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25.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE X




Na rua o homem parou, piscou os olhos por causa da luz daquele bonito dia de sol, e respirou fundo. Depois retomou a marcha, seguindo Helena em direção ao carro. Quando o veiculo começou a rodar, ela comentou:

-Amanhã, vamos ao centro comercial. Precisa de comprar algumas roupas.
- Mas como? Não tenho dinheiro!
- Eu sei. Mas posso emprestar-lhe o suficiente para que compre o necessário. Pagar-me-á quando recuperar a sua vida.
- E se isso nunca acontecer, doutora? Não posso viver às custas da sua generosidade.
- Não se preocupe. Quando menos esperar, recupera a memória. Foi pena que não se deixasse hipnotizar. Podia ser que o psiquiatra tivesse descoberto algo.
- Mas não foi culpa minha, juro.
- Chegamos, - disse ela estacionando o carro junto de um prédio de apartamentos. Moro no segundo andar. Vamos?

Acionou o mecanismo da chave para fechar o automóvel, ao mesmo tempo que se dirigia para a entrada do prédio seguida pelo homem. Se a porteira a visse, decerto ia estranhar. Morava ali há três anos, e nunca entrara ninguém na sua casa, a não ser a empregada, e os seus pais, quando vinham passar uns dias com ela. 

Não utilizaram o elevador. Ela nunca o usava, preferindo subir os dois lances de escadas, e naquele dia não foi diferente, até porque pensou, que depois de tantos dias, na cama, ele precisaria de exercício. Abriu a porta, acendeu a luz, pendurou a mala num cabide à entrada e voltando-se para ele que se mantinha em silêncio, disse:
- Venha, vou mostrar-lhe a casa. Aqui é a sala, digamos de recreio. Aqui pode ler, ouvir música, ou ver TV. Aqui é a sala de refeições. É pouco utilizada, como vivo sozinha com o filho, comemos sempre na cozinha. É mais aconchegante. O quarto principal, o quarto do Diogo, e o quarto dos meus pais, que será o seu, enquanto aqui estiver. No armário, estão algumas roupas, para dormir confortável hoje. Espero ter acertado com o tamanho. Aqui  são as casas de banho. Esta é a que uso com o Diogo. 
A porta ao lado, é de outra casa de banho cuja diferença consiste, em que esta tem banheira, e a outra apenas duche. No resto são iguais. Poderá usá-la.
E finalmente a cozinha. 
Voltou-lhe as costas, mas ele pôs-lhe uma mão no ombro e forçou-a a voltar-se. Segurou as mãos dela entre as suas, e perguntou olhando-a com intensidade:




8.12.19

CONTOS DE NATAL - DAVID E A ESTRELA











A casa de Ciryl e Paola fica mesmo no alto da serra da Malveira. Quando se chega lá acima, o ar é leve e, se levantarmos os braços, podemos tocar nas nuvens e agarrar o sol.
É uma casa antiga, de grossas paredes de pedra, com salas enormes onde se ouve música antiga, canções e poemas porque os corações de Ciryl e Paola estão sempre abertos à beleza e à amizade. Talvez por isso, porque Ciryl e Paola da serra da Malveira são pessoas especiais e lindas, esta história aconteceu.


Da varanda da casa que lembra um desses castelos com reis, princesas e fadas boas, avista-se o mar. Até lá, muito longe, onde o olhar quase se perde, crescem as árvores, flores, e o vento que nos despenteia carrega o perfume de coisas que nos enchem de paz e alegria. Mas, o ano passado, alguém deitou fogo à serra.
Por entre as sirenes dos carros de bombeiros, os gritos, o voo assustado das aves, o gemido dos pequenos animais sem abrigo, ouviam-se as árvores a chorar. Primeiro erguiam os seus grandes ramos para o céu, depois, as pequenas folhas estalavam e, com um ruído ensurdecedor, víamo-las tombar como gigantes feridos. Foi tão triste! Nos meses seguintes o que se avistava da varanda mais alta da casa, eram apenas os caminhos queimados cobertos de tristeza e silêncio.
Certa manhã de dezembro, já perto do Natal, Ciryl e Paola tiveram uma ideia: foram pelas escolas e desafiaram as crianças: «Vamos semear pinheirinhos novos e deixar a nossa serra toda verde como era dantes.»
«Vamos!», disseram os meninos. «Vamos!», disseram as meninas.
De súbito, foi como se um sino tivesse tocado no coração do mundo.
Parecia uma só voz o que se ouviu e ecoou por todo o lado, das casas ao mar.
E tinha tanta força essa voz que os pais dos meninos, e as mães, e as avós, e os tios, e as tias, e os primos, e as primas, e as madrinhas, e os padrinhos vieram também. Traziam pás, ancinhos, enxadas, pequenos sachos, regadores. Era como um filme.
Pela serra inteira, gente que andava, parava, ria, abria buracos e plantava árvores. Árvores, dezenas de árvores que o Ciryl e a Paola mandaram vir de todas as partes do mundo: pinheiros, abetos, araucárias, cedros do Líbano.
As pessoas, pela serra, pareciam borboletas voando: corriam aqui, escorregavam ali, levantavam-se, trocavam pequenas palavras, muitas sugestões. Uns plantavam a sua árvore na encosta; outros, nas faldas da serra.
Ao fim da tarde, cansados, os pais e as mães, os primos e as primas, os tios e as tias, os padrinhos e as madrinhas, as crianças, os velhos e os assim-assim juntaram o pão e a salada, o queijo e a Coca-Cola, os pastéis de bacalhau e o bolo-rei, a alegria e o coração contente e fizeram uma grande festa.
A serra parecia pintada de verde fresco e nos olhos de todas as pessoas havia um brilho diferente. Todos se falavam, mesmo os que de manhã não se conheciam e as gargalhadas que davam eram como água fresca que apetecia beber e repartir.
Só David, um dos mais pequeninos, o que tinha olhos azuis e reflexos de ouro nos cabelos lisos, indiferente à festa, continuou a subir a serra. Queria que a sua árvore fosse a mais alta, a que ficasse lá mais acima e se pudesse contemplar da terra inteira.
Subiu, subiu. Subiu muito. Rasgou a pele nas silvas, bebeu o sumo das amoras porque tinha sede. Subiu mais ainda.
Com a sua pequena enxada de plástico cavou um buraquinho. Quando acabou de plantar o seu cedro do Líbano, deitou-se na terra fresca e adormeceu. Então, inexplicavelmente, a árvore começou a crescer, a crescer, e cobriu-o de sombra. Uma ave, veio dos lados do sol nascente e embalou-lhe o sono com seu cantar. Quando a noite desceu, perfumada, uma estrela desceu de mansinho e pousou no ramo mais alto, iluminando todos os caminhos. De repente, no meio da festa, alguém deu pela falta de David. Chamaram, chamaram e nada. Ninguém respondia. Então, como se fosse um formigueiro em movimento, as pessoas começaram a espreitar na urze, no sumo dos frutos, no espelho de água do tanque, dentro da chaminé, debaixo do piano. Chegaram à varanda. Olharam a serra.
Lá no alto, iluminado, enorme, o cedro era um sinal.
Correram todos para lá.
Um grande silêncio desceu na serra. Todos se olhavam estupefactos. Ninguém sabia explicar por que crescera assim, em tão poucas horas, aquela árvore que uma estrela iluminava.
E quando viram David a dormir, segurando ainda na mão o pequeno sacho, com a cara toda lambuzada de amoras e terra, Ciryl disse sorrindo e simplesmente: «Oh! Parece o Menino Jesus!»
E regressaram. Cantando.


Maria Rosa Colaço 



Fonte   A

15.10.19

TI' JOÃO O DOIDO

reedição


Encontrava-me sentada na soleira da minha porta. Tinha por hábito sentar-me ali todos os dias à tardinha. Gostava de ver o sol esconder-se, lá longe, atrás do rio, que vinha espraiando-se até quase à minha porta. Gostava de ver os bandos de passarinhos que regressavam, sabe-se lá de onde, enquanto os grilos iniciavam os seus cantos, e as luzes começavam a aparecer do outro lado do rio. O sol desaparecera há pouco, deixando apenas um clarão avermelhado, sobrepondo-se ao azul do céu.
Ouvia-se o bater de remos na água. Chap...chap...chap...
Logo depois vozes fortes sobressaindo por entre o bater dos remos. Nestes rios de águas salgadas, afluentes de outros rios, abundam pequenos peixes, como a tainha, a boga, os chocos e xarrocos. Ao cair da noite, se a maré está cheia, os pescadores vão pôr "o cerco". Umas redes colocadas em círculo, presas por estacas. Quando a maré começa a vazar, todo o peixe que estava naquele perímetro tenta fugir e fica preso nas redes. Mais tarde, com a maré já vazante,, mas ainda com água suficiente para a navegabilidade dos botes, os pescadores recolhem as redes onde o peixe ficou preso. Às vezes meu pai deixava-me ir no bote para ajudar.
Nos finais de Outubro os dias são já mais curtos, pelo que a noite caiu rapidamente. Aos meus ouvidos chegou a voz de um grupo de homens que eu ainda não via, mas que se aproximavam e eu sabia bem quem eram. Os trabalhadores da quinta regressavam às suas casas falando alto como de costume. Falavam das dificuldades da vida, do dinheiro que faltava para cobrir as necessidades da mulher ou de um filho doentes. E falavam do tempo e do futebol. Sim o futebol era tema constante das suas conversas.
-Vamos ter chuva - dizia o ti 'António Moço que por ironia do destino era o mais velho dos trabalhadores
-Parece que sim, - retorquiu outro, e acrescentou. - Está mau este ano para secar o Bacalhau. Com este tempo de chuva que tem feito, nem o pessoal ganha nada de jeito, nem o patrão que o Bacalhau que se estraga só dá prejuízo.
- Pois sim Bernardino, mas nós ficamos sempre pior. Com os dias de chuva do mês passado, levámos mais de 15 dias sem trabalhar, e sem ganhar. E o pior é que comemos todos os dias.
-É verdade. Nem me quero lembrar disso. O dinheiro não chegou para pagar ao merceeiro. Isto de um homem levar um dia inteiro, de enxada na mão, exposto às condições do tempo e depois não ganhar para comer...
Passavam agora à minha porta. E foi nesse momento, que o Bernardino, mais inconsciente, talvez por ser o mais jovem, mudou o rumo à conversa.
Ó! Ti’António e que me diz à vitória do campeão no Domingo?
As vozes foram ficando cada vez mais longe e já não consegui ouvir a resposta.
- Olá pequena!
Olhei sobressaltada
-Olá ti'João, então só agora?
-É verdade. Estive ali sentado na muralha a ver os pescadores. Ah! Quem me dera ir com eles pôr o cerco. Mas isto é a vida. Enquanto um homem é novo, farta-se de trabalhar, chega a velho e pronto; não pode com as pernas, as mãos tornam-se inúteis e adeus, era uma vez um velho.
-Ora não diga isso ti'João, ainda não é tão velho assim...
-Não filha - interrompeu-me ele, - ainda não estou a morrer, mas olha que já faltou mais. Ah! Se o meu filho fosse vivo, outro galo cantava.
- Morreu em África não foi? -
- Morreu. E olhe que era um rapagão. Alto forte, moreno dos ares do campo e do mar. Não era por ser meu filho, mas levava a palma a qualquer rapaz cá da terra. Foi para a tropa, e em menos de um ano fiquei sem ele.
- Coitado - murmurei, e levantando a voz perguntei:
- Morreu na guerra?
-Sim. Oh! Malditas sejam as guerras que levam o sangue novo da humanidade. Veja lá a menina, se vale de alguma coisa a vida de um homem, na flor da idade e cheio de saúde, na frente duma metralhadora. Nunca foi doente, nunca sofreu de nada, sonhava casar-se, ter filhos…
Calou-se por momentos. E continuou em voz sumida como se falasse apenas para ele mesmo.
-Dizem que o meu filho foi um herói e deram-me uma medalha. Medalha! Bah! Que me importa a mim a medalha? Ela não me acarinha, não conversa comigo, quando à noite me vejo em casa sozinho, nem me dá o neto que me tornaria mais doce a velhice, -terminou num soluço rouco.
Passou-me pela memória o facto de lhe chamarem João, o Louco. É possível que estivesse doido sim, mas não se juízo e sim de dor.
-Vamos lá ti'João, acalme-se. Não remedeia nada com isso, e o seu filho não havia de gostar de vê-lo assim.
-Tem razão menina, mas que quer, às vezes parece que tenho umas garras no peito que me rasgam de alto a baixo. E penso, que para as guerras, só deveriam ir os velhos. E morrer lá todos. E connosco, os ódios e rancores para tirar toda a peçonha da terra. Talvez assim o mundo ficasse mais justo.
- Filha! Anda para dentro que já é muito tarde, - chamou minha mãe.
-Vou já, mãezinha, vou já.
- Vá sim menina, vá. Se calhar ainda não jantou, e já vão sendo horas. Eu também vou indo. Até amanhã.
- Até amanhã, ti' João - e fiquei-me a vê-lo afastar-se até que a escuridão da noite o tragou
- Com quem falavas tu há tanto tempo? - perguntou minha mãe
-Com o ti'João do Moinho.
-Ora valha-te Deus filha, se dás conversa a doidos.
Doido? 


Ontem passei junto ao rio, no lugar onde há muitos anos esteve a minha casa. E que saudades senti, da minha soleira, do cantar dos grilos, do pôr-do-sol, do bater dos remos na água, das conversas, dos homens do campo, e do pessoal da Seca. Saudades de uma juventude que se perdeu algures numa longínqua estação do tempo. E de repente pareceu-me ouvir a voz do ti'João. Não pude deixar de pensar que talvez em algum lugar, terá enfim reencontrado o filho e quem sabe hoje será feliz... 



Fim

15.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXIX




Já o sol baixava no horizonte quando Cláudio entrou no alpendre que  rodeava a casa. Limpou os ténis no tapete, mirou-lhes a sola em busca de alguma impureza que fosse sujar a casa e só depois entrou em casa. Pendurou o boné num bengaleiro na entrada e seguiu para o quarto. Vestia umas calças de ganga velhas e sujas, e uma camisa que deveria ter sido branca quando a vestiu, mas que se apresentava suada e suja. Se Helena o visse naquela hora, teria dificuldade em reconhecer o homem elegante, que conhecera há dez dias. Ouviu a voz dos pais que conversavam na sala, mas seguiu para o quarto, e daí passou à casa de banho. Despiu-se, enfiou no cesto, a roupa para lavar, e meteu-se debaixo do duche.  Fechou os olhos e deliciou-se com a frescura da água que lhe acariciava o corpo. Estava cansado. Toda a amanhã, percorrera os vinhedos, verificara o estado de maturação das uvas das duas castas de uvas que a quinta produzia, a fim de decidir o momento certo de iniciar as vindimas.
Porque as uvas não são todas colhidas na mesma época. Há castas que amadurecem mais cedo, e o próprio clima influencia esse amadurecimento. Se elas forem colhidas, antes do seu ponto ideal de maturação, o vinho será mais ácido e menos alcoólico. Se pelo contrário forem colhidas mais tarde, os vinhos terão menos acidez e mais álcool. Em qualquer dos casos nunca será um vinho de primeira qualidade.
Cláudio amava a terra como amava a própria vida. Ele nunca seria um homem de cidade, nunca seria capaz de levar a vida metido num escritório. Claro que  gostava das cidades. Para passear, para relaxar, para um jantar de amigos, (embora não tivesse muitos) para um almoço de negócios, ou mesmo passar a noite com uma mulher bonita, mas a sua vida era o campo, o trabalho na terra, o ver crescer o que plantou. Por isso se formou em Agronomia. Quando era mais novo, acalentou o sonho de ir para África quando terminasse o curso. Ajudar a desenvolver as zonas mais pobres do planeta, explorando a terra e tirando dela tudo o que tinha a certeza ela podia produzir. Com o tempo arrumou o sonho numa gaveta escura da memória. A saúde da mãe era periclitante e ela morreria se ele fosse para tão longe. Por isso mal terminou o curso de Agronomia na Escola Superior Agrária de Viseu,  matriculou-se na Universidade de Trás-os-Montes e alto Douro, único sítio no país onde poderia tirar o curso de Enologia, que o ia ajudar a fazer com que os vinhedos da quinta do pai, produzissem um dos melhores vinhos da região a que pertencia. 
Desde que Cláudio assumira a direção da quinta, a sua produção melhorara imenso e os seus vinhos embora ainda não tivessem atingido a qualidade que ele desejava, eram já vinhos muito bons. 
Acabado o duche, fechou o chuveiro, enxugou-se, e completamente nu, passou ao quarto, onde se vestiu.
Aquela casa também era agora bem diferente do que tinha sido outrora. Quando o pai a comprara, ele não tinha mais do que doze anos. A casa, uma vivenda térrea, com um bom espaço à sua volta, era uma típica casa de agricultores, com boa construção, mas poucas comodidades. Quando o pai comprara a quinta e decidira desistir da agricultura para se dedicar à vinicultura, o dinheiro escasseava, e a casa manteve-se tal como a tinha comprado. Anos mais tarde, já os vinhedos a produzirem bem, ele decidiu então transformar a casa e deixá-la como sonhava. Deixando de pé apenas as estruturas, redimensionou espaços, deitou abaixo algumas paredes,   tornando as divisões maiores, e introduzindo-lhes alterações como nos quartos, em que cada um tinha acesso a uma casa de banho, para uso pessoal do ocupante. Também mandara instalar uma moderna cozinha, e um alpendre no espaço fronteiro à entrada. A casa dispunha ainda de dois quartos de hóspedes, num deles, dormia agora a enfermeira que eles tinham contratado para lhes ajudar a cuidar da mãe, naqueles primeiros tempos, (porque embora os médicos dissessem que hoje em dia uma cirurgia de coração aberto, não oferece o risco de outrora, para os leigos como ele e o pai, era assustador), o escritório que ele partilhava com o pai e uma sala comum à casa de jantar.


18.2.18

ENTRE DUAS DATAS



foto da net
                                                        I
Corria o ano de mil novecentos e sessenta e quatro.
O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo, renitente em dar lugar ao Outono.
 Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:

- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!

A jovem sorriu. Sorriu para o céu azul, para o passarinho, que naquele momento, passou a cantar, esvoaçando pela janela do seu quarto, e para o sol radioso que anunciava um dia de calor. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se refletia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, barrou-lhe o pão com um pouco de margarina, que constituía o de-jejum habitual, juntou-lhe um copo com leite quente,  e deixou-a a comer, enquanto "puxava as orelhas" à cama e dava uma arrumação aos quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:

- Mana, já se vê o barco, já lá vem...

Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe, era o Gazela, um lugre-patacho da pesca bacalhoeira, que pertencia à Parceria Geral de Pescarias, dona da Seca da Azinheira, onde ela nascera e vivia. Andando devagar, com a irmã pela mão, chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido espera-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava, como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, filhos de gente que morava na Telha, e trabalhava na Seca durante a Safra, foram companheiros de brincadeiras. Depois cresceram, e ou por gosto, ou por falta de opção, ou ainda para fugirem da guerra colonial,  juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras há muito tempo se tinham radicado na Telha, Quinta da Lomba, ou Verderena, localidades à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...

9.1.18

ESCRITO NAS ESTRELAS - PARTE II


Os mais antigos sabem que esta foto é do meu casamento. Repito-a em cada história que tem um casamento naquela época.






Decidido, foi até Santar, no distrito de Viseu e procurou a jovem que o acompanhara e lhe dera apoio moral nos últimos vinte meses.  
Simpatizaram, namoraram e casaram. Depois emigraram para França, lá trabalharam, tiveram filhos e netos. Fernanda foi uma grande companheira. Era boa esposa e boa mãe, e apesar de reconhecê-lo sabia que não se tinha dado por inteiro e por vezes o remorso assaltava-o. Mas não estava na sua mão, ele não conseguia amar sem reservas, com todo o seu coração. Porque uma parte dele não lhe pertencia. Apesar de tudo, ela foi uma mulher feliz até que o maldito cancro a levou.
Viúvo e prestes a ser reformado, Abílio sonhava voltar ao seu amado Portugal, rever as ruas onde crescera e vivera, sentir o cálido e luminoso sol de Lisboa, passear pela baixa, espraiar o olhar pelo Tejo. Porém os filhos e os netos eram franceses. Lá nasceram, cresceram se fizeram adultos, amaram, casaram. Abílio entendia que os filhos não quisessem alterar toda a sua vida, para irem para um país que nada lhes dizia, e que, não tinha condições, de lhes oferecer empregos, compatíveis com a vida que tinham no seu país natal. Mas como diziam na sua terra, amigo não empata amigo e por isso despediu-se dos filhos e netos, prometendo que passariam as datas mais importantes juntos, quer fosse em Lisboa, ou em França, e rumou a Lisboa, onde alugou uma pequena casa na Graça.
Nos primeiros tempos deambulou pela cidade, admirando-se com as enormes mudanças efetuadas desde a última vez que ali estivera para assistir ao funeral da mãe, trinta anos atrás.( O pai havia falecido, anos antes, enquanto ele estava em Moçambique). Depois disso, sempre que vinha de férias a Portugal, ficava-se pela casa dos sogros em Santar. Viveu feliz durante uns meses, até ao dia em que a solidão se apresentou na sua casa, sentou à sua mesa e deitou na sua cama.  É que a rua onde nascera estava irreconhecível, os amigos de infância tinham desaparecido, e nesta nova Lisboa, ele não conhecia ninguém.
O olhar tonou-se nostálgico, o sorriso foi perdendo naturalidade. Até os filhos e netos, notaram a diferença, nas longas conversas via Skipe.  Para o animar, Alexandre o neto mais velho, aconselhou-o a criar um perfil numa rede social muito em voga, e a procurar os seus antigos amigos pelo nome nessa rede.
“Hoje em dia, avô, só não está nessa rede, quem já morreu, ou não sabe ler. Vais ver que vais encontrar amigos, até talvez os teus antigos colegas de Moçambique”
Animado, Abílio assim fez. E começou uma busca, pelos seus amigos na internet. Conseguiu encontrar alguns amigos de infância, mas apenas três residiam na cidade, os outros estavam espalhados pela Europa, para onde tinham emigrado em busca de melhores condições, tal como ele fizera. E então, antes de procurar os colegas de tropa, ganhou coragem e procurou Ema. 
Encontrou-a a viver em Braga, e enviou-lhe uma mensagem a que ela respondeu no mesmo dia, com o seu número de telemóvel.
Nervoso e ansioso esperou a noite para lhe telefonar. Emocionou-se ao ouvir a sua voz, enquanto lhe contava que vivia com a irmã, e a sobrinha. Que voltara a viver em Lisboa, depois que os pais, morreram, mas que se mudara para Braga, quando a irmã ficara viúva a fim de a apoiar. Não, não tinha casado, nunca tinha encontrado alguém que a levasse a desejar fazê-lo.  Por sua vez, ele falou-lhe do tempo de guerra em Moçambique, das inúmeras cartas que lhe enviara e recebera de volta, de Fernanda, do seu casamento, dos filhos e netos, luso-franceses, e da sua atual vida em Lisboa. 

Continua


Nota:
 Há oito dias com uma dieta rigorosa, que deveria terminar hoje, tive uma nova sessão de vómitos ontem à noite. Hoje estou bem dispostas, mas sinto-me fraca, e sem paciência. Tenho saudades de um bom prato de comida, e não consigo apaziguar o maldito ciático.
Fiquem bem

4.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XIV


Ainda o sol não tinha nascido, quando Anete acordou. Levantou-se, e ao encaminhar-se para a casa de banho, reparou no vestido, que largara de forma negligente em cima de uma cadeira. Olhá-lo, recordou-lhe o jantar do dia anterior, e o homem que a levara a jantar.
Não havia dúvida de que Salvador era um homem muito interessante. Havia um não sei quê de mistério nele que a atraía e a repelia ao mesmo tempo. Aquela história sobre a cunhada e a confusão gerada, tão depressa lhe parecia autêntica como completamente inverossímil. E se na véspera a possibilidade de saber mais sobre ele no jantar a tinha entusiasmado, a verdade é que o jantar fora nesse aspeto uma desilusão. Ele levara-a a falar da sua vida, quase sem ela se aperceber, enquanto ele não dissera mais do que o que lhe tinha dito de manhã. Tinha sido educado, gentil mesmo, mas ela não conseguira decifrar a expressão dos enigmáticos olhos cor de âmbar, que por vezes escureciam e se assemelhavam ao doce chocolate.
Trocaram números de telefone, passaram a tratar-se por tu, e despediram-se com a promessa verbal de voltarem a sair juntos outro dia. Mas será que isso iria acontecer? Os sentimentos de Anete eram muito confusos. Ela gostaria de voltar a sair com ele. O seu toque quando lhe segurou no braço, pôs-lhe o corpo a tremer e fez-lhe sonhar com coisas nunca experimentadas. Mas ao mesmo tempo, temia o aprofundar daquela amizade. Para desastre já lhe bastava o anterior casamento. Tinha vinte e oito anos, gostaria de formar uma família, ter filhos. O seu ideal de vida sempre fora, ter três filhos como a sua mãe. Mas os anos passaram rapidamente, e dentro de poucos anos o seu relógio biológico deixaria de funcionar. A natureza não fora benéfica para as mulheres. Era uma injustiça, que os homens pudessem ser pais em qualquer idade, e as mulheres estivessem limitadas a tão poucos anos. Enquanto tomava duche, pensou que se estava a afastar daquilo que naquele momento era a sua prioridade. Conseguir um emprego. Tinha amealhado algum dinheiro, mas uma boa parte já se fora, na compra da mobília,  loiças e eletrodomésticos. Montar uma casa, ainda que simples e pequena como a dela, sai caro, e não queria ter que recorrer aos pais, para a sua subsistência. 
Anete não tinha um curso superior. Dera os estudos por terminados no fim do secundário. Gostava muito de artesanato, e antes do casamento trabalhara nisso com algum sucesso. Agora gostaria de algo diferente. Gostava do contacto com pessoas, pelo que uma loja talvez fosse o ideal. Mas a agência tinha-lhe proposto outra coisa.
Acabou de se arranjar e olhou-se no espelho. A imagem devolvida agradou-lhe. Procurou a carta que lhe tinham dado na agência de emprego, meteu-a na mala, e saiu, dirigindo-se ao metro. Uma conhecida clínica esperava-a.




1.7.17

ROSA - PARTE II





Durante anos, Rosa não teve outra vida que sair todos os dias para o monte com o rebanho. Nele cresceu e nele nasceram os primeiros sonhos de mulher. E fizera-se uma linda mulher. Tinha um corpo esbelto que as roupas grosseiras não conseguiam esconder, um rosto moreno no qual os enormes olhos negros brilhavam como faróis em noite sem lua. Os cabelos escuros, primorosamente entrançados, chegavam quase à cintura.
As longas horas de solidão passavam rápidas, entretida entre sonhos e desejos. Um dia, um príncipe, encantado ou não, de alguma cidade distante havia de chegar… e nesse dia a sua vida ia mudar.
Naquela tarde, quando recolheu o rebanho, a Ti‟Zefa, convidou-a para vir à noite à desfolhada. Todos os anos era convidada mas, devido ao facto de se levantar antes de o sol nascer para apascentar o rebanho ela nunca lá fora. Naquele dia, sabe-se lá porque tentação do demo, aceitou ir. 
A desfolhada era na eira do Sr. António, não muito longe do alpendre da casa. O Sr. António era o patrão da maioria dos habitantes na aldeia. Tinha feito fortuna no Brasil, mas isso fora muitos anos antes de ela nascer. 
Foi uma noite inesquecível. Rapazes e raparigas, alguns de aldeias vizinhas, sentavam-se numa grande roda à volta da eira. No meio desta, uma pequena montanha de espigas que iam descascando com perícia, pondo atrás de si o folhelho, e a seu lado em grandes cestos de vime a maçaroca loira. Mais tarde o folhelho seco seria usado para encher os colchões e as espigas seriam malhadas pelos homens, ali mesmo na eira. De vez em quando, soltavam-se as gargantas em afinadas quadras ao desafio, quase sempre entre um rapaz e uma rapariga, que faziam rir quem os ouvia, ora apoiando um, ora apoiando outro.
Para descansar a garganta, ou quem sabe para germinar nova leva de cantorias, preenchia-se o intervalo com histórias que, de tão antigas, já haviam virado lendas, conhecidas de todos. Mas, como quem conta um conto sempre lhe acrescenta um ponto, as histórias eram sempre diferentes dependendo do narrador.
As histórias masculinas eram quase sempre de bruxas e almas do outro mundo, onde não faltava nunca o próprio demo disfarçado de bela dama, com pés de cabra. As mulheres, regra geral, talvez por medo, contavam histórias  mais reais. Gracinhas dos filhos, ou dos sobrinhos, eram sempre bem recebidas, mas às vezes também vinha à baila uma ou outra história de “lobisomens”.
Por vezes, alguém gritava: - Milho-rei! E levantava-se exibindo no ar uma espiga de milho quase cor de vinho como se fora um troféu. Os rapazes eram mais exuberantes. As moças, especialmente as solteiras, tentavam esconder o seu entusiasmo que o brilho do olhar denunciava.
Então, como diz a cantiga, cumpria-se a lei e rapaz ou rapariga a quem ela saísse, tinha que percorrer a roda abraçando todos os participantes da desfolhada, novos ou velhos, casados ou solteiros. Era a oportunidade para os namorados trocarem um carinho na frente dos pais, coisa que de outro modo era absolutamente proibida naqueles tempos.



1.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE I





A década de sessenta chegava ao fim. Estávamos em Setembro, e o dia apresentava-se radioso.
Daqueles dias de sol, quando o calor ainda é forte, mas já não tem o ardor dos meses anteriores. Quando ao cheiro a maresia, se sobrepõe o cheiro das uvas maduras, e as idas à praia se tornam mais raras, na azáfama do regresso às aulas, e aos empregos na cidade. Nos campos fazem-se as colheitas do milho, feijão e batata, que mais tarde, acompanhados de um naco de carne, se transformarão em saborosas refeições. Nos lagares procede-se à limpeza e preparação dos mesmos, que na vinha a uva já espera para ser colhida.
Naquele dia, quando ela abriu os olhos, já o sol iluminava o quarto, num luminoso grito.
 “Acorda. Hoje é o teu dia, Um grande dia!”

19.12.15

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O amigo Rogério  do blogue CONVERSA AVINAGRADA deixou-me este comentário que achei um delícia e não resisti a partilhar convosco. Pensei erradamente que a receita era sua, mas o Rogério acaba de me informar que a receita é do blogue SEARAS DE VERSOS. da poetisa Lídia Borges. 








!Receita para adoçamento de melancolias


Ingredientes:

· - toda a melancolia disponível
· - mel
· - um pau de camélia
· - amor condensado
· - sorrisos ao natural
· - ternura q. nunca b.
· - uma vagem de sol
· - um noz de luar


(De véspera, coloque a tristeza de molho para que largue o excesso de acidez.)

Comece por colocá-la em pequenas porções na centrifugadora e bata até obter um suco bem fluído.

Junte duas colheres (de sopa) de mel bem cheias, um pau de camélia de preferência com rebentos em estado de promessa rosada. Envolva bem.

Em seguida adicione umas gotinhas de amor condensado e uma chávena de sorrisos. (Atenção: não use sorrisos cristalizados, opte por sorrisos ao natural, para não ter surpresas menos doces no final.)

Não esqueça a ternura (levemente açucarada), sem medida, em castelo firme, batida.

Prove. Se estiver ainda amargo, acrescente um pouco do sumo do sol contrapesado com uma pitada de luar para não enjoar.


Verta para uma forma (em forma de coração, de preferência) e leve a corar em forno brando. Depois de desenformado polvilhe com uma mãozinha de versos granulados.

Sirva em finas fatias a quem passar, a quem quiser provar…

Bom apetite