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14.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XIX






- Pode ser que seja a maior asneira da minha vida, mas vou confiar em ti, vou cancelar todas as investigações e tentar esquecer o erro cometido pelos médicos, durante o tempo que me pediste. Espero que me dês o teu contacto e me permitas telefonar de vez em quando para saber como estás e que me ligues imediatamente se surgir algum problema. Gostaria que mudasses de médico assistente, não confio nos médicos do Centro, quem erra uma vez pode errar duas. Mas compreendo que isso é uma decisão tua. Estamos no final de Junho, portanto no final de Setembro teremos que decidir o que vamos fazer no futuro em função do nosso filho.
 Disseste que escolheste este método por não estares interessada em nenhuma relação, pelo que suponho não tens namorado, ou amante com quem discutir este assunto, embora me pareça estranho que uma mulher bonita como tu não tenha ninguém na sua vida.
A Teresa pareceu-lhe ver nos seus olhos uma pergunta que não se atrevia a fazer.
- Como te disse, sou filha de mãe solteira, neta de avó divorciada. E quando se cresce com duas mulheres abandonadas, sofredoras e amarguradas, acabamos por nos afastar de toda e qualquer relação com o sexo oposto.
-Sendo assim creio que nos entenderemos. Até porque a minha  decisão está tomada.
 A criança será nosso filho e como pai quero fazer parte da vida dele, antes mesmo do seu nascimento. Isto é, acompanhar-te às consultas, assistir às ecografias, e ao parto. Podemos ser amigos e criar e educar o nosso filho em conjunto. Todavia se depois deste interregno, decidires que a criança é apenas teu filho e me negares o direito de fazer parte da sua vida, podes crer que irei buscar esse direito nos tribunais e que utilizarei todos os meios ao meu alcance para te aniquilar. De acordo?
-Parece-me justo, - disse ela abrindo a carteira e entregando-lhe um cartão. – Na verdade, ambos somos vítimas duma cilada, que a vida nos armou. Cabe-nos lutar para sair dela, com o mínimo de feridas possível. De seguida, levantou-se e ele fez o mesmo aproximando-se dela.
-Posso levar-te a casa? – perguntou
- Obrigado, mas tenho o carro estacionado no parque.
- Então acompanho-te até ele.
Abriu a porta, afastou-se para lhe dar passagem e seguiu-a dizendo ao passar pela secretária da sua assistente.
- Olga, vou lá abaixo acompanhar a senhora, já volto.
- Não era necessário acompanhar-me, - disse Teresa ao entrar no ascensor.
- Sei que não – respondeu, aproveitando o espelho do elevador para a mirar de alto a baixo. Era mais alta do que a maioria das mulheres, bonita e muito elegante. Além disso era inteligente e muito corajosa, ou não teria tomado a iniciativa de o procurar. Quando os seus olhos se encontraram através do espelho, Teresa corou e apressou-se a desviar o olhar, desejando sair rapidamente daquele curto espaço e da proximidade masculina.
Passaram pelo porteiro e pelo segurança e quando à porta ela lhe estendeu a mão para se despedirem, ele disse:
-Acompanho-te ao carro
Ela teria preferido despedir-se dele no escritório. Queria estar sozinha para relembrar a conversa e meditar sobre tudo o que nela disseram.
Pouco depois sim, despediam-se junto ao carro com um simples aperto de mão.
Teresa pôs o carro a trabalhar e arrancou. Ele ficou parado vendo-a afastar-se até que o carro saiu do parque e entrou na estrada. Só então regressou ao escritório.

18.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XI



- Meu Deus, filha. E vais viver com um desconhecido? É muito perigoso.
- Não vou, Irmã. Já estou a viver.
E Eva contou à irmã a conversa que tinha tido com André antes dele se mudar lá para casa, o juramento de que não lhe faria mal, e a maneira educada e correta como ele a tratara, depois que se mudara lá para casa.
- Sinto-me tentada a confiar nele, mas isso não impede que me sinta angustiada com o meu futuro. A casa era a minha segurança e agora sinto-me sem chão.
-Pelo que contas, não parece ser nenhum bandido, mas sabes como às vezes, as aparências enganam. Todavia, também sabes, que se precisares, tens aqui sempre uma cama e um prato de comida, não sabes?
Emocionada, Eva apenas acenou afirmativamente com a cabeça.
A Irmã, abraçou-a e acariciou-lhe a cabeça com ternura.
- Vou rezar por ti. Pedir à mãe do Céu que te proteja.
- Obrigada Irmã. Precisava desabafar. Agora já me sinto mais tranquila.
- Vem sempre que puderes. Fico preocupada contigo. Se puderes, faz com que esse homem te acompanhe, quando cá voltares. Quando se olha o nosso semelhante, olho no olho, dissipam-se dúvidas. Anda, vamos à cozinha. Tenho a certeza de que não almoçaste.
Eva almoçou no refeitório depois de cumprimentar a cozinheira, e continuando a conversa com a Irmã Madalena.
Meia hora mais tarde despediam-se ao portão. Eva estava mais tranquila. Precisamente o contrário da freira, que de imediato se dirigiu à capela para rezar pela sua protegida.
À tarde, Eva passou pelo supermercado para fazer algumas compras básicas. Tinha a dispensa praticamente vazia. Porém quando chegou a casa, ficou surpreendida ao encontrar André, na cozinha. Vestia umas calças de ganga justas, um polo azul, tinha posto o avental dela, que dada a sua estatura lhe ficava bem pequeno e lhe dava um ar de ator de filme cómico. E estava descalço.
- Que estás a fazer? – perguntou-lhe contendo a vontade de rir
- Não se vê logo? - respondeu-lhe com ar trocista.- O jantar.
- Tens por hábito cozinhares as tuas próprias refeições?
-Às vezes. Quando me dá saudades da comida da minha "nonna". Sabes que ninguém faz um prato de massa como ela? A propósito, espero que gostes de comida italiana. Estou a fazer para os dois.
-Quem é a "nonna"?
-Minha avó paterna. Não fiques aí parada, o jantar está quase pronto.
Eva poisou o saco com as compras sobre o balcão, virou costas e foi para o quarto. Tomou um duche rápido, vestiu um macacão de algodão florido, e passou a escova no cabelo, lembrando da cena que acabara de ver na cozinha e perguntando-se se aquele homem existia mesmo, ou se tudo não passava de uma ilusão da sua imaginação delirante.





Nota: Deixei de me preocupar com a ida ao Santa Maria no dia 19. Telefonaram-me ontem a cancelar a consulta. Espero que façam o mesmo para a semana, já que tenho outra marcada para dia 25. O meu olho não está vermelho nem inchado nem dói. E continuo a fazer as quatro qualidades de gotas e a pomada. O edema deve levar +ou- dois meses até desaparecer, e os pontos do transplante não deverão ser tirados antes de três meses. 

23.11.19

PARA MEDITAR

Perguntaram ao Dalai Lama...
"O que mais o surpreende na humanidade?"
E ele respondeu:
Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido.


Bom fim de semana

28.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VII





Fosse qual fosse o desfecho da tragédia que  Gil vivia no momento, ele  tinha tomado algumas decisões que iria pôr em prática a partir do dia seguinte.
Quando deixou o futebol, e embora se tivesse associado ao irmão, nunca pensou que o seu futuro passasse pelo empresariado, fizera-o apenas para fazer progredir o negócio, e a verdade é que o conseguiu, pois, três anos depois abriram uma filial no Porto e ultimamente já estudavam a hipótese de abrir outra em Faro. De facto, ele ia pouco à firma, dedicando-se de alma e coração ao curso que terminara à pouco, e à escrita. Era Marco quem a geria e a fazia crescer, embora nunca o tivesse conseguido se ele não se tivesse tornado sócio e não tivesse injetado na firma, uma boa quantia monetária.   
Agora ele ia doar os seus sessenta por cento da empresa ao irmão, de modo a torná-lo completamente independente. Por outro lado, esperava montar uma boa clínica à sua irmã, que se formara em medicina e que estava de momento a terminar a especialização em neurologia em Nova Iorque. Depois com as suas vidas estabilizadas, ele podia dedicar-se por completo, à escrita, e à sua filha, se Deus permitisse que ela chegasse a nascer. Teria que contratar uma boa ama para lhe ajudar com a menina, pois nada sabia de como cuidar de um bebé.
Pouco jantou. Estava física e emocionalmente cansado. E no dia seguinte teria uma reunião com o irmão e o advogado, a fim de iniciar o processo de doação das suas ações. Mais tarde, teria que entrar em contato com a agência de emprego a fim de lhe enviarem algumas amas. Teria que fazer várias entrevistas, a vida da filha era demasiado preciosa para a colocar nas mãos de uma ama mal qualificada. Calculava que tivesse algum tempo, embora a bebé pudesse nascer a qualquer momento se surgisse algum problema na mãe, que pudesse por em risco a sua vida. Todavia ainda assim ela teria que estar algum tempo na incubadora. Nem por um momento queria pensar, que a bebé poderia morrer antes de ver a luz do dia. A filha era uma guerreira ia nascer saudável, apesar do corpo que a estava a gerar estar apenas artificialmente vivo.
 Todavia como passava as tardes no hospital, ficava apenas com as manhãs para tratar dessas entrevistas.
Fazia-lhe tanta falta a irmã. Decerto ela seria não só um grande apoio moral, como uma ajuda nos primeiros meses de vida da sua filha. Apesar de já lhe faltar pouco mais de  um mês para o regresso, não podia pedir-lhe que interrompesse a sua vida e os seus sonhos por sua causa.
Abrira o portátil e como todos os dias, durante mais de uma hora pesquisou sobre bebés prematuros. Depois desligou-o e dirigiu-se ao quarto no piso superior.  Preparando-se para dormir, foi à casa de banho,  escovou os dentes, despiu-se e vestiu o pijama. Voltou ao quarto e deitou-se. Porém a madrugava já se aproximava quando conseguiu adormecer.

2.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXI



Ela sentia-se feliz. Era bom ver de novo a alegria do filho. E foi com um sorriso que agitou a mão numa despedida uma hora mais tarde, quando o carro desapareceu na curva da estrada.
Pedro não era homem de velocidades. Por isso não acelerou mais do que o costume. Mas fez a viagem de seguida, não parando uma única vez, nem quando passou pela casa da tia Palmira. Tinha pressa de ver Rita. Queria contar-lhe o porquê do seu comportamento, dizer-lhe quanto a amava, e pedir-lhe que aceitasse partilhar o seu futuro, porque ele já não o imaginava sem ela. Estacionou no parque do hotel, e dirigiu-se à receção:
-  Bom dia. Por favor, podia avisar a menina Rita Sequeira de que Pedro Medeiros deseja falar-lhe.
 – Lamento. A menina Rita e a família já não estão neste hotel.
- Como assim? - perguntou empalidecendo. - Disseram-me que estariam cá até domingo...
 – Parece que anteciparam a partida. Ontem à tarde veio o chefe de família e esta manhã partiram os quatro.
Pedro  sentiu que o mundo ruía à sua volta. Sentiu-se tão mal, que o empregado perguntou:
- Quer um copo de água?
 – Não obrigado.  A menina Rita não deixou nenhum recado para mim? Meu nome é Pedro Medeiros.
 – Comigo não. Só se com o meu colega. Mas ele hoje, só entra às dezasseis horas.
-Obrigado. Eu volto mais tarde.
Arrependido de não ter tido uma conversa franca com Rita, mas recusando deitar fora a esperança de que ainda pudesse haver uma mensagem, Pedro dirigiu-se a casa da tia Palmira, que arregalou os olhos de espanto quando o viu.
- Então rapaz o que aconteceu? Porquê esta volta tão repentina? Estavas tão aflito com o emprego. Despediram-te? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas?
E sem lhe dar tempo a responder voltou-se para a fiel empregada e disse:



13.2.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE XL




Durante uma hora conversaram animadamente. Contaram como se conheceram, falaram do casamento que se realizaria daí a oito dias, dos negócios de Paulo, e dos projetos de ambos para o futuro.
- Nós também temos uma novidade para vos dar, - disse Olga, segurando a mão do marido.
Olga era uma mulher muito bonita. De estatura pequena, teria pouco mais de metro e cinquenta, pele branca, cabelos da cor do trigo maduro e lindos olhos azuis, mais parecia uma daquelas bonecas com que as meninas brincam na infância. O seu aspeto delicado contrastava com o do marido que ultrapassava o metro e oitenta, de ombros largos e ar robusto.
- Vamos dar um priminho ao Martim, - acrescentou o marido com um sorriso de orelha a orelha.
- Que alegria, - disse Amelia abraçando a cunhada, e colocando a sua mão sobre o ventre dela. - Não se nota nada
- Logo se notará. Acabei de fazer os três meses. Não contámos antes porque sabes o que se diz.
Pelo rosto de Amélia perpassou uma sombra que ela logo afastou com um sorriso.
- Estou tão feliz por vocês!
Enquanto isso os dois homens também se abraçavam alegres.
- Quem havia de dizer que íamos pertencer à mesma família,- disse Paulo
- Sim. Mas vê lá como te portas, quero vê-los felizes.
- Não o desejas mais do que eu- retorquiu emocionado.
Pouco depois eles despediam-se e partiam.
Paulo abraçou a noiva.
- Querida, ainda não falamos na lua-de-mel. Não sei para onde gostarias de ir nem por quanto tempo, mas nesta altura eu não poderei afastar-me mais do que um par de dias. Mais tarde, quando conhecer melhor o pessoal, e souber em quem posso confiar, prometo-te uma lua-de-mel como tu mereces. Ficas triste?
- Não. A verdade é que também não poderia afastar-me agora . Fui promovida há pouco tempo, vou ocupar o lugar do Carlos e estão a acabar os dois meses, que me foram dados para tomar conta do lugar. E com estas férias, o tempo tornou-se mais curto. Esperei mais de dez anos por esta promoção, não posso falhar.
- Então estamos de acordo. Dois, três dias no máximo. Para onde?
- Não sei. Eu gostava de ir aos Açores. O que achas?
- Eu ficarei feliz onde estiveres. Segunda-feira trato disso.
Abraçaram-se e beijaram-se. Mas quando ele se levantou para sair, ela pegou-lhe na mão, e sem palavras levou-o para o quarto.



Amanhã por ser dia dos namorados, não haverá esta história. Voltará quinta-feira

25.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE IV




E agora ali estava ela, na ingrata incerteza de não saber o que ia ser dela, e do futuro duma empresa que sempre fora da sua família.
Nunca se tinha cruzado com o novo sócio, mas a sua fama de homem de negócios era tão conhecida, como o seu gosto por mulheres bonitas, que fazia com que não raras vezes, andasse exposto nas páginas das revistas cor-de-rosa, que por vezes desfolhava no cabeleireiro.
Que iria fazer com a empresa? Quereria geri-la? Ou deixá-la-ia nessa função, já que ninguém conhecia aquele negócio como ela?
Não. Com a sua fama de mulherengo, devia ser um machista, capaz de pensar que a única função das mulheres, era alegrar a vida dos homens.
Passou a mão pela testa. Doía-lhe a cabeça, de tanto pensar. Ainda se o advogado tivesse dito alguma coisa, sobre quando o seu representado se ia apresentar, se tivesse agendado uma reunião, pelo menos ela podia ter uma ideia do que ele pretendia. Mas nada.
Largara a “bomba”, e sumira.
Bateram à porta, e logo de seguida a secretária entrou. Era uma mulher de baixa estatura, um pouco roliça, de rosto afável, e sobretudo muito eficiente. Estava na firma desde o começo, vira crescer a jovem, por quem tinha um verdadeiro carinho, e era uma mais-valia para ela, que sabia poder contar com o seu apoio em qualquer situação.
- Está lá fora, o Bruno, encarregado da secção de tecelagem. Diz que a máquina, que foi arranjada o mês passado. está outra vez com o mesmo problema.
-Aquela máquina está a precisar de substituição urgente. E o pior é que nesta fase de transição, não posso tomar nenhuma decisão. Nunca vou perdoar ao meu irmão, pôr-me nesta situação. O novo sócio, não aparece, a encomenda tem que ser entregue sem falta para a semana, e eu não posso tomar nenhuma decisão.
- Quer que chame o mecânico que esteve cá da outra vez, para ver se ele resolve o problema?
-Faça isso Madalena. Vamos ver se resulta, pelo menos para acabarmos esta encomenda a tempo.
A secretária saiu e a jovem pegou na pasta de encomendas e começou a verificar as mesmas, e a comparar os “stocks” de fios, a fim de programar o trabalho seguinte.


17.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVII


Ana nem soube bem como chegou a casa. Sentia o corpo tremente como se estivesse cheia de febre. Como era possível que a sua vida se tivesse desmoronado assim em tão pouco tempo. Três meses antes ainda ela era uma rapariga alegre que saía quase todas as noites com um belo homem, que dançava, ria e sonhava com um futuro risonho, mais ou menos próximo. Depois, foi a desilusão, o perceber que Paulo nunca seria o homem da sua vida. Uma nova desilusão a juntar às duas anteriores. E agora, a sua vida tinha-se transformado num caos, um doloroso emaranhado de sentimentos que ela não sabia destrinçar.
Amara o irmão, como não tinha amado mais ninguém na vida. Ele era o seu ídolo, o seu anjo da guarda. Agora o irmão tinha morrido. Sim porque depois do amor que vira nos seus olhos, e sobretudo depois daquele beijo carregado de paixão, era uma imoralidade continuar a pensar nele como irmão.
Mas podia ela matar o irmão por uma ilusão de amor, que não sabia se não passaria disso mesmo?  A verdade é que o beijo, despertara-lhe sensações até aí desconhecidas. Mas isso seria amor? O que ia ser da sua vida daí para a frente? Saber que Simão se mantinha longe do país e da família por culpa dela, fazia-a sentir-se culpada, mas ao mesmo tempo, dava-lhe uma sensação de plenitude, saber que alguém a amava até aquele ponto.
Mas se depois de morto, o irmão, ela não fosse capaz de amar Simão como uma mulher ama o homem da sua vida?
Como poderiam conviver em família? Fosse como fosse sentia-se como um algoz, capaz de acabar com a felicidade de todos.
A meio da tarde do dia seguinte, ainda não tinha saído. Tinha os olhos vermelhos de chorar, estava mal-encarada, não tinha dormido nem comido nada desde o dia anterior.
Mas tinha tomado uma decisão. Tomou banho, carregou um pouco a maquilhagem, para disfarçar as olheiras, e bebeu um copo de leite frio. Pegou nas chaves do carro, na mala e saiu. Ia procurar refúgio junto da mãe. Francisca sempre a compreendera.


                                            

3.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XIII




- Por mim, -disse pousando o copo vazio, em cima da mesa. Pode ficar aqui o tempo que quiser. Certo que sou um homem, que desde sempre viveu sozinho, e não é fácil dividir o meu espaço com uma desconhecida. Mas quando faço uma promessa cumpro-a, e eu prometi cuidar de si e ajudá-la. E vou fazê-lo contra tudo, até mesmo contra a sua vontade. Claro que se cooperar, será muito mais fácil para os dois.
Fechar-se em casa, horas e horas a chorar, não vai ajudá-la em nada.
Nesse momento a jovem saiu a correr para o quarto. Atirou-se em cima da cama chorando copiosamente.
Miguel deixou-a chorar durante largos minutos. Depois entrou no quarto, sentou na beira da cama e estendeu-lhe um lenço.
- Pronto. Já chega, - disse em voz baixa, num tom carinhoso, como se estivesse a falar com uma criança.
-Tem medo? Acredito que sim. Eu também teria no seu lugar. O futuro pode ser temeroso, mas o passado que se desconhece será bem mais assustador. Se não está preparada, podemos esperar mais uns dias, mas eu no seu lugar ia o mais rápido possível. Já pensou, no sofrimento que pode estar a causar a terceiros? Que os seus pais, irmãos, quiçá o namorado, podem andar por aí desesperados à sua procura?
Calou-se. Mentalmente Miguel interrogava-se. Foi impressão sua, ou sentiu uma estranha tensão no corpo da jovem, quando falou na família?
O silêncio adensou-se. Miguel não sabia que dizer mais para aquietar o coração da jovem. Fez-lhe uma leve carícia na cabeça e deixou que acalmasse por esgotamento.
Algum tempo depois, ela levantou o rosto, e olhando-o disse:
- Pode marcar a consulta. Só não sei o que vou dizer ao médico.
-Não se preocupe com isso. Na hora saberá. Agora descanse.
Levantou-se e dirigiu-se ao quintal.
Ai, acendeu um cigarro. Raramente fumava. Mas em horas de grande tensão, era no cigarro que se refugiava. Não conseguia afastar do pensamento a jovem que chorava no quarto. Franziu o sobrolho. E se ela nunca recuperasse a memória? O que ia fazer com ela? Era evidente que não podia mandá-la embora, empurrando-a sabe-se lá para que destino, quiçá de novo para a falésia.
Mas ele também não podia ficar refém dela. Precisava fazer o que sempre fizera. Pintar, viajar, seguir com a sua vida.