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22.5.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XLV


Anabela acordou sentindo um beijo molhado no rosto. Abriu os olhos e viu a seu lado, ajoelhada na cama a pequena Patrícia. Abriu os braços e a menina correspondeu ao abraço com todo o amor e alegria que só as crianças demonstram, com toda a naturalidade por aqueles que amam. Que bom era que os adultos amassem com a mesma intensidade e fossem igualmente sinceros e transparentes. Haveria muito menos sofrimento no mundo. Mas em qualquer época do nosso crescimento tudo muda, pensou a jovem com tristeza.

- Madrinha, a mãe já está na cozinha. Ela disse para não te acordar, mas eu gosto tanto de ti e queria tanto que fosses brincar comigo um bocadinho.

-À sua malandra interesseira, - disse Anabela fazendo cocegas à afilhada que começou a contorcer o corpito rindo alto.

-Bom, então é melhor que vás ter com a mamã, enquanto eu tomo banho e me visto.

A menina saltou da cama e saiu correndo do quarto. Suspirando, Anabela saiu da cama, pegou na mochila onde tinha a roupa que trouxera e com ela na mão abriu a porta e saiu para a casa de banho no corredor.

Tomou um duche rápido, vestiu-se, tirou o secador do armário e secou o cabelo.

Depois escovou os dentes. Tudo o que estava naquela casa de banho era de seu uso exclusivo. Os donos da casa usavam o quarto maior com casa de banho que sempre fora o quarto de Paula por ter sido ela a alugar o apartamento. Ela e as outras jovens que lá viveram, durante os anos de estudo, usavam um dos dois quartos mais pequenos, e a casa de banho do corredor.

 Quando Paula casou já só lá viviam elas as duas. Conta a vontade de Paula, Anabela arranjou outro quarto mais perto da Universidade, para deixar o jovem casal viver a sua intimidade sem testemunhos, mas Paula fizera questão de sempre manter o seu quarto e a casa de banho para o seu uso sempre que ela quisesse voltar.

 Ela, dava graças a Deus, pela relação que a unia ao casal, que era mais de família, do que de simples amizade. No seu coração carente de afetos, sentia como se Paula fosse sua irmã, Diogo seu cunhado e Patrícia a sua sobrinha querida. E como familiares amados, se portaram os dois, quando a vida com o marido se tornara num inferno. Anabela nunca esqueceria o carinho e o apoio que deles recebeu inclusivo depois da morte do marido.

-Bom dia, - saudou pouco depois ao entrar na cozinha.

-Bom dia, querida, - saudou-a o casal em uníssono.

Sentou-se à mesa dizendo:

-Há muito tempo que não dormia tão bem. Foi como voltar aos meus tempos de estudante.

-Folgo em sabê-lo, mas agora é melhor tomares o pequeno-almoço. Não sei se continuas com os mesmos hábitos daquela época, mas tens aqui iogurte, torradas, manteiga e doce. Penso que de bebida continua a ser o café puro, verdade? - perguntou a amiga.

-Pois sim, um iogurte, uma torrada e café.

 

20.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE VIII

 

Nos anos seguintes enquanto Anabela se dedicava de corpo e alma aos estudos, muitas coisas mudaram.

Matilde aceitou uma oferta para o Hospital de St. Mary em Londres e emigrou numa noite fria de dezembro, e Paula e Diogo resolveram pôr fim a um namoro de três anos, casando-se na Primavera seguinte.

Paula continuara no apartamento, após o casamento e inicialmente ela continuara com eles, mas apesar da grande relação de amizade que as duas mulheres tinham criado entre si, Anabela, sentia-se inibida a conviver com os jovens recém-casados. Decidiu deixar o apartamento ao casal e iniciou a procura de outro quarto.

Conseguiu-o em casa de Maria Rosa, uma colega da Universidade. A jovem vivia com os pais, numa casa antiga, na Avenida do Brasil, tinha um quarto livre, que tinha sido do irmão mais velho, que tinha emigrado para a Austrália. Segundo a jovem lhe confessou, os pais faziam um grande sacrifício para lhe pagar os estudos, e pensavam alugar o quarto, para ajudar a equilibrar as contas. Assim, Anabela resolvia o seu problema, e ajudava os pais de Maria Rosa a aliviar as despesas.

Um ano depois, Paula fora mãe de uma linda bebé, e Anabela que já fora a madrinha de casamento da amiga, foi convidada para madrinha da bebé, estreitando cada vez mais a relação de amizade entre as duas.

Aos vinte e sete anos, Anabela terminou o seu Curso de Enfermagem com excelentes notas, tal como já tinha terminado o Curso de Fisioterapeuta quatro anos antes.

E foi precisamente no bar onde fora com outros finalistas festejar o fim do Curso que ela conhecera Óscar.

Ele encontrava-se encostado ao balcão e era um homem bem parecido, alto de cabelos e olhos escuros, e sorriso fácil.

Por momentos os olhos dos dois encontraram-se e o sorriso dele abriu-se mais, enquanto inclinava levemente a cabeça como se estivesse cumprimentando-a.

Anabela, virou a cara envergonhada. Ela não tinha experiência de namoros. Aprendera da pior maneira aos dezassete anos, que uma jovem órfã e sem dinheiro, não servia para namorar a sério. Fora o que lhe dissera o namorado a quem pediu explicações quando ele a deixou depois de com promessas enganosas a ter levado para a cama. Desde aí, ela nunca mais tivera qualquer relação com o sexo oposto a não ser a de uma amizade pura com o marido da Paula, ou com algum colega na clínica enquanto lá trabalhou.

Apesar dos anos que já vivia na cidade, no fundo ela continuava a ser a jovem simples da aldeia. Um dia lera em qualquer lado, que se pode tirar uma pessoa da aldeia, mas não se pode tirar a aldeia da pessoa. E ela sentia que era verdade.


E ontem chegamos aos 60.000 comentários. Obrigado a todos que leem e deixam a vossa opinião.


19.6.20

ISABEL - PARTE XXVIII



foto do google

Isabel não saiu nesse fim de semana. Perdeu-se nas lides domésticas,  tentando esquecer o seu desassossego. E na semana seguinte tinha uma campanha para produzir e entregar o que tornou o trabalho tão intenso, que esqueceu por completo outros pensamentos que não os da campanha publicitária em curso. Foi uma semana de loucos, com o cliente a rejeitar as suas ideias iniciais, o que a fez temer não conseguir cumprir o prazo, mas felizmente conseguiu.
No início da semana seguinte quando Amélia e Luísa chegaram, já a encontraram à secretária embrenhada no trabalho. Ainda não ganhara coragem de contar à amiga, o que se tinha passado naquela Sexta-Feira quando se dirigia para os correios. Por sorte, nessa manhã, Hans telefonou-lhe da Alemanha. Tinha um novo trabalho para ela, desta vez uma coisa diferente e muito especial. Ele e Anne iam casar e queriam a sua presença na cerimónia,  como madrinha. Hans era um grande amigo. Fora ele que a recebera quando ela ganhara, quase em início de carreira, o concurso para novos talentos e fora ele quem já lhe arranjara alguns contratos vantajosos para a Alemanha. Vivia com Anne há alguns anos, mas agora queriam oficializar a relação.

-Não queremos que o Peter nasça antes do casamento.

Isabel ficou maravilhada. Então eles iam ser pais. Apesar de Hans ter feito o convite quase em cima da hora, (faltavam cinco dias para o casamento), aceitou sem hesitar.
 Desligou.
- O Hans vai casar e convidou-me para madrinha, disse com a alegria duma criança a quem prometem um brinquedo novo.
Embora não o conhecesse pessoalmente, Amélia, já tinha ouvido falar muito daquele alemão. Levantou-se e foi até à secretária de Isabel.
-Quer dizer que te vais ausentar de novo? E para quando é o casório?
- Sábado.
- Este sábado?- espantou-se Amélia. - Como é possível? Desculpa mas o teu amigo é doido.
Isabel riu.
- Luísa, liga para o aeroporto e vê se consegues marcar voo para amanhã à tarde ou para Quarta-feira. Amélia, preciso de ti, esta tarde para me ajudares na compra da “fatiota”
- Retiro o que disse. O teu amigo não é doido. Vocês são doidos!
Isabel não respondeu. Afinal aquele convite era como uma bênção divina. Seria maravilhoso rever os amigos e sobretudo sair à rua sem recear encontrar Luís.
Não sabia ao certo se temia o homem ou as emoções que ele lhe despertava. Mas sabia que temia encontrá-lo de novo.
Nessa mesma tarde depois de despachar as coisas mais urgentes saiu com Amélia para escolherem a "toilette" para a cerimónia. Escolheu um vestido longo em crepe cor de vinho,  que punha em destaque a beleza do seu colo, e ombros. Sapatos de salto alto em cetim bordado e uma pequena bolsa a condizer. A empregada da loja disse-lhe que não era necessário ser tudo a condizer, a moda actual permitia jogar com as cores, mas Isabel não estava muito convencida disso, e sentia-se mais confortável assim. Como o clima na Alemanha era diferente, comprou também um bolero em veludo, cor de marfim para o caso de precisar.
Ao vê-la, enquanto se mirava no espelho do gabinete de provas, para ver se o
agasalho ficava bem com o vestido, a amiga disse:
- Se o homem dos olhos cinzentos te visse assim, nunca mais te largava. E se ele for o padrinho?
Estremeceu
- Não sejas tonta Amélia.
- Eu? Já pensaste nas voltas que a vida dá e nas coisas estranhas que nos acontecem?
 -Não tenho pensado noutra coisa nos últimos tempos.
 Quando dois dias depois se despediam no aeroporto Amélia disse-lhe:
 - Um casamento é sempre uma óptima ocasião para se arranjar namorado. Oxalá o padrinho seja interessante.
 Não pode deixar de rir. E retorquiu:
 - Não estou à procura de namorado, muito menos vou lá com essa intenção. Vou porque adoro aqueles dois e estou muito feliz por eles.
 - Pois era bem melhor que estivesses feliz por ti,- resmungou Amélia.


                                             


4.3.20

DÍVIDA DE JOGO - PARTE I



Curiosamente os dois contos mais pedidos, com 2 votos cada, foram a Dívida de Jogo  e À Média Luz, com dois votos cada, e são das menos vistas pelos leitores atuais. A julgar pelos comentários, Dívida de Jogo, foi vista na totalidade (23 pequenos capítulos)
por 3 leitores.  Tintinaine, Edumanes e Redonda.  Joaquim Rosário, Pedro Coimbra, Chica e Anete , comentaram alguns capítulos e Janita comentou os dois primeiros. Não sei se  a história não interessou muito, ou se foi por ter sido publicada num mês de Agosto. Esperemos para ver o que vai acontecer agora.





                                                           I




Num quarto de casal, uma mulher jovem e muito bonita, tinha espalhado sobre o leito, alguns fatos masculinos. Depois abriu a gaveta da cómoda, e retirou várias camisas e T-shirts.
 Abriu uma mala de viagem e preparava-se para arrumar nela as roupas quando a campainha tocou. Foi abrir. Era o carteiro com uma carta registada para assinar. Fechou a porta e revirou o envelope entre as mãos. O remetente era de uma firma de advogados. O que podiam querer com ela?
Curiosa abriu a carta, e leu-a rapidamente. Convocavam-na para uma reunião no dia dezasseis de Maio às quinze horas a fim de assistir à leitura do testamento de Alfredo Magalhães.
Deixou-se cair sobre a cama. Desconhecia que o marido tivesse feito testamento.
Poisou a carta sobre a mesa-de-cabeceira, e voltou à operação anterior, acabando de encher a mala com as roupas do falecido. Fechada a mala, foi buscar um saco para colocar o resto das roupas, e calçado. Mais tarde iria levar tudo para uma instituição de caridade.
Eva era ainda muito jovem. Fizera vinte e três anos no mês anterior. Era alta, magra, de cabelos castanho-claro, e olhos cor de mel. Nariz levemente arrebitado, e boca pequena, de lábios bem desenhados. Se a natureza fora pródiga com ela, dando-lhe um rosto de serena beleza, e um corpo de sonho, a vida, fora tão sovina que nem a mãe lhe deixou conhecer. Desde que se conhecia sempre vivera num orfanato. Lá viveu até que se casou. Aos dezoito anos empregou-se como recepcionista numa clínica dentária, mas continuou sob a proteção das freiras da instituição.
Tinha dezanove anos, quando conheceu Alfredo. Ele era um homem elegante, bem parecido e muito carinhoso, e ela era uma mulher carente. Apaixonou-se de imediato. Casaram um ano depois. Eva sonhara muito com a vida pós casamento, mas a realidade não foi bem a que ela esperava. Aos poucos Alfredo, foi substituindo a paixão pela indiferença, reduzindo o tempo que passava em casa. Tinha um bom ordenado a que acrescentava boas comissões sempre que efetuava uma venda, mas o dinheiro desaparecia rapidamente. Felizmente que a casa era dele, herdara-a da madrinha. Ainda assim era o ordenado de Eva que sustentava a casa, na maior parte dos meses.
Ela não sabia o que se passava, mas suspeitava que o marido tivesse uma amante.
Só assim entendia as noites em que chegava a casa de madrugada, e a falta de dinheiro no lar.


6.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XV





Ricardo deixou-se cair pesadamente na cadeira. Ele e João, o irmão nunca se deram muito bem. Apesar de serem gémeos. A gravidez da mãe fora de risco, e as coisas não correram muito bem na hora do parto.  A mãe esteve muito mal, o pai chegou a dizer ao médico que se não fosse possível salvar os filhos, que salvasse a mãe. Felizmente os dois, eram prematuros,  nasceram saudáveis, mas a mãe esteve muito doente, e levou largos meses para se recompor. Não conseguia tratar dos dois bebés e em casa não havia dinheiro para contratar uma empregada, pois naquela época uma grave crise, se estendera por toda a Europa, e Portugal à beira da bancarrota, tivera que apelar para o FMI, a fim de conseguir sobreviver. O negócio do pai, estava quase na ruína, a maioria das pessoas, deixara de utilizar os seus automóveis, passando a utilizar os transportes públicos. A madrinha do João, que não podia ter filhos, pediu para o levar para sua casa, e os pais acabaram por o deixar ir. Os pais não  o deram para adoção, e quiseram ir buscá-lo logo que a mãe melhorou, mas a comadre convenceu-a para que o deixasse ficar mais um tempo, ela tinha melhores condições para o criar, pelo menos mais uns meses até à festa do aniversário, já que eles estavam prestes a fazer dois anos. Aconteceu que quando a mãe o levou para casa, João estava demasiado apegado à madrinha, chorava noite e dia, e ela convenceu-os a devolverem-lho com o argumento de que a criança estava infeliz, e ela podia criá-lo até ele ter entendimento para perceber as coisas.
  Não foi assim. João rejeitou os pais e tinha ciúmes do irmão. Dizia que eles  o tinham rejeitado e se tinham livrado dele ainda bebé, porque só gostavam do irmão. E estava sempre a fugir para casa da madrinha.
Na escola, fazia todos os disparates de que se lembrava para o prejudicar. Isso durou dois anos, depois a madrinha convenceu os compadres a deixarem-no definitivamente com ela,  dizendo que não era bom para nenhum dos miúdos a situação. Pouco tempo depois mudou-se para Coimbra, e embora a mãe fosse vê-lo todos os  meses, Ricardo nunca mais o viu, até ao seu regresso de Angola. Só nessa altura, soube que o irmão viera viver com os pais há quase dois anos, logo após a morte da madrinha e trabalhava num escritório de uma firma de importações e exportações. Mas também nessa altura os dois não se entenderam. João, a quem a madrinha dera uma vida de pequeno príncipe, coisa que os pais nunca lhe deram a ele, era um revoltado, continuava com ciúmes dele, e Ricardo chegou a dormir na oficina, de modo a passar o mínimo de tempo possível em casa, para evitar discussões que só serviam para fazer os pais sofrerem. Felizmente uns meses depois, João foi de férias para o Algarve, conheceu uma francesa, por quem se apaixonou, e quando ela acabou as férias, partiu com ela. Mandou mais tarde, uma carta aos pais, contando que se tinha casado lá, e estava a trabalhar com o sogro.
Nos últimos doze anos, Ricardo poucas vezes o viu. Quando o pai morreu, ele veio de França com a esposa, e resolveu levar a mãe com ele. Claro, era uma empregada a quem não teriam de pagar.
Depois disso, só voltara a vê-lo em Bordéus quando fora ao funeral da mãe. Desde aí não sabia nada dele, nem sequer se vinham ou não de férias, embora a mãe, antes de morrer, lhe tivesse dito, numa das conversas telefónicas, que ele lhe fazia semanalmente para saber como estava, que o compadre, tinha oferecido à filha uma casa em Campolide, para passarem férias. No funeral da mãe, conhecera a cunhada, bem como os dois sobrinhos, mas não sentiu por eles qualquer empatia.
 Por muito que lhe custasse a acreditar, o amigo tinha razão. Os seus pais eram ambos filhos únicos, pelo que ele não tinha nenhum outro familiar direto que não fosse o João. Mais uma vez o irmão fizera asneira e o culpara a ele.

3.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XII




Glória, a sua secretária veio arrancá-lo, dos seus pensamentos . Um dos seus melhores clientes queria um carro para a próxima semana. Como sempre com motorista, mas desta vez queria o Lamborghini. 
- E já verificaste se não há nenhuma reserva anterior? – perguntou.
- Não há. Só no domingo para o casamento. Então faz a marcação conforme é costume. E avisa o motorista que habitualmente transporta o cliente.
A secretária saiu e ele foi verificar o correio eletrónico, já que vários dos seus clientes usavam esse meio para fazerem as reservas. O negócio estava cada vez melhor. Até estava a pensar comprar mais dois carros no final do ano, ou princípio do próximo. Muitos clientes, especialmente os estrangeiros, preferiam o aluguer de um carro de luxo, sempre que necessário, em vez de o comprarem. Alguns nem tinham carta de condução, teriam que investir no carro e contratar um motorista. Era uma despesa enorme. Assim, tinham o privilégio de poderem mudar de marca cada vez que faziam um novo aluguer.
O curso de gestão de empresas, dera-lhe a oportunidade de gerir a sua própria empresa, todavia o que mais o apaixonava, era a mecânica, e a condução. Ainda há dois meses tinha levado um casal a Coimbra, quando o motorista que os deveria transportar, estava de licença por nascimento do primeiro filho e todos os outros estavam ocupados.
Uma semana depois, Ricardo tinha o resultado do teste, mas estava mais confuso que nunca. Porque embora o teste fosse claro no resultado de que ele não era o pai da menina, a compatibilidade com a criança era grande e aconselhavam um novo teste para determinar o grau de parentesco.
Sem saber que pensar, telefonou ao seu amigo Artur pedindo-lhe para passar pelo seu escritório. Este disse-lhe que já tencionava visitá-lo nesse dia pois  acabara a investigação que ele lhe pedira.
Uma hora mais tarde os dois estavam reunidos, e Ricardo lia o relatório que o investigador lhe entregara, enquanto este esperava calmamente a reação do empresário.

-Não é possível. Como é que chegaste a esta conclusão? Eu nunca saí com essa tal Susana. Na verdade até tinha as minhas dúvidas de que ela tivesse realmente existido. 
- Mas existiu. E segundo a sua melhor amiga, ela namorou com um tipo cuja descrição encaixa perfeitamente na tua pessoa. Acredita que fiquei muito surpreendido. Então mostrei-lhe aquela foto do jantar de aniversário do Sérgio, em que tu estás com ele e os restantes rapazes a festejar. Perguntei-lhe se o namorado da Susana era algum dos homens da foto e ela apontou para ti sem hesitar. Não sei o que aconteceu, mas  se me disseres o que se passa, talvez possa ajudar-te.




AQUI está mais um pouco do que andei fazendo pelo Algarve. espero que vos agrade

17.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVII



- Boa tarde Irene. Por favor liga à Margarida Souto, e pergunta-lhe se ela pode ir jantar comigo esta noite. Preciso da sua ajuda para a festa do António Ferreira, - disse Paula mal entrou na sua empresa.
Sem esperar resposta da secretária dirigiu-se ao seu gabinete, ligou o computador e passou as fotos do jardim da casa em Sintra para o mesmo.
Estudava as imagens quando Irene a interrompeu.
- Tenho a Margarida na linha. Ela quer falar contigo.
- Obrigada. Passa a chamada, - disse.
- Guida? Boa tarde.
-Boa tarde, Paula. A Irene diz que precisas de mim com urgência. Onde é o incêndio?
- Em Sintra no fim do mês. Uma boda de estanho, que deve ser de sonho, mas o tempo é muito curto. Só para teres uma ideia, só hoje conheci o espaço e tenho que ter o plano pronto amanhã para que o cliente aprove ou não, porque depois de amanhã ele vai viajar. Se puderes vir jantar comigo esta noite, vemos as fotos, e trocamos ideias. Pode ser?
- O Gustavo está no Porto, pelo que não tenho nenhum programa combinado. Conta comigo. Queres que vá agora já para aí, ou encontra-mo-nos mais tarde em tua casa?
- Podes vir já? A sério? Isso seria o ideal.
-Ok. Dentro de meia hora o mais tardar estou aí.
- Obrigada. Fico à espera.
Desligou a chamada e voltou a estudar as fotos. Vinte e cinco minutos mais tarde, a sua secretária introduzia no gabinete a decoradora.
Margarida era uma mulher de pouco mais de trinta anos. Possuía um rosto agradável, era de baixa estatura, e um corpo mais roliço do que os códigos da moda ditavam. O seu maior encanto era a simpatia que irradiava como uma auréola de toda a sua figura. Paula conhecera-a dez anos atrás, na Universidade, quando Margarida começara a namorar Gustavo, seu amigo e vizinho. A empatia entre as duas foi instantânea e em breve eram grandes amigas, apesar de não frequentarem o mesmo curso. Mais tarde quando a jovem casara com Gustavo, ela fora convidada para madrinha e desde aí os laços de amizade entre os três, estreitaram-se ainda mais.
Margarida fora sua confidente, quando se apaixonara por Adolfo com quem curiosamente a amiga nunca simpatizara. Costumava dizer que não vislumbrava sinceridade nos seus olhos. Quatro anos mais tarde, Paula viria a dar-lhe razão.
-Bom, aqui tens o bombeiro de serviço, - disse com um rasgado sorriso, depois de beijar a amiga.
-Vem ver estas fotos. São de um local onde tenho que realizar uma boda de estanho no final do mês.
- É uma bela casa. É de alguém que conheço?
- Talvez. Conheces o empresário António Ferreira?
- O “rei da Cozinha Portuguesa”?- perguntou a decoradora, que lançou um assobio de admiração perante o sinal de assentimento da amiga. - Mas o homem é casado? Nunca o vi acompanhado.
- A festa é para a irmã dele. Mas senta-te que conto-te tudo. Além da tua ajuda, preciso desabafar.

Esta história volta Segunda-feira. Uma Santa e Feliz Páscoa para todos 


9.12.18

A SURPRESA DO PAI NATAL










Foi com grande espanto que, num domingo de manhã, a Marta descobriu junto à lareira da sala um saco vermelho de feltro, em forma de bota. “Terá sido o Pai Natal?”, perguntou a si mesma. Mas, pelas suas contas, ainda faltavam mais de vinte dias para o Natal, o que é uma eternidade para quem espera ansiosamente por esse momento.
A Marta abriu o saco, mergulhou a mão lá dentro e a primeira coisa que agarrou foi um pequeno envelope. O remetente, claro está, era o Pai Natal. E a carta era dirigida a “todos os que querem viver mais felizes”. No fundo, podia ser para qualquer um. E dizia o seguinte:
Queridos Amigos,
Há muitos anos que ando preocupado com a forma como vivem a época de Natal, que, aliás, é muito parecida com a forma como vivem o resto do ano.
Por isso, resolvi mudar de estratégia. Este Natal, não contem com as tradicionais prendas na noite de 24, que ocupam demasiado espaço nas vossas casas. As prendas que eu tenho para oferecer este ano podem chegar já hoje, no preciso momento em que lêem esta carta. Chamam-se ‘ Tarefas’ e são uma prenda para cada um e para o mundo. Espero que elas vos ajudem a ter um Feliz e Sereno Natal.
Um abraço,
Pai Natal
A Marta ficou um pouco triste. Ela que já sonhava com a boneca de olhos azuis que pedira ao Pai Natal. Quanto às outras prendas, não se importava de não receber. Mas a boneca… Talvez a Tia Luísa, que era sua madrinha, tratasse do assunto.
Mas que tarefas eram essas que ela lera na carta? Não havia tempo a perder. Ao mesmo tempo que vasculhava o fundo do saco, a Marta chamou a mãe, o pai, os manos e a avó, para contar tudo.
— E o saco está cheio de papéis pequenos que parecem rifas. Devem ser as tarefas — disse, depois de explicar tudo. — Vamos ver o que sai daqui.
Então, cada um tirou uma rifa que lhe destinou uma tarefa para a época de Natal:
Plantar dois pinheiros
Oferecer as cinzas da lareira às plantas
Comer mais frutas do que doces
Não ir a muitas lojas
Andar e fazer tudo mais devagar
Descobrir as cores que a Mãe Natureza apresenta nesta época.
Apesar de não parecerem prendas, a verdade é que todos ficaram entusiasmados com as tarefas que o Pai Natal tinha proposto. E esta foi a época natalícia mais feliz que a família alguma vez vivera!
E, na noite de Natal, a Tia Luísa chegou com um embrulho na mão. O Pai Natal dera outras prendas mas não se esquecera de encomendar à madrinha da Marta a boneca que ela tanto queria.




Rosário Araújo e Catarina França
Brincar às escondidas e outras histórias da Mãe Natureza
Revista Pais & Filhos, 2009



24.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLVII




As duas amigas encontravam-se num recanto de uma pastelaria, na Avenida Almirante Reis, onde se tinham encontrado para lanchar e para porem em dia a conversa, sobre os últimos acontecimentos
-E é tudo Paula.
-Meu Deus, Lena! E eu preocupada contigo, sem saber o que te teria acontecido. Até fui duas vezes tocar a campainha da tua casa. Eras tão ligada à tua mãe, que temia tivesses feito uma asneira com o desgosto, e afinal… quer dizer que conheceste o Cláudio em Coimbra, se apaixonaram, foste em busca do teu pai, e o Cláudio é enteado dele? E agora estás noiva? É inacreditável. Parece um daqueles romances cor-de-rosa, com que alguns escritores que não conhecem a realidade da vida se entretêm.
- Nestes últimos tempos, cheguei à conclusão que a vida é o maior dos autores, Paula. Ela pode ser mãe, ou madrasta, mas é sempre intensa em tudo o que nos dá, seja amor ou ódio, paz, ou guerra, calma ou tempestade. Não adianta lutar contra moinhos de vento. Já sofri muito, chorei noites a fio, mas hoje estou feliz com  o que ela me dá.
-E sendo assim vais viver com o teu pai? E o curso? Não vais acabar?
-Claro que sim. Vou pedir a transferência para Viseu.
- Vou ter muitas saudades tuas, amiga.
-Eu também. Mas agora é lá que está a minha vida. Vou casar em breve, logo que os documentos estejam prontos. Queria que tu fosses a minha madrinha. Sempre foste a minha melhor amiga, a irmã que a vida não me deu. E nada me faria mais feliz do que ter-te a meu lado nesse dia. Aceitas?
- Gostava muito, Lena. De verdade. Mas não sei se será possível. Sabes, o meu pai foi reformado devido a problemas de saúde. Com a reforma, baixou substancialmente a receita que entrava todos os meses em casa. Sabes como são as reformas neste país. Já é um sufoco continuar com os meus estudos, mas apesar de eu estar disposta a abandonar a faculdade eles fazem questão de que termine o curso. Ser madrinha de um casamento implica muita despesa.
- Não tens que fazer despesa nenhuma. O tio Alberto vai ser o meu padrinho e vai pagar o que eu precisar. Isto se o pai deixar, já que discutiam há dias, cada um querendo e dizendo que lhe pertencia a ele pagar a despesa. Só quero mesmo, é que estejas a meu lado nesse dia. E o Sandro? O vosso namoro, como vai?
- Cada dia estamos mais apaixonados. Como sabes, ele acabou o curso o ano passado, e já está a trabalhar . Pensamos casar quando eu terminar o curso, e me empregar.  Vamos ficar a viver com os meus pais. É bom para eles e para nós, pois partilhamos despesas e não temos que alugar casa. Menina, tu não fazes ideia do preço das rendas atualmente.
- E os teus pais estão de acordo?
-Claro. Eles gostam do Sandro, quase tanto, quanto eu.
- Não é preciso dizer-te que o convite é também para ele. E então? Posso contar contigo?
- Já te disse que gostava, mas deixa-me falar com o Sandro e os meus pais. Depois dou-te a resposta.  
- De acordo. Posso fazer-te uma pergunta um tanto íntima?
- Nunca tivemos segredos, Lena.
- Tu e o Sandro… já dormiram juntos? – Perguntou baixando a voz



Ora bem, parece que bem posso pôr os capítulos restantes todos de uma vez. Desde que o Cláudio se explicou, a novela perdeu interesse para vós, não foi? Bom então amanhã, preparem o modelito para a cerimónia. Estão todos convidados para o casamento.

5.5.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXIV




Enquanto a vida na seca continuava, agora com menos de metade do pessoal de outrora, já que a modernização do método de trabalho fazia com que não fossem necessárias tantas pessoas, o relógio do tempo não para, e em Portugal e no resto do mundo, ele como dizia o poeta, pula e avança. A segunda filha do Manuel pensa casar no próximo ano. Tanto ela como o namorado têm emprego estável nas respectivas empresas, a rapariga está quase a fazer vinte e cinco anos, e já está para lá da data padrão de casamento na época. O namorado é um pouco mais velho, já foi à tropa, e já fez uma comissão nos comandos em Timor. Porém quando crianças, as filhas tinham feito um pacto. Se um dia se casassem uma seria madrinha da outra. Por isso a mais nova fora madrinha da mais velha, e agora esperava que o cunhado terminasse a comissão em Angola, para casar e ter a irmã como madrinha.
Estávamos em Fevereiro, Spínola acabava de lançar o livro "Portugal e o Futuro"  e quase em simultâneo aparece o primeiro comunicado do Movimento dos Capitães, que defendia a democratização e a procura de uma solução política para a questão das colónias.
E como que a dar-lhes razão, agrava-se a situação na Guiné, primeiro com uma explosão a meio do mês no quartel-general de Bissau, e já quase no fim do mês, uma bomba em Bissau, faz um morto e 63 feridos. 
No dia 8 desse mês de Fevereiro, sai o primeiro comunicado do Movimento dos Capitães, defendendo a democratização, e a procura de uma solução política para o Ultramar.
O livro de Spínola, é oferecido por Costa Gomes a Silva Cunha, que por sua vez o dá a Marcelo Caetano. Este dirá ao acabar a sua leitura  "tinha compreendido que o golpe de Estado militar; cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável." 
No dia em que o livro é posto à venda, no jornal República lê-se na primeira página  "A vitória exclusivamente militar é Inviável" 
No dia seguinte o Expresso transcreve várias passagens do livro de Spínola. 




28.4.16

MANEL DA LENHA - PARTE LXI



Por esses dias chega carta da filha, que entretanto já chegara a Luanda. Diz que a cidade é muito grande, muito bonita, e que está a viver na Samba, numa casa pequena, com um quintal onde tem um mamoeiro. Ele não faz ideia do que é um mamoeiro. Diz também que já fez amizade com a vizinha, que está grávida, e que tem um filho pequeno que passa grande parte do tempo em sua casa. Nada que lhe admire. A filha é doida por crianças, e ele está admirado de que ainda não lhe tenham dado um neto.
Com as notícias da filha, ficam mais sossegados, e a Gravelina pára de chorar.
 O Verão desse ano foi mais agitado que nunca. No inicio de Julho chegam à Seca as duas máquinas de lavar bacalhau. Eram as modernizações de que se falava desde o início do ano. Também em Julho, Marcelo Caetano, recém chegado de Londres, anuncia que vai por um travão ao processo de liberalização, acabando com alguns sonhos que a Primavera Marcelista, fizera nascer.
Em Agosto, a filha informa que mudou de casa e de bairro. Vive agora num 4º andar, no Bairro de S. Paulo, mesmo em frente da Missão com o mesmo nome. Também diz que já está a trabalhar, na secretaria do Colégio Cristo-Rei, dos Irmãos Maristas. Descreve a cidade com tanto entusiasmo que o Manuel quase a vê, apesar da filha ainda só ter mandado duas fotos. Diz que vai ser madrinha do bebé que a ex-vizinha teve, mas não fala de filhos, e Manuel começa a estranhar, essa omissão, de alguém que gosta tanto de crianças. Afinal já estão casados há quatro anos. Na última carta, a mulher perguntou quando é que ia ser avó, mas na resposta só o silêncio.
Enquanto isso, a outra filha anunciou que tinha começado a namorar. O rapaz, até já tinha ido lá a casa falar com ele. Era natural de Lisboa, tinha regressado no início do ano de Timor, onde estivera em comissão militar, e trabalhava numa empresa, na mesma rua onde a filha trabalhava em Lisboa.

20.1.16

AMANHECER TARDIO - PARTE XXXIV



foto do google

Dias depois, Isabel tentava esquecer o seu desconcerto, embrenhando-se no trabalho. Ainda não ganhara coragem de contar à amiga, o que se tinha passado naquela Sexta-Feira. Por sorte, nessa manhã, Hans telefonou-lhe da Alemanha. Tinha um novo trabalho para ela, desta vez uma coisa diferente e muito especial. Ele e Anne iam casar e queriam a sua presença como madrinha. Hans era um grande amigo. Fora ele que a recebera quando ela ganhara, quase em início de carreira, o concurso para novos talentos e fora ele quem já lhe arranjara alguns contratos vantajosos para a Alemanha. Vivia com Anne há alguns anos, mas agora queriam oficializar a relação.

-Não queremos que o Peter nasça antes do casamento.

Isabel ficou maravilhada. Então eles iam ser pais. Apesar de Hans ter feito o convite quase em cima da hora, faltavam cinco dias para o casamento, aceitou sem hesitar.
 Desligou.
- O Hans vai casar e convidou-me para madrinha, disse com a alegria duma criança a quem prometem um brinquedo novo.
Amélia, já tinha ouvido falar muito deste alemão. Levantou-se e foi até à secretária de Isabel.
-Quer dizer que te vais ausentar de novo? E para quando é o casório?
- Sábado.
- Este sábado?- Espantou-se Amélia. Como é possível? Desculpa mas o teu amigo é doido.
Isabel riu.
- Luísa, liga para o aeroporto e vê se consegues marcar voo para amanhã à tarde ou para Quarta. Amélia, preciso de ti, esta tarde para me ajudares na compra da “fatiota”
- Retiro o que disse. O teu amigo não é doido. Vocês são doidos.
Isabel não respondeu. Afinal aquele convite era como uma bênção divina. Seria maravilhoso rever os amigos e sobretudo sair à rua sem recear encontrar Luís.
Não sabia ao certo se temia o homem ou os sentimentos que ele lhe despertava. Mas sabia que temia encontrá-lo de novo.
Nessa mesma tarde depois de despachar as coisas mais urgentes saiu com Amélia para escolherem a "toilette" para a cerimónia. Escolheu um vestido longo em crepe cor de vinho,  que punha em destaque a beleza do seu colo, e ombros. Sapatos de salto alto em cetim bordado e uma pequena bolsa a condizer. A empregada da loja disse-lhe que não era necessário ser tudo a condizer, a moda actual permitia jogar com as cores, mas Isabel não estava muito convencida disso, e sentia-se mais confortável assim. Como o clima na Alemanha era diferente, comprou também um bolero em veludo, cor de marfim para o caso de precisar.
- Se o homem dos olhos cinzentos te visse assim, nunca mais te largava. E se ele for o padrinho?
Estremeceu
- Não sejas tonta Amélia.
- Eu? Já pensaste nas voltas que a vida dá e nas coisas estranhas que nos acontecem?
 -Não tenho pensado noutra coisa nos últimos tempos.
 Quando dois dias depois se despediam no aeroporto Amélia disse-lhe.
 - Um casamento é sempre uma óptima ocasião para se arranjar namorado. Oxalá o padrinho seja interessante.
 Não pode deixar de rir. E retorquiu:
 - Não estou à procura de namorado, muito menos vou lá com essa intenção. Vou porque adoro aqueles dois e estou muito feliz por eles.
 - Era bem melhor que estivesses feliz por ti,- resmungou Amélia.