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23.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XII

 


Rolou na enorme cama de casal. Quim fora um homem muito apaixonado e talvez porque durante dez anos experimentara as delícias do amor, para ser sincera consigo própria sentia a falta de um companheiro.

Afinal tinha trinta e três anos, era uma mulher jovem e saudável, o seu corpo sentia a falta das carícias de umas mãos e uma boca apaixonada.

Sabia que Fernando a desejava, tinha-o lido nos seus olhos há quase dois anos e por isso mesmo o afastara. Quim tinha falecido há meio ano, ela sentira-se ofendida, como se estivesse a atraiçoar a memória do marido.

Agora Gonçalo tinha-lhe pedido para ele levar as meninas à escola e isso obrigava-a a uma convivência que a estava a desorientar.

Depois havia aquela proposta de emprego temporário. E ela ficara desgostosa ao não conseguir vaga para lecionar naquele ano letivo. Não que ela precisasse de emprego para viver, felizmente a sua situação económica, não era problema. A casa estava paga, e tinham recebido uma herança razoável quando a tia-madrinha de Quim morrera, além das próprias economias do casal. Podia continuar em casa, mas agora que o filho ia entrar na creche a solidão ia ser ainda maior.

Pensando nisso, aquele emprego podia ser uma boa ideia. O pior é que desde que voltara a ver Fernando, todos os dias, e especialmente depois das conversas trocadas, ela sentia-se cada vez mais inquieta na presença dele e receava que essa inquietação aumentasse com a convivência diária no consultório.

Todavia sabia que o psiquiatra tinha fama de ser um dos melhores profissionais da cidade, logo ele não iria misturar os seus possíveis desejos com o trabalho.

 Devia ou não aceitar a proposta de Fernando?  Bom o melhor seria aproveitar os dias que os pais estavam lá em casa, para ir até à clínica, falar com a sua assistente, saber em que consistia exatamente o seu trabalho, ver se o horário era compatível com ir buscar o filho à creche, enfim pesar todos os prós e os contras e só então tomar uma decisão.

Por fim, cansada, acabou por adormecer.

Apesar de ter adormecido tarde acordou um pouco antes do relógio despertar. Saltou da cama, abriu a persiana e olhou a rua, que não obstante a hora matutinal. já fervilhava de gente que passava apressada, decerto rumo aos seus empregos.

Retirou da comoda um conjunto de roupa interior e do armário, umas calças de ganga e uma T-shirt azul, que levou para a casa de banho, onde procedeu à higiene pessoal vestindo-se em seguida.

Antigamente quando o irmão vinha buscar a sobrinha para a levar à escola, sempre a encontrava de pijama e robe, mas agora parecia-lhe que receber assim o amigo, não seria próprio e daria ideia de uma intimidade que a afligia.

Foi para a cozinha e deu início ao novo dia preparando o pequeno almoço para a filha e sobrinha.

 

2.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE I




O primeiro domingo de Dezembro, nascera frio e seco. Na aldeia, a doutora Helena Correia, preparava as suas malas para o regresso à cidade com o filho. Tinha regressado de um congresso em Inglaterra na sexta-feira, e depois de ter tomado um duche, trocou de roupa, nem desfez a mala, mas colocou algumas peças de roupa num pequeno saco de viagem, pegou no carro e seguiu para a aldeia, a fim de ir buscar o filho que tinha deixado com os avós, antes de partir de viagem. Não parou pelo caminho, nem sequer para comer, cheia de saudades do pequeno Diogo, um garoto de cinco anos, que ela amava mais do que tudo na vida.
Helena, era filha única, de um casal de agricultores, não muito abastados, mas com o poder económico suficiente para dar à sua filha a realização do seu sonho de sempre. Ser médica-cirurgiã. Nunca cultivou grandes amizades, era uma aluna exemplar, apenas interessada em acabar os estudos, com o mínimo de gastos possíveis para os seus pais. Todo o tempo que os estudos, lhe deixavam livre, ela empregava-os no hospital, vendo doentes, assistindo a cirurgias, ou mesmo dando assistência a cirurgiões sempre que eles lho permitiam. Sabia que não era fácil, ela bem via, o estado de exaustão a que por vezes alguns cirurgiões chegavam, mas a sua força de vontade era de ferro, e a sua coragem não tinha limites. Terminado o curso, teve oportunidade de ir trabalhar para um hospital londrino e aí completou a sua especialização na área que sempre a apaixonara. Regressou a Portugal, com vinte e seis anos, virgem de todas as emoções amorosas, pelas quais nunca se interessara. Por essa altura, a mãe fora diagnosticada com um cancro na mama, e Helena resolveu ficar algum tempo sem começar a exercer, para ajudar a mãe naqueles tempos difíceis. Foi nesse interregno que se apaixonou, pelo psicólogo, a que levou a mãe, que se sentia arrasada e sem força de vontade de viver, depois da mastectomia.
Para Helena, que nunca se tinha apaixonado,
nada sabia dos prazeres do sexo, a relação era séria. Para Hugo, um trintão, habituado a saltar de cama em cama, não passou de uma aventura. Descobri-lo foi um trauma para ela, mas habituada a lidar com o sofrimento, não se deixou abater, e nem sequer se preocupou em procurá-lo quando descobriu que estava grávida.
O erro fora seu, a responsabilidade pelas consequências eram suas, foi o que disse aos pais, quando eles a aconselharam a procurar Hugo, e a contar-lhe que estava à espera de um filho. Conhecedores do temperamento da filha, limitaram-se a apoiá-la.
Por essa altura, Helena concorreu a um lugar num posto médico estatal. Ser médica de família, era por de lado o seu sonho de chegar a ser uma grande cirurgiã, mas ela sabia bem que ele não era compatível com a sua situação actual.

11.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XVIII

 




- Queres dizer que ela é a mulher que procuro?

-Nada disso! Estou apenas a raciocinar em voz alta. E dizes que a criança é parecidíssima com a Laura? Que idade tem essa menina? Viste a data de nascimento?

-Claro. Faz em Maio, treze anos. Não estás a pensar que essa criança pode ser minha, estás?

-Porque não? Eu estava presente no hospital, quando o Ricardo te perguntou se continuavas apaixonado por aquela jovem, e falou de como vocês passaram as férias grudados um no outro.

-Não! Tu conheces-me. Eu nunca seria irresponsável ao ponto de engravidar uma jovem, quando ainda não tinha condições de casar com ela. De certeza tomei precauções para que isso não acontecesse.

 -Tu és médico. Sabes melhor que ninguém que não há nenhum método cem por cento infalível. Essas coisas acontecem. Pensa no que aconteceu com a tua irmã. Pensas que ela queria engravidar naquela altura?

 - Mas como é possível, se houve uma paixão tão intensa assim, eu continuar a não me lembrar dessa época?

- É possível! O nosso cérebro, é um enorme armazém, cheio de milhares e milhares de memórias. Elas não são todas guardadas da mesma maneira. Há milhares de coisas que vivenciamos um dia e que nunca mais recordamos porque o nosso cérebro as arquiva como sem importância, outras que recordamos durante uma época e outras que recordamos toda a vida, porque elas são arquivadas em diversos zonas consoante a importância que lhes damos nos momentos em que as vivemos. Não te vou falar dos vários tipos de amnésia, porque já falámos disso há bastante tempo e tenho a certeza que tens investigado todas, suas causas e sintomas. Sabes que quando a amnésia é provocada por um trauma psicológico, stress, ou álcool ela pode terminar em qualquer momento logo que a vida do paciente volte ao normal. Mas quando é provocada por um trauma físico, como uma pancada na cabeça, um AVC, um tumor, ou qualquer outra agressão, a zona do cérebro que foi afetada, pode não recuperar nunca e nesse caso, as memórias armazenadas nessa zona desaparecem para sempre tal como documentos desaparecem quando devorados por um incêndio.

- E não posso fazer nada? Meu Deus, não posso viver nesta incerteza o resto da vida.

 - Claro que podes. Deste o primeiro passo. Convence-a a escutar—te. Sê sincero.

- Mas admitindo que seja ela, e que a menina possa ser minha filha. Que direito tenho eu de entrar assim sem mais nem menos na vida delas? E se ela tem alguém? O facto de não ser casada, não quer dizer que não viva numa relação feliz.

-Ou não. E não podes sabê-lo sem falares com ela.

-Se ela quiser falar comigo! E se isso não acontecer?

-Está tão atormentado, que quase não raciocinas. Estás de serviço amanhã?

- Não! Estou livre este fim de semana.

- Dá no mesmo. Podes sempre ir lá logo de manhã. Leva um Kit de ADN, e faz a recolha.

Se como penso a menina for tua filha, ela não poderá deixar de te ouvir. Tens o direito de poder ver e acompanhar o crescimento e educação dela, mesmo que ela tenha outra relação e não queira saber de ti como possível marido. E se não tiver ninguém, depende de ti quereres ou não conquistá-la de novo.

 -- Meu Deus, Fernando! Não posso admitir que aquela menina linda possa ser minha filha, e pensar que podia levar a vida inteira sem ter conhecimento disso.

-Tens que o admitir se fizeres o teste de ADN e for esse o resultado. E ela não poderá tirar os teus direitos de pai.

-Mas como vou fazer o teste de ADN sem a sua autorização? Isso é ilegal!

-É? Mas não dizem que os fins justificam os meios?  De resto se o resultado for negativo, ela nunca saberá que o fizeste. E se for positivo, não terá coragem de participar de ti. Pensará que a filha não lhe perdoaria se soubesse que acabou com a tua carreira, e as mulheres pensam sempre nos filhos antes de qualquer outra coisa.  E agora se te fosses vestir e fossemos dar uma volta por aí?

 - Desculpa, sei que a tua intenção é boa, mas não tenho vontade nenhuma de sair.

-- Bom então agora aceito aquela cerveja que me ofereceste há bocado. Também não estou com muita vontade de sair. Tens estado com a Laura? Como é que ela está?

Gonçalo levantou—se e foi à cozinha buscar a cerveja. Não lhe passara despercebida a tristeza na voz do amigo.


19.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XIX


Ele apertou-a nos braços e curvando a cabeça apoderou-se da sua boca, num beijo intenso e apaixonado, que a deixou tonta de felicidade.
- Achas que isto é um beijo de irmãos, Isabel?
- Não sei, não consegui perceber. Importas-te de repetir?
Ele não se fez rogado.                   


*********************************************************************




Algumas horas depois. 

Estavam os dois deitados. Com um dedo, ele contornava o desenho da boca dela.
- Desculpa Isabel.
-Porquê?
- Sei que todas as mulheres sonham que a sua primeira vez, seja algo muito especial. Desculpa desiludir-te. Porque não me disseste que ainda eras virgem? 

- Deves compreender que não era nada que me orgulhasse. Devia ser a única virgem no país aos vinte e seis anos. 

-A virgindade não é essencial na mulher que se ama. O essencial, são os seus  sentimentos. Mas também não é algo de que a mulher se deva envergonhar, como parece ser o caso na atualidade. Saber que me escolheste, para viver contigo esta experiência única, faz-me sentir um ser especial. O único receio, é que não tenha correspondido às tuas expectativas.  

- Não te preocupes. Estou muito feliz. Valeu a pena, ter esperado dez anos, por este momento sublime. Amo-te. Sempre te amei, desde a primeira vez que te vi. Mas tenho que te confessar uma coisa, - sorriu ao vê-lo erguer-se sobre o cotovelo numa atitude expectante. - Ainda não tinha jantado quando chegaste, e estou a morrer de fome.

Hélder  saltou da cama.
-Vou já à cozinha, ver o que se pode arranjar para resolver a situação. Não quero que a minha dama, morra de fome. Tenho planos para ela, bem mais interessantes.
Simulou uma vénia.  Ela soltou uma risada. Depois perguntou:

-Vais assim?
- Assim como? – perguntou por sua vez, mirando a sua própria nudez, para perguntar com ar de menino travesso.- Há alguma coisa de errado comigo? Não gostas do fato?
Saiu rindo, enquanto Isabel emocionada, acariciava o anel, que ele lhe enfiara no dedo, horas antes, quando a pedira em casamento.


FIM



Elvira Carvalho 


Gente a minha nova história ainda só tem 10 capítulos. Por isso e porque a maioria dos leitores atuais, não andava por aqui há quatro anos, vou fazer mais uma reposição. Peço desculpa aos mais antigos, que já a conhecem.
Entretanto a minha consulta de ontem para tirar os pontos do olho, foi cancelada. Recebi mensagem a dizer para aguardar carta com nova data.

15.6.20

ISABEL - PARTE XXIV

foto do google



Aborrecido pelo implicância da mãe, decidiu mostrar-lhe que o namoro não o impediria de ser bom aluno e sempre passou com excelentes notas.
Acabado o liceu era necessário escolher a carreira, mas na altura ele não se sentia vocacionado para nada, e escolheu Direito como podia ter escolhido qualquer outra coisa. Tinha dezoito anos, e continuava demasiado alto e magro. E cada dia mais apaixonado.
Com vinte anos, Odete era agora uma linda mulher, que gostava demais dos galanteios de outros homens que não do namorado. Toda a gente no bairro via isso excepto Luís. Abandonara a escola há muito, antes mesmo de completar o nono ano, e sem emprego, passeava-se na rua, sem outro motivo que não fosse exibir a sua beleza e provocar a libido masculina.  A mãe de Luís, bem que tentava abrir os olhos do filho, dizendo-lhe que Odete não era mulher para ele, mas Luís, qual D. Quixote, sempre defendia a namorada, dizendo que a mãe não precisava ter ciúmes, o amor que sentia por Odete, em nada beliscava o que sentia por ela. Se a jovem não queria estudar, que mal havia nisso?  Afinal a vontade que ele tinha de estudar também não era grande, mas a mãe voltava à carga, pois o namoro já se prolongava demais. Intuições de mãe, - respondia quando o filho lhe perguntava, o que ela tinha contra a sua namorada. Estavam as coisas neste pé quando um dia ao chegar a casa da namorada não a encontrou, e a mãe dela, lhe contou a chorar, que a filha tinha fugido com o sobrinho do Henrique do talho, ela nem sabia para onde, pois não o dizia na carta de despedida que lhe deixara.
Sentiu que o seu mundo ruía e teve vontade de morrer. 
Luís havia  completado dezanove anos, na semana anterior. Aos dezanove anos, um homem ainda tem uma visão muito romântica da vida. E afinal ele crescera a amar Odete e namoravam há mais de cinco anos. Fechou-se no quarto e chorou de frustração e raiva. E jurou a si mesmo que nunca mais ia confiar em mulher alguma. Nesse dia morreu Luís  e nasceu o Nuno. Estava no primeiro ano e como continuava sem grande interesse pelo curso, resolveu mudar. Optou por Literatura e Línguas. Aos vinte e cinco anos ingressou na Marinha já com o Curso terminado.
Seis meses depois, teve a sorte de ser destacado para a Sagres que ia partir em viagem, à volta do mundo, por um ano. Um facto que mudou completamente o seu modo de encarar a vida. Aprendeu o que é viver dias e dias sem avistar terra, ao sabor do humor da natureza, ora num suave embalo, ora numa dança louca que lhe revolvia as entranhas e lhe punha o estômago às voltas, dia após dia a olhar para as mesmas caras, dando as mesmas ordens, executando as mesmas tarefas, numa rotina, da qual não há como escapar, perdidos na imensidão do mar, sob um sol intenso, ou um frio de rachar, sempre ansiando pelo próximo porto. Mas também aprendeu o fascínio que aquela farda tem sobre as mulheres, mesmo que sejam de outros continentes, e com outros costumes.

8.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVIII


Gabriel chegou nessa noite, e foi direto para casa dela. Estava cheio de saudades. Fizera todos os possíveis para a esquecer, durante aqueles dias, procurara divertir-se com outras mulheres, mas nenhuma conseguiu romper a armadura com que aquele novo sentimento o revestira. Tinha que reconhecer que estava irremediavelmente apaixonado pela sua secretária. Uma mulher admirável, com uma alma grandiosa, que por lealdade ao amor filial era capaz de tudo, até de se arriscar a ser presa. E ele queria essa capacidade de amar e de se dar, para ele. Mais do que querer. Necessitava-o com toda a sua alma. Resistira. Claro que resistira, nunca pensara em casamento, nunca sentira aquela necessidade de ter, e de se dar a uma determinada pessoa. Nos seus relacionamentos anteriores, nunca esteve nada em jogo, que não fosse o sexo, quanto mais prazeroso melhor. Com ela foi diferente desde o primeiro momento, e não porque não lhe despertasse a libido. Durante aqueles meses, tomara mais duches gelados do que em toda a sua vida. Mas sempre soube, que no dia em que se deitasse com ela, não se contentaria com menos do que o resto da sua vida. E era disso que ele tinha medo. Disso que fugira. Aqueles dias de ausência, acabaram com toda a sua resistência. Estava ansioso por chegar, por apertá-las nos braços e beijá-la até se cansar. Até se cansar? Tinha a certeza de que nunca se cansaria. Apanhou um táxi no aeroporto, e deu a morada dela. Ansioso por a ver, tocou a campainha, uma, duas, três vezes.
Sandra franqueou-lhe a passagem, surpresa com a mala que carregava. Ele entrou, largou a mala, e pegando-lhe num braço puxou-a para si, baixou a cabeça e beijou-a. Um leve toque na boca, como que um roçar de ave, que a fez suspirar e entreabrir os lábios, e logo ele a invadiu num beijo urgente e desesperado, que os deixou sem fôlego. Sandra apertava o seu corpo contra o dele, numa entrega que o enlouquecia. Finalmente afastou-a um pouco, sem deixar de a fitar, nem de a abraçar.
- Amo-te Sandra. Sabes isso, não sabes? – perguntou a voz enrouquecida pela paixão.
Ela confirmou com um gesto mudo, tentando esconder o rosto no peito masculino.
Gabriel levantou-lhe o queixo e perguntou preocupado com a sombra de tristeza, no rosto dela.
-Também me amas, mas…? 
-Não pode haver futuro para nós, enquanto o nome de meu pai, não for reabilitado. Não quero que os meus filhos saibam que o avô esteve preso, acusado de ter roubado a empresa do pai.
- Sandra, eu acredito na inocência dele. Mas não sei se conseguiremos prová-lo ao fim destes anos todos. Por favor, não condenes tu também o nosso amor.
- Talvez não seja tão difícil assim. O inspetor Pedro procurou-me hoje. Acredita que descobriu quem fez o desfalque, e pediu para arranjar um advogado e o por em contacto com ele.


21.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLI


- Hoje é doze de Dezembro, - respondeu ela.
-A minha filha faz um ano no dia catorze. Devias vê-la. É o bebé mais bonito do mundo. Meu Deus, preciso ligar para casa. Devem estar numa aflição.
Com o coração mais triste que dia de chuva, mas esforçando-se por não dar parte de fraca, Luísa estendeu-lhe o telemóvel dizendo:
- Liga-lhes. Conta-lhes o que te sucedeu, mas por favor não lhes digas onde estás, nem lhes fales de mim.
- Porquê? – perguntou ele franzindo o sobrolho.
- És um homem famoso. Se a imprensa sabe, que estiveste aqui durante todos estes dias, vão acampar aí à porta, tirar fotografias e encher-me de perguntas. Vão encher as páginas de jornais, inventar histórias, espionar a minha vida, até ao berço, e eu não quero perder o meu sossego.
- A minha família tem o direito de saber que só estou vivo, graças a ti.
-Poderás contar-lhes tudo o que quiseres, quando voltares a casa, mas pede-lhes que não o revelem a ninguém. Tenho direito ao anonimato e não quero ver a minha privacidade  invadida.
- Respeitarei a tua vontade, fica descansada.
- Podes telefonar do quarto estarás mais à vontade. Pede à tua mulher que avise a polícia, para que interrompam as buscas no rio. Não se justificam os gastos de dinheiro público, em buscas desnecessárias.
- Vou telefonar à minha irmã. Sou viúvo.
-Lamento, - respondeu, virando-lhe as costas, embora no íntimo tivesse gostado de saber que era um homem livre, que não tinha uma esposa à sua espera. Saiu da sala e foi para a cozinha. Meteu a loiça suja do almoço na máquina, e depois refugiou-se no seu atelier.
Estava desolada. Ela sabia que não podia ter-se apaixonado por ele. Era um desconhecido, podia até ser casado, a sua razão avisara-a todos os dias, mas o seu coração, não lhe dera ouvidos.
"Não se domina um coração sedento de amor." - murmurou para si mesma.
- Luísa!
- Estou aqui no atelier, - respondeu apresando-se a secar as lágrimas.
- Estás triste – disse estendendo-lhe o telemóvel. - Pensei que ficavas feliz por eu ter recuperado a memória.
- E é claro que fiquei. Mas habituei-me à tua companhia, vou sentir saudades.
Ele pegou-lhe nas mãos e puxou-as fazendo-a levantar-se. Abraçou-a.
-Antes mesmo de ter recuperado a memória, já tínhamos combinado esta manhã que eu partia hoje. As razões porque parto agora são totalmente diferentes das que te expus esta manhã, porque  agora sei, que não há nada nem ninguém que nos impeça de ter uma relação, se os teus sentimentos forem tão fortes quanto os meus. É verdade que nos conhecemos há poucos dias, mas sinto-me como se te conhecesse desde sempre. Também é verdade que não sou só. Tenho uma filha que amo de todo o coração e que terás de saber, se és capaz de  aceitar e amar, como a primeira dos nossos filhos, se me aceitares a mim. Conhecendo a generosidade dos teus sentimentos, acredito que a amarás como merece. Mas também sei, que os muitos anos que vives em solidão, podem confundir o teu coração, pelo que a minha ausência servirá para conheceres a força daquilo que sentes.

13.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIII



Gil entrou na loja e dirigiu-se ao escritório, onde já encontrou o irmão, passeando de um lado para o outro com evidente nervosismo.
- Bom dia, Marco. Pareces preocupado.
-Bom dia mano. Estou nervoso. E se a Isabel não está minimamente interessada em mim?
Gil olhou o irmão com estranheza. Não estava habituado a vê-lo tão inseguro, fosse qual fosse a questão. Caramba, ele tinha trinta e dois anos e nessa idade, um homem sabe muito bem conhecer os sinais que uma mulher lhe dá. E ele tinha-lhe dito que tinha a certeza de que a jovem gostava dele, só não confiava nas suas intenções. Com todo aquele nervosismo, devia estar mesmo muito apaixonado.
Pôs a mão sobre o seu ombro num gesto de carinho, tentando acalmá-lo.
- Calma, se estás assim hoje, não quero ver-te no dia do casamento – disse sorrindo. Depois olhou o relógio e acrescentou:
- Dez horas. Estão a entrar. Não tarda estão a bater a esta porta. É melhor que nos sentemos.
- Senta-te tu. Eu não consigo, - retorquiu uns segundos antes de Isabel bater na porta para a abrir de seguida.
As três mulheres entraram na sala com o semblante carregado, preocupadas com aquela reunião repentina, e mais preocupadas ficaram com a presença de Gil. As três sabiam que raramente ele ia à firma, mesmo antes da tragédia que se abatera sobre a sua vida. E naquela semana era a segunda vez…
-Sentem-se – disse Gil. Chamámos-vos aqui para lhes dar conhecimento de algumas decisões que tomámos. Porque é o vosso local de trabalho, achamos que devem saber o que se passa. 
As três entreolharam-se preocupadas. Será que a empresa ia fechar? Iriam perder os seus empregos? Sem lhes dar tempo a grandes preocupações, Gil continuou:
-A partir de hoje, vou deixar de ser um dos sócios desta firma. Ela será pertença exclusiva do Marco, estamos à espera do doutor Alcides para assinar os documentos, mas a vossa situação na empresa não corre qualquer perigo. Da minha parte, quero agradecer-vos o grande empenho e rigor com que sempre desempenharam o vosso lugar. Dir-vos-ia que podiam ir abrir as portas, mas antes o Marco tem uma declaração a fazer e quer que sejamos todos testemunhas. Marco é contigo.
- Bom, sei que o que vou fazer,- disse aproximando-se do irmão, sem contudo se sentar -  pode não parecer muito ético, para este local, mas as circunstâncias a isso me obrigam. Teresa e Raquel, vocês são mulheres inteligentes, devem ter percebido como estou apaixonado pela Isabel. Mas também devem ter conversado entre vós e sabem que ela não acredita, que eu tenha intenções sérias a seu respeito. Pois bem Isabel, - disse aproximando-se e agarrando a mão da jovem – que vermelha de vergonha não sabia onde se meter – neste momento, reitero tudo o que te disse em particular, e perante estas testemunhas te suplico, que me dês a honra de casar comigo e juro fazer da tua felicidade o grande objetivo da minha vida.
Finalmente a jovem levantou o olhar brilhante pelas lágrimas e prendeu-o nos olhos masculinos, com uma resposta muda, mas plena de amor, que Marco entendeu perfeitamente.
- Então Isabel – disse Gil levantando-se. Posso ou não dar-vos um abraço e desejar-vos felicidades?
- Claro que sim, - disse o irmão desviando o olhar e sorrindo feliz. - Mas espera um pouco, ainda não acabei.
Meteu a mão no bolso, e tirando a caixinha com o anel, meteu-lho no dedo, e de seguida puxou-a para si, abraçou-a e beijou-a.
Ouviram-se palmas e depois Gil, Raquel e Teresa abraçaram os noivos.
Uns minutos mais tarde, Gil disse:
-Agora vão abrir a porta e voltem ao vosso trabalho. E hoje vão as três almoçar connosco. É a minha despedida.


4.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVIII


- E foi tudo o que consegui saber.
As duas mulheres estavam sentadas à mesa da cozinha, cada uma com a sua chávena de chá. Cidália acabara de contar à enteada, tudo o que o marido lhe contara na manhã do dia anterior.
- Meu Deus, como pôde o meu pai acusá-lo de roubo, sem quaisquer provas?
- Não te recordarás,eras demasiado pequena, mas o teu pai era muito apaixonado pela tua mãe. Quando ela morreu, ficou desesperado. Dedicou-se aos negócios como se não houvesse amanhã. Com um único desejo. Esquecer. Tornou-se num homem insensível, cruel mesmo, em certas ocasiões. No escritório ninguém gostava dele, e ele sabia-o, mas isso não lhe importava. Naquela época nada lhe importava, nem mesmo tu. Aliás, disse-me que na altura te culpava indiretamente pela morte da tua mãe, já que ela teve um parto extremamente difícil, e nunca mais ficou boa depois disso. Nessa época, eu ainda não o tinha conhecido, mas quando o conheci, ele era detestável. Penso que descontava nos outros a dor e a raiva, pela perda da mulher amada. Ainda hoje não sei como pude apaixonar-me por ele, mesmo reconhecendo o seu mau génio. Talvez porque como disse Blaise Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece". Porque a verdade, é que apesar de reconhecer o seu mau feitio, me apaixonei por ele quase no primeiro dia em que fui trabalhar para a firma. 
Mas ele não casou comigo por amor. Casou porque percebeu os meus sentimentos e estava cansado e desorientado. Tu eras adolescente, tinhas entrado numa fase de rebeldia, e ele não sabia como lidar contigo.
-Mas, vocês pareciam tão apaixonados!
-Eu estava. E ele fingia na tua frente, porque eu lhe disse que se tu percebesses a nossa real situação não me ias aceitar, e eu nunca podia ser tua amiga e encaminhar-te na vida como ele desejava. Não foi nada fácil a minha vida na altura, mas eu tinha fé no meu amor por ele, e tu estavas faminta de amor, aceitaste-me muito melhor do que eu esperava, e ajudaste-me com o teu carinho. E acabei por conquistá-lo. Mas quando lhe pedi um filho foi outra luta. Ele temia que a história se repetisse, e só acabou cedendo quando lhe disse que se não me dava um filho, queria o divórcio. Mas tenho a certeza de que se me tivesse acontecido alguma coisa, o Miguel iria sofrer o mesmo, ou pior do que tu sofreste.
-Foi muito cruel. Ele perdeu a mulher, eu perdi mãe e pai, numa época em que qualquer criança precisa acima de tudo, do amor dos seus pais.
-Eu sei, querida. E sempre tentei compensar-te com o meu amor.
- Porque não me contaste antes?
- Porque não tinha a certeza se entenderias, tu não perdoavas a teu pai o quase desprezo com que te tratou, e tinha medo de que em vez de melhorar a vossa relação, a minha intervenção a piorasse. Estou a fazê-lo hoje, para que percebas a sua atitude naquela época. O que fez com o António, teria feito com qualquer outro empregado.
-Mas foi uma monstruosidade. Isso pode destruir a vida de qualquer um.
-Sei. E hoje o teu pai também sabe, e vive atormentado pelo remorso,todavia  o seu arrependimento não pode mudar o passado.
Por algum tempo, o silêncio reinou na cozinha. Paula lembrava as palavras do empresário a primeira vez que foi ao escritório, “arruinar o teu pai não paga um décimo do sofrimento que me causou” ou quando dias antes lhe entregara o envelope “desisti da vingança por ti. E também pela Cidália, porque me disseste que foi para ti a melhor das mães, e pelo Miguel que tanto te ama.” Será que realmente ele se importava com ela? Poderiam aquelas palavras no escritório serem realmente um declaração de amor? 
-Imagino que  António Ferreira deve ter sofrido muito, e compreendo a sua raiva - disse Cidália interrompendo-lhe os pensamentos.- Venho de uma família que nunca foi abastada, e sempre me lembro de ouvir meu pai dizer que a riqueza de um pobre era o seu nome honrado. Ele tinha muito orgulho do seu. Por isso entendo o seu desejo de vingança. O que não entendia, e me revoltava era o facto de ele te querer envolver nessa vingança. E que o teu pai, por medo da falência, estivesse disposto a pactuar com isso. Era imoral.


Porque amanhã é dia das mães, esta história volta Segunda-feira

9.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XX



-Sim…
- Tenho a dona Paula Maldonado ao telefone. Pode atender?
-Sim, claro. Passe-me a chamada por favor.
- Estou: Bom dia Paula. Porque não ligaste para o meu telemóvel?
- Não é uma chamada pessoal. Prefiro tratar os negócios pelo telefone. Preciso conhecer o local da festa, com urgência. O espaço temporal é demasiado curto e ainda não me disseste onde se vai realizar a festa.
- Falaste numa festa ao ar livre e eu gostei da ideia. Tenho uma casa em Sintra, numa pequena quinta. Só lá vou aos fins-de-semana, mas tem um bonito jardim, com um pequeno lago, penso que seria o ideal.
-Preciso vê-lo. Saber onde fica a igreja mais próxima, ir falar com o padre, uma infinidade de coisas.
-Eu mesmo gostaria de te levar lá, mas vou ter uma reunião dentro de meia hora com o meu sócio. Não podes deixar a visita para mais tarde?
- Prefiro ir já.
-Muito bem. Vou enviar-te a morada. E telefonar à governanta para que te mostre o jardim. Entretanto logo que termine a reunião vou lá ter. Almoçamos e depois podemos ir juntos falar com o padre. Além disso,- apressou-se a dizer, antes que ela recusasse. – Gostava de te mostrar a casa, e de ter uma ideia do que pensas fazer.
- Bom, manda então a morada. E vou falar com o padre, sozinha. Não quero correr o risco de encontrar alguém conhecido, e alimentar boatos em revistas cor-de-rosa. Vou desligar. Até logo!
António desligou a chamada, enviou a mensagem com a morada e ficou pensativo. A ele também não lhe agradavam os boatos, mas não desdenharia nada de sair nas revistas como noivo dela, se isso fosse verdade. Pelo contrário ia sentir-se muito feliz. Cada dia que passava, mais pensava nela. E não tinha nada a ver com a vingança que durante tantos anos alimentou contra o pai dela.
Na verdade sempre que pensava na jovem, conseguia imaginar muita coisa, mas nada que a ligasse ao pai e ao seu desejo de se vingar.  Desejo que aliás pôs de parte, por ela. Nunca em toda a sua vida sentiu algo parecido por outra mulher. Estaria apaixonado?
Foi interrompido nos seus pensamentos, por uma batida na porta, e logo Susana, a sua secretária entrou dizendo:
- Chegou o senhor Júlio Correia, e doutor Eduardo Soares.
- Faça-os entrar. E pode retirar-se. Se precisar de si, chamo.
Os dois homens entraram no escritório, e a secretária retirou-se fechando a porta atrás de si.
António levantou-se e os três homens, cumprimentaram-se de forma amistosa.
- Sentem-se. Querem tomar alguma coisa?- Perguntou António.
- Não, - disse o seu sócio. – Deves lembrar-te que nunca bebo de manhã.
-Eu também não, acabei de beber um café, -disse Eduardo, antecipando-se à pergunta do cunhado.
- Então vamos lá trabalhar. Já marcaram a escritura em Faro?
- Está agendada para depois de amanhã às quinze. Vais connosco não é verdade?- Perguntou Júlio.
- Bom, não era necessário, mas o Eduardo diz que fazes questão na minha presença.
- Sinto-me mais confiante assim. Somos amigos, mas também somos sócios, e lembras-te de quando tinhas o boletim premiado? No mesmo dia quiseste que fossemos a um advogado para firmar uma sociedade. Quando te disse  que não era necessário, porque confiava em ti, disseste. “Amigos, amigos, negócios à parte.” Hoje digo-te o mesmo.
-Não é a mesma coisa, além de que o Eduardo estará lá com o doutor Alcides, teu advogado, e podes ter a certeza que eles terão muita atenção a todos os pormenores da compra. Irei convosco se fazes questão, mas esse negócio tal como os outros relacionados com os automóveis, terá que ser dirigido por ti, eu já tenho imenso trabalho com os restaurantes e a Imobiliária.
-Então está combinado. Vamos depois de amanhã às nove horas.Outra coisa. Sabes que vou casar no final do próximo mês? - Perguntou Júlio.
- Penso que já tinha ouvido alguma coisa sobre o assunto. Os meus parabéns.
- Obrigado. Eu ficaria muito feliz se aceitasses ser o meu padrinho.
Aceitas?
- E eu sinto-me honrado com o convite. Claro que aceito, - disse levantando-se e abraçando o amigo. – Depois conversamos sobre isso. Agora tenho que sair, tenho um compromisso em Sintra.


26.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE IX




-Não pai, não insistas. Não vou casar com um homem que não conheço, para te salvar da ruína.
Não te preocupa o facto de deixares a tua família na miséria?- perguntou o progenitor, levantando a voz alterado.
-Tenho algum dinheiro. Não muito, mas dá para recomeçares a tua vida. Ainda és um homem novo. Deixa que execute a hipoteca.
- Estás doida? Que sei eu fazer que não seja gerir a empresa?
- E pelos vistos não muito bem. Antigamente era uma empresa próspera, - retorquiu a jovem. - E não me venhas falar em crise. Esse homem começou com uma pequena imobiliária e em poucos anos é a maior do país.
- “Esse homem”, como tu dizes está determinado a deixar-me na miséria. Se eu fosse sozinho não me importaria muito, mas tenho mulher e um filho menor que precisam de mim.
Paula sentiu vontade de lhe dizer que o facto de ele ter bastante dinheiro quando ela era criança, não contribuiu em nada para que tivesse sido um pai atento e amoroso. Ela teria preferido menos brinquedos e mais carinho do pai. Mas pensou que não era hora de recriminações e limitou-se a perguntar.
-E o que tu lhe fizeste para que ele te queira arruinar?
- Pensas que é preciso ter feito alguma coisa para isso? Esta gente não precisa de motivo para que pise todos os que estão abaixo deles e se apoderem daquilo que podem. Ou talvez quem sabe, se tenha apaixonado por ti e pense que é a melhor maneira de te vir a ter como esposa.
- Não sejas ridículo, nem me tentes enganar. Se esse homem quisesse uma mulher bastava estalar os dedos. Com a sua posição social, não lhe faltarão candidatas. Também não se pode ter apaixonado por mim, nem sequer nos conhecemos. E na remota hipótese de que isso tivesse acontecido, não usaria de tal subterfúgio. Trata-se como é evidente de uma vingança, por alguma coisa que lhe fizeste. Eu sei e tu também sabes embora nunca venhas a admiti-lo. De qualquer modo a minha decisão está tomada. Não contes comigo para isso. E agora se me dás licença, tenho muito trabalho para fazer. Porque embora o que eu faço, não tenha qualquer valor para ti, eu trabalho e muito. Dá um beijo por mim à Cidália e ao Miguel. Diz-lhe que no Domingo o vou buscar para ir ao cinema.
Dito isto sentou-se à secretária e começou a ler o documento que tinha na frente. Jorge permaneceu uns momentos calado, visivelmente desconcertado. Depois dirigiu-se para a saída, pôs a mão no puxador da porta, mas antes de a abrir, virou-se e disse:
- Pensa bem, filha. Não aconteça que mais tarde te arrependas, e carregues com o peso dos remorsos a vida inteira. Garanto-te que não é nada agradável, viver com isso.
Paula levantou os olhos e olhou o pai em silêncio, Depois sem pronunciar palavra voltou a concentrar-se nos papéis que tinha na sua frente.
Jorge rodou sobre os calcanhares, abriu a porta e saiu fechando-a com estrondo.

NOTÍCIAS
. Estive esta tarde a fazer exames médicos por causa do olho e as notícias não são de modo algum aquelas que eu gostaria. A retina mantém-se colada, mas a córnea continua muito maltratada. O Professor, diz que eu tenho um suporte de silicone que será para retirar numa nova cirurgia, se a córnea recuperar o suficiente para colocar a lente. Se isso não acontecer, só com transplante da mesma posso ter esperanças de voltar a ver como deve ser. Entretanto como há apenas um mês que fiz a segunda cirurgia, vamos ter esperanças que a córnea recupere até ao dia 14 de Maio, altura em que vou voltar a fazer exames e à consulta. Entretanto mandou parar com as gotas de antibiótico que estava a fazer e mudou para gotas de cortisona.


23.1.19

QUEM SABE, FAZ A HORA... FINAL


reedição





-Vem comigo Sandra, vamos até lá fora. Está sufocante aqui.
- O que te sufoca, são os teus receios, não o ar aqui dentro - retorquiu-lhe a amiga.
Saíram. Na rua alguns jovens conversavam. E estava frio. Mas estranhamente Cecília sentiu-se bem.
- Será que ainda demora? E será que vem mesmo?
- Claro que vem. Tem calma. Vamos voltar para dentro. Aqui gela-se.
Entraram. E Cecília voltou a embrenhar-se nos seus pensamentos. Lembrou do sofrimento que lhe causara a morte do marido. E do luto que a si mesma impôs. Mas depois... com o passar do tempo, não era mais a figura calma e doce do marido que ela recordava, mas o jovem impetuoso e apaixonado que ficara em Portugal. Tentou esquecer. E refazer a sua vida. Em vão. Pela amiga com quem falava quase todos os dias pela Internet, sabia da vida de João. Dos seus desvarios, das noitadas, da vida de excessos de celibatário. E a ideia começou a germinar. Resolveu voltar e procurá-lo. Disse-o a Sandra que a incentivou.
Lembrou-se da avó, que costumava cantar:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Despediu-se do emprego e marcou a viagem. Só depois contou aos pais, a quem prometeu, que mandaria notícias tão depressa tivesse a vida organizada. Depois quem sabe, também eles voltariam para a sua Lisboa de que tinham tantas saudades. E agora ali estava ela, esperando ansiosa, e disposta a lutar, para conseguir a felicidade com que sonhava desde menina, ao lado do homem que sempre estivera dentro do seu coração. Sentiu a mão da amiga apertar os seus dedos, e ao olhar para a porta, todo o seu corpo estremeceu, enquanto as suas faces se ruborizavam, ao reconhecer a figura masculina.
AGORA era a hora...



Fim


Elvira Carvalho



Bom como sabem não fui operada na Segunda-feira, e ainda não me telefonaram da clínica para confirmara se será para a próxima o que me faz estar um pouco ansiosa. Por outro lado há 36 horas que não tenho um ataque de tosse pelo que penso que talvez já tenha passado.
Outra coisa que me traz muito curiosa é a história das visualizações.
Desde que começou o ano todas as Terças-feiras, e apenas nesse dia,o Sexta tem imensas visualizações, praticamente todas provenientes de um local desconhecido e dos Estados Unidos. 
Na maioria dos dias, ando entre as 300 e as 400. Vem as Terças e são 800, 900 e hoje terminou o dia estamos assim.
Esquisito, não?






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