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13.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXIV



Dez anos depois…

Era noite de Natal.  A casa estava em festa, havia um enorme presépio montado no átrio entre as plantas. Em casa, na sala, num grande vaso de cerâmica um pinheiro natural enfeitado com bolas de várias cores e muita luz, sob a qual se viam vários embrulhos.

No salão de jogos, João e o irmão, Gustavo e Mário, marido e pai de Inês, disputavam um renhido jogo de snooker. No antigo quarto dos bebés, hoje o quarto dos rapazes, estes brincavam com Martim, o filho mais velho de Inês, agora com doze anos. Apesar dos quase dois anos que os separava, os três sempre se deram muito bem, assim como com Bernardo, de onze anos, enteado de Olga.

No quarto de Maria esta também estava entretida com Marta, a irmã de Martim, e Sofia a filha de David e Helena. Desde muito nova Maria sempre mostrara um grande sentido de responsabilidade e sentia-se muito feliz  e protetora por ser a mais velha das três.

Na casa de jantar a grande mesa já estava posta, e na cozinha a ceia que fora encomendada num conhecido restaurante aguardava a hora de ir para a mesa. A cozinheira, fora dispensada de cozinhar, mas por ser viúva e os filhos terem emigrado para o Canadá, tinha sido convidada para jantar com eles. Afinal eles, não tinham nascido em berço de ouro, muito pelo contrário. Apenas muito trabalho e alguma sorte, os enriquecera, mas sabiam bem o que era viver com dificuldades, e sobretudo o que era a solidão.

Enquanto se arranjava para o jantar, Teresa, pensava na mãe e na avó. Como ela gostaria que as duas tivessem visto o rumo que a sua vida tinha tomado, e que tivessem partilhado um pouco da sua felicidade. 

Dez anos se tinham passado e nesse tempo quanta coisa acontecera.  Para trás ficara, aquele maravilhoso fim de semana, que fora a sua mini lua de mel e dera  verdadeiramente início `vida deles enquanto casal,  o  casamento religioso e o batizado dos meninos no dia em que eles festejavam o seu primeiro aniversário. A bonita festa, primeiro no hotel com alguns convidados e clientes importantes e depois muito mais emotiva, no refeitório da empresa com todos os trabalhadores.

 A ida dos filhos aos dois anos, para a creche da empresa, pois João dissera que preferia tê-los ali, não só porque estava mais perto deles, como porque eles deviam aprender de pequeninos a conviver com os filhos dos trabalhadores como seus iguais. A sua volta à vida empresarial,  quando Inês decidira que era hora de deixar a gerência da "Flor da Avenida", para voltar a engravidar. 

A venda da sua casa, e a concretização do sonho de construir no terreno que tinha na aldeia, um pequeno hotel rural, cuja gerência estava a cargo de Júlia Matias, uma das suas amigas de infância, filha do dono, do único café da aldeia. O hotel, onde eles já por várias vezes, tinham passado alguns dias de descanso e onde ela tinha uma certa vaidade, em se mostrar com o marido e filhos, mostrando a todos que não acabara sozinha como a mãe e avó.

Por causa da amizade dos seus filhos, com Bernardo, filho de um dos engenheiros da empresa, o menino tornara-se visita habitual da sua casa, assim como Olga que era considerada como uma irmã, não só pelo que ela e a mãe representaram no passado do seu marido, mas também porque ela era sua madrinha de casamento, e madrinha de batismo de Maria. E foi na sua casa que Olga e Duarte, o pai do Bernardo, se conheceram num dia em que ele foi buscar o filho e se apaixonaram. Com cinquenta e dois anos, Duarte não fora muito feliz até aí. A sua primeira mulher nunca quisera ter filhos, vivera mais para a carreira do que para ele, tanto assim, que quando lhe ofereceram um lugar de destaque na sede da empresa em Madrid, ela aceitou, e quando ele se negou a acompanhá-la não hesitou em pedir-lhe o divórcio. A segunda mulher morrera de desastre seis meses depois do nascimento de Bernardo, deixando-o sozinho com o filho.

A relação entre os dois podia ser tardia, mas foi tão rápida e tão apaixonada, que Olga na altura com quarenta e nove anos, se mudou para casa de Duarte, três meses depois de se conhecerem. E seis meses depois estavam casados e ela criava Bernardo com todo o amor, com se fosse sua mãe. Isso fora há sete anos e o casal continuava a irradiar felicidade.

- Então querida, ainda estás demorada? – perguntou João ao entrar no quarto. Já acabámos o jogo e as crianças estão com fome. Estão todos à tua espera.

-Vou já, estava relembrando o que foram estes dez anos, como somos felizes e de repente lembrei que a minha avó sempre dizia que “Deus escreve direito por linhas tortas” Já pensaste que se não tivesses estado doente, não terias feito a reserva de sémen, os médicos não se teriam enganado e nós nunca nos teríamos conhecido?

 -E tu já pensaste que aquilo que pensávamos ser uma cilada que a vida nos tinha armado, foi afinal a porta para uma nova vida, plena e feliz? – disse João abraçando-a e beijando-a.

Segundos depois ouviu-se uma batida na porta e a voz de David soou trocista.

-Se os pombinhos não têm fome, nós pudemos ir jantando?

Dando o beijo por terminado, os dois saíram enlaçados em direção à casa de jantar.

 

 Fim


Elvira Carvalho

 

12.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXIII

 


O mês de Setembro aproximava-se do fim, os bebés tinham feito sete meses há dias, estavam grandes e tão desenvolvidos que ninguém diria terem sido prematuros. Os três já se sentavam sozinhos, e interagiam tanto com os pais como com as enfermeiras e as amas.

Aproveitando o bom tempo de Verão, iam todos os dias à rua. Umas vezes com a mãe,  Sandra e uma das amas, outras com as amas e a enfermeira. E até já tinham ido alguns dias à praia, nessas alturas também com o pai, que procurava passar o máximo de tempo em casa com eles, mas que muitas vezes tinha que descer porque os negócios não se compadeciam com o abandono, e ele tinha muitos empregados, gente que dependia daquele emprego para viver.

Quando os bebés tinham cinco meses e meio, Teresa começou o desmame, sempre orientada pelas enfermeiras que continuavam lá em casa. Sandra de dia,  Rosa aos fins de semana, e Gabriela de noite. Reduzindo uma mamada de cada vez a cada quatro dias dias e tirando leite apenas três vezes por dia, compensando com o leite congelado anteriormente, de forma a que o corpo se fosse habituando a produzir consoante as novas necessidades, e evitando assim possíveis complicações como ingurgitamento, obstrução dos ductos, ou mesmo uma mastite. O processo durara quarenta e cinco dias, mas finalmente terminara na totalidade sem problemas de maior.

Pouco depois dos bebés completarem seis meses, marcara uma consulta com a doutora Laura, e conversara com ela sobre a sua vida sexual que ainda não iniciara, apesar de estar agora cada dia mais recetiva às carícias do marido. Contou-lhe que João não sabia se ainda podia ou não ser pai, devido ao tal tratamento agressivo que o fizera recorrer à clínica de PMA para guardar o seu sémen e pediu aconselhamento sobre contracetivos.

A médica disse-lhe que se estivesse no lugar dela, poria um dispositivo intrauterino, (DIU) Ela não poderia engravidar nos próximos anos e embora a eficácia da pílula fosse praticamente total, sempre podia ver o seu efeito anulado com alguns medicamentos. O DIU seria ideal, pelo que depois de um exame, ela mesma lho poderia implantar.

E fora o que acontecera.

Mas ainda não houvera uma noite de amor entre eles, apesar das carícias serem cada dia mais prazerosas, em parte porque João lhe queria proporcionar uma noite especial, fora do ambiente da casa, com as crianças amas e enfermeira.

Naquela Sexta feira, fazia um ano que após a consulta das doze semanas, os dois tinham decidido casar. João pensou que Tinha chegado a hora de iniciarem a vida conjugal, antes que ele perdesse de vez o controlo e acabasse por se esquecer da mini lua de mel que lhe queria proporcionar.

Assim falou com o irmão, que imediatamente se prontificou a falar com a mulher e a  irem ficar na sua casa a partir dessa noite e até domingo à tarde, de modo a que o casal pudesse ter um fim de semana só para eles.  Depois disso telefonou para um hotel nos arredores e marcou uma suite para recém casados,  para essa mesma noite. Marcou uma mesa para jantar num dos melhores restaurantes da cidade e foi a uma ourivesaria onde comprou um fio de ouro com um rubi em forma de coração. Só então voltou para casa.

Teresa esperava que a levasse a jantar fora nesse dia, porque na véspera tinham falado na data, mas não esperava que o marido chegasse a casa e lhe pedisse que colocasse numa mala, roupas para os dois dias que iam passar fora.

-Mas e os bebés? – perguntou.

- Não te preocupes. O David e a Helena estão a chegar, vão ficar aqui até ao nosso regresso. E as amas. E a enfermeira Gabriela de noite e a enfermeira Rosa no fim de semana. Vão estar bem cuidados e nós vamos ter um tempo só nosso. Como se tivéssemos acabado de casar agora. E se a saudade apertar, fazemos uma vídeo chamada. Vou tomar um duche. Mas antes quero dar-te uma coisa. 

Meteu a mão no bolso e entregou-lhe a caixinha que ela abriu com mãos trémulas.

- Meu Deus é tão lindo! – exclamou

- A medalha, - explicou João enquanto lho punha no pescoço– simboliza o meu coração, que é teu há muito tempo. Então, porque choras? - perguntou apertando-a contra o seu peito.

- Choro porque estou feliz, não te preocupes. Anda, vai lá tomar o teu duche, enquanto faço a mala.

 

 

11.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXII



Passaram-se  três meses, durante os quais Teresa só saiu de casa para tirar os pontos, e para as consultas necessárias com ela ou com os bebés. Apesar de todas as ajudas com amas e enfermeiras, sentia-se sempre cansada. Continuava a dar de mamar oito a dez vezes por dia, e nos intervalos continuava a tirar leite não só para alimentar um dos bebés, como para manter estimulada a produção, congelando o excesso quando sobrava para depois lhes dar quando começasse a ser necessário um reforço.  

 E ainda assim,  pensava que era uma privilegiada. Imaginava como seria a sua vida, sem família, a viver de um emprego e ter tido três filhos em vez de um. Não sabia se teria forças para sobreviver. E ela sabia que havia milhares de mulheres em todo o mundo, que passavam por isso.  

Outra coisa que a preocupava, era a relação com o marido. Desde que viera para casa, que partilhavam o leito conjugal, mas apesar de já ter passado o tempo de resguardo ainda não tinham consumado o casamento.  No início ele abraçava-a e ela deitava a cabeça no seu ombro e dormia assim o pouco tempo que lhes era permitido entre as mamadas dos bebés.

Passados que foram dois meses, as carícias do marido tornaram-se mais insistentes, mais ousadas, mas ou por causa do cansaço ou pela preocupação, o certo é que ela perdera o desejo que sentira pelo marido antes do parto, e começou a evitá-lo, procurando que os seus corpos não se tocassem.

Embora João não se queixasse, ela sentia-lhe o desejo frustrado, e ficava nervosa, cada vez que via a noite aproximar-se, e pensava que daí a pouco ele se ia deitar a seu lado. O pior é que os bebés percebiam o nervoso da mãe e mostravam-se mais inquietos.

Isso levou Sandra a inquirir o que se passava com ela, se estava doente, se tinha dores no peito, às vezes o mesmo gretava e causava dores. Não era o seu caso.

Apesar de entre as duas ter nascido uma relação de amizade, Teresa envergonhada não se abriu.

Porém quando Inês a visitou nessa tarde Teresa contou-lhe o que a atormentava. 

Inês contara-lhe que também tinha tido esse problema e que a doutora Laura lhe dissera que o cansaço, a ansiedade, e o aleitamento dos filhos, reduziam de forma drástica a libido de muitas mulheres.  Em vez de tentarem uma relação frustrante, deveriam optar por abraços prolongados, beijos, massagens, carícias mais ou menos ousadas, e ia ver que num mês ou dois o organismo ia começar a reagir e a exigir mais. ´

-E o certo é que realmente funcionou, - disse.

 A amiga também lhe aconselhou a ter uma conversa franca com João e explicar o que se passava.  De contrário ele podia pensar que havia da parte dela uma rejeição, ou até que ela se arrependera do casamento.

Por outro lado, os bebés tinham crescido imenso e os três estavam já com um peso muito semelhante, ao de bebés não prematuros. E dentro de dois meses poderia começar a alimentação artificial com a introdução de um reforço, que se ia tornando cada vez maior até deixar de dar de mamar por completo. E nessa altura, poderia enfim relaxar e ter um tempo só para eles dado que os bebés tinham duas amas e uma enfermeira para cuidar deles. 

 Nessa mesma noite, Teresa confessou ao marido o que se passava com ela e pediu-lhe que tivesse um pouco mais de paciência. Contrariamente ao que supôs, João mostrou-se compreensivo

- Casámos há oito meses, dormimos na mesma cama há três meses e ainda não tivemos a nossa noite de núpcias. Se temos que esperar mais dois ou três meses, esperaremos.  Afinal o que são alguns meses quando Jacob esperou 7 anos para ter Raquel - terminou sorrindo para a animar.    

 

10.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXI




Cinco dias depois, Teresa e os bebés deixavam o hospital, acompanhados pelo pai, que amparava a esposa e carregava um dos bebés no ovo, seguidos  pela enfermeira Sandra, que passara os dias anteriores, sempre junto de Teresa no quarto da maternidade hospitalar e por uma ama, cada uma carregando um ovo com um bebé .

 Por sua vez, João  embora tivesse que ir todos os dias à empresa despachar os assuntos mais urgentes, e entrevistar as possíveis amas, também passara com ela grande parte dos dias, e aos poucos foi perdendo o medo que inicialmente tinha de pegar nos filhos, aprendeu a mudar as fraldas, e até a dar o biberão ao terceiro bebé.

Teresa, tinha a sensação de que não fazia mais nada senão dar de mamar. Os bebés mamavam oito vezes ao dia, e a meio de cada mamada tinha que utilizar a bomba para extrair leite, (colostro) naqueles primeiros dias, para o terceiro. Para facilitar a rotina amamentava sempre dois ao mesmo tempo e João ou Sandra, quando o empresário não estava, dava o biberão ao terceiro.

E foi incentivada por Sandra e pelas enfermeiras de serviço a tentar dormir todo o tempo que podia a fim de poder descansar.

Entretanto os bebés, já saíram do hospital registados. Parecia impossível, mas os dois tinham deixado a escolha dos nomes dos bebés para depois do nascimento, pelo que na hora do registo, João lembrara as palavras da médica no momento em que a menina nascera e dissera que ela se devia chamar Vitória, mas Teresa dissera que o nascimento dos três tinha sido uma vitória por igual e que ela tinha pensado em Maria, por ser devota da Virgem e por a Ela ter rogado muita vez para que os meninos nascessem saudáveis e não precisassem ficar na incubadora quando ela tivesse alta.

Quanto aos meninos, o pai gostaria de que um deles se chamasse David, numa homenagem ao irmão que conhecera há tão pouco tempo e com quem descobrira uma ligação que nunca julgara possível. Até estava a pensar convidá-lo para padrinho. Por seu lado, a mãe desejava que um deles tivesse o nome do pai, pelo que acabaram por ser registados João e David como o pai e o tio. E não era difícil distingui-los, pois apesar de parecidos, não eram gémeos idênticos, mas fraternos.

Em casa, esperava-os Olga, com a outra ama que João já contratara. Tal como ele decidira, havia um quarto preparado para as amas, ao lado do quarto dos bebés e a cama que estivera no quarto de casal, onde dormira a enfermeira Gabriela durante a gravidez  de Teresa, fora levada para o quarto deles, onde a enfermeira passaria a dormir.  Ela chamaria as amas sempre que precisasse de ajuda para os levar a mamar, para os mudar, ou para os acalmar.

Depois que os bebés foram deitados nas suas caminhas, e Teresa se encontrava deitada e sozinha no quarto com o marido, este notou que ela se mostrava apreensiva, pelo que perguntou o que a preocupava.

- Disseste que ficavas aqui, mas levaram a cama para o quarto dos bebés, para a Gabriela. Onde é que tu dormes? – perguntou.

- Contigo. Afinal somos casados há quase cinco meses, Teresa.

- Mas…

- Sei o que estás a pensar. Mas pensa no seguinte. Nós não somos um casal normal. Não namorámos, não noivámos, não tivemos qualquer intimidade, a não ser um ou outro beijo e uma carícia dirigida aos bebés na tua barriga de grávida. 

Não sei se o que sentes por mim, mas posso dizer que desde o início senti uma grande atração por ti, que o meu primeiro pensamento no dia em que te conheci, foi de desejo e que ao longo destes quase nove meses essa atração não só cresceu, como se tornou num sentimento muito mais forte e íntimo que penso seja  aquilo a que chamam de amor.

Assim pensei que pudemos começar a criar laços de intimidade desde agora, aproveitando o tempo de resguardo da melhor maneira. Alem disso gostaria de estar contigo sempre que tenhas de amamentar de noite, gostaria de ser eu a dar o biberão a um dos bebés. Mas se não estás preparada, posso ficar num dos outros quartos. Penso que devia ter-te dito isto no hospital, mas estavas sempre acompanhada.

- Tens razão João, desculpa a minha timidez, afinal, nunca dormi com um homem.

- Sou o teu marido, querida. E de momento vou ficar feliz por partilhar a tua cama.  Por ora será apenas isso, um dia no futuro partilharemos a cama, os sentimentos e tudo o que a vida nos permitir que partilhemos.

- Mas e a Gabriela, e as amas?

- O que é que tem?

- Não vão ficar intimidadas para trazerem os bebés ao quarto, contigo aqui?

- Não te preocupes. Olha, temos aqui um radio transmissor, que nos avisará quando eles acordarem. Então levanto-me, e aguardo levantado que elas venham trazê-los. Não me encontrando deitado, ninguém se vai sentir intimidado.




9.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXX

Porque enfim acabei esta história ela sairá diariamente até acabar




Vinte minutos depois, Teresa era levada para o quarto, e logo depois os três berços também.

Foi autorizada a permanência do pai no quarto, mas Olga e Sandra não poderiam ficar mais de cinco minutos, primeiro porque a parturiente não se podia cansar, segundo, porque dentro de minutos ela iria receber a visita de uma enfermeira especializada em aleitamento materno que lhe ia ensinar como amamentar os bebés.

Uma vez, que a sua amiga estava no turno da noite, Sandra falou com a enfermeira de serviço, mostrou a sua identificação profissional e assumiu-se como enfermeira particular da parturiente pelo que pedia autorização para ficar com ela no quarto enquanto ela se mantivesse no hospital. 

A enfermeira disse-lhe que não tinha poder para lhe dar essa autorização, as normas no hospital diziam que as visitas só eram possíveis a partir das quinze  até às dezassete, nunca mais de duas pessoas, além do pai, mas dado o seu caso especial, ela poderia falar com a enfermeira chefe, pois só ela poderia dar ou não essa autorização. Sandra, assim fez e em breve recebia um cartão que lhe dava livre acesso à  permanência no quarto, pelo que João disse a Olga que podia regressar à empresa, Sandra apanharia um táxi quando saísse.

Sandra ainda mal tivera tempo de ver os bebés, quando uma enfermeira entrou no quarto para explicar a Teresa, como fazer para amamentar os bebés.

- Boa tarde. Sou a enfermeira Filomena Seabra, especialista em aconselhamento de amamentação. Estou aqui para lhe ajudar as esclarecer todos as dúvidas em relação à boa alimentação dos seus bebés. Fez alguma preparação para estimular o peito antes do parto?

-Sim, foi uma gravidez de risco, estive sempre acompanhada por uma enfermeira que me ajudou – disse Teresa apresentando Sandra.

-Muito bem, isso é essencial, mas agora chegou a hora de por em prática o que aprendeu e ver se resulta. Vamos tentar dar a primeira mamada.

Sandra apressou-se a levantar a cabeceira da cama e a ajeitar a almofada nas costas de Teresa de modo a deixá-la o mais confortável possível.

A enfermeira Filomena retirou do berço um dos bebés e disse:

 - Primeiro vamos despir o bebé e coloca-lo sobre o peito da mãe. O contacto pele com pele, com a mãe é muito importante e deveria ter sido feito na sala cirúrgica, mas como estes bebés são especiais por serem múltiplos e prematuros, e não se saber se precisariam ou não de ir para a incubadora, não foi feito na altura. Portanto vamos fazê-lo agora

Vamos despir um de cada vez, deixá-lo só envolto na mantinha e deitá-lo durante alguns minutos no seu peito. E vamos ver se ele agarra na mama. É muito importante estimulá-los. Faremos isso com cada um. Mais tarde quando lhe apanhar o jeito poderá amamentar dois de cada vez e o terceiro por biberão. Deve ir alternando o que amamenta por biberão para que não se torne preguiçoso a sugar, já que para eles é mais fácil sugar da tetina do que do peito.

 Vai ter que tirar leite, no intervalo das mamadas não só para estimular uma maior produção, mas para alimentar o terceiro bebé.

Todavia isso não vai ser problema se vai ter a seu lado a tempo inteiro uma enfermeira, ela não só a ajudará a tirar e conservar o leite até à mamada seguinte como lhe esclarecerá as dúvidas que tenha na altura.  

-E se eu não tiver leite suficiente para os três? – perguntou Teresa.

-Vai ter não se preocupe. A natureza se encarrega disso. O corpo de uma mulher é uma fábrica de leite. Quanto mais os bebés sugarem mais leite a mãe produz. Há estudos que dizem que uma mãe, pode produzir três litros de leite por dia. E em média, um bebé masculino, mama por dia 881mililitros. As meninas menos. Por isso não se preocupe.

Enquanto falava desapertara a parte de cima da menina e disse:

- Vamos lá pai, segure a sua filha e ponha-a no peito da mãe. É muito importante tanto para os bebés quanto para a mãe, que o pai e companheiro tome parte no processo sempre que possível.

- Mas, - balbuciou João. É tão pequenina, como vou segurá-la?

- Assim, - disse a enfermeira colocando-lhe a bebé no colo.

Tremendo João voltou-se com a filha nos braços e ajudado pela enfermeira depositou-a no colo da mãe, que já abrira a bata de modo, a apresentar a parte superior do corpo nu, ao contato com a pele da sua filha.

Durante uns minutos a bebé esteve ali sendo estimulada pela mãe e pela enfermeira até que segurou a mama e começou a sugar. Minutos depois a enfermeira retirou a bebé, vestiu-a e deitou-a no berço. Repetiu a operação com os meninos, primeiro um depois o outro, sempre incentivando João a participar do momento.

8.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXIX



Pouco depois Sandra e Olga chegavam ao hospital. As duas deram-lhe os parabéns, e Sandra disse após ter-lhe entregue as chaves do carro:

-Tenho uma amiga que é enfermeira no bloco da maternidade. Posso ir lá acima ver se ela está.

- Não vale a pena, a Teresa está no recobro, vamos almoçar e na volta subimos. Não sei se a podem ver hoje, a médica disse que não era bom ter visitas para que ela descansasse, mas nessa altura a Sandra poderá procurar a sua amiga ou informar-se com outra enfermeira.

Saíram do hospital e seguiram para um restaurante que havia ali numa transversal a uns cinquenta metros do hospital.

Não era um restaurante de luxo, mas tinha um ambiente agradável e o prato do dia “Cozido à Portuguesa”, era menu  que todos gostavam e isso foi ótimo, já que João queria estar na maternidade do hospital quando a mulher saísse do recobro e já tinham passado cinquenta minutos desde que ela lá entrara.

Quando o empregado chegou, João pediu três doses de Cozido e para acompanhar um tinto Conde D’Ervideira reserva. O empregado disse-lhe que as doses ali eram grandes e que talvez as senhoras quisessem apenas uma para dividirem. E o vinho não tinham. Tinham poucos vinhos engarrafados, as pessoas da zona quase todas optavam pelo vinho da casa, um alentejano de boa qualidade, mas se quisessem engarrafado ele aconselhava o Marquês de Marialva. E o empresário aceitou a sugestão.

Durante o almoço, João foi pondo-as ao corrente de tudo o que acontecera na sala cirúrgica.

- Se os bebés respiram bem, têm controle da temperatura corporal e são bebés nível dez, não precisam ficar no hospital, vão para casa com a mãe quando ela tiver alta, - disse Sandra.

- E a Sandra vai continuar lá em casa como até agora, não só por causa dos bebés, mas também para ajudar a Teresa a alimentar os bebés. Ela vai amamentar, mas apesar de termos lido alguns livros sobre o assunto parece que amamentar três bebés, é difícil pelo menos até a mãe ganhar uma certa rotina. Decidi que vou manter as três enfermeiras, até os bebés terem um ano. E vou contratar duas amas. 

Olga amanhã entras em contacto com a agência, pedes duas amas, competentes e responsáveis, livres, que possam ficar internas durante um ano. Penso que a partir dessa data, nos bastará a sua ajuda de dia, mas quando lá chegarmos se verá. Preciso que entres em contacto com a empresa que decorou o quarto dos bebés. É preciso que eles preparem o quarto ao lado, para as duas amas. A Gabriela dormirá no quarto onde eu estive estes meses, eu fico com a Teresa.  Claro que nós estaremos sempre lá para eles, mas vamos precisar muito de ajuda, até porque não posso descurar os negócios, pois vocês melhor que ninguém sabem que deles dependem muitas famílias.

-Os bebés não podem dormir sozinhos nos primeiros meses-- disse Sandra. E melhor que a cama da Gabriela seja colocada no quarto deles, e ela durma lá. Ela poderá chamar as amas para lhe ajudar quando for preciso levá-los a mamar. ou para os mudar.

 Entretanto acabaram a refeição, e João chamou o empregado. Este veio com a lista de sobremesa, que os três dispensaram por terem abusado do Cozido à portuguesa,  que estava realmente muito bem confecionado,  pelo que ele apenas pediu os cafés e a conta.

Enquanto esperavam, Olga disse:

- 14 de Fevereiro. Já pensaste que nunca vais festejar de um modo especial o dia dos namorados, porque sempre estarão a festejar os anos dos vossos filhos?

-Acreditas que nem me lembrei do dia que era?  E daqui para a frente este sempre vai ser o dia deles, mas não importa, sobram 364 dias para namorar, - disse sorrindo.

Acabado o café, pagou e saíram em direção ao hospital. Ao passar por uma florista João disse.

-Esperem um pouco, vou comprar umas rosas para a Teresa.

- Não lho aconselho, - disse prontamente Sandra, os médicos devem ter recomendado que levem os bebés para junto da mãe, assim que ela subir para o quarto. É essencial que eles tomem contacto com o corpo dela, oiçam a sua voz, e sejam colocados no seu seio para mamar. E os bebés podem ser alérgicos ao perfume das flores.

 

7.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXVIII






- Bom dia, Olga.

-Bom dia, João. Como está a Teresa? Os bebés já nasceram?

- A Teresa está no recobro, os bebés já nasceram e estão bem, mas são tão pequeninos.

- São três num espaço que é suposto ser só para um. E ademais são prematuros, mas o essencial, é que estejam bem. Foram para a incubadora?

- Não, os médicos dizem que eles estão a respirar bem e que apesar de pequeninos, não apresentam qualquer problema que necessite ajuda médica. Foram para o berçário, até a Teresa sair do recobro, depois vão para o quarto para ao pé da mãe. Ela mal os viu, eles foram logo com o neonatologista para serem examinados. Mas depois falamos melhor. A Sandra está por aí?

-Está no posto médico. A enfermeira Gabriela fez o favor de esperar por ela para a avisar, senão nem sabíamos de nada.

- Deves compreender que foi tudo tão rápido que não deu tempo para nada. Agora toma atenção, vai ao meu gabinete e da primeira gaveta da esquerda, tiras a chave suplente do meu carro e diz à Sandra que mo venha trazer. E tu passa as chamadas para o escritório, e segue-a no teu carro. Preciso falar convosco, são quase horas do almoço, podemos almoçar por aqui perto, a Teresa só sai do recobro dentro de duas horas. Mais tarde levas a Sandra até ao carro dela.

Antes de vires telefona à Gabriela dá-lhe a notícia. Não demorem, espero-vos na entrada do hospital.

Desligou a chamada, e ligou para o irmão que tinha o telemóvel desligado, provavelmente por estar em audiência no tribunal e então ligou para Helena, a cunhada para lhe dar a notícia. 

Ela fez-lhe um monte de perguntas, se tinha corrido tudo bem, se tinha sido rápido, se ele assistira ao parto, se a Teresa estava bem se os meninos estavam na incubadora, se os podiam ir visitar, enfim uma infinidade de perguntas a que ele foi respondendo com podia e sabia, já que só quando a mulher fosse para o quarto poderia falar com a enfermeira do bloco, para saber essas coisas. 

Atravessou o átrio do hospital e chegou à porta da rua onde iria esperar pelas duas empregadas.

Olhou à volta, apesar do calendário marcar o dia catorze de Fevereiro, o dia estava lindo, a temperatura amena, o sol brilhava radioso, e as árvores cobriam-se de minúsculos brotos, que mais tarde as encheriam de belas e verdes folhas. Ainda faltava mais de um mês para o início da Primavera, mas o clima do dia, já parecia tê-la antecipado. 

Era um dia lindo para iniciar a vida. Oxalá a vida dos seus filhos fosse composta por milhares de dias lindos e felizes. Sabia que a vida não é um mar de rosas, ela também tem os seus espinhos, mas também sabia que se Deus lhe desse vida e saúde, ele tudo faria para amenizar esses espinhos, quer  eliminando-os, quer educando-os e dando-lhes ferramentas para que eles próprios se livrassem deles.  E tinha a certeza que teria sempre a ajuda de Teresa. Ela era uma grande mulher. E ele era um homem de sorte. Tinha a certeza de que nem procurando com uma lupa, encontraria outra como ela. 

2.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXVI


 



Embora para Teresa, a viagem na ambulância parecesse levar uma eternidade, ela foi feita a alta velocidade e demorou poucos minutos a chegar ao hospital onde a parturiente já era aguardada para ser transportada à sala de cirurgia. Antes de entrar, despiram-na e enfiaram-lhe nos braços uma bata, que seria de apertar atrás, mas que foi apenas enfiada nos braços, ficando solta.
 Entretanto João recebeu também uma bata, uma touca, uma máscara e uma espécie de sapatos em plástico, tudo devidamente esterilizado, para que pudesse penetrar na sala cirúrgica e assistir ao nascimento dos seus filhos.

Por ser uma gravidez de risco em que a futura mãe passara os últimos meses de cama e o parto ia s tinha sido programado por cesariana pelo que, Teresa não fez nenhuma preparação para o parto, pelo que estava muito nervosa com medo de não ser capaz de dar à luz e de alguma coisa correr mal.

Na sala, já se encontrava uma equipa médica da qual faziam parte a obstetra doutora Laura, uma anestesista, um neonatologista e várias enfermeiras. 

A doutora, examinou a parturiente e disse:

- Um deles está prestes a nascer. Se o pai é homem de coragem pode colocar-se à cabeceira da mãe. Se pensa que vai desmaiar, o melhor é ficar o mais afastado possível, pois a nossa atenção tem que estar centrada apenas na mãe e nos bebés.

 João não respondeu, mas chegou-se ao local indicado e apertou uma das mãos da mulher entre as suas.

Enquanto a anestesista aplicava a Teresa a epidural, a doutora Laura ligava-a a um monitor fetal, para ver o progresso dos bebés.

- Já começa a ver-se a cabeça do bebé, - disse uma enfermeira, e a médica acrescentou.

-Vamos lá mãe, vamos fazer força, que isto vai ser rápido.  A vantagem nos partos múltiplos é que os bebés são bem mais pequenos passam mais facilmente o canal vaginal.

E realmente um quarto de hora depois nascia o primeiro bebé.

-É a menina, - disse a médica entregando-a rapidamente aos cuidados do neonatologista que se afastou com ela acompanhado por uma enfermeira, a fim de examinar se o bebé estava bem, apesar de prematuro e pequenino

- É uma vencedora. Conseguiu deixar os irmãos para trás, - disse a médica sorrindo enquanto observava no monitor a posição do segundo bebé. E logo acrescentou:

-Vamos lá recomeçar a fazer força, mãe. Isto vai ser muito rápido. O segundo bebé está pronto a nascer.

- E trinta minutos depois, nascia o primeiro rapazinho, que era entregue ao neonatalogista para avaliar a sua situação de saúde.

Os primeiros cinco minutos de vida, são de extrema importância para a observação dos prematuros. Entre o primeiro e o quinto minuto de vida, o bebê recebe uma nota que vai de zero a dez, com relação a parâmetros como a intensidade dos batimentos cardíacos, o tônus muscular e a respiração. Se essa nota for abaixo de sete, podem surgir complicações, e o bebé segue a incubadora, sendo monitorizado e alimentado por sonda. Com nove ou dez, estão perfeitamente capazes de viver sem qualquer ajuda artificial, embora sejam bem mais pequeninos que os bebés  com o tempo total de gravidez.

A menina já tinha sido observada e apesar de pequenina, não apresentava nenhum problema de saúde, os seus pulmões e parte respiratória funcionavam perfeitamente, não precisava de ajuda médica como apoio de vida. Recebera a nota máxima.

 A doutora Laura observava o terceiro bebé no monitor, enquanto João tentava dar ânimo à mulher, que parecia extremamente cansada, enquanto uma enfermeira lhe limpava o suor da testa

De súbito a médica disse:

- Raios! O corpo parou o trabalho de parto e o terceiro bebé está pronto para nascer, vai entrar em sofrimento. Vou ter que fazer uma cesariana  - disse enquanto trocava as luvas, que usara até aí por umas limpas.


 

30.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXV


Teresa dormiu mal, incomodada por uma dor nas costas que não a largava desde as dez horas da noite. Não que ultimamente não tivesse sempre dores, só o ter que estar deitada há quase dois meses lhe fazia dores no corpo, mas aquelas eram mais intensas. 

Será que estava com alguma infeção urinaria, interrogou-se? Tentou virar-se para o outro lado e gemeu levando à boca o lençol para evitar acordar a enfermeira. "Coitada" - pensou - também quase não dormira, ela levara a noite a chamá-la, a toda a hora aflita por uma premente vontade de urinar. Os últimos tempos não tinham sido nada fáceis, mas Graças a Deus, a gravidez estava quase no fim.

O mês de Fevereiro ia a meio e ela tinha a cesariana marcada para o dia um de Março, altura em que estaria com trinta e seis semanas.

 Para trás ficara o casamento do cunhado, a que não assistira, o Natal passado em casa, com os noivos, acabados de regressar da lua-de-mel, Olga, e a Inês e família. Nessa altura ela dera folga às enfermeiras, para que também elas tivessem o Natal com as suas famílias, e Olga fizera questão de dormir no seu quarto e cuidar dela com todo o carinho. Às vezes Teresa pensava, no que levara Olga a escolher uma vida solitária. Apesar dos quarenta e seis anos, tinha ainda um aspeto jovem, era bonita, inteligente e carinhosa.  

Voltou a sentir uma dor mais forte e desta vez não conseguir evitar o lamento que acordou a enfermeira. Gabriela levantou-se e aproximou-se da cama.

-Que se passa dona Teresa? - perguntou a ver o seu rosto pálido e crispado.

Teresa explicou-lhe e a enfermeira alarmou-se:

- Meu Deus devia ter-me dito logo ontem, - disse afastando a roupa para a observar precisamente no momento em que a bolsa amniótica se rompia e Teresa tinha a sensação de que acabava de fazer xixi na cama.  Gabriela endireitou-se e correu para o telemóvel dizendo:

- Os bebés não querem esperar mais tempo. Vou chamar a ambulância, e telefonar à doutora Laura.

Ao mesmo tempo que falava ao telemóvel, ela corria para o quarto de vestir onde pegou nas malas com as roupas dos bebés, para levar para o hospital e colocou-as em cima do sofá. Depois foi bater à porta do quarto do empresário gritando que tinha chegado a hora.

Correu à casa de banho, lavou-se e vestiu-se com toda a rapidez.

Depois ajudou Teresa a sentar-se na cama para trocar a camisa de dormir molhada e vestir-lhe o robe. Tinha acabado de o fazer quando João entrou no quarto já vestido, e os dois ajudaram Teresa a deslocar-se até ao sofá, porque a cama estava toda molhada. Ela  movia-se com muita dificuldade. Estava com  trinta e quatro semanas e além das dores, pesava mais vinte e cinco quilos. 

Já no sofá agarrou a mão do marido como se buscasse nele a coragem que lhe faltava.  

-Tenho tanto medo, João. E se eles ainda não estão capazes de sobreviverem? - disse com as lágrimas a deslizar pelo rosto pálido e suado.

Embora ele também estivesse apreensivo, disse:

-Não penses nisso, amor. A natureza é sábia. Se eles querem nascer é porque estão prontos para enfrentar o mundo. E depois a doutora Laura não te receitou aquele medicamento para acelerar o desenvolvimento dos pulmões e parte respiratória? Vai correr tudo bem, vais ver.

Naquele momento chegou a ambulância e os paramédicos apressaram-se a transportar a jovem depois de terem sido informados pela enfermeira do "rebentamento das águas" e de que se tratava de uma gravidez múltipla de trinta e quatro semanas.

Já na entrada do elevador, o empresário disse:

-A Gabriela pode ir para casa. Eu sigo com a Teresa para o hospital.

- Por favor dê-me notícias. Fico em cuidado, - respondeu a enfermeira.

27.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXIV


Naquele dia, a ida à consulta foi mais demorada, pois Teresa teve que fazer análises, antes de poder ser atendida pela médica.

Mais tarde, já na consulta, a doutora não se mostrou nada surpreendida ao saber que os dois eram agora um casal. Disse, que ao ver a emoção dos dois, aquando da ecografia anterior, e o modo como ambos se olhavam, pensou que o destino deles seria o casamento. Depois explicou-lhes que as análises que tinha feito eram, a de anticorpos anti-toxoplasmose, e da diabetes, e que estava tudo bem.

A ecografia, foi mais demorada, a médica estava muito atenta a cada um dos bebés, sem fazer comentários, o que estava a pôr o casal muito nervoso.

Finalmente disse-lhes que os bebés estavam ótimos, não apresentavam qualquer deficiência,  os órgãos abdominais, estômago, intestinos e fígado estavam completos e os bebés mediam agora quase  quinze centímetros, da cabeça às nádegas e pesavam cerca de duzentos e cinquenta gramas. Era um pouco menos do que um bebé único com o mesmo tempo, mas estava muito bem para trigémeos. E mostrou-lhes o sexo dos bebés no ecrã. Dois meninos e uma menina. 

-A partir de agora,  disse a doutora Laura, eles já distinguem o bater do seu coração e o som da sua voz. Também vêm e experimentam emoções e partilham consigo. as suas mudanças de humor e as suas sensações, razão porque deve evitar ao máximo emoções fortes.

Teresa queixou-se da barriga já bastante grande e do peso a mais e a médica riu-se dizendo-lhe que três bebés não se podiam desenvolver no espaço de um e quanto ao peso ainda ia aumentar mais uns bons quilos Pois a partir de agora os bebés iriam crescer com muito mais rapidez do que até aí. 

-E a propósito - acrescentou - muito cuidado com as guloseimas, em que o Natal costuma ser farto.  

Disse-lhe ainda que a partir de agora, iria ter muito mais sono, e provavelmente baixas de tensão arterial quando deitada de barriga para cima, ou sentada, devido à pressão do útero na artéria aorta e veia cava quando o corpo está nessas posições.

Acrescentou ainda que era cada vez mais importante o repouso, não podia fazer esforço absolutamente nenhum.

Teresa aproveitou para perguntar:

-O meu cunhado vai casar, dentro de quinze dias e desejava que fossemos os padrinhos. A doutora acha que eu posso ir? 

- Se fosse uma gravidez normal, eu diria que sim desde que não estivesse muito tempo em pé e evitasse as emoções intensas. No caso da Teresa, com uma gravidez múltipla, não aconselho. Nessa data já estará com vinte e duas semanas e daqui para a frente o tempo é muito importante. 

Tem que aguentar esses bebés no útero o máximo de tempo possível, para que os seus órgãos internos ganhem maturidade e quando realizarmos a cesariana, eles estejam capazes de funcionar normalmente e não oferecerem riscos de sobrevivência para os bebés. O ideal seria como já lhe disse na última consulta, conseguir chegar às trinta e seis semanas, embora isso seja raro nas gravidezes múltiplas.  O facto de estar a toda a hora acompanhada de uma enfermeira, sossega-me. 

A propósito, deve ser a enfermeira que a acompanha, a colocar-lhe o cinto de segurança sempre que tenha de andar de carro. Uma má posição do cinto, pode causar danos graves aos bebés. E, a partir de agora quero vê-la de quinze em quinze dias.

E pronto, por hoje é tudo, aqui tem a marcação da próxima consulta, as receitas foram enviadas para o seu email.

O casal despediu-se, e saiu. Na sala de espera, Sandra perguntou se precisava entrar.

- Desta vez não - disse João encaminhando-se para a saída. -  A doutora Laura já nos fez todas as recomendações, e disse-nos que devia ser a Sandra a colocar o cinto de segurança na Teresa, pois se colocado de forma incorreta pode trazer danos aos bebés. Acompanhe a Teresa, enquanto eu vou buscar o carro.

25.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXIII




Casaram três semanas depois, numa cerimónia íntima, no átrio da sua casa, tal como João propusera. À, já de si bela decoração do átrio, que se assemelhava a uma sala, no meio da natureza, um decorador, juntou uma pequena gruta e uma cascata além da mesa da cerimónia. 

 Dos vestidos de noiva, que uma conhecida casa de modas levara até Teresa, ela escolhera um modelo, comprido em cetim e renda, cortado sob o peito e caindo a direito pois disfarçava a sua notável barriga, apesar de contar apenas quinze semanas.


Foram padrinhos do noivo, Olga e David e da noiva Inês e seu pai, Mário.

Além destes e do Conservador que ia realizar a cerimónia, estavam apenas, meia dúzia de pessoas mais, pessoas por quem os noivos tinham consideração. Helena, a noiva de David, o advogado, Afonso Cardoso e esposa, dada a relação de amizade que os ligava ao noivo, Gustavo, o marido de Inês, o filho Martim, muito compenetrado no seu papel de levar à madrinha  as alianças e Sofia, a mãe de Inês, e mulher de Mário, além claro de Sandra, a enfermeira.

 Eram poucas pessoas, sim, mas eram aquelas com  quem tinham uma verdadeira ligação de amizade e com quem eles queriam partilhar aquela mudança nas suas vidas. E todos puderam testemunhar a genuína emoção dos noivos, quando pronunciaram os votos. 

 No final da cerimónia houve uma pequena comemoração, e pouco depois a noiva agradeceu a presença de todos e retirou-se acompanhada pela enfermeira e pela madrinha, que a ajudaram a despir-se e a deitar-se. 

 E Outubro chegou ao fim  com o início do outono apresentando-se nubloso, mas não frio. Nos dias em que o sol se dignava aparecer, Teresa, sempre acompanhada por Sandra, passeava um pouco pelo terraço, admirando as cores vibrantes, com que a natureza ia pintando as árvores no parque lá em baixo. Por vezes sentavam-se num cadeirão conversando como se em vez de paciente e enfermeira, fossem duas amigas. E na verdade era assim que  Teresa, considerava a simpática enfermeira. Das três,  aquela com quem ela menos se ligara, fora com Gabriela, a que ficava com ela de noite.  Não porque não fosse  carinhosa e competente, mas porque passava quase todo o tempo a dormir.

No que se referia à sua rotina, o casamento não viera alterar grande coisa. Os dois faziam juntos as refeições, conversavam, faziam planos para o futuro, como qualquer outro casal. Escolheram o quarto mais perto do principal, para os bebés, e já o estavam a decorar, ou melhor, Teresa escolheu os móveis em revistas de decoração e o marido encomendou-os, depois de ter contratado uma empresa que esvaziou o aposento e o pintou como motivos infantis. 

João, estava decidido a ser para os seus filhos, um pai bem diferente do que tinha sido o seu. Por isso investigou na Internet tudo sobre bebés e a interação dos pais com eles. E ao ler num desses sites que os pais deviam estabelecer contacto com os bebés, cantando-lhes, ou contando-lhe histórias antes de nascerem, para que se fossem habituando à sua voz, decidiu fazê-lo. Comprou alguns livros com histórias infantis, e todas as noites, depois do jantar, levava Teresa para o escritório, sentava-a no sofá, sentava-se a seu lado e pegando num dos livros, lia em voz alta uma história para os bebés. Por vezes interrompia-se para acariciar o ventre dela, e dizer aos filhos que gostava muito deles, que os esperava com ansiedade, coisas que ela não sabia se os filhos ouviam, ou entendiam, mas que a ela a emocionavam, e faziam com que cada dia se sentisse mais apaixonada pelo marido.

E aos dias, cada vez mais pequenos, sucediam-se as noites, o tempo corria inexoravelmente, o ano aproximava-se do fim. Na semana seguinte iniciava-se Dezembro, o mês do Natal, e do casamento do seu cunhado. David queria que eles fossem os seus padrinhos, mas embora ela tivesse desenvolvido, uma relação de amizade com o cunhado e gostasse bastante dele e da sua noiva, não se sentia com coragem para enfrentar uma cerimónia na igreja, antecedida por uma missa. Completara vinte semanas de gravidez, mas o ventre estava tão dilatado, que parecia ter pelo menos mais dez, e pesava mais catorze quilos.  

Bom, - suspirou naquela noite antes de adormecer. Vamos ver qual a opinião da doutora Laura, amanhã na consulta.

 

 

23.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXII

 


-Boa tarde Olga.  Alguma novidade? – perguntou o empresário ao passar pela secretária da sua assistente.

- Comunicaram do armazém para avisar que já seguiu a encomenda do Survive II, para a Holanda. E o dr. Afonso diz que precisa falar contigo, por causa do contrato dos estagiários.  Mas diz-me, como correu a consulta da Teresa, está tudo bem com ela e os bebés.

- Vem, falamos no meu gabinete, - disse abrindo a porta.

Uma vez lá dentro, João despiu o casaco e pendurou-o num cabide, afrouxou e tirou a gravata, e pendurou-a também.

-Senta-te mulher, - disse ao ver que Olga  continuava de pé. - Estou cansado de te dizer, que quando estamos sós, não tens que aguardar ordem para te sentares.

Ela obedeceu e esperou que ele falasse.

A médica disse que está tudo bem. A Teresa, está com bom peso, e os bebés já estão formados. Até já vimos que um é menino. Os outros dois tinham o sexo escondido. Parece que daqui para a frente é só crescerem e desenvolverem os órgãos internos. Imaginas o que é um bebé que da cabeça aos pés, mede cinco centímetros?

- Mais pequeno que qualquer boneco. Os meus parabéns. E a gravidez continua a ser de risco?

-Sim, mas segundo a médica, parece que a partir de agora o risco de aborto diminuiu e embora a Teresa tenha que continuar com muito descanso não precisa passar o resto da gravidez de cama a não ser que surja qualquer problema. Pelo menos por agora pois também lhe disse que depois das vinte e quatro semanas é provável que volte a estar o tempo todo deitada, para tentar aguentar os bebés o máximo de tempo possível, pois se nascerem muito antes das trinta e seis semanas, provavelmente precisarão de incubadora. E sabes a novidade maior. Convenci a Teresa a casar comigo. Finalmente vou saber o que é pertencer a uma família, a minha.

- Que bom João.  Fico tão feliz por ti, que tenho vontade de abraçar-te.

- E o que esperas para o fazer? - retorquiu pondo-se de pé.

Ela também o fez e os dois abraçaram-se emocionados.

- Lembras-te do que te disse a primeira vez que me falaste da Teresa depois da primeira visita dela? - perguntou Olga com a voz embargada, enquanto se sentava de novo. 

-Sinceramente, não.

-Eu disse: "Deus os fez, Deus os juntou" Acredito nisso, sabes? E acredito que vão ser uma família feliz. E para quando é o casamento?

- Por tudo o que te disse, o mais breve possível. Espero que dentro de duas, três semanas no máximo. Amanhã vou começar a tratar de tudo, e espero que me ajudes, pois, receio esquecer-me de algo importante. Vai ser uma cerimónia íntima, com pouco mais que os padrinhos, lá em cima no átrio. Depois dos bebés nascerem, casamos pela igreja e fazemos então a festa que não é possível agora, dadas as circunstâncias. E, claro, que conto contigo para minha madrinha.

-E eu sinto-me honrada pelo convite. Parece-me que tens tudo mais ou menos delineado, por isso só tens que me dizer o que queres que eu faça.  A propósito, não me mostraste o anel de noivado.

- Meu Deus, o anel. Como é que me esqueci disso? Anda, veste o casaco e vamos à ourivesaria.

-Agora? Esqueceste o doutor Afonso?

- Olha, liga para o departamento jurídico e passa-me a chamada.

Minutos depois estava em contacto com o advogado.

- Boa tarde, Afonso. Que se passa com os estagiários?

- Estão a terminar o estágio. E dos três, dois são mesmo muito bons e gostava de continuar com eles, o problema é que só temos vaga para um.

- Traga-os amanhã ao meu gabinete às dez e resolvemos isso. Agora preciso sair.

20.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXI

 


- Porque embora eu espere viver muitos anos, para desfrutar da família que vamos criar, ninguém sabe o dia de amanhã, “para morrer, basta estar vivo” como costumava dizer a falecida dona Hortense, mãe da Olga. E eu quero que se me acontecer alguma coisa, tu e os meninos estejam legalmente protegidos pelo casamento, e sobretudo que eles não sejam considerados bastardos. Também quero que me prometas, que se me acontecer alguma coisa, lhe dirás sempre que  eles foram concebidos com muito amor, e não saibam nunca a maneira fria e mecânica, como foram gerados. Prometes-me isso?

-Prometo.

E aceitas que o casamento seja o mais rápido possível?

-Visto por esse ângulo sim, muito embora  me custe a entender que penses nisso. Afinal de contas és um homem jovem e saudável.

-Aos vinte anos era mais jovem e também me julgava saudável e sabes o que aconteceu. Claro que eu espero viver ainda muitos anos, mas sempre ouvi dizer que mais vale prevenir do que remediar. Mas, deixemos de lado pensamentos tristes e diz-me. Como sonhaste o teu casamento?

- Nunca sonhei que me casaria a não ser na adolescência, e nessa altura,  penso que como todas as jovens, sonhava com um casamento de princesa. Depois cresci e a vida se encarregou de me mostrar que os príncipes só existiam nas histórias infantis. Na vida real, os homens estavam mais para sapos, do que para príncipes. Desculpa…

-Não tens que pedir desculpa, não me sinto nem uma coisa, nem outra. Quero que saibas, que devido à minha situação profissional, sou um homem que está habituado a tomar todas as decisões. A ser sempre eu a decidir, o que se faz e o que não se faz.  Sei que aquilo que eu quero e penso, não tem de ser forçosamente aquilo que tu pensas e queres. Então promete-me, que sempre que isso acontecer mo dirás. Para que cheguemos a bom porto, sem  que tenhas que te anular, em função do que eu penso ou desejo. Esclarecido este ponto, vou dizer-te o que pensei em relação ao nosso casamento. Com a certeza de que mudarei, aquilo que não te agrade. 

Pensei que dado o teu estado, podemos realizar uma cerimónia íntima, aqui mesmo, lá fora no átrio, que é um espaço bonito. Poderás escolher o vestido e tudo o mais que precisares pela Internet, e a Olga ou a Inês poderão tratar do assunto. Ou, o que eu penso ser bem mais prático, eu telefono para uma loja da especialidade e eles mandam alguém com vários modelos para escolheres e experimentares, até porque dada essa barriguinha,  decerto terão que fazer alguns ajustes no modelo que escolheres. 

Convidaríamos os padrinhos e alguns familiares deles;  como por exemplo, Helena, a noiva do meu irmão, e Sandra a tua enfermeira, ou as três se preferires. Do teu lado creio que também não são muitas pessoas.

- A Inês e família, incluindo os pais dela, pois já te falei, do quanto os pais dela, têm sido importantes para mim.

- Claro que sim. Depois da cerimónia, teríamos aqui uma pequena comemoração.  Após o nascimento dos bebés, poderemos então realizar o teu casamento de sonho,  uma cerimónia na Igreja, e uma festa num hotel, para alguns dos meus melhores clientes e colaboradores. E até fazer uma festa no refeitório para todos os outros empregados.

 A lua-de-mel, é que é mais complicado, acredito que nem eu, nem tu, vamos querer viajar e deixar três bebés ao cuidado de amas; e uma lua de mel com três bebés e três amas, no mínimo seria muito estranho.  De modo que penso que a lua de mel terá que ser protelada por um ano ou dois, até que os meninos estejam mais crescidos e depois quem sabe, podemos deixá-los com a Olga e as amas. Estás de acordo?

- Sim - disse ela, recostando-se e procurando mudar a posição do corpo.

- Meu Deus estás cansada. Vem, - disse estendendo-lhe a mão para a ajudar a levantar - se. Tens que te deitar um pouco, esqueci que as emoções também cansam. Mais logo ao jantar acabamos a conversa.

Abriu a porta e logo Sandra saiu da sala e se preparou para acompanhar Teresa ao quarto.

16.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LIX



-Mas estas semanas alteraram tudo. O ter descoberto a verdade sobre a minha mãe, fez-me encarar as mulheres com outra confiança e pela primeira vez nos meus quase trinta e cinco anos, comecei a pensar que afinal o amor pode realmente existir, e não ser uma miragem, inventada por poetas e romancistas. 

Depois há as crianças, não uma, mas três. Demasiada carga para uma mãe solteira, e se não fora por mais nada, só por elas devíamos casar. Mas há mais. Desde que te conheci que admirei a tua coragem, a frontalidade com que abordaste o que aconteceu. 

E nestas semanas em que convivemos e conversámos diariamente, essa admiração deu lugar a um sentimento maior, que não te sei dizer se é amor, porque nunca convivi com ele e não sei bem o que é, o que sei, é que nada me faria mais feliz do que fazer parte da tua vida, - disse pegando-lhe na mão e apertando-a entre as suas.

Teresa escutara-o sem o interromper e continuou mais um longo minuto em silêncio, fazendo com que João se sentisse cada vez mais nervoso.

-Se bem entendo, acabas de me propor casamento, - disse por fim. Como sabes, essa é uma ideia que nunca me passou pela cabeça, pois tinha tão má ideia dos homens, como tu das mulheres. 

Também para mim, estas seis semanas alteraram muita coisa. Meu Deus, quando a médica me disse que em vez de um, eram três bebés, e que estava em risco de os perder, tive tanto medo. E quando me disse o que tinha de fazer fiquei apavorada. Como ia poder ficar os dias de cama, sem ninguém de família que me fizesse as coisas? 

A Inês é uma grande amiga, mas além da gerência da pastelaria, tem marido e um filho pequeno que requer muita atenção. Mas então tu chegaste e num instante resolveste tudo. E quando acordei na madrugada daquela primeira noite, e te vi no sofá, a postos para me ajudar se fosse preciso, também a minha ideia sobre os homens, sofreu um choque.

Fez uma pequena pausa e continuou.

Estas semanas de convívio, os teus cuidados, as longas conversas que temos tido, as confidências, tudo contribuiu para me convencer de que estava enganada e não te podia julgar pelos trastes que foram meu avô, meu pai e o Alfredo. Esse convívio, também fez com que te ganhasse um certo carinho, mas temo que isso por si só, não seja suficiente para que duas pessoas possam ser felizes juntas uma vida inteira, com todas as adversidades que ela acarreta, muitas vezes.  

E o casamento, apenas por causa das crianças, não me convence. Se nós estivermos infelizes com a relação, eles vão dar-se conta disso e vão sofrer mais, do que se vivessem apenas com um dos dois.

 Por favor não me interrompas, - disse ao ver que ele se preparava para o fazer. – Ainda não acabei. Eu não seria capaz de aceitar um homem na minha cama, sem um sentimento forte por ele. De modo, que em vez de argumentares, cala-te e beija-me.

- Queres que te beije?  De verdade? – perguntou ele surpreso.

- Sim, homem, quero que me beijes, agora, de verdade com tudo o que sentires.

- Mas… porquê agora?

- Porque os dois vivemos quase toda a vida, desconfiando do sexo oposto, sem acreditar no amor, e sem permitir a ninguém que penetrasse nos nossos sentimentos mais íntimos. Sentir desejo é fácil, ambos somos jovens, saudáveis, e bastante apresentáveis. 

Mas isso sendo importante, também não é suficiente, se não houver algo mais. É fácil juntar dois corpos, mas sentir aquela intimidade de duas almas que se completam, é totalmente diferente. E se não o sentirmos num simples beijo como vamos conseguir um casamento feliz? A paixão morre quando acaba a novidade. Tem que existir algo mais, para que a intimidade, e o amor persistam.