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25.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVII



 Enquanto esperava por ela depois de ter pago as suas compras, Nuno observava, o rosto delicado, os cabelos soltos, a figura esbelta. Não tinha dúvidas de que era uma mulher muito bonita. A jovem que ele amara, dera lugar a uma mulher em toda a sua plenitude. Era estranho que estivesse sozinha. Segundo o seu pai lhe dissera, ela estivera casada pouco mais de um ano. Seria que tinha amado tanto o marido, que não queria atraiçoar a sua memória? De qualquer modo isso não lhe interessava. Ele não a deixaria entrar na sua vida, não a deixaria saber do seu acidente, nem a deixaria saber que ele já não era um homem por inteiro.

Não, ele só queria vingar-se de toda a amargura que ela destilara na sua alma. Hoje era só o que lhe restava. Saborear a vingança.
Luísa acabou de meter as compras nos sacos, pagou e saiu.
- Não devias ter esperado. Estás a atrasar-te.
- Não tenho pressa. É sábado. Não tenho urgências este fim-de-semana. E não respondeste ao meu convite. Almoçamos juntos?
- Não posso mesmo.
- E jantar? Não me vais dizer que também não podes. Não estou a pedir nada de especial. Apenas um jantar de amigos.
-Está bem, - concedeu sem se atrever a olhá-lo.
- Há algum sítio da tua preferência?
- Não. Escolhe tu.

Tinham chegado junto do carro dela. Abriu o porta bagagens, e começou a arrumar os  sacos de compras.
- Às oito vou buscar-te. Mas tens que me dizer onde moras.
- Na mesma casa que vivia naquela época. A casa de meus pais.
- Está bem. Lá estarei às oito. Até logo.
Fez-lhe uma leve carícia no rosto, e afastou-se em direção do seu carro.
Luísa, ficou uns segundos a vê-lo afastar-se, depois entrou no carro e manobrou para sair do estacionamento e seguir para casa. Estava perturbada com o encontro. Nuno fora o único homem que amara, e era também o único,  desde a morte do marido, cuja aproximação não lhe provocava pavor.

Mesmo tendo passado catorze anos, e muitas horas de tratamento psicoterapêutico, ela ainda não se sentia muito confortável na presença do sexo oposto. Com Nuno as emoções que ela sentia, não tinham nada a ver com medo.  
Continuava a ser um homem bonito e com uma presença marcante.
Estranho, era não ter casado, pois adorava crianças, e ela lembrava bem dos  projetos que partilharam no passado. Uma casa com jardim, e espaço suficiente para criar três filhos.




27.10.21

UMA NOITE DE INVERNO - PARTE V




Mas Luís sentiu um aperto no coração. Não conhecia ninguém que tivesse aquela doença, mas um amigo tinha-lhe contado que a cunhada dele sofria dessa enfermidade e o que lhe disse, era suficiente para aterrorizar qualquer um. Fez perguntas ao médico, quis saber com que podia contar e se podiam fazer alguma coisa para impedir a doença de progredir.
E o neurologista explicou-lhe

"A Doença de Alzheimer é um tipo de demência que provoca uma deterioração global, progressiva e irreversível de diversas funções cognitivas, (memória, atenção, concentração, linguagem e pensamento, entre outras).
Esta deterioração tem como consequências alterações no comportamento, na personalidade e na capacidade funcional da pessoa, dificultando a realização das suas atividades de vida diária.
À medida que as células cerebrais vão sofrendo uma redução, de tamanho e número, formam-se tranças neurofibrilares no seu interior e placas senis no espaço exterior existente entre elas. 

Esta situação impossibilita a comunicação dentro do cérebro e danifica as conexões existentes entre as células cerebrais. Estas acabam por morrer e isto traduz-se numa incapacidade de recordar a informação. Deste modo, conforme a Doença de Alzheimer vai afetando as várias áreas cerebrais vão-se perdendo certas funções ou capacidades."

Disse ainda que “ As células nervosas do cérebro comunicam umas com as outras através da libertação de substâncias químicas; que são denominadas por neurotransmissores. A acetilcolina é um neurotransmissor importante para a memória. As pessoas com Doença de Alzheimer têm níveis baixos de acetilcolina no cérebro. As enzimas designadas colinesterases destroem a acetilcolina no cérebro. Se a sua ação for inibida, mais acetilcolina estará disponível para a comunicação entre os neurónios.”

Então para tentar controlar o avanço da doença, ele podia receitar um inibidor de colinesterase, mas dizendo que o efeito deste medicamento variava muito de pessoa para pessoa, dado que havia pessoas que estabilizavam no ponto atual da doença, outras a progressão tornava-se muito mais lenta, e outras ainda, a doença continuava a sua evolução de destruição como se não tomasse medicação. Além de que a doença estava já muito avançada, Alzira devia ter ido a uma consulta de neurologia no início dos sintomas.

Informou ainda que era uma doença relativamente recente e que a própria ciência ainda sabia muito pouco sobre ela.






25.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE X




Na rua o homem parou, piscou os olhos por causa da luz daquele bonito dia de sol, e respirou fundo. Depois retomou a marcha, seguindo Helena em direção ao carro. Quando o veiculo começou a rodar, ela comentou:

-Amanhã, vamos ao centro comercial. Precisa de comprar algumas roupas.
- Mas como? Não tenho dinheiro!
- Eu sei. Mas posso emprestar-lhe o suficiente para que compre o necessário. Pagar-me-á quando recuperar a sua vida.
- E se isso nunca acontecer, doutora? Não posso viver às custas da sua generosidade.
- Não se preocupe. Quando menos esperar, recupera a memória. Foi pena que não se deixasse hipnotizar. Podia ser que o psiquiatra tivesse descoberto algo.
- Mas não foi culpa minha, juro.
- Chegamos, - disse ela estacionando o carro junto de um prédio de apartamentos. Moro no segundo andar. Vamos?

Acionou o mecanismo da chave para fechar o automóvel, ao mesmo tempo que se dirigia para a entrada do prédio seguida pelo homem. Se a porteira a visse, decerto ia estranhar. Morava ali há três anos, e nunca entrara ninguém na sua casa, a não ser a empregada, e os seus pais, quando vinham passar uns dias com ela. 

Não utilizaram o elevador. Ela nunca o usava, preferindo subir os dois lances de escadas, e naquele dia não foi diferente, até porque pensou, que depois de tantos dias, na cama, ele precisaria de exercício. Abriu a porta, acendeu a luz, pendurou a mala num cabide à entrada e voltando-se para ele que se mantinha em silêncio, disse:
- Venha, vou mostrar-lhe a casa. Aqui é a sala, digamos de recreio. Aqui pode ler, ouvir música, ou ver TV. Aqui é a sala de refeições. É pouco utilizada, como vivo sozinha com o filho, comemos sempre na cozinha. É mais aconchegante. O quarto principal, o quarto do Diogo, e o quarto dos meus pais, que será o seu, enquanto aqui estiver. No armário, estão algumas roupas, para dormir confortável hoje. Espero ter acertado com o tamanho. Aqui  são as casas de banho. Esta é a que uso com o Diogo. 
A porta ao lado, é de outra casa de banho cuja diferença consiste, em que esta tem banheira, e a outra apenas duche. No resto são iguais. Poderá usá-la.
E finalmente a cozinha. 
Voltou-lhe as costas, mas ele pôs-lhe uma mão no ombro e forçou-a a voltar-se. Segurou as mãos dela entre as suas, e perguntou olhando-a com intensidade:




9.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXIX


 - Meu Deus , Gonçalo! Como deves ter sofrido durante todos estes anos, sem que nós pudéssemos ajudar-te. Porque não nos contaste que não tinhas recuperado parte da memória?

Os dois irmãos encontravam--se sentados na sala da casa de Laura, onde Gonçalo tinha estado a jantar. Queria contar à irmã, a reviravolta que a sua vida sofrera, mas com os sobrinhos à sua volta, isso fora impossível. Agora que as crianças já dormiam, fora enfim possível desabafar com a irmã.

- Porque havia de vos contar? Se os médicos não me conseguiram ajudar, o que é que vocês podiam fazer. Só ia preocupar-vos. Agora é diferente, porque embora eu não tenha recuperado aquela parte da minha vida, ela deu frutos. Tenho uma filha linda. Que te vai surpreender, como poderás ver agora, disse lançando a mão do seu telemóvel e mostrando-lhe uma foto.

- Santo Deus, mano. Qualquer um que nos visse juntas, diria que é minha filha.

- Foi exatamente por isso que quando a vi, tive a certeza que tinha encontrado o elo que faltava na cadeia do meu passado. Foi essa semelhança que me levou a questionar Helena. Lembras-te daquela fotografia que tiraste mais ou menos nessa idade e que trago sempre na carteira? Foi com ela que questionei Helena, e consegui que ela me ouvisse. Sempre vais passar a Páscoa com os pais?

- Vamos amanhã de manhã. Tu não? Pensei que ias Sexta-feira à tardinha depois de saíres do hospital. 

-- Não. A família da Helena é de uma aldeia do concelho do Fundão. A família reúne-se lá para passar a Páscoa. Eu não conheço a sua família apesar da Helena dizer que conheci bem o seu irmão e cunhada. Quero conhecer os seus pais, quero que eles saibam, que não foi culpa minha, não ter assumido a responsabilidade dos meus atos e dado à sua filha e neta o lar que mereciam. 

Vou para lá no Sábado de manhã, A Helena contou hoje à Matilde que eu sou seu pai. E diz que ela ficou muito feliz e quer ver-me. Levas o portátil para Braga?

-Levo, porquê?

- Porque eu trouxe uma pen com o arquivo digital que a Helena me mandou ontem à noite. É uma espécie de história fotográfica da sua vida que a mãe foi compondo ao longo dos anos. Vi cada uma mais do que uma vez. 

Quase não dormi esta noite. Depois fiz cópias e passei para duas pens para não correr o risco de as perder. Trouxe-te uma e peço-te que contes aos pais o que se passa.  

Diz à mãe que não se preocupe mais em descobrir jovens para me apresentar. Já encontrei a mulher da minha vida. E diz-lhe que logo que a Matilde esteja completamente recuperada, iremos lá para que eles conheçam a neta, já o disse a Helena e ela está de acordo.

- E para quando o casamento? Já falaram nisso?

---Já. Mas a Helena não aceitou o meu pedido. Ela diz que não se casará apenas por causa da Matilde, apesar de reconhecer os meus direitos como pai. 

Ela aceitar-me-ia com uma declaração de amor que em consciência eu não posso fazer de momento. Eu não tenho nenhuma memória da história de amor que vivemos. 

Para mim é como se acabasse de a conhecer. Existe uma grande atração entre os dois, e estou certo de que voltaria a amá-la depois do casamento, mas ela não quer arriscar um casamento baseado na atração física. Respeito a sua opinião, mas não vou desistir. 

Ela é uma mulher linda, inteligente e de muita coragem. Admiro-a muito e tenho a certeza que em breve estarei irremediavelmente apaixonado. Afinal se a amei uma vez não vai ser difícil amá-la de novo. Quero na minha vida, a família que aquele maldito acidente me roubou. 



7.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVIII

 


- Queres dizer que meu pai perdeu a memória e por isso não sabia da minha existência? - perguntou Matilde depois da longa explicação da mãe. Mas porque não lho disseste tu?

Mãe e filha encontravam-se no quarto da última. Helena acabara de fazer um resumo do que Gonçalo lhe contara, mas Matilde era uma menina muito inteligente e um tanto precoce. Seria muito diferente se fosse uma criança de tenra idade a quem ele se limitaria a dar uma explicação mais ou menos romanceada para explicar a ausência paterna.  

- Como acabei de te dizer, nós apaixonámo-nos nas férias. Nem um nem outro estávamos na nossa terra, e o nosso contacto era o telemóvel que se perdeu no acidente. Eu só sabia que o teu pai vivia em Braga e estava na Universidade no Porto. Não tinha como encontra-lo depois dele não responder às minhas mensagens. Na verdade, nunca mais soube nada dele até há poucos dias. Nem sequer sabia se tinha casado, se tinha outra família.

- E casou? Tem outros filhos?

 -Não. Segundo sei, um dos amigos com quem estava de férias no Algarve quando nos conhecemos, um dia perguntou-lhe por mim e estranhando que estando tão apaixonados eu não tivesse ido vê-lo. Desde aí ele nunca mais deixou de pensar em mim, e por isso nunca casou.

- E agora, recuperou a memória? E é um homem normal ou está tontinho?

- À parte o não recordar aquela parte da sua vida, antes do acidente, não tem nada de tontinho, é até muito inteligente.

-Bom, e agora que já o encontraste, vais-me dizer quem é? E falar-lhe de mim? Quando vou conhecê-lo?

-Na verdade, já o conheces, filha. Lembras—te do doutor Gonçalo, aquele médico que te deu o livro? É o teu pai.

- O quê? Não pode ser!

- Porque dizes isso? - perguntou Helena assombrada.

- Mãe, ele é moreno, tem olhos escuros, eu sou loira e tenho olhos azuis. Não me pareço nada com ele. Como não me pareço contigo, tinha que ser parecida com ele e não sou.

- O Gonçalo parece-se com o pai. Tu pareceste com a sua mãe, e a sua irmã. Os filhos nem sempre se parecem com os pais. Às vezes vão buscar parecenças aos avós e até aos bisavós. Na verdade, foi por tu seres parecidíssima com a tua tia, que ele soube que nos encontrara.

-E agora, mãe? Como vai ser a nossa vida daqui para a frente? Ele já sabe que eu existo, mas vai querer ser meu pai? Ou vai aparecer uma ou duas vezes por ano e fingir que eu não existo no resto do ano? Porque se assim for, eu vivo bem sem ele.

-Não Matilde, o teu pai não é assim. Ele que ver-te, levar-te para conheceres a sua família, ser teu pai a sério. Ele até quer casar comigo.

-É claro que quer casar contigo. De outro modo nunca seria meu pai a sério, pois nunca seríamos uma família com os avós, ou o tio Sérgio.

-Não é bem assim, Matilde. Nem todos os pais vivem juntos. Decerto tens colegas com pais divorciados – disse Helena sentindo uma angústia enorme.

- Claro, como a Sónia. Mas a mãe dela voltou a casar e o pai também. Tem agora duas famílias e até mais irmãos. Tu e o Gonçalo estão sozinhos. Se ele quer casar o que te impede de o fazer? Não gostavas dele antes de eu nascer?  Ele teve culpa de ter perdido a memória? Então porque não queres casar? – perguntou obstinada.

 

18.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE V

 





Ferveu o leite, fez o café, pôs manteiga nas torradas, e finalmente sentou-se em frente à avó. Comeram em silêncio, a jovem não se atrevia a dizer à idosa, o que tão bem planeara à noite. Quando acabaram, a avó colocou a sua enrugada mão sobre a dela, e disse com ternura:

- Vá lá filha, desembucha. Ou corres o risco de sofrer uma indigestão.
- Como é que sabes que te quero dizer alguma coisa?
- Olha, Isabel, eu sou velha, mas não sou cega. Sei que ficaste abalada com o que te contei ontem, sobre o Hélder. Também ainda conservo a minha memória e lembro-me bem como vocês foram inseparáveis noutros tempos. Depois não sei o que se passou, mas os dois fugiram. Tu levaste cinco anos sem voltares, ele levou dez. 

-Nunca te perguntei nada, mas não é preciso ser muito esperta para saber que alguma coisa se passou entre vós. Talvez não saibas, mas sempre que estava por cá, ele vinha-me visitar, fazia-me um bocado de companhia ao serão e eu gostava de conversar com ele. Era como um neto. Esteve ausente, dez anos, voltou e não me veio ver, uma única vez. Pode ser que seja por amargura, por estar cego. Mas pode ser por algo mais que só vocês saberão. E então, agora já podes dizer à tua velha avó o que te atormenta?

- Ó avó, não se passou nada. Eu fiz uma coisa estúpida e ele ficou aborrecido, mas isso foi há tanto tempo que nem já se lembrará.
- E tu, esqueceste? – perguntou a avó perscrutando-a com o olhar.
-Claro avó, - mentiu e teve a certeza de ter corado. Mas a avó não disse nada. Ou não deu por isso ou fingiu que não viu. 
E ela acrescentou:

- Sabes, gostava de tentar a vaga de secretária. Sem ele saber quem sou, mas para isso, não podias dizer nada a ninguém.

A avó sorriu ironicamente

-Queres dizer que trocas a tua carreira de advogada, pela de secretária dele? Pensava que tinhas sentido uma paixoneta de garota, mas vejo que é algo bem mais sério.
-Ó avó não é nada disso. É só que tenho pena dele, e como estou de férias…
- Olha Isabel, se há coisa que me aborrece é que me tomem por tola. Vai lá ver se consegues a vaga, eu não direi nada a ninguém, também o que poderia eu dizer? Que a minha neta, anda a apanhar lenha para se queimar, e eu não sei como protegê-la?
-Obrigado, avó. És um amor, - disse abraçando e beijando a idosa.

                                                

26.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XLIII




 No coração de Luísa, a certeza de que aquele amor entre os dois era real, debatia-se com a dúvida de que tudo não passava de uma ilusão criada pelas circunstâncias em que ele chegara à sua vida, e pela solidão a dois vivida durante aquela semana.
Mal chegou a casa, abriu o computador e foi investigar o nome dele.
Durante quase uma hora leu tudo o que encontrou, desde os seus tempos de futebolista famoso até ao momento atual de homem famoso e respeitado no mundo das letras.  Leu sobre suas obras filantrópicas, em especial a Fundação que tinha o nome da sua filha, tomou conhecimento da trágica morte da esposa, e quanto mais lia, mais a insegurança se instalava nela. Como é que um homem com tal poder se podia interessar por ela?
Quando fechou o portátil, lembrou-se que tinha ficado de telefonar à
esposa do médico e ligou-lhe. A senhora estava muito entusiasmada, o advogado de Gil, tinha informado a televisão de que o escritor já tinha dado notícias e estava de regresso. Os repórteres já estavam acampados junto da sua residência e tinham prometido mais notícias sobre a história do seu desaparecimento para os noticiários da noite.
-Mas, minha querida nem a deixei falar. Como foi que ele recebeu a notícia? Já recuperou a memória?
-Já há dias que ele ia tendo flashes da sua vida, especialmente da imagem da filha, embora as recordações aparecessem como peças soltas de um puzzle, a  que faltavam tantas peças que o deixavam frustrado e nada lhe diziam. Ao assistir ao programa, o puzzle compôs-se e a memória voltou. Acompanhei-o à vila para que alugasse um carro e partisse.
- Deve ter sido uma situação muito dolorosa, não só para ele como para a família.
-Penso que sim, mas já acabou. Pedi-lhe para que não dissesse onde esteve nem com quem, não quero que a imprensa perturbe a minha tranquilidade. E queria pedir à minha amiga, que não falasse a ninguém no caso. E claro ao seu marido também.
- Fique descansada que não comentarei com ninguém. E darei conta, do seu pedido ao António, mas ele vai-me dizer que é escusado o aviso, um médico e um sacerdote estão obrigados ao segredo sobre os corpos e almas que cuidam. É o que me costuma dizer.
- Nem sabe como lhe agradeço. Bom vou jantar. Porque não vem amanhã lanchar comigo? A senhora tem sido uma grande amiga, quase como uma mãe. E nesta altura da minha vida,  eu sinto que preciso das duas.
- Claro que sim, Luísa. Estou aí às três. É um pouco cedo para o lanche mas dá-nos mais tempo para por a conversa em dia.
-Muito obrigado. Até amanhã. 
Até amanhã, querida!


17.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXIX




- Chegou a hora de me despedir!
Ela estremeceu e largou o pincel. 
Aquela frase, foi como uma faca rasgando-lhe o peito apesar de não ser de todo inesperada.
Desde a véspera, que Luísa sentia a luta que ele travava consigo mesmo, e intuía que a sua partida estava eminente. 
Uma semana se passara, desde aquela terrível noite de tempestade, em que ele chegara meio morto à sua porta. 
Sete dias de convívio diário que  mudaram  a sua vida para sempre. 
Inicialmente cuidara daquele homem, pois ele estava meio inconsciente e completamente vulnerável. Faria o mesmo com qualquer outro ser humano que necessitasse, fosse criança, ou idoso, ou até  mesmo por um animal, (afinal fora assim que ganhara a companhia de Tejo, quando o encontrara abandonado, maltratado e meio morto de fome).
Porém desde o primeiro momento em que ele recuperou a consciência, ela sentiu a forte atração que os uniu. Há muitos anos que se tinha imposto a si mesma uma vida de solidão e até então, nunca se tinha sentido infeliz com essa opção. Porém tudo mudou depois que ele chegou. Era  um homem muito atraente, mas era também educado, simpático, e adivinhava-se carinhoso, pela maneira com que a tratava. 
E embora sabendo que era uma loucura, o desejo de o ter mais tempo consigo, foi crescendo, hora a hora. Sabia que de um momento para o outro, ele podia recuperar a memória, e partir. E ela não era tão egoísta  que desejasse o contrário, mas sim, desejava que não partisse enquanto a atual situação se mantivesse.
  Por isso, para o reter, lhe tinha pedido para posar para ela, e tinha começado a pintar o seu retrato havia três dias. Era como se através do quadro, pudesse perpetuar a sua presença junto dela. Se acreditasse em amor à primeira vista, diria que se tinha apaixonado por ele desde o primeiro momento. Ou talvez fosse apenas atração sexual.  Afinal há mais de doze anos que não sentia o carinho de umas mãos de homem acariciando o seu corpo. Todavia  desde a véspera, ela sentia que a sua partida estava eminente.
- Mas para quê partir, se não sabes para onde? Ou já te lembraste de alguma coisa?
- Não, de vez em quando passam-me imagens rápidas pela cabeça, como se
 fossem flashes fotográficos. Há uma em especial que surge muitas vezes. É um bebé, e sinto que há uma relação forte comigo, mas não consigo lembrar de mais nada.
- Provavelmente, as tuas memórias a quererem voltar à superfície. Mas então porque não ficas mais um dia ou dois? Pode ser que, entretanto, te recordes de tudo.
-Não posso, Luísa. Somos ambos, adultos o suficiente, para nos darmos conta da atração que exercemos um sobre o outro. Por vezes a tensão sexual entre nós é tão grande que quase pega fogo ao espaço que nos rodeia. Ou pelo menos é o que eu sinto, e, creio não me enganar, ao pensar que tu sentes o mesmo. Agora mesmo leio no teu olhar, o mesmo desejo que me consome e não posso nem devo pagar dessa maneira a tua generosidade. Não esqueço que se estou vivo a ti to devo, e eu nem sequer sei se sou um homem livre.
-Compreendo, - disse ela voltando os olhos para a tela, o coração dividido entre a dor que a invadia, pela partida eminente e a alegria de saber que os seus sentimentos eram igualmente sentidos por ele. E sentiu uma enorme tristeza, ao  pensar que em qualquer parte do país, poderia haver outra mulher que estaria em sofrimento, sem saber o que lhe tinha acontecido. 
- E quando pensas partir? - perguntou com voz tremente. 
- Logo após o almoço. Quantos quilómetros são daqui à vila? – perguntou.
- Penacova, fica a pouco mais de três quilómetros. Mas o que vais fazer quando lá chegares?
- Ainda não sei. Mas suponho que se me dirigir ao posto policial, de algum modo a polícia me poderá ajudar.
- Bom, então será melhor que eu vá tratar do almoço. Deixa-me só lavar os pincéis.


12.11.19

INSÓNIA.

Reedição                                                  

                                             INSÓNIA

A noite vai alta.

No céu, sem nuvens, as estrelas observam curiosas. Num prédio igual a tantos outros, alguém abre lentamente uma janela. Angustiada a figura masculina,  interpõe-se por momentos, entre a luz da rua, e as sombras do quarto. Perpassam-lhe pela memória os acontecimentos daquele sábado. Como se estivesse no cinema, assiste ao filme da sua vida. Na verdade, ela, a Vida nunca fora fácil para ele. Tudo o que era e o que tinha arrancara dela à força.
O tempo passa, o filme chega ao fim. O sono não veio. Um carro passou rápido, quebrando por momentos o silêncio quase religioso em que a noite mergulhara. Abanando a cabeça, como quem sacode pensamentos dolorosos, o homem deu meia volta e afastou-se da janela. Um raio de luar, veio qual amante atrevido, pousar no corpo da mulher, que nua, na cama, dorme docemente...
Como atraído por um íman, o homem  olha-a. E sobressalta-se. Como se só naquele momento desse pela presença feminina. Ou talvez quem sabe, vê-la assim, nua, banhada pelos raios lunares, qual deusa adormecida, tivesse despertado o Amor, que as preocupações diárias, tinha sepultado no seu subconsciente. A paixão incendiou-lhe o peito, o desejo adormeceu-lhe as preocupações.
Naquele momento deixou de existir o mundo lá fora. Nada além daquele quarto, daquela mulher, e do amor que sentia por ela lhe importava. Ansioso, caminhou para a cama. As suas mãos, frenéticas perderam-se naquele corpo tão conhecido, reinventando carícias, ansiando perder-se nele.
A mulher acordou. Soltou um gemido, e enlaçou o corpo masculino. Não sabia que horas eram, mas que importava isso? O momento era aquele. E deixou-se submergir no mar de paixão, que a envolvia.
Pela janela, a lua enlaçou os dois amantes, como protegendo aquele Amor.




Fim

Enquanto eu ando às voltas com os sucessivos problemas de saúde continuam por aqui as reedições. Aos que já conhecem peço desculpa



9.10.19

LUÍSA




O som estridente duma campainha sobressaltou a jovem enfermeira, arrancando-as das suas recordações. Pousou a caneta sobre o mapa que tinha na sua frente, levantou-se, alisou a bata branca e depois de um breve olhar ao quadro, onde uma luz assinalava o quarto numero 9 dirigiu-se para lá.
Uma mulher precocemente envelhecida debatia-se na cama com imaginários inimigos, gritando e puxando a ligadura que a prendia à cama, para que na sua loucura não se magoasse.
Luísa tentou acalmar a mulher enquanto a fazia engolir um calmante. Movimentou a cama para deixar a doente mais confortável, e ajeitou-lhe a almofada. Aos poucos a mulher acalmou e Luísa voltou para a sala das enfermeiras.
O relógio aproximava-se das três horas da madrugada, a colega de turno, dormitava, e o hospital mergulhara de novo no silêncio.
Luísa passou a mão pela testa inquieta. E deixou que aflorassem à memória as recordações que a atormentavam.
 João fora o seu primeiro e único amor. Começaram a namorar nos bancos da escola, e cresceu a sonhar que um dia ia ser sua mulher. Sempre pensara que ele a amava do mesmo jeito. A química entre os dois era perfeita, a paixão muito grande, e quando assim é perde-se a noção do perigo, esquecem-se precauções, e um dia, Luísa teve a desagradável surpresa de se saber grávida. Foi um choque. Não que ela não quisesse ser mãe. Esse era um dos sonhos da sua vida. Mas não agora nesta altura da vida, quando ainda tentava consolidar a sua carreira de enfermeira. Um filho vinha estragar todos os seus planos atuais, mas nem por isso pensou uma única vez que fosse, em livrar-se da criança. Todavia João reagiu de modo diferente do que ela esperava. Ele não queria a criança, e insistia para que ela fizesse um aborto. Recordou a última discussão, na tarde do dia anterior.
“-  Mas Luísa,- insistira ele - não podemos ter um filho nesta altura, minha querida. Não podemos casar já, acabei o curso agora, nem sequer tenho trabalho. E tu acabaste de conseguir emprego. Ainda estás no período experimental. Se descobrem que vais ter um filho, são capazes de te despedir…
- Um filho que é teu, não esqueças - argumentara  ela. - E porque é que não podemos casar já? Não podemos comprar tudo o que precisamos? De acordo. Compramos o indispensável. E depois tenho a certeza que os nossos pais nos ajudarão nos primeiros tempos, até que consigas empregar-te.
-Mas Luísa, somos tão novos! Um filho em princípio de vida vai ser uma prisão. Ouve o que te digo...
- Não João, não me venhas com propostas imorais. Não somos tão jovens que não tenhamos idade para tomar a responsabilidade dos nossos atos.
- Pensa bem, Luísa…
- Não, não e não. Não há o que pensar. Já te disse que não posso, nem quero, fazer o que me pedes. Se não queres o teu filho, vai-te embora de vez. Eu arrostarei com as consequências da minha leviandade. Mas não me digas mais nada. O meu filho não pediu para nascer, mas tem esse direito.” 
Luísa saíra batendo a porta da casa, onde sonhara viver um dia, com a certeza de que estava acabado um capítulo da sua vida. Mas essa era a única certeza, porque de resto tudo em si eram dúvidas.
  Se João a amava, porque reagira assim quando ela descobrira que estava grávida? Porque lhe queria impor um aborto, que ela não desejava? 
Como poderia João ser um ser tão imaturo e egoísta? E como é que ela nunca se apercebera disso? Sentia-se perdida. Ela nunca desejara aquela gravidez. Não sabia mesmo como fora possível pois sempre tomara a pílula. Mas alguma coisa anulara o efeito desta. Seria um sinal Divino para lhe mostrar o verdadeiro carácter de João? De uma coisa ela tinha a certeza. Nunca faria o aborto. Ainda que perdesse o namorado. E o emprego. Acabara de enterrar as suas mais caras ilusões. A sua decisão estava tomada, mas não podia deixar de se questionar. Claro que lá bem escondido num recanto do coração, morava a esperança de que João  reconsiderasse. Mas, e ela?  Poderia olhar para ele com o mesmo amor, depois daquela desilusão? Até onde iria a sua capacidade de perdoar? E de apanhar os cacos e reconstruir o encantamento que fora a sua vida até à descoberta da gravidez?
A noite de plantão, decorrera na maior normalidade, todavia Luísa acabou deixando o trabalho às oito horas da manhã, completamente extenuada. Mas quando alcançou o portão e João surgiu na sua frente com um pedido de perdão no olhar, e umas minúsculas botinhas de lã na mão, dissiparam-se todas as dúvidas, e o rosto cansado, abriu-se num sorriso radioso.

Fim




30.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XIX

Apertou fortemente a mão que o médico lhe estendia, e dirigiu-se à porta. Subitamente, a imagem daquele jovem alto e magro, de uma palidez extrema, que encontrara na primeira consulta, surgiu na sua memória. Voltou-se e perguntou:
- Diga-me Doutor, o doente era um jovem alto, magro, de grandes olheiras, e mãos trementes?
- Como o sabe? - interrogou o médico por sua vez.
Não respondeu. Fez um gesto indefinido com a mão, voltou-se e saiu. Na rua, dirigiu-se para casa, e enquanto uma ligeira brisa lhe acariciava o rosto, deixou que as lágrimas lhe aflorassem aos olhos, sem qualquer espécie de preconceito.

Depois de algumas voltas pela rua, para se acalmar, Pedro entrou em casa. A figura franzina da mãe, saiu da cozinha, e veio ao seu encontro.
- Até que enfim, filho. O jantar está pronto há mais de uma hora
Agarrou na mão do filho e perguntou alarmada:
- Que se passa? Estás a tremer.
Levando-a pela mão, conduziu-a à sala, fazendo com que se sentasse no sofá.
 – Deixe lá o jantar, minha mãe. Preciso contar-lhe tudo o que me atormentou nos últimos meses. Mas antes quero que me prometa, que não vai ficar aflita. Com a Graça de Deus, já tudo passou - disse sentando-se ao seu lado e segurando a mão da mãe entre as suas.
- Filho...
Havia um tal temor na voz da progenitora, que ele acrescentou:
- Não fique assim. Ou então não lhe conto nada. Não há nada a temer, agora tudo está bem.

E então o jovem falou. Contou tudo, desde a primeira consulta, as análises e do diagnóstico  médico, falou da sua dor, da raiva e da revolta contra o seu destino, do medo de a deixar sozinha, de se ter despedido do emprego, da viagem para casa da tia, pensando que assim ela não assistiria ao seu sofrimento, da chegada às Termas,  de como conhecera Rita, de quanto a amava, da maneira como fugira da casa da tia, para não ter que contar à jovem que não podia assumir um compromisso porque podia morrer de um momento para o outro. Falou-lhe do desespero que sentia, até porque cada dia se sentia melhor, e da sua decisão de voltar ao médico para fazer novos exames, coisa que fizera nessa mesma tarde. Por fim contou a conversa com o médico, as análises trocadas, e de como se sentia feliz, apesar de sentir pena daquele jovem que só vira uma vez e que morrera tão novo.   A mãe ouvia-o, e as lágrimas corriam silenciosas pelas suas faces enrugadas, enquanto os pensamentos se lhe atropelavam no cérebro. Pobre filho, quanto sofrimento, e ela, que raio de mãe era ela, que não fora capaz de descobrir nada de grave na sua súbita decisão de mudar de ares? Por fim a voz do filho silenciou. Ela abraçou-o com força, e o soluço que estivera preso no seu peito irrompeu, sonoro como trovão em tempestade de Verão.
- Então, mãe acalme-se. Compreende agora que eu tenha de viajar amanhã cedinho para as Termas? A Rita vai-se embora no Domingo. E eu amo-a mãe. Não quero perdê-la.
E depositando um beijo na testa da mãe, acrescentou:
-Tenho a sensação dona Maria, que a senhora vai ter a nora que há tanto tempo me pede.



23.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE V






O homem acordou a tremer. Esticou o braço e acendeu a luz.
Quatro da madrugada. Passou a mão tremente pela testa. Há um bom tempo que não sonhava com aquilo. Será que não ia apagar nunca aquela cena da sua memória? Será que o fantasma do passado o ia atormentar toda a vida? Fugira da terra, do país, deixara para trás a vida de miséria, era um homem rico e bem-sucedido, temido no mundo dos negócios, mas onde quer que estivesse, de vez em quando o passado batia-lhe à porta para o atormentar.
Lembrava-se daquela noite como se a estivesse a viver agora. Do momento em que a vizinha entrou em casa depois de ter telefonado à polícia, da história que a mãe contou, da retirada do corpo do pai, do momento em que a mãe algemada partiu com a polícia, de ter ficado dois dias na casa da vizinha, até que os tios o foram buscar, do tempo que viveu com eles, até a mãe ser libertada, após o julgamento por ter dado como provado que não houve intenção de matar, apenas se tratara de uma acidente, provocado por um gesto de legitima defesa. Apesar disso, e porque eles não tinham dinheiro para um bom advogado, a mãe tinha aguardado julgamento em prisão preventiva durante quase três anos.
Foi nessa altura que ele jurara a si próprio que havia de ser um homem muito rico, nem que para isso tivesse que passar por cima dos seus próprios sentimentos.
Trabalhou de dia, estudou de noite. À medida que ia progredindo nos estudos, ia melhorando no emprego. Vivia com a mãe, que depois da prisão nunca mais foi a mesma. Estava sempre apática, ausente, como se a vida à sua volta tivesse deixado de ter importância. Ele sentia-se responsável pela mãe. Acreditava que era o único culpado, do seu sofrimento. Devia ter dito a todo o mundo que fora ele quem matara o pai. 
Tinha vinte anos quando a mãe morreu, Pouco depois conseguiu emprego num banco, o ordenado aumentou e passou a frequentar a Universidade à noite. Queria ser economista. E consegui-o. Ia de casa para o trabalho, do trabalho para a Universidade. Não tinha amigos, não frequentava festas. Não parou após ter-se formado.
Voltou a matricular-se e desta vez em Letras. Inglês e Alemão, eram o seu objetivo. Que ele concretizou à custa de muitas horas de sono roubadas ao corpo. E da abstenção de outros prazeres, próprios da juventude. 
Quando conheceu Teresa, tinha vinte e nove anos e um pequeno pecúlio amealhado, não só graças ao bom ordenado no banco, como ao que auferia de uma conhecida editora, pela tradução para português de obras estrangeiras, e ainda por algumas aplicações na bolsa, bem sucedidas.
Dois anos depois, pensou ter o suficiente para se lançar no mundo dos negócios, e escolheu para começar uma nova vida a Inglaterra.


Aqui termina por agora a apresentação do personagem masculino. Um homem com uma vontade de ferro para atingir os seus objetivos, mas que guarda lembranças que são feridas abertas na sua alma. Presente na sua memória a lembrança de Teresa, que através dele, vos vem acompanhando.
Curiosos? Quem voltar amanhã, vai conhecê-la


3.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XVI



Não era verdade. Tinha telefonado à mãe a dizer que a ia buscar às oito para jantarem juntos. E queria relembrar a entrevista dessa tarde. Paula era uma mulher muito bonita, empreendedora e muito frontal. Mas mantivera uma relação de quatro anos estivera de casamento marcado, e a poucos dias do enlace, tudo acabou. Claro, ela devia ter descoberto que estava a ser traída. 
Desde que a vira no Banco, pouco tempo depois do seu regresso, que sempre que imaginava uma companheira para a sua vida, lhe dava o nome e o rosto de Paula. Conseguiria algum dia, fazer com que ela olhasse para ele com amor? Depois do que ele lhe fizera ao pai ? Decerto que não. Mas podia ele esquecer o que tinha sofrido por causa da acusação do pai dela? A mãe, a irmã e o cunhado, pensavam que ele devia esquecer. Afinal se não fora essa acusação ele teria ficado no País, levado uma vida medíocre, não conheceria o Júlio, não teria sido desafiado a jogar e não teria a vida que tinha. A mãe costumava dizer que há males que vem por bem. Talvez tivessem razão mas ele não pensava assim. Como a polícia não encontrara os meliantes que o tinham assaltado nem recuperara o dinheiro, a suspeição ia sempre pesar sobre o seu nome.E um nome sem mácula, era para ele mais importante do que todo o dinheiro do mundo. Olhou o relógio. Quase sete e meia. Fechou o computador, e levantou-se. Vestiu o casaco, verificou se tinha as chaves no bolso, e saiu fechando a porta atrás de si. Os empregados já tinham saído todos. Saudou o segurança ao passar pelo átrio e entrou no seu carro que era o único ainda no parque.
Dez minutos depois tocava a campainha da casa da mãe. Um modesto andar num prédio antigo, a casa da sua infância. Anos atrás, quando regressara, quisera comprar-lhe uma casa nova com outras condições de habitabilidade num bairro mais moderno, perto da filha. Ela porém recusou, como recusou viver com a filha ou com ele. Naquela casa vivera os momentos mais felizes e os mais dolorosos da sua vida. Conhecia-a de olhos fechados. Cada recanto tinha uma memória. Não, ali nascera, ali havia de morrer. Depois de muita conversa lá conseguiu convencê-la a deixar que ele mandasse fazer obras na cozinha e casa de banho de modo a torna-la mais confortável. Também lhe comprou novos sofás e um moderno televisor, mas não conseguiu convencê-la a trocar a velha mobília de quarto.
-Boa noite, mãe. Pronta para sair?- Perguntou abraçando e beijando a progenitora.
- Estou pronta, sim filho, embora não veja a necessidade de ir jantar fora. Podia preparar um dos teus pratos preferidos e ficávamos aqui os dois a conversar.
- Eu sei que a mãe não se importava, - disse abrindo a porta e dando passagem à idosa. Mas eu não quero dar-lhe trabalho. Já trabalhou demais em toda a sua vida, e podemos conversar na mesma no restaurante.
Abriu a porta do carro, esperou que se sentasse, sem no entanto tentar ajudá-la, pois sabia que a mãe era muito independente, e não gostava de ser ajudada. Fechou a porta, quando a senhora já punha o cinto de segurança e só depois contornou o automóvel para se sentar.
Pôs o carro em marcha, dizendo:
- No fim do mês a Gabi festeja o aniversário de casamento. Vou oferecer-lhe a festa que não pôde ter quando casou. Falei hoje com o Eduardo e disse-lhe que lhes vou oferecer a festa e uma semana de lua-de-mel. Ele ficou preocupado por causa do Pedro. A mãe importava-se de ficar com ele uma semana? Claro que eu ia levá-lo e buscá-lo à escola.
- Ter o meu neto comigo é sempre uma alegria. Só penso que em vez de te preocupares com a tua irmã, que já está casada, e é feliz, devias preocupar-te contigo. A vida passa a correr, um dia acordas olhas-te ao espelho e descobres que estás velho. Arranja uma boa mulher e casa-te. Decerto que deves conhecer alguma que te agrade.
- Chegámos, - disse António estacionando junto ao restaurante. Prometo-lhe que vou pensar nisso, depois da festa da Gabi,
Saiu do carro abriu a porta à mãe, e dando-lhe o braço encaminharam-se para a porta do restaurante.


Quanto ao meu olho, ele está a abrir e um dia destes eu mostro uma foto. Mas ainda está muito vermelho, e não vê. a não ser luzes, sombras e vultos difusos.  Tem dias que não tenho dores e outros que é um desespero. Continuo com as gotas de cortisona e orando para que a córnea vá recuperando. Os posts vão continuando a sair há publicações programadas até meados de Maio.  


26.1.19

MOSTEIRO DE SANTA MARIA DE COZ




Coz é uma das mais antigas povoações dos Coutos de Alcobaça.
Reza alguma História que sete séculos antes de Cristo, terão fundado os fenícios, próximo de Alcobaça, uma colónia a que deram o nome de Coz, ou Cós, em memória da ilha com o nome de Kos, de que então eram senhores, pertencente ao arquipélago de Esporádes, nas proximidades das costas da Ásia Menor.
Segundo alguns historiadores a construção deste mosteiro data de 1279, pelo abade do Mosteiro de Alcobaça, D. Fernando, cumprindo assim uma cláusula do testamento do rei D. Sancho II.  Este mosteiro seria construído, segundo esse testamento, para albergar as mulheres viúvas que levassem uma vida religiosa. Estas assegurariam o bom funcionamento do Mosteiro de Alcobaça, e fizeram o Mosteiro de Coz evoluir até se tornar num dos mosteiros mais ricos da Ordem de Cister, no início do séc. XVI.


 O Mosteiro não foi fundado, mas antes "fundamentado" pela existência das "mulheres piedosas" desde o inicio do séc. XIII e pelo consentimento da Abadia de Alcobaça.A localização primitiva do Mosteiro na baixa Idade Média, permanece uma incógnita embora se creia uma implantação coincidente com as reconstruções posteriores. O Mosteiro sofreu várias obras de reconstrução, reformas e redecoração, ao longo dos séculos, sendo a maior depois do terramoto de 1755, que o teria deixado muito danificado. 



Com a extinção das ordens religiosas em 1833, as monjas tiveram que partir para o Convento de Odivelas, e o Mosteiro foi vendido a particulares.
Seguiu-se o saque e a ocupação dos espaços. Deste mosteiro atualmente só resta a igreja, pertencendo a fonte, o celeiro e a adega, que lhe estavam anexos, a particulares e estando o restante em ruínas, nomeadamente os dormitórios que podemos apreciar no exterior, num plano perpendicular à igreja. Nesta fotografia se pode ver o que fizeram do Mosteiro.

Nesta planta se pode apreciar como seria grandioso este monumento. Tudo que tinha valor aqui foi roubado e empregue em outras construções.
Por exemplo, neste palacete em Alcobaça, que hoje é  um Colégio, foram utilizados os claustros do Convento de Santa Maria de Coz.  Vamos então visitar a igreja.
A igreja é composta por uma nave única com o altar-mor uma posição mais elevada. A nave da igreja está dividida em duas partes por um arco e uma grade de clausura em talha dourada, que separa totalmente a parte reservada às monjas da parte reservada ao público.

 Esta grade separava as monjas do resto do público. Mas não se pense que era apenas esta grade. Não. Do lado delas havia um grosso reposteiro que impedia qualquer olhar para o mundo. Imaginem que na parte do mosteiro hoje destruído, havia uma sala onde o publico ia para negociar com elas. Porque o convento tinha terrenos e elas precisavam comer. Assim arrendavam esses terrenos a troco de legumes e frutas. Ora bem havia uma grossa parede, com alguns furos para que elas pudessem conversar com o visitante, mas para que ele não espreitasse do outro lado havia uma cortina. E quando o negócio era feito, havia na parede uma roda onde eram colocadas as coisas e assim passavam de um lugar para outro sem que se vissem ou tocassem

Este lado era aquele onde o padre ia rezar a missa, o que estava aberto ao público.
 E este o lado onde as monjas estavam. Enquanto a parte pública tem azulejos até  metro e meio de altura, aqui toda a nave está revestida de azulejos.

 Aqui os diversos altares laterais. Nossa Senhora de Fátima.


 Destaque para o Purgatório de Josefa de Óbidos.

Nos posts do Mosteiro de Alcobaça, falei-lhes de S. Bernardo. Uma lenda diz que S. Bernardo era tão Santo porque foi alimentado com o leite da Virgem. Esta pintura representa isso. Neste quadro vê-se a Virgem com a mão no seio, de onde sai uma linha branca que vai para a boca de S. Bernardo. Na foto não se vê bem, foi tirada com telemóvel, não havia grande luz e não se podia usar flash.

 O altar em madeira folheada a ouro.
 No qual se destaca uma sagrada família muito rara. Pensa-se que poderá ser única. Senão reparem. 

 A Sagrada Família é sempre representada com Jesus bebé ao colo da mãe. Aqui vemos um menino de uns três anos caminhando entre os pais. 
 Pormenor das colunas

Sacrário
Fontes: Explicação do guia  
folheto do Convento