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4.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XX

 



- Não te preocupes pai. Confesso que antes de saber o que acabas de contar-me, passaram pela minha cabeça desejos de vingança. Afinal sou humano, sofri muito, e durante todos estes anos, agarrei-me à ideia de que ela era uma leviana, que nunca sentiu nada por mim e só se tinha divertido à minha custa. 
Mas tu pintaste-me um quadro em que a minha ideia não se enquadra. E isso leva-me a repensar tudo o resto. A por em causa o meu desejo de vingança. Preciso descobrir, onde está a verdade.
- Gostaria que vocês se entendessem. Estás quase com quarenta e dois anos. Já cumpriste os teus sonhos, já viveste e sofreste demais. Parece que ela também deve ter tido a sua conta de sofrimento. Se assim não fosse teria voltado a casar. É uma mulher bonita, educada, e deve ter um bom pé-de-meia, uma vez que o marido era um homem rico. Nem um nem outro são crianças. Quem sabe não estão predestinados um ao outro? Pensa nisso. Já está na hora de deixares de ser um solitário.
- Já falámos sobre isso, pai. Sempre fui orgulhoso. Nunca me exporia perante uma mulher.
- Nem mesmo perante a Luísa?
- Dela menos do que qualquer outra. Rejeitou-me quando era jovem, bonito e…inteiro.
- É melhor pagar e irmos embora. Quando falas assim, lamento que não tenhas menos trinta anos. Porque a minha vontade é dar-te um bom par de  açoites.
Pôs-se de pé. Estava zangado. Não suportava ouvir o filho falar assim. Nuno colocou o dinheiro em cima da mesa, para pagar os cafés e seguiu o pai. Sabia que ele estava zangado, mas não podia fazer nada contra isso. Era assim que ele sentia, e não ia contra os seus sentimentos para agradar a ninguém, nem mesmo ao pai, que ele admirava e amava.
Fizeram o percurso de volta em silêncio, cada um submerso nos seus pensamentos.
Meia hora mais tarde, Nuno despedia-se dos pais e regressava à sua casa. Pegou no jornal e tentou ler. Sem sucesso. Sentia-se nervoso com a ideia de ir jantar com Luísa. A vida era como um filme muito estranho. Quando se levantou nessa manhã, nunca pensou que ia encontrar a jovem, que por causa dela o seu pai se tinha aborrecido com ele, e que daqui a umas horas ia jantar com ela. Olhou o relógio. Dezassete horas. Não era a essa hora que começava o famoso dérbi Benfica –Sporting em futebol? Ligou a TV e sintonizou o canal. O locutor, anunciava a formação das equipas.
Foi à cozinha buscar uma cerveja, e sentou-se no sofá. Só ia buscar Luísa às vinte. Tinha tempo de sobra para ver o jogo.



7.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLI



-Está lá fora o senhor Jorge Maldonado para falar consigo.
António levantou os olhos e olhou a sua secretária, tão surpreso como se ela lhe anunciasse que o Papa o queria ver.
-Disse-lhe que estava muito ocupado?
-Disse. Mas ele diz que não se vai embora sem falar consigo.
-Está bem. Faça-o entrar e deixe-nos sós.
-Bom dia- saudou Jorge ao entrar no gabinete.
- A que devo a honra da sua visita? – perguntou António sem se levantar, nem corresponder ao cumprimento.
Jorge Maldonado avançou até parar em frente da secretária, meteu a mão no bolso, retirou um papel, desdobrou-o e colocou-o bem na frente do empresário.
-Vim devolver isto. Deve ter ido por engano, pois não me pertence.
-A Paula não lhe disse, que era uma indemnização pelos danos causados?
- Claro que disse. Todavia o valor do resgate que pagaste pela hipoteca cobre os prejuízos.
-A “Casa Nova” está sem fundo de maneio, para se reerguer. E eu tinha prometido um empréstimo…
- A troco da minha filha casar contigo. Ela garantiu-me que não o vai fazer. E ainda que assim fosse, quem empresta uma tal quantia, sem documentos assinados, e garantia de reaver o empréstimo? Nem o mais altruísta dos homens, quanto mais tu, que apenas desejas vingar-te pelo mal que te fiz. Não, o que pretendias era humilhar-me, continuando assim a tua vingança. Mas deixa que te diga uma coisa. Nada do que tu faças, me causará tanto dano, quanto o remorso com que a minha consciência me tem atormentado ao longo destes anos.
Sem se conter, António soltou uma gargalhada.
-Remorsos? Ora, não me faça perder tempo, que não tenho disposição para anedotas. Para alguém ter remorsos precisa ter sentimentos e isso é coisa que nunca teve. Lembra-se do modo como nos tratava a mim e aos meus colegas de trabalho? Do abandono a que votava a sua filha? Alguma vez reparou na tristeza dela? Na solidão que sentia? Meu Deus era uma menina triste, sofrida, porque sentia que o pai não a amava. Mas o senhor não reparava em nada nem em ninguém. E o que fez comigo não tem perdão. Não esperou que a polícia investigasse o roubo. Foi logo acusando-me de ficar com o dinheiro, manchando a única coisa valiosa que eu tinha. Um nome honrado. Por isso não me venha falar de remorsos. Leve o maldito cheque, ou deixe-o ficar, mas desapareça. Não quero voltar a vê-lo.
Sem uma palavra, Jorge Maldonado, virou-lhe as costas, dirigiu-se à porta e abriu-a. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
-Custa a crer que te tivesses apaixonado por aquela miúda triste e desengonçada.
Não lhe deu tempo para responder. Saiu e fechou a porta deixando o empresário perplexo . “O homem é doido”, pensou. Só uma mente doentia podia pensar que ele, com dezanove anos se tinha apaixonado por uma menina de nove anos. Aquilo era mais uma ofensa à sua integridade moral. Ele, simplesmente tinha pena da solidão da menina. Era por pena que às vezes sentia vontade de lhe pegar ao colo e a acarinhar, tal como fazia com a sua irmã quando a sentia triste. Apaixonado por ela. “O homem é doido”, - repetiu em voz baixa. - Quem pensa ele que eu sou? Um tarado? 
Apaixonado estava desde que há cinco anos, a encontrara no banco, mas que importava isso, ela não acreditava nele.
Irritado pegou no cheque que Jorge deixara sobre a mesa, e rasgou-o em mil pedacinhos.



Atenção ao capítulo 40 que saiu ontem à noite.  E não esqueçam a informação que lá está.


30.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXIV



Caminhavam lado a lado em direção às traseiras da casa, onde estava montada a tenda e onde se faria a festa propriamente dita.
- Se era isso que te preocupava, podes ficar descansado. Se queres saber a reação do meu pai, desculpa não quero falar disso. Mas quero que saibas, que te estou muito grata por teres desistido da tua vingança. Não por mim, recebi a minha parte da herança da minha mãe, que me serviu para montar a minha empresa, e é do meu trabalho que vivo. Mas pela Cidália e pelo Miguel.
- Pelo teu pai, não?
-A minha ligação com o meu pai nunca foi muito boa. É meu pai e como tal o respeito, mas ele nunca fez nada para ganhar o meu amor. Por isso fui viver sozinha. Mas não vamos falar disso agora. A tua irmã já sabe da festa.
-O Eduardo ia dizer-lhe ontem à noite. Ele contratou os serviços de um salão de beleza para que fossem cuidar dela esta manhã, e teve que lhe explicar porquê. Devem chegar daqui a pouco, almoçam connosco e vestem-se aqui, a loja já mandou entregar a roupa há dias.
- Sem ela escolher? Vocês não estão bons da cabeça. Isso não vai dar certo.
- Ela escolheu. O Eduardo levou-a à loja com o pretexto que era para o meu sócio fazer uma surpresa à noiva. Mas a minha irmã, não é parva e deve ter entendido logo que era uma prenda para o aniversário. E se não tinha a certeza, teve-a ontem quando ele lhe contou da festa. Só ainda não sabe que vai de lua-de-mel para a República Dominicana.
Conversavam enquanto Paula ia pondo nas mesas, os arranjos florais. Ninguém diria que três semanas antes, ela achava o homem arrogante e odioso. Pareciam amigos de longa data. Pareciam, mas na verdade não passava de aparência, cada um tentando esconder do outro os seus verdadeiros sentimentos.
- Está tudo pronto, não é verdade? - perguntou quando ela colocou o último arranjo na mesa que faltava.
-Por agora sim. O resto não depende de mim.
-Então vem comigo ao escritório. Preciso conversar contigo.
Afastou-se em direção à casa, sem esperar para ver se o seguia. Ao chegar à porta, voltou-se e verificou que ela continuava no mesmo lugar. Ficou parado, indeciso sem saber se continuar, ou voltar atrás. Só então Paula avançou.
-Aconteceu alguma coisa?- perguntou quando ela chegou junto de si.
- Estava a pensar se foste sempre assim, mandão e prepotente, ou se é só comigo. Por acaso ocorreu-te pedir-me para te acompanhar, ou ser delicado não faz parte da tua personalidade?
-Desculpa. Reconheço que por vezes sou um tanto rude, mas não tive qualquer intenção de te menosprezar.  A verdade é que preciso falar contigo. Queres acompanhar-me?
-Assim está melhor. Sou um tanto rebelde, não gosto de receber ordens. Essa é uma das razões que me levaram a fundar a minha própria empresa.
Tinham chegado ao escritório. Ele abriu a porta e afastou-se para a deixar passar. Entrou atrás dela e fechou a porta.
-Queres fazer o favor de te sentares. É quase meio-dia, a Gabi o marido e o filho devem estar a chegar e depois vamos almoçar. Gostava de falar contigo antes que eles cheguem.
-Bom, tu dirás.
-Daqui a pouco na festa, vou apresentar-te o meu sócio, Júlio Correia, e a sua noiva. Júlio vai casar dentro de oito dias. Eu vou ser o padrinho. Como não sou casado, nem tenho compromisso, querem apresentar-me uma prima da noiva para meu par. Não estou interessado em conhecê-la, nem em ter por par, uma pessoa que não me interessa.  Gostaria que me acompanhasses ao casamento.
Levantou-se nervosa. Acompanhá-lo ao casamento, passar o dia a seu lado, sem ser em trabalho, dançar com ele? Era demasiado perigoso, tendo em conta a descoberta recente do sentimento que ele lhe inspirava. O que ela queria era que aquela festa acabasse depressa para se afastar e tentar esquecê-lo.
-Não. Não me podes pedir semelhante coisa.
-Porquê? O que tem de mal? Não somos amigos?
- Amigos? Conhecemos-nos há quinze dias!
- Conheces-me há quinze dias. Eu conheço-te desde que tinhas este tamanho, - disse apontando com a mão a altura da sua anca. – Além disso, há quem acabe de se conhecer e fique amigo para a vida inteira. Diz antes que continuas a pensar que sou um ser odioso e vingativo, como disseste na primeira vez que nos encontrámos.


O Sexta, pede-me para vos agradecer a presença na sua festa. Diz que vocês são fantásticos, e que sem vocês ele simplesmente deixaria de existir. Bem Hajam



E porque amanhã é o 1º de Maio, esta história volta na Quinta-feira. A propósito, ainda se lembram como começou? É que o primeiro capítulo foi publicado a 14/3


22.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVIII




-E pronto, agora que já sabes o que se passa o que te parece?
- Tens a certeza que ele desistiu de arruinar o teu pai?
-Quando soube que ele tinha recebido os documentos da “Casa Nova”, pensei que me tinha enganado  e sabes como sou. Procurei-o e disse-lhe que ele não tinha palavra, que não era confiável. E então ele entregou-me todos os documentos que restituem ao meu pai a “Casa Nova” pedindo-me apenas que não lhos entregasse até ao fim do mês.
-Mas então os documentos já estão contigo?
- Não. Eu devolvi-lhos. Entendi que se ele confiava em mim, também devia confiar nele.
- Bom, espero que não te tenhas enganado. Se o homem está a ser sincero e vai mesmo desistir da vingança, só pode estar apaixonado por ti.
- Ou quer fazer de mim o instrumento de vingança, contra o meu pai, por pensar que isso é maior vingança do que arruiná-lo. Mas isso não importa. O importante, é que faça uma festa de sonho para a irmã dele, de modo a que cumpra o nosso contrato, e me entregue os documentos. Depois com um pouco de sorte nunca mais o vejo.
- Não acredito. Mas como não o conheço, não me quero aventurar em palpites. Por isso é melhor dedicar-mo-nos ao trabalho. Enquanto eu analiso as fotos, vai-me dizendo qual a tua ideia.
- Bom, eu pensei fazer a cerimónia de renovação de votos aqui na parte da frente da casa. Ao fundo junto ao muro ficará o altar. Dos dois lados as cadeiras para os convidados. Como estamos a entrar no Verão as temperaturas estão altas, pensei num cenário tropical, com tendas brancas abertas, ladeadas por vasos com palmeiras.
-Quantos convidados?
-Oitenta.  
Durante duas horas as duas amigas mergulharam no trabalho. Enquanto Paula ia expondo a sua ideia, Margarida ia fazendo o plano, tomando nota do que precisavam fazer, do material que iam necessitar e anotando os números do telefone das empresas onde adquiri-los. Depois passaram à parte de trás da casa onde decorreria a festa propriamente dita, com muita música e comida.
 - Aqui temos um bom espaço. Colocamos as mesas perto da casa numa só tenda. O grupo musical pode ficar debaixo do alpendre e a pista de dança ao fundo junto à piscina.
- Eu poria as mesas junto à piscina, protegidos por chapéus de sol, com uma única tenda atrás, onde seriam colocados os menus a serem servidos 
-Boa ideia. Eu tinha pensado deixar os menus na cozinha, mas assim ficariam mais perto. E a música?  
- O ideal seria conseguirmos a colaboração do Inácio Assis. É um músico fantástico, tem uma bela voz, e está na moda. Estaria mais de acordo com o tipo de festa que estamos a pensar do que o grupo musical que costumas contratar, -disse Margarida.
- É verdade, mas nunca trabalhei com ele nem sei se está livre nesse dia, ou mesmo se faz este tipo de trabalho.
-Falo com ele amanhã. É amigo nosso. Se não tiver nada marcado para esse dia, decerto aceita. Convém-lhe conhecer um empresário como o António Ferreira, com tantos restaurantes onde se realizam muitas festas ao longo do ano.
- Depois me dirás, se aceita ou não. Vamos jantar agora e acabamos depois?
-Vamos, -respondeu a decoradora.


16.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVI




Ficámos muito ricos, voltamos a Portugal, criamos vários negócios e aumentámos em muito a nossa fortuna. Mas eu continuava com a obsessão de me vingar daquele homem, e não descansei enquanto não o arruinei. Pareço-lhe um monstro?- Perguntou fixando os seus olhos negros no rosto afável do Padre.
- Apenas humano. Mas acredito que não encontrou na vingança, a satisfação com que sonhou durante todos esses anos.
- Acabei por não a levar até ao fim, embora ele pense que sim. O homem em questão é o pai da jovem que acabou de sair. Não tem sido nada fácil para mim, Padre. Tenho vivido os últimos cinco anos dividido entre o amor que sinto por ela e o ódio pelo pai. Agora estou decidido. Vou devolver-lhe tudo no final do mês, embora ele ainda não saiba. 
- Porque lhe perdoou, ou por causa da jovem?
- A verdade é que não sei. Durante anos, odiei-o e só sonhava com o dia em que me pudesse vingar dele. Acreditava que o meu pai morrera, por sua causa, apesar de saber que a saúde dele já estava muito periclitante quando tudo aconteceu. Minha mãe sempre me disse que o médico já a tinha alertado para a possibilidade de uma recidiva fatal, logo após ele ter tido o Acidente Vascular Cerebral. Ela sempre acreditou que a sua morte nada teve a ver com o facto de eu ter sido despedido por suspeita de roubo. Hoje interrogo-me se ela não estaria certa. 
Por outro lado, não fora a atitude cruel daquele homem, eu nunca teria emigrado, não teria conhecido o Júlio, não teríamos feito aquele boletim,e provavelmente hoje teria uma vida medíocre, e sem interesse.
- Já é bom que tenha conseguido compreender isso. Mas existe alguma coisa que ainda não está muito clara no seu espírito, não é verdade?
- Trata-se da jovem que esteve aqui há pouco, e que é filha desse homem.  Estou profundamente apaixonado por ela,talvez até tenha estado a vida inteira, pois nunca me interessei verdadeiramente por outra mulher. E parte da raiva que sentia por esse homem, era também por ela, e pelo desinteresse com que ele a tratava. Todavia penso que posso ter destruído as hipóteses de a conquistar, por causa da minha sede de vingança contra o seu pai. Que me aconselha, Padre?
- Esqueça o passado e foque-se apenas no presente. Por muito que faça, nunca conseguirá mudá-lo. E corre o risco de estragar o presente e o futuro. Seja sincero consigo mesmo e com ela. E se os seus sentimentos são tão fortes como parecem, pode ser que ela venha a corresponder. Mas se assim não for, esqueça e procure ser feliz com outra pessoa. O amor conquista-se, não se compra, por muito dinheiro que o amigo tenha. Já viveu grande parte da vida, preso a más recordações e a sentimentos de vingança. Liberte o coração de rancores e permita-se ser feliz.
-Obrigado, muito obrigado por me ter escutado, Padre. Acredite que me sinto bem melhor agora do que quando aqui entrei.
-Volte quando quiser. Estou sempre por aqui e estarei pronto a escutá-lo quando sentir necessidade de falar com alguém.
Estendeu-lhe a mão, que António apertou calorosamente, sentindo que mais do que um padre, tinha encontrado um amigo.
Saiu da Igreja e dirigiu-se ao carro, pensando que o sacerdote tinha razão. Aquela vingança não tinha sentido.
Pôs o carro em movimento, mas em vez de se dirigir à empresa, foi direto para casa. Precisava meditar sobre o que acontecera naquele dia e por as ideias em ordem.


30.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XIII





-Mas, que pode ter trazido aqui, o todo-poderoso António Ferreira, que não a sua maldita vingança?
- Continuas muito nervosa, e isso não se coaduna com uma profissional do teu gabarito. Se me conhecesses um pouco, saberias que nunca viria até aqui, para saborear uma vingança da qual não fazes parte.
- Como não, se fizeste semelhante oferta ao meu pai?
-Se por um momento sequer, imaginasse que eras capaz de aceitar, nunca teria feito essa oferta. Não me interessaria por semelhante mulher.
Encarou-o incrédula.
-Meu Deus! O homem é louco!
Ele distendeu os lábios num sorriso que não chegou aos olhos.
-Talvez o seja, mas deixa-me continuar. Não sei se sabes, mas não costumo frequentar festas. Tenho vivido apenas para o trabalho e penso que está na hora de desfrutar um pouco mais das coisas boas da vida. Minha irmã celebra no fim do mês dez anos de casamento. Quando ela casou, a minha vida não era tão abastada como hoje, e apesar de ter ajudado como pude para que tivesse um dia bonito, não foi possível fazer grande coisa. Agora pretendo oferecer-lhe a festa que não teve na altura. Uma coisa para ela recordar a vida inteira. Por isso vim. Para contratar a melhor produtora de eventos do país.
-Estás a  dizer-me, que vieste aqui contratar os meus serviços para realizar a festa das bodas de estanho da tua irmã?
- Qual é a admiração? Estou habituado a contratar sempre os melhores serviços do mercado.
-Sinceramente espanta-me que me julgasses capaz de trabalhar para ti, depois de arruinares a minha família.
- Nem mesmo se eu te prometer desistir de me vingar do teu pai?
- Como assim se já o arruinaste? Se como disseste tens a hipoteca da firma e ele não tem com resgatá-la?
-Imagina que cumpro a promessa que fiz a teu pai, não em troca de casares comigo, como lhe fiz crer, mas de que realizes essa festa?
- Farias isso?
- Podes crer. Proporcionas um dia de sonho à minha irmã, e eu salvo o teu pai.
- Deves amar muito a tua irmã! Mas…como posso ter certeza de que farás o que dizes?
- Não terás. Ou confias em mim e arriscas, ou não confias, - disse mergulhando o olhar, no mar revolto do olhar feminino.
Incapaz de sustentar muito tempo o olhar masculino, ela pegou num bloco e numa caneta e perguntou:
- Como queres que seja essa festa? Para quantos convidados? Com ou sem renovação de votos? O casamento foi civil ou religioso?
- Obrigado por teres aceitado. Com renovação de votos e o casamento foi religioso. Amanhã mando-te por "email" a lista dos convidados, e o nome do restaurante que fornecerá o "catering", que claro será um dos meus. O resto deixo com a tua imaginação e tenho a certeza que será uma festa muito bonita.



26.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE IX




-Não pai, não insistas. Não vou casar com um homem que não conheço, para te salvar da ruína.
Não te preocupa o facto de deixares a tua família na miséria?- perguntou o progenitor, levantando a voz alterado.
-Tenho algum dinheiro. Não muito, mas dá para recomeçares a tua vida. Ainda és um homem novo. Deixa que execute a hipoteca.
- Estás doida? Que sei eu fazer que não seja gerir a empresa?
- E pelos vistos não muito bem. Antigamente era uma empresa próspera, - retorquiu a jovem. - E não me venhas falar em crise. Esse homem começou com uma pequena imobiliária e em poucos anos é a maior do país.
- “Esse homem”, como tu dizes está determinado a deixar-me na miséria. Se eu fosse sozinho não me importaria muito, mas tenho mulher e um filho menor que precisam de mim.
Paula sentiu vontade de lhe dizer que o facto de ele ter bastante dinheiro quando ela era criança, não contribuiu em nada para que tivesse sido um pai atento e amoroso. Ela teria preferido menos brinquedos e mais carinho do pai. Mas pensou que não era hora de recriminações e limitou-se a perguntar.
-E o que tu lhe fizeste para que ele te queira arruinar?
- Pensas que é preciso ter feito alguma coisa para isso? Esta gente não precisa de motivo para que pise todos os que estão abaixo deles e se apoderem daquilo que podem. Ou talvez quem sabe, se tenha apaixonado por ti e pense que é a melhor maneira de te vir a ter como esposa.
- Não sejas ridículo, nem me tentes enganar. Se esse homem quisesse uma mulher bastava estalar os dedos. Com a sua posição social, não lhe faltarão candidatas. Também não se pode ter apaixonado por mim, nem sequer nos conhecemos. E na remota hipótese de que isso tivesse acontecido, não usaria de tal subterfúgio. Trata-se como é evidente de uma vingança, por alguma coisa que lhe fizeste. Eu sei e tu também sabes embora nunca venhas a admiti-lo. De qualquer modo a minha decisão está tomada. Não contes comigo para isso. E agora se me dás licença, tenho muito trabalho para fazer. Porque embora o que eu faço, não tenha qualquer valor para ti, eu trabalho e muito. Dá um beijo por mim à Cidália e ao Miguel. Diz-lhe que no Domingo o vou buscar para ir ao cinema.
Dito isto sentou-se à secretária e começou a ler o documento que tinha na frente. Jorge permaneceu uns momentos calado, visivelmente desconcertado. Depois dirigiu-se para a saída, pôs a mão no puxador da porta, mas antes de a abrir, virou-se e disse:
- Pensa bem, filha. Não aconteça que mais tarde te arrependas, e carregues com o peso dos remorsos a vida inteira. Garanto-te que não é nada agradável, viver com isso.
Paula levantou os olhos e olhou o pai em silêncio, Depois sem pronunciar palavra voltou a concentrar-se nos papéis que tinha na sua frente.
Jorge rodou sobre os calcanhares, abriu a porta e saiu fechando-a com estrondo.

NOTÍCIAS
. Estive esta tarde a fazer exames médicos por causa do olho e as notícias não são de modo algum aquelas que eu gostaria. A retina mantém-se colada, mas a córnea continua muito maltratada. O Professor, diz que eu tenho um suporte de silicone que será para retirar numa nova cirurgia, se a córnea recuperar o suficiente para colocar a lente. Se isso não acontecer, só com transplante da mesma posso ter esperanças de voltar a ver como deve ser. Entretanto como há apenas um mês que fiz a segunda cirurgia, vamos ter esperanças que a córnea recupere até ao dia 14 de Maio, altura em que vou voltar a fazer exames e à consulta. Entretanto mandou parar com as gotas de antibiótico que estava a fazer e mudou para gotas de cortisona.


22.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE VI






-O que há com a empresa? É mau negócio? O Júlio estava entusiasmado.
-Eu sei, e pelo que ele diz parece ser um bom negócio, mas não acho bem que te desligues do assunto. Porque não vais até lá?
- Não confias no Júlio?
-Deus me livre e guarde disso, António. Até porque eu estarei lá na altura da compra e todos os documentos passarão pelas minhas mãos. Porém gostaria que fosses comigo. Não que seja necessário, pois com a procuração que tenho posso representar-te em qualquer negócio. Mas era uma maneira de te tirar deste escritório e libertar a tua cabeça dessa obsessiva ideia de vingança. Pelo menos por uns dias.
- Está bem. Quando será feita a escritura da compra?
- Dentro de dias. O Júlio tem estado à espera que tu te decidas a ir até lá. Parece que ele confia mais em ti do que em si próprio. A propósito, sabes que ele vai casar?
- Não. Não tenho estado com ele ultimamente. Quando aceitei fazer sociedade com ele no negócio dos carros deleguei nele toda a responsabilidade dessa parte dos negócios. Os restaurante e principalmente a imobiliária, ocupam-me todo o tempo. 
- Claro. Diz-me uma coisa. Há quanto tempo não vais ver a tua mãe?
- Há duas ou três semanas. Porquê? Passa-se alguma coisa com ela? Está doente?
- Não. Mas está muito triste. Disse à Gabi que sentia saudades tuas. Que se sente muito só e que lhe parece que continuas em França, tanto tempo leva sem te ver. Como sabes eu e a tua irmã quisemos que fosse viver connosco, mas ela prefere estar lá na casa onde viveu toda a vida e que diz está cheia de recordações. Diz que dali só sai morta. Devias ir vê-la. Caramba um homem não pode virar escravo dos seus negócios.
-Tens razão, mas que queres, foram muitos anos a trabalhar catorze a dezasseis horas por dia. E depois há sempre tanta coisa para resolver.
- Arranja dois ou três bons gestores. Eles podem fazer a maioria do teu trabalho. Não vais à falência por isso e ganhas em qualidade de vida e saúde. Nem sei como tens aguentado tudo isto sozinho.
- Tenho-te a ti, e à secretária que me recomendaste e que é uma excelente profissional. E mais três empregadas no escritório, e uma dúzia de gerentes nos restaurantes. E o Júlio tem-se mostrado bastante competente com o setor automóvel. Logo que resolva este problema com a integração ou não da Imobiliária “ Casa Nova”, prometo tratar disso. Gostava de trazer para a empresa o Rui Martins, mas duvido que ele queira deixar a atual empresa. Enfim, quando chegar a hora se verá.
- Quando é que terás a resposta do Jorge Maldonado?
- Dei-lhe oito dias.
- Acreditas que ele convença a filha?
- Não sei. Se bem que para te ser franco gostaria que não o conseguisse. Conheces a filha dele?
- E quem não conhece a Paula Maldonado? É uma excelente profissional, a sua empresa de eventos é uma das melhores do país, está constantemente a ser requisitada. Terminou há pouco um relacionamento de quatro anos, quando todos esperavam que mais dia, menos dia, marcaria a data do casamento. Não deve estar com vontade de se comprometer com ninguém, mesmo que seja para salvar o pai da ruína. Estás apaixonado por ela?
- Não. Mas um dia terei que casar. E o que sei dela agrada-me. Mas repito, espero que ela não aceite.
- Confesso que não te entendo. Se ela te agrada, porque não tentas uma aproximação e esqueces essa maldita vingança? E como esperas que não aceite se dizes que te interessa? Sabes que mais? És demasiado complicado para mim. Bom, tenho que ir. Combinei com a Gabi que ia buscar o Pedro à escola, uma vez que a esta hora ela tem uma consulta no dentista. Até amanhã.
-Até amanhã Eduardo.


9.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE X

   


A ansiedade, com que João olhava a marcha lenta dos ponteiros do relógio, terminou no momento exato em que a campainha da porta soou. Lentamente, aparentando uma tranquilidade que estava longe de ser real, levantou-se e foi abrir a porta.
- Entra. Perdeste a chave?
Ela não respondeu. Passou na sua frente em direção à sala. Não se sentou. Ficou de pé olhando à volta. A sensação que tinha era de que nunca se tinha ausentado, pois tudo estava exatamente igual ao que era quando partiu.
- Senta-te, - disse ele acomodando-se num cadeirão em frente do sofá.
Esperou que ela se sentasse e então perguntou:
- Como está a tua mãe?
- Como queres que esteja? Não consegue dar meia dúzia de passos seguidos, não consegue fazer nada.
- Explicaste-lhe que a única solução é a cirurgia?
- Sim. E ela quer ser operada. Diz que, como se sente agora, não é viver.
-E então, qual é a tua decisão?
-Tenho hipótese de escolha?
-Não,- disse firme e até talvez um pouco rude.
- Aceito, com a condição de o fazer só depois da sua operação.
-Inegociável. Regressas esta noite mesmo. A tua mãe já jantou?
- Já. Já a deixei deitada. Mas João o meu pai está em viagem com o camião, a minha mãe não pode ficar sozinha na situação atual.
- Não tens ninguém que possa lá dormir hoje? Uma tia, prima, alguma vizinha?
- Não.
Bom, então esta noite ficas com ela, mas amanhã de manhã mando-te alguém para cuidar dela até ser internada segunda ou o mais tardar terça-feira. Quando regressa o teu pai?
- Não sei. Vou telefonar-lhe esta noite.
- Muito bem. Amanhã, quero-te em casa para o almoço.
- Quero, quero, quero… Que se passa João? Onde está o homem bom e compreensivo, com quem vivi?
- Quem sabe? Talvez tu, o tenhas assassinado!
- Trata-se então de uma vingança?
- Não. Trata-se apenas de querer em casa a minha mulher, já to disse ontem.
-Posso voltar para casa, mas não serei tua mulher. Não vou para a cama contigo.
- Isso, minha cara, era uma coisa para ver, se eu estivesse interessado. O que não é o caso.
Ela recebeu aquela resposta como se fosse uma bofetada. Ele continuou.
-Agora que já está tudo tratado, podes ir. Mas não te esqueças, volta amanhã antes do almoço. Não me faças ir buscar-te. Como vieste?
- De táxi.
-Tens o teu carro na garagem. Se tens a carta contigo, os restantes documentos estão no quarto. Vou buscá-los?
- Não. Eu apanho um táxi.
Levantou-se e dirigiu-se à porta. Ele seguiu-a, e quando ela já saía recomendou-lhe:
- Não te esqueças de trazer a chave. Não fica bem a dona da casa tocar a campainha.

7.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXI







Daniela só foi trabalhar de tarde. Tinha conseguido minimizar o efeito das horas de choro, mas o seu semblante tinha perdido a alegria. Surpreendeu-se por vê-lo sentado na secretária, em frente do computador.
- Boa-tarde
Não obteve resposta. Sentou-se à secretária, abriu o computador, e então ele falou.
 -Já comprei as novas máquinas. A primeira será instalada para a semana. Vou investir um bom capital na fábrica e assumir a gerência. Quero que me ponhas a par de tudo e informes o pessoal que a partir de agora se devem dirigir exclusivamente a mim para todos os assuntos. Volto a propor-te a venda da tua parte na empresa, o que nos livra a ambos de presenças indesejáveis.
“Chegou a hora da vingança” pensou ela com amargura. Tinha que ser. Tinha que a ferir no que ela mais amava, naquilo por que lutou toda a vida. O seu instinto sempre lhe dissera que não devia misturar sentimentos com a relação laboral.
Desde início sempre soube que ele era demasiado forte como inimigo. Sentiu que as lágrimas lhe vinham aos olhos, mordeu os lábios até sentir o sabor a sangue na boca, mas respondeu com voz  firme.
- Não vendo.
- É pena. Porque não vou ter piedade.
-Agradeço o aviso. Vou convocar uma reunião para dentro de meia hora. Parece-te bem?
- Sim.
-Vou dizer à Madalena que passa a ser tua secretária. Ela pode passar para aqui e eu vou ocupar o gabinete dela.
- Não.
O coração dela encheu-se de ternura ao compreender que ele queria vingar-se dela, mas não queria humilhá-la perante as empregadas. O que mostrava que apesar de se sentir  tremendamente ferido, ainda sentia por ela um sentimento de respeito e talvez carinho. Sorriu com tristeza. Se ela tivesse coragem para lhe abrir o coração. Para se expor à rejeição dele. Mas não, não. Isso era impensável. Carregou no intercomunicador.
- Madalena, convoca uma reunião com todo o pessoal, para daqui a meia hora na sala do refeitório. Obrigada.
Desligou o aparelho e voltando-se para ele perguntou:
- E a tua empresa? Quem a vai dirigir?
- A Rita, dá perfeitamente conta do recado. E se houver alguma dúvida, sabe que para ela, estou sempre contatável.
À sim, a Rita – murmurou ela. Quem diabo era aquela Rita em quem ele confiava tanto? - Interrogou-se sentindo uma pontada no peito.

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´Pelos vossos comentários, parece que a maioria dos leitores se esqueceu que Daniela já foi casada, dos quatro anos de sofrimento, e  da rejeição do ex-marido pelo facto de ser estéril.