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1.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XIII



Jantaram na cozinha. Helena, ia pôr a mesa na sala, mas Fernando pediu para o fazerem ali, e ela acedeu. Afinal tinha-lhe dito que era ali  que sempre o fazia com o filho, insistir em comer na sala, seria tratá-lo como uma visita, e ela queria que ele se sentisse o mais possível integrado na família. Pensava que isso poderia contribuir, para que a memória voltasse. 

O menino comeu apenas duas ou três colheres de sopa, dizendo que estava muito cheio, e a mãe não insistiu, não sabia o que tinha comido na festa, e não queria que ele ficasse mal disposto. Então saiu da mesa, foi buscar um carrinho e sentou-se no chão a brincar. Eles comeram em silêncio, cada um imerso nos seus pensamentos. 

Terminada a refeição, e enquanto ela fazia os cafés ele levantou a loiça da mesa, passou os pratos por água e meteu-os na máquina. coisa que fez com grande à-vontade, o que levou Helena a pensar que devia estar habituado a fazê-lo. “Provavelmente, é casado, está habituado a partilhar as tarefas com a esposa, ou pelo menos com a namorada” pensou e sem saber porquê sentiu que o coração se entristecera com aquele pensamento. 

Por outro lado, se ele fosse casado, a esposa não participaria o desaparecimento dele? Se  fosse seu marido ela revolveria céus e terras para o encontrar. Sentiu que corava, com aqueles pensamentos. Debruçou-se para levantar o filho do chão.

- Vamos filho, são horas de ir para a cama.
- O “tio” Fernando podia ler-me a história hoje? – perguntou a criança.
- Se a tua mãe deixar.
- Deixas, não deixas, mamã?
- Está bem. Mas primeiro temos que ir lavar os dentes.

O menino seguiu para a casa de banho com os dois adultos atrás.
Pouco depois, já deitado, a mãe aconchegou-lhe a roupa. Fernando abriu o livro que estava em cima da mesa-de-cabeceira e começou a ler a história de Pedro e o Lobo. Não tardou que a criança adormecesse, e depois de um beijo de boas noites, saíram fechando a porta e dirigiram-se para a sala.

- Estou espantada com o Diogo. Regra geral é tímido com os desconhecidos. A própria educadora, se queixa disso. E contigo, foi como se te conhecesse desde sempre.
-Fico contente que tenha gostado de mim. Talvez sinta a falta de uma figura paterna. O pai não vem vê-lo?
- Não.
- Morreu? Desculpa, não tens que responder, se isso te aborrece.
- Não. Desde muito nova sempre tive o sonho de ser médica e para se entrar na faculdade de medicina são precisas boas notas. Depois de terminar o curso fiz especialização em cirurgia enquanto estagiava num hospital. Completamente entregue aos estudos, não tinha tempo para namoros. 

Resumindo era muito inexperiente, quando conheci o pai dele. Deslumbrada, apaixonei-me loucamente,  mas para ele era apenas mais uma aventura. Já tínhamos acabado quando soube que estava grávida, e entendi que um filho não mudaria nada dos seus sentimentos por mim, nem acabaria com a minha desilusão. Não lhe contei Tinha a certeza de que se o fizesse, ele quereria que eu abortasse.  Bom, estou cansada. Vou-me deitar. Boa noite.
- Boa noite, doutora! Dorme bem!



Atenção, o capítulo de Sexta-feira, sairá amanhã, porque Sexta vai ser dia de festa por aqui.


12.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XVI






- Deves estar muito contente.
- Por voltar a ver, sim. Mas vinha doido para ver a sua neta. Que se passa com ela?
- Não sei, Hélder. Diz-me tu, porque a queres ver? Desde quando sabias que era ela?
- Quase desde o primeiro dia. A dona Lucinda conhece-me desde sempre. Sabe da amizade que me unia à sua neta. Também sabe como fiquei meio perdido quando os meus pais morreram. Sei que pode parecer estranho que tenha sido uma miúda, a fazer com que me reencontrasse, eu que era, já na altura um homem.

- Mas foi o que aconteceu. Ela era encantadora, tão simples, tão natural, e eu sentia-me feliz a orientá-la nas leituras, a mostrar-lhe o mundo como eu o via. Era como se tivesse uma irmã mais nova, para amar e proteger. E esse sentimento levou-me a recuperar da dor e desorientação em que a morte dos meus pais, daquela forma trágica, me tinha deixado.

- Por muito estranho que pareça, dada a nossa diferença de idades,  durante quatro anos, fomos os melhores amigos do mundo. Depois um dia descobri que se tinha apaixonado por mim. Fiquei zangado. Foi como se a vida me tivesse roubado de novo, como se a minha irmãzinha tivesse morrido. E de certa forma assim foi, já que desde esse dia, nunca mais fui capaz de a ver, ou de pensar nela, da mesma maneira. 

 -Fui para Lisboa, empreguei-me numa loja, e aluguei um pequeno apartamento com outro colega. Comecei a escrever. Sempre gostei muito de o fazer, mas nunca pensei que a minha vida seguisse esse rumo. Mas o livro foi um sucesso estrondoso, e de repente, o livro era traduzido em várias línguas, as edições sucediam-se, até se projetava um filme baseado nele, e então deixei o emprego e dediquei-me apenas à escrita. 

-A recordação de Isabel nunca me abandonou. Era algo muito íntimo. Fazia parte de mim. estava sempre à espera de poder voltar a vê-la. Depois sofri o acidente deixei de ver, e durante muito tempo estive apenas centrado na tentativa de recuperar a visão. Quando perdi a esperança, voltei para casa. E de novo Isabel, veio e me salvou. Porque foi desde que tive a certeza que ela estava comigo, que a minha visão começou a dar sinais de querer voltar.  

-Durante estes meses, eu descobri porque é que nunca me interessei a sério, por nenhuma mulher nestes dez anos. O amor pela sua neta enchia o meu coração. Neste último mês, vivi entre o Céu e o Inferno, com o desejo de lhe confessar o meu amor, e o medo de não poder oferecer-lhe, nem sequer um olhar apaixonado. E agora que os meus olhos lhe podem mostrar o que me vai na alma, ela não quer falar comigo, e estou desesperado.

Calou-se. A senhora estava emocionada.
- Sabes de uma coisa, Hélder? Vocês hoje em dia são demasiado complicados para o meu gosto. A Isabel ama-te desde menina e foi-se embora em desespero, convencida de que nunca corresponderias ao seu amor.
- Convencê-la-ei do contrário. Só não sei onde encontrá-la.

- Eu sei. E vou ajudar-te. Mas tens que me prometer trazê-la de volta. Estou velha, não gostava de morrer, sem a ver feliz.
Inclinou-se para a mesa, apanhou um bloco e escreveu uma morada. Depois arrancou a folha, e deu-lha. Ele abraçou a idosa e deu-lhe dois carinhosos beijos.
- Fico-lhe eternamente grato, avó. Parto depois do almoço.

3.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XII

Um mês depois, tinha-se estabelecido uma grande amizade entre os dois. O livro estava quase pronto, e era frequente vê-los, passeando, ora até à praia, ora aventurando-se pelos caminhos da serra. 

Para Isabel era como se tivesse voltado dez anos atrás, quando inseparáveis percorriam aqueles mesmos caminhos, em longas conversas.
Raro era o dia, que a avó não lhe chamava a atenção, preocupada que estava com a sua felicidade. Ela, fazia ouvidos de mercador, empenhada em desfrutar ao máximo da companhia dele. 

Tinha pedido férias sem vencimento, no escritório, e pensava todos os dias, que tinha que procurar um espaço para montar o seu escritório, mas arranjava sempre uma desculpa para adiar essa resolução.
Uma tarde, depois de terem estado durante uma hora a rever o último capítulo, ela lendo o que estava escrito, ele corrigindo frases, mudando palavras, deram enfim o livro por terminado.
No dia seguinte sairia para a editora.

Então, ele disse-lhe que ia visitar a idosa, da casa ao lado, e pediu-lhe para o acompanhar. Isabel ficou aflita, não podia avisar a avó, e receava que ela a pudesse denunciar.

Ele cumprimentou carinhosamente a senhora, que o levou para a sala, onde conversaram sobre a sua ausência, e o que tinha feito da vida durante a sua ausência.
Depois a avó disse que ia fazer um chá, e Isabel ofereceu-se para a ajudar, a fim de recomendar à avó, que não a desmascarasse.

A visita foi muito agradável, e acabou por se prolongar. Na volta, ele rompeu o silêncio para dizer.
-É uma senhora muito agradável. Tanto que me esqueci de lhe perguntar pela neta. Antigamente ela estava sempre cá, de férias, nesta altura do ano.

Isabel estremeceu. Ele lembrava-se dela. Com voz tremente, perguntou:
-Eram amigos?
- Amigos? Não. Era muito mais do que uma amiga. Era uma irmã.

Ela deu graças a Deus por ele não a poder ver. Uma irmã. Foi assim que ele sempre a viu. Por isso ficou tão zangado naquele dia. Com raiva, limpou as lágrimas que iam deixando um rasto molhado no rosto pálido. Percorreram em silêncio, o resto do caminho. Depois ele recolheu-se ao quarto, enquanto ela morta de dor, arrumou a secretária, pegou na mala e foi para casa. Ficaria muito surpreendida, se tivesse visto o sorriso enigmático do homem, quando meia hora depois regressou ao escritório.

1.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XI

                                                



E prefere os clássicos, ou autores contemporâneos?
- Pois, não sei. Há clássicos de que gosto muito, mas entre os modernos há autores excelentes. Como por exemplo, o Mia Couto, o João Tordo, Joaquim Pessoa, Agualusa, entre muitos outros.

- Sabe que sou escritor. Não utilizo o meu nome verdadeiro. Pelo que já viu do meu próximo livro, identificar-me-ia com algum dos seus autores preferidos?
- Sem dúvida que sim. Eu juraria que o senhor é Tomás Reis.
- Já lhe tinha pedido, para esquecer o senhor. Trate-me simplesmente por Hélder. Mas porque me associa a esse autor?

- Porque é um dos meus preferidos, li os quatro livros que publicou até hoje, e o estilo literário parece-me o mesmo.
- Folgo em saber que o Tomás lhe agrada, - disse com um sorriso que lhe suavizou os traços do rosto. - Efetivamente, eu sou Tomás Reis.
- Mas porquê tanto mistério? Por causa da…
Calou-se. Sem saber como prosseguir sem o magoar.

- Cegueira? Não se preocupe. Já lá vai o tempo em que me atormentava. Ao fim de quatro anos, um homem acostuma-se a tudo. Até a ser cego.
- Desculpe, não queria magoá-lo. Só que me intrigava que apesar do êxito das suas obras, não haja nada na Internet senão o seu nome e o nome da editora. Não há nas notícias de lançamento de nenhuma das suas obras, uma foto, uma indicação de presença, nada.

- Tudo começou com uma aposta com um amigo. Apostei em como era capaz de publicar em completo anonimato e ainda assim ser bem sucedido. O nosso valor está no que escrevemos, não na nossa vida pessoal.  Ele disse que eu não conseguia. Combinamos um prazo de cinco anos, se me tornasse famoso. No meu contrato com a editora há uma cláusula proibindo qualquer revelação sobre o autor. Há quatro anos, após a saída do quarto livro, terminaram os cinco anos da aposta. Pensava em convocar a imprensa e dar-me a conhecer, no lançamento do novo livro, mas então sofri o acidente que me deixou assim e fiquei desesperado. Pensei que nunca mais ia escrever uma linha que fosse.  Até que por fim a resignação chegou, e resolvi que estava na hora de retomar a minha vida.
Aborreço-a?

- De modo algum. Gostaria que continuasse. Falou em resignação. Não se pode fazer nada? Uma cirurgia, um tratamento, alguma coisa?
- Infelizmente não. Quando caí do cavalo, bati com a cabeça e fiz um hematoma epidural, com hemorragia intracraniana. Fui operado de urgência e estive algum tempo em coma. Quando recuperei estava cego. Submeti-me a muitos exames, procurei vários médicos, e todos me disseram o mesmo. Tecnicamente eu não devia estar cego, não havia nenhuma lesão, que  pudesse estar a provocar a cegueira. Só podia ser psicológico, e em breve voltaria a ver. A princípio acreditei. Mas com o passar dos anos, não há fé que resista.

- Não pode perdê-la. Sempre ouvi dizer que a fé é que nos salva. E se não há doença, que o impeça, tenho a certeza que vai recuperar a visão. Talvez demore, mas volta.
- Quem dera acreditar nisso. Mas por hoje chega de conversa. Viu a correspondência?
- Sim. Nada de importante. Apenas umas cartas do banco, duas delas com avisos do seguro da casa e do carro a debitar na sua conta dentro de dias,  outra com o extrato bancário.


Informando os amigos.
Eu lavei a cozinha  com lixivia pura , utilizando luvas, máscara, por causa das alergias e óculos de proteção. Pensei que estava bem protegida. E na verdade não tive qualquer problema de nível respiratório, mas os olhos ficaram vermelhos e chorosos, principalmente o que sofreu o transplante. Mas já estão bem melhores e conto que já hoje, Segunda feira  depois de mais uma noite de descanso, consiga retomar a leitura e comentários dos vossos blogues.

22.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE VII


Três dias depois, no início da tarde, o telemóvel tocou. Não conhecia o número. Com mão tremente atendeu.
- Estou!
- Isabel Antunes?
-Sim
- Hélder Figueiredo. Está disponível para vir a minha casa, agora?
- Sim, claro. Vou já para aí.

Virou-se para a avó.
- Chamou-me. Não te esqueças que não deves dizer a ninguém, que estou cá.
 -Isto não está certo, filha. As pessoas conhecem-te. Vens para cá todos os anos. 
- Não te preocupes. Desde que não o digas ao casal que vive com ele, não estou a ver ninguém que lho vá dizer.

Pouco depois estava no escritório.
- Boa-tarde, senhor.
- Boa-tarde, Isabel. Se ainda está interessada no emprego, ele é seu. Pode começar amanhã às nove? O meu advogado deve trazer ainda hoje o contrato. Ou talvez amanhã de manhã. Tenho uma boa parte do meu próximo livro, gravado e espero que o consiga redigir rapidamente.
- Darei o meu melhor, senhor.
- Por favor, esqueça o senhor. Trate-me por Hélder.
- Se desejar, poderei começar agora mesmo a redigir, o livro. Não tenho nada para fazer de momento e posso adiantar já. É só dar-me o gravador.

Ele parecia surpreso.
-O gravador está na gaveta da direita.
- Redijo só para documento, ou deseja que imprima também?
- Preciso de uma cópia impressa, além da cópia em documento que deve ficar no computador e guarde outra cópia do documento numa pen drive
- Muito bem

Ela dirigiu-se ao computador que abriu, verificou a impressora, pôs-lhe papel, retirou o gravador e ligou-o. Começou a escrever, aquilo que ouvia. Segundos depois ouviu a porta bater e reparou que estava sozinha no escritório.

Trabalhou sem descanso durante duas horas, e depois deu-se um pequeno descanso. Continuava sem saber o pseudónimo dele, mas o que tinha ouvido era muito interessante, e o estilo lembrava-lhe o do seu escritor favorito, Tomás Reis.

Tomás Reis, o escritor mistério cujos livros eram  “best-seller” mas que ninguém conhecia. Seria Hélder o misterioso autor? Seria pelo facto de ter cegado que não se deixava conhecer? E que acontecera para ter perdido a visão?
 
Teria sido um acidente? Doença? Como ela desejaria saber. Porém de uma coisa tinha a certeza. Se queria manter-se junto dele, não podia fazer perguntas. Teria que ganhar a sua confiança para que as confidências pudessem chegar.
Retomou o trabalho, e ainda teclava quando às sete horas ele regressou ao escritório.

11.11.20

CILADAS DA VIDA PARTE LVII

 


Quatro semanas se passaram depois desta conversa que aproximou emocionalmente os dois irmãos. Quatro semanas em que muita coisa aconteceu na vida deles, e dos que com eles conviviam.

João continuava a passar diariamente as horas em que as enfermeira faziam as refeições com Teresa e fiel ao seu desejo de num futuro próximo pedir-lhe que se casasse com ele, decidiu que ela devia saber como tinha sido a sua vida, quem tinha sido e quem era. Por sua vez Teresa, também abriu o livro das recordações e falou da sua infância na aldeia, da mãe e da avó, ambas desiludidas com o sexo oposto, contara que ela própria tivera uma má experiência amorosa, quando estava na faculdade e que tudo isso contribuíra para a sua decisão de que nunca  iria querer saber de homem algum na sua vida. Essa fora a razão que a levara a querer ser mãe solteira, e a procurar a clínica de Procriação Medicamente Assistida.

Com o convívio diário e com todas as confidências trocadas os dois sentiam que começavam a estar unidos por qualquer coisa maior, mais íntima e mais pessoal do que a responsabilidade de criarem as três crianças.  

Inês ia regularmente todos os fins de semana vê-la, levava-lhe o correio, falava-lhe de como o negócio estava a decorrer e contava-lhe novidades de clientes e empregadas. Às vezes levava o filho e Teresa ficava radiante com o menino que crescia a olhos vistos e aumentava o vocabulário de uma visita para a outra.

Também João tinha ido jantar uma noite com o irmão e a futura cunhada, com quem simpatizou de imediato. Esperava que Teresa fizesse os três meses e tivessem a conversa que decidiria o seu futuro a fim de os convidar a irem passar um dia lá a casa para lhos apresentar e estreitar os laços de sangue que os uniam.

E chegou o dia em que Teresa ia ter a sua consulta das doze semanas. De mútuo acordo, os dois combinaram com Sandra, que ele acompanharia Teresa à consulta, e ele a chamaria depois se a médica achasse necessário dar-lhe novas instruções.

Já na consulta a médica fez-lhe a ecografia das doze semanas depois de lhe ter medido a tensão arterial, a ter pesado e lhe ter feito várias perguntas sobre como se tinha sentido durante aquelas quatro semanas.

Depois de vários minutos em que a observou atentamente disse:

-Está tudo bem com os vossos bebés. Vejam, aqui estão eles, minúsculos ainda, medem apenas cinco centímetros, mas já estão completamente formados da cabeça aos pés.  Vejam.

- Já se consegue ver se são meninos ou meninas – perguntou João.

- Vamos ver – disse a médica e depois de uns segundos apontou o ecrã. -  Este é um menino sem duvida, reparem aqui - disse ampliando a imagem - Este outro tem o cordão umbilical a impedir a descoberta, e este como vêm tem as pernitas cruzadas. Pode ser que se deixem ver na próxima ecografia. Mas às vezes não se deixam ver até ao momento em que nascem

Mas como são gémeos se um é menino, os outros também devem ser, ou não? – perguntou João.

-De modo algum. Os gémeos só são obrigatoriamente do mesmo sexo quando são gémeos monozigóticos.  Ou seja, o óvulo é fecundado por um só espermatozoide que se divide em dois depois de fecundado. São formados na mesma placenta dividem o saco amniótico, possuem o mesmo genoma e o mesmo DNA, e por isso são tão iguais que também se chamam idênticos. Podem distinguir-se apenas pelas impressões digitais, que são diferentes. Os vossos filhos são gémeos dizigóticos uma vez que não dividem a placenta nem o saco amniótico o que quer dizer que houve três óvulos, fecundados por três espermatozoides diferentes e assim tanto podem ser três meninos, como dois meninos e uma menina ou o contrário.

 A consulta está terminada, a Teresa recuperou muito bem, agora o risco de aborto foi reduzido, embora não esteja totalmente afastado e o repouso continue a ser recomendado, já não precisa estar o tempo todo na cama. Claro que não pode fazer esforços como subir escadas ou carregar pesos, deve evitar viagens grandes, mas já pode dar pequenos passeios, apanhar sol por causa da vitamina D. Continua com as vitaminas, o ácido fólico e volta para a consulta das vinte semanas a menos que surja algum problema. Vai continuar acompanhada com a enfermeira?

- Até que os bebés nasçam pelo menos, - respondeu João.

- Isso é bom. Pode sair e mandá-la entrar?


À margem:

Hoje dia 11 deslocar-me-ei ao hospital De Santa Maria para ver como está o olho do transplante, e ver se me vêm o outro que me está a dar grandes problemas.  Vamos ver.

18.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXIV




Saíram do elevador para um átrio, redondo, com amplas janelas por onde o sol entrava radioso. À volta das paredes, exceto na saída do ascensor,   inúmeros vasos com plantas, quebrado apenas por uma porta de carvalho. No centro maples de verga e uma pequena mesa também de verga com tampo de vidro, davam a ilusão de uma sala no meio da natureza.

- O que é isto? -perguntou Teresa sem saber o que pensar.

- Já vais ver, - disse ele pegando-lhe suavemente no braço, e levando-a em direção à porta que abriu. – Sê bem-vinda à minha casa.

- Vives aqui? – perguntou olhando surpreendida para a sala que se podia observar da entrada.

- Sim. Mas anda, vem sentar-te um pouco para descansares, depois mostro-te o resto da casa, - disse encaminhando-a para a sala.

- Meu Deus, - disse ela ao ver o tamanho da sala, - só consigo pensar na dificuldade em manter limpa esta casa. Como consegues?

- A empresa tem uma equipa de limpeza, e é essa equipa que limpa também a minha casa. E não tenho razão de queixa.  Queres beber alguma coisa? Uma água, um chá…

-Uma água, está bem.

-Vou buscar, - disse saindo da sala.

Voltou pouco depois com um tabuleiro no qual trazia uma garrafa de água mineral, dois copos e uma garrafa de cerveja.

Sentou-se na sua frente e depois de beber um gole de cerveja, disse:

- Pudemos conversar um pouco sobre o teu estado, ou ainda não te sentes à vontade comigo?

- O que queres saber?

- Estás bem de saúde? Pergunto, porque te queixaste de te sentires cansada e com muito sono. Eu pensava que esses sintomas só apareciam lá para o fim da gravidez.

-Penso que é normal, pelo menos esses sintomas são referenciados no livro sobre gravidez que tenho andado a ler. De qualquer modo tenciono telefonar à minha médica na próxima semana. Quero que ela me siga, ou me aconselhe alguém da sua confiança para me seguir.  Estou a pensar deixar o médico do Centro Clínico do PMA.

-Acho bem. Depois do que fizeram é difícil confiar neles.

Acabou de beber a cerveja, poisou o copo no tabuleiro, levantou-se e perguntou:

-Estás pronta para conhecer o resto da casa?

Em respostas ela levantou-se. Ele pegou no tabuleiro e saiu em direção à cozinha, seguido por ela.

- Meu Deus, esta cozinha é o sonho de qualquer mulher! – Teresa estava espantada com o tamanho, a beleza e funcionalidade da cozinha

- É também o meu.

- O quê, tu sabes cozinhar?

- Qual é o espanto? Vivo sozinho há muitos anos, e embora conheça bons restaurantes, por sistema não gosto de comer fora. Então, restavam-me duas opções. Ou aprendia a cozinhar, ou passava fome. Optei pela primeira. De resto, atualmente a Internet está cheia de excelentes receitas, e eu gosto de cozinhar.

 

28.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXV

 





Duas semanas e três dias depois…

Teresa encontrava-se sentada no sofá da sua sala.

No regaço tinha um livro aberto, “A Bíblia da Gravidez”, mas o olhar perdia-se no espaço, para além da janela, e o pensamento recordava a conversa tida, com o pai biológico do seu filho. Saber quem era, tinha as suas vantagens, sabia que o bebé tinha os genes de um homem inteligente, empreendedor, e porque não reconhecê-lo? - bonito. Por outro lado, agora em sossego permitia-se interrogações que na altura não lhe surgiram, e que eram uma preocupação acrescida. Ele dissera querer fazer parte da vida da criança, antes mesmo do seu nascimento. Queria acompanhá-la às consultas, às ecografias e no parto. Estava no seu direito, se ela fosse casada ia querer ter o marido consigo nessas alturas. O problema, é que o pai biológico do seu filho era alguém completamente desconhecido. Como é que ela ia permitir situações que lhe iam expor parte do seu corpo? Ainda que os dois viessem a desenvolver uma relação de amizade, uma mulher não partilha a sua intimidade com os amigos. Como é que não lhe ocorrera isso durante a conversa? E como ia agora abordar o assunto com o empresário?

Será que estava a ser demasiado pusilâmine? Afinal ia fazer trinta anos, não era uma adolescente. “Uma adolescente hoje em dia, sabe mais da vida, e das relações íntimas que tu” segredou-lhe uma vozinha na sua cabeça. E era verdade.

Crescera a ouvir a sua avó a dizer-lhe que não devia confiar nos homens, que eles eram seres egoístas, incapazes de amar. “Olha para a tua mãe, rapariga. Não lhe bastava o meu exemplo, nem o desprezo do pai que desde que nos abandonou, nunca mais se lembrou que tinha uma filha. Tinha que se deixar enrabichar por uma cara bonita e meia dúzia de palavras estudadas para a iludir. E o que é que ganhou com isso? Um coração cheio de amargura e uma filha para criar”.

A sua mãe, nada dizia, mas tantas vezes a viu chorar, que sem se dar conta, o seu inconsciente foi criando barreiras que a afastavam do sexo oposto, desde muito nova. Mais tarde, já na cidade, a frequentar a Universidade, e vendo as colegas felizes com os seus namorados, desejou ser como elas, e durante algum tempo tentou cultivar amizades com os rapazes do seu curso.  No segundo ano aceitou até as juras de amor do Alfredo, um colega dois anos mais velho, que pouco depois, estava a tentar levá-la para a cama. Teresa, achava que ainda era muito cedo, recordava a história da avó e da mãe, e tinha medo de entregar a sua virgindade, sem que a relação fosse mais séria. Porém numa festa de anos de outra colega, bebera mais que a conta, e acabara sendo convencida. E não podia ter sido pior. Não só porque estava bêbada, e não se recordava de parte do que acontecera, mas também porque a atitude do namorado depois disso mudou por completo. Ele só queria ter sexo, e um tanto arrependida, Teresa disse-lhe que não voltaria a ir para a cama com ele enquanto não tornassem oficial o noivado. A resposta foi como uma facada no peito. Alfredo disse que não ia haver noivado nenhum, não tinha idade para se prender, numa relação dessa natureza. Mais, disse-lhe que ela era uma antiquada, e que ninguém espera casar com a primeira pessoa com quem dorme, isso era no tempo dos seus avós ou bisavós. Teresa convenceu-se então de que os príncipes só existiam nas histórias para crianças. Na vida real só existiam sapos. Mais, pensou que a sua avó sempre estivera certa, e jurou a si própria, que nunca mais daria poder a um homem algum, para lhe causar sofrimento. Felizmente que no ano anterior, a tia-avó Julieta, condoída do sofrimento que tinha todos os meses, a convencera a ir a uma consulta de ginecologia, e a médica a aconselhara a tomar a pílula, para evitar esses incómodos. Não fora isso e talvez, ela se visse, aos vinte e um anos, na mesma situação da mãe e avó. Essa fora a razão, que na hora em que decidira ser mãe a levou a tomar a decisão de procurar o Centro Médico e recorrer à doação de espermatozóides e à Inseminação Artificial, na altura em que achou ter chegado a hora de cumprir o seu sonho de ser mãe.

 

30.6.20

ISABEL - PARTE XXXV


foto do google

Quando os três chegaram ao hotel, onde ia decorrer o lançamento de “Vidas cruzadas”, o segundo livro de Nuno Fraga, já o evento tinha começado há muito. Na verdade, Afonso esquecera os convites, tiveram que voltar atrás, o trânsito estava caótico e por isso quando chegaram, a parte da apresentação já tinha decorrido. O local estava apinhado. Muita gente conhecida, gente da rádio e TV. Também muitos jornalistas e fotógrafos. Todos queriam conhecer o escritor da moda. Este encontrava-se sentado numa secretária onde autografava os livros que lhe iam apresentando. Estrategicamente colocada,  outra mesa repleta de livros. Também havia várias mesas com doces e salgados bem como água e outras bebidas. As duas amigas compraram, o livro e dirigiram-se à mesa do autor para recolher o seu autógrafo. Quando Isabel finalmente conseguiu vê-lo, empalideceu, deixou cair o livro, e sem se preocupar em apanhá-lo dirigiu-se para a porta de saída deixando a amiga espantada. Luís também a viu. Cerrou os punhos e apertou-os com raiva. Desejou largar tudo e segui-la, mas sabia que não podia fazê-lo. Pelos seus leitores que aguardavam pacientes na fila, a sua atenção. Mas também por ela. Bastava que a chamasse para atrair sobre ela a curiosidade dos jornalistas ali presentes. Continuou pois a sessão enquanto Amélia e Afonso se dirigiam para o carro onde Isabel já os esperava.
- Que aconteceu Isabel? – perguntou-lhe a amiga. Estás a tremer.
- O Luís, - murmurou
- O Luís? – admirou-se a amiga - Mas o que é que tem o Luís?
- É ele.
- Ele quem, mulher? O escritor?
Acenou com a cabeça, os olhos marejados de lágrimas.
Virando-se para o companheiro Amélia disse:
- Afonso por favor volta para lá. Nós vamos tomar qualquer coisa ali na pastelaria em frente e já lá vamos ter.
- Não se preocupem. Eu vou. Afinal de contas ainda não tenho o autógrafo do autor.
Quando ficaram sós, Amélia disse.
- Não fiques assim. Deve haver uma explicação.
- Claro que há. Servi de cobaia ao escritor da moda. Quem sabe até devia sentir-me honrada, - disse com amargura.
 - Como tu sofres Isabel. Sabia que estavas apaixonada, mas não pensei que fosse um sentimento tão intenso.
-Como é que eu ia adivinhar? Se nunca tinha visto nenhuma fotografia dele? E depois parecia tão sincero, era tão convincente, que pelas suas palavras fui alimentando sonhos e sentimentos. Só mentiras. Estou destroçada. Por favor Amélia, leva-me a casa. Quero ficar sozinha.
- Claro. Vou ligar ao Afonso. Levo-te a casa e volto depois. Quero ver melhor esse homem.
Mas quando meia hora depois voltou, Afonso já se encontrava cá fora com o livro autografado, e não teve ensejo de rever o escritor.



23.6.20

ISABEL - PARTE XXX



Aquelas duas semanas, tinham sido muito intensas para Luís, dividido entre o trabalho temporário que estava fazendo, a preparação do lançamento do seu novo livro, que seria já no final do mês, e o acompanhamento sempre que possível do trabalho de decoração da sua nova casa. O trabalho, no centro comercial, nada tinha a ver com jornalismo, nem bem se podia chamar um trabalho, embora ele o levasse a sério, era um favor feito a um empresário amigo do seu pai. Luís precisava de conviver naquele local para observar as rotinas dos empregados, já que as personagens da novela que estava a escrever, estavam ali empregadas, e o amigo de seu pai, fora surpreendido pelo pedido de transferência do seu director comercial, e apesar das várias entrevistas, não tinha ainda encontrado a pessoa com o perfil adequado ao lugar. Assim e com a intervenção do seu pai, tinham chegado a um acordo e Nuno Fraga ocupara o lugar 
Chegava à noite cansado e sem vontade de fazer outra coisa que não fosse, tomar um bom banho e dormir. Escusado será dizer que a promessa de telefonar à mãe e ir jantar com os pais, foi completamente esquecida.
Porém e apesar de tudo, não raras vezes se surpreendia a pensar em Isabel. Por onde andaria ela? Onde viveria, o que faria? Procurara o seu nome na lista telefónica mas não o encontrou, o que não lhe causou qualquer surpresa. Atualmente poucas pessoas dispunham de um telefone fixo. Da próxima vez que o destino os juntasse teria que arranjar maneira de descobrir o número do seu telemóvel.Tentava afastar estes pensamentos, mas eles permaneciam lá como erva daninha sempre pronta a estender as suas raízes.
Naquele dia tinha acabado de preparar com o editor, o lançamento do seu segundo livro, faltava já só dez dias para a data do lançamento.  A sua vontade era continuar incógnito, mas segundo o editor, seria um erro. Os leitores acharam muito interessante um primeiro livro de um autor que queria permanecer incógnito. Mas um segundo nas mesmas condições, podia parecer que se tratava de snobismo, e desprezo por eles, leitores. E isso podia ditar o fracasso do livro. Outra boa notícia desse dia foi a chegada do director comercial para o lugar que ele ocupara até ali. Claro que ele continuaria por lá, mas agora terminada a sua missão, só algumas horas por dia, porque a novela teria que estar pronta no fim de Novembro para estrear em Março.
Acabara por descobrir que escrever uma novela, era muito diferente de escrever um livro. Ele escrevia o livro, e apresentava-o ao editor para a publicação. A novela teria que ser aprovada pela direcção de programas, depois, haveria a escolha do elenco, o que resultava de imensos castings. A escolha do roupeiro e adereços, que compunham cada personagem, os cenários, enfim um mundo de coisas antes de começarem as gravações. Mais tarde a campanha de lançamento e só depois a estreia. Ou seja antes do primeiro episódio ir para o ar eram meses e meses de trabalho intenso. E depois o trabalho continuava, pois depois da novela ir para o ar, eram as audiências que comandavam. Se o sucesso fosse grande, teria que esticar ao máximo a trama, e os duzentos episódios, que lhe tinham pedido inicialmente, poderiam ir até aos trezentos. Se fosse um fracasso, teria que reescrever grande parte da trama, matar alguns personagens, introduzir outros, etc. Percebeu porque se adaptam grandes obras literárias a novelas mas raramente um bom escritor escreve novelas para a Televisão. Na prática o escritor pode ter uma excelente ideia, mas se ela não fizer subir as audiências, ver-se-à obrigado a enveredar por um caminho que não lhe diz nada, apenas para cair no gosto popular.
Na verdade, ele não pretendia dedicar-se a esse tipo de escrita, aceitara fazer aquela, apenas como se fosse um desafio.
Por tudo isso e porque acabara de se mudar para o seu apartamento, finalmente pronto, Luís sentia-se um homem realizado.
Aprestava-se para regressar a casa, quando viu Isabel no centro comercial, prestes a entrar no supermercado. Pensou que ou o destino lhe estava a dar uma ajuda, ou andava a brincar com ele. Reparou que ela não o tinha visto. Aproximou-se.
- Boa noite Isabel, – saudou, pondo-se a seu lado.


E como hoje é vésperas de S. João, festejem-no em casa e não joguem a vossa saúde na roleta da sorte. Para não terem más surpresas.







18.6.20

ISABEL - PARTE XXVII







O telemóvel tocou. Isabel pousou o livro e atendeu. Era Amélia a reforçar o convite para irem ao tal bar. Isabel voltou a descartar qualquer hipótese de sair. Desligou e olhou para o relógio. Dez e vinte, era muito cedo para se deitar, mas a chamada fizera-a perder o interesse pela leitura. Que fazer? Olhou o portátil na mesinha de bambu e vidro junto ao sofá. Mas não lhe tocou. Na verdade navegava tanto por questões de trabalho que em casa muito raramente o abria. Aconchegou o robe ao corpo seminu e estendeu-se no sofá. Fechou os olhos e reviveu a cena dessa tarde. Quem seria aquele homem? Luís. Ele dissera que se chamava Luís. Bom pelo menos a partir de agora o desconhecido tinha nome. Mas isso mudava alguma coisa? Lembrou-se da mãe. Ela sempre dizia que cada um nasce com o seu destino traçado. Costumava dizer que não há coincidências. As coisas acontecem, para seguir a ordem natural, dos caminhos do destino de cada um. Ela não acreditava muito no destino. Sempre acreditou que o destino, é obra do que cada um faz na vida. Agora já não tinha tanta certeza disso. Ela não fizera nada para trazer para a sua vida aquele homem, nem os estranhos desejos que a assaltavam desde que o conhecera.
Será que a mãe tinha razão? Que ele estivera sempre no seu destino, à espera da hora certa para aparecer? E se assim era, que papel ia interpretar no teatro da sua vida? Seria um grande papel, ou era uma figuração apenas? De súbito deu-se conta de algo muito estranho. Ultimamente quase não se recordava de Fernando. E quando o recordava tinha dificuldade em lembrar as suas feições. Que estranho poder tinha aquele homem para invadir assim a sua vida e a sua mente, e esvaziar a gaveta das memórias que ela guardou com tanto esmero e cuidado durante quase vinte anos?
 Isabel jamais acreditaria que situações assim acontecessem na vida real. E porque haviam de lhe acontecer logo a ela? Que já tinha desistido de ter uma família e estruturara toda a sua vida, sobre recordações? E agora que fazer? Esperar que o destino ou lá o que era os juntasse de novo? Tentar esquecer e reconstruir a muralha atrás da qual vivera todos aqueles anos? E se voltassem a encontrar-se o que ela faria? Tentaria dar uma hipótese a si mesma com dizia Amélia, ou fugiria de novo? E mais importante que tudo. Quem lhe dizia que o homem não era comprometido? E ainda que o não fosse quem lhe dizia que se ia interessar por ela? Um homem como ele devia ser como uma flor à beira de uma colmeia.
Exausta acabou por adormecer ali mesmo no sofá.



                                             

16.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE IX



Tinham passado à sala, onde, em cima da pequena mesa, continuava a carta de despedida de Alfredo. Sem uma palavra, Eva apanhou-a e estendeu-a ao homem. Ele leu-a, e devolveu-lha.
- Não te merecia. Um homem como ele não merece mulher alguma. Hoje, conhecendo-te, alegro-me pelo impulso que tive, naquele dia. Porque apesar de tudo, estás segura comigo. Tremo só de pensar o que te podia acontecer se tivesses caído em algumas mãos que conheço. Agora, se me dás licença, vou-me vestir e sair. Tens outras chaves, além das tuas, que me emprestes?
- Vou buscar. Estão com os documentos dele, que a polícia me entregou.
Abriu uma gaveta e retirou as chaves. Estendeu-lhas, e voltou para a sala, enquanto ele se dirigia para o quarto. Pegou num livro e tentou embrenhar-se na leitura. Vinte minutos mais tarde, André, impecavelmente vestido, bem barbeado e penteado, apareceu à porta.
-Até amanhã. Dorme bem.
-Até amanhã. Boa sorte.
Ouviu a porta a fechar-se, e ficou a pensar na volta que a sua vida tinha dado em vinte e quatro horas. No dia anterior ela era uma jovem viúva, com um bom emprego e a sua casa, que podia viver serenamente durante o tempo suficiente para fazer o luto e tentar refazer a sua vida. Agora perdera a casa, a sua auto estima fora jogada e perdida, numa mesa de casino, e até a dor do luto, fora substituída pela raiva. Estava à mercê dum desconhecido, obrigada a viver com ele durante seis meses, sem saber o que lhe ia acontecer durante esse tempo, e depois disso. 
A clínica onde trabalhava, fechava duas horas para almoço. Habitualmente, ela vinha almoçar a casa, já que a clínica ficava perto e sempre aproveitava parte do tempo para adiantar as coisas para o jantar. Nessa noite decidiu que não o faria no dia seguinte. Tinha que ir à instituição, ver a Irmã Madalena. Contar-lhe tudo o que lhe tinha acontecido, mostrar-lhe a carta de despedida do falecido. Decerto ela saberia aconselhá-la.  
E André? Que pensar de um homem que jura que nunca lhe fará mal, que consigo não corre perigo, e ao mesmo tempo se assume como um aventureiro? Barco sem rumo certo, capaz de mudar de direção ao sabor de um qualquer vento? O que fará ele com a casa, quando se cansar de Portugal? Vendê-la-à? E se assim for, poderá ela conseguir um empréstimo bancário que lhe permita ficar com a habitação? Tantas interrogações, põem-lhe a cabeça em água.
Fechou o livro, e guardou a carta na sua bolsa. Dirigiu-se para o quarto. Escovou os dentes e preparou-se para se deitar. Antes porém, fechou a porta do quarto à chave. Depois fez o mesmo à porta que comunicava com a sala de leitura. Só depois se deitou e apagou a luz.




21.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XII




Pouco tempo depois, uma bola embateu violentamente nas suas pernas e ficou a rodar um pouco à sua frente. Resmungando, pousou o livro a seu lado e apanhou a bola. Ao olhar em volta, viu um rapazinho de olhos claros que o olhava a medo.
- Anda cá pequeno! Toma a tua bola.
- Como sabe que é minha?
 – Deduzi.
- Do...quê? - Perguntou admirado, lutando contra o desejo de se aproximar, e o receio de o fazer.
Pedro sorriu, e enquanto lhe estendia a bola acrescentou:
- Sabes que me bateste com força?
 – Não fui eu que a joguei – desculpou-se o garoto. -Foi a minha irmã. Ela colmo é grande,quer mostrar que tem mais força, por isso joga sempre a bola para longe...
 – Ah! Ela é maior que tu! Mas olha, diz-lhe que os homens não se medem aos palmos.
- Olha, diz-lhe tu. Vais ver como fica zangada.
- Ora, ora, e a tua irmã é perigosa quando se zanga? - perguntou divertido com o jeito do miúdo.
 – Se é. Até assopra como os gatos.
Pela primeira vez, desde há muito, Pedro soltou uma sonora gargalhada. E perguntou:
- Como te chamas?
 –Pedro. E tu?
 – Engraçado. Também me chamo Pedro. Acreditas?
 – Se tu o dizes.
O garoto tinha perdido qualquer espécie de receio, e estava agora à vontade, como se o conhecesse desde sempre.
- Ora vejam só este rapazinho! Aposto que tem estado a maçá-lo.
A voz que soara atrás de Pedro era tão doce, tão maviosa, que o levou a interrogar-se mentalmente, enquanto se voltava, se os anjos teriam voz.
Na sua frente estava a mais bela figura feminina que Pedro algum dia vira. E ele já tinha visto várias. Não era nem de longe, nem de perto o santo que a mãe dizia que era, embora na verdade, as belas mulheres com que se relacionara não seriam nunca daquelas que ele apresentaria à sua velha mãe. Porém aquela era diferente. Tinha tal candura no sorriso, tal pureza no olhar, que mentalmente voltou a associá-la aos anjos. Olhou-a de alto a baixo, maravilhado. Trazia uma blusa vermelha e umas calças pretas que modelavam o seu corpo. Calçava sandálias sem salto e tinha os cabelos apanhados num gracioso rabo-de-cavalo. Apercebendo-se do olhar analítico do homem, a jovem corou. "Santo Deus, era só o que me faltava ver", pensou ele.
- Não maçou nada, é um rapazinho encantador- disse sorrindo.
- Ora, se lhe dá confiança, nunca mais o deixa em paz...
 – Mana, este senhor também se chama Pedro, e sabes uma coisa? Ias-lhe partindo a perna, com a bola – a voz do miúdo, veio quebrar o encanto e devolver normalidade ao encontro.
- Oh! Desculpe. Não queria atingir ninguém. - Estendeu-lhe a mão, e acrescentou:
- Chamo-me Rita. Estou perdoada?
 – Claro que sim
  – disse ele sorrindo e retendo na sua a mão feminina.

5.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVI





Abriu a porta, entrou e como era seu hábito, cerrou-a com um toque de calcanhar. Tirou o telemóvel do bolso do casaco, despiu-o e pendurou-o no bengaleiro. Então reparou num papel em cima da mesa de entrada. Aproximou-se, e verificou que se tratava da fatura de uma compra de produtos de limpeza, que a mulher-a-dias lhe tinha deixado.
Há anos que tinha aquela empregada, era pessoa em quem tinha confiança total. Tinha cuidado da sua mãe, e anos mais tarde, quando comprara aquela casa, contratara-a com a certeza de que podia estar descansado que a casa estaria sempre impecável.
Raramente a via, ela chegava sempre depois dele ter saído. Levantava a chave no condomínio e voltava a deixá-la lá, quando se ia embora. No final de cada mês, ele deixava o dinheiro ali, e o recibo que ela assinava e deixava no mesmo sitio. E quando era necessário fazer alguma compra, fazia-a e deixava-lhe ali a fatura. No dia seguinte encontrava o dinheiro. 
Foi até à sala, e deixou-se cair no sofá. Não parecia o homem forte e dominador que geria com mão de ferro, os seus negócios. Dirigiu-se à estante mas não pegou em nenhum livro. Ficou parado durante uns segundos, e depois, abriu o armário que ficava na parte inferior da estante, e retirou um saco de pano preto com uns desenhos circulares em cinzento.
Voltou para o sofá. Abriu o saco e retirou uns ténis infantis, azuis-escuros com estrelas nas laterais.
Durante uns momentos, deu-lhes várias voltas nas mãos. Estava pálido, e o seu rosto estava tão tenso que  dir-se-ia  ser de pedra.
Depois pressionou-os contra a palma da mão, e os ténis faiscaram como se tivessem uma corrente luminosa à volta da sola.
Decorreram largos minutos, com o homem fixando as luzinhas como se estivesse hipnotizado. Finalmente abrandou a pressão, e ao apagarem-se as luzes, como que voltou à terra. Respirou fundo e voltou a guardar os ténis no saco de pano.
Se alguém tivesse presenciado aquela cena, decerto ficaria perplexo. Como é que um homem, que todos conheciam como um implacável homem de negócios, ficava assim emocionado à vista de um simples par de ténis?  Que fetiche era aquele?
 Recostou a cabeça no enorme sofá branco, fechou os olhos, e durante um bom tempo, permaneceu assim, relembrando os dois anos que vivera com Teresa. Agora, à distância, dava-se conta de que aquela época da sua vida  fora a única realmente feliz que vivera. Agora que cumprira as juras de criança, que a ambição de riqueza já estava aplacada, chegava à triste conclusão que toda a fortuna amealhada, não servia para comprar um único dia de felicidade.  E afinal para quê? Se a única pessoa a quem gostaria de dar uma vida de luxo, não tivera forças para viver até esse dia.

27.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVI



Simão permaneceu algum tempo no escritório, tentando acalmar-se. 
Quando saiu procurou a mãe na sala. Francisca fechou o livro e perguntou:
- Contaste-lhe?
Olhou a mãe, surpreendido. Pensava que tinha conseguido esconder de todos os seu segredo.
- Como sabes?
- Uma mãe, sabe sempre o que vai no coração dum filho. Há muito que sei que é esse amor que te mantem longe de nós. A Ana saiu sem se despedir. Nunca o faz. Devia estar muito transtornada. Disseste-lhe?
- Não foi preciso. Ela leu-o nos meus olhos.
- E…
- Ficou indignada. Disse que é uma infâmia. Que somos irmãos.
- Não é verdade! Ela sabe-o, tal como tu.
- Não é verdade, no sangue. Mas é-o nos sentimentos. Ela sente-o assim no coração. Foi assim que sempre me amou. E contra os sentimentos é impossível lutar, - disse amargurado
-Apesar dos seus vinte e seis anos, Ana é uma menina, que sonha com o amor, mas que ainda não o encontrou. Conheço-a melhor que a qualquer de vós. Não quero que sofra. Sei que seria muito feliz contigo, mas como ela mesmo me disse, “o amor é uma fogueira, que não arde só de um lado” Oxalá consigas esquecê-la. Gostaria de te saber feliz.
Acariciou-lhe o cabelo como fazia quando ele era menino.
- Obrigado mãe. Perdoa-me se te faço sofrer.
- Não te atormentes. A vida às vezes leva-nos por estradas sinuosas. Vai cuidar das tuas coisas. Faltam poucas horas para o teu avião.
Não pôde deixar de abraçar a mãe. Admirava-a tanto. Sempre tão serena, tão doce, tão compreensiva.
- Cuida dela mãe. Vou sentir-me melhor se souber que o fazes.
- E não o fiz toda a vida, filho? Vai descansado. E que Deus te ajude.
Ficou a ver o filho afastar-se com uma secreta sensação de culpa. Se eles não tivessem fomentado tanto aquele parentesco. Se os tivessem criado normalmente, sem enfatizarem um laço que não existia na realidade, quem sabe agora não estavam a sofrer daquela maneira.

reedição.
Gente eu sei que não vos visitei a todos mas estou muito cansada, e vou "xonar"

Fica este capitulo agendado para sair daqui a pouco.