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24.7.24

PIEDADE - UMA MULHER DE OUTROS TEMPOS

REEDIÇÃO


                                                        

Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra que durava já há três anos, e a gestação de uma revolução prestes a nascer na União Soviética. Nessa altura os Alemães tinham-se apossado de Riga, e a Itália fazia frente ao império austro-húngaro perto de Piave, onde se refugiaram no mês seguinte, e de onde conseguiram por fim rechaçar as tropas inimigas. 

O reino Unido lutava comandado por esse extraordinário coronel que foi T. E. Lawrence, na Palestina, e com o auxílio dos Árabes, aproximava-se de Jerusalém. Os Americanos tinham entrado na guerra e o Brasil preparava-se para declarar guerra à Alemanha e entrar no conflito ao lado dos Aliados.
 
O Corpo Expedicionário Português, combatia na Flandres ao lado dos Aliados e os jovens portugueses embarcavam para as colónias portuguesas tentando defendê-las de algum possível ataque  do inimigo.

 Em Portugal, acontecia a quinta  aparição em Fátima, envolta pelo controvérsia, entre os que acreditavam nos videntes e se deslocavam religiosamente à Cova de Iria, e aqueles que juravam que as aparições, mais não eram do que uma manobra do governo, para desviar a atenção dos Portugueses, que mal preparados para a guerra sofriam pesadas baixas, e ainda dos constantes embarques de jovens para as colónias portuguesas, duas situações que sangravam a Pátria da sua juventude masculina. 

Mas tudo isto passava ao lado de Piedade, uma ignorante mulher, do povo, a viver numa aldeia do interior norte de Portugal,  que nada  sabia, nem sonhava, do que se passava por esse mundo de Cristo. Ela nada conhecia para além da sua pequena casa, numa aldeia encravada entre montes, onde habitava com os filhos, tendo por companhia constante a fome e a miséria. O companheiro partira para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era vivo ou morto. Com ela ficaram os dois filhos, uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezado, a quem ninguém profetizava uma vida 
longa.
 
Sem emprego, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, viúvo, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os dois filhos em troca de “certos favores”. 
Piedade não sabia nada de métodos anticoncecionais.
 
A falar verdade ela se juntara com o pai dos filhos com apenas dezasseis anos quando a mãe morrera. O pai nunca o conhecera. A mãe nunca lhe falara sobre as coisas da vida. Quando Piedade se juntou com o Joaquim, não foi por amor. Amor era um luxo a que os pobres não chegavam.

 Foi uma espécie de troca. Ele ajudou-a a pagar o funeral da mãe, e ela pagou-lhe com a sua virgindade. Depois, foi ficando por lá, punha comida na mesa, pagava a renda da casa, e ela satisfazia-lhe os apetites sexuais. Que a falar verdade, duravam o tempo necessário para ele se satisfazer. Piedade “embuchou” uma vez e as despesas cresceram. Quando “embuchou” a segunda vez, Joaquim disse que o primo que estava no Brasil lhe mandara uma carta de chamada, que ia embarcar e quando pudesse a mandava buscar e aos filhos.

 Joaquim terá ido mesmo para o Brasil? Quem sabe, se partiu ou se apenas se quis livrar de responsabilidades e despesas. A verdade é que estivesse onde estivesse, nunca mais lhe deu notícias.

 Com duas crianças pequenas, Piedade arregaçou as mangas e foi à luta. Mas a vida era muito difícil, o trabalho no campo bem duro, e mal pago. Ninguém da atual geração, terá uma noção exata do que era a vida em Portugal na primeira metade do século vinte. Um dia inteiro, não chegaria para contar as vezes que ficava sem comer, para dar de comer aos filhos.
 
Por isso aceitou a ajuda do lavrador, para quem trabalhava. Era  viúvo e esse facto dava mais coragem a Piedade. Ela não seria capaz de estragar o casamento de ninguém, E Alberto parecia sincero e bom homem. Por algum tempo ela pode dar aos filhos uma alimentação aos filhos como eles nunca conheceram na sua curta vida, porém quando Alberto soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os dois filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada.

 Em Abril de 1918, poucos dias depois do desaire português, na Batalha de La Lys, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino,  mas saudável. 

Para criar os três filhos, Piedade trabalhou no campo, até deixar de sentir as costas, de tanta dor, lavou roupa no rio até as mãos sangrarem, deitou com a fome, levantou com a miséria, mas não chorou que as lágrimas tinham acabado há muito tempo. 
Um dia, depois que os filhos emigraram em busca de uma vida melhor, deixou-se dormir, e nunca mais acordou.



Fim

20.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE II





Regressou de Angola decidido a deixar o mar. A procurar outro rumo de vida, um novo futuro. Mas não era fácil. Mal terminara a primária, começou a ir para o mar. O seu pai era pescador, o seu avô fora pescador, e antes do seu avô, todos os homens da família tinham sido pescadores. Alguns tinham ficado por lá, desaparecidos em naufrágios. O mar mandara outros para terra, feitos cadáveres. 

 Ele não queria aquela vida. Não escapara do inferno da guerra, para acabar no fundo do mar. Mas que mais, sabia ele fazer? Nunca aprendera outra profissão. Todavia, acreditava que nunca era tarde para dar uma volta no seu destino.

  Arranjou trabalho numa oficina de automóveis. Começou por lavar carros. Quando não tinha que fazer, ia ajudar os mecânicos. Comprou livros para aprender a teoria, a prática ia aprendendo-a no dia a dia. 
Alzira, a mulher era modista. Tinha uma boa clientela, não lhe faltava trabalho. Era uma boa mulher. Asseada, poupada, e trabalhadora. Mas, embora isso não fosse pouca coisa, para ele não chegava. Não que estivesse a pensar separar-se, ou tivesse deixado de amar a mulher. Mas que estava desiludido com a vida matrimonial, isso era um facto.

Num tempo, em que a sociedade dizia, que a honra da mulher estava no meio das suas pernas, elas não aprendiam a ser mulheres. Eram educadas para serem boas esposas, e mães. Aprendiam de meninas, a cozinhar, arrumar uma casa, costurar, a cuidar dos irmãos mais novos, para que mais tarde, soubessem cuidar dos filhos. As mães diziam às filhas que era sua obrigação “servir” o marido quando lhe dava  a vontade, para que ele não procurasse na rua, o que a mulher não lhe dava em casa.

Ensinavam-lhes que o sexo era algo sujo, que a mulher só devia consentir, porque era necessário para perpetuar a espécie. Alzira fora criada nesses preceitos. A igreja também punha o carimbo de pecado, em tudo que não fosse estritamente necessário para a procriação. Ninguém ensinava à mulher, que o sexo era um complemento do amor, e que o seu corpo tinha os mesmos direitos a desfrutar da intimidade, que o dos homens.

Com o homem era diferente. A eles tudo era permitido. Eles estudavam, viajavam, frequentavam bordéis. Aprendiam a tirar todo o prazer que o corpo lhes podia dar. 

Com a mesma tenacidade com que lutava para melhorar a  sua vida profissional, Luís propôs-se ensinar à esposa, que entre duas pessoas que se amam, nada é sujo ou pecaminoso, que era errado pensar no sexo apenas como meio de procriação. Se assim fosse a natureza se encarregaria de castrar os desejos dos estéreis, o que não acontecia pois casais que não podiam ter filhos desfrutavam da relação sexual, com o mesmo prazer dos outros.

Foi um pouco difícil mudar a mentalidade da mulher, mas com todo o amor que lhe tinha, e uma boa dose de paciência, conseguiu tornar a vida intima do casal mais empolgante.



7.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XVIII

 



Eles continuaram o passeio, mas a alegria que Sofia sentira até aí, já não era a mesma. Era como se uma sombra negra pairasse entre eles.
Decorridos uns minutos, ela perguntou suavemente:
-Dói muito?
Ele olhou-a surpreendido. Encolheu os ombros e respondeu.
- Já foi pior.

A resposta deixou-a cheia de esperança.
Talvez ela ainda tivesse hipótese de conquistar o marido.

Aos poucos Sofia ia conhecendo uma realidade muito diferente daquela que conhecera em Portugal. Não só porque fora de uma pequena aldeia para uma cidade enorme, como pela mentalidade das pessoas, e até pela posição privilegiada de que gozava. Mas o que mais a admirava, era mesmo a diferença de mentalidades. 

Na sua aldeia, as pessoas não tinham presente, viviam presas ao passado, buscando nele, a conformação para os seus problemas diários. Diziam que apesar das dificuldades, que passavam, não se podiam queixar, porque os seus pais tinham vivido muito pior. Não fora o medo da guerra, ou da prisão, e a escassez de trabalho, talvez nem houvesse tanta gente a procurar na emigração a solução para as suas vidas. 

Em França, as pessoas viviam o presente, pensando no futuro. Não queriam pensar no passado, nem encontrar nele,  desculpas para não lutarem por aquilo  que desejavam. Talvez fosse influência da guerra recente. Excetuando os mais jovens, os outros tinham-na ainda bem presente. Ou talvez consequências do movimento grevista, iniciado em Maio do ano anterior. Os salários tinham aumentado consideravelmente, havia mais gente a estudar, e as minorias ganhavam novas regalias.

Num dos seus passeios no dia de folga, foram até à gare de Austerlitz, e Sofia ficou espantada com a quantidade de portugueses que chegavam de comboio. Sabia que era grande o afluxo de conterrâneos, mas nunca imaginou que fossem tantos. Segundo Quim, havia três fatores importantes, que levavam a que a França fosse o país de eleição dos emigrantes portugueses.

 Primeiro, o país aceitava a emigração clandestina, segundo facilitava a legalização e terceiro, não exigia qualificação na mão-de-obra.
Entretanto o frio chegara. Aproximava-se o Inverno, a neve caía com frequência.
Em casa tudo estava na mesma. O "casal" falava de tudo, menos de si próprios.

 Quim era gentil, preocupava-se com o seu bem-estar, mas não demonstrava outro sentimento que não fosse atribuído a uma boa amizade. Ele era um homem vivido, já tinha tido namoradas, talvez amantes. Sofia, era uma menina ingénua que desde que terminara o curso aos quinze anos, praticamente vivera enclausurada em casa.


Notícia
Como a carta do Hospital de Santa Maria nunca mais chega, para ir tirar os pontos que deveria ter tirado a 17/2 e que foi cancelada, na segunda feira mandei um email para saber quando seria a consulta. A resposta foi esta "Exma. senhora dona Elvira Carvalho, o pedido de consulta encontra-se registado a aguardar vagas de marcação, assim que a médica agendar a consulta vai receber a marcação por correio."
E pronto! O remédio é aguentar.

18.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XII

 




O empregado trouxe os pratos e Quim esperou que se afastasse para continuar.
- Portugueses bem-sucedidos como o meu tio, contam-se pelos dedos das mãos. E vieram para cá nos primeiros anos após o fim da guerra. A mão-de-obra para a reconstrução era escassa e pagava-se muito bem. Esses às vezes vêm matar saudades dos nossos pratos. Ainda assim muito raramente. 
Em contrapartida os franceses apreciam muito a nossa gastronomia. E graças a isso, o restaurante está sempre cheio.

- Nem sequer imaginava o que me contas. Apenas estranhei só ouvir falar em francês, quando pensava que seria um restaurante para os emigrantes portugueses. E nunca pedem comida francesa?

- Não. Restaurantes de comida francesa existem muitos  e bons. De comida tipicamente portuguesa em Paris, só este. Quem aqui vem, quer  experimentar uma comida diferente, degustar os nossos pratos, os nossos vinhos. Do mesmo modo que se vais a uma pizaria, vais para apreciar uma boa piza, não para pedires um cozido à portuguesa.

- O bacalhau estava delicioso,- disse Sofia poisando o talher. - Pensava que os franceses, não fossem grandes apreciadores de bacalhau.
- São-no, enquanto cozinhado por nós. Não é algo que eles utilizem na sua gastronomia. É claro que os franceses também pescam e comem bacalhau. Têm arrastões modernos que são fábricas-congeladores. Debaixo do convés, de cada barco, há uma fábrica de processamento, com máquinas automáticas de filetes, refeições de peixe, e um enorme conjunto de congeladores, onde se congela o bacalhau, cortado em postas e já embalado. Por isso o usam em pratos como outro qualquer peixe, fresco ou congelado.
  O bacalhau assim curado, seco e salgado, como o fazem os portugueses, que ainda pescam à linha, não. Por isso muitas vezes não o encontramos no mercado e temos que o importar diretamente de Portugal.

Esperou que o empregado retirasse os pratos e perguntou:
- Falas francês?
- Alguma coisa. Como sou filha única, meus pais mandaram-me estudar para Viseu. Fiz o quinto ano do Curso Comercial. E tu? Estudaste?
- Fiz um curso de hotelaria e restauração, enquanto aprendia na prática, aqui mesmo, na cozinha com o meu tio.


Este seria o post de amanhã, mas amanhã é dia 19 de Março. dia do Pai pelo que troquei os posts.


9.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE VII

 



- Aqui é a sala comum. É a maior divisão da casa. Daquele lado é a casa de jantar, deste como vês uma sala de estar. Estás muito calada. Que se passa Sofia? Se não tivesses falado no aeroporto diria que és muda.
- Desculpa. É que é tudo muito novo para mim. O medo do avião, o ver-me numa terra estranha, a falta dos meus pais, são muitas emoções juntas. Sinto-me cansada.
- Tem paciência só mais um pouco, já te deixo descansar, - disse sorrindo.

A sala, na parte onde se encontravam, tinha duas janelas com cortinas estampadas, um sofá em tons de azul, também estampado, coberto de almofadas coloridas, e um cadeirão estofado em cor-de-vinho. No chão uma carpete, muito parecida com as que a tia Ilda tecia com trapos, lá na aldeia. E em cima da carpete uma pequena mesa com tampo de vidro.

No outro lado da sala, a chamada casa de jantar com outra janela que iluminava a mesa retangular com cadeiras estufadas de amarelo.
Por todo o lado as cores vivas estavam presentes, como se os franceses quisessem celebrar a vida, depois do término da guerra que ocorrera há pouco mais de vinte anos.

Passaram depois à cozinha, decorada em tons de branco e verde água.
- Não sei se o meu pai te informou, eu trabalho no restaurante do meu tio, - informou Quim. Ele era o cozinheiro quando cheguei. Comecei a seu lado como aprendiz. Agora sou eu o cozinheiro e ele dirige o restaurante. Todavia hoje, para que  eu possa estar aqui, teve que voltar à cozinha. Quer isto dizer, que excetuando o dia de folga, em que o restaurante fecha, eu faço as refeições lá. Mas deixemos as explicações para mais tarde, como disseste estás muito cansada, é melhor que vás descansar, anda vamos ver os quartos.

Os quartos eram dois. Um mais pequeno, com uma cama de solteiro, e outro maior com cama de casal.
Quim foi buscar a mala dela para o quarto de casal, e disse:
- Fica à vontade. Podes trocar de roupa, e descansar. Eu vou até ao restaurante, dar uma ajuda ao tio na elaboração do jantar, e mais tarde venho buscar-te. Jantamos lá. Outra coisa, não sei se reparaste, na sala há um telefone, e ao lado num caderno está o número do telefone do restaurante. E o número do café da aldeia. Podes ligar e pedires para informar os teus pais que chegaste bem. Devem estar em cuidado.

Deu-lhe um breve beijo na face e saiu, deixando-a só, com os seus receios e o seu cansaço.



Relembro que esta não é apenas uma história de amor, mas uma história que fala da vida em Portugal, da falta de empregos, do analfabetismo, das ideias retrógradas, dos costumes, antes da revolução, da emigração, enfim de como viviam os portugueses cá e lá. Os mais velhos sabem que era assim.

22.2.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE I

 


À LAIA DE PRÓLOGO

Uma explicação para os leitores mais jovens, e também para aqueles que do outro lado do Atlântico me visitam. Nos anos cinquenta e sessenta do ano passado , os casamentos por procuração eram comuns em Portugal. A vida em Portugal, não oferecia situações de emprego para a maioria de um povo iletrado, que lhes permitisse sonhar com uma vida melhor.

 A saída era a emigração. Por outro lado a Europa saíra de uma guerra que a deixara semiarruinada e necessitava muita mão de obra para a reconstrução. Para quem queria trabalhar nas obras de reconstrução, a França era a principal saída. Os salários, eram principescos quando comparados com os salários em Portugal, não se exigiam habilitações literárias e fechavam-se os olhos à ilegalidade.  Isso fez com que milhares de portugueses inundassem Paris e outras cidades. Por outro lado no início dos anos sessenta, com a guerra no Ultramar, muitos jovens para fugirem dela, foram juntar-se aos seus familiares já emigrados.

 E de tal modo a emigração aumentou, que a determinada altura, foi publicada uma lei que proibia os jovens do sexo masculino de emigrarem, mesmo os mais jovens. Isso não os travou, apenas aumentou a emigração ilegal. Porque ficar em Portugal só tinha duas saídas. A ida para a Guerra nas Colónias, ou embarcar nos navios de pesca bacalhoeira durante vários anos, já que esses pescadores ficavam livres de irem para a tropa. A escolha era terrível em qualquer delas, a luta pela vida era difícil e a morte podia estar à espreita.

Acontece que os jovens que conseguiam emigrar, antes de terem cumprido o serviço militar, não podiam voltar a Portugal,  sob pena de terem que ir para a tropa e para a guerra, mesmo que a idade normal desse dever já tivesse passado. Na verdade um mancebo tinha que estar sempre pronto a ser chamado para defender a pátria desde os 18 anos até aos 44, altura em que realmente passavam à reserva. 

Por isso quando decidiam casar, pediam à família na terra, pais ou irmãos,  que lhes arranjassem uma boa rapariga, trabalhadora e que nunca tivesse namorado. E sabem porquê? Porque se já tivesse namorado podia não ser virgem, e naquela época, a virgindade era a joia mais preciosa de uma jovem. Raros eram os homens que se atreviam a casar com uma jovem que a tivesse perdido, pois estava sempre sujeito aos chistes dos seus amigos. Será que os jovens de hoje acreditam nisto? Podem crer. Perguntem aos vossos pais, ou avós.

Mas também havia aqueles que acabavam a tropa e só viam como futuro imediato a emigração. Muitos deles tinham na aldeia as suas prometidas, e fazia-lhes falta uma companheira para amenizar as agruras do trabalho e as saudades da terra. E foi assim que nasceram os casamentos por procuração.


                                                                  I



A década de sessenta chegava ao fim. Estávamos em Setembro, e o dia apresentava-se radioso.
Daqueles dias de sol, quando o calor ainda é forte, mas já não tem o ardor dos meses anteriores. Quando ao cheiro a maresia, se sobrepõe o cheiro das uvas maduras, e as idas à praia se tornam mais raras, na azáfama do regresso às aulas, e aos empregos na cidade. Nos campos fazem-se as colheitas do milho, feijão e batata, que mais tarde, acompanhados de um naco de carne, se transformarão em saborosas refeições. Nos lagares procede-se à limpeza e preparação dos mesmos, que na vinha a uva já se apronta para ser colhida.

Naquele dia, quando ela abriu os olhos, já o sol iluminava o quarto, num luminoso grito.
 “Acorda. Hoje é o teu dia. Um grande dia!”
O seu rosto iluminou-se num sorriso de saudação. Sorria para o sol, para a vida, para o passarinho que naquele momento veio poisar no parapeito da janela do seu quarto, encantando-a com o seu trinado.

Saltou da cama, e esticando os braços espreguiçou-se com prazer. Depois, foi até à janela, e abriu-a, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno, de pele tersa e macia, como são as peles das jovens aos dezanove anos.
Inspirou profundamente, sentindo o cheiro dos goivos e frésias, existentes em quase todos os quintais da aldeia, e caminhos da aldeia, enquanto observava as galinhas que ciscavam no terreno em frente. 

Na casa ia uma grande azáfama. Escutou as vozes da mãe, das tias e das primas. Todas preocupadas com a cerimonia. Pareciam muito nervosas. Sorriu.
Ela sim, devia estar nervosa, e no entanto estava calma e relaxada. Como se o casamento que se realizava nesse dia não fosse o dela.

Nesse momento, a mãe entrou no quarto. Era uma mulher de estatura média, de figura roliça, cabelos e olhos castanhos, e cabelo apanhado num carrapito.
- Ainda nem tomaste banho. Já viste as horas?
A jovem sorriu:
- Não te preocupes, despacho-me rapidamente. E depois não é hábito, a noiva atrasar-se?
E dizendo isto dirigiu-se à casa de banho.



15.10.19

TI' JOÃO O DOIDO

reedição


Encontrava-me sentada na soleira da minha porta. Tinha por hábito sentar-me ali todos os dias à tardinha. Gostava de ver o sol esconder-se, lá longe, atrás do rio, que vinha espraiando-se até quase à minha porta. Gostava de ver os bandos de passarinhos que regressavam, sabe-se lá de onde, enquanto os grilos iniciavam os seus cantos, e as luzes começavam a aparecer do outro lado do rio. O sol desaparecera há pouco, deixando apenas um clarão avermelhado, sobrepondo-se ao azul do céu.
Ouvia-se o bater de remos na água. Chap...chap...chap...
Logo depois vozes fortes sobressaindo por entre o bater dos remos. Nestes rios de águas salgadas, afluentes de outros rios, abundam pequenos peixes, como a tainha, a boga, os chocos e xarrocos. Ao cair da noite, se a maré está cheia, os pescadores vão pôr "o cerco". Umas redes colocadas em círculo, presas por estacas. Quando a maré começa a vazar, todo o peixe que estava naquele perímetro tenta fugir e fica preso nas redes. Mais tarde, com a maré já vazante,, mas ainda com água suficiente para a navegabilidade dos botes, os pescadores recolhem as redes onde o peixe ficou preso. Às vezes meu pai deixava-me ir no bote para ajudar.
Nos finais de Outubro os dias são já mais curtos, pelo que a noite caiu rapidamente. Aos meus ouvidos chegou a voz de um grupo de homens que eu ainda não via, mas que se aproximavam e eu sabia bem quem eram. Os trabalhadores da quinta regressavam às suas casas falando alto como de costume. Falavam das dificuldades da vida, do dinheiro que faltava para cobrir as necessidades da mulher ou de um filho doentes. E falavam do tempo e do futebol. Sim o futebol era tema constante das suas conversas.
-Vamos ter chuva - dizia o ti 'António Moço que por ironia do destino era o mais velho dos trabalhadores
-Parece que sim, - retorquiu outro, e acrescentou. - Está mau este ano para secar o Bacalhau. Com este tempo de chuva que tem feito, nem o pessoal ganha nada de jeito, nem o patrão que o Bacalhau que se estraga só dá prejuízo.
- Pois sim Bernardino, mas nós ficamos sempre pior. Com os dias de chuva do mês passado, levámos mais de 15 dias sem trabalhar, e sem ganhar. E o pior é que comemos todos os dias.
-É verdade. Nem me quero lembrar disso. O dinheiro não chegou para pagar ao merceeiro. Isto de um homem levar um dia inteiro, de enxada na mão, exposto às condições do tempo e depois não ganhar para comer...
Passavam agora à minha porta. E foi nesse momento, que o Bernardino, mais inconsciente, talvez por ser o mais jovem, mudou o rumo à conversa.
Ó! Ti’António e que me diz à vitória do campeão no Domingo?
As vozes foram ficando cada vez mais longe e já não consegui ouvir a resposta.
- Olá pequena!
Olhei sobressaltada
-Olá ti'João, então só agora?
-É verdade. Estive ali sentado na muralha a ver os pescadores. Ah! Quem me dera ir com eles pôr o cerco. Mas isto é a vida. Enquanto um homem é novo, farta-se de trabalhar, chega a velho e pronto; não pode com as pernas, as mãos tornam-se inúteis e adeus, era uma vez um velho.
-Ora não diga isso ti'João, ainda não é tão velho assim...
-Não filha - interrompeu-me ele, - ainda não estou a morrer, mas olha que já faltou mais. Ah! Se o meu filho fosse vivo, outro galo cantava.
- Morreu em África não foi? -
- Morreu. E olhe que era um rapagão. Alto forte, moreno dos ares do campo e do mar. Não era por ser meu filho, mas levava a palma a qualquer rapaz cá da terra. Foi para a tropa, e em menos de um ano fiquei sem ele.
- Coitado - murmurei, e levantando a voz perguntei:
- Morreu na guerra?
-Sim. Oh! Malditas sejam as guerras que levam o sangue novo da humanidade. Veja lá a menina, se vale de alguma coisa a vida de um homem, na flor da idade e cheio de saúde, na frente duma metralhadora. Nunca foi doente, nunca sofreu de nada, sonhava casar-se, ter filhos…
Calou-se por momentos. E continuou em voz sumida como se falasse apenas para ele mesmo.
-Dizem que o meu filho foi um herói e deram-me uma medalha. Medalha! Bah! Que me importa a mim a medalha? Ela não me acarinha, não conversa comigo, quando à noite me vejo em casa sozinho, nem me dá o neto que me tornaria mais doce a velhice, -terminou num soluço rouco.
Passou-me pela memória o facto de lhe chamarem João, o Louco. É possível que estivesse doido sim, mas não se juízo e sim de dor.
-Vamos lá ti'João, acalme-se. Não remedeia nada com isso, e o seu filho não havia de gostar de vê-lo assim.
-Tem razão menina, mas que quer, às vezes parece que tenho umas garras no peito que me rasgam de alto a baixo. E penso, que para as guerras, só deveriam ir os velhos. E morrer lá todos. E connosco, os ódios e rancores para tirar toda a peçonha da terra. Talvez assim o mundo ficasse mais justo.
- Filha! Anda para dentro que já é muito tarde, - chamou minha mãe.
-Vou já, mãezinha, vou já.
- Vá sim menina, vá. Se calhar ainda não jantou, e já vão sendo horas. Eu também vou indo. Até amanhã.
- Até amanhã, ti' João - e fiquei-me a vê-lo afastar-se até que a escuridão da noite o tragou
- Com quem falavas tu há tanto tempo? - perguntou minha mãe
-Com o ti'João do Moinho.
-Ora valha-te Deus filha, se dás conversa a doidos.
Doido? 


Ontem passei junto ao rio, no lugar onde há muitos anos esteve a minha casa. E que saudades senti, da minha soleira, do cantar dos grilos, do pôr-do-sol, do bater dos remos na água, das conversas, dos homens do campo, e do pessoal da Seca. Saudades de uma juventude que se perdeu algures numa longínqua estação do tempo. E de repente pareceu-me ouvir a voz do ti'João. Não pude deixar de pensar que talvez em algum lugar, terá enfim reencontrado o filho e quem sabe hoje será feliz... 



Fim

26.8.19

A HISTÓRIA DE UM PAR DE BOTAS... DA TROPA

Reedição
Ao lado da Igreja, o antigo colégio jesuíta, mais tarde transformado no quartel de B.C.5, e que hoje é ocupado pela Universidade Nova de Lisboa.
Foto  da Internet.





Aviso aos amigos: Por muito absurda que pareça esta história, é absolutamente real. Este Manuel, era o "Manel da lenha" o meu muito amado e saudoso pai


                                                        Primeira Parte

No início do ano da graça de mil novecentos e quarenta e um, com a guerra a assolar a Europa, Manuel era um jovem de vinte e três anos e estava prestes a terminar a tropa, e passar à reserva, no Batalhão de Caçadores 5 em Campolide. Nessa altura porém, uma certa manhã, ao levantar-se, deu por falta das botas. Antes da partida lá da sua aldeia na Beira Alta para a tropa, o Sr. Américo, tinha-lhe dito “Manel, tem cuidado com as tuas coisas no quartel. Anda por lá, filho de muita mãe e de vez em quando, algumas coisas desaparecem. Se te faltar alguma coisa, não te queixes, tira essa mesma coisa a quem te ficar mais perto. Ele tirará a outro e no fim, tudo estará certo”.
Ele ouviu, mas nos dois anos que levava no quartel, nunca lhe tinha faltado nada e aos poucos foi deixando de se preocupar. Naquele dia porém, não tinha botas para a formatura e como tinha acordara depois dos outros, já não podia tirar as botas de ninguém. A dois dias de sair tropa, Manuel, teve que participar a “perda” das botas. E tinha que pagar umas botas novas ao exército.
Como porém ele não tinha dinheiro para pagar as botas, e havia falta de mancebos nos quartéis, por via do “sangramento” para os Açores e Cabo Verde, foi-lhe proposto que ele poderia pagar a dívida ao estado com mais dois anos de tropa, "voluntária". Sem outra alternativa, Manuel aceitou.
Meses depois, em Junho, num dia de licença, o Manuel, saiu e depois de várias voltas pela cidade, pensou que estava farto da vida da tropa, e que não estava para continuar mais tempo no quartel.
Decidido, mas sem dinheiro para o comboio, resolveu seguir a pé para a terra. Não seria uma viagem rápida, mas também não tinha pressa. Lá, era certamente o primeiro sítio onde iriam procurá-lo. E foi andando, ficando um dia ou dois nas quintas que lhe apareciam no caminho. O trabalho do campo não tinha segredos para ele, e assim ganhava algum dinheiro, além de encher a barriga. E foi deste modo que nos primeiros dias de Agosto chegou à sua aldeia, Carvalhais, no concelho de São Pedro do Sul. Se a mãe ficou surpresa, porque pensava que o filho estava no quartel, Manuel não ficou menos surpreso, ao saber que ninguém o tinha ido procurar. Ele não sabia, que na confusão reinante do período de guerra que se vivia, ninguém dera pela sua falta. E quando o capataz da Seca do Bacalhau, chegou à aldeia para o engajamento de pessoal para a próxima safra, Manuel integrou-se no grupo.

13.10.18

PIEDADE - UMA MULHER DE OUTROS TEMPOS



                                                        

Quando Piedade soube que estava de novo grávida, pensou que o mundo lhe caía em cima. Corria o mês de Setembro de 1917, e o mundo agonizava entre uma guerra que durava já há três anos, e a gestação de uma revolução prestes a nascer na União Soviética. Nessa altura os Alemães tinham-se apossado de Riga, e a Itália fazia frente ao império austro-húngaro perto de Piave, onde se refugiaram no mês seguinte, e de onde conseguiram por fim rechaçar as tropas inimigas. O reino Unido lutava comandado por esse extraordinário coronel que foi T. E. Lawrence, na Palestina, e com o auxílio dos Árabes, aproximava-se de Jerusalém. Os Americanos tinham entrado na guerra e o Brasil preparava-se para declarar guerra à Alemanha e entrar no conflito ao lado dos Aliados. O Corpo Expedicionário Português, combatia na Flandres ao lado dos Aliados e os jovens portugueses embarcavam para as colónias portuguesas tentando defendê-las de algum possível ataque  do inimigo. Em Portugal, acontecia a quinta  aparição em Fátima, envolta pelo controvérsia, entre os que acreditavam nos videntes e se deslocavam religiosamente à Cova de Iria, e aqueles que juravam que as aparições, mais não eram do que uma manobra do governo, para desviar a atenção dos Portugueses, que mal preparados para a guerra sofriam pesadas baixas, e ainda dos constantes embarques de jovens para as colónias portuguesas, duas situações que sangravam a Pátria da sua juventude masculina. 
Mas tudo isto passava ao lado de Piedade, uma ignorante mulher, duma aldeia do interior norte de Portugal,  que nada sabia do que se passava por esse mundo de Cristo. Ela nada conhecia para além da sua pequena casa, numa aldeia encravada entre montes, onde habitava com os filhos, tendo por companhia constante a fome e a miséria.O companheiro partira para o Brasil em busca de uma vida melhor e nunca mais dera notícias. Ela nem sabia se era vivo ou morto. Com ela ficaram os dois filhos, uma menina de dois anos e um rapazito, recém-nascido e muito enfezado, a quem ninguém profetizava uma vida longa. Sem emprego, Piedade, percorria as poucas casas da aldeia e de outras aldeias vizinhas, oferecendo-se para trabalhar, na lida da casa, ou no campo, cujos trabalhos não tinham para ela segredos. Meses antes, ela conhecera um homem de uma aldeia vizinha, solteiro, com alguns campos, e que lhe prometera, ajuda para criar os dois filhos em troca de “certos favores”. Piedade não sabia nada de métodos anticoncecionais.
 A falar verdade ela se juntara com o pai dos filhos com apenas dezasseis anos quando a mãe morrera. O pai nunca o conhecera. A mãe nunca lhe falara sobre as coisas da vida. Quando Piedade se juntou com o Joaquim, não foi por amor. Amor era um luxo a que os pobres não chegavam. Foi uma espécie de troca. Ele ajudou-a a pagar o funeral da mãe, e ela pagou-lhe com a sua virgindade. Depois, foi ficando por lá, punha comida na mesa, pagava a renda da casa, e ela satisfazia-lhe os apetites sexuais. Que a falar verdade, duravam o tempo necessário para ele se satisfazer. Piedade “embuchou” uma vez e as despesas cresceram. Quando “embuchou” a segunda vez, Joaquim disse que o primo que estava no Brasil lhe mandara uma carta de chamada, que ia embarcar e quando pudesse a mandava buscar e aos filhos. Joaquim terá ido mesmo para o Brasil? Quem sabe, se partiu ou se apenas se quis livrar de responsabilidades e despesas. A verdade é que estivesse onde estivesse, nunca mais lhe deu notícias.
 Com duas crianças pequenas, Piedade arregaçou as mangas e foi à luta. Mas a vida era muito difícil, o trabalho no campo bem duro, e mal pago. Ninguém da atual geração, terá uma noção exata do que era a vida em Portugal na primeira metade do século vinte. Um dia inteiro, não chegaria para contar as vezes que ficava sem comer, para dar de comer aos filhos.
 Por isso aceitou a ajuda do lavrador, para quem trabalhava. Era  viúvo. Esse facto dava mais coragem a Piedade. Ela não seria capaz de estragar o casamento de ninguém, E Alberto parecia sincero e bom homem. “As aparências iludem” diz o povo e com razão. Quando o homem soube que ela estava grávida, simplesmente a pôs na rua com os dois filhos e com a indicação de que nunca mais lhe aparecesse na frente. Ela chorou tudo o que tinha a chorar e depois recomeçou a jornada de porta em porta, procurando trabalho. O seu ar franzino não mostrava a força de que aquela mulher era dotada. Em Abril de 1918, poucos dias depois do desaire português, na Batalha de La Lys, nasceu o terceiro filho de Piedade. Era um rapazinho pequeno e franzino,  mas saudável. 
Para criar os três filhos, Piedade trabalhou no campo, até deixar de sentir as costas, de tanta dor, lavou roupa no rio até as mãos sangrarem, deitou com a fome, levantou com a miséria, mas não chorou que as lágrimas tinham acabado há muito tempo. 
Um dia, depois que os filhos emigraram em busca de uma vida melhor, deixou-se dormir, e nunca mais acordou.



Fim

 Maria Elvira Carvalho




30.9.18

DESILUSÃO



DESILUSÃO


Quando eu tinha vinte anos
Sonhava construir,
Um mundo melhor
Com as minhas próprias mãos.

Queria acabar com a miséria
Abraçar a Felicidade.
Acabar com a guerra
Abraçar a Paz.
Estrangular a hipocrisia
Abraçar a Verdade.
Derrotar a opressão
Abraçar a Liberdade.
Sepultar o ódio
Abraçar o Amor.

Quando eu tinha vinte anos
O mundo era terra fértil
Onde plantava
Os sonhos dum mundo
Paradisíaco.


Agora que já passei dos setenta
Tenho as mãos estragadas
De tanta luta inglória.
Tenho os ombros curvados
Do peso das desilusões.
Os olhos sem brilho
De tanta lágrima derramada.
E o futuro cheio de pesadelos


E o mundo?
Esse continua a girar
Na roda
Da fome
Guerras
Drogas
Corrupção
hipocrisia.

E já não há sonhos que me valham!


14.5.18

RENASCER - XXXVI







E hoje foi um dia especial. estive em Lisboa no lançamento de uma antologia de poesia, onde participo com dois poemas,
Mostro aqui o livro bem com a primeira parte dos poemas, pois os dois ocupam quatro páginas.








31.3.18

7.7.17

ROSA - PARTE VIII


Esta foto, tirada por mim, retrata a antiga Caldeira do Alemão depois da intervenção da POLIS. Claro que a única coisa que a liga à antiga, a que se refere o conto, é ser no mesmo sítio. De resto na altura não existiam por ali prédios nenhuns. Existia sim uma fábrica de cortiça, um pouco mais acima onde hoje é o parque da cidade. Pertencia a um alemão de nome Hermann Zunn Hingste, que faliu pouco depois do termino da Segunda Guerra Mundial.Tudo o resto era uma quinta improdutiva.

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                                             VIII

Antes de chegarem ao seu destino, passaram por uma espécie de pequena lagoa que, contrariamente ao rio, se apresentava cheia de água. Numa ponta entre a lagoa e o rio, uma pequena ponte de madeira e, sob ela, um grande portão de zinco, que servia de comporta. Apesar da escuridão noturna, ela parou:
- É a caldeira do Alemão, pertence àquela casa grande ali em cima, que é uma fábrica de cortiça. É ali que eu trabalho. Vem, já falta pouco.
Andaram mais um bocado e foram ter a um sítio cercado por arame farpado com um portão grande no qual o homem bateu.
Pouco depois, uma mulher abriu o portão. Era Amália, a irmã de João, a porteira daquele lugar, que ela soube depois, era a Seca do Bacalhau da Azinheira, de que falavam na aldeia, algumas pessoas que todos os anos eram engajadas para a safra.
Amália tratou-a com naturalidade e até talvez um pouco de carinho. Rosa pensou que ela não devia saber onde o irmão a tinha ido buscar. Estava enganada.
João era o mais novo de seis irmãos. Não chegou a conhecer o pai, que morrera na batalha de La Lys na França, na primeira grande guerra. Devia sentir-se orgulhoso, já que toda a gente lhe dizia que o pai fora um herói, mas não era assim que ele sentia. O que sentia era uma grande mágoa de não o ter conhecido e uma grande revolta contra as guerras que deixam sozinhas mulheres cheias de filhos para criar. Pouco depois do início da segunda grande guerra, João foi para a tropa. Portugal não entrou diretamente na guerra mas, através dos Açores e da base Americana lá implantada, pode dizer-se que de certa maneira lá esteve. João foi destacado para os Açores, para prestar serviço nessa base aérea. Quando embarcou, o medo de que a base fosse atacada pelas forças inimigas era real, tanto entre os portugueses como entre os americanos. O grupo de soldados foi a Fátima, despedir-se da Virgem e pedir a sua proteção.
Então, lá perante a Virgem, João fez uma promessa que para muitos podia ser estranha, mas que foi o que lhe ocorreu no momento. Prometeu, que se voltasse são e salvo, tiraria uma mulher “da vida” e casaria com ela. Toda a família sabia da promessa e, naquele tempo, uma promessa à Virgem, era uma coisa sagrada que se cumpria sem contestação.
 Depois de sair da tropa, João procurou trabalho e quando o teve começou a pensar que tinha que cumprir a promessa. Naquele tempo, os bordéis eram proibidos por lei mas, em Lisboa, havia alguns que por qualquer razão, que ele não entendia, as autoridades fingiam desconhecer.
Aos fins-de-semana, João começou a percorrê-los. Quando encontrou Rosa, já tinha visitado dois, mas ninguém lhe agradou. As mulheres, que encontrou ou eram já demasiado velhas, para a mulher que ele queria para mãe dos seus filhos, ou estavam por demais ligadas àquela vida e não se habituariam a uma vida diferente. Por isso, quando viu Rosa, com o seu ar de menina, provinciano e assustado, sentiu que tinha encontrado o que procurava.
Quando foi buscar o dinheiro exigido pela dona do bordel, João falou com a irmã, que lhe disse que podia levar a moça lá para casa até casarem.
E agora, ali estava ela, numa casa estranha, pobre de móveis, mas rica de vida, a julgar pelos dois catraios que andavam à roda dela como cão à volta do dono.
Amália destinou-lhe a cama de um dos filhos, os rapazes dormiriam juntos, não havia problema. Depois, não seria por muito tempo.



1.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XIII





- Queres jantar comigo esta noite? – O convite surgiu de repente, apanhando-a de surpresa.
- Obrigada, mas não posso.
- Não podes, ou não queres?
Daniela irritou-se. Não gostava que pusessem em dúvida a sua palavra. 
- E se assim fosse? Não sou obrigada a conviver contigo, fora da fábrica.
- Não precisas de por as garras de fora, - respondeu com voz rouca.
Daniela pensou que tinha ido longe de mais. Aquele homem tinha o condão de a por fora de si. E o pior, é que era extremamente atraente. Naqueles dias em que não o vira, tinha chegado a pensar, que pudessem ter uma relação profissional normal, talvez até serem amigos. Mas bastou ele chegar, para que essa ideia lhe parecesse absurda. Não. Nada de saídas, nada de amizades. Não podia correr riscos. Era demasiado perigoso para a sua estabilidade emocional.
- É uma pena que não possas esquecer, que eu sou teu sócio. Não vai ser nada agradável a nossa convivência em clima de guerra.
-Podíamos acabar com isto.
-Como? Vendendo-te a minha parte? É isso o que ias propor? E porque não me vendes tu a tua?
-Estás doido? A fábrica foi criada pelo meu pai. Sempre foi da família.
- Então porque não me adotas? – Perguntou sarcástico.
- Não tens cara de menino abandonado, - respondeu-lhe no mesmo tom.
Era aquilo que lhe agradava nela. A inteligência, a resposta pronta, o desafio, a paixão. Mudou de assunto.
- Precisas de alguma coisa. Uma assinatura, uma tomada de decisão, qualquer coisa?
- Hoje não. Mas na Sexta-Feira, sim. Precisarei.  Há facturas a pagar nesse dia. Quero que as verifiques.
Ouviu-se a sirene que anunciava aos trabalhadores que o dia de trabalho chegava ao fim. Daniela, desligou o computador, meteu o catálogo que ele lhe trouxera, na mala e pôs-se de pé.
- Vens amanhã?
- Não. Acabas de dizer que não precisas de mim e tenho muito trabalho na minha empresa.  
- Bom então até depois.