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27.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XI

 



-Porquê, doutora? Porque me trazes para tua casa, e me tratas como se fora alguém da tua família?
- Não sei, - disse sustentando-lhe o olhar. -Talvez porque me sinta responsável por ti, desde que te vi meio morto na estrada, ou porque a época é de fraternidade e me aflige, que não saibas quem és, nem para onde hás de ir. Ou porque sempre me senti, um pouco a Joana D'Arc, e nunca tive oportunidade de o demonstrar. Ou simplesmente,  porque gostaria que alguém me ajudasse se fosse comigo. Mas isso que importa? 

Agora tenho que ir lá acima ao quarto andar, buscar o meu filho, a festa do amigo já terá terminado. Depois acabo de preparar o jantar que na verdade já está feito, é só ligar o forno para o aquecer. Enquanto isso, podes ir para o teu quarto descansar, ou para a sala, tens lá vários livros, ou  se te apetecer, liga a Televisão.

Com os olhos brilhantes de emoção, ele beijou-lhes as mãos e disse:
-És uma mulher incrível, doutora. Oxalá a tua generosidade possa ser recompensada.

 Soltou-a e virou-se para a janela, para esconder dela o desespero que a sua situação lhe provocava.

- Não fiques assim. Tenta relaxar. Quanto mais te esforças, mais frustrado ficas. A tua RM não acusou nenhuma sequela que seja a causa da amnésia. Deves ter tido um choque grande e o teu subconsciente recusa-se a recordar. É como se ele receasse alguma coisa. Quando deixar de recear, recordarás tudo. Agora, vou buscar o Diogo. Deveríamos arranjar-te um nome. Não pudemos dizer-lhe que não te lembras e como te chamas, porque isso iria fazer uma grande confusão, na sua cabeça. Tens predileção por algum?
- Fernando – disse sem pensar, e acrescentou. Foi o primeiro que me ocorreu. Será que é o meu nome?
- Quem sabe? Pode ser. Até já – disse saindo e deixando-o a sós com os fantasmas  que o atormentavam.

Fernando, foi até à sala. Acendeu a luz, e dirigiu-se à estante que ocupava toda uma parede. Muitos livros relacionados com a medicina, diziam bem do interesse da dona da casa. Mas também havia muitos outros. Clássicos da literatura mundial, como Goethe, Balzac, Shakespeare, Dostoiévski, Homero, Dante, Camus, Victor Hugo, Sartre, Ionesco, Steinbeck, entre muitos outros. Mas também os de língua portuguesa, como Camões, Pessoa, Machado de Assis, Jorge Amado, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Virgílio Ferreira, entre um numeroso grupo de bons autores. Escolheu “O Náufrago” de Thomas Bernhard, porque no fundo era assim que ele se sentia. Um náufrago da própria vida.
Sentou-se no sofá e abriu o livro. Mas não teve tempo para iniciar a leitura, porque nesse momento, a porta abriu-se e Helena voltou com o filho.
  



19.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXXIII




 Eram dez horas e vinte minutos da noite de sábado, véspera da Páscoa . Estendido no sofá da sua sala, com os braços debaixo da cabeça, Gonçalo recordava as emoções porque passara naqueles dois dias.

Tinha chegado à "Flor do campo" a quinta dos pais de Helena, na véspera faltavam quinze minutos para as onze. À entrada do largo portão, encontrara Matilde que se pusera a meio da estrada que o levaria até à casa uns duzentos metros mais à frente. 

Sem saber bem o que pensar, ele parara o carro e saíra. Por largos segundos que lhe pareceram uma eternidade, ficaram olhando um para o outro em silêncio, deixando que os olhos gritassem tudo o que lhes ia na alma. Depois ele pusera um joelho no chão, tornando o seu corpo de um metro e noventa e dois, mais acessível à altura da filha e abrira os braços.  Matilde correra a refugiar-se neles. 

A emoção que sentira fora tão grande, que só a muito custo conseguiu conter as lágrimas que acabaram correndo livres quando Matilde lhe segurara o rosto com as mãos trémulas e dissera:

- Pai, finalmente vieste. Meu Deus toda a minha vida desejei saber quem eras, onde estavas, porque não vinhas ver-me. Estar agora aqui nos teus braços, é a realização do meu maior sonho.

 A mãe contou do teu desastre, da perda de memória, e de que não sabias sequer que eu existia. Mas agora que já sabes, promete que nunca mais te esqueces de mim. Prometo que serei uma boa filha e que um dia ainda vais sentir orgulho de mim.

- Já sinto orgulho de ti minha filha, e juro que aconteça o que acontecer estarei sempre presente na tua vida, amando-te e protegendo-te. Agora limpa essas lágrimas, entra no carro e vamos até casa, está bem?

Estacionara no largo junto à casa um edifício de dois andares, no qual entrara pela mão de filha e  fora por ela apresentado aos tios, avós e primos. 

Ele gostara da família. Todos o receberam com aquela amabilidade típica das gentes do interior. Apenas Sérgio se mostrara menos simpático, mas ainda assim não inconveniente.

 Durante o almoço, o dono da casa, afirmou que estavam felizes com a sua presença, que gostariam de que passasse com eles aquelas festas da Páscoa.

 Ele agradecera, mas dissera que infelizmente teria de regressar no dia seguinte à tarde, pois estaria no serviço de urgência no hospital Domingo de Páscoa.

Depois do almoço, as mulheres foram para cozinha, Matilde recebera ordem de ir descansar, afinal havia apenas uma semana que sofrera a cirurgia e os primos Maurício e Mário foram para o quarto enfrentar-se num jogo virtual. 

Na sala ficaram apenas os três homens e Gonçalo pensara que era a hora de ter uma conversa séria com os outros dois, sobre quem ele era, as suas intenções de reconhecer e dar o seu nome à filha e o seu desejo de casar com a mãe. 

O destino o privara, por desconhecimento, de lhes dar aquilo a que tinham direito, mas agora que as descobrira, queria o mais rápido possível, recuperar o tempo perdido.  

Os dois mostraram-se satisfeitos com o que ouviram e os três apertaram as mãos num gesto de aceitação e apoio.

    


4.11.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LIV

 


Naquela noite, enquanto Gabriela jantava, e João fazia como de costume companhia a Teresa, a conversa recaiu sobre a ecografia e a emoção que ambos sentiram. E então ele perguntou-lhe se já tinha pensado nas suas vidas quando os bebés nascessem, ao que ela respondeu que lhe prometera falar nisso quando passasse a barreira dos três meses. Faltavam quatro semanas e talvez fosse superstição sua, mas antes das doze semanas não tomaria nenhuma decisão pensando no seu futuro e no das crianças.

- Eu tenho fé que vai correr tudo bem e até já imagino os três meninos…

- E se forem três meninas, - interrompeu Teresa. Fará alguma diferença?

- Nenhuma, - respondeu prontamente. Penso que de forma inconsciente, quando se espera um filho, uma pessoa tem sempre tendência a falar no seu próprio sexo. Um homem fala em meninos, uma mulher em meninas, mas na prática pouco importa. O que realmente conta, é que sejam saudáveis. E vão ser felizes porque se vão ter uns aos outros, vão poder brincar juntos, amar-se e apoiar-se. Crescer sozinho, é muito triste.

- Foi assim contigo?

-Foi. O meu pai era uma pessoa muito severa, e a única amiga que eu tinha era a Olga, que vivia no mesmo pátio mesmo ao lado da minha casa, mas ela tinha quase onze anos a mais que eu. Quando eu tinha cinco anos ela já estava no secundário e tinha mais ou menos o mesmo corpo que tem hoje. É fácil de perceber que as minhas brincadeiras não lhe interessavam.

- E a tua mãe?

É uma história muito complicada, não dá para ta contar agora, a Gabriela deve estar a voltar do jantar. Mas prometo que ta conto em breve.

-Eu também sou filha única, mas nunca fui uma criança solitária, pois na aldeia éramos todos muito unidos. Mas de certo modo tenho pena destas crianças.  Eles nunca vão ter o carinho de tios, primos ou avós. Eu não conheci o meu pai, nem o meu avô, mas a minha avó era uma grande mulher e foi sempre um pilar de apoio para a filha e neta. Os nossos filhos nunca vão ter esse apoio.

- Não. Mas vão apoiar-se entre si e vão contar com todo o amor da nossa parte. E poderão vir a contar com o apoio de tios e primos, pois acabo de saber que tenho um irmão, que me parece ser uma boa pessoa. Em breve conto-te tudo. Desejo que saibas tudo sobre mim, para que, quando chegar a hora de tomares uma decisão, não tenhas dúvidas.

Naquele momento a enfermeira regressou ao quarto, e isso impediu Teresa de responder se é que o queria fazer. Ele despediu-se desejando uma boa noite às duas, e saiu do quarto.

Já no escritório, olhou o relógio. Nove e dez da noite. Não eram horas de ligar ao irmão, provavelmente estaria com a noiva, mas podia mandar uma mensagem.

Escreveu:

“David, já li a carta. Queria estar contigo, gostava que me falasses da mãe e de ti. Conhecer-te. E dar-me a conhecer. Quando puderes dispor de umas horas, avisa-me. João”

Um quarto de hora depois chegou a resposta.

“Amanhã não tenho audiências. Tenho dois clientes de manhã, e a tarde livre. Podemos almoçar juntos. Telefono-te quando estiver livre e combinamos. David”

Pôs de lado o telemóvel, abriu o portátil e dedicou-se a ler os emails recebidos, quase todos de felicitações pelo “Survive II”.

 

25.6.20

ISABEL - PARTE XXXII




foto do google

O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando, e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura e na gastronomia. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
E o jantar continuou entre animada conversa.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
Luís pagou a conta e desceram juntos para o piso inferior. 
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro, - disse ele enquanto se encaminhavam para a saída. - Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Dás o teu número de telefone?
Ela abriu a mala e tirou um cartão, da firma.
- Fax e  telefone são da firma, mas o telemóvel é o meu número.
- Não tenho comigo nenhum cartão, - disse ele. Tens onde escrever?
Ela retirou uma pequena agenda da mala, e anotou o número que ele lhe ditou.
Saíram do edifício e já no parque, ela estendeu-lhe a mão dizendo:
- Agora tenho mesmo de ir.
Ele segurou-a, e olhos nos olhos, puxou-a para si. Abraçou-a.
Isabel sentiu as pernas a tremer. Tanto que receou não se segurar de pé. 
Sentindo o beijo eminente, baixou a cabeça, fazendo com que os lábios masculinos apenas roçassem a sua testa, enquanto o seu íntimo se revoltava, amaldiçoando-a pela falta de coragem.
O homem sentiu-lhe o corpo tremente. Percebeu-lhe a emoção. Se fosse mais jovem, teria-lhe-ia levantado o queixo e forçado o beijo. Mas Luís tinha quarenta e cinco anos, e nessa idade, um homem já não se preocupa tanto com a satisfação imediata dos seus desejos. Preocupa-se mais com as emoções da alma. Ele sabe que o resto vem por acréscimo. Soltou-a.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois encaminhou-se para a estação do metro que o levaria de regresso à sua nova casa, pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe, e ao mesmo tempo me deixa ansioso como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que  tinha contado praticamente toda a sua vida pessoal e profissional, a  Luís se limitara a ouvir e pouco falara sobre ele, continuando assim a ser um quase desconhecido.
De uma coisa ela tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. E, se como dizia Amélia,  "a vida é como brisa de verão em fim de tarde,  passa rápida e poucos dão por ela". Um dia destes acordava e a brisa tinha virado vento de inverno, derrubando-a como folha morta. Decidiu-se.  Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Luís, ela iria lutar por consegui-lo. Assim Deus lhe desse coragem!

                                               


1.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXI


- Ainda não me respondeste.
- Sim?  É que quando me beijas, esqueço-me até do meu nome.
- Casas comigo?
- Sim.
- Quando?
- Quando quiseres.
- Amanhã?
Riu-se.
- Não se faz um casamento de um dia para o outro.
- Dez dias, "cara".
-É muito pouco.
- Não me subestimes. Deixas-me tratar de tudo. E garanto-te que casamos em dez dias.
 - Quero ver isso.
-Combinado. Dentro de dez dias.
   Ele olhou o relógio.
 - Vai mudar de roupa. Escolhe uma roupa bonita. Vamos jantar fora. Não te demores, ou ficamos sem jantar.
- Não me apetecia sair. Podíamos jantar em casa.
- Não se faz um jantar de noivado em casa. Vai, os convidados esperam-nos.
Apressou-se a fazer o que ele pedia. Convidados? Que convidados? Escolheu um vestido-túnica de lã preto, bem curto, e umas meias opacas da mesma cor. Completou o conjunto com botins de salto e um casaco cor de tijolo. Escovou o cabelo, pegou na bolsa, e considerou-se pronta.
Sentiu-se recompensada com o olhar de admiração com que ele a brindou.
- Estás linda. Vamos, antes que acabe por desistir do jantar. – Disse ajudando-a a vestir o casaco.
Na rua, ela entregou-lhe as chaves do carro e ele abriu-lhe a porta para ela entrar. Depois deu a volta ao carro, sentou-se ao volante mas em vez de por o motor a trabalhar, meteu a mão no bolso, e tirou uma pequena caixa.
- Tinha-me esquecido. Uma noiva não pode ir para o seu jantar sem anel.
Ela abriu a pequena caixa e retirou o anel  mais bonito que alguma vez tinha visto. Abraçou-o emocionada, sem conter as lágrimas.
- Vá lá "amore mio", se não paras de chorar, os convidados vão pensar que te vais casar obrigada.
E para esconder a sua própria emoção, pôs o motor a trabalhar e arrancou.
- Há uma coisa muito importante de que não falamos. Onde vamos morar? Eu gostaria de viver em Itália. Eu e o meu irmão temos a maior vinha, da Toscana,  perto de Greve in Chianti, cidade onde mora a minha família. Agora que deixei a polícia, é lógico que me dedique  a gerir a minha parte na vinha e liberte um pouco o meu irmão. Teríamos que viver com os meus pais, enquanto procuramos comprar a nossa própria casa. Pensas que podes viver lá?
-Poderei viver até no Polo Norte, se tu lá estiveres, amor. 
Parou o carro junto ao melhor hotel da cidade. Deu-me um beijo rápido e disse sorrindo:
-Diz-me isso, quando chegarmos a casa. Para que possa agradecer-te  de forma mais conveniente.



Nota:
Como os leitores antigos sabem, esta história é uma reedição, e na época em que a escrevi a Itália não estava como hoje a ser assolada por este vírus.

Aproveito para responder a algumas perguntas que me fizeram nos comentários de ontem.
1ª Qual será a nova profissão do André, a resposta está neste episódio.
2º Mas ele era ou não jogador e ganhou ou não a casa ao marido dela.
Claro que ele era jogador. Não poderia levar meses de investigação em nenhum casino apenas como mirone. Levantaria suspeitas. E não ele nunca jogou com o marido dela, a explicação foi dada num episódio que talvez não tenham lido. O marido dela andou desesperado pelas mesas fazendo a oferta a troco de uma quantia para continuar a jogar. André deu-lhe essa quantia, e ele voltou a perder.

15.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIV






Duas semanas depois, os médicos decidiram que era chegada a hora de fazerem Mariana nascer.  Estava com trinta e duas semanas, tinha boas hipóteses de sobreviver sem qualquer sequela, e a situação no útero da mãe começava a tornar-se mais complicada à medida que a situação materna se ia deteriorando.
Gil fora avisado de véspera e por isso logo de manhã, dirigiu-se ao hospital com a mala de roupa que preparara com a ajuda da Celeste, pois a falar verdade não tinha a noção do que devia escolher entre a quantidade de roupinhas que enchiam as gavetas da cómoda, no quarto que seria o da filha.
No hospital, foi-lhe dada autorização para assistir à cesariana, e para isso teve de se despir e vestir a bata esterilizada bem como a touca e sapatos cirúrgicos que a enfermeira lhe deu.
E foi com enorme emoção e algum receio que segurou a filha quando uma enfermeira lhe desapertou a bata e lhe encostou o recém-nascido e minúsculo corpo da menina ao seu próprio peito nu. Nada nem ninguém podia ter preparado Gil para a intensa emoção que acelerou os seus batimentos cardíacos, e lhe pôs um nó na garganta que lhe impediu qualquer palavra. Limitou-se a segurá-la com carinho, e a tentar fazer-lhe sentir toda a força do seu amor, através do bater acelerado do seu coração.
Como se isso a tornasse mais forte e mais apta a sobreviver. Mas logo a enfermeira a levou, para a pesar, vestir, ser vista pelo médico e levada para a incubadora, até que lhe fosse dada alta.
 Mil anos que ele vivesse, jamais esqueceria a emoção que sentira no momento em que pegou na filha recém-nascida ao colo e sentiu o frágil bater do seu pequeno coração
Pouco depois, uma enfermeira fê-lo sair do bloco de partos, enquanto o informava que as máquinas que mantiveram Sara artificialmente viva, iam ser desligadas. O médico iria passar a certidão de óbito, e ele poderia iniciar com a agência funerária os trâmites para o funeral.
Um pouco mais tarde, já vestido abraçava o irmão, que chegara ao hospital, no momento em que ele ia para o bloco operatório, e aguardara na sala de espera, por notícias.
- Foi emocionante, Marco – disse Gil respondendo à muda interrogação dos olhos do irmão. – Segurar nos braços aquele pedacinho de carne, sentir o seu coraçãozinho bater no meu peito, nem consigo descrever o que senti.
- Ela está bem de saúde? E o que vai acontecer agora? – perguntou o irmão.
-É muito pequenina, mas fisicamente é perfeita e tem bons pulmões. Se visses como chorou enquanto a limpavam. Agora vai ser examinada por um pediatra e levada para a incubadora.
Uma enfermeira virá avisar quando a Mariana esteja na incubadora. Vais comigo, vê-la?
-Posso?
- Segundo me informaram, só  vamos vê-la através de um vidro. O médico acabou de me informar que vão desligar as máquinas que mantinham a Sara em vida artificial. Tenho que telefonar ao pai dela, e saber se a família vem 
despedir-se dela, e se assim for, conseguir passagens de avião para eles.
- Vamos tratar de tudo juntos, não te preocupes. Enquanto telefonas para o teu sogro eu vou ligar para a Laura. 








28.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXV






Mudou-lhe a fralda, depois despiu-a, vestiu-lhe um pijama, e deitou-a. Aconchegou-lhe a roupa, e beijou-a, sob o olhar atento do amigo.
- Quero a mãe, - disse a menina.
-A mãe vem já, o pai, vai chamá-la.
Não precisou fazê-lo, pois nesse momento a porta abriu-se e Isabel entrou seguida de Natália. As duas beijaram a criança, e então ela pediu a boneca nova.
-Queres dormir com a boneca?- perguntou-lhe Ricardo.
-Sim.
-E o Tobias não se zanga? Ou queres dormir com os dois?  
-Sim, os dois.
-Então o pai vai buscar a boneca. Mas não te levantas nem destapas, está bem?
-Está.
Todos saíram do quarto. Ao chegar à sala, Ricardo pegou na boneca e foi levá-la ao quarto. Colocou-a na cama, debaixo da roupa, ao lado do corpo da menina, voltou a prender a roupa, deu-lhe um beijo e disse:
- Boa noite, Matilde.
- Boa noite… pai
Ricardo, que acabara de abrir a porta para sair, parou emocionado. Era a primeira vez que a menina lhe chamava assim. Pai. Uma palavra tão pequena, para uma emoção tão grande. Com os olhos brilhantes, voltou atrás e beijou de novo a criança, já quase adormecida.
Saiu, mas não se dirigiu imediatamente à sala. Ficou ali encostado à porta fechada, lembrando do tanto que amara e desejara, a criança que Ivone gerava, e que ele julgava ser dele. Por amor dela, aceitara o desprezo da mulher que amara e a dor daquele casamento falhado. E afinal nem chegara a conhecê-la, e teve que sepultar no coração o sentimento de amor que lhe tinha. Que importava que a criança não fosse dele, que a mulher o tivesse enganado. A raiva, o ódio dele, era para a mãe, não para aquele ser com que ele sonhara durante meses. Agora, quase sem se dar conta, esse sentimento voltara a apoderar-se dele. Durante aqueles quase dois meses que convivia com Matilde, rindo e brincando, ensinando-lhe novas palavras,e brincadeiras, ele descobrira que o amor sentido um dia e que julgara morto, se mantivera adormecido no seu coração, por quase vinte anos, e ressurgia agora em toda a sua plenitude. Era como se Matilde fosse a “sua criança” de então, que por um qualquer capricho da natureza, nascesse apenas agora. Nunca em nenhum momento se lembrava de que ele não era o pai biológico. 
E ali mesmo, ao lado da porta fechada, jurou a si mesmo, que acontecesse o que acontecesse com o seu casamento, nada nem ninguém no mundo, lhe roubaria o amor da filha, nem a emoção que ele sentia, a cada progresso dela. 
Quando chegou à sala, a mulher e os amigos conversavam animados. Porém quando os olhos de Isabel pousaram nos seus, ele leu claramente a preocupação quase instantânea. O que aconteceu? - parecia indagar o seu olhar.  “Nada. Está tudo bem”, pensou, enquanto sorria. Como se ela tivesse lido o seu pensamento, o olhar dulcificou-se-lhe e sorrindo disse:
- Vamos para a mesa?
Os quatro levantaram-se, e dirigiram-se para a casa de jantar.
- Sentem-se. Eu vou buscar a comida - disse Isabel.
- Eu ajudo - disse a amiga.
- Já ajudou muito - respondeu Ricardo. - Sentem-se. Nós tratamos de trazer a comida, - concluiu seguindo a mulher para a cozinha.




Nota, como sabem hoje dia 28 vou fazer novos exames e consultas. Depois irei ao hospital ver o cunhado que sofreu um AVC e continua internado. O mais certo é não visitar ninguém, peço desculpa. No dia 27 que está a acabar também não fiz muitas visitas, o sistema nervoso, tem estado alterado. 

30.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XX


Durante um longo minuto, o silêncio caiu sobre eles. Por fim Ana falou.
- Eu queria sentir esse amor. Queria que me ensinasses a ser feliz, e a fazer-te feliz. Mas tenho medo Simão. Um medo irracional, que me sufoca.
- E de que tens medo, querida?
- De não ser capaz de corresponder às tuas expectativas. De não conseguir fazer amor contigo, porque de repente me lembro, que somos irmãos.
- Tu sabes que não é verdade, Ana.
 – Por favor, não me interrompas. Deixa que te exponha todos os meus receios. Supõe que não dá certo. Vou perder-te para sempre, magoar os nossos pais, e isso aterroriza-me.
Com imensa ternura, contornou os olhos brilhantes, numa carícia suave.
- Já chega. Não te atormentes. Eu não tenho medo. Acredito em nós, e na força do amor. Vieste ter comigo. Sabes o que sinto e o que desejo. Só tens que decidir se vieste para ficar, e viver este amor que tenho para te oferecer, ou se te vais embora agora, e dás outro rumo à tua vida. 
Era o momento derradeiro, a última hipótese de virar costas e procurar um caminho que lhe parecesse mais seguro, ou fechar os olhos e saltar o abismo em que o medo se transformara. Lembrou-se da mãe. “Às vezes é preciso correr riscos”
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e  disse baixinho:
- Fico.
Ele engoliu em seco. A emoção era um garrote que lhe sufocava a garganta. Apertou o corpo tremente nos braços, e começou a beijá-la. Lentamente, como quem saboreia um doce, foi-lhe beijando os olhos, e o rosto, até aflorar os lábios femininos. As suas mãos pareciam ter vida própria. Percorriam-lhe os braços, as costas, infiltravam-se sob a blusa, em suaves caricias que a enlouqueciam.
O beijo, tornou-se mais intenso, atrevido e urgente. Simão concentrava toda a sua energia, todo o seu amor,  toda  a sua experiência e conhecimento do corpo feminino, na tarefa única, de a levar pelos secretos labirintos da paixão, até à mágica saída, na apoteose final.
As roupas desapareceram, como por magia, e os corpos livres, uniam-se, na mais famosa dança de todos os tempos, num reconhecimento que vinha desde os primórdios da humanidade.
Mais tarde, apaziguada a loucura que os envolvera, num gesto cheio de ternura, ela tocou com a ponta dos dedos, o rosto masculino. Ele segurou-lhe a mão e beijou-os.  Simão, era um homem experiente, sabia reconhecer quando a mulher que tinha nos braços, estava com ele na entrega sublime do amor. Ana tinha estado. Tinha-se entregado de corpo  e alma. Ele sentiu-o. Mas precisava ouvi-lo da sua boca. Saber até que ponto ela tomara consciência do que acabara de acontecer, saber se conseguira matar todos os seus fantasmas. 
- E, então, querida?- Perguntou num sussurro 
- Amo-te.
- Sem medos, nem fantasmas?
- Sim
-Tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. É… incrível. Sei que é um lugar-comum, mas não me ocorre outra maneira de to dizer. Sinto-me a mulher mais feliz do mundo.

reedição









27.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XV




Em menos tempo do que se leva a escrevê-lo, Simão estava atrás dela, abraçando-a com firmeza. Intensificou-se o choro feminino, o frágil corpo sacudido pelos soluços.
Não chores Ana. Não suporto ver-te chorar, - murmurou atormentado.
Ela voltou-se. Continuava presa nos firmes braços dele. Ergueu o seu rosto choroso, e fitou-o. Ele não desviou o olhar. Durante alguns segundos, que aos dois pareceu uma eternidade, permaneceram assim, olho no olho, deixando que a alma aflorasse ao olhar e desvendasse  todos os seus segredos.
Com suavidade ela afastou-se. Voltou-lhe as costas murmurando.
-Não pode ser. É uma loucura.
- Eu sei, - respondeu ele, a voz rouca pela emoção. Percebes agora porque fui viver para Paris? Porque evito aproximar-me de ti?
Voltou-se. Olhou-o tentando mostrar uma serenidade que não sentia.
- Nunca me passaria pela cabeça. Não pode ser. Estás a confundir tudo e a deixar-me confusa. Somos irmãos. Os melhores irmãos do mundo, lembras-te? Tens que esquecer isso que pensas sentir. Temos que esquecer. Temos que esquecer,- repetiu
- Se repeti-lo vezes sem conta, servisse de alguma coisa, já o tinha esquecido há muito tempo, - disse ele com amargura.
Sentia-se indigno dela, dos pais, dos irmãos. Traíra a confiança de todos albergando aquele sentimento. Não lhe servia de consolo, saber que não estava a cometer um pecado, aquele sentimento não era incestuoso, eles não eram irmãos de verdade. Porque na verdade, não importava que o não fossem, se era assim que ela e toda a família o sentiam.
- Dadas as circunstâncias, peço-te que me perdoes a minha insistência. Desejo, que consigas esquecer, e perdoar-me. Não irei logo ao aeroporto. Despeço-me aqui.
Aproximou-se dele como fazia antigamente. Com a mesma confiança, de outrora, ofereceu-lhe o rosto para um breve beijo de despedida.
Como podia fazê-lo, com um homem que estava doido de amor por ela? Como podia ser tão ingénua para não pensar que ele seria incapaz de resistir, a provar as delícias da sua boca, agora que ela tinha descoberto o seu segredo?
Subitamente envolveu-a nos braços, e a sua boca aprisionou a  dela, num beijo intenso, onde deixava expresso todo o amor que lhe atormentava a alma.
Inicialmente recebeu-o surpresa, depois indignou-se.
Empurrou-o com força.
- Como pudeste fazer isto? É infame. Nunca te perdoarei.
E saiu a correr, fechando a porta atrás de si.




3.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE V



                                                                                               Foto do museu de Loulé

Miguel dirigiu-se à porta, abriu-a e encontraram-se num quintal. De um lado do muro, uma espécie  de arrecadação com duas portas.
Do outro lado, um tanque e um estendal.
Miguel abriu a primeira porta dizendo;
- Aqui é a casa de banho.
E afastando-se deixou ver os azulejos cor de terra, que contrastavam com as loiças brancas. O lavatório, embutido num armário branco, encimado por um espelho e uma prateleira onde pontificavam alguns objectos de higiene pessoal, e num canto, um cortinado de riscas coloridas, servia para ocultar o chuveiro.
- Foi construído pouco antes da morte da avó. Como vê a casa tem mais de cem anos, e nessa altura, uma casa de banho era um luxo que poucas casas tinham. Quando herdei a casa podia fazer obras, mas venho aqui muito raramente, quase sempre nesta altura do ano, porque a luminosidade e os tons são mais belos nesta época.
A jovem fez um movimento de assentimento com a cabeça, mas não pronunciou uma palavra, sabe-se lá perdida em que labirintos interiores.
O homem abriu a outra porta e deixou à mostra duas grandes arcas.
-Contém o “enxoval” da avó. Toalhas, lençóis e outras coisas da casa. As roupas de vestir,  doei tudo para um lar, depois da sua morte. Também não creio que alguma coisa lhe servisse – disse sorrindo.
A jovem continuava aparentemente ausente, e o homem interrogou-se sobre se seria capaz de levar a cabo, o que se tinha proposto, quando resolveu acolher a jovem.
- Agora que já conhece a casa, fique à vontade, eu vou comprar alguma coisa para o nosso almoço. Não quero deixá-la fechada, por isso prometa-me que vai esperar por mim.
A jovem não respondeu.
Miguel aproximou-se, e levantando-lhe o queixo, forçou-a a olhar para ele.
- Promete que me espera, enquanto eu vou comprar o nosso almoço?
Posso confiar em si?
A jovem olhou-o com os olhos rasos de água e fez um movimento de assentimento com a cabeça.
Sentindo um nó na garganta, Miguel pegou nas chaves e na carteira e saiu batendo a porta, como se quisesse com esse gesto, afastar a emoção que teimava em assalta-lo.


12.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXIV





Faltava a Helena um último troço, Já que depois desse ficariam a restar, apenas, a área correspondente aos distritos de Coimbra e Guarda, e não tinha intenção de pesquisar essas zonas, uma vez que o tio lhe dissera que o pai vivia na zona de Viseu. E depois, também porque os dias iam passando, e o dinheiro ia-se gastando. Naquele dia, apanhou a camioneta de Viseu para Nelas. Uma vez lá, dirigiu-se à Vinícola de Nelas, onde com o pretexto de comprar um bom vinho se informou sobre as quintas e os seus proprietários. Foi com emoção que soube da existência da Quinta dos Milagres propriedade de Jorge Noronha, que confinava com a Casa de Santar,o maior produtor de vinhos da região, onde além dos vinhedos se podiam ver os belíssimos jardins, da casa, um solar do século XVII que foi pertença da Condessa de Santar.  Quando saiu da Vinícola, entrou num café, pediu uma garrafa de água e tentou saber mais sobre o homem que era o seu pai. Para disfarçar, disse que era estudante, e que estava a fazer um trabalho sobre o vinho Dão, e para o qual já estivera a visitar outras quintas. O dono do café afirmou conhecer muito bem o senhor Jorge, e a família, disse-lhe que eram excelentes pessoas, muito estimadas por ali.
Lena pediu-lhe então a morada, afirmando que seria para lhe pedir alguns esclarecimentos sobre as castas que ele cultivava e o homem não se fez rogado, embora acrescentasse que talvez fosse melhor para o estudo ir visitar antes a Casa de Santar, bem mais importante do que a Quinta dos Milagres. Depois de pagar a garrafa e agradecer a gentileza, a jovem abandonou o café em direção à paragem da camioneta. Verificou o horário. Só daí a uma hora saía a próxima camioneta de regresso. Assim sendo, resolveu dar uma volta pela bonita praça, e visitar a Igreja matriz enquanto esperava para regressar a Viseu.
Mais tarde já no hotel, Helena, que tinha decidido entrar em contato com o pai, dava voltas à caneta sem saber como iniciar a carta para lhe mandar. Pensou escrever-lhe em nome do tio e marcar-lhe um encontro, mas seria enganá-lo e ela não gostava de mentir. Também não podia simplesmente escrever-lhe a pedir que se encontrasse com ela, ele iria julgar que era alguma doida e rasgaria a carta.  Muito menos podia escrever a dizer-lhe que tinha descoberto que ele era seu pai. Sem saber como fazer, resolveu aconselhar-se com o tio. Pegou no telemóvel e quando o tio atendeu contou-lhe que já tinha descoberto a quinta do pai, que as informações que tinha dele eram as melhores, e que não sabia como marcar um encontro com ele.
- Tens o nome da quinta e a morada?
- Tenho.
-Então procura na lista telefónica o número e envia-me numa mensagem Eu falo com ele, digo-lhe onde estás hospedada e peço-lhe para ir ter contigo. Direi que és minha sobrinha e que levas uma coisa para ele. De certo modo não é mentira, levaste as certidões, não levaste?
- Claro tio. E a aliança e anel da mãe.
Então faz o que te disse. Amanhã falo com ele e depois digo-te. Estou cheio de saudades.
-Obrigado. Também tenho saudades tuas. Beijo.

15.1.17

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XV


Em menos tempo do que se leva a escrevê-lo, Simão estava atrás dela, abraçando-a com firmeza. Intensificou-se o choro feminino, o frágil corpo sacudido pelos soluços.
Não chores Ana. Não suporto ver-te chorar, - murmurou atormentado.
Ela voltou-se. Continuava presa nos firmes braços dele. Ergueu o seu rosto choroso, e fitou-o. Ele não desviou o olhar. Durante alguns segundos, que aos dois pareceu uma eternidade, permaneceram assim, olho no olho, deixando que a alma aflorasse ao olhar e desvendasse  todos os seus segredos.
Com suavidade ela afastou-se. Voltou-lhe as costas murmurando.
-Não pode ser. É uma loucura.
- Eu sei, - respondeu ele, a voz rouca pela emoção. Percebes agora porque fui viver para Paris? Porque evito aproximar-me de ti?
Voltou-se. Olhou-o tentando mostrar uma serenidade que não sentia.
- Nunca me passaria pela cabeça. Não pode ser. Estás a confundir tudo e a deixar-me confusa. Somos irmãos. Os melhores irmãos do mundo, lembras-te? Tens que esquecer isso que pensas sentir. Temos que esquecer. Temos que esquecer,- repetiu
- Se repeti-lo vezes sem conta, servisse de alguma coisa, já o tinha esquecido há muito tempo, - disse ele com amargura.
Sentia-se indigno dela, dos pais, dos irmãos. Traíra a confiança de todos albergando aquele sentimento. Não lhe servia de consolo, saber que não estava a cometer um pecado, aquele sentimento não era incestuoso, eles não eram irmãos. Porque na verdade, não importava que o não fossem, se era assim que ela e toda a família o sentiam.
- Dadas as circunstâncias, peço-te que me perdoes a minha insistência. Desejo, que consigas esquecer, e perdoar-me. Não irei logo ao aeroporto. Despeço-me aqui.
Aproximou-se dele como fazia antigamente. Com a mesma confiança, de outrora, ofereceu-lhe o rosto para um breve beijo de despedida.
Como podia fazê-lo, com um homem que estava doido de amor por ela? Como podia ser tão ingénua para não pensar que ele seria incapaz de resistir, a provar as delícias da sua boca, agora que ela tinha descoberto o seu segredo?
Subitamente envolveu-a nos braços, e a sua boca aprisionou a  dela, num beijo intenso, onde deixava bem expresso o amor que lhe atormentava a alma.
Inicialmente recebeu-o surpresa, depois indignou-se.
Empurrou-o com força.
- Como pudeste fazer isto? É infame. Nunca te perdoarei.
E saiu a correr, fechando a porta atrás de si.



23.1.16

AMANHECER TARDIO XXXVIII




foto do google

O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando, e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura, nos pratos. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro. Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Dás o teu número de telefone?
Ela abriu a mala e tirou um cartão, da firma.
- Fax e  telefone são da firma, mas o telemóvel é o meu número.
-Não tenho comigo nenhum cartão, - disse ele. Tens onde escrever?
Ela retirou uma pequena agenda da mala, e anotou o número que ele lhe ditou.
- Agora tenho mesmo de ir, - disse estendendo-lhe a mão.
Ele segurou-a, e olhos nos olhos, puxou-a para si. Abraçou-a.
Isabel sentiu as pernas a tremer. Tanto que receou não se segurar de pé. 
Sentindo o beijo eminente,baixou a cabeça, fazendo com que os lábios masculinos apenas roçassem a sua testa, enquanto o seu intimo se revoltava, amaldiçoando-a pela falta de coragem.
O homem sentiu-lhe o corpo tremente. Percebeu-lhe a emoção. Se fosse mais jovem, teria -lhe-ia levantado o queixo e forçado o beijo. Mas Luís tinha quarenta e cinco anos, e nessa idade, um homem já não se preocupa tanto com a satisfação imediata dos seus desejos. Preocupa-se mais com as emoções da alma. Ele sabe que o resto vem por acréscimo. Soltou-a.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois iniciou o caminho de regresso à sua nova casa pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe, e ao mesmo tempo me deixa ansioso como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que tinha falado imenso de si, da sua vida pessoal e profissional, enquanto Luís se limitara a ouvir e pouco falara sobre ele.
De uma coisa ela tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. A vida é como brisa de verão em fim de tarde. Passa rápida e poucos dão por ela. Um dia destes acordava e a brisa tinha virado vento de inverno, derrubando-a como folha morta. Estava decidida. Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Luís, ela lutaria por ele.