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31.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXV

 



O último dia daquele mês de agosto, amanhecera quente e com o céu ameaçando a continuação da chuva que se mantinha há vários dias, pois estava-se na época das chuvas, que rapidamente transformara a estrada de terra batida num lodaçal. 

Tiago, saíra do pavilhão que lhes servia de residência com Peter, o amigo inglês de clínica geral, Paco o anestesista espanhol, e as duas enfermeiras religiosas, bolivianas, que substituiriam as outras duas que ficaram assistindo os doentes internados, durante a noite. Percorriam com dificuldade os  poucos metros que os separavam do pavilhão hospital, dado o estado do caminho transformado num verdadeiro pântano. No país poucas são as estradas de alcatrão.  

Os três homens comentavam entre si, que não se compreendia a extrema pobreza dum país, que sendo rico em diamantes e urânio e não chegando aos cinco milhões de habitantes, estivesse entre os mais pobres do mundo. Certo que o facto de não ter saída para o mar, e as suas exportações só poderem navegar pelo rio ate Brazzaville e depois terem que seguir de comboio até Pointe-Noire no Congo, dificulta e encarece as exportações.

Mas esse não é o principal problema. O maior problema do país são os mais de oitenta grupos étnicos, com outros tantos dialetos, e o seu desejo de cada um se impor e governar os outros o que leva a constantes guerras tribais.

“Digamos -dizia Paco, - que aqui se encontra a base da famosa Torre de Babel”

O grupo encontrava-se a uns dez metros do hospital, quando de súbito se ouviu um som pavoroso, como se um trovão tivesse rebentado ali mesmo e Tiago sentiu-se projetado no espaço, enquanto sentia como se o rasgassem de alto a baixo. E de súbito havia apenas um poço negro e Tiago mergulhou nele.

Acordou banhado em suor. Estendeu a mão e acendeu o cadeeiro. Carregou no botão que elevava a cabeceira da cama. Tinha os músculos contraídos e parte do corpo em fogo como se tivesse sido ferido naquele momento.

 Pegou no copo e no jarro de água, mas as mãos tremiam-lhe tanto que entornou sobre a cana uma boa parte. Da gaveta da mesa-de-cabeceira tirou dois comprimidos de paracetamol que engoliu.

No início depois que recuperou a consciência no hospital, revivia todas as noites o acidente, tendo de tomar soporíferos para conseguir dormir. Aos poucos a situação foi melhorando. Agora havia mais de uma semana que o pesadelo não vinha atormenta-lo.

Chegara a pensar que enfim se teria livrado dele, e daí que apesar do seu estado físico, não ter melhorado nada, em relação ao que ele ansiava, tinha-se sentido mais calmo mais confiante. Mas agora o pesadelo voltara, e cada vez que isso acontecia, era como se Tiago estivesse a ter o acidente naquele momento. Ele sentia as mesmas dores, a mesma sensação que o seu corpo iria arder até ao fim e o mesmo pensamento de que tinha chegado ao fim, não voltaria a ver os pais nem a noiva.

Encheu de novo o copo de água que bebeu de um trago, como se acreditasse que a água apagaria o fogo doloroso que o consumia.

Olhou o relógio. Três e meia da manhã. Não dormiria mais. Sabia disso, tinha meses de experiência. Puxou a almofada para trás da cabeça, fechou os olhos e assim aguardou o nascer do dia.


Esta história volta depois da Páscoa

22.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXII


 


Anabela entrou na sala às dez em ponto. Sobre as calças de ganga e a blusa de malha, tinha vestido uma bata branca. Ao contrário do que esperava, encontrou o doente estendido de barriga para baixo na marquesa, o corpo nu coberto apenas por um boxer preto, enquanto Joaquim arrumava a cadeira com o robe em cima, num canto da sala. Como enfermeira, estava habituada a ver corpos com várias mazelas, mas mesmo assim o que viu deixou-a impressionada.

Bom dia! - disse enquanto abria o armário e retirava algumas toalhas que punha sobre a marquesa, ao lado das compridas pernas masculinas. Abriu uma e colocou-a sobre as costas do doente. Fez o mesmo à segunda e estendeu-a sobre as suas pernas. Se esperava ouvir o doente deve ter-se sentido dececionada, porque ele não respondeu.

- Quando acabar avise-me para que eu venha ajudar o doutor, - disse Joaquim, enquanto dobrava o robe e o punha sobre a cadeira de rodas que já tinha encostado à parede.

-Não é preciso, eu mesmo o ajudarei e o levarei para o quarto - respondeu a jovem.

O caseiro saiu e Anabela puxou uma mesinha com um aparelho de TENS(a) a fim de iniciar o tratamento. Retirou a toalha das costas do doente e colocou várias placas de indução pelas costa e braço esquerdo permitindo-se um olhar mais demorado sobre ele. No dia anterior, quando o vira na cama, não se apercebera de que era tão grande. Tinha de certeza mais de um metro e oitenta, mas estava demasiado magro, e assim seria difícil conseguir ter sucesso em exercícios que visavam estimular os músculos se eles continuavam sem força para reagir.

Já lhe devem ter feito este tratamento enquanto esteve no hospital, de qualquer modo, aviso-o, que ao ligar o aparelho vai sentir uma espécie de formigueiro. Irei aumentando a potência.  Quando achar que está bem, avise-me. Intensidade a mais ou a menos far-lhe-á mais mal que bem.

Tiago tinha decidido, que para a irritar, não lhe daria uma só palavra, mas foi obrigado a fazê-lo.

Enquanto decorriam os minutos do tratamento, Anabela disse:

- Está demasiado magro, e isso não é bom para a sua recuperação. Nunca ouviu dizer que saco vazio não se empina? Se não come o suficiente terá de tomar vitaminas. Vitamina B, Glucosamina e Vitamina D se insistir em não ir à rua. O doutor sabe disso,  melhor que ninguém. O que pretende? Remoer a dor do que lhe aconteceu, fechando-se no quarto até que o coração se canse de bater?

O aparelho desligou-se e a jovem apressou-se a retirar as placas e a trocar o aparelho de TENS, pelo de ultrassons colocou o gel condutor e durante cinco minutos circulou o Ultrassom pelas costas incidindo especialmente nos ombros.

Quando terminou, voltou a cobrir as costas com a toalha, levou a mesinha com o aparelho para junto das outras, e trocou-a pela que tinha o aparelho de ultrassons.

Enquanto espalhava o gel condutor para o ultrassom sobre a pele escura cicatrizada e  áspera. Havia uma cicatriz na zona das vertebras L3 e L4. Ali a pele estava mais lisa e tinha uma cor mais rosada. Era a cicatriz da cirurgia.

Iniciou o tratamento fazendo circular o aparelho sobre os músculos dos ombros e os que sustentavam a coluna, tendo o cuidado de não se aproximar da cicatriz da cirurgia.

Enquanto isso foi dizendo:

- Vou utilizar um esquema de tratamentos alternados. De manhã faremos a eletroterapia e terapia de calor seguida de massagem. De tarde faremos a mecanoterapia. Inicialmente não poderá fazer grande coisa, dada a sua fraqueza geral e sobretudo muscular, mas se quer voltar a andar temos que insistir nos dois tratamentos. É pena que não estejamos no Verão para utilizar a piscina que tem.

-Deve estar doida, - disse Tiago, sem conseguir conter-se. Não me seguro de pé quanto mais ir para a piscina. Só se decidisse suicidar-me por afogamento.


a) TENS A Neuroestimulação Elétrica Transcutânea (TENS, do inglês Transcutaneous Electrical Nerve Stimulation)  TENS é um dos aparelhos de eletroterapia mais utilizados pelos Fisioterapeutas, sendo conhecido pelo "aparelho dos choques". TENS é uma estimulação elétrica Transcutânea, ou seja, é uma terapia que utiliza uma corrente elétrica aplicada superficialmente na pele através de elétrodos.  .

13.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXIX

 

O tempo que passou no Hospital, não foi só de cirurgias e tratamentos. Foi também, depois que recuperou a consciência, de muita reflexão, sobre a sua vida passada e futura, embora principalmente se interrogasse, sobre que futuro podia haver para ele, se realmente não fosse apenas o uso das pernas que tinha perdido. Ele podia aprender a viver numa cadeira de rodas, mas não conseguia pensar em viver o resto da vida sexualmente morto.  

Quando recebeu alta hospitalar, recusou o encaminhamento direto para a fisioterapia de reabilitação e refugiou-se na quinta, para desespero dos pais e do tio, que não parava de lhe mandar enfermeiras, com quem ele era deliberadamente mal-educado, para que o deixassem em paz. A penúltima enfermeira que o tio lhe trouxera, era uma mulher de rara beleza, que podia sem desprimor adornar a capa de qualquer revista de moda. Porém, ela era uma prova viva, daquilo que ele tinha perdido com aquela maldita explosão. Por isso a mandara embora imediatamente.

Como médico, sabia que estava deprimido e sabia também que estava num ponto critico da sua vida. Pela frente tinha dois caminhos. Ou aceitava o que pudesse acontecer, e lutava para que fosse o melhor, ou simplesmente desistia, entrava numa depressão grave que acabaria certamente no suicídio. Sim, ele sabia isso, mas precisava de algo que lhe desse o empurrão para entrar no caminho certo, pois nessa manhã, sentira que estava a um passo, de entrar na via da autodestruição.

Mas então o tio aparecera com outra enfermeira. Como é que ele dissera que ela se chamava? À sim, Anabela. Pois, esta era diferente das outras. Embora tivesse a certeza de que o tio a tinha advertido para o seu mau génio, ela não o olhou com pena, nem como se ele fosse um monstro. Ela olhou-o como se ele não fosse um inútil, mas uma pessoa normal e com firmeza mostrou-lhe que ali mandava ela e fizesse ele o que fizesse não conseguiria amedrontá-la.

Em vez de se exasperar, Tiago ficou curioso. Onde seria que o tio a tinha ido buscar? E quanto tempo, ela seria capaz de manter aquela pose? Será que ia medir forças, com ele, dia a dia? Quando anoiteceu, sem ter voltado a vê-la, surpreendeu-se, por, pela primeira vez, depois que saiu do hospital, ter levado a tarde a pensar noutra coisa, que não o futuro negro que o aguardava. Não esperava voltar a vê-la antes da manhã seguinte. Mas eis ela que voltara surpreendê-lo.

Dez minutos depois, Anabela voltou a entrar no quarto. Poisou o jarro e o copo sobre a mesa e disse:

-Pronto aqui tem a sua água. Vai tomar algum medicamento? Antiálgico, ansiolítico, ou quer que lhe traga um chá?

- Não, obrigado.

Ela retirou a bacia que levou para a casa de banho. Depois dobrou a toalha e guardou-a no espaço por baixo da gaveta, na mesa de apoio.

-Devia tentar dormir. Uma boa noite de descanso, vai ajudá-lo amanhã com a dureza dos tratamentos, - disse dirigindo-se para a porta.

 

Nota: Não sei que se passa mas todos os dias tenho no spam uma série de comentários da Isa Sá, Francisco Manuel Carrajola Oliveira e Teresa Silva. Desde 2016 para cá. Tenho a certeza que estes comentários estiveram publicados na altura e não entendo porque carga de água agora aparecem no spam. E são sempre os mesmos. ontem foram 5 anteontem 7 e por aí fora.

15.2.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XIX





Minutos depois, enquanto o doutor Azevedo atendia o primeiro paciente, Anabela informava Paula de que iria a sua casa à noite, pois precisava do seu conselho  despedindo-se em seguida.

Já na residencial, a jovem pensou longamente na proposta do médico.

O que mais a entusiasmava, era a possibilidade de conseguir vencer a oposição do doente e levá-lo a andar de novo. Era um grande desafio e ela gostava de desafios.

Além disso embora não soubesse o montante, o doutor Azevedo tinha-lhe dito que o irmão lhe pagaria um bom salário. E atendendo a que teria habitação e alimentação grátis, poderia aumentar substancialmente as suas finanças.

Porém era melhor continuar a pagar o quarto na residencial. Estava a dois passos do hospital para onde voltaria no termino da sua licença sem vencimento.

E também teria de ir aos Recursos Humanos do hospital, para aumentar o tempo da  licença, que estava prestes a terminar.

Iria pedir mais seis meses, embora suspeitasse que seis meses não seriam suficientes para a empreitada que teria pela frente, mas talvez nessa altura o jovem médico tivesse recuperado o suficiente para continuar sozinho o tratamento.

 O ideal seria pedir um ano, mas arriscava-se a que lha negassem e não lhe convinha pôr em perigo o seu posto de trabalho, até porque não sabia se ia ou não conseguir aguentar muito tempo o mau feitio do doente. Sabia que o sofrimento, faz as pessoas amargas, mas isso não era razão para descarregar nos outros as suas dores.

Estendeu-se sobre a cama, para descansar um pouco e o cansaço venceu-a em poucos minutos.

 Acordou sentindo frio e assustou-se ao ver o quarto envolto na escuridão. Olhou o relógio. Dezoito horas e trinta. Saltou da cama e olhou-se ao espelho. A roupa estava completamente amarrotada. Não podia ir assim para a rua.

 Foi à casa de banho, lavou o rosto, escovou o cabelo e entrançou-o. Voltou ao quarto escolheu um vestido de lã verde-escuro. Depois de trocar de roupa, vestiu um casaco comprido castanho, procurou uns sapatos igualmente castanhos sem salto, pegou na bolsa e saiu fechando a porta do quarto e guardando a chave na mala.

Dez minutos depois tocava a campainha da casa da amiga.  O dono da casa, abriu a porta com a filha ao colo.

7.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXI

 



Às oito horas, Nuno tocava à campainha da casa de Luísa. A porta abriu-se, e a jovem saiu. Envergava um conjunto de calça e casaco em seda azul e umas sandálias de salto alto. Os cabelos não muito compridos caíam sobre os ombros e no rosto uma leve maquilhagem. Estava muito bonita.
- Continuas a ser pontual, - disse ao chegar junto dele.
- Há coisas que fazem parte de nós,- respondeu apertando a mão feminina entre as suas. E acrescentou de seguida. – Estás linda.
- Obrigado. Tu também não estás mal, - disse entrando no carro.
Nuno pôs o carro em marcha. Fez-se um silêncio estranho, pesado.
Ele mantinha-se atento à estrada, ela perdida nos seus pensamentos. Tanta coisa que gostaria de lhe perguntar. Tanta coisa que gostaria de lhe dizer. Precisava arranjar coragem. Não podia encarar o futuro sem esclarecer o passado.
-É estranho, que morando na mesma cidade e relativamente perto não nos tenhamos encontrado mais vezes. Regressaste há muito?
- Pouco mais de três meses. E provavelmente o único local que ambos frequentamos, é o supermercado. Não me encontrarás em locais noturnos, só saio à noite quando estou de serviço no hospital.
- Também não frequento esses locais.
- Não? Não deve ser por falta de convites, - disse mordaz
Ela lançou-lhe um rápido olhar e virou a cabeça para olhar a rua por onde circulavam
- Este jantar, é a minha primeira saída noturna,- se é que se pode chamar noturna, quando o sol ainda brilha radioso,- desde há catorze anos.
Ele estacionou o carro junto ao restaurante. Ela abriu a porta, e saiu sem lhe dar tempo a que ele tivesse qualquer ato de cavalheirismo.
Colocou-lhe o braço sobre os ombros e entraram. Deu o nome ao empregado que os recebeu e ele levou-os até uma mesa discreta, de onde retirou um retângulo onde se podia ler, “reservada”.
Sentaram-se e logo apareceu outro empregado que colocou algumas entradas sobre a mesa, e lhes entregou a ementa.
Escolheram caldeirada de marisco acompanhada por um rosé Quinta Romaneira, e só depois que o empregado se retirou, Nuno perguntou:
- Porquê, Luísa?
- Porquê, o quê, Nuno?
- Disseste que eras muito jovem, querias viver a vida e no entanto casaste poucos meses depois. O que é que ele tinha de especial para mudares de ideia?
- Queres mesmo saber? Não achas uma perda de tempo, passados todos estes anos?
- Sim e não respondendo às duas questões. 
Às vezes precisamos escarafunchar na ferida, para retirar tudo o que não a deixa cicatrizar.
- Era muito nova, ainda nem tinha feito dezoito anos. Meu pai obrigou-me a romper contigo, ameaçando mandar-me para casa dos meus avós numa aldeia esquecida no Minho. Ele tratou do meu casamento com o Álvaro, e eu não pude nem soube como impedi-lo
- E não te ocorreu seres sincera comigo? Tu que juravas amar-me, não confiaste em mim para me dizeres a verdade? Que grande amor era o teu – disse amargo.
- Esqueces que eu era quase uma menina – defendeu-se. E não teria sido diferente. Eu era menor, precisava da autorização dele para me casar. Ele tinha cancro, sabia que tinha pouco tempo de vida, e tinha medo de que fosses para África e me levasses contigo. Tinha medo que eu tivesse uma vida de privações por causa do teu idealismo. Por isso me casou com um homem mais velho que ele conhecia há muito tempo e julgava que me faria feliz.
-E fez?
- Não. - A resposta saiu seca e rápida como um tiro.
A chegada do empregado com o pedido, interrompeu a conversa


28.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVIII

 

- Conta-me o que sabes sobre a Luísa, pai.
- Em dezasseis anos nunca quiseste saber nada dela, nem mesmo quando eu te escrevi a dizer que tinha enviuvado. A que vem esse interesse agora? Encontraram-se?
- Há quase um mês no hospital. Era uma das professoras daquele autocarro de miúdos, lembras-te? De resto era quase impossível não a encontrar, já que está a morar na casa que era do pai, e portanto relativamente perto de mim.
- Há quase um mês? E só hoje te chegou a curiosidade? – perguntou João, fitando o filho com curiosidade.
- Encontrámo-nos hoje no supermercado. Convidei-a para jantar.
- Olha Nuno, fui testemunha do teu sofrimento há dezasseis anos, quando ela te deixou. Nunca tinha visto alguém sofrer tanto por amor. Suponho que foi esse amor que te impediu de refazeres a tua vida, junto de alguma das mulheres que certamente conheceste, em todos estes anos.
- Não foi por amor, sim por ódio. Ela espezinhou os nossos sonhos, matou tudo o que de bom havia em mim.
- Sabes que não é verdade. Continuas a ser um bom homem, um idealista que a vida toda trabalhou em prol dos mais desfavorecidos. Isso é o que de bom havia e há em ti, meu filho. Depois, quantas vezes o ódio não é apenas uma máscara do amor?
- Não quero discutir os meus sentimentos, pai. Até porque hoje já não tem interesse, eu nunca mais posso aspirar ao amor de uma mulher, não seria capaz de olhar nos seus olhos e ver pena em vez de amor. Mas ainda não me disseste nada sobre ela.
-Desiludes-me filho. O que te aconteceu não te torna menos homem. Olha para ti. És ainda jovem, tens saúde, e és um excelente profissional. Não tens porque te sentires diminuído, nem temer sentimentos de compaixão, que só existem na tua cabeça.  Mas voltando à Luísa, o que sei, foi a Lucinda, a amiga da tua mãe que lhe contou. Como sabes ela é vizinha da jovem. Parece que o pai da rapariga, a obrigou a casar com um vizinho que tinha uma quinta, onde passava grandes temporadas. Depois de casada, foram viver para a quinta, e só vinha à cidade para ver o pai, que entretanto adoeceu com cancro, e morreu uns meses, depois. Só a vi uma vez durante esse tempo e confesso-te que fiquei impressionado. Estava muito magra, pálida e parecia muito assustada. O marido não a deixava sozinha, estava sempre a seu lado. Ele era muito mais velho, já era viúvo, e dizem que morreu, porque a Luísa se atirou do carro em andamento, e ele perdeu o controlo do carro. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, ele morreu e ela nunca contou a ninguém, pelo menos que a gente saiba.
- Não sei que tanto vocês têm para conversar. – Disse Arminda, a mãe de Nuno. E acrescentou. – O almoço está na mesa.



16.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XIII

 




Luísa reuniu com a diretora, mal chegou à escola. Esta disse-lhe que não teria aulas nesse dia, era sexta-feira, os alunos das duas turmas que seguiam no carro acidentado, estavam na maioria internados, e mesmos os feridos menos graves iriam às aulas apenas na segunda-feira. Depois ela passara o dia anterior no hospital, deveria descansar nesse dia. 

Luísa agradeceu, meteu-se no carro e foi para o hospital. Sabia que as visitas eram só de tarde, mas talvez lhe dessem alguma informação sobre a colega, que tinha ficado em observação, e as crianças que tinham sofrido ferimentos mais graves e tinham tido que ser operadas.
Meia hora mais tarde, saiu do hospital, com o coração mais sossegado depois de saber que estavam todos a recuperar bem.

O mês de Maio estava a caminho do fim, e o dia apresentava-se radioso, como costumam ser estes dias, já com a primavera a querer rivalizar com o verão que se aproxima.
Luísa respirou fundo, pôs os óculos escuros e seguiu a caminho do parque onde tinha deixado o automóvel.
Sem ser uma grande beleza, com os seus traços finos e delicados, o rosto orlado pela farta cabeleira, da cor do trigo maduro, que lhe tocava os ombros em suaves ondulações, a alta e esbelta figura, envolta num camiseiro de seda azul, e nas calças de ganga, com as sandálias de meio salto, chamava a atenção de quem com ela se cruzava, apesar dos óculos escuros que escondiam uns maravilhosos olhos azuis, tal belos, como a mais bela das safiras.

Entrou no carro, mas antes de o ligar, retirou o telemóvel da mala, e marcou um número
- Fátima?
- Olá Luísa, que surpresa! Não devias estar em aulas? Espera, ouvi falar do acidente com um autocarro de miúdos da tua escola. Eram os teus alunos? Estavas com eles?
- Sim. Eram duas turmas. Uma delas era a minha. E claro que estava com eles mas felizmente saí ilesa. Preciso de ti. Tens um tempinho para mim?
- Para a amiga, ou para a paciente?
- Podia ser para as duas?
- Quando? Hoje?
- Sim.
- Bom, que tal almoçarmos juntas? Depois se necessário marco-te uma hora para o início da noite. Tenho marcações para toda a tarde.
-Eu também preciso da tarde, para ver a minha colega e as crianças que estão internadas.
- Então onde nos encontramos?
- Já alguma vez almoçaste no mercado de Campo de Ourique?
- Já. Queres ir lá?
-Ainda não conheço. Estou curiosa.
- Então está combinado. Meio-dia e meia. Está bom para ti?
-Está. Encontramo-nos lá. E obrigada.
- Até logo.

Desligou o telemóvel e voltou a metê-lo na mala. Olhou o relógio. Onze e vinte. Ainda tinha tempo de ir fazer algumas compras. Uns mimos, para as crianças internadas. Ligou o motor e rodou para a saída do parque.






4.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE IX






O registo dos dois meses seguintes, está nas múltiplas cicatrizes, provocadas pelo cigarro aceso, espalhadas pelo peito, nádegas e ventre. Luísa não aguentava mais. Sabia agora o que levara a primeira mulher de Álvaro ao suicídio. Sabia, porque ela estava decidida a fazer o mesmo. Cada dia essa ideia lhe aparecia mais sugestiva, mais libertadora. Mas o marido, não a deixava sair de casa sozinha.

E em casa ela não via como fazê-lo. Só se utilizasse uma faca da cozinha. Mas tinha que ter força para aplicar um golpe certeiro que lhe desse a morte rapidamente. Mas... e se o golpe não fosse mortal e em vez de a socorrer o homem se entregasse aos seus prazeres libidinosos e sádicos?

A ocasião surgiu num dia em que fora à cidade com o marido. Fingindo-se distraída, ela não apertou o cinto de segurança, e esperou pelo momento certo para saltar do carro em movimento.
A determinada altura, quando se viu numa estrada longe da quinta, abriu a porta e atirou-se para a estrada, esperando que o carro que vinha um pouco  atrás lhe passasse por cima e lhe desse finalmente descanso.
Contaram-lhe depois no hospital, que a velocidade do carro, aliado ao seu impulso, fez com que o seu corpo rolasse até à valeta, sem ser atingida pelo automóvel que vinha atrás,  enquanto o marido, surpreendido, perdera a direção do carro, saíra da sua faixa, e colidira brutalmente com um camião que vinha em sentido contrário.

Tivera morte imediata. E ela tivera muita sorte, pois além duma luxação no ombro, e fratura do úmero e do rádio, do braço direito e de várias escoriações nas pernas, provocadas pela fricção do corpo no alcatrão, não tinha sofrido mais nada. Mas o médico queria saber que marcas eram aquelas no seu corpo, algumas ainda recentes e a precisar de serem desinfetadas e pensadas. Luísa limitou-se a chorar, envergonhada de mais para contar ao médico o inferno de onde saíra.

 Porém o médico, deve ter percebido, porque umas horas depois, Luísa recebeu a visita de uma psicóloga.
Com carinho e paciência, ela conseguiu que Luísa contasse o tormento em que vivera durante os catorze meses que durou o seu casamento.
Ainda no hospital, recebeu a visita de Marta, uma jovem de quem fora muito amiga nos tempos de estudante e de quem se tinha afastado depois do casamento, uma vez que o marido a impedia de se relacionar com qualquer pessoa, com medo que ela contasse o que se passava. Marta estava muito assustada pelo que Luísa tinha feito, e esta contou-lhe a razão para aquele ato desesperado. A amiga ofereceu-se para a ajudar em tudo o que fosse preciso. 

Quinze dias depois saía do hospital. Tinham-lhe dado alta hospitalar, com a indicação de que devia ser seguida pela psicóloga, e apresentar-se três semanas depois, para retirar o gesso, e fazer uma radiografia.
Luísa não tinha coragem de voltar para a quinta, entrar naquela casa onde fora tão infeliz. Mas precisava fazê-lo. Lá tinha as suas roupas e documentos, e como única herdeira do marido aquela casa era agora sua.






17.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE I

 

Percorria a ala de pediatria no terceiro piso do hospital, quando o som da sirene de uma ambulância lhe chegou aos ouvidos , logo seguido de outros sons igualmente agudos o que lhe trouxe à memória outros sons outras paragens.
Aproximou-se da janela que dava para a entrada do hospital, onde se situavam as urgências. Viu duas ambulâncias paradas e pelo menos mais três que se aproximavam. Apressado deu a volta, e encarando a enfermeira que se encontrava junto de uma das camas, disse:
- Parece que esta visita terá que ficar para mais tarde. Se surgir alguma complicação estarei nas urgências.  
Afastou-se. Estava quase a chegar aos elevadores, quando ouviu ;
- Atenção doutor Albuquerque! Solicita-se a sua comparência imediata nas urgências.
O elevador acabara de parar junto dele e apressou-se a entrar. Era um homem alto, de cabelos negros, já quase grisalho nas têmporas.
Testa alta, nariz retilíneo, olhos cinzentos, queixo firme e boca bem desenhada. Teria pouco mais de quarenta anos, mas a sua expressão dura, e o seu olhar frio, faziam-no parecer mais velho.
Percorreu a distância do elevador até às urgências em meia dúzia de passadas rápidas.
Ali reinava o caos, com várias macas de crianças a chorar.
-Foi um acidente com um autocarro de miúdos que iam em passeio de estudo – informou a enfermeira. 
 O médico não respondeu. Depois de um breve olhar pelas macas dirigiu-se a uma delas e observou a criança. Dirigindo-se à enfermeira com quem falara momentos antes, disse.
-Enfermeira leve esta criança para o bloco operatório, e reúna a equipa de cirurgia. 
Chamou outra das enfermeiras.
- Por favor, verifique os médicos que se encontram no bloco das consultas externas, e diga-lhes para virem para cá. É uma emergência, não sabemos quantos feridos graves serão, é necessário atuar rapidamente. Vou para o bloco operatório. Aquele menino está com uma hemorragia interna. Poderá haver outras crianças na mesma situação.
Debruçou-se sobre um miúdo que chorava em silêncio. Observou-lhe o corte na testa, verificou as suas pupilas e certo de que o corte não oferecia gravidade, afastou-se em direção ao bloco operatório

13.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE VI

 



A vida foi retomando o seu ritmo normal. Helena andava muito cansada, o trabalho no hospital era cada dia, mais intenso, pelo que teve que pedir uma reunião com o diretor da clínica, e reduzir o seu trabalho para apenas duas horas, três vezes por semana. 

Com toda essa azáfama, quase tinha esquecido o sinistrado, quando a colega do outro hospital lhe telefonou a informar que o homem tinha  recuperado a consciência. Ela  nunca mais voltara ao hospital desde aquela noite em que falara com a médica,  e lhe pedira para que a avisasse , quando ele saísse  do coma. Como naquele dia, não tinha consultas na clínica, decidiu que ia vê-lo quando terminasse o seu trabalho no hospital.

 Depois de a cumprimentar, a colega, disse-lhe:
-O nosso doente está finalmente livre de perigo. Mas está amnésico. Nem sequer se lembra do seu próprio nome.
- Às vezes acontece depois de um grave acidente. Mas deve ser transitório, não?
- Talvez. Fez hoje uma RM. Vamos esperar os resultados para despistar alguma lesão de maior gravidade a nível cerebral. Vamos vê-lo?
- Claro. E a polícia, não disse nada?
- Apenas que continua a não haver nenhuma queixa por desaparecimento. Esperavam que saísse do coma para o interrogar.
- E já o fizeram?
-Já. Mas devido à amnésia, não deu em nada. Fotografaram-no para verem se a foto dele faz parte dos ficheiros da polícia.

Tinham chegado junto do doente. Pela primeira vez Helena, via realmente o sinistrado. Não teria mais de trinta e cinco anos, talvez nem tanto, era moreno, embora agora estivesse bastante pálido, cabelos pretos, bem curtos, e ligeiramente ondulados, e uns profundos e desorientados olhos pretos. Os traços do seu rosto eram perfeitos, a testa alta e o queixo firme. O pijama meio desabotoado deixava ver um peito bem musculado.

- Como se sente? - perguntou a médica
-Vazio, -respondeu esboçando uma careta que talvez pretendesse ser um sorriso.
- Apresento-lhe a doutora Helena Correia. Foi ela quem o encontrou meio morto na estrada e providenciou para que fosse rapidamente socorrido.
- Obrigada doutora. – Estendeu-lhe a mão, que ela apertou, reparando que era uma mão de dedos longos e bem tratados.





para os novos leitores...
Para dar um pouco de "pica" numa altura em que está quase tudo de férias, 
e sabemos  que este homem, está amnésico e não tem documentos , alguém arrisca um palpite? Quem será ele?  Donde será? E como veio aparecer quase morto  "as portas" de Lisboa? Será "recado" de algum gang? 

16.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXII


Por razões diferentes, mãe e filha quase não dormiram nessa noite. Matilde estava radiante com o facto de finalmente ter um pais como as suas amiguinhas. E um pai como o doutor Gonçalo, era algo de que nem todas se poderiam gabar.

Ela tinha ficado encantada com ele no hospital, quando ainda não sabia que era o seu pai. Ele era bonito e carinhoso. A mãe dissera que ele chegaria por volta das onze e ela queria estar junto do portão da quinta para o receber. Queria encontrá-lo sozinha, tinha a certeza de que ia chorar, quando o abraçasse e não queria virar motivo de gozo para os primos.

As preocupações de Lena eram bem diferentes. Ela sentia-se pressionada por toda a família para aceitar o pedido de casamento que Gonçalo lhe fizera.

Muito cedo, antes de se levantar, ouvindo os sons familiares da quinta; os pássaros que saudavam o nascer de um novo dia, a brisa suave que passava por entre as folhas das árvores, o cantar do galo, ela pensava na volta que a sua vida dera e no que ela iria fazer dali para a frente.  

Sabia que Gonçalo tinha sido sincero, mas não era preciso ser psicóloga, para saber que devido aquele terrível acidente, e sobretudo à amnésia que se seguira, a descoberta atual de ser pai, vinha preencher a carência de afetos e de família a que voluntariamente se submetera ao longo dos últimos catorze anos.

 E pelo que conhecera dele enquanto namorara e pelo que agora lhe contara acerca da proteção à sua irmã viúva e aos seus sobrinhos, Gonçalo era um homem de família. 

Debatia-se num mar de dúvidas. Era verdade que apesar de desiludida pelo seu abandono e pensar que não passara de brinquedo de verão para ele, o su coração nunca o esquecera. Afinal fora o seu primeiro e único amor. Também sabia que se não fosse com ele nunca se casaria, pois não queria dar um padrasto à sua filha. 

Mas embora soubesse tudo isso, a razão continuava a dizer-lhe que não podia ceder. Ele não se recordava dela. Conhecera-a há uma semana, e desde esse dia, apenas na véspera estivera com ele várias horas. É certo que havia uma enorme tensão sexual entre os dois, quando estavam juntos, mas um casamento não se sustenta de sexo. O desejo, quando não é parte do amor, morre quando é satisfeito. 

Ela não sabia que fazer e não podia aconselhar-se com ninguém, porque toda a família a empurrava para o casamento. E se telefonasse à Rita. É verdade que tinha pensado contar-lhe pessoalmente, mas se ela só vinha na Sexta à tarde, provavelmente só a veria no sábado e nessa altura com Gonçalo presente não havia lugar para essas conversas. Não, o melhor seria falar com ela logo pela manhã antes que ele chegasse. 

E se bem o pensou, logo o pôs em prática. Logo depois do pequeno--almoço, desculpou-se perante a família, afirmando precisar de fazer uma chamada e recolheu-se no quarto a fim de ligar à amiga.

Assim que Rita atendeu, Helena contou o mais resumidamente possível os últimos acontecimentos, mas ficou dececionada ao perceber que a amiga não entendia as suas dúvidas e entrava no grupo de apoio ao casamento.





18.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXI

 




Helena chegou ao hospital às treze horas. Dirigiu-se ao quarto andar, piso para onde a filha fora levada depois da cirurgia. Tinha falado com a filha pelo telemóvel, mas Matilde não lhe soubera dizer se tinha ou não alta nesse dia. De qualquer modo ela tinha uma muda de roupa no carro pronta para o caso da filha ter alta.

Entrou no quarto, no momento em que a auxiliar deixava o tabuleiro com o almoço, em cima da mesa. Era uma estrutura metálica em forma de S  com rodas, e uma base de madeira em cima,
que servia para os doentes que não se podiam levantar comer confortavelmente na cama. Aproximou-se da cama e depois de beijar a filha perguntou:

-Bom dia! Como está a minha princesa? Tens dores?

-Não. Mas estou ansiosa para ir para casa. Isto não vai impedir-nos de irmos para a aldeia, pois não?

-Penso que não, filha, todavia não sei quais são as recomendações médicas. – disse ajeitando a almofada atrás da menina, ante, de empurrar o carro-mesa com o almoço para frente dela. E acrescentou:

-- Tens que almoçar antes que fique frio. A avó telefonou ontem. Estranhou que não fosses ao telefone como é habitual. Não quis preocupá-la e disse que tinhas ido ficar em casa da Rita. E que hoje falavas com ela. É melhor não lhe dizer que foste operada até que ela veja com os seus próprios olhos que estás bem. Ainda não sei se tens alta hoje. O médico já veio ver-te?

- Ainda não eram onze horas veio o doutor Gonçalo. Trouxe-me um livro, - disse apontando para a gaveta da mesa de cabeceira ao lado da cama. – É muito simpático. Além de perguntar como me sentia, conversou comigo, sem aquela forma irritante de superioridade que os adultos têm e que parece gritar que não passamos de crianças, que não sabemos nada da vida e que eles é que sabem tudo. Como se eles nunca tivessem sido crianças, algum dia. Gostei muito dele, mas quando lhe perguntei se ia para casa hoje, disse que era o doutor Nuno que sabia, e que ainda não tinha falado com ele.

Enquanto a filha falava, Helena abriu a gaveta e viu o livro. Tratava—se de “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, um livro que ela lera há muitos anos e que ainda hoje ao recordá-lo se deixava encantar.

- É um livro muito bom, vais adorar lê-lo, - disse devolvendo—o à gaveta. - E então, o doutor Nuno já veio?

-- Há uma meia hora atrás. A enfermeira removeu o penso, ele olhou, perguntou se tinha dores, eu disse que não e ele disse à enfermeira para retirar o dreno e fazer um novo penso, disse que eu estava ótima e que podia ir para casa, mas que tinha que ter cuidado, durante uns dias não podia correr nem saltar, nadar, nem agarrar em pesos. A enfermeira disse que depois do almoço, fosses falar com ela, - disse levando à boca o último pedaço da maçã reineta assada.

Vendo que a filha acabara de comer, Helena afastou o carro-tabuleiro e puxou uma cadeira para junto da cama. Antes de se sentar perguntou:

-Queres que a mãe baixe a cabeceira um bocadinho?

-Não – disse com um ar aborrecido. -- Fiquei com as férias estragadas. Não posso brincar com os primos, nem ir nadar no rio. E eu estava tão contente em ir para a aldeia. Já não estou com os primos desde o Natal. E é sempre tão divertido estar com eles. É tão frustrante ser filho único. Por isso, gosto tanto de acampar, e por isso não te avisei logo quando começaram as dores.

Helena sentiu um aperto no peito. Nunca se dera conta da solidão que a filha sentia.

- Queres ler um pouco? Vamos ter que esperar que nos deem os documentos da alta para poderes sair.

- Não. Esqueci-me de te dizer. O doutor Gonçalo, disse que precisava falar contigo, e deixou um cartão para lhe telefonares. Está dentro do livro. Fiquei a pensar, se haveria alguma coisa de errado comigo, mas ele disse que é qualquer coisa relativo ao teu trabalho. Não sabia que ele era teu cliente.

E com essas palavras a menina encostou-se para trás e fechou os olhos.

Com mãos trémulas, Helena apressou-se a pegar no livro e a procurar o cartão que guardou na sua carteira.

 

 

 

16.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XX

 


Gonçalo quase não dormira naquela noite. Levantou cedo, tomou banho vestiu umas calças de ganga e uma camisa branca e saiu. Parou no quiosque e comprou o jornal do dia, dirigindo-se em seguida para o café-pastelaria do bairro, onde diariamente tomava o pequeno-almoço.

-Bom dia, António, - saudou ao entrar no estabelecimento quase vazio aquela hora, porque era sábado. Aos outros dias começava a encher a partir das seis da manhã.

- Bom dia doutor – respondeu o jovem por trás do balcão.

Sentou--se numa mesa perto do balcão, e abriu o jornal, a fim de se pôr a par das notícias do dia.

--Bom dia, doutor. Então o que vai ser hoje?

Levantou os olhos do jornal e fixou-os na jovem grávida à sua frente. Tinha um ar cansado.

-Bom dia, Idália. Está com um ar cansado. Deve estar quase no fim do tempo, não devia levar tantas horas de pé. Não é bom para si nem para o bebé.

- Eu sei, doutor. Mas o António sozinho não consegue fazer tudo e de momento não podemos manter uma empregada. Precisamos pagar logo a hipoteca ao banco.

Gonçalo, olhou a jovem com pena. Com uma gravidez quase no fim do tempo, devia ser muito difícil para ela continuar a atender os clientes, praticamente todo o dia de pé, com os dias de calor fora de época que se tinham instalado há quase uma semana.

-Traga—me então o mesmo de sempre.

Ela afastou-se e ele ficou a pensar como podia ajudar os dois jovens, sem que eles se sentissem humilhados. Desde que viera para Lisboa que habitualmente tomava ali o dejejum antes de ir para o hospital.

Gostava do casal, eram educados e trabalhadores e de algum modo gostaria de ajudá-los, mas ainda não lhe ocorrera uma maneira de o fazer. Talvez se falasse com a irmã ela tivesse uma ideia. Era isso. No dia seguinte, falaria com a irmã. Desde que ela enviuvara e desde que ele não estivesse de serviço no hospital, sempre passava os domingos com a irmã. Enquanto pensava numa possível solução, Idália voltou e colocou na sua frente a sandes mista e o copo de café com leite que constituíam o seu habitual pequeno almoço.

Agradeceu à jovem, enquanto dobrava o jornal e o colocava de lado para iniciar a refeição.  Olhou o relógio. Oito horas e trinta e cinco. Era cedo ainda. Ele não chegaria ao hospital antes das dez, pois sabia que as manhãs eram complicadas para as enfermeiras e auxiliares com a higiene dos doentes, os pequenos almoços, as trocas de roupas de cama e limpeza do espaço.

Antes das dez e meia, ele não poderia ter um bocadinho de tempo com a menina. E ele queria vê-la, conversar um pouco com ela, embora não soubesse muito bem o que esperaria encontrar nessa visita.

Contrariamente ao que o amigo lhe aconselhara na véspera, não iria fazer qualquer recolha de saliva ou mesmo procurar algum cabelo caído na almofada para pedir um exame de ADN. Apesar de não lhe ter passado pela cabeça que a criança fosse sua filha até que Fernando o tivesse dito, agora essa possibilidade não lhe saía da cabeça. Mas apesar disso ele não era capaz de pedir um exame de ADN sem falar com a mãe dela primeiro.

 

2.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XIV

 


Gonçalo regressou ao gabinete e continuou a atender os doentes, mas o rosto de Matilde não lhe saía da cabeça. Num breve intervalo sem doentes, abriu a carteira e tirou uma fotografia observando-a de sobrolho franzido. Era uma fotografia da sua irmã quando criança, mas qualquer um que a visse diria que era daquela menina de nome Matilde Caldeira, que se encontrava agora no bloco operatório. E aquela sensação esquisita que ele sentira dias antes quando aquela mulher chocara com ele, junto à escola da sobrinha, e se repetira horas antes ao vê-la junto da maca da filha?

Voltou a guardar a foto na carteira quando lhe trouxeram a inscrição de um novo doente.

Algumas horas mais tarde, terminado o turno entrou no automóvel, mas em vez de o pôr a trabalhar e se dirigir a casa, mais uma vez retirou a foto da irmã da carteira e ficou observando-a pensativo. Não conseguia tirar aquela menina do pensamento, aqueles olhos azuis tão brilhantes e luminosos. Ele nunca vira outros assim a não ser na sua mãe e irmã. Aliás aquela criança desconhecida, era mais parecida com a sua irmã, do que Sara, a filha dela. Será que a sua mãe tinha algum familiar que ele desconhecia a viver em Lisboa?

Saiu do carro e voltou ao hospital. Tinha de falar com aquela mulher. Talvez ela pensasse que ele tinha enlouquecido, mas conhecia-se. Sabia que não iria conseguir sossegar sem saber se a menina e a mãe tinham alguma ligação à sua família. Subiu ao terceiro andar, onde esperava encontrar as duas, pois tinha visto no computador que a laparoscopia tinha terminado duas horas antes e a mãe deveria estar com ela até às vinte, hora limite das visitas.

Ainda não sabia bem como iria abordar o assunto, talvez a mulher pensasse que ele estava louco, mas algo dentro de si lhe dizia que fosse em frente.

Entrou no quarto e com um rápido olhar, verificou que a paciente dormia, enquanto a mãe se encontrava sentada num cadeirão junto à janela. 

Leu rapidamente as anotações na papeleta aos pés da cama, vendo pelo canto do olho como a mulher se punha de pé, mas não se aproximava. Teve a certeza que apesar de já não ter a bata nem o estetoscópio ela o reconhecera como o médico que mandara a filha para a cirurgia. Ficara muito nervosa.

-- Aconteceu alguma coisa com a minha filha, doutor? - perguntou com voz rouca. - Ela está bem, não está?

- Está, não se preocupe. Aliás não estou aqui como médico, o meu turno já terminou. Preciso de falar consigo de algo que é de vital importância para mim, mas este não é o local nem a hora. Queria apenas que me prometesse que podemos conversar, quando a sua filha tiver alta.

- Se não tem a ver com a saúde dela, não entendo o que possa ter a falar comigo, se mal nos conhecemos.

- Eu sei que parece loucura, e que estou a por em perigo o meu emprego e a minha carreira, caso a senhora decida participar de mim, ou me acuse de assédio, todavia juro-lhe que não lhe vou causar qualquer dano, nem quero molestá-la de forma alguma.

Helena estava aterrorizada. Inicialmente pensara que ele tivesse descoberto que Matilde era sua filha, mas logo afastou esse pensamento. Percebeu que ele não se lembrava dela, e sentiu raiva de si própria por todos os anos em que guardou as memórias daquele amor.

Ele caminhou até à janela. Apoiou as costas no parapeito e fitou-a. Ela aguentou-lhe o olhar e viu nele tristeza e dor. Surpreendeu-se.

- Desde que chocou comigo naquele dia em frente à escola, sinto-me confuso.  Não consigo deixar de pensar que de algum modo a senhora está ligada a mim, ou à minha família, mas não consigo recordar de que maneira. E hoje ao conhecer a sua filha, o meu coração disparou e a confusão aumentou. Não sei explicar, mas foi como se o coração soubesse algo, que a memória desconhece.

Sentindo que as pernas ameaçavam deixar de lhe sustentar o corpo, Helena sentou-se enquanto ele abria a carteira e retirava a foto da irmã. Estendeu-lha.

-Por favor, senhora. Veja, esta foto.

Com a mão a tremer Helena pegou na foto e olhou. A parecença com Matilde era assombrosa. Não fora as roupas e ela diria que de algum modo ele tinha fotografado a sua filha.

- É… sua filha? – perguntou quase sem voz.

- Não tenho filhos, sou solteiro. É uma foto antiga da minha irmã, mais ou menos com a idade da sua filha. Percebe a minha confusão, e porque preciso falar consigo? – perguntou Gonçalo quando ela lhe devolveu a foto.

Nesse momento Matilde gemeu e a mãe apressou-se a dirigir-se para a cabeceira de cama, dizendo.

- Por favor, vá-se embora!

Sem responder ele saiu do quarto. Ela debruçada sobre a cama da filha, sentiu um aperto no peito ao vê-lo sair com os ombros inclinados como se carregasse nas costas, o peso de uma grande dor.

 

31.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XIII

 


Na sexta-feira de semana anterior à Semana Santa, Matilde acordou maldisposta e a queixar-se da barriga. Como pertencia aos escuteiros e estivera três dias acampada com o grupo, inicialmente a mãe pensou que a má disposição fosse efeito de qualquer coisa que teria comido no acampamento. Foi fazer um chá e telefonou á Rita avisando que iria mais tarde, logo que a filha se sentisse melhor. Todavia quando regressou com o chá encontrou-a a tiritar de frio, e quando lhe mediu a temperatura verificou que estava com trinta e nove graus de febre. Deu-lhe um comprimido antipirético, aconchegou-lhe a roupa e disse-lhe para dormir um pouco mais.

Uma hora depois, ouviu-a gemer. Foi ao quarto e encontrou-a toda encolhida com as mãos na barriga e a chorar. Voltou a medir a temperatura e estava com quase quarenta graus. Assustada ajudou-a a vestir-se e a sair de casa até ao carro, saindo para o hospital no limite da velocidade.

Foi atendida por uma médica que depois de um breve exame, perguntou há quanto tempo ela tinha dores de barriga, ao que Matilde respondeu que tinha começado no último dia de aulas, mas não se queixara com receio de que a mãe não a deixasse ir acampar.

- É grave doutora? – perguntou Helena.

- Parece—me uma apendicite. Vai fazer umas análises e uma ecografia, depois será observada pelo cirurgião, e dependendo da gravidade da situação poderá ter que ser operada de urgência, pois como deve saber um apêndice infetado é muito perigoso. Mas não se preocupe. Ultimamente estamos a operar por laparoscopia, não tem perigo e recupera rapidamente. Mas o principal agora é fazer os exames que eu pedi. Vou pedir a um maqueiro que a leve, ela não pode ir a caminhar. Assim que chegarem os resultados, consoante a gravidade da situação um colega lhe dirá se terá de ser ou não submetida a uma cirurgia de urgência.

- Não será a doutora?

-O meu turno está prestes a terminar, os resultados levam algum tempo a chegar. Mas fique descansada. Qualquer dos médicos da equipa é tão ou mais competente que eu.

- E posso acompanhá-la, até fazer os exames? – perguntou Helena preocupada.

-Claro que sim, mãe. E não esteja tão aflita por favor. De todos os problemas que a Matilde poderia ter, apendicite é dos mais simples.

Entretanto chegou o maqueiro, a enfermeira passou a menina da marquesa onde se encontrava deitada para a maca e os três dirigiram-se ao laboratório.

Enquanto percorriam os enormes corredores que ligavam as urgências ao laboratório, Matilde não parou de gemer e de apertar a mão da mãe. A parte racional de Helena, repetia-lhe o que a médica dissera sobre a apendicite, mas os olhos viam o sofrimento da filha e o seu coração de mãe, estava num grande desassossego.

Quase três horas mais tarde, Matilde estava na maca, com a mãe a seu lado, separada de outros doentes por cortinas de poliéster, no espaço, fora dos gabinetes de atendimento médico. Esperavam o resultado dos exames quando um médico se lhes dirigiu, e fez algumas perguntas. Ao vê-lo, Helena quase ficava em choque, pois o médico em causa era Gonçalo Bacelar. Fazendo um esforço sobre-humano, conseguiu olhá-lo e questionar o estado de saúde da filha.  Ele voltou-se e encarou-a. Tinha uma expressão estranha, e Helena teve a certeza de que ele a teria reconhecido, embora não o desse a entender.

- A Matilde está com uma apendicite aguda, vai ser operada de urgência, a enfermeira Ilda vai prepará-la para a cirurgia e levá-la para o bloco operatório, onde uma equipa médica já está à espera dela.

E voltando—se para a menina, disse:

- Vai correr tudo bem, não te preocupes, nem fiques com medo. Dormes um bocadinho e quando acordares já passou, vais ver que não custa nada. E tu tens cara de ser uma menina corajosa.

Virou costas e afastou-se depois de deixar em cima da maca a papeleta com o nome e os resultados dos exames.

A enfermeira começou então a empurrar a maca dizendo:

-Venha comigo, mãe. Vou prepará-la para ir para o bloco e terá que guardar as roupas dela.

 

 Tenho mais dois dias de tratamento intensivo e depois começo a reduzir e aos pouco vou voltar ao vosso convívio. Ainda tenho posts programados para esta semana, mas espero estar de volta antes do fim de semana. Estou-vos muito  grata pelo vosso carinho e compreensão.