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23.9.20

CILADAS DA VIDA - Parte XXXVI


Entrou em casa e foi direta à cozinha, onde abriu o frigorífico, encheu um copo com leite e bebeu-o em pequenos sorvos por medo de enjoar.

Passou o copo por água e meteu-o dentro da máquina de loiça já meio cheia, seguindo depois para o quarto. Tirou o telemóvel da mala e colocou-o em cima da mesa de cabeceira, guardou a mala e seguiu para a casa de banho, onde se despiu e entrou no duche.

Depois do banho, vestiu um curto robe sobre o corpo nu, lavou os dentes, secou o cabelo e estendeu-se na cama mesmo por cima da colcha. Sentia-se muito cansada. Pelo calor e pelas emoções experimentadas no almoço e depois em casa do empresário. Nunca esperou que a levasse para casa, pensava que queria apenas mostrar-lhe a empresa, nunca pensou que tivesse nela a sua casa. E que casa, santo Deus! O homem devia ser realmente muito rico para ter semelhante casa. O que estranhava, é que um homem jovem, bonito e rico, continuasse solteiro. E mais, parecia que nem sequer tinha um compromisso, pois ela não acreditava que mulher alguma deixasse o homem que amava livre para ir almoçar e passar a tarde com outra mulher.

E com este pensamento adormeceu. A sua intenção era descansar um pouco antes da hora do jantar, mas quando uma urgente e imperiosa vontade de ir à casa de banho a acordou já passavam vinte minutos das onze horas da noite.

Já na cozinha aqueceu uma taça de sopa de legumes e comeu-a acompanhada com um copo de leite frio. Não era uma refeição decente para uma grávida, sabia-o, mas a vontade que tinha era de voltar para a cama, não de se por a cozinhar àquela hora. Depois de comer, voltou à casa de banho, despiu o robe que pendurou atrás da porta, vestiu uma curta camisa de dormir, lavou os dentes e foi para a cama. Antes de se deitar, olhou o telemóvel e verificou que tinha duas chamadas e três mensagens da Inês, preocupada com o seu silêncio e pedindo para lhe ligar, logo que visse as mensagens. Como é que ela não tinha ouvido o toque das chamadas. De súbito lembrou-se que tinha tirado o som do aparelho antes do almoço e esquecera de voltar a ativá-lo quando o tirou da mala e o pôs em cima da mesa.

Olhou o relógio.  Meia noite e cinco. Não eram horas de ligar a ninguém. Telefonaria de manhã.

Voltou a pousar o aparelho sobre a mesa de cabeceira, e deitou-se.

Mas talvez por causa das quase seis horas que dormira antes o sono não veio logo. E quase sem dar por isso estava a pensar no pai do seu filho.

Pensar no empresário, dessa maneira, sugeria uma intimidade que não existia, e era muito estranho. Como o era, o olhar de desejo que duas ou três vezes lhe surpreendera. Ela não era como as mulheres com que decerto ele estaria habituado a sair. Era alta, tinha um corpo bem proporcionado, vistoso, como diziam na sua aldeia, e um bonito cabelo. Mas o seu rosto não era feio nem bonito. Era um rosto vulgar, embora Inês levasse a vida a dizer que com um pouco de maquilhagem ela ficaria linda.  Tinha que aprender a fazê-lo. E não era pelo empresário, claro que não. É porque a gravidez a trazia mal-encarada. E com esta convicção  adormeceu.

 

21.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXXV




- E tens tempo para isso, dirigindo uma empresa como a tua?

- Não é um trabalho tão intenso como pode parecer, uma vez que as secções são autónomas. Cada uma tem o seu chefe que a dirige e a mim só me chegam os projetos já prontos, para aprovação ou não.

-Mas segundo ouvi na reportagem és tu o criador dos jogos.

-E verdade, mas até nisso atualmente tenho dois colaboradores. Continuamos?

- Sim, claro.

A casa ocupava o mesmo espaço dos andares inferiores, com um comprido corredor de mármore branco. De ambos os lados, portas que ele foi abrindo para ela ver. A cozinha ficava situada em frente à sala e ao lado havia uma sala de jantar e uma sala de jogos com uma mesa de snooker no centro, em frente, uma casa de banho social, uma biblioteca-escritório, um ginásio com vários aparelhos, e por fim os cinco quartos.

-E este é o quarto principal - disse o empresário afastando-se e mostrando um quarto enorme em dois tons de bege, com enormes janelas e um terraço. – Todos os quartos estão equipados com casa de banho, mas apenas este tem jacuzzi e "closet"

Era a primeira vez nos seus trinta anos que Teresa se encontrava na porta de um quarto com um homem. Olhou a enorme cama de casal e sentiu-se corar.

Recuou e tropeçou no homem que estava atrás de si, desequilibrando-se. Ele segurou-a pela cintura, e o calor das suas mãos atravessando o fino tecido do top provocou-lhe um estremecimento como se tivesse sofrido uma descarga elétrica. Assustada olhou-o para tentar perceber se ele teria sentido o mesmo, e o que viu nos seus olhos assustou-a ainda mais. Desprendeu-se bruscamente e começou a percorrer o longo corredor em direção à saída dizendo:

- Meu Deus, são quase cinco horas. Podes levar-me a casa agora?

-Não queres ficar mais um pouco? Posso preparar um lanche para os dois.

- Fica para a outra vez, "se eu for tão doida que volte aqui" – pensou. - Estou cansada, e além disso tenho as vitaminas para o lanche em casa.

Ele não acreditou na desculpa, mas não o comentou. Pegou nas chaves do carro e no telemóvel que tinha poisado na entrada, abriu a porta e seguiu-a em direção ao elevador.

Teresa entrou e encostou-se a um canto, numa atitude de defesa que o fez sorrir. Parecia uma gazela assustada.

 Procurando afastar dela qualquer receio perguntou:

-Então gostaste da minha casa?

- Como não? Nunca tinha visto uma casa tão grande a não ser no cinema.  Como conseguiste?

- Bom a verdade é que tem estado em permanente construção desde há dez anos. Logo que comprei este edifício, e mudei para aqui a firma, decidi deixar o último andar para a minha casa. Mas para isso foi preciso derrubar paredes construir outras, fazer novas canalizações, enfim uma miríade de coisas.

Saíram do elevador e dirigiram-se à saída. Pouco depois já no automóvel, João continuou. Na verdade, ainda não está como a sonhei. Gostava de mandar construir uma piscina no terraço que fica para além do meu quarto.

Teresa não respondeu. E o resto da viagem, fez-se em silêncio.

Ele estacionou o carro em frente da porta da jovem e saindo acompanhou-a até à porta do prédio. Teresa estendeu a mão para se despedir, mas João com uma leve pressão, aproximou-a dele, colocou as mãos nos seus ombros e o seu olhar fixou-se na sua boca. Ela teve a nítida sensação de que ia beijá-la, todavia ele limitou-se a poisar os lábios na sua testa, num terno beijo.

-Espero que tenha sido, um dia tão feliz, para ti, como o foi para mim. Ligo-te em breve, - disse. Em seguida largou-a, virou-lhe as costas e afastou-se.


24.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXIII



- Para ser sincera é bem mais do que tinha pensado. Não creio merecer tanto, nem quero que em nome da nossa amizade, fiques prejudicada.
- Não te preocupes. Pesquisei no mercado, e é o que teria que pagar a outro qualquer profissional que contratasse para o lugar. Vou passar um email para o advogado pedindo-lhe que elabore o teu contrato, por um prazo de um ano, renovável por igual período se quiseres continuar. Ontem dissestes que pensavas arranjar um trabalho apenas por dois anos, pois pensas num segundo filho depois disso. O teu pai vai ajudar-te nos primeiros dias, ele conhece o funcionamento da empresa tão bem ou melhor que eu. De resto estou certa de que em breve estarás dentro de todos os assuntos.
- E tu que farás agora? Sempre adoraste este trabalho.
-É verdade. Porém tenho muitas coisas para resolver. Até passar estes primeiros três meses, vou dedicar-me a descansar, e a ler todos os livros que comprei sobre gravidez e cuidados com os recém-nascidos. Depois tenho que contratar uma empresa, que me desocupe o quarto que era da minha tia, que como sabes tem ligação direta ao meu, mobilá-lo e passar para lá a fim de decorar e mobilar o quarto do bebé onde agora tenho o meu. Espero que me ajudes nisso. Ainda não decidi se vou ou não vender um terreno que tenho na aldeia. Há uma pessoa interessada nele, talvez consiga um bom preço. Tinha sonhado construir lá uma pousada, a aldeia é muito bonita, os ares são maravilhosos, e está situada a menos de um quilómetro de uma das melhores termas nacionais. Era a maneira do meu filho, ou filha crescer em contacto com a natureza. Porém as obras de ampliação da pastelaria, consumiram praticamente todo o meu dinheiro, e eu não quero recorrer a empréstimos. Depois com a situação atual, tudo mudou. Não sei mais o que posso ou devo fazer. A propósito, ainda não sabes, mas ontem à tarde fui à TecnInformática, conheci o João Teixeira e tivemos uma longa conversa!
- Depois que saíste lá de casa? E eu que pensava que estavas em casa a descansar do desgaste emocional. Conta-me tudo!
-Sabes que não consigo dormir sobre os problemas. E viver diariamente com o medo de ser descoberta e de a imprensa criar uma novela à minha volta, não faz de modo algum o meu género. Então meti-me no carro e dirigi-me à empresa.
-Assim, sem mais nem menos, sem sequer um telefonema a marcar uma entrevista?
- Se telefonasse para marcar uma entrevista, provavelmente ia perder a coragem antes da hora dela, isto claro, se ma marcassem, já que teria de ter um assunto muito importante para tratar com ele e não podia dizer pelo telefone a uma secretária desconhecida o que se passava. Claro que corri o risco, de chegar lá e ele não estar na empresa, mas joguei verde para colher maduro como dizem lá na aldeia.
- O que fizeste? – perguntou Inês visivelmente interessada.
-Disse ao porteiro que tinha uma entrevista com ele às dezasseis horas. Se ele não estivesse o empregado ter-me-ia dito e eu inventava uma desculpa qualquer, como ter trocado o dia da entrevista por exemplo e vinha-me embora. Mas ele só me pediu a identificação e mandou-me subir, ao quinto andar onde fica o escritório dele.
Fez uma pequena pausa que Inês não se atreveu a interromper e continuou:
- Até aí tinha corrido tudo bem, mas claro que antes de chegar até ele tinha a parte mais difícil. Convencer a sua secretária a deixar-me entrar sem marcação alguma.
-E o que fizeste?


6.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XVI


Ela que nunca fazia perguntas, não se conteve e perguntou enquanto lhe servia o café.
-Então? Há alguma novidade?
- O Pedro pensa que pode haver. Ele encontrou uma imagem do Fernando, no gabinete de contabilidade. O registo da hora, marca as vinte e uma horas, e a essa hora é suposto não haver ninguém na firma, a não ser alguém que esteja a fazer serão para acabar algum trabalho extra. Se fosse o teu pai que lá estivesse a essa hora, seria normal. Qualquer outra pessoa, não podia estar naquele gabinete, aquela hora.
- E quem é esse Fernando?
- O sobrinho do meu ex-sócio. O curioso é que ele nunca trabalhou na empresa, oficialmente. Mas lembro-me que uns dois meses antes de descobrirmos o desvio, ele passou um tempo lá, ajudando o tio, que tinha sofrido um enfarte e estava muito débil.
- Então pode ter sido esse Fernando, a cometer o desfalque?
- Pode. Todavia para ter acesso à conta, ele tinha que ter acesso à senha do teu pai. O Pedro, diz que tem que investigar a vida do Fernando, por essa altura, pois não se pode acusar uma pessoa sem ter provas para manter a acusação. Só com provas consistentes, poderá ter na mão a chave para reabrir o processo.
- Mas como é que esse Fernando, teve acesso à senha do meu pai?
-Na altura ainda não tínhamos o actual sistema de segurança. Ele só foi introduzido depois do desfalque. Tínhamos  segurança privada nas instalações, mas a segurança informática e bancária deixava muito a desejar.
Segundo o Pedro, se ele conheceu a senha do tio, era fácil conhecer as outras, já que na altura, havia uma senha única, que correspondia à empresa, seguida da inicial do nome do utilizador. Ele não ia utilizar a senha do tio nem a minha. Se utilizasse a da Alice,  a secretária, provavelmente ninguém acreditaria e a investigação podia chegar até ele. Mas utilizando a do teu pai, e sobretudo  adulterando os livros, provava a culpabilidade dele. Acontece que é essencial saber, se havia motivações e tentar seguir o rasto do dinheiro. Só conseguindo-o teremos a prova, para reabrir o processo.
- E como vão conseguir isso, agora tanto tempo depois?
-Para nós seria impossível, mas não para um investigador da Judiciária, e o Pedro é dos melhores. Pode levar algum tempo, mas ele consegue, podes acreditar.
- Obrigado. Nunca te poderei pagar o que estás a fazer por nós. O meu pai tem sofrido tanto!
-É também por mim, Sandra. Não posso permitir que haja quem pense que o fiz para obrigar o meu sócio a vender-me a sua parte, e acabei condenando um inocente à prisão.
- Nunca me perdoarás, pois não? – perguntou com tristeza.
Ele sorriu.
-Não há nada a perdoar Sandra. Se estivesse no teu lugar, era capaz de ter pensado o mesmo.
Levantou-se, e encaminhou-se para a porta.
- Vai descansar. Quem sabe, não demorará muito a teres o teu pai de volta.


28.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XII






No dia seguinte, depois de muito pensar, Gabriel decidiu que o melhor local para se encontrarem e falarem sem serem interrompidos, seria na empresa, que, como era domingo, estava fechada. Depois telefonou ao amigo e à jovem informando-os da sua decisão e confirmando a hora da reunião.
Gabriel, chegou um pouco antes da hora marcada, e aguardou no parque a chegada dos outros dois. Cinco minutos mais tarde chegou Sandra. Trajava um vestido preto que se ajustava ao corpo como uma luva e lhe descia até aos joelhos. Por cima uma casaquinha branca debruada a preto. O empresário ficou contente por ela ter posto de lado as ridículas e antiquadas roupas que usara até ao fim de semana anterior. O cabelo estava preso como de costume. Simples e muito elegante. Pouco depois, chegou o inspetor, e Gabriel  apresentou-os. Depois dirigiram-se para o escritório onde se sentaram. O inspetor foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Bom, Sandra, o Gabriel pôs-me ao corrente do que fez. Parece que andou por aqui, vasculhando o escritório dele, tentando encontrar alguma prova para ilibar o seu pai. Isso quer dizer que está convencida que seu pai é mesmo inocente. Posso saber o que lhe dá essa certeza?
- O meu pai jurou-me. Mas não era preciso que o fizesse. Conheço-o desde que nasci. Ele foi meu pai, minha mãe, meu amigo. Confio nele como em mim própria, senhor.
- Muito bem. Porém deve saber, que na maioria das vezes, as nossas certezas são falsas. Às vezes a pessoa tem tentações a que não consegue resistir.
- Não o meu pai. E se o senhor não acredita que ele está inocente, não vai ajudar-me em nada. O melhor é ir-me embora, - disse levantando-se.
- Por favor sente-se e acalme-se. O Gabriel pediu-me ajuda e eu vim. Isso significa que quero ajudar. Deve compreender que na minha profissão, somos desconfiados por natureza e não conheço o seu pai. Tudo o que lhe possa perguntar, será o mesmo que perguntaria em qualquer outro caso em que estivesse envolvido, na certeza de que procurarei acima de tudo a verdade. Nem por amizade ou mesmo laços familiares eu falsearia um resultado. Entendeu? 
-Sim. Peço desculpa!
-Não precisa. Sei que para si a situação é muito dolorosa. Voltando à nossa conversa. Que mais lhe disse o seu pai, além de jurar, que era inocente?
- Ele disse-me que alguém tinha armado as provas para o incriminar. E que se descobrisse quem o fez, descobriria quem tinha roubado o dinheiro.
-E ele desconfiava de alguém em particular?
- Não.
- E a Sandra? Desconfiou de alguém?
Ela enrubesceu e olhou para Gabriel. Sentiu como o rosto masculino endurecia, talvez estivesse magoado, mas ela tinha que ser sincera.
- Sim. Quando descobri que o senhor Gabriel Santana, comprou a parte do seu sócio, poucos meses depois da condenação do meu pai, acreditei que ele poderia ter feito o desfalque para desestabilizar a firma e fazer com que o sócio lhe vendesse a sua parte.
- E por isso conseguiu o lugar de secretária dele?
- Isso foi uma questão de sorte. A empresa onde trabalhara até pouco tempo antes, mudara a sede para o norte do país e eu não podia afastar-me de Lisboa, por causa das visitas ao meu pai e então despedi-me. Procurava emprego, quando vi o anúncio para a vaga e resolvi candidatar-me.
- É muito bonita, Sandra. Esperava apanhar o Gabriel seduzindo-o?
Sem se conter, Gabriel soltou uma gargalhada, enquanto ela corava até à raiz do cabelo.
- O que é que eu disse de tão engraçado? - perguntou o inspetor olhando para o amigo com estranheza. 
- É que não te contei. A Sandra resolveu disfarçar-se de alguém sem graça. Devias tê-la visto. Se não fosse uma ótima profissional, tinha-a despedido no segundo dia. Parecia... uma dama de um quadro de museu.


E porque amanhã é um dia de festa, não haverá esta história. Mas por favor não faltem. Estão todos convidados.


21.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE VII


Sentaram-se. Ela voltou o rosto para a pista, para não ter de o olhar. Ele irritou-se. Inclinou-se para a frente e vociferou.
-Vais ou não falar, raios! Que diabo te passou pela cabeça para ires para o escritório, armada em camafeu? Para me ridicularizares?
- O regulamento da empresa, é omisso quanto a vestuário. Além disso fui contratada como secretária e sempre exerci exemplarmente a minha função.
- Olha para mim, Sandra. Quero entender o que se passa. Estás há seis meses como minha secretária. Sabes tudo o que se passa naquela empresa. E hoje descubro, por acaso, que me tens andado a enganar. Quem és tu? Uma espia comercial? Que diabo pretendias? Roubar algum dos meus projetos? E quem está por trás de ti?
-Espia comercial? O senhor não está bom da cabeça - disse nervosa.
Ele sorriu. Mais do que um sorriso parecia um esgar.
- Então é isso. Não negues, ficaste nervosa. Como é, queres falar agora, ou chamo a polícia e denuncio-te? - disse tirando o telemóvel, como se pretendesse fazer uma chamada.
Sentiu um nó na garganta, e um aperto no peito, como se toda a dor daqueles quase quatro anos, em que o pai estava preso, aí se tivessem concentrado.
- Faça como entender. Mais um, menos um pouco importa. Mandar inocentes para a prisão, deve ser mesmo o maior dos seus projetos – disse com raiva. 
Todos os músculos do homem se tornaram rígidos com o insulto. A sua voz soou cortante. 
- Levanta-te. Sem fitas nem escândalo. Vamos até ao jardim. Aqui está muita gente.
-E se eu não quiser ir?
- Tu não tens limites, pois não? Primeiro insultas-me, depois desafias-me.  Queres mesmo que te mostre do que sou capaz?
Ela não respondeu. Levantou-se e dirigiu-se ao jardim, seguida de perto por ele.
Afastaram-se da porta, procurando um local mais sossegado.
- Senta-te e fala. Que indireta, foi aquela lá dentro?
- Que indireta? Não me lembro.
As mãos dele cravaram-se como garras nos ombros femininos, apertando com tal força, que as lágrimas lhe chegaram aos olhos.
- Por favor, - suplicou. Está a magoar-me.
Afrouxou a pressão.
- Não brinques comigo, Sandra. Aquela firma, é toda a minha vida. Lutei muito por ela, e privei-me de muita coisa para que chegasse ao que é hoje.  Não vou permitir que ninguém me roube o que é meu. Não estou para brincadeiras. Quero saber, quem te paga, e o que é que tinhas que dar em troca. Agora, ou chamo a polícia e denuncio-te.
- Ninguém me paga, para que eu revele seja o que for da sua maldita empresa. Sou uma espia, sim.  Mas trabalho por conta própria. Há seis meses que tento encontrar uma coisa muito importante na sua empresa. Infelizmente sem o conseguir.
Exausta, ocultou o rosto nas mãos e desatou a chorar.



2.12.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXI





Dias depois, Gil fez a escritura do prédio, e firmou o contrato com a empresa de construção. O advogado se encarregaria com a irmã de fiscalizar para que a obra, que se ia iniciar em Janeiro, se fizesse no menor espaço de tempo e de acordo com o projeto. Ele, estaria muito ocupado com o filme, e com a filha. Ainda que Inês fosse uma excelente ama, ele sentia que tinha de aprender a cuidar da filha e queria passar com ela, o máximo de tempo possível. Queria conhecê-la, ver os seus sorrisos, acalmar os seus choros.
Seis meses depois, o guião do filme fora aprovado, o estúdio estava a fazer os “castings” para a escolha dos intérpretes, Mariana a sua filha tinha crescido imenso. Estava agora com sete meses, adorava brincar no chão com o filho da ama, de tal modo que quando ele se afastava, ela seguia-o a gatinhar. Era uma bebé muito risonha, embora as suas birras quando queria, ou não queria alguma coisa, mostrassem uma personalidade forte.  E já apresentava dois minúsculos dentinhos no maxilar inferior.
O seu irmão Marco casara havia três meses, e Laura estava completamente apaixonada pelo advogado, que parecia não poder viver sem ela. Por outro lado, a Fundação estava pronta, ia ser inaugurada em breve, e já estaria a funcionar no próximo ano letivo, gerida, claro, pelo homem que fora sempre o seu advogado de confiança e que tudo levava a crer seria seu cunhado em breve. E tal como Gil pensara, já havia meia dúzia de mecenas, interessados em apoiar financeiramente a Fundação.
Com a venda dos direitos do livro para o cinema, fora impossível continuar a manter segredo sobre a sua atividade como escritor. E isso voltou a trazer a imprensa atrás dele. Pior que isso, alguns jornalistas mais atrevidos quase acamparam em frente da sua casa.
Gil sabia que a qualquer hora, iria parar numa qualquer revista a foto de Inês com a sua filha e o pequeno Luís que sempre passavam algumas horas passeando pelo jardim. E temia que o ex-marido da ama, através delas, viesse a descobrir onde Inês se encontrava, e pudesse tomar alguma atitude que pusesse em perigo a vida da sua filha. Por isso pela primeira vez na vida contratou uma empresa de segurança, e tinha agora alguns operacionais, vigiando o jardim, e acompanhando a ama e as crianças sempre que tinham de se deslocar, quer quando iam às compras, pois a menina crescia e rapidamente as roupas deixavam de lhe servir, ou quando iam ao pediatra, para as consultas de rotina, pois ele nem sempre podia acompanhá-las.
Gil pensava que neste momento a sua vida estava mais certinha que um relógio suíço, e por isso podia dedicar-se ao seu novo romance, pois Luna não parava de lhe dizer que era uma ótima ideia aproveitar a campanha de lançamento do filme previsto para o próximo ano para lançar o seu terceiro livro.



13.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIII



Gil entrou na loja e dirigiu-se ao escritório, onde já encontrou o irmão, passeando de um lado para o outro com evidente nervosismo.
- Bom dia, Marco. Pareces preocupado.
-Bom dia mano. Estou nervoso. E se a Isabel não está minimamente interessada em mim?
Gil olhou o irmão com estranheza. Não estava habituado a vê-lo tão inseguro, fosse qual fosse a questão. Caramba, ele tinha trinta e dois anos e nessa idade, um homem sabe muito bem conhecer os sinais que uma mulher lhe dá. E ele tinha-lhe dito que tinha a certeza de que a jovem gostava dele, só não confiava nas suas intenções. Com todo aquele nervosismo, devia estar mesmo muito apaixonado.
Pôs a mão sobre o seu ombro num gesto de carinho, tentando acalmá-lo.
- Calma, se estás assim hoje, não quero ver-te no dia do casamento – disse sorrindo. Depois olhou o relógio e acrescentou:
- Dez horas. Estão a entrar. Não tarda estão a bater a esta porta. É melhor que nos sentemos.
- Senta-te tu. Eu não consigo, - retorquiu uns segundos antes de Isabel bater na porta para a abrir de seguida.
As três mulheres entraram na sala com o semblante carregado, preocupadas com aquela reunião repentina, e mais preocupadas ficaram com a presença de Gil. As três sabiam que raramente ele ia à firma, mesmo antes da tragédia que se abatera sobre a sua vida. E naquela semana era a segunda vez…
-Sentem-se – disse Gil. Chamámos-vos aqui para lhes dar conhecimento de algumas decisões que tomámos. Porque é o vosso local de trabalho, achamos que devem saber o que se passa. 
As três entreolharam-se preocupadas. Será que a empresa ia fechar? Iriam perder os seus empregos? Sem lhes dar tempo a grandes preocupações, Gil continuou:
-A partir de hoje, vou deixar de ser um dos sócios desta firma. Ela será pertença exclusiva do Marco, estamos à espera do doutor Alcides para assinar os documentos, mas a vossa situação na empresa não corre qualquer perigo. Da minha parte, quero agradecer-vos o grande empenho e rigor com que sempre desempenharam o vosso lugar. Dir-vos-ia que podiam ir abrir as portas, mas antes o Marco tem uma declaração a fazer e quer que sejamos todos testemunhas. Marco é contigo.
- Bom, sei que o que vou fazer,- disse aproximando-se do irmão, sem contudo se sentar -  pode não parecer muito ético, para este local, mas as circunstâncias a isso me obrigam. Teresa e Raquel, vocês são mulheres inteligentes, devem ter percebido como estou apaixonado pela Isabel. Mas também devem ter conversado entre vós e sabem que ela não acredita, que eu tenha intenções sérias a seu respeito. Pois bem Isabel, - disse aproximando-se e agarrando a mão da jovem – que vermelha de vergonha não sabia onde se meter – neste momento, reitero tudo o que te disse em particular, e perante estas testemunhas te suplico, que me dês a honra de casar comigo e juro fazer da tua felicidade o grande objetivo da minha vida.
Finalmente a jovem levantou o olhar brilhante pelas lágrimas e prendeu-o nos olhos masculinos, com uma resposta muda, mas plena de amor, que Marco entendeu perfeitamente.
- Então Isabel – disse Gil levantando-se. Posso ou não dar-vos um abraço e desejar-vos felicidades?
- Claro que sim, - disse o irmão desviando o olhar e sorrindo feliz. - Mas espera um pouco, ainda não acabei.
Meteu a mão no bolso, e tirando a caixinha com o anel, meteu-lho no dedo, e de seguida puxou-a para si, abraçou-a e beijou-a.
Ouviram-se palmas e depois Gil, Raquel e Teresa abraçaram os noivos.
Uns minutos mais tarde, Gil disse:
-Agora vão abrir a porta e voltem ao vosso trabalho. E hoje vão as três almoçar connosco. É a minha despedida.


4.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE IX








Estacionou o carro no único lugar vago perto da empresa, e dirigiu-se para a mesma.
Olhou o relógio antes de entrar na loja. Ainda faltava meia-hora para a abertura das portas ao público, embora ele soubesse que o seu irmão e as funcionárias já se encontravam lá dentro. Abriu a porta, entrou e voltou a fechá-la atrás de si.
Bons dias, - saudou.
Bons dias, - responderam as três pessoas que se encontravam
na loja nesse momento. O seu irmão e as duas empregadas que se afadigavam a marcar peças e a coloca-las nas prateleiras.
- Marco podes vir comigo ao escritório, ou ainda falta muito para acabarem?
- O que falta, não demora mais de cinco minutos, a Teresa e a Raquel acabam – respondeu o irmão largando a peça que tinha nas mãos, e seguindo-o. 
Uma vez no escritório, Marco colocou uma mão sobre o ombro do irmão ao mesmo tempo que perguntava:
-Há alguma novidade do hospital?
- Não. Se houver serei informado na hora, e ninguém me telefonou. Vem, vamos sentar-nos tenho que conversar contigo antes que o doutor Alcides chegue, -disse Gil sentando-se atrás da secretária e indicando ao irmão a cadeira ao seu lado.
- É assunto sério? – perguntou o irmão.
- É, se não fores capaz de levar a empresa com sucesso sozinho. Vou passar os meus sessenta por cento para ti. Uma prenda de aniversário, um pouco atrasada, mas ainda no mesmo mês.
- Mas isso representa muitos milhares de euros. Não posso aceitar, até porque na prática a empresa é tua, já que foi com dinheiro que me deste que a iniciei, e toda a sua expansão foi feita sempre exclusivamente por ti.
-E de que me serve o dinheiro, se não for para tornar felizes as pessoas que amo? Daqui a pouco quando chegar o advogado, vou tratar desse assunto e em breve, tudo passará para ti. Provavelmente terás que procurar um bom gestor, para te ajudar, principalmente se concretizares o projeto da nova loja em Faro. Bem sei que o gerente que temos no Porto é uma pessoa séria e competente, mas de qualquer modo não te poderás desligar completamente do seu funcionamento.Já conheces o ditado. "É o olho do dono que engorda o burro" O dr. Alcides, pode aconselhar-te na escolha. Ele tem bons conhecimentos, saberá decerto de algum bom gestor, que possas contratar.
- E a Laura? - perguntou o irmão
- O que é que tem a Laura? – admirou-se Gil
- Não vai ficar magoada em saber que passaste tudo para mim e a deixaste de fora?
- A Laura teve a Universidade paga assim como a sua especialização em Nova Iorque. Quando voltar a Portugal, vou montar-lhe a clínica dos seus sonhos. Não tem nada a ver com as lojas de desporto. É uma neurologista, lembras-te?
- Bom, só não queria mau ambiente entre nós, por causa dessa doação.
- Nunca haverá mau entendimento entre nós, Marco. Passamos por muitas dificuldades juntos e isso uniu-nos mais do que o sangue que nos corre nas veias.




30.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XI




Às onze em ponto, Mário chegou à sala de reuniões. Saudou os empregados com um rápido bom dia, mandou que se sentassem e começou a expor a situação da empresa. Durante quase meia hora, mostrou mapas de produção dos últimos meses, registos das dívidas da empresa, notas das poucas encomendas em carteira, e fez perguntas sobre cada um das secções. Por fim fechou o portátil e disse.
- Agora, já sabem a situação real da “Tudilar”. Neste momento devem estar a pensar.”Se a situação é tão crítica, porque é que ele comprou a empresa”  A verdade é que reerguer esta empresa é um desafio, e eu sempre gostei de desafios. Depois porque acredito que daqui a algum tempo, ela vai ser uma empresa muito maior do que é hoje, talvez até a maior do país. Eu vou fazê-la crescer. A minha dúvida é se os senhores são capazes de me acompanhar.
Percorreu com o olhar um a um dos seus subalternos. Não era um olhar amistoso. Era um olhar duro, impiedoso, como o da ave de rapina, que estuda a sua vítima antes de se lançar sobre ela. Continuou.
- Quero que cada um de vós, estude com rigor a sua secção e me faça um relatório detalhado, sobre o que se pode melhorar, de modo a aumentar a produção, sem aumentar o preço final da produto, nem diminuir, a sua qualidade. Estes dois itens finais são muito importantes, pois são eles que nos vão levar para cima. Também quero que me especifiquem, cada componente da matéria-prima usada em cada produto. Se alguma das máquinas está obsoleta, enfim tudo o que entendam necessário, para que eu possa tomar medidas.  Preciso desse relatório, rápido. Creio que uma semana é suficiente para isso. É esse o vosso prazo. E devo avisá-los que não terei contemplações com falhanços. Só com gente competente à minha volta, posso fazer com que esta empresa cresça mais do que no passado e dar-vos o descanso de não pensarem no  desemprego. Com as encomendas, me preocupo eu e asseguro-vos que não vão faltar.
Olhou o relógio.
- Não tenho mais nada a acrescentar, está na hora do almoço, podem sair. Não esqueçam na próxima quinta-feira, quero os vossos relatórios na minha secretária. Bom trabalho.



Esclarecimento

Antes que os meus prezados leitores desencadeiem uma guerra de palavras, me puxem as orelhas, ou me chamem ignorante, devo esclarecer uns pontos. 
1º O que leem aqui é pura ficção.  Mas mesmo na ficção as histórias para obedecerem ao rigor, devem ser datadas, e esta não o é. Quer isto dizer que o organograma empresarial hoje é muito diferente do que era há trinta, quarenta anos atrás.  No século passado, e não é preciso recuar muito, as empresas de construção de alguma coisa, eram divididas em sectores ou secções, e em cada uma dessas secções havia um chefe, em algumas fábricas também designado por capataz, que recebia e dava contas da sua secção ao gerente. 
Foi baseado num esquema desses que eu elaborei a história, e o Mário, que aqui sendo patrão, atua também como gerente da empresa, reuniu não com os trabalhadores, mas com os chefes de Secção.
2º Se eu situasse esta história em 2019, provavelmente também não utilizaria o organograma empresarial delineado e optaria pela holocracia, por ser revolucionário, e muito mais produtivo, e como devem saber neste sistema, não existem gerentes, todos trabalham em torno do mesmo objectivo.

27.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE IX


Mário ficou até tarde no escritório. Era seu hábito quando adquiria uma empresa, verificar todos os sectores, ver o que se produzia, ou se vendia mais, e o contrário. Verificar custos e margens de lucro, fazer novos planos de modo a que as empresas em pouco tempo estivessem no caminho do sucesso e claro a engrossar a sua conta bancária. Era o que pretendia fazer também nesse dia. Porém, o rever inesperadamente Teresa, e mais, saber que estava ali, sob as suas ordens, fazia com que não conseguisse concentrar-se no trabalho. Estava mais bonita que nunca. A jovenzinha de há dez anos atrás era hoje uma mulher capaz de fazer perder a cabeça a qualquer homem.
Teria casado? Não usava aliança. Mas será que isso queria dizer alguma coisa nos tempos atuais? De súbito lembrou-se. A ficha dos empregados. Rapidamente procurou a pasta. Leu-a avidamente.
Teresa Carvalho, trinta e um anos, solteira, licenciada em Gestão de Recursos Humanos. Seguia-se a morada e número de telefone.
Alegrou-se de saber que estava solteira, muito embora pensasse que isso não quereria dizer que estava livre.
Durante dois anos, viveram juntos, uma intensa relação de amor e nunca fora casada.
Abanou a cabeça, como se com isso conseguisse afugentar os pensamentos que lhe impediam a concentração.
Sentiu pena de si mesmo. Da sua solidão. De saber que chegava a casa, e a encontrava vazia.
Decididamente a idade mudava um homem. Noutros tempos quando se sentia só, ia até um qualquer bar e pouco depois estava em casa de alguma dama, ou num quarto de hotel. Na sua casa não. Na sua casa, jamais entrara outra mulher que não fosse Teresa, e isso fora há tanto tempo...
Ultimamente essas saídas, deixavam-lhe um travo amargo na boca.
Como se finalmente a sua alma acordasse de um longo sono e quisesse assumir o controlo da sua vida.
E ele, que sempre lutara para não lhe dar espaço, sentia-se impotente perante a sua revolta.
Desligou o computador, arrumou as duas pastas que tinha abertas na secretária e levantou-se decidido a ir-se embora.
Tinha fome, nem se dera conta das horas, era quase meia-noite.
Muito tarde para jantar. Comeria qualquer coisa em casa.
Antes porém escreveu numa folha de papel a seguinte mensagem.
“D. Luísa por favor, convoque uma reunião com todos os chefes de secção, para as onze horas, na sala de reuniões.
Mário”
Vestiu o casaco, guardou as chaves e o telemóvel, abriu a porta do escritório, e pousou sobre a mesa de Luísa a folha de papel.
Apagou as luzes e dirigiu-se à saída onde se cruzou com o segurança que efetuava a ronda de rotina.
Por fim saiu e dirigiu-se ao automóvel.
Os dias seguintes iam ser complicados.



Como de costume a história só volta segunda-feira. 
Bom fim de semana.

6.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLII


NADA de novo com o meu marido. a situação é estável e estão a fazer exames. Ontem fez mais uma TAC, e electrocardiograma. O médico tem pedidos um ecocardiograma com doppler, um registo de Holter, um dopler das carotidas,e uma ressonância magnética. Obrigada pelo vosso apoio. Deus vos abençoe.





Isabel acabou de atender a chamada, poisou o telefone, pegou no documento que tinha na sua frente, e preparou-se para o digitalizar. Depois de o fazer, enviou-o por correio eletrónico para o cliente. Estava quase a terminar mais um dia de trabalho. Gostava do ambiente na empresa, dava-se bem com o chefe e colegas. Pena que dentro de poucos meses tivesse de sair.
Olhou o relógio. Dezoito e trinta e cinco. Mais vinte e cinco minutos, e o dia chegaria ao fim. Ela saía, e encontrava o marido à sua espera, iriam buscar a filha e iam para casa. Depois do casamento, o marido quisera comprar-lhe um carro. Não um modelo luxuoso, esses eram para o aluguer na empresa, mas um vulgar carro citadino, para que fosse levar e buscar a filha  a casa de Natália. Como ela o recusou, ele tomou o hábito de as levar e ir buscar.
Sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com frio, antes com o pensamento no marido. Tal como ela previra, apaixonara-se pelo marido, e aquele casamento estava a ser um martírio, de tal modo que não sabia se tinha forças para o continuar a manter. As coisas estavam cada dia mais difíceis, eles já nem conversavam com a naturalidade de antigamente. Talvez a culpa fosse dela, ele avisara-a antes do casamento que não esperasse amor da parte dele. Ela pensou que poderia resguardar o coração, mas não conseguiu. Carente como era, amou-o desde a primeira noite que dormiram juntos. 
Ingénua, pensou que a força do seu amor faria com que ele lhe retribuísse. Não foi assim. Ricardo era um homem bom, um companheiro dedicado, um amante atento ao que lhe agradava no sexo. Mas era só isso que lhe dava.
Ele nunca lhe falara dos seus sonhos, dos seus desejos, do seu passado, do porquê da sua desconfiança com as mulheres. Ela sabia, vira nos documentos, quando estavam a tratar dos papéis para o casamento, que ele já fora casado. Suspeitava que fora uma má experiência, mas suspeitar era tudo o que lhe restava, já que ele não a deixava entrar no seu passado. O único lugar onde ele fazia dela rainha e senhora, era na cama. No sexo, ele dava-se por inteiro, ela conhecia todas as suas reações, os seus pontos fortes e fracos. Mas ela queria muito mais que isso. Queria amor, queria conhecer o marido, como conhecia o amante.  
 Sonhava com um filho dele, mas não arriscava deixar de tomar a pílula, apesar de estar quase a fazer trinta e quatro anos, e já não lhe restarem muitos anos de fertilidade. Porquê? Porque nem uma única vez ele mostrou desejos de ter um filho dela, apesar de ser doido por Matilde.
Estava num impasse. O maior sonho da sua vida, era ter o amor do marido, o maior pesadelo, a certeza de que nunca o conseguiria. Já pensara no divórcio. Como forma de acabar com aquele sofrimento. Afinal conservava a casa que herdara dos pais, não ficava na rua. Mas e a filha? Ela adorava-os aos dois. Não era só nos documentos que eram pais dela. Eram-no também no coração da criança que não conhecera outros. Separá-la do pai? De modo algum, ela não queria que a menina viesse a albergar sentimentos iguais aos da mãe biológica. Mas também não podia viver sem ela. Suspirou. A sua vida transformara-se num problema sem solução. Arrumou a secretária, pegou na mala e saiu. 



8.6.19

UM PRESENTE INESPERADO -PARTE XVII




Três dias depois, Ricardo telefonou ao seu amigo Artur. Disse-lhe que precisava de um conselho e convidou-o para jantar com ele nessa noite.
Às oito horas, como combinado encontraram-se no café-restaurante, na mesma rua onde se situava a sua empresa. Cumprimentaram-se e depois escolheram uma mesa um pouco afastada, onde podiam conversar mais à vontade. Mal se sentaram, o empregado apareceu. Escolheram o prato e quando ele se afastou com o pedido, Artur perguntou:
- Que se passa? Descobriste alguma coisa sobre o teu irmão?
- Nem tentei. Os meus pais eram ambos filhos únicos, e uma vez que tanto eles, como os seus pais, meus avós já morreram, a única hipótese da menina ser da minha família, é ser filha dele. Não sei como nem onde, mas aqueles dois tinham que se ter encontrado. De resto, pensando na Susana pela carta de despedida que ela deixou, e conhecendo o João, diria que ambos se moviam nas mesmas águas do ódio, revolta e inveja. Acontece que eu não deixo de pensar naquela menina. É minha sobrinha e gostaria de cuidar dela e lhe dar um bom futuro.
-E porque não o fazes? Oficialmente é tua filha.
-A sua tia não ma entregaria, e eu não quero entrar na justiça. Não seria justo com elas. A menina nunca conheceu outra mãe. Já pensei abrir uma conta em seu nome e depositar uma verba para quando atingir a maioridade ir para a Universidade. Mas até atingir essa idade, ela precisa de tudo, pois segundo o teu relatório, a tia está desempregada. Que me aconselhas?
-Casa-te com ela.
-Estás doido?
-Porquê? É a solução ideal. A menina será criada pelos dois, como pai e mãe. Sei o que te aconteceu há anos, e sei o que pensas em relação ao casamento. Conheço-te desde que andavas de bibe. Mas Isabel, não é como Ivone. Não te vai convencer a casar, serás tu quem terá de a convencer. Não te irá trair, pois não tem namorado, nem é jovem de amizades masculinas, toda a gente na rua, me deu as melhores informações dela. Além disso, nenhum dos dois está apaixonado, mas ambos querem o melhor para a criança. Será um casamento de conveniência, ninguém engana, ninguém vai enganado. Acredita é o melhor que podes fazer.
- Não era essa a solução que esperava me desses.
-Eu sei. Mas se pensares bem, não é só a melhor solução. É a única, uma vez que não serias capaz de recorrer à Justiça para separares as duas. Pelo que descobri nas minhas investigações, ela é capaz de fazer qualquer sacrifício pela menina. E tu tens quase  quarenta anos, ainda és jovem, mas os anos passam a correr. Um dia começas a sentir o peso da solidão. Olha para mim. Pouco tempo depois de ter entrado na polícia, o meu colega foi morto quando procedíamos a uma investigação na Cova da Moura. Fiquei muito traumatizado. Podia ter sido eu, pois segundos antes, era eu que estava naquele sítio. Na altura pensei que o mesmo me podia acontecer a qualquer momento e que não tinha o direito de arrastar uma mulher e possíveis filhos para um tal destino. E decidi ficar solteiro. Todavia agora, dava qualquer coisa para ter uma companhia. E sabes de uma coisa? Se uma certa senhora me der uma oportunidade, não morro sem ir ao altar.
O empregado veio servi-los e os dois começaram a comer em silêncio, ambos embrenhados nos seus pensamentos.
Mais tarde, terminada a refeição, quando se despediram, Artur voltou a dizer.
-Pensa no que te disse. É a melhor solução.
-Vou pensar –retorquiu ele.



30.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE IX


Ricardo estacionou o carro no seu lugar na garagem situada na cave do prédio onde vivia e entrou no elevador que o levaria ao seu apartamento no décimo piso de um moderno edifício no Parque das Nações.
Entrou em casa, poisou as chaves e o telemóvel no móvel de entrada, dirigiu-se à sala e preparou uma bebida. Com o copo na mão foi até à janela. A luz da lua dava reflexos de prata às águas do Tejo. Lá em baixo as pessoas aproveitavam a noite quente de final de Setembro, para andar na rua. Jovens namorados, ou recém-casados passeavam abraçados, indiferentes aos solitários que com eles se cruzavam a caminho de casa ou de algum bar.
Respirou fundo, deu a volta e foi-se sentar no enorme sofá que ocupava a parede fronteira à janela. Bebeu um gole do Whisky, e poisou o copo em cima da mesa. Estendeu as longas pernas, inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos.  Estava muito cansado. De manhã tivera que ajudar a reparar uma limusina, de tarde por duas vezes tivera que dar uma ajuda na oficina, primeiro com o Porsche, depois com o Bugatti. Os três estavam alugados para um casamento no próximo Domingo e os três enfermavam de pequenos problemas, cuja reparação ele quisera visionar pessoalmente. Pelo meio tivera aquela carta maluca e aquele encontro com uma mulher que dizia que ele tivera uma filha. Lembrou-se da raiva com que tinha saído da empresa para se dirigir à morada da carta. Sentia-se capaz de fazer qualquer disparate. Mas estranhamente a sua raiva não se manifestou devastadora, talvez por causa da referida mulher. Havia nela uma estranha calma, uma espécie de resignação que o impressionou e quebrou um pouco da sua raiva.
Depois, se aquela carta era verdadeira, se aquilo não era um esquema qualquer, se aquela Susana existira mesmo e se suicidara, ela não tinha culpa. Limitava-se a aceitar como verdadeiras as loucuras da irmã. Mal regressara ao escritório, telefonara ao seu amigo Artur Sampaio, deu-lhe o nome da mulher, a morada e pediu uma investigação tão rápida quanto possível sobre ela e sobre uma possível irmã. Artur era um ex-inspetor da polícia Judiciária, reformado, que entretinha as suas horas de ócio, com investigações para os amigos. Em poucos dias ele iria saber tudo sobre elas, tinha a certeza.
 À tarde estivera num laboratório e conseguira marcar o exame de ADN. Antes foi informado de que não era necessário a recolha de sangue, o exame podia ser feito com a saliva dos intervenientes ou cabelos. Eles tinham uns kits com o material de recolha e as instruções, podia levar, fazer a recolha e ir entregar, mas ele era um pouco desconfiado, preferiu marcar o exame de sangue para o dia seguinte e telefonar à tal Isabel a dar-lhe a informação do laboratório e da hora do exame.
Habitualmente chegava cedo a casa, tomava banho e saía para jantar, mas como saíra tarde da empresa, comera duas sandes de carne assada no café restaurante onde os seus empregados costumavam almoçar, pois não lhe apetecia jantar.
Levantou-se, apagou a luz da sala e foi para o quarto. Despiu-se, foi à casa de banho, tomou um duche e lavou os dentes, e voltou ao quarto. Despiu o roupão e completamente nu, deitou-se. Cinco minutos mais tarde, tinha adormecido.