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19.7.24

UMA VIAGEM ESTRANHA

 


Outubro aproximava-se do fim. Apesar disso o céu sem nuvens e o sol, que embora não apresentasse um calor abrasador, como no verão, estava luminoso e lançava sobre a terra um calor muito agradável. Conduzia numa estrada deserta, de volta ao lar de meus pais, depois de alguns anos de ausência.

 Ao olhar a paisagem tive consciência, de que me enganara na estrada, mas segui em frente, pensando que afinal aquela estrada, iria ter a algum lugar, donde poderia retomar o caminho de casa. Porém a estrada terminou um pouco mais à frente. Parei o carro e saí para olhar à minha volta.

 À minha frente uma floresta, exibia os maravilhosos tons de outono. Curiosa avancei uns cem metros e deparei-me um enorme lago, cujas águas tão serenas, mais pareciam um enorme espelho,  sobre o qual as narcisistas árvores da margem se miravam vaidosas. Quedei-me extasiante perante tão bela imagem que  me sugeriu a natureza em paz consigo mesmo . 

Pensei que era um lugar onde o homem ainda não chegou, mas então vi mais à frente duas cadeiras lado a lado, num pequeno pontão, como que a dizer-me que estava enganada. Duas cadeiras vazias que sugerem momentos de contemplação e amor.

Contemplação pela natureza, mas também amor pela pessoa que se senta ao lado, e com quem se quer partilhar um lugar tão paradísico. Olhei à volta e não vi cabana, ou caravana, que me mostrasse que ali vivia alguém. As cadeiras estão vazias, e a paz do lugar, apenas tem por companhia a solidão, o que me leva a pensar no que terá acontecido a quem nelas se sentava. 

Enquanto me perdia em conjeturas, anoitecera e de súbito desatei a correr assustada com medo de não conseguir encontrar o carro. Então a luz do sol bateu-me no rosto, e abrindo os olhos vi que a minha mãe tinha acabado de abrir a persiana, fazendo com que a luz me  acordasse. 


  

 

20.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXI

 


Quando o carro parou à porta de casa da jovem, Fernando saiu do carro e acompanhou-a à porta, mas quando ela se voltou para lhe estender a mão, ele passou-lhe uma mão pela cintura, atraiu-a a si e baixando a cabeça beijou-a.  Foi um beijo suave, cheio de ternura, não o beijo apaixonado que gostaria de lhe ter dado, todavia ele sabia que que se queria ter sucesso na difícil tarefa de ganhar o seu coração tinha que ter paciência. Por isso soltou-a.

-Até amanhã. Não te peço que sonhes comigo, mas pensa com carinho em tudo o que te disse.

Esperou que ela entrasse em casa e só então virou costas e dirigiu-se ao seu automóvel.

Laura entrou em casa e encontrou-a às escuras e em silêncio, sinal de que os seus filhos e os avós já dormiam.  Subiu as escadas, mas antes de entrar no seu quarto, passou primeiro pelo quarto de Miguel, depois pelo de Sara. Depois de verificar que os filhos dormiam tranquilamente, entrou então no seu quarto e dirigiu-se à casa de banho onde trocou a roupa que vestira, pelo pijama, escovou os dentes e os cabelos, apagou a luz e foi para a cama.

Estava cansada, tinha que se levantar cedo, mas apesar disso levou muito tempo para adormecer, relembrando tudo o que acontecera naquela noite.  Principalmente tudo o que Fernando lhe dissera e o beijo que mal lhe aflorara os lábios, mas que apesar disso não conseguia esquecer.

E pela primeira vez desde há mais de três anos, esqueceu da sua habitual conversa com o falecido antes de adormecer.

Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Saltou da cama, tomou o duche matinal, vestiu-se, prendeu o magnífico cabelo loiro num carrapito. Não se maquilhou, há anos que não o fazia a não ser para um jantar especial, ou no casamento do irmão, apenas passou um corretor para atenuar as olheiras que denunciavam a noite mal dormida.

Saiu do carro e dirigiu-se à cozinha a fim de preparar os pequenos almoços. Pouco depois os pais juntavam-se-lhe.

Depois de comer um iogurte e engolir uma chávena de café, Laura deixou os pais a comer e foi chamar a filha. Depois foi acordar o filho, vestiu-o, calçou-o, e levou-o para a cozinha a fim de lhe dar a taça de cereais que ele costumava comer de manhã.

Três quartos de hora depois estavam todos prontos para saírem de casa. Laura disse aos filhos que se despedissem dos avós que iam para casa, depois meteu o filho na sua cadeirinha e enquanto Sara se sentava ao lado do seu irmão, Laura abraçava os pais e recomendava ao pai que não exagerasse na velocidade e à mãe que telefonasse assim que chegassem a casa pois ficava em cuidado.

Terminou desejando-lhes boa viagem, entrou no seu carro e acenando um último adeus, pôs o carro em movimento dirigindo-se primeiro à creche para deixar o filho e depois à Escola a fim de deixar a filha. Olhou o relógio. Tinha que abrir a clínica às nove, não sabia se conseguiria chegar a horas. Tudo dependia da intensidade do trânsito. Provavelmente no dia seguinte teria que sair de casa uns dez minutos mais cedo.

3.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XVI


Para Laura, o resto da semana passou a correr, com a presença dos pais, as crianças e a ida à clínica. Teve oportunidade de ver a versão profissional de Fernando, tanto com as crianças, como com os adultos. Ela sabia que ele era psiquiatra, mas não que seis anos atrás se especializara também em psiquiatria infantil.

Claro nessa época ela estava casada e depois do casamento nunca mais o vira até que a fatalidade a deixara viúva.

Nessa época ela estava de rastos, chegou a pensar que acabaria por perder o filho que ainda estava para nascer. O irmão, mudara-se para Lisboa, para estar junto dela e Fernando passava lá em casa todo o tempo que tinha livre.

Agora, pensando nisso, acreditava que se Sara era uma menina feliz, talvez se devesse ao apoio que ele lhe dera quando perdera o pai.  E na verdade ele também a apoiara muito, mas na altura ela vivia e alimentava-se apenas da dor e do enorme sentimento de vazio que lhe enchia corpo e alma. E tinha corrido com ele, quando um dia lhe surpreendeu um olhar, que não era compatível com o sentimento de irmão que sempre sentira por ele.

Naqueles dois dias, através de Diana, ela aprendera muito sobre o homem, que fora o seu melhor amigo de infância. E criara uma ligação de amizade com a jovem assistente, que não pensara possível em tão pouco tempo.

Na Sexta feira, como não havia consultas de manhã, as duas conversavam quando Diana perguntou:

- Não pensas voltar a casar? Sei que foste muito feliz no casamento e que sofreste muito com a morte repentina do teu marido, mas já lá vão mais de três anos. És nova e bonita, não sentes a falta de um homem a teu lado?

- Para ser sincera comigo mesma, sinto. Embora o Quim continue no meu coração, a verdade é que o corpo sente a falta de um abraço, do calor de outro corpo junto ao meu. Parece-te mal?

- Não. É normal, afinal estas na plenitude da vida. Só não percebo porque não dás uma hipótese ao doutor. E não me venhas dizer que ele é apenas como um irmão, que eu não sou cega e tive a oportunidade de ver ontem a forma como te olha. Ele está apaixonado por ti e de há muito tempo. Porque outra razão teria a tua foto em cima da sua secretária há tantos anos?

-Não quero voltar a amar. Tu não sabes o que é entregares-te a um homem de corpo e alma, e de repente ficares sem ele. Eu tinha vontade de me juntar a ele. Acredita, a única coisa que me impediu de fazer um disparate e me prendeu à vida, foram os meus filhos.  Não quero, não posso passar pelo mesmo.

-Tens medo de amar, porque podes voltar a enviuvar? – perguntou Diana espantada. Perdoa-me, mas isso é uma estupidez. Nunca ouviste dizer que um raio não cai duas vezes no mesmo local? Nenhum de nós pode prever o futuro. Renunciar ao amor, por medo de voltar a perder o parceiro, é antinatural. Não tiveste acompanhamento psicológico quando o Quim morreu?

-Tive a ajuda da família e também durante algum tempo de Fernando.

-A família, por muito boa que seja apenas pode ajudar fisicamente, não tem capacidade para mais. Precisas de um psicólogo, ou psiquiatra. Porque é que o Doutor se afastou.

-Na verdade fui eu que o afastei.

-Porquê?

-Um dia, surpreendi-lhe um olhar que me deixou chocada. O Quim havia morrido há quatro meses, eu tinha sido mãe havia dois meses e vivia mergulhada na dor. Então disse-lhe que não o queria ver mais, que ele não era da família e que não tinha qualquer direito de ir lá todos os dias. Depois disso só voltei a vê-lo no casamento do meu irmão.

- Olha se queres o meu conselho, procura uma ajuda profissional que te ajude a ultrapassar esse medo.

 

 

20.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XI


Depois Fernando levantou-se e aproximou-se de Laura que se encontrava de costas, olhando através da janela da cozinha.

- É verdade o que a tua mãe disse. Ainda tens as mensagens do teu marido no telemóvel?

-Não. Mas tive-as durante muito tempo e ouvia-as, sim. Ajudaram-me a passar os tempos mais críticos quando me custava a crer que nunca mais o veria. Tu não sabes o que é amar uma pessoa de corpo e alma e de um momento para o outro perdê-la.

- Não, - disse ele com voz rouca, - mas sei o que é amar assim, alguém que nunca me amou. A gente não vive, sobrevive.

E dizendo isto virou-lhe as costas e foi-se embora, deixando-a  sem palavras.

 Laura fechou a porta e regressou à cozinha, pôs a loiça na máquina, e limpou a mesa. De seguida dirigiu-se ao quarto da filha para o limpar, tentando  esquecer-se do que Fernando lhe tinha dito, mas por mais que se ocupasse das tarefas domésticas, não  o conseguiu.

Claro que os pais, principalmente a mãe, também não ajudaram nada. Ela amava os pais, mas estava desejosa de que eles voltassem para casa e a deixassem em paz.

Nunca um dia lhe parecera tão longo. E quando finalmente chegou a hora de se deitar, e se recolheu ao quarto, continuava com mil ideias contraditórias na cabeça.

Tomou banho, vestiu o curto pijama de seda, lavou os dentes e dirigiu-se para o enorme leito onde todas as noites se perdia de saudade. Antes, porém, pegou na moldura com a foto de Nuno que tinha em cima da cómoda e acariciou o seu rosto, enquanto murmurava.

-Sinto-me tão perdida sem ti. Toda a minha família insiste em que te devo esquecer e seguir em frente, procurar um novo amor, dar uma figura masculina ao nosso filho, que não chegaste a conhecer. Sei que o Fernando Novais, aquele nosso amigo de infância, que andava sempre com o meu irmão, me ama, toda a gente o sabe na família, embora eu só o tenha sabido, muitos meses depois da tua partida. Não que mo tenha dito, mas li-o nos seus olhos e por isso o afastei, renunciando a todo o apoio que como psiquiatra me podia dar. Mas agora que o Gonçalo encontrou a mulher da sua vida, casou e foi de lua de mel, pediu-lhe para ele me ajudar com as crianças, vejo-o todos os dias.  

Fez uma pausa enquanto se sentava na cama, com a foto nas mãos e os olhos rasos de água

- A nossa menina, está uma mulherzinha, tão linda e estudiosa que terias orgulho dela. O Miguel é um menino lindo, mas um pouco rebelde. Os meus pais insistem em que ele precisa de uma figura masculina.  E sei que o Fernando seria bom com as crianças, e elas gostam dele. Não quero trair a tua memória, mas não sei que fazer, deixaste-me tão sozinha.

Pousou os lábios delicadamente sobre a foto como se beijasse o rosto do falecido, e de seguida pousou a moldura de novo sobre a cómoda.

Puxou a roupa da cama para trás, deitou-se e apagou a luz.  Já passava da meia-noite e no dia seguinte teria que se levantar cedo para tratar do pequeno almoço das crianças que iam para a escola. Mas não conseguia dormir. Pensava na proposta de emprego do amigo. Sabia que depois que os pais regressassem a Braga e o filho fosse para a creche se ia sentir ainda mais só do que se sentira nos últimos tempos.

24.9.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXIII







- Nenhuma – disse Helena, para quem aquela aventura vinha dar um ar de graça à sua vida tão rotineira.

- Muito bem. Tenho aqui a indicação da sua morada. Mas por todas as razões expostas, não aconselho o seu regresso. Teria que destacar um polícia para o proteger, o que poria de sobreaviso, quem quer que queira acabar consigo. Pela sua segurança, pela investigação, pelos cuidados médicos que decerto continuará a precisar, é aconselhável que continue com a doutora. Entretanto – acrescentou – vamos prosseguir as investigações, agora seguindo as pistas que a direção de orquestra nos forneceu. Segundo eles, o senhor é solteiro, vivia sozinho, e os seus pais já faleceram. Mas não sabem se tem familiares vivos. Não se lembra se tem irmãos, tios, sobrinhos? Alguém que tenha, consigo algum laço familiar, ainda que afastado?

- Não inspetor. A única coisa que recordei, que nem foi bem recordar, foi que quando a doutora Helena, disse que tinha de me arranjar um nome, imediatamente me veio à memória o nome de Fernando. Mas nem sequer sabia se era realmente o meu. Depois um dia tive um sonho que me deixou desconcertado. 

Contou ao inspetor o sonho, tal como antes o contara a Helena.

- Deveria falar com um psiquiatra. Pode ser que a sua memória vá aparecendo assim. Por agora está tudo dito. Entro em contato logo que tenha mais notícias. E já sabe, qualquer lembrança que tenha deve comunicar-me imediatamente. Por mais insignificante que pareça. Espero que a resolução deste caso seja a seu contento.

Levantou-se e estendeu-lhes a mão dando a conversa por terminada.
Saíram. A caminho do carro, ela perguntou:

-Que se passa? Porque estás com esse ar tão macambúzio? Não é bom saberes quem és?
- Saber o meu nome, não é saber quem sou, doutora. Não percebeste que o inspetor suspeita de mim? Não percebes que posso ser um facínora?
- Tenho a certeza de que não o és, Fernando. Quando te olho, há desespero, e ansiedade no teu olhar. Maldade não. E eu acredito no que leio nos teus olhos.
- Deus te oiça, doutora, Deus te oiça.



7.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE III

 


Contrariamente ao que Lena pensava, nem os pais, nem o irmão a recriminaram e embora ela soubesse que estavam desgostosos, apoiaram-na na decisão de ter o bebé.

Assim depois de conversar com os pais, cancelar a matrícula e adiar os estudos, pelo menos até o bebé nascer, despediu-se de Rita, e regressou ao lar paterno, não sem antes  ter convidado a amiga para madrinha do bebé e lhe ter pedido para a ir visitar à quinta sempre que quisesse e pudesse. Precisava mais que nunca da sua amizade. 

 A gravidez decorreu sem percalços e no final de Maio do ano seguinte, Helena dava à luz uma bela menina, com cinquenta centímetros e três quilos e duzentos gramas, a quem registou com o nome de Matilde.

Matilde cresceu robusta e sadia e cedo conquistou o amor dos avós.

Porém no dia em que completou o primeiro ano de vida, Joaquim, o avô, decidiu que era altura de ter uma conversa séria com a filha e disse-lhe:

-Lena, ontem conversei com a tua mãe, e ambos estamos de acordo, em que se ainda pretendes continuar os teus estudos, é altura de o fazeres. Pensa que já passaram dois anos da data em que terminaste o Secundário e quanto mais tarde, mais te custará a ambientares-te e mais terás esquecido daquilo que já aprendeste. Talvez queiras desistir por causa da tua filha, mas se assim é, cometes um erro enorme e é meu dever de pai aconselhar-te. 

É precisamente por ela que deves continuar os teus estudos e seguir uma carreira, tornares-te uma mulher independente, já que desde menina, nunca gostaste da vida na quinta e não serias feliz aqui na aldeia. E se tu não és feliz a tua filha também não o será, nem te agradecerá o sacrifício que faças por ela.

Sei que a Rita gosta muito de ti e adora a afilhada. Falei com ela esta tarde, enquanto adormecias a Matilde e estamos de acordo em que precisas de seguir com a tua vida. Prometeu que te ajudará a cuidar dela enquanto não arranjas uma boa creche. Nós ficaríamos encantados em cuidar dela, mas a menina ia sentir a tua falta, e depois já não somos novos e ela precisa conviver com outras crianças. Que dizes?

-Não sei, pai. Na verdade, o que me propõe é a realização de um sonho. Mas tudo isso custa muito dinheiro. Como posso pagar propinas, livros, roupas para mim e para a minha filha, creche, alojamento e alimentação? Não posso continuar a sobrecarregar—vos com despesas. Um bebé, é uma despesa enorme, e vocês têm pago tudo até agora. Não vos posso sobrecarregar mais.

- Bom, lembro-te que tens uma conta no banco que abrimos quando nasceste. Não é uma grande fortuna, mas dá para um bom tempinho. O teu irmão usou a dele quando decidiu ir viver com a Sofia, para montar  a casa e comprar o carro. E como sabes a tua mãe, vai vender a casa que herdou da tua avó, já recebeu o sinal e tem a escritura marcada. Decidimos dividir esse dinheiro pelos dois, nós não precisamos dele, e de qualquer modo será para vocês, quando nós partimos. Mas para quê guardá-lo se é agora que vos faz falta? Assim não terás de te preocupar, tanto mais que a Rita me disse que não vai aceitar dinheiro pelo quarto, troca o aluguer pela vossa companhia. Pensa nisso, filha.



 

19.5.20

ISABEL - PARTE V


                                     Foto do google


Dirigiu-se ao aparelho e levantou o auscultador.
Do outro lado uma voz desconhecida perguntou se era a casa do senhor Fernando Cardoso, e depois de ouvir a confirmação, a voz identificou-se. Era da Polícia e perguntou se podia falar com a esposa do senhor Fernando Cardoso. Trémula, pressentindo algo grave, Isabel respondeu que era a própria.
Então, a voz informou-a que o senhor Cardoso tinha tido um acidente, e tinha sido transportado para o hospital da área da sua residência.  
Por pouco não saiu de casa a correr sem desligar o fogão, de tal modo ficou aflita.
Apesar de morar a menos de cem metros da casa dos pais, não lhe ocorreu passar por lá. Dirigiu-se imediatamente à praça de táxis e entrando no primeiro da fila pediu, para a levarem ao hospital.
Chegara ao hospital e dirigira-se correndo à recepção. Lá lhe disseram que sim, Fernando Cardoso dera entrada no hospital. A sua moto fora abalroada por um carro em despiste.  
- Aguarde um momento por favor. Vou avisar o médico que já chegou.
A recepcionista pegou no telefone interno e fez uma chamada. Depois voltou-se e disse:
Entre por essa porta à esquerda, siga o corredor e bata na quarta porta. O médico está à sua espera.
Seguiu as instruções. O coração batia desordenadamente, os olhos rasos de água, a voz presa ela sentia-se esmagada como se o mundo tivesse desabado sobre si. Bateu à porta.
- Entre – ouviu-se uma voz masculina
No gabinete encontrava-se um médico sentado atrás de uma secretária e a seu lado uma médica de pé.
- É a senhora Cardoso? - perguntou  o médico 
Incapaz de responder Isabel assentiu com a cabeça.  
- Eu sou o médico que atendeu o seu marido.  O estado dele é muito grave. Sofreu fracturas múltiplas, contusão cerebral, e hemorragia interna por rompimento do baço. Está neste momento no bloco operatório.
Vamos...
Não ouviu mais nada, sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés, e de repente tudo à sua volta desapareceu e ter-se-ia estatelado não fora a pronta assistência de um dos médicos.
Acordou estendida na marquesa, com a médica debruçada sobre si.
-A cirurgia terminou? – perguntou entre soluços.
- Ainda não. Tenha calma, a equipa de cirurgiões que está com ele é excelente e vai fazer tudo para o salvar - respondeu a médica estendendo-lhe um comprimido e um copo de água. E acrescentou:
- Vai ter que ser corajosa. As primeiras setenta e duas horas serão determinantes. O seu marido é jovem, mas não lhe podemos esconder que o estado dele é realmente muito grave. Hoje não poderá vê-lo. Deve ir para casa descansar mas não deve ir sozinha. Está muito nervosa. Podemos avisar alguém? 
 Ela não se recordava de ter dado o número do telefone dos pais, mas decerto o tinha feito já que pouco depois o pai estava no hospital, junto dela.
Também não se recordava de ter ido para casa. Decerto o calmante era bastante forte.
Apesar de continuar nublado, o tempo estava a aquecer, a praia a encher-se de gente e Isabel continuava vestida. Começava a sentir muito calor e a desejar chegar rápido junto da toalha para se despir. Passou a mão pela testa, como se quisesse com esse gesto, afastar as lembranças que a estavam a atormentar naquele dia.




7.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVIII


No gabinete, Teresa deixou-se cair na cadeira sem forças.
O que acontecera não podia ter acontecido de jeito nenhum. Quisera provocá-lo, dar-lhe a entender que podia haver alguém na sua vida, fazer com que sofresse. E bastara o contacto da boca dele na sua mão, para que o cérebro deixasse de fazer o que lhe competia, o coração empreendesse uma louca corrida, e todo o seu corpo reagisse, numa tremedeira inoportuna.  Como podia fugir daqueles sentimentos?  Tinha a certeza que ele sentira aquilo que lhe provocara. Como não? Conhecia-a como ninguém. Estava perdida.
Esperou com ansiedade o fim da manhã, para deixar o trabalho.
Tinha que estar às três na escola do filho. Era a festa de Natal, Martim ia entrar na récita e não cabia em si de tanto entusiasmo.
Tinha-lhe pedido quase a chorar para o ir ver, e não queria causar-lhe uma decepção.
Passou-lhe pela cabeça uma ideia peregrina. Que faria Rui se soubesse que tinha um filho?
Será que se importaria? Quereria conhecer o menino? Assumiria o papel de pai? Ele nunca assumira a relação deles. Nunca lhe falara de si, dos seus sonhos, dos seus anseios. Nunca lhe falara da família, nunca lhe dissera quem eram ou onde moravam. Só se importava com ela, na cama. Aí convertia-se num amante excecional, sempre preocupado em levar a companheira à loucura. Mas nem isso fora suficiente para continuar a seu lado Por fim acabou a manhã de trabalho.
A festa na escola, foi muito emotiva. As crianças cantaram, dançaram, e recitarem pequenos poemas. Estavam no palco com naturalidade e alegria. Por último, recriaram a história do nascimento do Deus Menino.
No fim, todas estavam muito felizes e os pais orgulhosos do talento dos seus rebentos.
Finalmente despediram-se de Tiago e do filho, e saíram pois Teresa ainda queria fazer umas compras, já que faltavam poucos dias para o Natal.
No carro, o garoto não se conseguia calar com as peripécias da festa.
Era uma criança muito extrovertida, muito alegre, fazia amigos com facilidade, e era muito popular. Teresa agradecia a Deus por o filho ser como era.
"Pensa em mim", - dissera Rui naquela manhã. Como podia deixar de pensar nele, se Martim era fisicamente o seu retrato? - Interrogava-se enquanto passava a mão na cabeça do filho, numa terna carícia.


Amigos consegui hoje consulta por causa da dor no braço que me tem deixado louca.
A médica diz que lhe parece ser uma tendinite e mandou fazer 10 dias de anti-inflamatório Naproxene, um relaxante muscular,  Sirdalud, e gelo. e mandou fazer RX à cervical, ombro e braço. E ecografia  tecido moles, ombro e braço. 


1.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XI



 Porém o namorado tinha regressado dois meses depois do casamento e não pretendia desistir dela nem do filho. E ela só se mantivera em casa durante aqueles meses, enquanto arranjavam casa e a preparavam para se mudar. Terminava pedindo-lhe que a perdoasse e que não lhe dificultasse o divórcio.
Perdoar? Como é que um homem podia perdoar a mulher, que fez dele motivo de chacota para o bairro inteiro? Um misto de sentimentos tomou conta dele. Raiva, vergonha, humilhação. Como era possível ter sido tão trouxa? Mais uma vez, valeu-lhe a compreensão dos pais, que o ajudaram e apoiaram até ao divórcio. Depois ele sentiu que tinha de partir por uns tempos. Queria afastar-se de amigos e conhecidos, que disfarçavam sorrisinhos de gozo quando o viam. Assim, quando soube que uma firma estava a pedir mecânicos para Angola, foi lá e não lhe foi difícil conseguir um bom contrato por cinco anos. Partiu pois numa manhã de Março, poucos dias antes de fazer vinte e dois anos, deixando a mãe lavada em lágrimas. Porém o pai compreendeu e apoiou-o. Apesar da sua pouca idade Ricardo era um excelente mecânico. Desde menino sempre gostara de mexer nos carros e quando saía da escola, em vez de ir jogar à bola com os outros miúdos do bairro, ia para a oficina do pai, ver como ele trabalhava, aprendendo a conhecer o canto do motor, e o significado de cada uma das suas desafinações. Depois já adolescente, trabalhou durante as férias escolares na oficina, e mais tarde todo o tempo que durou o seu casamento. Tinha por isso um bom conhecimento do trabalho, era aplicado, e simpático e em breve ganhou a simpatia do patrão, e dos colegas. Apesar do fascínio que África exercia sobre ele, Ricardo fazia uma vida recatada, gastando apenas a pequena parte do ordenado necessário à sua sobrevivência e transferindo para Portugal tudo o que a firma lhe permitia. Já nessa altura tinha o sonho de criar uma firma de aluguer de carros de luxo.
Terminado o contrato, regressou a Lisboa, apesar do vantajoso prolongamento do contrato, que a empresa lhe propunha  . Tinha quase vinte e sete anos, a cabeça cheia de sonhos, mas nenhum de amor.
Alugou uma pequena garagem, comprou o seu primeiro carro que lhe levou grande parte do seu pecúlio, e anunciou na Internet o aluguer do mesmo. Começou sozinho, com um único carro, sendo mecânico e motorista. Foi um êxito, as encomendas eram superiores ao que ele pensava, e assim ao fim de um ano, comprou o segundo, e contratou o seu primeiro motorista, Sérgio, que mais que um empregado era um verdadeiro amigo. Os anos foram passando, o negócio prosperando cada vez mais, e agora doze anos depois, ele tinha uma dúzia de carros de luxo, e dez motoristas-mecânicos que podiam conduzir os clientes a qualquer parte, mas estavam aptos a reparar de imediato o carro se surgisse alguma anomalia. 
De súbito voltou-lhe à memória aquela criança e o imbróglio em que o tinham metido. Mas ele iria exigir a retirada do seu nome do registo dela, logo que tivesse em mãos o resultado do teste de ADN. E só não exigiria uma indemnização, porque pelo que viu daquela casa, a mãe, ou tia da criança não teria como a pagar.
Estava desejoso, que o seu amigo Artur lhe trouxesse o relatório da investigação que estava a fazer.

13.1.19

ELISA II

reedição
Elisa viu-se nessa altura obrigada a contar a verdade aos pais. Tinha que deixar o filho com alguém para ganhar-lhe o sustento. E quem melhor que os pais? O pai só lhe disse que devia ter contado antes. E que tomaria conta do neto, como se fora um filho. Elisa deixou o filho lá na aldeia e veio para Lisboa ser criada de servir. Não pensava em namorados. Tudo o que juntava mandava para os pais, para o sustento do filho. Mas um dia conheceu o António. António era moço de Lisboa, com muito mais experiência de vida, e não foi difícil dar a volta à cabeça da jovem. Prometeu-lhe casamento, criar-lhe o filho, dar-lhe até o seu nome. Elisa ia viver com ele, e logo que acabasse a tropa, tratavam do casório. E mandavam vir o filho. Elisa acreditou. E um tempo depois deu-se conta que estava outra vez grávida. Quando António soube da gravidez, os seus modos alteraram-se. Começou a chegar cada dia mais tarde, com a desculpa de que tinha serviço no quartel. E um dia deixou de aparecer. Elisa foi ao quartel. Queria saber o que se passava. Mas lá disseram-lhe que ele tinha pedido para ser transferido. E começou novo calvário para Elisa. Quando o adiantado estado de gravidez não a deixava já trabalhar, recorreu à instituição de Santa Zita, que a ajudou até que a menina nasceu, bem como nos primeiros tempos, até que ela conseguiu com a ajuda da instituição arranjar trabalho.
A vida de Elisa foi uma vida de escravidão ao trabalho para criar os filhos. Porque depois da morte da mãe, teve que ir buscar o filho mais velho, para junto de si. Foi pai e mãe dos filhos.
Nunca mais quis ouvir falar de homens na sua vida.
Quando os filhos cresceram, Portugal tornou-se pequeno para os seus sonhos. Só pensavam em emigrar para o Brasil. O sonho duma vida melhor fez com que juntassem todos os tostões para a viagem. E lá foram deixando a promessa de mandarem ir a mãe tão logo tivessem casa e trabalho.
A principio as cartas do Brasil chegavam todas as semanas. Eram cartas cheias de novidades e promessas. Depois passaram a ser de mês a mês. A vida corria bem, a filha tinha até casado, e só estavam esperando mudar de casa para mandar a passagem. É que a casa era pequena. Mais tarde nascera a neta, a despesa era maior. Depois o filho casou, tinha mais despesas. Aos poucos Elisa apercebeu-se que tinha perdido os filhos quando se despediu deles em Alcântara.
Por fim as cartas deixaram de chegar. O olhar perdeu-se no horizonte, o corpo foi-se vergando ao desgosto e ao peso dos anos.
Elisa foi hoje a sepultar...
Nunca vi um funeral tão triste. Meia dúzia de vizinhos, ninguém de família. E enquanto a terra caía sobre a urna, eu pensava se os filhos iriam  algum dia  arrepender-se do abandono a que votaram a mãe.
Elisa foi hoje a sepultar... 
E enquanto jogo uma flor sobre a sepultura murmuro uma prece:
Senhor, se é verdade que existe o paraíso, tem piedade desta tua serva, que já teve o seu inferno...

 Elvira Carvalho


Este conto foi mais uma reedição, pois a minha saúde continua muito periclitante. O olho está melhor, mas a constipação trouxe uma tosse que não me deixa ir à cama há três noites.
Peço-vos desculpa.







12.1.19

ELISA

Reedição
Corria o ano de 1940. Elisa era nessa altura uma encantadora rapariga de dezoito anos. Pequena, bem proporcionada, cabelo escuro como noite sem lua, quase sempre preso numa farta trança.

Os olhos escuros e um rosto moreno, onde um rasgado sorriso fazia aparecerem duas graciosas covinhas. Era uma jovem alegre, com uma bonita voz, que encantava quem a ouvia ao domingo na igreja, ou nos campos enquanto trabalhava. Foi talvez a beleza da sua voz, que atraiu o patrão, naquele fatídico dia de Abril. Elisa mondava o milho numa leira, quando o patrão a surpreendeu e sem lhe dar tempo a defesa, ali mesmo a violou. Naqueles tempos nas remotas aldeias do interior, não raras vezes os patrões "desgraçavam" as jovens empregadas. Naquele dia Elisa foi para casa, com o corpo e a alma em ferida. Não disse aos pais nem aos irmãos o que tinha acontecido. De que teria servido? Só aumentaria a sua dor, e a sua vergonha.
Nunca mais foi a mesma. Não queria que ninguém soubesse o que tinha acontecido, e os pais estranhavam que não quisesse ir trabalhar para aquele patrão. Afinal era o que empregava mais gente, e pagava melhor.
 Uma noite sem que ninguém desse conta, Elisa fugiu de casa. Vagueou por montes e vales, evitando os caminhos principais, roubando frutas para enganar a fome, durante dias a que esqueceu a conta. Um dia, com os pés em ferida e as roupas sujas e rotas avistou uma cidade.
 Foi-se aproximando a medo. Teve sorte. Uma mulher idosa viu-a, e vendo o estado lastimoso em que se encontrava, levou-a até à sua casa. Deu-lhe um alguidar com água, um pedaço de sabão azul e branco, e uma toalha velha e esfarrapada, porém limpa, para ela se lavar. Em seguida trouxe-lhe umas roupas limpas que tinham sido da sua filha que Deus lhe levara havia dois anos.
 Josefa foi-lhe contando isto enquanto aquecia no velho tacho de barro um prato de caldo verde feito na véspera.
 Elisa sentiu-se como alguém que regressa a casa. Na verdade Josefa, embora não a conhecendo, estava a tratá-la como uma filha e Elisa deixou que as lágrimas rolassem pelo rosto emagrecido enquanto contava àquela desconhecida, o que não tivera coragem de contar à mãe.
 Josefa ouviu em silêncio o relato da jovem, e quando esta acabou, estendeu a sua velha mão sobre a cabeça da jovem, e murmurou entre dentes:
 "Um dia, um dia isto vai ter fim. E esses canalhas vão pagar por todos os seus crimes". E logo levantando a voz disse:
 - Ficas aqui enquanto não arranjares trabalho. Eu não tenho muito, mas há-de dar para as duas. Agora uma coisa tens que me prometer. Vais escrever aos teus pais. Diz-lhes que estás em Coimbra, e que arranjaste trabalho. Os teus pais têm que saber de ti. Eu também fui mãe e sei bem a aflição duma mãe quando não sabe dum filho.
 Elisa assim fez. Arranjou trabalho a dias para limpezas e tentava a custo apagar as recordações quando descobriu que isso era impossível porque estava grávida.
Foram tempos muito difíceis em que só no carinho de Josefa conseguiu forças para sobreviver. Aos pais não contou nada. Morria de vergonha. E foi inventando desculpas para não ir visitá-los

Quando o filho tinha três anos Josefa morreu. Morreu serenamente, sem se queixar, tal como tinha vivido.

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30.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XX


Durante um longo minuto, o silêncio caiu sobre eles. Por fim Ana falou.
- Eu queria sentir esse amor. Queria que me ensinasses a ser feliz, e a fazer-te feliz. Mas tenho medo Simão. Um medo irracional, que me sufoca.
- E de que tens medo, querida?
- De não ser capaz de corresponder às tuas expectativas. De não conseguir fazer amor contigo, porque de repente me lembro, que somos irmãos.
- Tu sabes que não é verdade, Ana.
 – Por favor, não me interrompas. Deixa que te exponha todos os meus receios. Supõe que não dá certo. Vou perder-te para sempre, magoar os nossos pais, e isso aterroriza-me.
Com imensa ternura, contornou os olhos brilhantes, numa carícia suave.
- Já chega. Não te atormentes. Eu não tenho medo. Acredito em nós, e na força do amor. Vieste ter comigo. Sabes o que sinto e o que desejo. Só tens que decidir se vieste para ficar, e viver este amor que tenho para te oferecer, ou se te vais embora agora, e dás outro rumo à tua vida. 
Era o momento derradeiro, a última hipótese de virar costas e procurar um caminho que lhe parecesse mais seguro, ou fechar os olhos e saltar o abismo em que o medo se transformara. Lembrou-se da mãe. “Às vezes é preciso correr riscos”
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e  disse baixinho:
- Fico.
Ele engoliu em seco. A emoção era um garrote que lhe sufocava a garganta. Apertou o corpo tremente nos braços, e começou a beijá-la. Lentamente, como quem saboreia um doce, foi-lhe beijando os olhos, e o rosto, até aflorar os lábios femininos. As suas mãos pareciam ter vida própria. Percorriam-lhe os braços, as costas, infiltravam-se sob a blusa, em suaves caricias que a enlouqueciam.
O beijo, tornou-se mais intenso, atrevido e urgente. Simão concentrava toda a sua energia, todo o seu amor,  toda  a sua experiência e conhecimento do corpo feminino, na tarefa única, de a levar pelos secretos labirintos da paixão, até à mágica saída, na apoteose final.
As roupas desapareceram, como por magia, e os corpos livres, uniam-se, na mais famosa dança de todos os tempos, num reconhecimento que vinha desde os primórdios da humanidade.
Mais tarde, apaziguada a loucura que os envolvera, num gesto cheio de ternura, ela tocou com a ponta dos dedos, o rosto masculino. Ele segurou-lhe a mão e beijou-os.  Simão, era um homem experiente, sabia reconhecer quando a mulher que tinha nos braços, estava com ele na entrega sublime do amor. Ana tinha estado. Tinha-se entregado de corpo  e alma. Ele sentiu-o. Mas precisava ouvi-lo da sua boca. Saber até que ponto ela tomara consciência do que acabara de acontecer, saber se conseguira matar todos os seus fantasmas. 
- E, então, querida?- Perguntou num sussurro 
- Amo-te.
- Sem medos, nem fantasmas?
- Sim
-Tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. É… incrível. Sei que é um lugar-comum, mas não me ocorre outra maneira de to dizer. Sinto-me a mulher mais feliz do mundo.

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9.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XIII



-Não quero que os meus pais saibam do casamento. Não iam entender. Vou dizer-lhes que me contratou para ama das meninas, e que não se importa que tenha comigo os meus filhos. Não me agrada mentir, mas sei que eles não iriam aprovar o que nos propomos fazer. Mais tarde lhes contarei a verdade. É a minha única exigência.
- Muito bem. Vou telefonar à minha irmã para a vir buscar. Entretanto se me der os seus documentos, mando já fazer as cópias para dar início ao processo de casamento.
Francisca tirou os documentos e estendeu-lhos. Ele abriu a porta e chamando a secretária, pediu que lhos fotocopiasse.
Fechou a porta e voltou-se para ela.
-  Sendo assim pode dizer a seus pais que tem emprego. Amanhã, às cinco espero-a aqui para assinar o contrato  combinado. Traga os seus filhos. Gostaria de conhecê-los. E no fim-de-semana, espero que vão passar o dia connosco. Para que conheçam a casa e as minhas filhas. Será uma espécie de ambientação para eles.
Enquanto o casamento não acontece, a Graça irá buscá-la a fim de tratarem do que pensem ser necessário, para a cerimónia, mas devo dizer-lhe que ela será o mais discreta possível e não haverá festa, nem viagem. Também terão que escolher os móveis e decorar o quarto para os seus filhos.
A secretária bateu à porta e Afonso ordenou:
-Entre.
- Aqui tem doutor, - disse pondo os documentos e respectivas fotocópias em cima da secretária. Mais alguma coisa?
- Não obrigado. Logo que a minha irmã chegue, faça-a entrar. Pode retirar-se.
- Com certeza Doutor.
A secretária retirou-se, não sem antes lançar uma mirada curiosa a Francisca. Desde que trabalhava para o doutor, nunca o vira tanto tempo no gabinete com uma mulher.
Pouco depois Graça chegou.
-Espero que tenham chegado a acordo. Os seus olhos foram de um para o outro interrogativos. – Chegaram ou não?
- Chegámos – respondeu o irmão
- Ufa. Pensei que não tinham decidido nada. Estão com uma cara.
- O assunto é sério Graça. Não querias que estivéssemos a pular de alegria.
- Está bem. Não precisas zangar-te. Já sabes como sou.
Afonso não respondeu. Levantou-se e aproximando-se estendeu-lhe a mão
-Não se aflija. Vai correr tudo bem. Não esqueça, espero-a amanhã às cinco.
Apertou-lhe a mão sentindo a suavidade da mão feminina.
E agora ali estava, casado  e disposto a partilhar a vida com uma quase desconhecida, esperando não ter feito uma grande asneira da qual se pudesse arrepender. Tinha-o feito pelas filhas. Elas eram toda a sua vida e para não as perder, faria qualquer coisa.

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21.6.18

O DIREITO À VERDADE - IV



A perplexidade tinha-se apossado do espírito de Helena Trindade, a jovem, a quem todos os amigos e conhecidos, tratavam por Lena. Não tinha dormido nada na noite anterior, doía-lhe terrivelmente a cabeça. Deixou a caixa em cima do sofá, levantou-se e foi à cozinha. Procurou numa gaveta, e encontrou uma caixa de aspirinas. Retirou dois comprimidos que engoliu com um copo de água e dirigiu-se para o quarto onde se deixou cair em cima da cama. Não se despira, só queria ver se descansava um pouco, de modo a aliviar a dor de cabeça, embora a recém-descoberta, não a deixasse sossegar. Como é que a mãe fora capaz de lhe mentir? E sustentar a mesma mentira durante tantos anos.
Segundo sabia, a sua mãe viera viver para aquela casa, há mais de vinte anos.  Decerto antes mesmo do seu nascimento, já que ela nascera na Maternidade Alfredo da Costa. Também segundo a mãe, não tinha mais família que a irmã casada e já com um filho. Segundo lhe contou, as duas viviam em S. Pedro do Sul, na casa que fora dos seus antepassados. Ana, a tia, empregara-se no hotel Vouga nas termas, enquanto Natália, a mãe, trabalhava numa loja de tecidos, na Praça do Município. A tia conhecera o jovem Alberto Castro, quando ele acompanhara a mãe, que precisava fazer um tratamento termal.  Foi amor à primeira vista, e quando dona Alzira terminou os tratamentos os jovens já falavam em casamento. 
Alberto vivia em Lisboa com os pais. Quando ele partiu as vizinhas diziam à jovem Ana, que não tivesse esperanças. O rapaz quisera divertir-se enquanto a mãe fazia os tratamentos, mas uma vez em casa nunca mais se ia lembrar dela. Não foi assim. Alberto escrevia regularmente, e por vezes telefonava. Pediu-lhe os documentos e disse que ia tratar do casamento. Ela disse-lhe que queria casar ali na terra, na Igreja de S. Francisco onde fora batizada. Ele aceitou e quando voltou a S. Pedro, no Verão de mil novecentos e oitenta e sete, vinha acompanhado dos pais e irmã, e tinham o casamento marcado para dois dias depois.
Ana, despediu-se da irmã, com um abraço apertado, a saudade já a marcar presença no seu coração, mas o dever da esposa é acompanhar o marido, e não podia impor a presença da irmã, à sua nova família que mal conhecia.
Natália continuara em S. Pedro, vivendo na casa que fora dos seus avós e mais tarde de seus pais. Tinha muitas saudades da irmã, que só via uma vez por ano, durante as férias. Quando a mãe ficara grávida, e contara à irmã,  e as duas decidiram vender a casa, e com a sua parte da herança, ela mudara-se para Lisboa, e alugara uma casa, precisamente aquela onde vivia, e que anos mais tarde quando a dona da casa morrera, o herdeiro decidira vender. Como inquilina, a mãe tinha prioridade na compra, que por esse mesmo motivo foi muito mais barata, que se estivesse devoluta. 
Isto fora o que a mãe sempre lhe dissera. Mas então segundo aqueles documentos a mãe, viera para Lisboa logo a seguir ao divórcio, provavelmente para que o marido não tivesse conhecimento de que estava grávida, e pudesse requerer o seu direito paternal sobre o bebé.
A mãe, sempre trabalhara numa loja, na Avenida Almirante Reis. Mas além do trabalho diário das nove  às dezanove horas, a mãe ainda fazia rissóis e croquetes que vendia aos vizinhos e às colegas na Loja. E às vezes ainda fazia pequenos arranjos em roupas aos fins-de-semana. Umas bainhas para subir ou descer, uma saia para apertar, uma gola de camisa para virar, enfim o que lhe aparecia. Como trabalhava perto de casa, não tinha despesas com transportes. Assim as duas foram vivendo sem que ela mexesse na maior parte do dinheiro, da sua parte, na  venda da casa e pinhal, que as duas irmãs tinham herdado. Natália depositara esse dinheiro numa conta a prazo. Com os juros altos da época, a conta cresceu, bastante  e assim pôde comprar a casa, em dois mil e dois, quando a senhoria morreu e o herdeiro a quis vender.





Gente, Toda a noite  choveu e a trovoada foi forte.  Vejam as fotos que acabei de tirar da minha varanda.  ( 9. 00 horas) Penso que alguém devia avisar o Senhor do Tempo, que o Verão começa hoje.