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30.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XII

 


O menino que conversava animado com a mãe, sobre as peripécias da festa de aniversário do seu amiguinho, calou-se quando entrou na sala, olhando espantado para o homem que ali se encontrava. A mãe, deu-lhe a mão e disse:

- Diogo, este é Fernando, um amigo da mãe, que veio passar uns dias connosco.
- Olá campeão, - disse ele ajoelhando para ficar à altura do menino e estendendo-lhe a mão. A tua mãe fala muito de ti, mas não pensei que fosses um menino tão bonito.
Sorrindo o garoto estendeu a mão, mas depois como quem muda de ideia, estendeu os braços para o pescoço do homem e deu-lhe dois beijos. 

Surpreso Fernando retribuiu o abraço tentando esconder a emoção, sem saber se sempre tinha sido assim sensível, ou se isso se devia ao acidente.

- Vamos filho, deixa o Fernando sossegado, está quase na hora de jantar, e tens que tomar banho.
-Jantar? Eu não tenho fome, mamã.
- Calculo. Mas pelo menos tens de comer uma sopa. Anda, vamos tomar banho.

Os dois afastaram-se, deixando Fernando inquieto. Aquilo não podia estar a acontecer, era demasiado surrealista, decerto era um sonho do qual acordaria em algum momento.

Tentou embrenhar-se na leitura, mas não conseguiu. Desde que recuperara a consciência, não lhe saía da cabeça a mesma pergunta. Quem raio era ele, e como fora aparecer numa estrada deserta, meio morto? 

A polícia dissera que não foi encontrado nas redondezas, nenhum automóvel acidentado. Teria ido a pé, e alguém o atropelara? Mas para onde ia a pé, se a polícia dissera que do local onde fora encontrado, até à cidade iam dez quilómetros? 

Por outro lado, também lhe disseram que as suas roupas embora meio despedaçadas, eram roupas caras. As suas mãos também não eram mãos de trabalhador. Então  quem raio era ele? E onde estava o carro? E porque ninguém avisava a polícia do seu desaparecimento? Será que ele era sozinho no mundo? Eram demasiadas perguntas sem resposta.

O menino voltou para a sala, de pijama e robe, e a mãe avisou que ia aquecer a comida para jantarem. Ele pousou o livro e dando a mão ao menino, disse.
-Vamos ajudar a mãe, campeão?
- A mamã não me deixa ajudar, desde que uma vez quebrei um prato, -
lastimou-se a criança.



16.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE IV

Há seis meses que era a secretária de Gabriel Santana. Conhecia a fama de predador sexual, do patrão, muito antes de ir trabalhar para a empresa. Daí tivera a ideia de se apresentar o mais insignificante possível. Naqueles seis meses, já revistara aquelas gavetas dezenas de vezes, sem nunca ter encontrado nada que o pudesse incriminar. Sabia é claro, que qualquer prova estaria no cofre. Mas quem sabe, às vezes um esquecimento lhe deixasse ver qualquer coisa que a levasse a confirmar as suas suspeitas de que o empresário era um homem sem escrúpulos, capaz de tudo nos negócios, mesmo que isso não tivesse nada a ver com o desfalque pelo qual o pai fora preso.  Serviria pelo menos para dar força às suas suspeitas, e tentar por todos os meios apanhá-lo. Mas não. Tudo certo, tudo legal. E ela sentia-se impotente, e muito cansada. Não sabia por quanto tempo mais aguentaria aquela pressão. E o pior, hoje é sexta-feira, há uma festa na academia de dança para angariação de fundos, todos vão ter que estar presentes, e ela sente-se devastada. Amanhã será dia de visitar o pai, e é sempre muito doloroso, ver como ele se encontra. Olhou o relógio. O patrão não voltara até aquela hora, por certo já não voltaria, devia ter encontrado algum rabo de saia, com que se entreteve.  Não interessa, está na hora de saída, precisa ir.
Às vinte e duas horas tem que estar na academia,  e antes precisa tomar um banho relaxante e descansar um pouco.
Acabava de abrir a porta para sair, quando Gabriel chegou:
- Onde pensa que vai? Venha ao meu gabinete!
Ficou furiosa.
- O meu horário de trabalho terminou há cinco minutos.
-Mas, preciso de si agora. Pegue o bloco e acompanhe-me.
Era arrogante e prepotente. Ela sentiu que o sangue lhe subia ao rosto.
-Desculpe senhor, mas terá que ficar para segunda-feira. Hoje não me posso atrasar.
Fitou-a furioso.
- Para quê tanta pressa? Decerto não tem nenhum encontro amoroso, - disse olhando-a depreciativo.
- O que faço nas minhas horas livres, só a mim me diz respeito. Boa-tarde.
Virou-lhe as costas.
- Se sair agora considere-se despedida! – disse-lhe quando ela já atravessava a porta.
Voltou-se e pela primeira vez desde há seis meses, fitou-o bem nos olhos.
- Não creio que a lei me obrigue a trabalhar depois da hora de expediente, senhor. Mas podemos sempre recorrer ao tribunal de trabalho.
E saiu deixando-o perplexo e furioso.


11.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE VI



Calou-se. Eva estava confusa. O coração dizia-lhe que o homem era sincero e podia confiar nele, a cabeça lembrava-lhe que o seu coração era muito ingénuo, e já a enganara uma vez, quando a levara a confiar no marido. E enquanto ela se debatia com estas contradições, ele poisou as chaves com que abrira a porta, em cima da mesa, virou-lhe as costas e começou a caminhar para a saída.
O facto de ele pousar as chaves que ela mesma lhe entregara, fez com que a levasse a confiar nele.
-Espera – disse pondo-se de pé. - Vem conhecer a casa. Se quiseres podes mudar-te hoje. 
A casa não é muito grande. Além desta sala, temos aqui uma sala de refeições, e aqui o quarto principal. É o único com casa de banho, - disse enquanto ia abrindo as portas, para lhe mostrar os respetivos aposentos. Esta parte da casa, bem como a cozinha e a casa de banho, foi remodelada e mobilada por nós, antes do casamento. Aqui é uma salinha de leitura,  que comunica com o quarto principal e o quarto de hóspedes. Estas duas divisões, como podes ver, estão mobiladas com um estilo diferente. Clássico, os móveis são antigos, já  estavam assim, quando o Alfredo herdou a casa, da madrinha, e não lhe mexemos, em parte porque o dinheiro para a reforma não abundava, e em parte porque enquanto não viessem os filhos, não precisaríamos delas. Aqui em frente temos uma casa de banho e  a cozinha. Podes ficar com o quarto principal, eu mudo as minhas coisas para o quarto de hóspedes.
-De modo nenhum. Eu fico no segundo quarto. De certeza que posso vir hoje? Não queres mais um dia ou dois para te habituares à ideia?
- Não! Hoje, amanhã, ou daqui a um mês, a dor e a vergonha, do que aconteceu, não diminuirão. Além do mais vai ser uma festa para a vizinhança, a tua presença aqui. Parece que já estou a ouvir os comentários. "Há uma semana enterrou o marido e já meteu outro lá em casa. Se calhar foi por causa dela que ele se matou."
- Se te preocupas com isso, podes dizer que sou da família.
- De modo algum. Não me preocupa o que pensem, estou de consciência tranquila.
- Bom, como já te disse, não quero prejudicar-te.  Peço-te que me desculpes se te pareci rude à bocado. Penso que estavas à beira de um ataque de nervos e foi a melhor maneira que encontrei para te tranquilizar.  Agrada-me a casa. Os hotéis são muito impessoais. Devo dizer-te que saio todas as noites e regresso tarde. Como te disse sou jogador profissional, uma profissão noturna. Procurarei não fazer barulho, quando entrar.
- Farei o mesmo de manhã, para que possas descansar. Agora vai.
Logo que André saiu, ela foi até ao quarto de hóspedes, e trocou a roupa da cama. Depois levou toalhas limpas para a casa de banho, verificou se estava tudo em ordem, e só depois voltou à sala e pegou na carta do marido. Deu-lhe várias voltas, antes de ter coragem de a abrir.
Por fim decidiu-se. E leu.

“Querida Eva:
Deves estar muito zangada comigo. Sei que fui um canalha, traí a tua confiança, destruí os teus sonhos, pus-te em perigo, e não consigo viver com o remorso daquilo que fiz. Não te peço perdão, porque eu próprio não me perdoo. Tenta esquecer que eu existi. Só assim poderás ainda ser feliz. Adeus.”

Escondeu o rosto entre as mãos e chorou amargamente.


7.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVIII


No gabinete, Teresa deixou-se cair na cadeira sem forças.
O que acontecera não podia ter acontecido de jeito nenhum. Quisera provocá-lo, dar-lhe a entender que podia haver alguém na sua vida, fazer com que sofresse. E bastara o contacto da boca dele na sua mão, para que o cérebro deixasse de fazer o que lhe competia, o coração empreendesse uma louca corrida, e todo o seu corpo reagisse, numa tremedeira inoportuna.  Como podia fugir daqueles sentimentos?  Tinha a certeza que ele sentira aquilo que lhe provocara. Como não? Conhecia-a como ninguém. Estava perdida.
Esperou com ansiedade o fim da manhã, para deixar o trabalho.
Tinha que estar às três na escola do filho. Era a festa de Natal, Martim ia entrar na récita e não cabia em si de tanto entusiasmo.
Tinha-lhe pedido quase a chorar para o ir ver, e não queria causar-lhe uma decepção.
Passou-lhe pela cabeça uma ideia peregrina. Que faria Rui se soubesse que tinha um filho?
Será que se importaria? Quereria conhecer o menino? Assumiria o papel de pai? Ele nunca assumira a relação deles. Nunca lhe falara de si, dos seus sonhos, dos seus anseios. Nunca lhe falara da família, nunca lhe dissera quem eram ou onde moravam. Só se importava com ela, na cama. Aí convertia-se num amante excecional, sempre preocupado em levar a companheira à loucura. Mas nem isso fora suficiente para continuar a seu lado Por fim acabou a manhã de trabalho.
A festa na escola, foi muito emotiva. As crianças cantaram, dançaram, e recitarem pequenos poemas. Estavam no palco com naturalidade e alegria. Por último, recriaram a história do nascimento do Deus Menino.
No fim, todas estavam muito felizes e os pais orgulhosos do talento dos seus rebentos.
Finalmente despediram-se de Tiago e do filho, e saíram pois Teresa ainda queria fazer umas compras, já que faltavam poucos dias para o Natal.
No carro, o garoto não se conseguia calar com as peripécias da festa.
Era uma criança muito extrovertida, muito alegre, fazia amigos com facilidade, e era muito popular. Teresa agradecia a Deus por o filho ser como era.
"Pensa em mim", - dissera Rui naquela manhã. Como podia deixar de pensar nele, se Martim era fisicamente o seu retrato? - Interrogava-se enquanto passava a mão na cabeça do filho, numa terna carícia.


Amigos consegui hoje consulta por causa da dor no braço que me tem deixado louca.
A médica diz que lhe parece ser uma tendinite e mandou fazer 10 dias de anti-inflamatório Naproxene, um relaxante muscular,  Sirdalud, e gelo. e mandou fazer RX à cervical, ombro e braço. E ecografia  tecido moles, ombro e braço. 


4.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVII





Durante as horas que se seguiram, Paula andou pela festa, cumprimentou alguns conhecidos, conversou um pouco com o Padre Celso, verificou se tudo estava a correr como ela tinha planeado e tendo a certeza disso, pelas dezoito horas despediu-se e abandonou a festa. Nunca em toda a sua vida lhe custara tanto, a passar, o tempo que estivera numa festa. Queria voltar a falar com o empresário, mas ele ignorou-a por completo, não lhe dando hipóteses de se aproximar. Assim abandonou o local sem se despedir dele. Entrou no seu carro, pôs o motor a trabalhar e arrancou, mas apesar de se sentir cansada não se dirigiu para casa, mas para o seu escritório. A tarde estava quente, o sol brilhava com intensidade, mas para ela o dia tinha perdido todo o encanto. Já no seu escritório, verificou as notas que Irene lhe deixara em cima da sua secretária, e depois pegou num bloco e escreveu. “Não aceites nenhum trabalho para o próximo mês. Vou de férias. Depois telefono-te” Arrancou a folha do bloco fechou, a porta e já na sala da sua secretária prendeu a folha no monitor do computador e saiu fechando a porta.
Em casa, dirigiu-se ao quarto, despiu o vestido que usara na festa, entrou na casa de banho, e abriu a torneira da banheira.
Habitualmente tomava duche mas quando se sentia cansada e nervosa como agora, preferia um demorado e relaxante banho de espuma.
Sentia-se tão cansada que quase adormeceu na banheira. Acordou com o arrefecimento da água e saiu envolvendo o corpo nu numa toalha. Sentou-se no banquinho em frente ao espelho a secar a sua farta cabeleira. Quando terminou mirou-se no mesmo, com um olhar analítico. Reparou nos círculos violáceos à volta dos olhos, fruto do cansaço e das poucas horas de sono dormidas ultimamente. “Meu Deus, vou dormir uma semana seguida” pensou. Secou-se, espalhou uma fina camada de creme hidratante pelo corpo e vestiu um curto top de alças e os calções do pijama.  Levantou-se e dirigiu-se ao quarto, onde se deixou cair sobre a cama sem nem mesmo puxar a roupa para trás. Dois minutos depois, qual bela adormecida, dormia profundamente.
Acordou com o som irritante do telemóvel. Abriu os olhos e surpreendeu-se com a luminosidade que invadia o quarto. Adormecera sem fechar a persiana e o cortinado não era barreira para o sol intenso que brilhava lá no alto. Saltou da cama para apanhar o aparelho que ficara em cima da cómoda, precisamente no momento em que ele deixou de tocar. Viu que a chamada era de Cidália, e constatou pelo registo que era a sétima vez que lhe ligava.
Olhou o relógio e verificou que já passava das catorze horas. Tinha-se deitado na véspera, ainda não eram vinte horas. Dormira mais de dezoito horas seguidas. Passou a mão pelo cabelo. E dirigiu-se à casa de banho. Telefonaria à madrasta depois da higiene matinal.
Meia hora mais tarde, sentada à mesa da cozinha, com uma chávena de chá e um prato de biscoitos na frente, recordava a festa do dia anterior, e tudo o que nela acontecera, quando o telemóvel voltou a tocar. Depois de um olhar rápido para o visor atendeu a chamada
- Estou…
-Paula? Graças a Deus, desde ontem à noite estou a ligar. Pensei que te tinha acontecido alguma coisa.
- Não me aconteceu nada. Estava mais cansada do que julgava, dormi desde ontem ao final da tarde até há minutos. Aconteceu alguma coisa?
-Não sei. Estou confusa. O teu pai acabou de sair. Telefonaram do acampamento a pedir se podia ir buscar o Miguel. O motorista que os levou teve um acidente, não podia ir buscá-los. Estavam a pedir aos pais se o podiam fazer. E eu gostava de falar contigo. Posso ir aí, ou estavas a pensar sair?
-Podes vir quando quiseres. Hoje não saio, preciso preparar algumas coisas vou de férias amanhã.
-Ok. Vou para aí. Até já.



3.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVI






-Suponho que ficarás para a festa - disse Gabi quando o almoço terminou
-Só até ver que tudo está a correr normalmente. Depois deixo-vos, que a festa é vossa, não minha.
- Eu gostaria de te pedir um favor especial. Podes ajudar a vestir-me?
-Claro que sim. Queres subir agora?
- Sim. Já passa da uma e meia, daqui a pouco estão aí os primeiros convidados.
-Vamos então. Mas espera, deixa-me ir ao carro buscar o meu vestido?. Posso vestir-me no teu quarto, não posso?
-Decerto que sim. Vai lá então buscá-lo.
Paula saiu e voltou pouco depois com o vestido e uma pequena bolsa. Subiram as escadas e entraram num dos quartos de hóspedes, em cuja cama se encontrava estendido o vestido de Gabi.
Paula pendurou o seu  no armário, e aproximou-se do leito para admirar o belo vestido.
-Não é lindo?- perguntou Gabriela.
- Maravilhoso.
-Era o mais belo da loja. Quando o Eduardo me pediu para escolher um vestido para uma cerimónia, que o Júlio queria oferecer à noiva, calculei logo o que ele e o meu irmão estavam a tramar. Os homens julgam-se muito inteligentes, mas não têm jeito nenhum para inventar uma história credível.
A jovem ia falando enquanto tirava as calças e a túnica que envergava, ficando apenas com umas minúsculas cuequinhas e o sutiã.  Paula pegou no vestido, uma maravilha de seda e renda em tom de champanhe, abriu o fecho e ajudou a jovem a vesti-lo. Tratava-se de um modelo comprido, sem mangas, de cintura vincada, a parte superior em renda e a longa saia em seda. O modelo apresentava um discreto decote em V na parte da frente, que se tornava muito mais generoso na parte de trás deixando as costas quase totalmente nuas, pelo que a jovem teve que tirar o sutiã.
-Estás linda, -elogiou Paula.
- Obrigada. Importas-te de me colocar a tiara? E diz-me uma coisa, há quanto tempo conheces o meu irmão?
- Há quinze dias, desde que foi à minha empresa contratar-me para realizar esta festa, - respondeu enquanto retirava da caixa uma bonita tiara de flores e pérolas e lha colocava na cabeça. Porque perguntas?
- Fiquei surpresa quando soube quem eras.
-Porque o teu irmão odeia o meu pai?
-O que sabes disso?
-Nada, a não ser isso. E tu?
Após uma breve hesitação Gabi respondeu:
-Era muito jovem quando tudo aconteceu e nem ele nem a minha mãe me quiseram dizer o que se passava. Só sei que foi por causa do teu pai que o meu irmão emigrou e esteve muitos anos longe de nós. Meu Deus são duas e meia. Onde estarão os meus sapatos?
Paula percebeu que estava a mentir. Ela sabia o que se tinha passado mas era evidente que não lho ia dizer. Por isso retirou os sapatos da caixa e passou-lhos dizendo:
-Se já não precisas de mim, vou-me arranjar. Preciso saber se o músico e o serviço de restaurante já cá estão e se está tudo em ordem.
-Claro. Adorei conhecer-te e espero que venhamos a ser boas amigas.

10.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXI





Estacionou o automóvel junto à porta e saiu. Percorreu com o olhar o vasto jardim, e franziu a testa, pensando se a jovem já se teria ido embora, porém logo deparou com o carro cinza estacionado junto à porta da garagem e um sorriso distendeu os seus bem desenhados lábios. Subiu os três degraus até ao alpendre e abriu a porta. Ouviu vozes na cozinha e encaminhou-se para lá. Paula e a governanta conversavam animadamente sentadas à mesa, com uma chávena de chá e um pires de biscoitos na frente.
- Bom dia, – saudou.
- Bom dia, senhor. Não o ouvimos chegar, - disse a empregada levantando-se  apressada.
Paula também se levantou. Vestia um fato de calças e casaco de seda azul, com decote em bico, e calçava sandálias de salto. Elegante e muito feminina.
- O que achas do jardim? -perguntou o recém chegado.
- Muito bonito mas não serve para o evento.
- Não? – Admirou-se ele
- Se vieres comigo explico-te.
Saíram e caminharam até ao lago circundado de bonitas flores.
- Bom, supõe que ponho o altar entre aquelas duas árvores, lá ao fundo junto ao muro. Teríamos que por duas filas de cadeiras para os convidados que segundo a lista que me enviaste é de oitenta pessoas. Duas filas de quarenta cadeiras que poderíamos por naquela parte, ali há poucas flores, podem ser transplantadas para outro local e tapar os estragos com pedaços de relva natural. Até aqui tudo bem, mas onde vou colocar as mesas para a festa? Usando mesas redondas precisaríamos de dez mesas grandes, para os convidados mais duas para apoio. Tinha que destruir todo o jardim.
- Já viste a parte de trás da casa? Tem um espaço bastante grande todo relvado até à piscina, que delimita a área entre o lazer e quinta propriamente dita. Não podíamos fazer a cerimónia aqui e a festa lá?
- Vamos ver.
Caminhando lado a lado contornaram a bonita moradia, um belo edifício de dois pisos.
- É uma bela casa- disse a jovem.
-Gostas? Comprei-a há dois anos. Inicialmente porque era um bom negócio, pensava voltar a vendê-la, mas depois decidi ficar com ela. É um local sossegado, tem bons ares, muito espaço para as crianças, é o ideal para uma família, não achas?
Não respondeu de imediato. Não sabia o que se passava com ela em relação ao empresário. Começara por sentir um sentimento de raiva quando soube o que ele fizera ao pai, exacerbado quando o pai lhe pediu para casar com ele. Entretanto a raiva fora sendo substituída primeiro pela curiosidade, depois pela admiração, e mais tarde por uma inquietação, quando falava ou pensava nele. E pensava nele vezes demais para o seu gosto, tanto mais que quase esquecera, Adolfo, o médico com quem mantivera uma relação de quatro anos e cuja traição a levara a querer distância de todos os homens.
De súbito, António agarrou-lhe no braço e parou, obrigando-a a fazer o mesmo.
- Que aconteceu? – Perguntou abrindo os olhos de espanto sem saber se era por ele ter interrompido os seus pensamentos, se pelo choque elétrico que percorria o seu corpo, com a sensação que a mão dele provocara no seu corpo.
- Diz-me tu, - respondeu. -Porque de repente fiquei com a sensação que te ausentaste e me deixaste a falar sozinho.

9.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XX



-Sim…
- Tenho a dona Paula Maldonado ao telefone. Pode atender?
-Sim, claro. Passe-me a chamada por favor.
- Estou: Bom dia Paula. Porque não ligaste para o meu telemóvel?
- Não é uma chamada pessoal. Prefiro tratar os negócios pelo telefone. Preciso conhecer o local da festa, com urgência. O espaço temporal é demasiado curto e ainda não me disseste onde se vai realizar a festa.
- Falaste numa festa ao ar livre e eu gostei da ideia. Tenho uma casa em Sintra, numa pequena quinta. Só lá vou aos fins-de-semana, mas tem um bonito jardim, com um pequeno lago, penso que seria o ideal.
-Preciso vê-lo. Saber onde fica a igreja mais próxima, ir falar com o padre, uma infinidade de coisas.
-Eu mesmo gostaria de te levar lá, mas vou ter uma reunião dentro de meia hora com o meu sócio. Não podes deixar a visita para mais tarde?
- Prefiro ir já.
-Muito bem. Vou enviar-te a morada. E telefonar à governanta para que te mostre o jardim. Entretanto logo que termine a reunião vou lá ter. Almoçamos e depois podemos ir juntos falar com o padre. Além disso,- apressou-se a dizer, antes que ela recusasse. – Gostava de te mostrar a casa, e de ter uma ideia do que pensas fazer.
- Bom, manda então a morada. E vou falar com o padre, sozinha. Não quero correr o risco de encontrar alguém conhecido, e alimentar boatos em revistas cor-de-rosa. Vou desligar. Até logo!
António desligou a chamada, enviou a mensagem com a morada e ficou pensativo. A ele também não lhe agradavam os boatos, mas não desdenharia nada de sair nas revistas como noivo dela, se isso fosse verdade. Pelo contrário ia sentir-se muito feliz. Cada dia que passava, mais pensava nela. E não tinha nada a ver com a vingança que durante tantos anos alimentou contra o pai dela.
Na verdade sempre que pensava na jovem, conseguia imaginar muita coisa, mas nada que a ligasse ao pai e ao seu desejo de se vingar.  Desejo que aliás pôs de parte, por ela. Nunca em toda a sua vida sentiu algo parecido por outra mulher. Estaria apaixonado?
Foi interrompido nos seus pensamentos, por uma batida na porta, e logo Susana, a sua secretária entrou dizendo:
- Chegou o senhor Júlio Correia, e doutor Eduardo Soares.
- Faça-os entrar. E pode retirar-se. Se precisar de si, chamo.
Os dois homens entraram no escritório, e a secretária retirou-se fechando a porta atrás de si.
António levantou-se e os três homens, cumprimentaram-se de forma amistosa.
- Sentem-se. Querem tomar alguma coisa?- Perguntou António.
- Não, - disse o seu sócio. – Deves lembrar-te que nunca bebo de manhã.
-Eu também não, acabei de beber um café, -disse Eduardo, antecipando-se à pergunta do cunhado.
- Então vamos lá trabalhar. Já marcaram a escritura em Faro?
- Está agendada para depois de amanhã às quinze. Vais connosco não é verdade?- Perguntou Júlio.
- Bom, não era necessário, mas o Eduardo diz que fazes questão na minha presença.
- Sinto-me mais confiante assim. Somos amigos, mas também somos sócios, e lembras-te de quando tinhas o boletim premiado? No mesmo dia quiseste que fossemos a um advogado para firmar uma sociedade. Quando te disse  que não era necessário, porque confiava em ti, disseste. “Amigos, amigos, negócios à parte.” Hoje digo-te o mesmo.
-Não é a mesma coisa, além de que o Eduardo estará lá com o doutor Alcides, teu advogado, e podes ter a certeza que eles terão muita atenção a todos os pormenores da compra. Irei convosco se fazes questão, mas esse negócio tal como os outros relacionados com os automóveis, terá que ser dirigido por ti, eu já tenho imenso trabalho com os restaurantes e a Imobiliária.
-Então está combinado. Vamos depois de amanhã às nove horas.Outra coisa. Sabes que vou casar no final do próximo mês? - Perguntou Júlio.
- Penso que já tinha ouvido alguma coisa sobre o assunto. Os meus parabéns.
- Obrigado. Eu ficaria muito feliz se aceitasses ser o meu padrinho.
Aceitas?
- E eu sinto-me honrado com o convite. Claro que aceito, - disse levantando-se e abraçando o amigo. – Depois conversamos sobre isso. Agora tenho que sair, tenho um compromisso em Sintra.


6.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XVIII


- Não conheço a tua irmã, mas vou dar o meu melhor, para que seja uma festa memorável.
-Quer isso dizer que voltas a confiar em mim?
- Será difícil de entender, que embora pareça, que me conheces bem, eu não me lembro de ti? Meu pai disse-me que o tinhas arruinado, e que exigias casar comigo para o tirar do buraco onde tu mesmo o tinhas metido. Tu apareces na minha empresa, e dizes que só lhe fizeste semelhante proposta, porque sabias que eu não ia aceitar. O que me leva a pensar que era uma nova forma de te vingares dele, por algo que te fez e que não me contas. Dizes que porás de parte a vingança a troco da realização da festa da tua irmã. Confiante aceito fazer a festa, e três dias depois, executas a hipoteca. Parece um jogo do gato e do rato, sendo eu o rato. Estou muito cansada, tenho trabalhado, quase noite e dia. Põe-te no meu lugar e responde à tua própria pergunta.
- Não confias, mas sendo a profissional responsável que és, farás a melhor das festas que fizeste até hoje.
Abriu uma gaveta, retirou um envelope grande, e estendeu-lho:
- Vê o que há nesse envelope.
Ela retirou do envelope uma série de documentos e analisou-os. Tratava-se de toda a documentação da “Casa Nova”.
-São os documentos que meu pai te entregou?- Perguntou encarando-o.
- Como vês estão aí todos, inclusive o resgate da hipoteca do teu pai, ao Banco. Com ela na mão a empresa volta a ser do teu pai, pois possuí-la, prova que a dívida foi paga. Pois bem se me prometes que não lhos dás antes da festa da Gabi, são teus.
-Quer dizer que se eu te fizer essa promessa os posso levar?
-Exatamente isso.
-E quem te diz, que não vou sair por aquela porta, entregar os documentos ao meu pai e desistir de fazer a festa da tua irmã?
-Acredito na tua palavra. Sei que cumprirás o que me prometeres.
Ela voltou a guardar todos os documentos no envelope e estendeu-lho.
- Podes voltar a guardá-lo. Entendi a lição. Desculpa o destempero com que entrei aqui, e a minha dúvida. Não voltará a acontecer. Tenho que ir. Estou a acabar os pormenores de uma festa para depois de amanhã, no Estoril. No dia seguinte, entro em contacto contigo para que me digas onde se realizará a festa, já que no “email” que mandaste não especificaste o local, e só depois de o ver posso organizar tudo.
- Muito bem. Fico há espera. Enviei – te o número do meu telemóvel pessoal.  
Levantaram-se os dois ao mesmo tempo. Ela estendeu-lhe a mão, que ele apertou entre as suas, como se a acariciasse. Ela corou e apressou-se a retirar a mão. Voltou-lhe as costas, dirigindo-se à porta e saiu fechando-a suavemente atrás de si.
Pensativo António voltou a sentar-se. Cada dia gostava mais da jovem. Dava parte da sua fortuna, para que ela sentisse por ele, a mesma emoção que lhe despertava. Tinha elaborado aquela estratégia com a intenção de ganhar a sua confiança. Sabia que ela estava desiludida com os homens. Sabia que  fora traída. E isso devia ser um espinho cravado no seu peito. Para ganhar o seu amor tinha que ganhar primeiro a sua confiança.


4.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XVII



Três dias depois, uma Paula furiosa, irrompeu no escritório de António, seguida de perto pela secretária que se desculpava por não ter conseguido impedi-la, e perguntava  se chamava o segurança.
-Não é necessário chamar o segurança. Pode voltar ao seu lugar. Se precisar de si chamo.
A empregada saiu fechando a porta atrás de si.
- Senta-te e diz-me ao que vieste. Mas antes deixa-me perguntar-te uma coisa. És sempre assim tão impetuosa?
- Disseste que podia confiar em ti. Que ias salvar o meu pai em troca da festa da tua irmã. E a Cidália acaba de me dizer que resgataste a hipoteca e ficaste com todos os documentos da “Casa Nova”.
- Quem é a Cidália?
- A mulher do meu pai. Mas isso não importa. Só vim para te dizer que não prestas. Não tens palavra.
- Antes que o teu génio te faça dizer alguma coisa de que tenhas que te arrepender, respira fundo, tenta acalmar-te e diz-me como é essa mulher? É tua amiga?
- Minha amiga? Muito mais que isso. Cidália foi para mim a melhor das mães.
- Muito bem. E ela não te disse que pedi ao teu pai para não despedir ninguém, e continuar à frente da empresa até ao final do mês? Que só nessa altura legalizaríamos a transação em cartório?
- E depois, o que quer isso dizer? Que queres prolongar a agonia dele? Que diabo pode ele ter-te feito para o odiares assim?
Irritado ele pôs-se de pé. Contornou a mesa e chegou junto dela.
- Diz-me que não pensaste a sério no que acabas de dizer. Não me faças pensar que és igual ao teu pai.
O seu rosto estava tenso, o olhar brilhava de raiva, os punhos crispados.
Paula, teve a certeza de que a suas palavras o tinham magoado. E de súbito percebeu porque ele não tinha querido que o pai despedisse o pessoal, fechasse a empresa ou fizesse qualquer alteração até ao fim do mês, porque era a data da festa da irmã. Ele ia restituir ao pai os documentos, nessa altura, mas por alguma razão, que ela não conhecia, queria fazê-lo sofrer durante o tempo que faltava. Levantou-se e ergueu para ele um olhar suplicante.
- Desculpa. Já percebi que fiz asneira. Disseste para confiar em ti, mas é tão difícil confiar em alguém que não conhecemos, especialmente…
Voltou a sentar-se, sem terminar a frase.
Satisfeito com o pedido de desculpas, ele voltou para o seu lugar, dizendo:
- Especialmente quando fomos traídos por aqueles que amamos, não é verdade?
-O que queres dizer com isso? Que sabes, da minha vida?
- Refiro-me ao pouco-caso que o teu pai te ligava depois da morte da tua mãe. Pelo que disseste da tua madrasta, acredito que o seu casamento foi a melhor coisa que te podia ter acontecido. Não me olhes espantada. Eu lembro-me da menina triste e solitária que eras, embora tu não te lembres de mim. E agora, em que ficamos? Conto ou não contigo para proporcionar à minha irmã uma festa de sonho?


Porque amanhã é um dia especial esta história continua no sábado.


1.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XIV




- E o espaço? Onde se realizará a festa? Não consigo fazer um projeto sem conhecer o espaço. Também preciso saber se a festa é diurna ou noturna. Se bem, que tendo renovação de votos terá que ser de dia, os sacerdotes, não trabalham de noite a não ser para dar a extrema-unção, a algum moribundo. E sendo assim, até pode ser ao ar livre. No fim do mês teremos entrado no Verão, uma festa ao ar livre seria uma boa ideia.

Parecia ter esquecido tudo o que acontecera antes, a discussão, a raiva, até o homem que a observava com um meio sorriso nos lábios, pensando que o segredo do seu sucesso, era a alma que ela punha naquilo que fazia. Por fim levantou a cabeça e olhou-o.

-Algum dos teus restaurantes tem um jardim bonito? – Perguntou

António olhou o relógio e disse:

- Tenho que me apressar, tenho uma reunião importante dentro de meia hora. Receberás amanhã todas as informações que desejas, para poderes iniciar os teus projetos. Pôs-se de pé e aproximou-se dela que também se levantara.

Apertou entre as suas, a mão que ela lhe estendia, dizendo:
-Acredites ou não; gostei de conhecer-te. É uma pena que o teu pai não te mereça.
Voltou-lhe as costas e saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a desconcertada.
Quando trinta segundos mais tarde, Irene entrou depois de uma ligeira batida na porta, ainda a encontrou de pé no mesmo sítio.
- E então, o que queria o nosso homem?
- Uma festa para o fim do mês.
- Que pena não poderes aceitar!
-Aceitei. Vai mandar por correio eletrónico, a lista dos convidados e o local.
- Aceitaste? Mas e a festa do casal Ferraz?
-É dia dezoito. Ficam doze dias até ao fim do mês. Vou conseguir nem que passe as noites sem dormir. É demasiado importante.
- Se tu o dizes… só espero que não adoeças a meio do trabalho. Há meses que não paras. E já agora que tipo de festa é que ele quer.
-A celebração de umas bodas de estanho com renovação de votos, para ofertar à irmã. A propósito, já fizeste a encomenda dos adereços para a festa do casal Ferraz? Pediste urgência?
-Está tudo tratado. Entregam depois de amanhã.
- E o conjunto musical escolhido, está disponível nesse dia?
- Estarão lá, não te preocupes.
- Ótimo. Telefona à Margarida Souto e pergunta se ela tem algum tempo disponível este mês, depois do dia dezoito. Preciso da sua colaboração
-Vou já tratar disso. Mas antes satisfaz a minha curiosidade. O homem é arrogante ou simpático?
- Nunca ouviste dizer que a curiosidade matou o gato? Vai lá telefonar à Margarida que o modo de ser do cliente não nos deve interessar.
- Pronto, está bem, - disse encaminhando-se para a porta. – É que não entendo como foste aceitar mais essa festa, se estás de rastos com tanto trabalho.
Não, ela não podia entender que daquele trabalho, dependia a salvação da sua família, porque Irene não ia adivinhar que o seu pai estava arruinado, e ela não tinha nenhuma intenção de lhe contar.

28.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XI



Paula chegou ao escritório no dia seguinte, pelas catorze horas.
Tinha trabalhado no dia anterior até às dez da noite e toda a manhã daquele dia,  mas estava tudo pronto para a festa.  Agora só tinha de se preocupar em estar presente no início da festa, e assegurar-se que ela ia decorrer sem nenhum incidente que lhe roubasse o brilho. Era sempre assim. Ela estava presente em todas as festas, mas só até se assegurar que tudo estava a correr como ela planeara. Depois despedia-se dos anfitriões e regressava a casa. Não se sentia bem naqueles ambientes tão cheios de hipocrisia. Ela era muito frontal. Gostava da verdade acima de tudo. Saudou Irene e dirigiu-se para o seu gabinete, seguida pela secretária.
- Já terminaste a decoração do salão?
- Trabalhei ontem até às dez e esta manhã, mas está tudo pronto.
Falta-me confirmar data e hora com a empresa de segurança que vai estar presente. Podes fazer isso em seguida. E o “rei” da Cozinha Portuguesa, sempre vem?
- Tal como te disse ao telefone ontem à noite, telefonaram de novo à tarde para saber a resposta e eu marquei para as quinze.  Estou muito curiosa. Não é costume que os futuros clientes, queiram marcar uma entrevista contigo. Por norma, sempre nos contactam por telefone, ou correio eletrónico. E só já quase em cima do evento é que aparecem. E às vezes nem chegam a aparecer, são as secretárias ou os agentes que tratam de tudo. Não estás curiosa?
- Nunca ouviste falar em milionários excêntricos? Ou maníacos do trabalho?
- Dos primeiros já ouvi falar, mas nunca conheci nenhum. Maníacos do trabalho, tenho uma na minha frente. Bom se não tens nada urgente para mim vou para o meu lugar.
Dirigiu-se para a porta, mas antes de a abrir voltou-se e batendo a mão na testa disse.
- Ah! Já me esquecia. Chegou a resposta do Ferraz. Aprovou a primeira opção. A festa vai ser ao estilo dos gloriosos anos vinte. Vou encomendar os endereços.
  Irene saiu e Paula olhou o relógio. Catorze e vinte e cinco. Levantou-se e foi até à janela. No céu sem nuvens o sol brilhava aquecendo tudo à sua volta. Estava-se na Primavera, mas os dias já anunciavam o Verão que se aproximava. Na rua não andava muita gente. Não era para admirar, quem não estava a trabalhar, não saía aquela hora. Voltou para a secretária. Estava nervosa. A situação da sua família preocupava-a. Nunca fora muito chegada ao pai, talvez porque ele também não se tivesse preocupado em criar laços de carinho, quando ela mais precisava. Mas gostava muito da madrasta, e adorava o irmão. E depois havia aquele homem que ela não conhecia, e que o pai dizia que o podia salvar da ruína, em troca de se casar com ela. Tinha cabimento uma coisa assim? Retirou da mala, um pequeno espelho e olhou-se, tentando descobrir o que poderia ter levado aquele homem a semelhante disparate. Os seus cabelos negros como asa de corvo, estavam penteados para trás e presos num coque. O rosto moreno era na sua opinião vulgar. O nariz não era grande nem pequeno nem sequer arrebitado. A boca pequena era cercada por lábios grossos que seriam mais bonitos se os realçasse com um batom atraente. Porém só usava maquilhagem quando se deslocava às festas. Tinha um bonito sorriso, mas vulgar. A única coisa que reconhecia, ter muito bonitos, eram os olhos.  De um verde intenso e límpido como esmeraldas, quando estava calma, ou verde escuro como jade, quando alguma coisa a tirava do sério. Voltou a olhar o relógio. Catorze e cinquenta e cinco. Estava cada vez mais nervosa. Ligou o computador e abriu o esboço da festa do Ferraz.


27.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE X



Meia hora mais tarde, Paula tinha delineado o que seria a festa de aniversário de casamento de um conhecido casal da alta sociedade portuguesa, e tomava notas sobre tudo o que ia precisar, para o evento, quando Irene a sua secretária a interrompeu.  
-Acaba de chegar a encomenda que fizeste para a festa de Cascais. E ligaram dos escritórios da imobiliária “Um sonho, uma casa” para marcarem uma entrevista contigo. Parece que é o próprio dono que quer negociar contigo a realização de um evento.
Paula ficou a olhar para a sua secretária surpreendida. A sua primeira reação seria dizer que tinha a agenda preenchida para os próximos meses. Parece que de um momento para o outro, tudo à sua volta tudo girava em volta daquele homem. Primeiro foi a visita da madrasta, depois o pai, agora era o próprio empresário.
-Tinhas-me dito – continuou a secretária, alheia aos seus pensamentos, - para não fazer marcações para as próximas três semana, que ias tirar umas férias, quando terminasses a festa no Estoril, dos Ferraz, mas como é um empresário importante, não sei se queres adiar as férias, pelo que pedi para ligarem mais tarde, porque não estavas e tínhamos a agenda cheia para o mês todo. Se voltarem a ligar o que é que eu faço?
-Diz-lhe que poderei atendê-lo, amanhã às quinze horas.
- Mas amanhã não ias estar todo o dia lá no salão de festas,em Cascais, por causa da festa dos Couceiro, no próximo Domingo?
- Ia. Mas tenho interesse em saber o que esse senhor quer. O salão pertence à paróquia, vou falar com o padre e pedir-lhe se posso ir à noite acabar o que faltar.
- Bom, tu é que sabes. Mas estás a pensar desistir das férias? Tens trabalhado demais.
- Enquanto conseguir executar os trabalhos dentro do prazo, não é demais. Leva esta lista e confere se não falta nada do que pedi na encomenda que vieram entregar. E depois põe tudo na mala do meu carro.
Irene saiu e Paula voltou a enfronhar-se no trabalho. Durante mais de uma hora, fez esboços, tomou nota de materiais, viu preços. Por fim numerou cada esboço, cada lista de material, voltou a fazer contas e acrescentou ao esboço o orçamento. Tudo pronto carregou no botão da secretária.
- Já conferi a encomenda e já está no teu carro, - disse Irene ao avançar para a secretária da sua chefe.
- Tens aqui estes três esboços, orçamentados. Envia-os por fax, para o escritório do senhor Ferraz, para aprovação. Pede urgência na resposta a fim de que possamos ter tudo pronto para a festa.  Leva estas listas, cada uma está numerada com o mesmo número do esboço. Dependendo do que eles escolherem, fazes a encomenda do material. Contactas os fornecedores do costume. Depois é necessário contactar os jornalistas das principais revistas cor-de-rosa. Vê se consegues algumas para essa data.
-Muito bem. Vou mandar os esboços agora e depois do almoço, contato os jornalistas. Não deve haver problema, uma festa destas à borla, ninguém rejeita. O resto só depois de saber qual o esboço que eles vão aprovar. E o “catering”, é o mesmo do costume? Tratas tu disso?
-Não. Desta vez o cliente não quer os nossos serviços a esse nível. Diz que já tem tudo tratado, logo é menos uma preocupação que temos. Vou almoçar e depois sigo para Cascais. Em princípio, não volto hoje ao escritório. Qualquer urgência, liga-me.
-Ok. Bom trabalho.



NOTÍCIAS
Como sabem, estive ontem à tarde a fazer exames médicos por causa do olho e as notícias não são de modo algum aquelas que eu gostaria. A retina mantém-se colada, mas a córnea continua muito maltratada. O Professor, diz que eu tenho um suporte de silicone que será para retirar numa nova cirurgia, se a córnea recuperar o suficiente para colocar a lente. Se isso não acontecer, só com transplante da mesma posso ter esperanças de voltar a ver como deve ser. Entretanto como há apenas um mês que fiz a segunda cirurgia, vamos ter esperanças que a córnea recupere até ao dia 14 de Maio, altura em que vou voltar a fazer exames e à consulta. Entretanto mandou parar com as gotas de antibiótico que estava a fazer e mudou para gotas de cortisona.

1.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XV



Horas depois, já quase noite, Tiago regressou. Durante o jantar, ele e Ricardo fizeram as honras da conversa, enquanto Clara apenas se preocupava com a refeição das crianças.
Tiago, foi uma revelação para o cunhado, surpreso com a educação e maturidade do jovem.
Depois do jantar, na sala, Tiago sentou cada um dos meninos nos seus joelhos e começou a contar-lhes histórias engraçadas, imitando alguns animais, fazendo com que as crianças rissem e também os quisessem imitar.
Feliz, por ver a alegria dos filhos, Ricardo olhou para Clara que lhe retribuiu um olhar firme, como se lhe dissesse: “Eu não te disse que o meu irmão era um bom miúdo? Aí o tens. Vê com os teus próprios olhos”.
Algum tempo depois, Clara ergueu-se e disse:
- Vamos lá, meninos, preparar para dormir.
Tiago deu um beijo a cada um e colocou-os no chão. Soraia, voltou-se para o pai e perguntou:
-Vens pai?
- Ontem não nos contaste uma história, - acrescentou o irmão.
-É claro que vou convosco, - disse o pai, pondo-se de pé. E ontem não houve história, porque vocês adormeceram à saída da festa.
As crianças apressaram-se a sair da sala seguidos pelo pai, e por Clara.
Entraram no quarto, e dirigiram-se para a casa de banho, a fim de escovar os dentes, sem necessidade que nenhum dos adultos lhe mandasse, o que levou Clara a pensar, que eles já tinham bem presente esse hábito. Enquanto eles estavam na casa de banho, vigiados pelo pai, Clara abriu as camas e colocou em cima de cada uma, os respetivos pijamas.
Mais tarde, as crianças, já deitadas, Ricardo pegou num livro e sentando-se na cama do filho começou a ler.
-Hoje é dia de te sentares aqui, na minha cama, - reclamou a menina. - No sábado ficaste aí.
Ricardo fez uma festa na cabeça do filho, e foi sentar-se na cama da filha. Enquanto ele lia, Clara ia mentalmente alterando toda a decoração do quarto, de modo a fazer com que os meninos não entrassem em disputa, e estivessem mais perto um do outro.
Quando eles adormeceram os dois saíram do quarto e regressaram à sala.
Tiago pôs-se de pé assim que eles entraram.
- Desculpem-me, mas também me vou deitar. Estou cansado. Posso usar a piscina amanhã?
- Claro, - disse Ricardo. A partir de agora esta casa, também é tua. Só não gostaria que trouxesses amigos para cá. Gosto de preservar a intimidade da família.
- Obrigado. Fica descansado, também me apraz essa intimidade. Boa noite.
O silêncio instalou-se entre os dois, depois que Tiago saiu. Por fim Clara, dando sequência aos seus pensamentos disse:
- Pelo que entendi da nossa conversa, tens esta semana de férias, não é verdade?
-Sim. Porquê?
- Não me agrada o quarto das crianças. Não se trata de comprar novos móveis. Creio que posso fazer com que fique mais agradável para eles com uma pequena mudança. Se os entretivesses de manhã no jardim ou na piscina, eu cuidava disso.
-Muito bem. Depois, enquanto dormem a sesta, se não estiveres muito cansada, podemos ir à vossa antiga casa, para ver o que queres trazer, e o que vais entregar à tal instituição, a fim de desocupares a casa e entregares a chave ao senhorio.
- Amanhã se vê. Gosto de ler antes de adormecer, vou à biblioteca escolher um livro. Boa noite Ricardo.
-Boa noite Clara.
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E porque hoje é o dia internacional do idoso



Provavelmente as cabeças grisalhas vão ter hoje uns mimos. E depois? O que é que este dia muda na sua vida cada vez mais difícil, não só pelas mazelas da idade, mas porque aos poucos foram perdendo os poucos recursos que tinham, seja por via estatal, seja, porque os mais novos se viram obrigados a emigrar e não podem por isso ajudá-los, nos 364 dias restantes? Os idosos não precisam de um dia. Precisam de medicamentos, de companhia, e de um mínimo para viverem ou morrerem com dignidade.