me deixou grávida. Aquela que recebeu a doação de um material genético que não tinha sido doado. Também fui informada de que o senhor queria saber quem tinha sido a recetora, e que ameaçava o Centro com os tribunais e a imprensa. Sei que é poderoso e que o pode fazer, todavia vim informá-lo de que não tenho qualquer culpa do que aconteceu, a criança que trago no ventre é meu filho, e não estou disposta a perdê-lo porque o senhor decidiu armar um arraial, que me deixou de rastos e me fez abortar.
As palavras saíam-lhe aos borbotões, como água que brota da rocha.


3.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIV




Terminado o almoço, Gustavo e Teresa passaram ao escritório, onde a jovem pôs o advogado ao corrente de tudo o que lhe foi dito no Centro Clínico onde fizera a Inseminação terminando com as perguntas:
- Ele é mesmo tão poderoso como os médicos me fizeram crer? E se processar o Centro, eles vão revelar o meu nome?
- João Teixeira é um empresário muito importante. E é um homem duro que se fez a si próprio. Começou com a criação de um jogo que se tornou num enorme sucesso, não apenas em Portugal, mas a nível Mundial. Depois desse, outros vieram. Fundou a “TecnInformática”, e rodeou-se de excelentes colaboradores. E em pouco mais de uma década, transformou uma pequena empresa, na maior firma do ramo, na Península. A sua especialidade são os jogos de computador, mas os seus engenheiros produzem software, e hardware, fabricam computadores e telemóveis. E os seus produtos estão ao nível dos melhores do mundo. Isto diz-te quão poderoso ele é.
 Se afirmou que vai processar a Clínica, acredito que o faça. A  lei tem em relação à PMA, ainda muitas falhas, embora já tenha  sofrido quatro alterações, desde que foi promulgada em 2006,  os legisladores vão fazendo alterações à medida que vão surgindo novos problemas para resolver, embora sempre garantindo o anonimato  da identidade de dador e recetora. O problema que se apresenta no teu caso é que ele não é dador. Fez uma reserva para uso exclusivo, que foi utilizada em proveito de outrem. Tem todo o direito de processar o Centro Clínico, mas mesmo em tribunal, o Centro não poderá revelar a tua identidade, já que isso vai contra a lei. Todavia se esse processo chega a tribunal, também chega ao conhecimento da imprensa, que vai começar a esmiuçar e sabes como é, há sempre alguém que se deixa comprar...
- Meu Deus, mas isso vai por a minha vida na praça pública.
- Lamento, mais isso é mais que certo. Gostaria de te dizer para não te preocupares, mas tenho que te ser sincero.
- Outra coisa Gustavo, supõe que isso acontece, os tribunais levam tanto tempo para resolverem os casos, entretanto o bebé nasceu. E uma vez que ele tinha feito a reserva para seu uso exclusivo, o tribunal pode decidir que a criança não é meu filho?
- De modo algum. Isso só seria possível se por esterilidade tivesses recorrido a doação simultânea de material genético dos dois sexos, ovócitos e espermatozóides com fecundação in vitro. Aí, a criança teria o ADN dele e de uma desconhecida, e a lei consideraria o caso como uma gestação  de substituição; aquilo que o povo costuma chamar de barriga de aluguer, e a criança assim gerada, não seria considerada tua. Até porque a gestação de substituição no nosso país ainda só é permitida em casos muito especiais.
 Mas esse não é o teu caso, um exame de ADN pode provar que és a mãe da criança e em princípio os tribunais dão sempre prioridade às mães desde que elas tenham meios financeiros, para criarem a criança, e uma conduta irrepreensível.
-Sei, mas se esse homem é tão poderoso como dizes, pode muito bem comprar testemunhos falsos, que me apresentem perante um juiz como uma pessoa sem integridade moral?  
- Pode tentá-lo, apesar de hoje em dia, já não ser tão fácil assim, uma boa defesa pode apresentar provas em contrário, e desacreditar os falsos testemunhos. O problema é que ele sofreu uma doença grave que o deixou estéril, e esse filho é a única hipótese desse homem vir a experimentar as emoções da paternidade, e dar continuidade ao seu nome. Qualquer juiz vai ter isso em conta, especialmente se o juiz nomeado for homem; quase de certeza vai decretar uma guarda partilhada. E depois pensa nisto, o teu filho será o único herdeiro de tudo o que o homem tem.
-Sabes que isso não me interessa, tenho mais do que suficiente para lhe dar um bom futuro. O que me preocupa, é aquilo que alguns tablóides, que estão sempre à procura de escândalos podem fazer da minha vida.  Tanta gente no mundo que recorre à Procriação Medicamente Assistida,  sem problemas tinha que me acontecer uma coisa destas a mim. Sabes alguma coisa dele, como pessoa?
- Muito pouco. Além da parte profissional, apenas aquilo que a imprensa publica. Que é solteiro, e pouco dado a aparecer em eventos. Lamento Teresa, gostaria de te dizer que não te preocupasses, mas não posso de modo algum escamotear a verdade. E ela é de facto preocupante.  Como já te disse. a própria lei, ainda tem nestes casos muitas falhas. Como todas as situações novas, a que o progresso ou a ciência dão origem, as leis vão sendo criadas e vão sofrendo alterações à medida que os casos se apresentam, e  que eu saiba, um caso destes nunca aconteceu antes.
- De qualquer modo, obrigado. Foi bom falar contigo, fiquei elucidada e posso agir a partir daqui.
-E o que pensas fazer? Vais voltar para a aldeia?
-Talvez. Antes de decidir se vou ou fico, tenho de pensar no que me disseste e talvez tomar alguma providência. Agora vou-me embora, preciso pensar com calma. 

8.6.20

ISABEL - PARTE XIX






Tanto o cabeleireiro, como o edifício dos correios, e o seu apartamento,   ficavam no mesmo quarteirão, e por isso Isabel não tinha levado carro. Recordou a conversa recente no escritório. 
Era Sexta-feira,  e ela sabia que este era o dia, que normalmente os jovens escolhem para sair à noite. Isabel, raramente saía à noite.
Não lhe apetecia ver os casalinhos a divertirem-se. Não que sentisse inveja deles. O que sentia era pena dela, e esse era um sentimento de que não gostava. Sabia que era uma mulher bonita. Estava habituada a ver a admiração nos olhares masculinos. Mas aproximava-se dos quarenta e começava a pesar-lhe a solidão. Onde estava a vida com que sonhara na juventude? Onde os filhos que tanto desejara? Todas as suas amigas da faculdade tinham casado, tinham filhos. Algumas até se tinham divorciado e voltado a casar.  Só ela continuava sozinha, presa às suas dolorosas recordações. Bom, para ser sincera consigo mesma, a verdade é que desde aquele dia na praia, as recordações, já não eram tão dolorosas assim. Quem seria, e que estranho poder tinha aquele homem que lhe roubara o sossego, com um olhar e pouco mais? Seria como ela um solitário? Onde viveria? Será   que algum dia voltaria a encontrá-lo?
Absorta virou a esquina e esbarrou em alguém, deixando cair os envelopes. Murmurou uma desculpa e baixou-se para os apanhar. O homem fez o mesmo e ao fazê-lo as suas mãos tocaram-se. Ergueu-se rapidamente e nesse momento ouviu a voz rouca, que ultimamente povoava as suas noites de insónia.
- Você? Vejo que continua muito distraída.
 Os olhos cinzentos do homem fixaram-na com tal intensidade, que ela teve a nítida sensação de que ele lia nela, como num livro aberto. Corou. O homem franziu as sobrancelhas e semicerrou os olhos.
- Desculpe - disse ela voltando-lhe as costas, e tentando afastar-se rapidamente do local.
- Espere! - A sua mão forte agarrou o braço de Isabel, obrigando-a a parar. - Não acha que nos devíamos apresentar? Afinal de contas para quem anda por aí a esbarrar um no outro, não podemos continuar desconhecidos. Chamo-me Luís. Luís Teixeira.
Estendia-lhe a mão. Morena, forte e cuidada. Isabel não teve outro remédio que fazer o mesmo. A voz saiu-lhe quase inaudível.
- Isabel Mendes
- Hum! Isabel! Nome de rainha, - disse ele apertando-lhe a mão.
Foi um aperto caloroso que  a fez tremer da cabeça aos pés como se fosse  atingida por uma descarga eléctrica. Inutilmente tentava acalmar-se. Tinha a sensação de que o homem ouvia as loucas palpitações do seu coração. E ali continuava ele na sua frente a olhá-la fixamente como se quisesse ler, alguma coisa nos seus olhos, felizmente protegidos pelos óculos escuros.
Bruscamente Isabel desprendeu-se e quase correu para o edifício dos correios.
Pouco depois, tendo sido já atendida, Isabel dirigiu-se aos expositores de livros, e, fingindo escolher um, lá permaneceu por quase meia hora, e quem sabe não teria ficado mais tempo se entretanto não chegasse a hora do encerramento. Tinha medo de voltar a encontrar aquele homem. Não se reconhecia. Ela que enfrentara com coragem a morte do marido daquela forma brutal. Que lutara pelos seus sonhos mesmo quando não dormia para cuidar dos pais. Que era feito daquela mulher forte, a quem a vida madrasta não assustava? Quem era aquela mulher que tremia feito criança assustada na presença de um quase desconhecido?