Aviso a quem me reconhecer. A foto é minha, só porque eu casei no mesmo ano da protagonista e queria uma foto da época. Esta história, não tem nada a ver comigo.
III
Agora, passados dez anos, o rapaz decidira casar. E como muitos outros, queria fazê-lo com uma mulher da sua terra. Escreveu aos pais, dando conta dos seus desejos.
O pai dele, era amigo do pai de Sofia, conhecia-lhe a filha desde que nascera, e fez-lhe saber que gostaria da rapariga para nora. E quando o seu pai lhe contou, ela limitou-se a perguntar se casava e continuava na aldeia, ou se ia ter com o marido. E quando soube que era para ir para França, aceitou imediatamente.
Ia fazer vinte anos em breve, tinha a cabeça cheia de sonhos e a alma presa à submissão do regime de então que tirava às mulheres todos os direitos que não fossem o de procriar para manter a espécie. E mesmo com os filhos, eles só eram realmente seus, enquanto estavam no ventre materno, porque uma vez paridos, era o pai que detinha sobre ele, todos os direitos. (1)
Era jovem, queria fugir dessa vida. E só o podia fazer com o pai, ou com o marido. Com o pai era impossível, logo casar-se parecia ser a solução ideal.
Às vezes passava-lhe pela cabeça, a lembrança de que ia efetuar um casamento sem amor. Mas logo afastava essa ideia, pensando que também não amava ninguém, por isso, a lógica era que viesse a amar o marido com o tempo e a convivência. E entregava-se a Nossa Senhora das Dores, de quem era devota, para que a protegesse da infelicidade.
Às vezes passava-lhe pela cabeça, a lembrança de que ia efetuar um casamento sem amor. Mas logo afastava essa ideia, pensando que também não amava ninguém, por isso, a lógica era que viesse a amar o marido com o tempo e a convivência. E entregava-se a Nossa Senhora das Dores, de quem era devota, para que a protegesse da infelicidade.
Não tinha irmãos, coisa rara na época, em que os casais tinham muitos filhos. Todavia um parto complicado e uma parteira que não tinha experiência suficiente, para perceber de início, que alguma coisa não estava bem, para chamar uma ambulância e mandar a parturiente para a maternidade mais próxima, resultou numa situação que quase matou mãe e filha. Quando enfim, resolveu mandá-la para a maternidade já era tarde. Os médicos conseguiram salvar mãe e filha, mas não conseguiram evitar que a mãe, ficasse incapacitada para ter mais filhos.
A prima acabou de lhe abotoar os inúmeros botões do vestido de noiva. Nunca iria entender porque o vestido tinha que ter mais de cinquenta pequenos botões nas costas.
Quando a mãe e a tia Ilda entraram no quarto para ver se já estava pronta, a jovem reparou que ambas tinham os olhos inchados e vermelhos. Sabia porquê. A sua família era extremamente religiosa.
Ela mesma frequentara a catequese, fizera a comunhão solene e fora crismada. E agora ia casar-se apenas no registo. O noivo pediu para ser assim e ela não se importou.
Nenhuma rapariga na aldeia, se atrevera a casar sem ser na igreja, muito menos as da sua família. Para a mãe, e tias, o casamento pelo registo não passava dum… como é que elas diziam? Ah sim, um amancebamento. As primas colocaram-lhe a tiara e o véu que prenderam à trança enrolada no alto da cabeça. O fotógrafo já aguardava no corredor para entrar no quarto e tirar as fotografias da noiva, antes da saída para o Conservatório onde se realizaria o casamento.
(1) Conheci casos, em que o casal não se entendia e por isso separaram-se, mas continuavam casados, pois que em Portugal não havia divórcio.
Cada um seguiu a sua vida e arranjaram outros companheiros. Se a mulher tivesse filhos do novo companheiro, eles só podiam ser registados como filhos do marido, e se este quisesse tirar-lhos, a lei permitia-o. Uma prima minha, esteve nesta situação. Separada do marido, teve dois filhos do companheiro que foram registados em nome do marido, e só depois do 25 de Abril e da legalização do divórcio, pôde mudar o registo dos filhos.










