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27.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXIV


Naquele dia, a ida à consulta foi mais demorada, pois Teresa teve que fazer análises, antes de poder ser atendida pela médica.

Mais tarde, já na consulta, a doutora não se mostrou nada surpreendida ao saber que os dois eram agora um casal. Disse, que ao ver a emoção dos dois, aquando da ecografia anterior, e o modo como ambos se olhavam, pensou que o destino deles seria o casamento. Depois explicou-lhes que as análises que tinha feito eram, a de anticorpos anti-toxoplasmose, e da diabetes, e que estava tudo bem.

A ecografia, foi mais demorada, a médica estava muito atenta a cada um dos bebés, sem fazer comentários, o que estava a pôr o casal muito nervoso.

Finalmente disse-lhes que os bebés estavam ótimos, não apresentavam qualquer deficiência,  os órgãos abdominais, estômago, intestinos e fígado estavam completos e os bebés mediam agora quase  quinze centímetros, da cabeça às nádegas e pesavam cerca de duzentos e cinquenta gramas. Era um pouco menos do que um bebé único com o mesmo tempo, mas estava muito bem para trigémeos. E mostrou-lhes o sexo dos bebés no ecrã. Dois meninos e uma menina. 

-A partir de agora,  disse a doutora Laura, eles já distinguem o bater do seu coração e o som da sua voz. Também vêm e experimentam emoções e partilham consigo. as suas mudanças de humor e as suas sensações, razão porque deve evitar ao máximo emoções fortes.

Teresa queixou-se da barriga já bastante grande e do peso a mais e a médica riu-se dizendo-lhe que três bebés não se podiam desenvolver no espaço de um e quanto ao peso ainda ia aumentar mais uns bons quilos Pois a partir de agora os bebés iriam crescer com muito mais rapidez do que até aí. 

-E a propósito - acrescentou - muito cuidado com as guloseimas, em que o Natal costuma ser farto.  

Disse-lhe ainda que a partir de agora, iria ter muito mais sono, e provavelmente baixas de tensão arterial quando deitada de barriga para cima, ou sentada, devido à pressão do útero na artéria aorta e veia cava quando o corpo está nessas posições.

Acrescentou ainda que era cada vez mais importante o repouso, não podia fazer esforço absolutamente nenhum.

Teresa aproveitou para perguntar:

-O meu cunhado vai casar, dentro de quinze dias e desejava que fossemos os padrinhos. A doutora acha que eu posso ir? 

- Se fosse uma gravidez normal, eu diria que sim desde que não estivesse muito tempo em pé e evitasse as emoções intensas. No caso da Teresa, com uma gravidez múltipla, não aconselho. Nessa data já estará com vinte e duas semanas e daqui para a frente o tempo é muito importante. 

Tem que aguentar esses bebés no útero o máximo de tempo possível, para que os seus órgãos internos ganhem maturidade e quando realizarmos a cesariana, eles estejam capazes de funcionar normalmente e não oferecerem riscos de sobrevivência para os bebés. O ideal seria como já lhe disse na última consulta, conseguir chegar às trinta e seis semanas, embora isso seja raro nas gravidezes múltiplas.  O facto de estar a toda a hora acompanhada de uma enfermeira, sossega-me. 

A propósito, deve ser a enfermeira que a acompanha, a colocar-lhe o cinto de segurança sempre que tenha de andar de carro. Uma má posição do cinto, pode causar danos graves aos bebés. E, a partir de agora quero vê-la de quinze em quinze dias.

E pronto, por hoje é tudo, aqui tem a marcação da próxima consulta, as receitas foram enviadas para o seu email.

O casal despediu-se, e saiu. Na sala de espera, Sandra perguntou se precisava entrar.

- Desta vez não - disse João encaminhando-se para a saída. -  A doutora Laura já nos fez todas as recomendações, e disse-nos que devia ser a Sandra a colocar o cinto de segurança na Teresa, pois se colocado de forma incorreta pode trazer danos aos bebés. Acompanhe a Teresa, enquanto eu vou buscar o carro.

7.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLII


 

Enquanto João se metia no carro e arrancava sem rumo fixo, perdido nos seus pensamentos, destruídas todas as suas convicções, em relação aos progenitores, e ao papel que cada um teve na sua meninice, Inês telefonava a Teresa.

- Amiga consegui falar com a minha médica. Ela tem marcações até às seis, mas aceitou ver-te depois da última cliente. Já falei com o Gustavo, e com o meu pai. O Gustavo vai buscar o Martim a casa dos avós e janta lá, pois as consultas podem atrasar-se.

- Achas mesmo necessário ir hoje? Não podias marcar para amanhã?

- “Não guardes para amanhã, o que podes fazer hoje “.  Ademais amanhã, a médica está de serviço no hospital. E não podes protelar mais uma consulta. Nunca vi uma grávida com tão poucas semanas a passar tão mal. Arranja-te, eu vou buscar-te quando faltar um quarto para as seis.

Teresa desligou a chamada e ficou pensativa. Preferia esperar pela sua médica, ia sentir-se mais à vontade, mas como ela estava de férias, e não querendo voltar ao Centro Clínico, tinha que aceitar a solução encontrada pela amiga. De resto Inês sempre lhe dissera que a doutora Laura Aguilar era uma excelente médica. Olhou o relógio. Ainda não eram cinco horas. Podia continuar deitada mais um pouco, desde que não se deixasse dormir. Mas os olhos pesavam-lhe tanto que achou por bem levantar-se e ir tomar banho.

Quando a amiga tocou a campainha, guardou o telemóvel na bolsa, agarrou as chaves e saiu.

Já no consultório, como doente da primeira consulta teve que responder a todas as perguntas que a empregada lhe fez para elaborar a ficha. Quando terminou, olhou à sua volta. Na sala ainda estava uma mulher em adiantado estado de gravidez. A última cliente da médica. O que queria dizer que as consultas estavam atrasadas pois o relógio já marcava as seis e vinte. Sentaram-se e aguardaram. Cinco minutos depois outra mulher saía do gabinete e a assistente chamava a última doente presente na sala. Trinta e cinco minutos mais tarde, chegou finalmente a vez de Teresa.

A médica era uma mulher baixinha, de voz suave e sorriso fácil.

Depois dos cumprimentos, a doutora perguntou:

-  Então diga-me Teresa, o que se passa consigo, que tanto preocupa a sua amiga. É o primeiro filho? Já fez alguma consulta depois que engravidou?

Teresa contou à médica as condições especiais da gravidez, bem como os sintomas que tinha e quando terminou, a médica levantou-se.

-Vou observá-la e fazer uma ecografia. A Teresa parece-me demasiado magra. Vamos pesar e medir - disse apontando a balança a um canto da sala.

A jovem subiu para a balança, e a médica verificou primeiro a altura depois o peso

- Um metro e setenta e cinco, cinquenta e seis quilos.  Com a sua altura, pode ser um bom peso para uma modelo, mas é claramente insuficiente para uma mulher grávida. Vamos passar ao gabinete ao lado, e preparar para a observar.

Teresa olhou para a amiga e a médica intercetando o olhar disse:

-A Inês pode vir.

Depois de preparada, a médica observou-a durante algum tempo. Tinha um aspeto concentrado, e parecia mostrar-se preocupada.

Por fim, deu o exame por terminado, e então pegou no frasco de gel, passou uma porção no ventre da jovem e deu início à ecografia:

Depois de uns minutos perguntou:

-Há na sua família algum caso de gravidez múltipla?

-Não.

-E fez algum  tratamento para engravidar com mais facilidade, algum tipo de comprimidos para estimular a ovulação?

- Sim. Disseram-me que na maioria dos casos não se consegue engravidar à primeira vez, e então fiz um tratamento, sim.

-E sabe que esse tipo de medicamento pode ter como efeito colateral, um híper estímulo ovariano e consequente gravidez múltipla?

- Quer dizer que vou ter gémeos? – perguntou

- Trigémeos, se conseguir levar a gravidez até ao fim, coisa que no seu estado atual duvido muito. Precisa de repouso absoluto, e uma dieta super-rica em proteínas, para que ganhe peso rapidamente. Mas não precisa só de ganhar peso tem que fazer repouso absoluto, e necessita de alguém que cuide de si . Penso que o melhor é ir ter comigo amanhã ao hospital e eu trato de a internar durante uns dias, para evitar um aborto que se adivinha se não aumentar rapidamente de peso. A Teresa está com seis semanas e quatro dias. Quer ver os bebés? Nesta altura ainda não se podem chamar de bebés, mas o embriões  já têm batimento cardíaco e o tubo neuronal - que será o cérebro e a medula espinal- está a começar a fechar-se. Vou aumentar o som para que oiça os seus corações.

 

 NOTA : A todas as minhas amigas recordo que Outubro é o mês Rosa. Pela vossa saúde não se esqueçam da prevenção do cancro da mama

28.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXVIII



 Teresa encontrava-se sentada à mesa na cozinha. Tinha vestido um leve robe de cor salmão, que deixava ver por baixo uma fina camisa de dormir branca. Tinha na sua frente um copo de leite quase vazio, única coisa que tinha conseguido segurar no estômago,  desde há quase quinze minutos. Toda a manhã tivera vómitos constantes, sentia-se extremamente cansada, sem forças, nem vontade de fazer o almoço. Sabia que algumas mulheres se queixavam daqueles sintomas, o livro também falava neles, mas ninguém a alertara para a violência que vinha sofrendo há quatro dias.

Não sabia se devia recorrer ao médico no Centro Clínico, não desejava fazê-lo, mas telefonara nessa manhã para o consultório da sua ginecologista, e informaram-na que estava de férias só regressaria na semana seguinte, e a continuar assim ela não acreditava que conseguisse resistir até lá. Tinha já emagrecido, pois ao pesar-se nessa manhã, a balança marcava menos quilo e meio do que na semana anterior. As grávidas devem ganhar peso, não perdê-lo.  

Terminou de beber o resto do leite e a custo levantou-se. Levou o copo para o lava loiça e encaminhou-se para a casa de banho. Precisava tomar um duche, tinha transpirado imenso, sentia-se imunda. Depois do banho, apenas tinha vontade de se deitar e dormir, mas obrigou-se a reagir. Vestiu-se, escovou os cabelos que prendeu num rabo-de-cavalo evitando olhar para o espelho, por recear o seu próprio aspeto.

Já na cozinha, ficou indecisa sem saber que fazer para o almoço. “Não há nada pior do que ter que cozinhar quando nada apetece comer” pensou.

Pôs a cozer dois ovos, e água a ferver para cozer esparguete, salteou em azeite e alho, espinafres, tomates, e rodelas de curgete. Com todos os ingredientes fez uma salada, e sentou-se à mesa. Pensando no bebé, forçou-se a comer mesmo sem ter vontade.

Porém pouco comeu, pois logo começaram as náuseas, pelo que guardou a comida no frigorífico, passou a loiça por água e meteu-a na máquina, seguindo depois para a sala, a fim de se estender no sofá.

Sobre a pequena mesa da sala uma jarra com rosas brancas, trouxe-lhe à memória o dia de sábado passado na companhia do empresário.

Passou a mão sobre as pétalas aveludadas das rosas, pegou no comando da televisão, ligou o aparelho e estendeu-se no sofá a ouvir as notícias. Cinco minutos mais tarde, a campainha da porta tocou. Levantou-se e foi atá à porta que abriu depois de ver que se tratava da sua amiga Inês. Cumprimentaram-se com um beijo, e seguiram para a sala.

Inês estava impressionada com o aspeto da amiga, e comadre. Disse assim que se sentaram:

-Aproveitei a hora do almoço para te vir ver. Todos estamos muito preocupados contigo, já que nunca mais apareceste na pastelaria. Por outro lado, sempre que te convido para ires almoçar ou jantar lá a casa, como ontem dás sempre uma desculpa. Agora olhando para ti, vejo que deves estar a passar mal e estás aqui fechada sozinha. Porque não me disseste?

- Não estive assim até à semana passada. Levei um mês praticamente a comer e a  dormir.

-Não me digas, por isso estás tão gorda – disse com ironia.

- É que os últimos dias têm sido muito difíceis. Não aguento nada no estômago. Agora mesmo não sei se conseguirei aguentar o pouco que comi ao almoço. 

Vómitos matinais após o primeiro mês, são normais em muitas grávidas,  mas se acontece após almoço e jantar deves ir ao médico. Vais começar a perder peso e não é bom para o bebé. Se quiseres vou contigo.

- O problema é que só tenho consulta no Centro Clínico dentro de duas semanas. Telefonei para o consultório da minha ginecologista e informaram-me que está de férias. E não acho que seja coisa para ir ao hospital.

-Mas não podes estar assim. Quando chegar à pastelaria, vou telefonar à minha ginecologista. Tenho a certeza de que se não hoje, amanhã ela atende-te. Não te preocupes eu levo-te lá, não te quero a conduzir como estás. Agora vou-me embora. Daqui a pouco já te telefono.  O pessoal manda-te um abraço e diz que tem saudades tuas. E os clientes perguntam por ti todos os dias. Estranham que de um momento para o outro tivesses deixado de aparecer, perguntam-me se comprei a pastelaria.

-Não lhes digas o que se passa. Diz que estou de férias, que fui para a aldeia, qualquer coisa, mas não lhes digas nada da gravidez, até que passem os três meses.

Inês levantou-se, deu-lhe um beijo, e disse:

- Não te levantes, eu sei o caminho.

 


28.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVIII

Santo Deus que loucura! Pedro caminhava pela rua completamente aturdido. Acabara de sair do médico e o que se passara tinha sido tão absurdo que se interrogava, se acontecera mesmo, ou se era fruto da sua imaginação delirante. Tinha saído de casa decidido a falar com o clínico. Chegou ao consultório e pediu à assistente uma consulta. Não era possível, disse ela. O médico tinha muitos doentes e não tinha ordem para marcar mais ninguém.
- Por favor menina, peça ao médico. É muito importante. Olhe diga-lhe que sou Pedro Medeiros e que me venho despedir...
A assistente hesitou. Depois virou costas, e dirigindo-se ao gabinete do médico, bateu, e entrou. Saiu logo de seguida.
- Por favor, siga-me. O Doutor vai recebê-lo já.
Ele seguira a assistente que lhe abriu a porta e se retirou. Avançou para a secretária e o médico pôs-se de pé.
- Boa-tarde, Doutor.
 – Boa tarde, Pedro. Como desejava vê-lo. Há mais de um mês que o procuro.
- Para quê Doutor? Para ver se o seu diagnóstico estava certo? - perguntou com ironia.
- Não amigo. A minha preocupação era outra. Acontece que pouco tempo depois daquela tarde em que vi as suas análises, eu tive que mandar repetir as análises de um outro doente. É que apesar das primeiras que fez me dizerem que estava tudo bem, o doente definhava a olhos vistos. Repetidas as análises, descobri que ele sofria de uma leucemia em fase terminal. Pouco ou nada podia fazer por ele.
- Como eu...
- Não! Como o senhor, não. Depois de estudar as  análises dele e as suas, que você não quis levar, e comparando os valores com das segundas que ele fez, cheguei à conclusão de que as vossas análises iniciais, tinham sido trocadas. Então procurei-o na morada que tinha na ficha, mas infelizmente não havia ninguém lá, e não sabia onde encontrá-lo.
Em silêncio, Pedro escutava a voz grave do médico, relutante em aceitar o que ele dizia. Por fim balbuciou receoso:
- Então eu...
 – Sim meu amigo – interrompeu ele – tinha apenas uma ligeiro distúrbio  nervoso, de que já deve estar curado, a julgar pelo seu óptimo aspeto.
 – Doutor não seria melhor eu fazer outros exames?
 – Se com isso fica mais descansado, posso marcar-los. Por mim não é necessário. O verdadeiro dono das outras análises faleceu na terça-feira à noite no hospital de S. José em Lisboa.
- Meu Deus!
Pedro ergueu-se. Mil pensamentos passavam velozes pela sua cabeça. A imagem de Rita, o seu olhar cândido, o som mavioso da sua voz, o toque sedoso dos seus cabelos, a casa da tia, a margem do rio, a preocupação de sua mãe, o pequeno Pedro, dona Célia, os passeios à beira-rio, tudo o que vivera nos últimos dois meses, voltaram à sua memória numa sucessão vertiginosa, como cavalos selvagens em louca corrida.
- Obrigado Doutor. Muito obrigado.


E como amanhã é domingo esta história volta na segunda.

12.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE IV


Ao passar pela sala, Pedro verificou que esta se encontrava agora completamente cheia.
- Então que lhe disse o médico? - perguntou o jovem com quem conversara anteriormente.
- Que não via nada de importante. Mandou-me fazer análises e recomendou-me passeios e distracção. Voltarei cá quando tiver os resultados das análises.
-Victor Ferreira - chamou a assistente
- Então adeus e as melhoras. A menina está a chamar-me.
- Obrigado. As melhoras também para si.
O jovem acabava de passar a porta do consultório e já nem devia ter ouvido as últimas palavras de Pedro. Este aguardou a volta da assistente, pagou a consulta e saiu. Na rua respirou fundo.
A mãe já devia estar ansiosa à sua espera. Pobre mãe. Os seus setenta e um anos tinham sido bem sofridos, mas não queria que ele contratasse uma empregada. Dizia, zangada, que velhice não é invalidez.
- Boa tarde mãe. Como foi o seu dia? - perguntou enquanto a beijava.
- Normal, filho. E o teu? Foste ao médico? Que disse ele? - perguntou ansiosa e preocupada.
- Ora mãe, que queria que dissesse? Que não me encontrava nada de maior, que me distraísse. E mandou-me fazer umas análises e voltar lá quando tivesse os resultados.
- E os pulmões, filho? Viu-te lá no tal aparelho?
 – Claro, mãe. Pode ficar descansada, que não vou morrer tuberculoso, - e afastou-se rindo.
A mãe foi atrás dele.
- Não te rias filho. Andas mal-encarado e sem apetite. Sou velha, mas não sou cega. Nem quero pensar o que vai ser de mim se te acontece alguma coisa grave.
- Ora mãe, não me fale de coisas tristes. O médico disse para me distrair, e ninguém se distrai com tristezas. E mudando de conversa, o que é o jantar?
 – Pato assado.
- Ora valha-a Deus minha mãe. Então tem o meu prato favorito para o jantar e não dizia nada? Vamos lá para a mesa que já me cresce água na boca, -
disse-o rindo, mas o riso soou-lhe a falso. E mentalmente pediu a Deus que a mãe não o percebesse. Sentou-se à mesa e foi com grande esforço que conseguiu comer o suficiente para não deixar a mãe mais preocupada. Na verdade, embora fosse o seu prato preferido, não sentia qualquer vontade de comer.



26.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXXI


                                               


Acabara de se arranjar, quando Miguel chegou. Sentiu-lhe os passos no corredor, e apressou-se a sair.
- Bom dia.
- Bom dia Miguel.
Vestia umas calças cinzentas e uma camisa de xadrez. A barba de três dias, dava-lhe um ar rude que não lhe ia bem. E estava mais magro, - pensou a jovem.
-O almoço está pronto, Luísa?
- Vai já para a mesa, senhor.
-Vamos almoçar? Não temos muito tempo.
Na sala a mesa já estava posta. Sentaram-se e logo Luísa trouxe o almoço.
Almoçaram quase em silêncio e depois saíram em direcção à clínica onde ela ia ter a consulta.
- Nervosa?
-Um pouco.
-Desculpa, quase não te ter dado atenção nos últimos dias. Depois de amanhã é a inauguração da exposição. Foram vinte e cinco  telas para escolher, e catalogar. E mais um sem fim de coisas que não podia descurar. Faltam quarenta e oito horas para a inauguração. Depois são mais quinze dias de exposição em que tenho de estar presente. Quando acabar, fico com todo o tempo do mundo para ti.
Sentiu um arrepio ao ouvir a última frase e teve quase a certeza que tinha corado.
Como tinham chegado ao consultório, absteve-se de responder.
A consulta foi  demorada, o médico ouviu-os com atenção, analisou demoradamente a Ressonância Magnética, fez muitas perguntas, e acabou por dizer o que eles já sabiam, ou seja concordar inteiramente com o diagnóstico anterior.
Agendaram com a assistente a primeira sessão de psicoterapia para o final dessa mesma semana, e saíram.
Eram quase cinco horas, a noite caía rapidamente, Tinha-se levantado uma aragem fria. Mariana levantou a gola do casaco.
Solícito, ele perguntou:
-Tens frio?
-Um pouco.
Ele colocou-lhe um braço sobre os ombros, como se quisesse transmitir-lhe o calor do seu corpo. A jovem sentiu que o arrepio que nesse momento a percorria, nada tinha a ver com o frio 
-Vê se a Maria pode ir amanhã, ao shopping, contigo. Precisas fazer compras. O inverno está aí, e tens pouca roupa para enfrentá-lo. Desculpa já devia ter pensado nisso, mas como sabes, não tenho tido cabeça para mais nada que não seja a bendita exposição.
Não se referiu à consulta. Por qualquer estranha, e desconhecida  razão, ambos evitaram falar nela.



25.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXX



                                                  


Luísa era uma mulher dos seus quarenta anos, alta e magra de rosto simpático e voz suave. Vestia de preto, e tinha no olhar uma expressão de tristeza. A filha, Maria, tinha dezoito anos, e era igualmente alta, e bem proporcionada. Mariana gostou delas.
Miguel acabou contratando-as, embora ficasse estabelecido que Maria faria apenas companhia a Mariana, quando o seu horário o permitisse.
A consulta com o tal doutor Serra, ficou marcada para a Segunda-feira seguinte e no resto da semana, a jovem não viu Miguel.
Saía antes dela, acordar, chegava quase de madrugada. Às vezes, à noite, sentia-o no estúdio, e tinha um desejo enorme de ir até lá.
Como nessa noite, em que se levantara, enfiara um robe e se dirigira à escada em caracol. Parou junto dela sem se atrever a subir.  Que justificação teria para o fazer? Não podia dizer simplesmente que tinha saudades dele. Ia rir-se dela. Arrependida voltou para a cama. Porque não vinha para baixo? O que fazia lá em cima? Caramba, as telas para a exposição, é que não era. Já tinham sido todas levadas para a galeria, onde iam ser expostas. Pinturas novas? Talvez. Mas tinha que ser agora?
Desde o primeiro momento, quando Miguel lhe disse que a escada, era o acesso ao estúdio, e não a convidou a subir, para lho mostrar, Mariana entendeu que aquele era um local que lhe estava vedado. Era um espaço só dele, uma espécie de santuário masculino. Por isso, pese toda a curiosidade que sentia, nunca se atreveu a subir, nem mesmo quando sabia que Miguel tinha saído. Cansada acabou por adormecer.
Eram quase onze horas quando acordou. Finalmente era Segunda- feira. Dia da consulta. Que diria o médico? Seria da mesma opinião do outro? E Miguel? Lembrar-se-ia da consulta?
Vestiu o robe e dirigiu-se à cozinha.
-Bom dia Luísa.
- Bom dia menina. Preparo-lhe o pequeno-almoço?
- Se comer agora, não almoço. Obrigado.
- O senhor disse, para a avisar que vinha almoçar a casa, e para a menina não esquecer que tinham a consulta de tarde.
- Não esqueço. Vou-me arranjar.
“Miguel vem almoçar! E vamos ficar juntos umas horas. Que bom!” – Pensou enquanto mergulhava na banheira, para um relaxante banho de espuma.

14.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVI





Não tiveram que esperar muito, para que a assistente do médico, chamasse por Miguel. Este deu a mão à jovem tentando incutir-lhe coragem. Ao vê-los entrar, o médico disse;
-Só o senhor por favor. A jovem, aguarda lá fora.
- Mas a consulta é para ela, doutor.
- Como assim? Aqui diz, Miguel Fernandes
-É que ela não sabe como se chama. E tinha de dar um nome, por isso dei o meu.
- Ela não sabe como se chama? E o senhor também não sabe o nome dela? - Estranhou o médico
- Não doutor. Nunca a tinha visto até ontem.
- Bem, - disse o médico recostando-se na cadeira, - o melhor é sentarem-se e contarem-me essa história.
Miguel contou como percebeu que a jovem se ia suicidar, como contra a sua vontade, a tinha salvado, o desmaio e depois a falta de memória da jovem quando acordou. 
-A falar verdade, - acrescentou, nem sequer sei se a perda de memória aconteceu naquela altura, ou se já existia antes.
O médico ouviu com atenção e depois pediu a Miguel para se retirar, e esperar na sala.
Depois que ele saiu, o médico fez algumas perguntas à jovem, nomeadamente se ela se lembrava da tentativa de suicídio, constatando que ela não sabia nada, a não ser o que Miguel contara. Depois, examinou-lhe os olhos, fez-lhe alguns testes simples, como seguir com o olhar um objecto ou responder a uma frase, com a primeira coisa que lhe viesse à cabeça, coisa que a jovem teve dificuldade em fazer, talvez porque se sentia perdida e cada vez mais nervosa. Por fim o médico deu-lhe uma folha em branco, pedindo-lhe que escrevesse nela o que lhe viesse à cabeça. A jovem olhou para o papel, pensou uns instantes e traçou uns riscos imprecisos que não significavam nada.
Então o médico pediu-lhe que chamasse Miguel.
Quando ele entrou, o médico disse:
-A jovem está com amnésia, que pode ser, ou não, temporária. Talvez, não saiba, mas a amnésia, pode ter origem emocional, ou física. Vamos supor que esta jovem sofreu um grande desgosto.  A perda de alguém querido, por exemplo,  é sempre um choque emocional muito grande, e isso pode ter-lhe provocado a amnésia. Mas também pode ter um problema físico. Um tumor, uma infecção no cérebro, certos tipos de doença bipolar, problemas da  glândula  hipófise, doenças crónico-degenerativas do sistema nervoso uma pancada na cabeça, enfim tanta coisa que pode provocar a amnésia. Ela tem-se queixado de dores de cabeça?
- Não doutor. Pelo menos ontem e hoje não.
- Bom, eu inclino-me mais para um distúrbio emocional. Mas não podemos descartar nenhuma das hipóteses. Para já, acho-a demasiado nervosa, e muito ansiosa.  Vou receitar-lhe o Lexotan.  Vai tomar meio comprimido à noite, durante cinco dias. A partir do sexto dia, passa a tomar um comprimido inteiro.  É  um ansiolítico, fraquinho,  só para ficar mais calma e menos ansiosa. É bom que não exceda a dose, para não corrermos o risco de provocar o efeito contrário. Entretanto vai fazer uma ressonância magnética do crânio, para detectarmos se existe alguma anomalia física. Só depois disso, podemos saber, que caminho trilhar.
 - E não se pode fazer mais nada?- Perguntou Miguel.
-Dê-lhe um bloco de desenho. E traga-me os seus desenhos quando voltar. Pode ser que deixem transparecer alguma coisa.
E voltem assim que tiverem a RM.
- Obrigado doutor.









13.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XV




Terminada a refeição que decorreu em amena camaradagem, como se os dois se conhecessem desde sempre, tomaram o rumo do centro da cidade.
Miguel estava espantado. A jovem que o acompanhava em nada se parecia com a do dia anterior, ou mesmo dessa manhã. Que se passara entretanto para uma mudança tão radical? Era como se a jovem se tivesse esquecido do seu problema. Mas a pergunta que lhe fizera, antes de entrarem no restaurante, demonstrava o contrário. Apesar de gostar de a ver assim, estranhava-lhe, a atitude.
Na baixa, Miguel procurou o consultório do tal psiquiatra, que lhe tinha sido recomendado. Infelizmente não tinha vagas para toda aquela semana. Miguel insistiu, era urgente, se fosse possível uma vaga. Não era possível. Só na próxima semana. Segunda-feira às 15 horas. Miguel acabara de marcar a consulta, quando o telefone tocou. A empregada atendeu e depois chamou-os ,quando os dois já se preparavam para sair..
- Parece que hoje, é o seu dia de sorte,- disse sorrindo. A marcação das dezassete horas, acaba de desistir da consulta. Pode ficar para os senhores . Em que nome fica a marcação?
E agora? Miguel procurou os olhos da jovem e só viu neles medo. Decidido deu o seu nome.
-Miguel Fernandes
-Então senhor Fernandes, a consulta está marcada para as dezassete.
- Obrigado. Voltarei a essa hora.
Uma vez na rua, disse.
- São duas e vinte. Vamos lá comprar os chinelos. Entretanto, talvez precise de outras coisas. Um creme, um perfume, eu sei lá. Não entendo nada das vossas necessidades.
Esperava um sorriso da jovem, mas o rosto dela tinha voltado a ficar taciturno.
Compraram os chinelos, e umas calças que lhe despertaram o interesse.  Depois parou junto de uma montra, cheia de bonitas malas de senhora. Porém quando Miguel lhe disse para escolher uma, a jovem encolheu os ombros e respondeu com tristeza:
-Para quê? Não tenho nada para pôr lá dentro.
Por fim, foram a uma perfumaria e depois de vários testes, escolheu o Angel, de Thierry Mugler.
Miguel, olhou o relógio. Dezasseis e trinta. Tinham apenas tempo para um bolo ou gelado antes da consulta. Porém a jovem estava demasiado nervosa e não quis nada, pelo que se dirigiram para o consultório




11.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XIII




- Por mim, -disse pousando o copo vazio, em cima da mesa. Pode ficar aqui o tempo que quiser. Certo que sou um homem, que desde sempre viveu sozinho, e não é fácil dividir o meu espaço com uma desconhecida. Mas quando faço uma promessa cumpro-a, e eu prometi cuidar de si e ajudá-la. E vou fazê-lo contra tudo, até mesmo contra a sua vontade. Claro que se cooperar, será muito mais fácil para os dois. Fechar-se em casa, horas e horas a chorar, não vai ajudá-la em nada.
Nesse momento a jovem saiu a correr para o quarto. Atirou-se em cima da cama chorando copiosamente.
Miguel deixou-a chorar durante largos minutos. Depois entrou no quarto, sentou na beira da cama e estendeu-lhe um lenço.
- Pronto. Já chega, - disse em voz baixa, num tom carinhoso, como se estivesse a falar com uma criança.
-Tem medo? Acredito que sim. Eu também teria no seu lugar. O futuro pode ser temeroso, mas o passado que se desconhece será bem mais assustador. Se não está preparada, podemos esperar mais uns dias, mas eu no seu lugar ia o mais rápido possível. Já pensou, no sofrimento que pode estar a causar a terceiros? Que os seus pais, irmãos, quiçá o namorado, podem andar por aí desesperados à sua procura?
Calou-se. Mentalmente Miguel interrogava-se. Foi impressão sua, ou sentiu uma estranha tensão no corpo da jovem, quando falou na família?
O silêncio adensou-se. Miguel não sabia que dizer mais para aquietar o coração da jovem. Fez-lhe uma leve carícia na cabeça e deixou que se  acalmasse por esgotamento.
Algum tempo depois, ela levantou o rosto, e olhando-o disse:
- Pode marcar a consulta. Só não sei o que vou dizer ao médico.
-Não se preocupe com isso. Na hora saberá. Agora descanse.
Levantou-se e dirigiu-se ao quintal.
Ai, acendeu um cigarro. Raramente fumava. Mas em horas de grande tensão, era no cigarro que se refugiava. Não conseguia afastar do pensamento a jovem que chorava no quarto. Franziu o sobrolho. E se ela nunca recuperasse a memória? O que ia fazer com ela? Era evidente que não podia mandá-la embora, empurrando-a sabe-se lá para que destino, quiçá de novo para a falésia.
Mas ele também não podia ficar refém dela. Precisava fazer o que sempre fizera. Pintar, viajar, seguir com a sua vida.







21.9.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE II




Perdera o apetite, e em consequência, alguns quilos. Sentia-se cansado, nervoso, e uma estranha opressão instalara-se-lhe no peito. A princípio nem ligara, porém os sintomas foram-se tornando mais insistentes, e a mãe começou a insistir com ele para que fosse ao médico. Um antepassado seu tinha morrido nos anos quarenta de tuberculose, e a mãe estava muito preocupada. Por isso Pedro decidiu que ia ao médico, mais para descansar a sua velha mãe do que por vontade própria.
Naquele tempo não existiam os modernos meios de diagnóstico, nem especialistas de tudo e mais alguma coisa como hoje. Pelo menos na sua terra. Mas havia um médico que possuía um aparelho de radioscopia, no qual diziam que as pessoas se encostavam e o médico via logo o coração e pulmões. De modo que resolveu marcar consulta para esse dia, e por isso saiu mais cedo do escritório.
Chegou ao consultório faltavam quinze minutos para as cinco. A consulta estava marcada para as cinco.
Sentou-se na sala de espera e olhou em volta. Era uma sala simples, toda pintada de branco, com cadeiras a toda a volta, de madeira clara. Pinho, talvez. Numa das paredes o juramento de Hipócrates, numa imitação de papiro emoldurada. Na outra um quadro com uma floresta em tons dourados e vários pássaros esquisitos espreitando entre as folhagens.
Sentadas, sete pessoas aguardavam a sua vez. Uma mulher de meia-idade, de luto pesado, ostentava no dedo anelar duas alianças. Uma viúva – pensou Pedro. Depois três homens. Um deles com um grande bigode de longas guias retorcidas. Vestia bem e devia ter um grande orgulho no seu bigode. Ridículo, pensou antes de afastar o olhar para o seguinte. Este era um homem baixinho, de olhos pequenos e vivos. Vestia mal e tinha mãos grosseiras. Trabalhador de uma qualquer das quintas que existiam na zona, - deduziu. O outro era segurança da C.U.F., bastava ver a farda. Teria saído do trabalho directo para o consultório. A seguir uma mulher ainda jovem grávida.
Ostentava uma enorme barriga, que a julgar pelo tamanho estaria muito perto dos nove meses.
De cabeça encostada à parede, tinha os olhos fechados e uma cor macilenta. As pernas esticadas estavam anormalmente inchadas. Coitada, deve ser um sacrifício caminhar, - pensou.
A seu lado uma mulher mais velha, vestida de preto, passava-lhe de vez em quando um lenço pelo rosto. Apesar de não encontrar entre as duas grande semelhança, Pedro pensou que devia ser a mãe da jovem ou talvez, quem sabe, a sogra.
E finalmente a seu lado um jovem, talvez um pouco mais novo que ele. Era alto, magro, de grandes olhos escuros, rodeados por profundas olheiras violáceas. As suas mãos de dedos longos, não paravam quietas.

16.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXX




                                                  Foto do google


Luísa era uma mulher dos seus quarenta anos, alta e magra de rosto simpático e voz suave. Vestia de preto, e tinha no olhar uma expressão de tristeza. A filha, Maria, tinha dezoito anos, e era igualmente alta, e bem proporcionada. Mariana gostou delas.
Miguel acabou contratando-as, embora ficasse estabelecido que Maria faria apenas companhia a Mariana, quando o seu horário o permitisse.
A consulta com o tal doutor Serra, ficou marcada para a Segunda-feira seguinte e no resto da semana, a jovem não viu Miguel.
Saía antes dela, acordar, chegava quase de madrugada. Às vezes, à noite, sentia-o no estúdio, e tinha um desejo enorme de ir até lá.
Como nessa noite, em que se levantara, enfiara um robe e se dirigira à escada em caracol. Parou junto dela sem se atrever a subir.  Que justificação teria para o fazer? Não podia dizer simplesmente que tinha saudades dele. Ia rir-se dela. Arrependida voltou para a cama. Porque não vinha para baixo? O que fazia lá em cima? Caramba, as telas para a exposição, é que não era. Já tinham sido todas levadas para a galeria, onde iam ser expostas. Pinturas novas? Talvez. Mas tinha que ser agora?
Desde o primeiro momento, quando Miguel lhe disse que a escada, era o acesso ao estúdio, e não a convidou a subir, para lho mostrar, Mariana entendeu que aquele era um local que lhe estava vedado. Era um espaço só dele, uma espécie de santuário masculino. Por isso, pese toda a curiosidade que sentia, nunca se atreveu a subir, nem mesmo quando sabia que Miguel tinha saído. Cansada acabou por adormecer.
Eram quase onze horas quando acordou. Finalmente era Segunda- feira. Dia da consulta. Que diria o médico. Seria da mesma opinião do outro? E Miguel? Lembrar-se-ia da consulta?
Vestiu o robe e dirigiu-se à cozinha.
-Bom dia Luísa.
- Bom dia menina. Preparo-lhe o pequeno-almoço?
- Se comer agora, não almoço. Obrigado.
- O senhor disse, para a avisar que vinha almoçar a casa, e para a menina não esquecer que tinham a consulta de tarde.
- Não esqueço. Vou-me arranjar.
“Miguel vem almoçar! E vamos ficar juntos umas horas. Que bom!” – Pensou enquanto mergulhava na banheira, para um relaxante banho de espuma.

15.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXIX


Como todos os artistas, Miguel era um bom observador do que o rodeava, e possuía uma enorme sensibilidade. Por isso mesmo, não lhe passava despercebida a tristeza no rosto da jovem, que ele atribuía ao seu estado amnésico. Estava porém longe de imaginar, que ele poderia ser parte dessa tristeza.
O restaurante escolhido, ficava perto de casa. Era um café restaurante, não muito grande, mas acolhedor.
-Um dia, com mais tempo, havemos de ir à Adega Machado, jantar e ouvir o fado. 
Mas hoje jantamos aqui mesmo, a comida é boa e podemos conversar mais à vontade. - Disse ele afastando a cadeira para ela se sentar.  
Escolheram a refeição e enquanto esperavam, Miguel disse: 
- Queria arranjar alguém de confiança, para te acompanhar e ajudar no que precises. Amanhã, vou tentar conseguir a consulta com o tal médico. Vou contigo à primeira consulta, mas se ele achar necessário, as tais sessões de psicoterapia, não poderei acompanhar-te. Os próximos dias vão ser muito complicados, em termos de tempos para mim. Provavelmente nem as refeições, faremos juntos. Falei com a porteira, ela conhece meio mundo no bairro, talvez pudesse ajudar-me. E sabes uma coisa? Ela tem uma irmã que enviuvou há três meses. Precisa urgente de trabalho, tem uma filha estudante, que está em risco de ter de abandonar os estudos, por causa dos problemas económicos em que a morte do pai a deixou.
Calou-se enquanto o empregado servia a refeição, retomando a conversa, logo depois:
- Disse-lhe para virem amanhã. Estou a pensar, que a mãe poderá tratar da casa, fazer compras, e inclusive as refeições. E a filha, que deverá andar pela tua idade, pode acompanhar-te às sessões, ou a dar uma volta pela cidade, ir ao cinema, ou outro lado qualquer que vós, jovens, apreciais. Dava-nos jeito, e era uma maneira de as ajudar, nesta hora difícil. O que achas?
- Não sei Miguel. Faz o que achares melhor.
-Então está decidido. Claro que teremos de combinar as coisas, em função do horário da miúda. Não vamos atrapalhar os seus estudos.
- Miúda, Miguel? Não disseste que era mais ou menos da minha idade?
Ele arqueou a sobrancelha
- E?
-Eu, não sou uma miúda, - protestou com veemência.
- Pois não. Tu és ...uma senhora miúda. – Riu divertido



Nota: Como hoje é o dia internacional contra a violência sobre as mulheres, e eu só lembrei disso depois de ter postado este capítulo, deixo-vos aqui o link para um dos contos que escrevi sobre o tema. Se alguém estiver interessado é só clicar AQUI


     


4.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XV




Terminada a refeição que decorreu em amena camaradagem, como se os dois se conhecessem desde sempre, tomaram o rumo do centro da cidade.
Miguel estava espantado. A jovem que o acompanhava em nada se parecia com a do dia anterior, ou mesmo dessa manhã. Que se passara entretanto para uma mudança tão radical. Era como se a jovem se tivesse esquecido do seu problema. Mas a pergunta que lhe fizera, antes de entrarem no restaurante, demonstrava o contrário. Apesar de gostar de a ver assim, estranhava-lhe, a atitude da jovem.
Na baixa, Miguel procurou o consultório do tal psiquiatra, que lhe tinha sido recomendado. Infelizmente não tinha vagas para toda aquela semana. Miguel insistiu, era urgente, se fosse possível uma vaga. Não era possível. Só na próxima semana. Segunda-feira às 15 horas. Miguel acabara de marcar a consulta, quando o telefone tocou. A empregada atendeu e depois chamou-os ,quando os dois já se preparavam para sair..
- Parece que é o seu dia de sorte, disse sorrindo. A marcação das dezassete horas, acaba de desistir da consulta. Pode ficar para os senhores . Em que nome fica a marcação?
E agora? Miguel procurou os olhos da jovem e só viu neles medo. Decidido deu o seu nome.
-Miguel Fernandes
-Então senhor Fernandes, a consulta está marcada para as dezassete.
- Obrigado. Voltarei a essa hora.
Uma vez na rua, disse.
- São duas e vinte. Vamos lá comprar os chinelos. Entretanto, talvez precise de outras coisas. Um creme, um perfume, eu sei lá. Não entendo nada das vossas necessidades.
Esperava um sorriso da jovem, mas o rosto dela tinha voltado a ficar taciturno.
Compraram os chinelos, e umas calças que lhe despertaram o interesse.  Depois parou junto de uma montra, cheia de bonitas malas de senhora. Porém quando Miguel lhe disse para escolher uma, a jovem encolheu os ombros e respondeu com tristeza:
-Para quê? Não tenho nada para pôr lá dentro.
Por fim, foram a uma perfumaria e depois de vários testes, escolheu o Angel, de Thierry Mugler.
Miguel, olhou o relógio. 16,30. Tinham apenas tempo para um bolo ou gelado antes da consulta. Porém a jovem estava demasiado nervosa e não quis nada, pelo que se dirigiram para o consultório