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21.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE V


No passeio, em frente à casa, a irmã e o noivo esperavam-na.
As duas irmãs abraçaram-se e beijaram-se com carinho, perante o olhar sorridente de Pedro. Depois, Ana beijou o futuro cunhado, e ele apressou-se a abrir-lhe a porta traseira do automóvel para ela entrar. Tendo feito o mesmo com a porta da frente, para que Matilde entrasse, deu a volta ao automóvel e arrancou. Matilde iniciou a conversa, olhando a irmã pelo espelho do carro.
- Há quase um mês que não te via, Ana. Por causa dos preparativos para o casamento, estou pouco tempo em casa, e nunca te vejo quando lá vais. Sabes, queria a tua ajuda para comprar a prenda para o aniversário de casamento dos pais. Não sei que comprar. E estamos quase em cima da festa. Que me aconselhas?
- Não sei. Talvez algo que simbolize o amor deles, mas também a união da família. Eu fiz um álbum com uma seleção de fotos de vários momentos da nossa e da vida deles.
- Caramba que ideia gira. Tenho a certeza de que vão adorar. Mas dentro desse espírito o que eu podia fazer? Podia dar uma coisa diferente a cada um, mas queria qualquer coisa igualmente simbólica para os dois, por se tratar de aniversário de casamento. O problema é que não me ocorre nada A Marta diz que lhes vai oferecer um quadro com o retrato da filha. Eles adoram a neta, vão gostar de certeza, e o João vai-lhes oferecer uma viagem aos Açores, tipo segunda lua-de-mel.
- Porque não compras uma jóia? – Interrompeu Pedro. Podias oferecer à tua mãe uma pequena medalha, para usar no fio, por exemplo um coração, e ao teu pai, sei lá uns botões de punho com um coração igual. Ou ele não usa?
- Que ideia genial. Bom, ele não usa botões de punho no dia-a-dia, mas em cerimonias sim.
- E eu posso ajudar-te com a despesa, - disse a irmã. Vocês têm muitos gastos com o casamento, as jóias não são baratas, e eu até nem gastei dinheiro com a minha prenda.
-E não te importas?
- Não, claro que não. Olha, podemos fazer o seguinte. Trocamos as prendas. Tu dás o álbum e eu vou comprar as jóias.
- Mas foi trabalho teu…
-E quem sabe disso?
-És um amor!
O carro acabara de estacionar junto ao restaurante. Já à mesa, enquanto esperavam ser atendidos, Ana perguntou:
- E Simão? Sabes se ele vem à festa? Tem dado notícias?

reedição

Bom já deu para perceber que a Matilde, é a filha que a Francisca anunciou esperar no último episódio






30.4.18

12.4.18

RENASCER - IX





Dois meses depois, Carlos continuava na psiquiatria do hospital sem saber mais de si do que aquilo que lhe contavam os demais. Pais, irmãs, cunhados, amigos de infância, muita gente se deslocara da Régua até Lisboa para verem o homem que voltara à vida quase sete meses depois de ter sido dado como morto em combate. Não reconheceu ninguém à exceção de Cacilda, a mais nova das irmãs. Porque a reconheceu imediatamente e não reconheceu Amália a irmã mais velha era mais um mistério da sua cabeça que ele não sabia decifrar, e que intrigou o psiquiatra. Este, fez-lhe a seguinte proposta. Gostaria de iniciar um novo tratamento com base na hipnose clínica. Porém aproximava-se o Natal e ele ia-lhe dar alta para a quadra natalícia. Queria que ele fosse a casa, convivesse com família e amigos, andasse pelos lugares da sua infância e juventude. Acreditava que nesse contexto ele poderia recuperar a memória. Se tal não acontecesse, quando regressasse ao hospital, se ele estivesse de acordo, começariam então as sessões de hipnose.
Proposta que ele aceitou imediatamente, receava endoidecer com tanta luta para se recordar de qualquer coisa, um pequeno acontecimento que fosse, e sentir-se completamente vazio. Às vezes pensava que estava num pesadelo, que ia acordar a qualquer hora, e então beliscava-se a si próprio mas nada mudava. Duas vezes por semana, Luísa ia vê-lo, e ele agarra-se aquelas visitas como náufrago, à bóia que o vai salvar. Os dois tornaram-se amigos. Ambos viveram uma tragédia, e talvez por isso, um buscasse no outro, a força que os havia de fazer esquecer. Naquele dia, mais uma vez, Luísa foi visitá-lo.
- Boa tarde Carlos. Como se sente hoje.
- Na mesma. Um pouco mais animado porque o médico me vai dar alta para passar o Natal na terra com a família. Pensa que isso me pode trazer de volta a memória, e me propôs se eu voltar na mesma, no regresso, ser hipnotizado para ver se revivendo o que se passou, quebro o bloqueio que me faz estar assim.
- E isso não é perigoso?
- O médico diz que não. Ele pensa que se isso não resultar, poderei levar anos até que um qualquer facto me faça recuperar a memória. Eu nem quero pensar nisso. Mais me valera ter morrido naquele dia.
- Não diga isso, meu amigo, está vivo, é jovem, teoricamente tem muitos anos pela frente, mesmo que durante algum tempo não se lembre, virá o dia em que recupere a memória. Para os mortos não há retorno nem esperança.
- A Luísa não sabe o que é não saber nada, não ter recordações, nem amigos, nem familiares.
- Mas o Carlos tem. Já o visitaram.
- É verdade. Mas se exceptuarmos o meu pai que reconheci porque foi como se me estivesse a ver ao espelho, embora mais velho, e a minha irmã Cacilda, acreditaria no que me dizem, apenas porque o desejo com toda a minha alma. Como acreditei que aquela carteira era minha, só porque ma deram e disseram que era.
- Entendo. Deus queira que a hipnose resulte.


14.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XVIII




Os dois foram recebidos com alegria e alvoroço, pelas duas irmãs.
Antónia, a mãe de João abraçou e beijou a nora com tanto carinho, que a jovem se emocionou até às lágrimas.
- Há tanto tempo que não te via, filha. Desde que vim morar para aqui, o João aparece de vez em quando, mas diz sempre que estás atrapalhada com os estudos. Às vezes pergunto-me porque estudas tanto.
Odete percebeu que tal como suspeitara, a sogra não sabia da separação dos dois. Procurou com o olhar o marido, mas ele parecia demasiado atento ao que a tia lhe dizia e não conseguiu ver os seus olhos.
-Agora já acabaram.
- E a tua mãe? O João disse que está doente e que vai ter que ser operada ao coração. Deves estar muito preocupada.
- Nem calcula quanto.
- Quero dizer-te que se precisares de mim para cuidar dela, antes ou depois da operação é só dizeres. A minha irmã, agora está bem, pode ficar sozinha um tempo.
- Muito obrigada. Nem sabe quanto lhe agradeço, mas o João achou melhor ela estar sob os cuidados de uma enfermeira. E depois eu também vou estar sempre por perto.
- Bom, suponho que queiram refrescar-se, tomar um duche, e dar uma volta pela cidade antes do jantar. Não conheces Aveiro? É uma cidade muito bonita. Com os seus canais, até lhe chamam a Veneza portuguesa.
- Se nos dás licença, vamos seguir os teus conselhos. Vem querida, acompanho-te ao quarto.
João tinha-se aproximado. Trazia a mala dela na mão e enlaçando-a, empurrou-a suavemente na direção das escadas que conduziam ao andar superior. Ela deixou-se conduzir, mas uma vez no quarto, não pode conter-se.
-Muito engenhoso da tua parte, - disse olhando a bonita cama de casal de ferro forjado. Se pensas que porque estamos em casa da tua mãe, vou dormir contigo, estás muito enganado.
- Não te preocupes. Não tenho dezoito anos, não ando com as hormonas aos saltos, nem nunca tomei nada que não me fosse oferecido, - disse sentando-se num cadeirão ao fundo da cama. Mas claro se não confias em mim, podes sempre ir lá abaixo e contar à minha mãe, a nossa real situação. Aproveitas e contas-lhe onde estiveste todo o tempo que ela pensa, que estavas a estudar. Confesso que estou com alguma curiosidade.
A sua voz soou tão fria e impessoal, que ela sentiu um arrepio. Aquele não era o João que ela conhecia. Este era um homem muito perigoso. Não podia lutar com ele de peito aberto. Esmagá-la-ia como se fosse uma formiga. Tinha que ser mais diplomata, mesmo correndo o risco de parecer volúvel.
-Não entendo porque não contaste a verdade à tua mãe, -disse o mais calma que conseguiu
- Vais entender um dia. Vai tomar um duche e mudar de roupa. Eu vou fazer o mesmo, na outra casa de banho, no corredor.
-Mas não trouxeste bagagem!
- Tenho aqui no armário várias mudas de roupa. Venho cá de vez em quando e é mais prático do que estar sempre a fazer a mala. Vai, se queres conhecer um pouco da cidade antes do jantar.
Levantou-se e saiu deixando-a só.