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31.7.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIII




-E em mim, tens confiança? – perguntou Inês.
- Que pergunta é essa? Sabes que confio em ti como em mim mesma. Estás interessada no lugar? Não querias ter um segundo filho em breve?
- Decidimos que só tentaremos uma nova gravidez dentro de dois anos. E estou farta de estar em casa. Podia por o Martim na creche e ocupar o lugar. Daqui por dois anos, o teu bebé, estará com mais de um ano e poderás voltar a assumir a gerência.
- Por mim encantada, mas o Gustavo estará de acordo?
- Tenho a certeza que sim. Já tinha comentado com ele sobre a hipótese meter o Martim na creche e procurar uma agência de trabalho. Não se trata de necessidade, monetária.  Nem sequer estou a pensar numa carreira laboral pelo menos, até ter um segundo filho com uns dois anos. Mas estou há três anos em casa. Como uma máquina sempre a repetir as mesmas tarefas, sem ver nem falar com ninguém a não ser o marido e filho. Um leva grande parte do dia a dormir, o outro está todo o dia fora.
- Então se os dois estão de acordo, o lugar é teu podes começar quando quiseres. Penso que precisarás de algum tempo para procurar uma creche, mas eu preciso que ocupes o lugar o mais breve possível.
-Não te preocupes, já fiz essa pesquisa, e até já fiz a inscrição. Vai começar no princípio do mês, faltam dez dias, mas até lá posso deixá-lo com a minha mãe. Ela vai adorar. Posso começar amanhã mesmo, se tu puderes ir lá amanhã, para me pores a par de tudo.
- Sendo assim, tenho esse problema resolvido. Amanhã faremos o contrato.
Nesse momento, o choro de Martim invadiu a sala através do intercomunicador e Inês pôs-se em pé e dirigiu-se ao quarto do filho seguida pela amiga. No resto da manhã entretida com o bebé, quase que Teresa esqueceu, o grave problema que a afligia. Se Gustavo se admirou de a ver em sua casa quando chegou para almoçar, depois do desejo que a amiga manifestara no dia anterior para voltar à pastelaria, não o manifestou. Cumprimentou-a, beijou a esposa, que acabara de dar a papa ao filho e fez uma festa ao menino, que reagiu mostrando um sorriso de apenas quatro dentes.
- Deixa-o comigo. Eu adormeço-o, - disse Teresa tirando o bebé dos braços da mãe e dirigindo-se com ele para o quarto. Pretendia com isso dar tempo à amiga para contar ao marido, não só que se passava com ela, mas também a sua proposta de emprego.
Cansado das brincadeiras anteriores ao almoço, Martim não levou muito tempo a adormecer. A jovem saiu do quarto fechando a porta com cuidado, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou os amigos à sua espera para darem início ao almoço.
-A Inês já me contou o que se passa contigo, vamos almoçar e no fim analisaremos o caso. Entretanto também me disse que a contrataste como gerente da pastelaria. Tens a certeza que é uma boa ideia?
- Bom, eu não sei como vai ser a minha gravidez. Pode ser calma e não me dar muitos problemas, mas se for semelhante à dela, vão haver muitos dias em que mal me vou aguentar de pé. Por outro lado, com todo este problema, não sei se teria cabeça para tratar de negócios. Sei que a Inês não tem experiência, mal deixou a Universidade, começou a tratar do casamento, e engravidou poucos meses depois, mas é inteligente, de confiança e está lá o pai. Quando fiquei com o negócio eu sabia tanto do assunto como uma criança. Foi o Mário quem me ensinou, e tem sido o meu braço direito ao longo destes anos. Ele ajudará a filha.  A não ser, que não estejas de acordo, não quero de modo algum, criar problemas na vossa relação.
- Bom, é verdade que já tínhamos inscrito o Martim numa creche e que ela pretendia trabalhar uns dois anos antes de termos outro filho. É a sua vontade e eu nunca me oporia aos seus desejos, se isso a faz feliz. A felicidade dela é a minha felicidade.



2.12.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXI





Dias depois, Gil fez a escritura do prédio, e firmou o contrato com a empresa de construção. O advogado se encarregaria com a irmã de fiscalizar para que a obra, que se ia iniciar em Janeiro, se fizesse no menor espaço de tempo e de acordo com o projeto. Ele, estaria muito ocupado com o filme, e com a filha. Ainda que Inês fosse uma excelente ama, ele sentia que tinha de aprender a cuidar da filha e queria passar com ela, o máximo de tempo possível. Queria conhecê-la, ver os seus sorrisos, acalmar os seus choros.
Seis meses depois, o guião do filme fora aprovado, o estúdio estava a fazer os “castings” para a escolha dos intérpretes, Mariana a sua filha tinha crescido imenso. Estava agora com sete meses, adorava brincar no chão com o filho da ama, de tal modo que quando ele se afastava, ela seguia-o a gatinhar. Era uma bebé muito risonha, embora as suas birras quando queria, ou não queria alguma coisa, mostrassem uma personalidade forte.  E já apresentava dois minúsculos dentinhos no maxilar inferior.
O seu irmão Marco casara havia três meses, e Laura estava completamente apaixonada pelo advogado, que parecia não poder viver sem ela. Por outro lado, a Fundação estava pronta, ia ser inaugurada em breve, e já estaria a funcionar no próximo ano letivo, gerida, claro, pelo homem que fora sempre o seu advogado de confiança e que tudo levava a crer seria seu cunhado em breve. E tal como Gil pensara, já havia meia dúzia de mecenas, interessados em apoiar financeiramente a Fundação.
Com a venda dos direitos do livro para o cinema, fora impossível continuar a manter segredo sobre a sua atividade como escritor. E isso voltou a trazer a imprensa atrás dele. Pior que isso, alguns jornalistas mais atrevidos quase acamparam em frente da sua casa.
Gil sabia que a qualquer hora, iria parar numa qualquer revista a foto de Inês com a sua filha e o pequeno Luís que sempre passavam algumas horas passeando pelo jardim. E temia que o ex-marido da ama, através delas, viesse a descobrir onde Inês se encontrava, e pudesse tomar alguma atitude que pusesse em perigo a vida da sua filha. Por isso pela primeira vez na vida contratou uma empresa de segurança, e tinha agora alguns operacionais, vigiando o jardim, e acompanhando a ama e as crianças sempre que tinham de se deslocar, quer quando iam às compras, pois a menina crescia e rapidamente as roupas deixavam de lhe servir, ou quando iam ao pediatra, para as consultas de rotina, pois ele nem sempre podia acompanhá-las.
Gil pensava que neste momento a sua vida estava mais certinha que um relógio suíço, e por isso podia dedicar-se ao seu novo romance, pois Luna não parava de lhe dizer que era uma ótima ideia aproveitar a campanha de lançamento do filme previsto para o próximo ano para lançar o seu terceiro livro.



17.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXIX




E então Afonso fez algo completamente inesperado. Puxou-a para si e beijou-a. Primeiro suavemente apenas aflorando os lábios femininos, depois dando aso ao amor que trazia no peito, e à paixão que lhe invadia o corpo, o beijo, foi-se intensificando, e quando sentiu que a mulher lho retribuía, enlaçando-lhe o pescoço, perdeu completamente o controlo.  As suas mãos percorriam nervosas o corpo feminino que palpitava junto ao seu. Amaram-se ali mesmo, no sofá do escritório, as roupas espalhadas pelo chão, os corpos cavalgando no ritmo da paixão, as bocas perdidas entre beijos e gemidos, os corações acelerando cada vez mais até ao êxtase final.
Momentaneamente apaziguado o fogo que os devorara, Afonso perguntou:
- Desde quando?
- Não sei. Penso que desde o dia do casamento, quando me cedeste o quarto e ficaste a dormir aqui.
- Tão depressa? E eu a pensar que suspiravas pelo falecido.
- Tonto. Ele foi o pai dos meus filhos. Se não tivesse morrido seria decerto o meu marido, para o resto da vida. Sou uma mulher fiel. Mas nunca foi um grande amor. E tu? Desde quando? Eu pensava que não reparavas em mim.
- Desde aquela noite que ficaste no quarto das meninas. Acordei às cinco da manhã. A porta do teu quarto estava completamente aberta, e não te vendo lá, fui ver as crianças. Tu e a Ana dormiam abraçadas. Tive inveja dela, sabes?
Ela riu feliz. Ele continuou.
- Os últimos tempos foram cada dia mais difíceis. Passava horas aqui fechado, ansiando por ir ter contigo apertar-te nos braços e fazer-te minha. Mas o medo de te perder era maior que o meu desejo.
-Medo de me perder? – Admirou-se ela. Porquê?
- Por causa da quinta cláusula do contrato.
-E o que diz a quinta cláusula desse bendito contrato?
- Não leste? Tens uma cópia.
- Não.
- Não leste? – Perguntou admirado
- Não tenho uma cópia.
- Não? Eu dei-ta.
- Sim. E eu rasguei-a.
-Quando?
- Quando percebi que te amava
-Meu Deus, tanto tempo perdido.
- Ainda estamos a tempo de recuperá-lo. Mas... não seria melhor continuarmos no quarto?
E dizendo isto, Francisca soltou-se dos seus braços e começou a apanhar as roupas dispersas pelo chão.

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ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXVIII


- Vem comigo ao escritório. Precisamos conversar.
Tinham acabado de adormecer as crianças. Já era tarde, e ela estava cansada. Mais do que isso, estava nervosa, inquieta. Há meses que descobrira o amor pelo marido. Desde então, tantas vezes se deixava levar pela imaginação sonhando com ele. Mas Afonso parecia não reparar nela. Com os filhos era amoroso. Francisca tinha-o surpreendido várias vezes emocionado com eles.
Mas com ela era diferente. Era gentil, educado, mas nada mais. Mas esta noite parecia diferente. Como se a parede invisível que parecia separá-los tivesse desaparecido.
Abriu-lhe a porta, e desviou-se para ela passar.
- Senta-te.
Indicou-lhe o sofá. Esperou que o fizesse, e sentou-se quase a seu lado.
- Faz hoje onze meses que entraste no meu escritório. Estavas nervosa como agora e pareceste-me muito tímida. Fiz-te uma proposta, aceitaste e pouco depois fazias parte das nossas vidas.
Remexeu-se inquieta. Porque lhe estava a contar aquilo que ela sabia bem demais? Com que finalidade relembrava agora aquele dia? Teria ela feito alguma coisa que não podia, segundo aquele malfadado contrato? Mas o quê? Se ao menos não tivesse rasgado a sua cópia, quando percebeu que se tinha apaixonado por ele.
Sem capacidade de lhe adivinhar os pensamentos, Afonso continuou:
-Tornaste-te rainha e senhora desta casa, por mérito próprio. Mas continuas a ser um mistério para mim. Sei que aceitaste a minha proposta por necessidade absoluta, a Graça falou-me qualquer coisa sobre isso. Gostava que me falasses de ti.
- De mim?
Espantou-se. Não acreditava que um advogado, entregasse a sua vida e a de suas filhas a uma mulher sem fazer uma investigação sobre ela. E tinha razão, Afonso tê-la-ia feito, não fora a total confiança que a irmã tinha na amiga.
- Sim. Tenho a certeza que a minha irmã te contou tudo sobre mim, o meu amor por Olga, e a minha dor quando a perdi. Mas a mim, só me disse que podia confiar em ti de olhos fechados. Solidariedade feminina, - concluiu sorrindo.
De tudo o que Francisca ouviu, o seu coração apaixonado, reteve apenas a frase. " o meu amor por Olga".
Sentiu vontade de chorar. Tentando disfarçar a mágoa, fez o que ele lhe pedira. Falou de si. Contou do seu desgosto por não ter ido para a faculdade, da pressão dos pais para que se casasse com o filho dos amigos, da vida na cidade, do desastre financeiro do marido e do seu gesto cobarde, que a atirou a ela e aos filhos para uma vida de desespero e privação. Calou-se ao mesmo tempo que deixava escapar um soluço angustiado. 

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E ultrapassámos ontem os 37.000 comentários. Mais uma vez pela escrita da Ailime, comentário deixado às 22, 31 h
Obrigado a todos pelo vosso carinho.



9.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIII



-Não quero que os meus pais saibam do casamento. Não iam entender. Vou dizer-lhes que me contratou para ama das meninas, e que não se importa que tenha comigo os meus filhos. Não me agrada mentir, mas sei que eles não iriam aprovar o que nos propomos fazer. Mais tarde lhes contarei a verdade. É a minha única exigência.
- Muito bem. Vou telefonar à minha irmã para a vir buscar. Entretanto se me der os seus documentos, mando já fazer as cópias para dar início ao processo de casamento.
Francisca tirou os documentos e estendeu-lhos. Ele abriu a porta e chamando a secretária, pediu que lhos fotocopiasse.
Fechou a porta e voltou-se para ela.
-  Sendo assim pode dizer a seus pais que tem emprego. Amanhã, às cinco espero-a aqui para assinar o contrato  combinado. Traga os seus filhos. Gostaria de conhecê-los. E no fim-de-semana, espero que vão passar o dia connosco. Para que conheçam a casa e as minhas filhas. Será uma espécie de ambientação para eles.
Enquanto o casamento não acontece, a Graça irá buscá-la a fim de tratarem do que pensem ser necessário, para a cerimónia, mas devo dizer-lhe que ela será o mais discreta possível e não haverá festa, nem viagem. Também terão que escolher os móveis e decorar o quarto para os seus filhos.
A secretária bateu à porta e Afonso ordenou:
-Entre.
- Aqui tem doutor, - disse pondo os documentos e respectivas fotocópias em cima da secretária. Mais alguma coisa?
- Não obrigado. Logo que a minha irmã chegue, faça-a entrar. Pode retirar-se.
- Com certeza Doutor.
A secretária retirou-se, não sem antes lançar uma mirada curiosa a Francisca. Desde que trabalhava para o doutor, nunca o vira tanto tempo no gabinete com uma mulher.
Pouco depois Graça chegou.
-Espero que tenham chegado a acordo. Os seus olhos foram de um para o outro interrogativos. – Chegaram ou não?
- Chegámos – respondeu o irmão
- Ufa. Pensei que não tinham decidido nada. Estão com uma cara.
- O assunto é sério Graça. Não querias que estivéssemos a pular de alegria.
- Está bem. Não precisas zangar-te. Já sabes como sou.
Afonso não respondeu. Levantou-se e aproximando-se estendeu-lhe a mão
-Não se aflija. Vai correr tudo bem. Não esqueça, espero-a amanhã às cinco.
Apertou-lhe a mão sentindo a suavidade da mão feminina.
E agora ali estava, casado  e disposto a partilhar a vida com uma quase desconhecida, esperando não ter feito uma grande asneira da qual se pudesse arrepender. Tinha-o feito pelas filhas. Elas eram toda a sua vida e para não as perder, faria qualquer coisa.

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18.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXXII


- Deixa-me ver se entendi. Propões-me que me torne tua mulher. Por quanto tempo? Um dia, um mês, os quinze anos do contrato, ou até que deixes de me desejar, – perguntou zangada.
- Não entendo essa raiva. É claro que se tratará de um casamento para o resto das nossas vidas. Já te disse que nunca antes senti vontade de voltar a unir-me a uma mulher.
-E o contrato? Que farás ao contrato que assinámos? Nele estava escrito que era um casamento nominal e que terminaria quando os meninos atingissem a maioridade.
- Claro que esse contrato seria anulado. Destruiríamos o documento.
- Esqueces uma coisa muito importante. És um homem muito rico. Esse documento é a tua defesa em caso de eu decidir divorciar-me em qualquer momento. Sem ele, e em caso de divórcio, eu posso ficar com muito mais do que cem mil euros. Posso despojar-te de metade dos teus bens. Já pensaste nisso?
- Não preciso. Tu não és assim. 
- Nunca se sabe. A ambição existe e por dinheiro se cometem muitos crimes.
- Tu não. Eu confio em ti.
- Não chega, Ricardo.
- Não entendo.
-Sei que não. No fundo ao dizer que confias em mim, não fazendo nenhum contrato que te salvaguarde em caso de divórcio, estás a demonstrar que a tua falta de fé nas mulheres é mais aparente que real. Sim, eu sei, sou uma exceção já me disseste. Devia sentir-me lisonjeada. Por outro lado nem a tua fortuna, nem a tua confiança, são suficientes para me levarem para a tua cama. Repara que digo a tua cama, e não a tua vida, porque nela eu já estou, embora não da maneira que de modo diferente ambos desejamos. Na verdade, eu dormiria contigo hoje mesmo, ainda que fosses o homem mais pobre do planeta em toca de uma só palavra.
-Pedes-me o impossível Clara. Por muito que o meu corpo te deseje, o meu coração está seco.  
-  É uma pena, Ricardo. Por ti e por mim.  Olha, está na hora de ir buscar as crianças à escola, para o almoço. Vens comigo, ou esperas aqui por elas? – Perguntou levantando-se e pondo um ponto final na conversa.
-Claro que vou contigo, - respondeu apertando os punhos com raiva.
Aquela mulher tinha o poder de o desconcertar.  
Ricardo conduziu em silêncio até à escola. Mal tinham saído do carro quando ouviram o toque da campainha escolar e viram a auxiliar de educação dirigir-se ao portão onde já aguardavam alguns pais e avós que iam buscar os filhos e netos para almoçar.
Clara apresentou à funcionária o pai dos meninos e pediu-lhe se ela avisava a educadora que os seus filhos não voltariam naquela tarde, em virtude do regresso do pai. Entretanto as crianças iam-se aproximando e ao reconhecerem o pai quase atropelaram a Auxiliar, para se atirarem para os braços dele, que se baixara para os receber.
Foi uma cena emocionante. Quando Ricardo se levantou com um filho em cada braço, e se encaminhou para o carro, Clara sentiu vontade de chorar. Como era possível que um homem com tão grande amor filial fosse incapaz de amar uma mulher? Como era possível que o seu coração estivesse seco como ele lhe dissera?
Depois do almoço, aproveitando que a tarde estava ensolarada e a temperatura a antecipar a Primavera que se aproximava, Ricardo e os filhos, foram passear pela quinta. As crianças queriam mostrar ao pai os pintainhos recém-nascidos. E as rosas em flor. Mais tarde haveriam de brincar no parque enquanto contavam ao pai as imensas coisas que tinham aprendido durante a sua ausência. Enquanto isso, Clara refugiara-se no seu quarto, inquieta sobre o seu futuro.








4.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XVIII


O resto daquela semana “de lua-de-mel” decorreu sem sobressalto. No dia seguinte foram à casa em Alcântara, buscar livros, roupas e algumas loiças. Depois entregaram o resto do recheio da casa a um lar de idosos, e por fim entregaram as chaves ao senhorio.
Com esta operação, Clara sentiu que cortava de vez com o passado e que consolidava a sua nova vida, embora fosse uma vida a prazo. Mas não se arrependia. Antónia e o marido, tratavam-na e ao irmão,  com o maior carinho. Ele ia poder estudar, e ela estava feliz. Adorava crianças, e trabalhar com elas e para elas era uma tarefa gratificante. Tanto mais que aquelas eram amorosas. Tinha quinze anos pela frente para semear nos seus corações inocentes, a semente do amor. E cuidar dela com carinho, de modo a que essa semente frutificasse num sentimento que perdurasse muito para além do prazo do contrato. Era essa a sua meta, e para a alcançar ela trabalharia dia e noite se preciso fosse. E a relação com Ricardo?
Bom, essa era mais difícil de descrever. Não era uma relação de patrão – empregada, muito menos de marido e mulher. Poder-se-ia talvez descrever como uma relação de amigos, mas nem isso. Porque apesar da cordialidade com que a tratava, Clara sabia que ele não confiava nela. Era capaz de apostar a vida em como antes de partir, ia encarregar Antónia de a vigiar. Apesar disso não o censurava, depois do que ele lhe contara, estranho seria, o contrário. Afinal, as mulheres com quem lidara, não lhe deram motivos para que confiasse nelas. O tempo lhe mostraria, que ela era árvore de outra espécie.
Por vezes surpreendia-o a olhá-la, de uma maneira que ela não conseguia definir. Era como se ele quisesse penetrar no seu interior, desvendar os seus pensamentos. Outras vezes, sentia que embora pudesse estar a fitá-la, ele nem a via. Os seus olhos cinzentos adquiriam a tonalidade do aço e o seu olhar era tão frio quanto esse metal.
Nas vésperas, porém, tinha-a surpreendido. Chamara-a à biblioteca, e abrindo uma gaveta da secretária, retirara uns envelopes.
- Aqui neste envelope, tens os documentos da abertura de uma conta em teu nome. Foi aberta com a importância que combinámos como o teu vencimento. Nela será depositada todos os meses a mesma importância. Também aí tens um cartão de crédito, com o qual pagarás todas as despesas que fizeres, seja para ti, para as crianças ou para o teu irmão. Refiro-me a despesas pessoais. A despesa com a escola dos meninos ou com a faculdade do teu irmão, apresentas a conta ao Francisco, que ele paga. Ele também está encarregado dos ordenados da Antónia, do marido e de algum trabalhador, que o Alfredo entenda necessário contratar temporariamente para o ajudar nalguma tarefa. Além de ser o meu advogado, é ele que gere todos os meus investimentos. Inicialmente tinha pensado comprar-te um carro, para te deslocares à cidade,  para levar as crianças à escola, ou simplesmente para algum passeio, mas como o meu vai ficar parado, podes utilizá-lo. Mais tarde quando voltar, tratamos então de comprar um para ti. Neste outro envelope, estão todos os documentos dos meus filhos, bem como uma procuração minha, que te nomeia tutora deles na minha ausência, e te dá pelos poderes de decisão sobre eles. Penso que não será necessário, dado que estamos casados, mas nunca se sabe o que pode surgir, e mais vale prevenir. Espero que percebas que estou a confiar-te o meu bem mais precioso – terminou com voz rouca, levantando-se e aproximando-se da janela.
O que ele não disse, Clara entendeu. E entendeu também que aquele homem que fora toda a vida, um solitário, se apegara ao amor dos filhos, como um náufrago se agarra à bóia que o vai salvar.
Sentiu pena, e ao mesmo tempo uma enorme admiração por ele.
- Fica descansado. Apesar de os conhecer há pouco tempo, o conhecimento do que já sofreram, e a sua índole terna e doce, ganharam o meu coração. Cuida de ti, e pensa naquilo que te disse. Sei que é a tua carreira, mas decerto haverá nas unidades do país, muitos outros trabalhos que possas desenvolver, sem andares sempre nessas arriscadas missões. Se eles são o teu bem mais precioso, tu és o único bem que eles têm.
Não esperou resposta. Agarrou nos envelopes e saiu  fechando a porta suavemente atrás de si.




24.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE VIII



Dias depois assinaram o contrato e com a ajuda do advogado, o casamento pôde realizar-se rapidamente. Agora estava casado, já ninguém lhe podia tirar a guarda dos filhos. Como oficial superior do exército português, Ricardo comandara uma força de elite, ao serviço da NATO, por dois anos. Depois voltara à unidade em Portugal, mas em breve partiria de novo para missões no estrangeiro.  A companhia que comandava, era especializada em situações de conflito, não se justificava a sua permanência no país. Em serviço ele já estivera em vários pontos do globo, quase sempre em missões arriscadas. Se não tivesse casado, corria o risco da Segurança Social, considerar que as crianças estavam abandonadas, aos cuidados dos empregados, e que eles não teriam condições para as tratar com o cuidado que elas requeriam. Conhecia casos de pais que ficaram sem os filhos por essa razão. Os seus filhos, não tinham mais parentes. Os avós tinham morrido há muito, e ele fora filho único. 
Casado, já não corria esse risco.
Olhou o relógio. Quase duas da madrugada. Guardou a sua cópia do contrato, no cofre, e apagando a luz, subiu as escadas e encaminhou-se para o seu quarto.  Despiu-se e dirigiu-se à casa de banho, onde tomou um duche rápido, escovou os dentes e vestiu umas calças de pijama.
 Acabara de se deitar quando ouviu o grito de Soraia. Saltou da cama. e abriu a porta de comunicação com o quarto das crianças, mas ao entrar viu que Clara já tinha a criança ao colo, e a acariciava, enquanto lhe murmurava palavras tranquilizadoras. Aproximou-se. Ela sussurrou:
- Está tudo bem, deve ter sido um pesadelo. Podes ir dormir.
Ele assentiu. Inclinou a cabeça, deu um beijo na menina, e foi até à cama do filho onde se deteve alguns instantes, talvez para se certificar, que o menino não tinha acordado com o grito da irmã, e então encaminhou-se para a porta de comunicação com o seu quarto. Ai voltou-se, lançou um último olhar à mulher, que embalava a menina, e retirou-se fechando a porta atrás de si. Estava cansado, o dia fora longo e a incerteza sobre a decisão que tomara também fizera o seu estrago. O relatório do investigador sobre aquela mulher não podia ser melhor, mas em relação ao sexo feminino ele era muito cético. Doía-lhe a cabeça. Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira, retirou duas aspirinas, e engoliu-as.
Deitou-se, mas teve dificuldade em adormecer, preocupado pelo facto da filha ter voltado a ter aqueles malditos pesadelos. Pouco tempo depois o silêncio envolveu por completo a casa, e Ricardo pensou que a menina estaria de novo a dormir. O seu corpo relaxou e acabou por adormecer.
Acordou, com um raio de sol no rosto. Olhou o relógio. Quase nove horas. Franziu o sobrolho. Os filhos costumavam acordar cedo. Normalmente pouco depois das sete iam ter com ele ao quarto. Saiu da cama, e abriu a porta de comunicação. Estava vazio.
 Vestiu umas calças de ganga, e uma camisa, e desceu. Encontrou-se com a empregada que levava um jarro vazio para a cozinha
- Bom dia, Antónia.
- Bom dia, senhor. Sirvo já o pequeno-almoço.
- A casa está muito silenciosa. Onde estão os meus filhos?
- Os meninos já comeram. Estão com a senhora no jardim.
- Obrigado.
Dirigiu-se à sala. Tinha acabado de se sentar, quando até ele chegou uma risada infantil. Levantou-se e foi até à janela. Os filhos andavam de baloiço empurrados pela sua jovem esposa.  As crianças pareciam  encantadas com Clara. Era um bom sinal.
Voltou para a mesa, quando Antónia entrou com a bandeja do pequeno-almoço.




17.6.17

NA HORA EM QUE O GALO CANTOU - PARTE III




A irmã estava na idade, em que as hormonas se começavam a fazer sentir. A preocupação dela, estava em olhar e escolher entre os rapazes que andavam à sua volta, como abelhas em torno de flores.
Completamente sozinho consigo próprio, com as suas frustrações, e os seus anseios, dia após dia, Bruno caía no poço sem fundo da depressão.
E os anos foram passando, a irmã casou, o irmão já era pai.
Uns meses atrás o pai terminara o contrato de trabalho na Alemanha e regressara cheio de planos para a tal casinha.
Estranhara ver o filho tão macambúzio, mas dissera. ”É muito jovem, tem a vida pela frente, aquilo passa-lhe. O que ele precisa é de arranjar mulher”
Um mês depois a irmã fora mãe, e os pais, viviam “babados” nas gracinhas dos netos.
Durante o dia, Bruno castiga o corpo, enfrentando os trabalhos mais pesados com determinação. Para que à noite esteja tão cansado que adormeça, logo que cai na cama. Porém o descanso dura pouco mais de três horas. Depois acorda. Quando o galo canta, ele já está farto de andar às voltas na cama.  Remexe-se inquieto, com a solidão por companheira. A solidão é lixada. Está sempre presente, mas não se deixa abraçar, não faz amor com ele, não acalma as suas angústias. Fecha os olhos na esperança de que algo mude, mas ao abri-los só o vazio persiste à sua volta. E volta o mesmo pensamento. Belo como um raio de luz, cálido como um abraço materno. Persistente. Insidioso. Há meses que por esta hora, a ideia do suicídio, o acalenta. Inebria-o como o aroma de um perfume raro. E dia após dia, ele vai-se deixando conquistar. Como se nele encontrasse a realização dos seus sonhos, o fim certo, para os seus medos, os seus fantasmas. No quintal do vizinho o galo canta. Como se fosse um sinal, Bruno põe-se de pé e de mansinho, abre a porta da cozinha e sai para o quintal. Ao fundo a casa das ferramentas. No meio do quintal um pilar de ferro, donde parte um arame que passa pelo terraço por cima da casa de ferramentas. O estendal da roupa. Como um automato, vai à casa das ferramentas e sai com uma corda e um pequeno banco. Cuidadosamente faz um laço numa das pontas, passa-a pelo pescoço, sobe para o banco, amarra bem a outra ponta no pilar de ferro. Lentamente o dia vai clareando. Bruno lança à sua volta um último olhar. Depois sem hesitar, derruba o banco.
No quintal do vizinho, o galo canta de novo.






Maria Elvira Carvalho

29.5.17

JOGO PERIGOSO -PARTE X


Ouviu-se de novo a pancada na porta, e à sua ordem de entrada, Rita abriu a porta e deixou passar Glória.
Era uma mulher alta, magra e muito bonita. Uma das modelos que no ano anterior tinha participado no catálogo e que pouco tempo depois se tinha convertido em sua amante.
Aproximou-se, como se estivesse desfilando, deu a volta à secretária e exclamou enquanto o abraçava.
- Que se passa amorzinho, não tens aparecido, não telefonas…
Afastou-a sem violência, mas com firmeza.
- Senta-te Glória, precisamos falar.
Esperou que ela se sentasse e depois fez o mesmo recostando-se na cadeira, sem que lhe passasse despercebido o cruzar das pernas, com que ela o presenteou. Procurou uma desculpa.
- Sabes que não disponho de muito tempo livre.
-Sei. Mas antes tinhas sempre tempo para mim…
- Antes, tinha mais tempo. Acabei de comprar uma nova fábrica. Estou demasiado ocupado. Compreendo que és jovem, bonita, e que mereces gozar a vida. Será melhor que não te prendas comigo.
- Quer isso dizer que estás a correr comigo?- Perguntou os olhos faiscantes de raiva. Quem é ela? Uma nova modelo? Foi por isso que não quiseste que participasse neste catálogo?
- Nada disso, Glória. Não tenho ninguém, acredita. Quero que sejas feliz, e eu não tenho tempo, nem estou preparado para uma relação séria.
- Não acredito. Por tua causa rejeitei um bom contrato, que me podia levar até ao Japão. E agora corres comigo.
- Lamento. Posso ajudar-te até teres um novo contrato, e mover as minhas influências para conseguir-to rapidamente.
Estendeu a mão, pegou num cheque, que tinha em cima da mesa e estendeu-lho. Ela estava furiosa, e preparava-se para uma discussão, mas um rápido olhar ao cheque, acalmou-a. Um lampejo de gozo perpassou pelo olhar masculino. Ela pegou no cheque, dobrou-o e meteu-o na mala. Não agradeceu. Limitou-se a dizer:
-Espero que me consigas um bom contrato em breve.
Voltou-lhe as costas e saiu deixando a porta aberta. Rita assomou à porta, e sorriu:
-Foi dispensada? Pensava que desta vez, tinhas sido apanhado. É muito bonita.
- Tão bonita, quanto oca. Bom, põe-te em contacto com a Lanvin em Paris, e vê se o meu amigo Louis Courtney, está.
- Tens pressa em despachá-la para longe?
Ele não respondeu


30.4.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XII




Três meses depois, Beatriz saiu do centro de emprego com uma carta para apresentação num escritório de uma agência de publicidade.
O escritório ficava num segundo piso de um arranha-céus. Apresentou a carta a uma das empregadas e ela conduziu-a a um gabinete, onde foi recebida por um homem ainda jovem.
O homem que lhe fez a entrevista, insistiu no facto de precisarem de alguém com experiência, coisa que ela não tinha, de modo que a jovem sentiu que não ia ficar, e o seu bonito semblante entristeceu-se.
O homem, moreno, olhava-a com os seus penetrantes olhos cinzentos, tão fixamente que a jovem se sentiu incomodada e se levantou.
- Por favor sente-se. Ainda não acabei. Para este escritório, preciso de alguém com muita prática, é um facto, mas tenho uma proposta para lhe fazer.
Que proposta, poderia ele fazer-lhe, depois de levar todo o tempo desde que ela entrara a mirá-la, daquele jeito estranho,  e praticamente lhe dizer que no escritório não tinha lugar para ela? Corou até à raiz do cabelo, e ia protestar, mas ele não lhe deu tempo.
- Diz o seu currículo que é educadora de infância. É verdade?
- Sim, -respondeu sem entender a pergunta
- E porque quer trabalhar num escritório, e não numa escola ou creche?
- Porque até agora nunca trabalhei, e não é fácil conseguir uma vaga para esses sítios a meio do ano e sem experiência. E preciso trabalhar, - respondeu sem saber bem onde o homem queria chegar, ou que espécie de proposta lhe iria fazer.
- Tenho uma filha de três anos. A minha mulher morreu há pouco tempo. A menina está em casa entregue aos cuidados da avó. Porém a minha irmã, vai ser mãe, e quer a nossa mãe junto dela. Fico sem ninguém para cuidar da minha filha, e não quero nem posso nesta fase, pô-la numa creche. Preciso de alguém que cuide dela, e lhe dê a atenção que ela precisa, ao mesmo tempo que a vá educando e motivando para que tenha um crescimento físico e mental, saudável. E ninguém melhor para isso que uma educadora de infância. Interessa-lhe?
- Claro que sim. Adoro crianças.
- E tem disponibilidade para começar amanhã?
- Sim.
- Muito bem. Antes de passarmos a falar do contrato preciso saber mais uma coisa.
- Por vezes chego tarde a casa. Por isso o seu horário não poderá ser um horário fixo. Por outro lado, quando saio em viagem, se a minha mãe, não puder na altura ficar com a Matilde, teria disponibilidade para dormir lá em casa?
- Toda a disponibilidade do mundo.
Ele olhou-a com curiosidade. Era muito jovem. E gente jovem, gosta de sair divertir-se, namorar. Seria um risco confiar-lhe a sua filha?
Avançou com as condições do contrato que ela aceitou.
- Muito bem. Vou mandar redigir o contrato. Se puder passar por cá um pouco antes da uma, assina o contrato e levo-a a minha casa para que conheça a minha mãe e a Matilde. Creio que não lhe disse o meu nome. César Ferreira, - disse levantando-se e entendendo-lhe a mão.
Apesar de saber que ele tinha o nome dela no currículo,  retribuiu o cumprimento, repetindo o nome, antes de se retirar.



17.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXVIII



- Vem comigo ao escritório. Precisamos conversar.
Tinham acabado de adormecer as crianças. Já era tarde, e ela estava cansada. Mais do que isso, estava nervosa, inquieta. Há meses que descobrira o amor pelo marido. Desde então, tantas vezes se deixava levar pela imaginação sonhando com ele. Mas Afonso parecia não reparar nela. Com os filhos era amoroso. Francisca tinha-o surpreendido várias vezes emocionado com eles.
Mas com ela era diferente. Era gentil, educado, mas nada mais. Mas esta noite parecia diferente. Como se a parede invisível que parecia separá-los tivesse desaparecido.
Abriu-lhe a porta, e desviou-se para ela passar.
- Senta-te.
Indicou-lhe o sofá. Esperou que o fizesse, e sentou-se quase a seu lado.
- Faz hoje onze meses que entraste no meu escritório. Estavas nervosa como agora e pareceste-me muito tímida. Fiz-te uma proposta, aceitaste e pouco depois fazias parte das nossas vidas.
Remexeu-se inquieta. Porque lhe estava a contar aquilo que ela sabia bem demais? Com que finalidade relembrava agora aquele dia? Teria ela feito alguma coisa que não podia, segundo aquele malfadado contrato? Mas o quê? Se ao menos não tivesse rasgado a sua cópia, quando percebeu que se tinha apaixonado por ele.
Sem capacidade de lhe adivinhar os pensamentos, Afonso continuou:
-Tornaste-te rainha e senhora desta casa, por mérito próprio. Mas continuas a ser um mistério para mim. Sei que aceitaste a minha proposta por necessidade absoluta, a Graça falou-me qualquer coisa sobre isso. Gostava que me falasses de ti.
- De mim?
Espantou-se. Não acreditava que um advogado, entregasse a sua vida e a de suas filhas a uma mulher sem fazer uma investigação sobre ela. E tinha razão, Afonso tê-la-ia feito, não fora a total confiança que a irmã tinha na amiga.
- Sim. Tenho a certeza que a minha irmã te contou tudo sobre mim, o meu amor por Olga, e a minha dor quando a perdi. Mas a mim, só me disse que podia confiar em ti de olhos fechados. Solidariedade feminina.
De tudo o que Francisca ouviu, o seu coração apaixonado, reteve apenas a frase. " o meu amor por Olga".
Sentiu vontade de chorar. Tentando disfarçar a mágoa, fez o que ele lhe pedira. Falou de si. Contou do seu desgosto por não ter ido para a faculdade, da pressão dos pais para que se casasse com o filho dos amigos, da vida na cidade, do desastre financeiro do marido e do seu gesto cobarde, que a atirou a ela e aos filhos para uma vida de desespero e privação. Calou-se ao mesmo tempo que deixava escapar um soluço angustiado. 


Durante os próximos 6 dias estarei fora. Não sei se conseguirei visitar-vos.
Esta história continuará a sair, pois está programada. 
Se não for antes, até à volta.

14.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXV



Deixou-se cair na cadeira, passando a mão pela testa. A conversa com a irmã, deixara-o nervoso. É claro que ele já tinha reparado na mulher. Nem podia ser de outra maneira se viviam na mesma casa há tantos meses. Para ser sincero, reparara bem demais, para a sua estabilidade emocional.
Pegou no telefone interno.
- Dona Luísa, a partir deste momento não estou para ninguém. E não me passe chamadas. Entendido?
Desligou. Pegou na moldura. Olhou-a relembrando o dia em que a tirou. Tinha chegado a casa e encontrara Francisca na sala a brincar com as crianças. A cena parecera-lhe tão naturalmente íntima, que sem eles perceberem registou o momento no telemóvel.
Depois imprimira-a e colocara-a ali. A fotografia de Olga repousava no fundo de uma gaveta da secretária. O facto da
 irmã, ser amiga de Francisca, e encontrá-la numa época em que ele estava desesperado, foi uma dádiva do destino, talvez arrependido de ter deixado, duas crianças de tão tenra idade sem mãe.
Era admirável, o modo como ela cuidava da casa, como cuidava das crianças. E era tão bonita, que aos poucos a imagem de Olga se foi desvanecendo na sua mente enquanto Francisca se ia instalando no seu coração.
Há já algum tempo que se dera conta disso. Cada dia lhe era mais difícil, ter uma atitude natural junto dela, quando o que realmente desejava era apertá-la nos braços e amá-la até a fazer desfalecer de paixão.
Abriu a gaveta e tirou a cópia do contrato assinado antes do casamento.
A quinta cláusula, dizia expressamente, que nenhum dos contratantes podia molestar o outro com qualquer atitude de cariz amoroso ou sexual, sob pena de o molestado ter direito a rescindir o contrato e a seguir a sua vida liberto de todas as obrigações com o outro.
Que raio de clausula havia ele de ter inventado? Mergulhado na dor da perda da mulher, convencera-se que nunca a esqueceria. Que a sua capacidade de amar morrera com ela.
E, desesperado para resolver a situação, em que se encontrava, temendo que os sogros conseguissem levar-lhe as filhas, parecera-lhe que aquela clausula, era um incentivo para que Francisca se sentisse segura e aceitasse o contrato que ele lhe propunha. 
Como pudera ser tão estúpido? E agora? Agora estava manietado de pés e mãos por aquela maldita cláusula. Não podia sequer imaginar que Francisca pudesse abandonar a casa, se ele se atrevesse a expressar o que lhe ia na alma. O que ia ser da sua vida? E das filhas? Como podiam viver sem ela? 
Voltou a guardar o malfadado contrato na gaveta, fechando-a à chave.




26.10.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE III






-Tudo o que está estipulado no contrato que fizemos antes do casamento mantém-se. Porém há mais umas coisas que não estão no contrato e gostaria de te dizer. Como deves saber o trabalho de um advogado não é fácil. Às vezes aparecem casos complicados que exigem muito estudo e concentração. Por vezes trago casos para estudar em casa. Este é o meu espaço. Quando aqui estou não gosto de ser interrompido por ninguém e agradeço que mantenhas as crianças longe daqui.
-A minha irmã, vai-se embora no fim-de-semana, também tem a casa dela, da qual já está afastada há bastante tempo por minha causa. O meu cunhado tem sido muito compreensivo, há quase um ano que só tem a mulher aos fins-de-semana, mas agora quando for já não volta. Até sexta ela ajuda-te a apanhar a rotina da casa. 
Pensei melhor relativamente ao que tínhamos combinado de quartos separados.
A mulher estremeceu e ele notou-o.
-Não te preocupes. O casamento mantém-se como está no contrato. Sem intimidade que nem tu nem eu desejamos. Troquei a cama de casal por duas de solteiro. Pensei que era mais natural, as crianças vão crescer e podiam achar estranho, dormirmos em quartos separados. De resto mantenho o que está escrito. Adoptarei os teus filhos, e como meus filhos os tratarei, e confio em que farás o mesmo com as minhas filhas.
Calou-se. Como a mulher mantinha os olhos fixos no chão, ele pegou-lhe delicadamente no queixo, forçando-a a olhar para ele.
Reparou que tinha os olhos rasos de água e inquiriu:
- Que se passa? Estás arrependida?
Ela abanou vigorosamente a cabeça, as palavras sufocadas na garganta.
A voz dele suavizou-se.
- Bem sei que isto não é o casamento com que as mulheres sonham. Mas ambos sabemos que ele não passa de um contrato. Tu não podes criar e educar os teus filhos, sozinha. Eles precisam de um pai. Eu não posso, nem sei cuidar das minhas filhas sem ajuda. Elas precisam de uma mãe. É troca por troca. Parece-me um contrato justo. Vou mostrar-te o quarto. Disse à Olga para levar para lá as tuas coisas. Podes tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde, iremos ver os quartos das crianças. Tu me dirás  se queres fazer alguma alteração. Pensa que a partir de hoje, esta é a tua casa.


21.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXXVI



Aquelas duas semanas, tinham sido muito intensas para Luís, dividido entre o trabalho temporário que estava fazendo, a preparação do seu novo livro, cujo lançamento seria já no fim do mês, e o acompanhamento sempre que possível do trabalho de decoração da sua nova casa. O trabalho, no centro comercial, nada tinha a ver com jornalismo, mas Luís precisava dele para estudar as rotinas das pessoas que trabalhavam no local, já que algumas das personagens da novela que estava a escrever, viveriam grande parte da trama num sítio assim. De qualquer modo, o patrão, um empresário amigo do seu pai, sabia que ele só estaria ali um, ou no máximo dois meses, e não foi por favor que acedeu, antes pelo contrário, pois  a transferência do seu homem de confiança tinha-o apanhado desprevenido e sem tempo para preparar de forma conveniente um  substituto. Assim, sempre dispunha de algum tempo para encontrar um bom director. Chegava à noite cansado e sem vontade de fazer outra coisa que fosse tomar um bom banho e dormir. Escusado será dizer que a promessa de telefonar à mãe e ir jantar com os pais, foi completamente esquecida.
Porém e apesar de tudo, não raras vezes se surpreendia a pensar em Isabel. Por onde andaria ela? Onde viveria, o que faria? Tentava afastar estes pensamentos, mas eles permaneciam lá como erva daninha sempre pronta a estender as suas raízes.
Naquele dia tinha acabado de preparar com o editor, o lançamento do seu segundo livro, o fim do mês era já na próxima semana.  A sua vontade era continuar incógnito, mas segundo o editor, seria um erro. Os leitores acharam muito interessante um primeiro livro de um autor que queria permanecer incógnito. Mas um segundo nas mesmas condições, podia parecer que se tratava de snobismo, e desprezo por eles, leitores.. E isso podia ditar o fracasso do livro. Outra boa notícia desse dia foi a chegada do director comercial para o lugar que ele ocupara naqueles quase dois meses. Claro que ele continuaria por lá mas agora rescindido o contrato, só algumas horas por dia, porque a novela teria que estar pronta no fim de Novembro para estrear em Março.
Escrever uma novela é muito diferente de escrever um livro. Ele escrevia o livro, e apresentava-ao editor para a publicação. A novela teria que ser aprovada pela direcção de programas, depois, haveria a escolha do elenco, o que resultava de imensos castings. A escolha do roupeiro e adereços, que compõem cada personagem, os cenários, enfim um mundo de coisas antes de começarem as gravações. Mais tarde a campanha de lançamento e só depois a estreia. Ou seja antes do primeiro episódio ir para o ar eram meses e meses de trabalho intenso. E depois o trabalho continuava, pois depois da novela ir para o ar, eram as audiências que comandavam. Se o sucesso fosse grande, teria que esticar ao máximo a trama, e os duzentos episódios, poderiam ir até aos trezentos. Se fosse um fracasso, teria que reescrever grande parte da trama, matar alguns personagens, introduzir novos personagens etc.
Na verdade, ele não pretendia dedicar-se a esse tipo de escrita, aceitara fazer aquela, como se fosse um desafio.
Por tudo isso e porque acabara de se mudar para o seu apartamento, finalmente pronto, Luís sentia-se um homem realizado.
Aprestava-se para regressar a casa, quando a viu entrar no centro. Ou o destino lhe estava a dar uma ajuda, ou estava a brincar com ele. Reparou que ela não o tinha visto.
- Boa tarde Isabel, – saudou, pondo-se a seu lado.