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14.4.18

RENASCER - XI

- E ela veio de França, sozinha? – Perguntou admirado.
- Não, filho. Vieram os três. Faltam poucos dias para o Natal e sabes como os nossos emigrantes sempre regressam nesta época para passar o Natal em família.
-É verdade, E a mãe? Como tem passado? – Perguntou para mudar o rumo à conversa.
- Agora bem mais feliz. Quando tivemos a notícia da tua morte, todos ficamos muito tristes, como é natural, mas ela foi-se muito abaixo. Não comia, não dormia, vinha de noite para a rua, olhar o céu. Um dia perguntei-lhe porque o fazia tantas vezes, e respondeu-me que estava a tentar descobrir, qual daquelas estrelas eras tu. Cheguei a pensar que ela ia perder o juízo, até fiz uma promessa ao S. Macário para ver se melhorava. Um dia a tua irmã Amália, meteu-a no carro e levou-a a um médico amigo do teu cunhado. Ele receitou-lhe uns comprimidos, e ou fosse por ele, ou milagre do santo, ela começou a melhorar. As tuas irmãs traziam para nossa casa os teus sobrinhos sempre que não estavam na escola, numa tentativa de nos darem um motivo de alegria, mas estava a ser muito difícil.  Oxalá nunca passes por um desgosto destes. Nenhum pai devia passar. É uma dor sem tamanho, é contra natura.
-Ó pai mas eu não morri, por isso vamos mudar de conversa, que para sofrimento já chega.
- Pois não. E todos os dias dou graças a Deus por isso. Mas a tua mãe fez uma promessa à Nossa Senhora dos Remédios, quando partiste, e acho que vai querer que lá vás com ela por estes dias.
- E eu vou, sem dúvida. Mas meu pai, não quer fazer uma paragem, onde houver um café? Apetece-me tanto beber um.
- Está bem. Mas não pudemos demorar. A viagem é longa os dias são curtos, temos pouco mais de hora e meia de sol, e nunca gostei de conduzir de noite.
- Está bem. Dez minutos são suficientes. E o pai, também deve precisar esticar as pernas.
Dez minutos depois, retomavam a viagem rumo a Peso da Régua, onde família e amigos o esperavam.


E então amigos? Alguém me ajuda com o nome deste conto? Ou vai até ao fim sem nome?
Podem deixar as vossas sugestões nos comentários.

18.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XXXI


O almoço, decorreu animado, como se todos se conhecessem há muito tempo e pertencessem à mesma família. A Salvador agradaram-lhe os pais de Anete, desse que os conhecera na semana anterior. E apesar de não se sentir muito confortável com a atitude vigilante dos irmãos dela, não os condenava. A jovem era muito bonita, e provavelmente, ele faria o mesmo se estivesse no lugar deles.
Ele não estava apaixonado por Anete. Ou pelo menos pensava que não estava, embora sentisse um certo carinho por ela. Na verdade apenas uma vez na vida esteve apaixonado, e isso já fora há tanto tempo, que às vezes pensava se realmente amara mesmo Ana Clara, ou se não passou de uma ilusão que ele empolgou transformando num amor platónico e impossível. Perguntava-se muitas vezes, se Raul não se tivesse intrometido, ele teria mesmo chegado ao casamento.
 Anete constituía um desafio para ele. Sabia que era divorciada, mas isso não parecia afetá-la de alguma maneira. Mas seria assim na realidade, ou essa era uma máscara que ela usava para não denunciar os seus sentimentos? Tinha vinte e oito anos, e não tinha filhos. No entanto a maneira carinhosa que usava no trato com os sobrinhos, revelavam um carácter tão maternal, que parecia impossível não ter sido mãe, durante o casamento.  Pensou vagamente que se chegasse a sentir por uma mulher um amor tão grande, que o levasse ao casamento, gostaria de ser pai. Às vezes enquanto brincava com os sobrinhos, pensava como seria se fossem seus filhos. Engraçado pensar assim e nunca lhe ocorrer associar Ana Clara às crianças.
Desejava conhecer melhor Anete. Gostaria que fossem amigos, que saíssem. Sem compromisso. 
- Ei, alguém viu se o Salvador saiu? - A voz de Luís soou trocista.
- Hem.. . Dizias alguma coisa?
- Homem há meia hora, que te estou a pedir se me passas o pão.
- Desculpa, estava distraído. Toma.
- E essa distração tem nome? – Interrogou Ricardo
- Deixem o Salvador em paz, - irritou-se Anete.
- A vossa irmã tem razão, - interveio o pai.- Não foi essa a educação que vos demos. Salvador é nosso convidado, merece respeito.
Terminado o almoço, e depois da loiça se encontrar já na máquina, os donos da casa, reuniram-se com as duas irmãs, para conversarem, e verem as fotos prometidas. As crianças voltaram para a brincadeira no quintal seguidas por Raul. Teresa andava às voltas na cozinha, e Salvador, ficou na sala com Luís.
Durante um longo momento, permaneceram em silêncio, como que estudando-se. Por fim Luís disse:
- A mãe disse que foste tu que deslindaste esta história. Que fazes na vida?
- Sou advogado. Tenho um escritório em Lisboa. E tu?
- Antropólogo. Trabalho na biblioteca nacional. Como é que descobriste a Anete? Procurou-te?
- Não. Tu foste o culpado. Vi-a na rua, e pensei que era a minha cunhada. Se estivesse sozinha não teria tomado atenção. Mas estava contigo, numa atitude carinhosa, e deves saber o que pensei.
- Cálculo, mas eu não te vi. Procuraste-a depois? Foste a casa dela?
- Sossega, nunca fui a casa da tua irmã que me merece o maior respeito. Confia em mim, não lhe farei mal. Amigos?
-Amigos, - disse Luís apertando a mão que Salvador lhe estendia.



1.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE IX




Sentaram-se numa mesa junto à janela. O rosto de Anete estava sereno, o de Salvador crispado. Um empregado aproximou-se, e ambos pediram um café e uma garrafa de água. Depois que ele se afastou, Anete abriu a mala e dela extraiu a carteira e o telemóvel, que colocou em cima da mesa. O empregado aproximou-se com os cafés, e ela esperou que se afastasse para retirar da carteira, a sua carta de condução e o cartão de cidadão.  
- Aqui tem os meus documentos. Como lhe disse, sou Anete Sampaio, filha de Francisco Sampaio e Emília Sampaio. Pode confirmar. No telemóvel tenho fotos dos meus pais e dos meus dois irmãos, cunhada e sobrinhos, se ainda tiver dúvidas, posso mostrar-lhas.
Falou sem afastar os olhos do homem que mirava os documentos com um ar de total incredulidade.
- Desculpe a minha crueldade, - disse devolvendo os documentos. Ainda estou espantado. Nunca vi duas pessoas tão iguais
- Desculpas aceites senhor…
- Salvador Rodrigues, - disse estendendo-lhe a mão com um meio sorriso.
Ela apertou-lhe a mão, e sentiu um estranho formigueiro, percorrendo-lhe o corpo. Sorriu tentando disfarçar.
- Posso saber porque desconfiou da sua cunhada?
- Há umas duas semanas, o trânsito estava muito congestionado, quando conduzia por esta rua. Então, vi-a no passeio. Ia com um homem alto, que a enlaçava pelos ombros, e entraram ali no número setenta e sete. Para mim era a minha cunhada e aquilo só podia dizer que tinha um amante. Lutei muito comigo mesmo, indeciso entre contar ou não ao meu irmão o que se passava, mas pensando nos meus sobrinhos, decidi enfrentar Ana Clara e fazê-la reconsiderar. Fica claro agora, que seria a Anete, mas ainda me custa a crer que existam duas pessoas tão iguais.
- Há duas semanas eu recebi a visita do meu irmão Luís. Havia pouco tempo que tinha chegado à cidade, e ele veio ver como eu estava, e se precisava de alguma coisa.
- Não era parecido consigo…
- Realmente não - disse sorrindo. Eu sou a única morena na família. Segundo a mãe, sou parecida com a avó paterna, que também era morena. Infelizmente a avó já morreu. Que idade tem a sua cunhada?
- Fez vinte e oito a dezasseis de Maio.
-Não pode ser. Eu fiz vinte e oito anos, nesse dia. E onde nasceu a sua cunhada?
- Pois creio que em Leiria, mas não tenho a certeza. Ana Clara foi adotada.
- Eu e os meus irmãos, nascemos em Leiria, mas meus pais foram viver para Coimbra pouco tempo depois do meu nascimento. Sabe de uma coisa, gostaria muito de conhecer a sua cunhada. Não tem nenhuma fotografia dela?
- Não - disse com brusquidão. Só do meu irmão e sobrinhos.
Olhou o relógio.
- Quase uma hora. Aceita almoçar comigo? Seria uma boa maneira de me mostrar que não está zangada pela maneira como a tratei.
- Não posso. Tenho que estar em casa, dentro de vinte minutos. Ainda estou a mobilar o apartamento e ficaram de me entregar uns eletrodomésticos à uma.
- E se vier buscá-la para jantar? Também vai arranjar desculpa?
- Aceito o jantar – disse pondo-se de pé. 
-Às oito? - Ele levantara-se, e aprestava-se a segui-la.
- Estarei pronta.
Voltou-lhe as costas e saiu.


LEMBRO AOS MEUS AMIGOS PORTUGUESES QUE HOJE É DIA DE ELEIÇÕES. VOTAR É UM DEVER DE CIDADANIA, E É TAMBÉM UM DIREITO PELO QUAL OS NOSSOS ANTEPASSADOS DERRAMARAM O SEU SANGUE. HONREMOS A SUA MEMÓRIA COM A NOSSA PRESENÇA NAS URNAS.
  

12.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XIII






O empregado voltou com a lista das sobremesas.
-Aconselho-te o pudim de pão. É muito bom.
Fizeram o pedido.
- Não tens saudades dos teus pais e irmãos? – Perguntou curiosa.
- Claro que sim, - respondeu com tristeza. Tenho cunhados e sobrinhos que nem conheço. Mas não posso voltar. Não enquanto Portugal mantiver uma guerra colonial, com a qual não concordo e que considero injusta. Quando vim, sabia que me estava a despedir deles para sempre. A menos que um dia haja uma reviravolta política, que acabe com a guerra e a colonização.
- E acreditas que isso vai acontecer algum dia?
- Acredito que sim. Mais dia, menos dia, a juventude vai acordar e dizer basta. Terão que ser os jovens, já que os outros, ou estão demasiado comprometidos com o regime, ou estão sem forças para lutar. Tinha grandes esperanças no General Humberto Delgado. Penso que se ele tivesse chegado ao poder, poderia ter mudado o curso da história. Mas os esbirros do regime, não deixaram
- Voltarias para Portugal, se o regime mudasse? 

26.1.17

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE IV





Depois ele montou uma pequena oficina nas traseiras, e ela, voltou à costura. Como não tinham filhos, todos os anos faziam uma grande viagem. Passeavam sempre que podiam e lhes apetecia e os anos foram passando, mas se a idade, fez com que as labaredas da paixão, se fossem aos poucos transformando num fogo mais brando, eles estavam cada dia mais unidos, mais companheiros, mais cúmplices.

15.2.16

MANEL DA LENHA - PARTE VIII

Voltamos hoje à história do nosso Manuel. Para os mais assíduos, encontrarão neste episódio uma história que já conhecem pois de toda a história eu fiz um resumo com a história das botas roubadas e do resultado desse roubo, que postei o ano passado com o titulo de "A história de um par de botas ... do estado".
foto do google
No quartel, Manuel faz amizade com outro soldado, o Varandas, também pertencente ao seu concelho mas de uma terra vizinha.
Uma amizade que se vai manter toda a vida. Um dia recebe uma carta de Laurinda, informando que tem mais um sobrinho. Desta vez, um rapazinho, mas Manuel, há muito que não vê a irmã e ainda não conhece os sobrinhos.  
A guerra propaga-se e muitos "filhos da escola" de Manuel, partem para África, na tentativa de defender as nossas colónias. E para os Açores. Entre os que partem está o seu grande amigo, Zé Varandas.
No quartel, Manuel recebe uma carta da Piedade, escrita pelo Sr. Américo, que mostra a aflição do seu coração de mãe, com as notícias dos soldados que vão para a “guerra”.
Dois anos depois, o Manuel está prestes a terminar o tempo de tropa e a passar à reserva. Nessa altura porém uma certa manhã, ao levantar-se deu por falta das botas.
 Quando ele viera para a tropa, o Sr. Américo, tinha-lhe dito “Manuel, tem cuidado com as tuas coisas no quartel. Anda por lá filho de muita mãe e de vez em quando, algumas coisas desaparecem. Se te faltar alguma coisa, não te queixes, tira essa mesma coisa a quem te ficar mais perto. Ele tirará a outro e no fim, tudo estará certo”.
Ele ouviu mas nunca lhe tinha faltado nada e aos poucos foi deixando de se preocupar. Naquele dia porém, não tinha botas para a formatura e como tinha acordado  depois dos outros, já não podia tirar as botas de ninguém. A poucos dias de sair tropa, Manuel, teve que participar a “perda” das botas. E tinha que pagar umas botas novas ao exército.
Como porém ele não tinha dinheiro para pagar as botas, e havia falta de mancebos nos quartéis, por via do “sangramento” para os Açores e para as colónias, foi-lhe proposto que ele poderia pagar a dívida ao estado com mais dois anos de tropa, "voluntária". Sem outra alternativa, aceitou.
Porém ao fim de três meses, Manuel que era ajudante de cozinheiro, estava farto, não só dos tachos e das panelas, como da vida da tropa, e num dia em que saiu de licença, depois de algumas voltas pela cidade, pensou que não o apanhavam mais no quartel, e desertou.