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21.5.18
CONVERSANDO COM O LEITOR
Mais uma história chegou ao fim. Terá agradado a uns e não a outros o que é normal, mas foi a história mais difícil que escrevi até hoje, porque eu tinha escrito uma história a ser publicada em 28 dias que se chamava "A promessa". Nela o Carlos casar-se-ia com a Luísa, que carente pela morte do marido se apegaria a ele, enquanto ele cumpriria a sua promessa com o coração sofrendo de amor pela Emília. De vez em quando eu penso escrever uma história que não acabe bem, e esta era uma delas. Acontece que quando vos pedi um título para a história, a grande maioria escolheu "Renascer". Então disse-vos que eu escolhera "A Promessa" e perguntei qual dos dois preferiam. "Renascer" foi a vossa escolha clara.
Esse titulo não encaixava na história que eu tinha idealizado, e vai daí apaguei tudo, a partir do capítulo XV e mudei toda a trama, acabando por torná-la diferente e bem mais longa.
Depois quero dizer-vos que apesar da história ser ficção, baseou-se em alguns factos reais.
Por exemplo começa por dizer que Salazar já tinha caído da cadeira mas ainda estava no governo. E isso foi real no final de Agosto de 1968, data em que situei o início desta novela.
Já morreu um primo meu, que foi gravemente ferido no norte de Angola, e que esteve vários meses inconsciente num hospital de Angola, após meus tios terem recebido um telegrama com a notícia da morte dele, em Março de 1965. Não era fuzileiro, mas do exército, e não perdeu a memória, mas todo o tempo que esteve em coma, a família chorava a sua morte, e a minha tia mandava rezar missas pela sua alma. O acidente na ponte da vila de Peso da Régua, também foi real, aconteceu em Maio de 1964, quatro anos antes do Carlos a minha personagem, ter recuperado a memória, exatamente como a Emília lhe diz.
A decisão da Luísa de manter uma viuvez até ao fim dos seus dias, incompreensível nos dias de hoje, não era caso raro na época. Minha tia Palmira, recentemente falecida, ficou viúva em 1969 com dois filhos pequenos e assim se manteve até à morte. Uma amiga minha casada com um pescador de bacalhau do navio Creoula, Também ficou viúva nos anos 60 com uma menina de dois anos e outra de poucos meses. Vive aqui perto e ainda hoje já bisavó, guarda a memória do marido na viuvez que mantém.
As festas de Nossa Senhora do Socorro também acontecem em Agosto. Os guardas-florestais, também existiam, meu tio João, foi-o no parque florestal de Monsanto, e a casa que eu descrevo era a sua casa, bem como a mítica fábrica de gelados Rajá que ali existia. Esses gelados foram tão famosos na época, que ninguém dizia que ia comprar um gelado, mas que iam comprar um Rajá, fosse qual fosse o gelado, ou a marca. Finalmente a notícia e a canção no capítulo final que todos sabem foi o sinal para a Revolução do 25 de Abril. Estes são os factos reais em que me inspirei para escrever esta novela. O resto é ficção.
Resta-me acrescentar que a vila de Peso da Régua, ou simplesmente Régua, foi elevada a cidade em 1985.
Espero que tenham gostado.
Um bem haja a todos os que têm perguntado pela minha saúde. Fiz exames na Sexta-feira. O resultado demora oito dias. Entretanto desde ontem, quase não tenho tantas dores. Penso que o pior já passou. Vamos ver.
21.4.18
RENASCER - XVII
18.4.18
RENASCER - XV
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18.2.18
ENTRE DUAS DATAS
foto da net
I
Corria o ano de mil novecentos e sessenta e quatro.
O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo, renitente em dar lugar ao Outono.
Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:
Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:
- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!
A jovem sorriu. Sorriu para o céu azul, para o passarinho, que naquele momento, passou a cantar, esvoaçando pela janela do seu quarto, e para o sol radioso que anunciava um dia de calor. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se refletia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, barrou-lhe o pão com um pouco de margarina, que constituía o de-jejum habitual, juntou-lhe um copo com leite quente, e deixou-a a comer, enquanto "puxava as orelhas" à cama e dava uma arrumação aos quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:
- Mana, já se vê o barco, já lá vem...
Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe, era o Gazela, um lugre-patacho da pesca bacalhoeira, que pertencia à Parceria Geral de Pescarias, dona da Seca da Azinheira, onde ela nascera e vivia. Andando devagar, com a irmã pela mão, chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido espera-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava, como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, filhos de gente que morava na Telha, e trabalhava na Seca durante a Safra, foram companheiros de brincadeiras. Depois cresceram, e ou por gosto, ou por falta de opção, ou ainda para fugirem da guerra colonial, juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras há muito tempo se tinham radicado na Telha, Quinta da Lomba, ou Verderena, localidades à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...
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4.5.16
MANEL DA LENHA - PARTE LXIII
Cidade da Beira - Moçambique colonial
O novo ano começa com o regresso do filho do Manuel ao trabalho na CP, acabado que foi o tempo de tropa, integralmente cumprido no Ministério da Marinha. Acabou-se para eles o medo de que a qualquer momento, o filho fosse mobilizado para a guerra no Ultramar, numa altura em que as coisas por lá pareciam estar cada vez pior, a julgar pelos recentes incidentes na Beira, em Moçambique, e pela retoma pela UNITA da luta armada no leste de Angola.
De Luanda, chegam notícias da filha. Diz que já está recuperada, que regressou ao trabalho, que cada dia gosta mais da cidade, e que não fora o marido ser militar, fixariam lá residência.
"É doida -exclamou a mulher. Onde já se viu querer ficar a viver no fim do mundo. Ainda por cima numa terra em guerra"
-A guerra não chega à cidade, mulher.
-Ainda... resmungou a Gravelina
Enquanto isso o trabalho na seca prosseguia, com outra novidade. O transporte dos fardos de bacalhau seco, ia deixar de ser feito em fragata, pelo rio. Passaria a ser feito por camioneta. Diga-se em abono da verdade que enquanto eram precisas 30 mulheres com um carrinho de mão para carregarem uma fragata em meio dia, já que tinham de ir com ele até à cabeça da ponte, e voltar, uma camioneta carregava-se em menos de uma hora, e eram precisas apenas duas pessoas na camioneta para arrumarem os fardos, pois a camioneta estacionava por baixo, do local onde os fardos estavam prontos para o embarque, no primeiro andar do edifício como já expliquei noutro capítulo. Punha-se a tal tábua de escorrega, directamente na camioneta e era só deixar cair os sacos. Mais rápido e sobretudo muito mais económico.
Entretanto Spínola é nomeado Vice-Chefe EMGFA, e poucos dias depois, reúne-se com Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço.
Oficialmente, discutem-se os recentes acontecimentos na Beira. Mas seria só isso? Faltavam exactamente noventa e quatro dias para o 25 de Abril.
Gente estive três dias fora. Por via disso, não houve visitas. Espero retomá-las hoje mesmo.
Amanhã já vos mostrarei algumas fotos das minhas andanças.
O novo ano começa com o regresso do filho do Manuel ao trabalho na CP, acabado que foi o tempo de tropa, integralmente cumprido no Ministério da Marinha. Acabou-se para eles o medo de que a qualquer momento, o filho fosse mobilizado para a guerra no Ultramar, numa altura em que as coisas por lá pareciam estar cada vez pior, a julgar pelos recentes incidentes na Beira, em Moçambique, e pela retoma pela UNITA da luta armada no leste de Angola.
De Luanda, chegam notícias da filha. Diz que já está recuperada, que regressou ao trabalho, que cada dia gosta mais da cidade, e que não fora o marido ser militar, fixariam lá residência.
"É doida -exclamou a mulher. Onde já se viu querer ficar a viver no fim do mundo. Ainda por cima numa terra em guerra"
-A guerra não chega à cidade, mulher.
-Ainda... resmungou a Gravelina
Enquanto isso o trabalho na seca prosseguia, com outra novidade. O transporte dos fardos de bacalhau seco, ia deixar de ser feito em fragata, pelo rio. Passaria a ser feito por camioneta. Diga-se em abono da verdade que enquanto eram precisas 30 mulheres com um carrinho de mão para carregarem uma fragata em meio dia, já que tinham de ir com ele até à cabeça da ponte, e voltar, uma camioneta carregava-se em menos de uma hora, e eram precisas apenas duas pessoas na camioneta para arrumarem os fardos, pois a camioneta estacionava por baixo, do local onde os fardos estavam prontos para o embarque, no primeiro andar do edifício como já expliquei noutro capítulo. Punha-se a tal tábua de escorrega, directamente na camioneta e era só deixar cair os sacos. Mais rápido e sobretudo muito mais económico.
Entretanto Spínola é nomeado Vice-Chefe EMGFA, e poucos dias depois, reúne-se com Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço.
Oficialmente, discutem-se os recentes acontecimentos na Beira. Mas seria só isso? Faltavam exactamente noventa e quatro dias para o 25 de Abril.
Gente estive três dias fora. Por via disso, não houve visitas. Espero retomá-las hoje mesmo.
Amanhã já vos mostrarei algumas fotos das minhas andanças.
6.4.16
MANEL DA LENHA - PARTE XLIII
Em Maio, já com o trabalho da Seca terminado, e enquanto a Gravelina seguia pelo rádio as transmissões de Fátima chegou um telegrama para a filha mais velha. Como os telegramas geralmente traziam sempre más notícias, e também porque naquele tempo a noção de privacidade quase não existia, (pelo menos nas camadas mais baixas da população ela abriu o telegrama e verificou que era da irmã do namorado da filha que a informava de que a mãe tinha acabado de partir, para aquela viagem da qual ninguém volta.
Gravelina pediu ao gerente para fazer uma chamada para casa da irmã em Lisboa a fim de que ela informasse a filha, quando esta regressasse do trabalho.
Já aqui se disse que o Manuel era um apaixonado pelo futebol. E por isso seguiu com grande entusiasmo, todos os jogos desse mundial em Inglaterra em Julho de 66 que haveria de levar a Selecção Portuguesa, os célebres "magriços" ao 3º lugar. Proeza nunca mais repetida. É nessa altura que pela primeira vez Eusébio é considerado o melhor jogador do mundo.
Precisamente nove dias depois é inaugurada a Ponte Salazar, que liga as duas margens do Tejo.
No final do Verão voltou da Guiné o namorado da filha . Estivera apenas 10 meses, pois fora render um jovem que lá ficara numa emboscada, e por pouco não ficara também ele por lá, não por ter sido ferido, mas porque apanhou um paludismo tão violento que até os médicos duvidaram que resistisse.
Desembarcou na base Naval do Alfeite, amparado por dois camaradas, com apenas 47 Kg.
Com o rapaz por cá, a filha voltou para casa dos pais, pois a tia, em casa de quem estivera durante meses, disse que não queria a sobrinha lá em casa com o namorado por cá. Vamos que o rapaz desonrava a moça e a abandonava? Ela não queria essa responsabilidade.
Pouco depois, quase no final de Setembro é reaberta a Colónia Penal do Tarrafal.
14.11.15
FOLHA EM BRANCO PARTE XXVII
-Lisboa
é maravilhosa!
Miguel
quase provocava um acidente ao olhar para ela, ao mesmo tempo que o seu pé
carregava no travão.
-Lembraste
alguma coisa?
-O
quê?
Como
o quê? Disseste que Lisboa é maravilhosa! – disse ele nervoso
-
Ah! Isso? Não sei. Veio-me à cabeça, essa ideia. Nada mais.
-
Pode ser um sinal, disse ele sem convicção. Fica atenta. Se reconheceres alguma
rua, algum monumento, por favor diz.
-
Fica descansado. Ninguém deseja mais isso do que eu.
Mas
não voltou a falar até entrarem em casa.
Miguel
vivia, no sexto andar de um edifício antigo, numa das zonas mais bonitas da
cidade. À chegada, tiveram que dar uma volta pelo quarteirão, até que Miguel
encontrou um lugar vago para estacionar, um pouco distante da casa.
O
elevador, era antigo, pequeno, mas os dois lá se acomodaram o melhor que
puderam pois as três malas de viagem quase o enchiam por completo.
A
casa ocupava todo o espaço do prédio que só tinha um inquilino por andar.
Miguel
foi abrindo as janelas e mostrando a casa à jovem.
Um
quarto, que fora dos pais, o seu quarto, mais um quarto, que era da avó
Ermelinda, quando vinha passar férias com o filho, e que seria o quarto para ela,
a cozinha, uma sala, na qual uma escada em caracol, despertou a curiosidade da
jovem.
-Dá
para a mansarda, onde tenho o atelier. Também tem entrada pelo exterior, que
uso para a entrada e saída dos materiais e telas.
E
finalmente a casa de banho. Destoa do resto da casa, pois foi reconstruída o
ano passado. Havia junto dela, um pequeno quarto sem utilidade, mandei derrubar
a parede e assim o espaço quase triplicou.
-
A casa está impecável. Tanto tempo, fechada, não devia ter pó?
-Na
semana passada, telefonei à porteira e pedi-lha que arranjasse alguém de
confiança, para vir limpar e arejar a casa.
-
Pensas em tudo!
-Estou
habituado a viver sozinho. Bom, agora que já conheces a casa, fica à vontade,
eu vou lá abaixo à porteira. Preciso da sua ajuda, para resolver algumas
coisas, e saber se já chegaram as telas e se elas as recebeu.
Saiu.
Mariana foi até à janela e ficou maravilhada. A paisagem era muito bonita. Via-se
uma grande parte de Lisboa, o Tejo, a ponte 25 de Abril, e o
Cristo-Rei.
“O ideal para um pintor” murmurou preparando-se para arrumar as roupas no
armário
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