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6.11.20

CILADAS DA VIDA -- PARTE LV

 


Faltavam dez minutos para o meio dia, quando David telefonou. Depois de combinarem o restaurante e a hora, vestiu o casaco apertou o nó da gravata e saiu. Ao passar pela secretária de Olga disse:

-Vou almoçar com o David e não volto de tarde. Se puderes, depois de almoço, dá um saltinho lá acima ver a Teresa.

- Vai descansado. A Teresa está bem acompanhada. A Sandra é uma excelente profissional e gosta da muito dela.

-Eu sei. A Teresa também gosta dela. Aliás, disse-me que são as três,  muito carinhosas e simpáticas. Bom, até amanhã.

- Até amanhã. Bom almoço.

- Obrigado

O restaurante onde o irmão, tinha reservado mesa, em Belém foi uma agradável surpresa. O “Caseiro” não era muito grande e nada luxuoso, era mais um restaurante típico para turistas, mas David afirmou, que almoçava lá muitas vezes, por ficar perto do seu escritório e que a comida e atendimento eram muito bons. Só tinha um defeito, estava sempre cheio, e não se proporcionava ambiente para conversas como a que os dois iriam ter. Mas isso não era problema, já que depois do almoço podiam ir para o seu escritório e aí sim, podiam conversar sem interrupções, já avisara Irene a sua a sua assistente, de que  nessa tarde, não estaria para ninguém.

E João teve oportunidade de ver que o irmão tinha razão. O “polvo à lagareiro” pedido por ele estava bem confecionado e muito saboroso e o vinho tinto da casa, leve e frutado foi um ótimo acompanhamento. David escolheu dourada grelhada com legumes que também tinha um ótimo aspeto. A sobremesa e o café foram igualmente bons e o atendimento uma simpatia.

Após o almoço, David disse:

-Não sei onde deixaste  o carro, mas se estiver bem estacionado, talvez não valha a pena ires busca-lo, o meu escritório fica a menos de duzentos metros, é só atravessar a rua, e entrar na rua transversal, mas como ela só tem um sentido, para ires para lá, de carro, tens que dar uma grande volta e entrares por cima.

-Então vamos. Caminhar um pouco, para quem como eu, leva metade da vida sentado, só faz bem.

 O escritório de David não era muito grande, uma entrada ampla, a um canto da qual havia um balcão disposto em quadrado, dentro do qual, uma secretária, um computador, um telefone e uma cadeira giratória. Sob o balcão várias prateleiras, onde se viam algumas pastas de arquivos. No resto da sala dois sofás de couro, colocados de modo a apanhar duas paredes formando um angulo reto. Na parece em frente duas portas e entre elas um painel retratando um pedaço de floresta cortada por um rio.  Uma das portas dava para o gabinete de David, a outra para a casa de banho. David acabara de abrir a porta do seu gabinete, quando a porta de entrada se abriu, e entrou uma mulher alta, morena, de cabelo escuro. Não era muito jovem, usava óculos, e vestia um saia-casaco cinzento e uma camisa branca. João pensou que ela andaria mais ou menos pela idade de Olga.

-Boas tardes, - saudou

-Boa tarde, -responderam os dois homens. Depois David disse:

- Dona Irene, tal como lhe disse esta manhã, não me passe nenhuma chamada e se houver pedidos de consulta marque dia e hora consoante a disponibilidade da agenda. Para todos os efeitos eu estou no tribunal.

E então, entraram no gabinete dele.

5.6.20

ISABEL - PARTE XVIII






Isabel concentrou-se no computador e Amélia não pôde deixar de a admirar. A mulher frágil e carente de momentos atrás tinha desaparecido e no seu lugar estava agora a profissional competente que sempre fora. Fez os telefonemas e depois disse:
- A Dulce diz que vai mandar por correio electrónico o vídeo da campanha. Se aprovares entrega o DVD para o cliente de tarde. As reuniões estão marcadas e o Paulo diz que passa por cá esta tarde. Diz que o substituto já chegou. Perguntou-lhe se queria vir com ele ver o filme e ele disse que não. Se o Paulo aprovou, estava aprovado. Ele só se interessará por campanhas futuras que ele próprio encomende. Que te parece? Deve ser um pedante daqueles que julga que trás um rei na barriga.
Perante as caretas de enjoo da amiga, Isabel não pode deixar de rir.
Passaram-se vários dias, em que Isabel trabalhou com afã, não só porque conseguira dois novos clientes e precisava idealizar as campanhas para eles, como também porque pretendia a todo o custo esquecer os factos recentes,  os anseios e desejos que povoavam agora o seu coração. Habitualmente o mês de Agosto era sempre um mês de bastante trabalho. Em Setembro começavam os novos programas de TV e sempre havia clientes que desejavam renovar os seus anúncios nessa data.
A verdade é que a maioria tratava disso bem mais cedo, e nessa altura as campanhas estavam aprovadas e gravadas. Porém sempre havia alguém que se decidia à última hora. E depois queriam sempre o trabalho para ontem. Era um sufoco. Chegava a casa estoirada, e sem vontade para nada.
E a semana passou, e chegou a tarde de Sexta- feira. Por volta das quatro horas, Isabel guardou todas as suas coisas, encerrou o computador e disse:
- Amélia vou sair. Tenho hora marcada no cabeleireiro. Preciso fazer um corte, que não aguento mais este cabelo,  com o calor que faz. Levo a correspondência e passo pelo correio. Como já não volto, até Segunda.
- Telefono-te à noite - retorquiu Amélia. O Afonso e eu estamos a pensar ir a um bar novo no Bairro Alto. Vem connosco.
- Não vale a pena. Não penso sair.
- Anima-te. Dizem que é um sítio muito acolhedor. Não é verdade, Luísa?
- Eu gostei muito. Fui lá na semana passada, com o meu namorado e alguns amigos.
Ela não contestou. Agarrou nas cartas que Amélia lhe estendia, colocou sobre o ombro esquerdo a alça da mala e depois de ter posto os óculos escuros saiu. Já na rua olhou o relógio indecisa.
 Estava quase na hora marcada. Se fosse primeiro ao correio decerto chegaria ao cabeleireiro atrasada. Decidiu ir primeiro ao salão.
Foi recebida com extrema simpatia. Era cliente antiga. Uma empregada lavou-lhe a cabeça e depois João, o cabeleireiro, veio fazer o corte. Isabel nunca se preocupava muito. Confiava plenamente em João e ele sempre decidia o corte em função da moda actual, mas também do tipo de rosto de Isabel. Naquele dia não foi diferente, e quando uma hora depois João lhe colocou o espelho, ela achou que estava bem melhor. Até parecia mais nova. As mulheres precisam de mudar a imagem de vez em quando, para levantarem a auto estima. Isabel saiu do cabeleireiro, sentindo-se bem mais bonita. Olhou o relógio. Faltava meia hora para  o  encerramento dos correios. 

30.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XIII





-Mas, que pode ter trazido aqui, o todo-poderoso António Ferreira, que não a sua maldita vingança?
- Continuas muito nervosa, e isso não se coaduna com uma profissional do teu gabarito. Se me conhecesses um pouco, saberias que nunca viria até aqui, para saborear uma vingança da qual não fazes parte.
- Como não, se fizeste semelhante oferta ao meu pai?
-Se por um momento sequer, imaginasse que eras capaz de aceitar, nunca teria feito essa oferta. Não me interessaria por semelhante mulher.
Encarou-o incrédula.
-Meu Deus! O homem é louco!
Ele distendeu os lábios num sorriso que não chegou aos olhos.
-Talvez o seja, mas deixa-me continuar. Não sei se sabes, mas não costumo frequentar festas. Tenho vivido apenas para o trabalho e penso que está na hora de desfrutar um pouco mais das coisas boas da vida. Minha irmã celebra no fim do mês dez anos de casamento. Quando ela casou, a minha vida não era tão abastada como hoje, e apesar de ter ajudado como pude para que tivesse um dia bonito, não foi possível fazer grande coisa. Agora pretendo oferecer-lhe a festa que não teve na altura. Uma coisa para ela recordar a vida inteira. Por isso vim. Para contratar a melhor produtora de eventos do país.
-Estás a  dizer-me, que vieste aqui contratar os meus serviços para realizar a festa das bodas de estanho da tua irmã?
- Qual é a admiração? Estou habituado a contratar sempre os melhores serviços do mercado.
-Sinceramente espanta-me que me julgasses capaz de trabalhar para ti, depois de arruinares a minha família.
- Nem mesmo se eu te prometer desistir de me vingar do teu pai?
- Como assim se já o arruinaste? Se como disseste tens a hipoteca da firma e ele não tem com resgatá-la?
-Imagina que cumpro a promessa que fiz a teu pai, não em troca de casares comigo, como lhe fiz crer, mas de que realizes essa festa?
- Farias isso?
- Podes crer. Proporcionas um dia de sonho à minha irmã, e eu salvo o teu pai.
- Deves amar muito a tua irmã! Mas…como posso ter certeza de que farás o que dizes?
- Não terás. Ou confias em mim e arriscas, ou não confias, - disse mergulhando o olhar, no mar revolto do olhar feminino.
Incapaz de sustentar muito tempo o olhar masculino, ela pegou num bloco e numa caneta e perguntou:
- Como queres que seja essa festa? Para quantos convidados? Com ou sem renovação de votos? O casamento foi civil ou religioso?
- Obrigado por teres aceitado. Com renovação de votos e o casamento foi religioso. Amanhã mando-te por "email" a lista dos convidados, e o nome do restaurante que fornecerá o "catering", que claro será um dos meus. O resto deixo com a tua imaginação e tenho a certeza que será uma festa muito bonita.



7.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE VII





Três dias depois, João tinha acabado de atender a última doente daquela semana, pois no seu consultório só dava consultas às terças e quintas, e era precisamente quinta-feira, quando a sua assistente entrou no gabinete para lhe dizer que estavam duas senhoras na sala que queriam, porque queriam uma consulta para esse dia.
- Tentei marcar a consulta pela agenda, mas a senhora mais nova disse que era urgente e que é sua esposa.
Odete estava ali? Teve vontade de se levantar para a ir receber. Porém não fez um movimento. Com o ar mais indiferente que conseguiu arranjar, disse:
-À sim, ela tinha-me avisado que vinha e eu acabei esquecendo de lhe dizer. Mande-as entrar, e pode sair, mas não esqueça de fechar a porta da rua.
- Muito bem doutor. Bom fim-de-semana, para o senhor.
Ela saiu e João continuou a fazer anotações na ficha que tinha na frente, tentando aquietar o coração. Ia ver de novo a sua mulher depois de mais de três anos de silêncio absoluto da parte dela.
Uns segundos depois, uma leve batida na porta e esta abriu-se para dar passagem à sua mulher e à mãe. O seu olhar percorreu-a da cabeça aos pés. Estava mais bonita, mais madura, mas tinha um ar sério e triste que lhe tocou o coração.
- Boa noite João.
- Que surpresa Odete. Podias ter telefonado antes de vires, e não passavas pelo constrangimento de teres que dar explicações, à minha assistente.
- Se eu telefonasse atendias-nos?
- Porque não havia de atender? Acima de tudo sou um profissional. Que se passa? Estás doente?
-Não. É a minha mãe. Tem passado mal, tem dores no peito, dificuldade em respirar, cansa-se com facilidade. A médica de família, mandou fazer um Ecocardiograma e um registo de Holter e aconselhou a consulta com um cardiologista. Mas a consulta no hospital está demorada, e eu sei que és um dos melhores cardiologistas do país. Por isso aqui estamos.
Com o maior profissionalismo perguntou:
- Trouxeram os exames?
Ela tirou-os da mala e estendeu-lhos. Ele examinou-os, fez algumas anotações numa nova ficha e disse:
- Preciso examiná-la. Por favor senta-a na marquesa e ajuda-a a despir-se da cintura para cima. 
Durante algum tempo, ele concentrou-se na auscultação da sogra. 
Terminada a auscultação disse:
-Por favor deite-se aqui. Vamos fazer um ecocardiograma, preciso ver com exatidão o que há com o seu coração.




Aviso a quem me acompanha. No próximo dia 8 por ser o Dia Internacional da Mulher, a história será outra. Esta continuará no dia 9.

2.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XIV





Ele aproximou-se e colocou as mãos sobre os seus ombros. Um violento tremor, apoderou-se do corpo dela, como se tivesse sido vítima de um choque elétrico. Ele sentiu-o, como sentiu a reação do seu próprio corpo. Levantou-lhe o queixo, e os olhos quase negros mergulharam nos dela. Daniela sentiu que ele a ia beijar, e mentalmente amaldiçoou-se, por não sentir forças para o repelir. Teve vontade de cerrar os olhos, para esperar o inevitável, mas aguentou firme o olhar intenso, dele.
Durante um longo minuto, que lhe pareceram horas, mantiveram-se assim. Depois subitamente largou-a, meteu as mãos nos bolsos, das calças e saiu.
Ela deixou-se cair na cadeira mais próxima, consciente de que não tinha forças nas pernas para se manter de pé.
Passou a mão tremente pela testa. Tinha consciência de que desejara que ele a beijasse. Mais, desejara até muito mais que um beijo. E era apenas a segunda vez que se viam. A culpa era da abstinência, a que se sujeitara desde que se divorciara três anos atrás. Raios, porque havia o irmão de tê-la metido em tal situação?
Não podia ter arranjado um sócio medíocre e insignificante? Tinha que ser logo a reincarnação do próprio Apolo? Como é que podiam continuar uma relação profissional dali para a frente?
O som do telemóvel afastou-a dos seus pensamentos. Era Sandra a sua melhor amiga. Tentando recompor-se atendeu.
- Dani? Não esqueceste o nosso jantar  hoje, pois não?
- Não, claro que não. Vou já sair. Encontramo-nos no restaurante às oito?
-Foi o que combinamos. A Teresa telefonou a avisar que não pode vir. A filha está com febre. De resto, excetuando o Luís, que está em Londres, estão todos.
-Até logo então. Preciso de ir.
-Até logo.
Saiu quase a correr. Tinha esquecido o jantar de convívio que os antigos  colegas da faculdade tinham organizado para aquela noite. E faltavam menos de duas horas. Conduziu tão rápido quanto o trânsito lhe permitiu até casa. Tomou um duche, escolheu um vestido preto, subido à frente, com uma espécie de gola em pedraria, que dispensava o uso de qualquer joia, mas que lhe deixava as costas completamente nuas, acentuou o verde dos seus olhos com uma ligeira maquilhagem e deixou livres e soltos os belos cabelos castanho escuros.
Olhou-se ao espelho e sorriu para a imagem que ele lhe devolvia.
Não se parecia nem um pouco com a empresária de horas atrás.
Era uma mulher muito bonita, na plenitude da vida, e embora tivesse decidido que nunca mais confiaria em homem algum, isso não era motivo para não gostar de se arranjar.
Dez minutos antes das oito, estacionava no parque do restaurante e encontrava-se com alguns dos colegas que já aí esperavam pelos restantes.
Foram abraços e beijos distribuídos com alegria entre os que estavam, e os que iam chegando, num ambiente de sã camaradagem.