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24.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE X



Teresa chegou a casa pouco passava das três, da tarde. Poisou a pequena mala em cima da cama e levantou a persiana, passando depois às outras divisões e fez o mesmo, exceto na sala onde naquele momento o sol incidia com toda a sua luz e calor. Voltou ao quarto, esvaziou a mala e guardou-a em cima do roupeiro. Depois pegou na roupa suja, levou-a para a cozinha, meteu-a na máquina, adicionou o detergente, escolheu o programa e ligou-a. Passou a mão pela testa transpirada e suspirou. Precisava com urgência de um duche, estava demasiado calor.
Pensou que o melhor era tomar banho e depois descansar um pouco sobre a cama. Quem sabe fazer uma pequena sesta. Com a ansiedade, quase não dormira na noite anterior e depois o calor e a viagem tinham acabado com a sua resistência. Mais tarde, iria ao supermercado e como era domingo, dia de encerramento da pastelaria, talvez desse um salto a casa de Inês, para matar saudades de Martim, o pequeno filho da amiga, seu afilhado.
Pousou o telemóvel na mesa de cabeceira e foi para a casa de banho onde tomou um duche refrescante. Enquanto se dedicava a secar os longos cabelos, pensou que talvez fosse uma boa ideia procurar um salão de cabeleireiro e dar-lhe um bom corte. Afinal de contas, para quê manter um cabelo que lhe chegava à cintura se na pastelaria andava sempre com ele preso dentro da touca, e em casa o prendia numa trança ou num coque no alto da cabeça? Com essa ideia na cabeça foi até ao quarto e entendeu-se sobre a colcha.
Pouco depois, o cansaço, o calor, ou as duas coisas, venceram-na e adormeceu.
Acordou duas horas mais tarde. Vestiu-se foi à dispensa buscar um saco para as compras, retirou da porta do frigorífico a lista de faltas, pegou na carteira e nas chaves e saiu.
No supermercado, perdeu quase uma hora na secção de bebé, vendo e tocando nas roupinhas, sem no entanto, se atrever a comprar nada, pois tinha bem presente aquilo que na aldeia se dizia. “Dá azar começar a fazer compras antes dos três meses de gravidez”. Mas não resistiu a comprar uma moto de plástico azul para o afilhado. O menino tinha treze meses começara a andar há um mês, talvez já se equilibrasse na moto. Se não os pais guardavam-na por mais uns meses.
Contente, com a imaginada alegria do menino, pôs a caixa com  o brinquedo, no carrinho das compras e suspirando foi enfim comprar as coisas que segundo a lista lhe faziam falta.
Mais tarde, em casa de Inês, e depois de ter colocado o afilhado em cima da moto, segurando-o, pois, os pezitos ainda não chegavam aos pedais, e na tentativa de lhe chegar, o bebé não se equilibrava, Gustavo pegou no filho ao colo e disse:
- Vou mudar a fralda do Martim. Enquanto isso porque não ofereces um café à Teresa?
Mal virou costas, Inês pegou no braço da amiga e “arrastou-a” para a cozinha.
- Então como te sentes?
- Bem. Se não fossem os resultados dos testes diria que estou na mesma.
-E quando vais ao médico?
-Tenho consulta marcada para amanhã. Provavelmente vai fazer-me outros exames.
- Tens noção que a tua vida vai mudar muito, não tens? Não vais poder levantar-te às quatro da manhã, para estares na pastelaria às cinco.
-Tenho intenção de continuar a fazê-lo pelo menos enquanto a barriga não se torne demasiado pesada. Gravidez não é doença.
- Diz isso ao teu organismo, quando os enjoos te deixarem de rastos, ou quando o sono não te deixe abrir os olhos.
- Não pode ser tão mau assim! Ou ninguém engravidaria.
- Pois, eu também pensava como tu.  Mais, julgava que as pessoas diziam isso para nos assustar. Mas passei por isso tudo. Os enjoos, o sono, os pés inchados, as dores nos rins, o cansaço. E mais dezasseis horas de contracções, até ao momento em que o Martim nasceu.
- Caramba Inês, não há dúvida que sabes como animar uma pessoa.


10.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVI



O almoço estava delicioso, e foi servido com correcção e esmero pelos dois empregados que ficaram na sala a recolher as loiças quando todos se levantaram.
Francisca, desapertou o cinto da cadeirinha de Ana e pegando-lhe ao colo, disse:
- Agora, vamos todos lavar os dentinhos e dormir a sesta. Pegou na mão de Marta, hesitou um pouco e depois aproximou-se de Afonso, dizendo:- Damos um beijinho ao pai?
Ana esticou os bracinhos e inclinou o corpo para o pai, que a beijou. Em seguida inclinou-se para Marta que se agarrava à sua perna para a beijar.
 Sem que ninguém pudesse prever, João avançou e agarrou-se-lhe à outra perna.
Emocionado, Afonso beijou os dois, mas os seus olhos estavam fixos em Simão que se mantinha um pouco afastado.
O garoto porém virou-lhe as costas e encaminhou-se para o corredor.
- Ajudo-te a deitá-los – disse Graça
- Não. Quero fazê-lo sozinha.
E Francisca seguiu rumo à casa de banho, com as crianças.
Os quartos dos meninos eram iguais e contíguos. Ambos eram espaçosos, tinham uma grande janela que dava para o jardim, duas camas e um grande armário.  E uma pequena zona cheia de brinquedos que naturalmente eram diferente de um para o outro quarto. 
Depois que saíram da casa de banho, abrindo a porta do
  quarto para os filhos, Francisca disse a Simão.
-Cuida do teu irmão. Vou deitar as meninas e já venho.
O garoto assentiu com um sorriso.
Ela sabia que o filho ficava feliz com aquela incumbência. Sempre fora uma criança, com grande sentido de responsabilidade. No outro quarto Francisca abriu um armário, retirou uma fralda e colocou-a em Ana. A criança com quinze meses, já tinha controlo das necessidades acordada, mas a dormir ainda precisava de fralda.
Deitou-a, deu-lhe um beijo, aconchegou a roupa a Marta, beijou-a,  correu a persiana e saiu fechando a porta. Encontrou os filhos já deitados. Aconchegou-lhes a roupa, beijou-os e saiu, não sem antes correr a persiana
Dirigiu-se à sala. Graça lia um livro. Olhou-a e disse:
- Afonso quer falar-te. Disse para ires ter com ele ao escritório.

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6.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE IX



Depois do almoço, e de ajudar a mãe a arrumar a cozinha, Francisca foi deitar os filhos para dormirem a sesta. As crianças não tardaram a adormecer. Ela sabia que o pai sempre ficava a cochilar àquela hora e a mãe não perdia a novela. Assim deixou-se ficar no quarto pensando. Mas por mais que tentasse pensar noutras coisas, o pensamento sempre ia parar na proposta da amiga. Era uma maluquice. Mas e se desse resultado? Não conhecia Afonso. Como seria ele? Era mais velho que a irmã. Mas seriam muitos anos? Não se lembrava de ter ouvido a idade. Mas também que importava isso. Ela não pensava aceitar. Ou aceitaria? Que estupidez, aquilo eram coisas da Graça, o irmão ia lá querer casar com alguém só por causa das filhas. Metia-as num bom colégio interno e pronto. Ficava tudo resolvido. Mas a amiga dissera que o irmão queria alguém que lhe cuidasse das filhas como se fosse a mãe. Bom para ela, isso não era entrave. Adorava crianças. E então meninas. Quando estava grávida sonhava tanta vez com meninas, vestidos e lacinhos. Mas o destino brindara-a com dois meninos.
Cansada acabou por adormecer. Acordou sobressaltada com a mãozinha de Simão acariciando-lhe a cara. Soergueu-se e olhou para o filho mais novo. Dormia profundamente. Pôs um dedo sobre os lábios indicando ao filho que não fizesse barulho, para não acordar o irmão, sentou-o na cama e calçou-lhe os ténis. Verificou que um estava roto. Estremeceu. Mais uma despesa! Devagarinho, saíram do quarto fechando a porta com todo o cuidado para não acordar João.
- Mãe, tenho sede, -disse o menino mal saíram do quarto.
Dirigiram-se à cozinha. Francisca encheu um copo de água e estendeu ao filho. A criança bebeu um pouco, e perguntou de súbito:
- Quando é que o pai volta?
- Não sei.
- Não vai voltar nunca mais, pois não, mãe?
Francisca sentiu um aperto no peito. Abraçou o filho:
- Porque dizes isso?
O filho respondeu com outra pergunta:
- É verdade que o pai morreu?
- Quem te disse isso?
- Ouvi uma conversa da avó com a vizinha. Não chores. Eu não choro, vês?
- És um menino muito corajoso, Simão. É verdade, filho. O teu pai agora é uma estrelinha no céu. Mas não contes ao teu irmão. Ele é muito pequenino, vai sofrer muito e não queremos isso pois não?
- Claro, mãe. É um segredo só nosso. E não quero que chores, - disse abraçando a mãe com toda a força dos seus quase cinco  anos.


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3.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XVII




- Mana, quando vamos a casa buscar o resto das coisas? Preciso dos meus livros, queria fazer uma revisão de matéria antes de começarem as aulas.
Naquele momento, encontravam-se os três na sala, depois das crianças terem ido dormir a sesta.
- Por mim poderíamos ir hoje, mas não agora que está demasiado calor  - respondeu Ricardo por ela. - Talvez mais para o fim do dia. Estou ansioso por conhecer a casa em que viviam.
- Porquê? – Interrogou Clara. É uma casa humilde, nada que se compare com esta.
- E depois? Decerto, perto de algumas onde já entrei, poderia considerar-se um palácio.
Relembrando a conversa tida no dia anterior na biblioteca, ela retorquiu:
-Desculpa. De qualquer modo, preferia ir amanhã. Hoje estou cansada.
- Calculo. Sabes Tiago, que enquanto nos divertíamos na piscina, a tua irmã fez uma revolução no quarto das crianças? A propósito - acrescentou voltando-se para ela, - fizeste um ótimo trabalho. Parabéns. Mas não voltes a fazer o mesmo sem ajuda. Podes magoar-te.
- Não foi nada demais, estou habituada a fazer este tipo de trabalho. E valeu a pena o esforço, para ver a alegria deles.
- Vai-te habituando - interrompeu Tiago. - Às vezes chegava a casa e levava cada surpresa que até pensava que me tinha enganado na porta. Foi uma pena que não tivesse continuado a estudar. Estou certo que seria uma ótima decoradora.
- Mas ainda poderá fazê-lo. É só uma questão de conciliar horários, - disse Ricardo. - Gostarias de voltar a estudar?
- Talvez um dia quem sabe. Agora tenho algo a fazer, mais importante que qualquer curso.
- Bom,  - disse Ricardo - pelo que me disseste, o que há para trazer são roupas e livros. Excetuando os manuais escolares, temos uma boa biblioteca. Tenho no computador uma lista de todos os títulos existentes. Poderás vê-la esta tarde. Não vale a pena trazeres livros que se repetiriam. Podes oferecê-los a uma instituição. Não disseste que ias dar os móveis?
- Sim. Mas há umas porcelanas antigas, de que não quero desfazer-me. Guardam muitas recordações. Poderia trazê-las?- Perguntou com uma certa ansiedade.  
-Claro. Podem guardar-se na cave. Mas então será melhor pedir ao Alfredo que nos arranje umas caixas e nos siga com a carrinha. Vou avisá-lo daqui a pouco.
- Bom, - disse Tiago, pondo-se de pé. - Se já está tudo combinado, vou sair. Até logo.
-Até logo, - responderam em coro.
Durante alguns segundos ficaram em silêncio. Depois Clara perguntou:
-Já pensaste como e quando, vais dizer às crianças que vais partir?
- Penso nisso todos os dias, desde que soube da partida, mas quando estou junto deles, não sei como lhes dizer.
- Deves fazê-lo o mais breve possível, para que se vão habituando à ideia. Se quiseres, posso estar presente. Para que sintam que estarei a seu lado e que não ficarão sozinhos. Queres fazê-lo depois do lanche?
- Tens razão. Deixar para a última hora, será contraproducente. Que te parece, se depois de lhes contar, fossemos dar um passeio com eles, e comer um gelado?
-Parece-me bem. Vou ver se já acordaram.