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2.1.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE I

 


 

O sol já desaparecera no horizonte, e as luzes iam iluminando a cidade, todavia era verão a noite estava quente e a praia que durante o dia fervilhava de banhistas estava quase deserta.

No início do areal quase junto às dunas, encontrava-se sentada uma mulher. Tinha as pernas abraçadas pelos tornozelos e os joelhos dobrados. As costas inclinadas para a frente e o rosto escondido pelo cabelo, apoiava-se nos joelhos.

Parecia perdida sabe-se lá em que pensamentos e nem se dava conta dos pares de namorados que procuravam a solidão e também a pouca luz do areal para trocarem carícias mais ou menos apaixonadas.

De súbito dois jovens solitários, pensando talvez que ela podia ser a companhia feminina que lhes faltava para tornar a noite mais divertida, sentaram-se junto dela e começaram a trocar gracejos sobre ela entre si. Inicialmente ela não reagiu, pensando que eles em breve desistiriam e iriam embora.

Porém, como tal não aconteceu, levantou-se, olhou-os com dureza, voltou-lhes as costas e deixando-os a falar sozinhos, caminhou até à passadeira de tábuas que atravessava as dunas, passou pelo restaurante, aquela hora completamente cheio e dirigiu-se ao seu automóvel estacionado no largo existente por trás do restaurante.

Entrou no veículo, pôs o motor a trabalhar, e arrancou em direção à cidade, onde vivia temporariamente na casa que os compadres ali tinham para passar férias e que Paula, a sua comadre e amiga lhe emprestara, para que, longe da sua residência, se recompusesse da volta que a sua vida de aparente felicidade dera.

Estacionou junto de casa, pensando na sorte que tinha, de que o prédio de apartamentos estivesse situado fora das muralhas históricas, na parte nova da cidade, onde podia estacionar junto à porta sem problemas. Na baixa, as ruas estreitinhas, não permitiam estacionamentos e na maioria estavam mesmo destinadas apenas à circulação de peões.

Entrou em casa, acendeu a luz e dirigiu-se para a casa de banho, onde se despiu e meteu-se debaixo do duche.

Depois enrolou o corpo numa toalha, e dedicou alguns minutos a secar o seu longo e belo cabelo negro.

Seco e escovado o cabelo, retirou a toalha do corpo húmido e substituiu-a pelo fino robe de algodão que tinha pendurado atrás da porta.

Pegou a roupa suja que deixara no chão e dirigiu-se à cozinha onde estava instalada a máquina de lavar roupa, e juntou-a a outras peças que já aguardavam lá dentro, a lavagem.

Fechou a porta, colocou nos respetivos compartimentos o detergente e o amaciador e depois de escolher o programa carregou no botão e em seguida apagou a luz e saiu da cozinha.


9.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO. PARTE XXII

 






- E se deixássemos de lado o passado, e desfrutássemos desta magnífica refeição? – perguntou Nuno
Não lhe agradava a tormenta que adivinhava nos olhos femininos, cujo azul se apresentava quase negro. Desde que falara com o pai que estava a por em causa, tudo o que pensara sobre ela durante anos.
Luísa não respondeu. Limitou-se a pegar no talher e iniciar a refeição.
Uns minutos depois ele quebrou o silêncio.
- Segundo sei, as tuas aulas acabam em breve. O que costumas fazer nas férias? Viajas?
- Não. Passeio pela cidade, visito museus e igrejas. E aproveito para ler. Não tem graça viajar sozinha. Não se tem com quem partilhar emoções.
- Às vezes encontram-se boas companhias em viagens.
-É possível. Mas os meus livros também me levam a viajar e são excelentes companhias.
- Claro que sim. Mas…chega-te? O que quero dizer é que és uma mulher jovem e bonita, estás na plenitude da vida. Não tens desejos de algo mais? Uma família, por exemplo?
- Não.
- Gostaria de te perguntar porquê. Mas penso que não tenho o direito de entrar na tua intimidade.
- E eu gostaria que tu soubesses porquê, sem precisares perguntar.
- O que nos remete de novo para o passado.
- E temos alguma coisa em comum que não seja o passado?
- Acredito que sim. Senão vejamos. Ambos adoramos crianças, ambos escolhemos profissões que nos põem ao serviço delas completando-se. Tu abres-lhes a mente com os teus ensinamentos, eu abro-lhes o corpo para lhes restituir a saúde. Ambos gostamos de ler, e… de caldeirada de marisco – completou sorrindo.
- E de vinho Rosé - disse Luísa, agora menos tensa.
- A propósito de crianças, aquele miúdo que ainda está no hospital, vai perder o ano? Pedi novos exames para segunda-feira, e se estiver tudo como espero, vou dar-lhe alta, mas será que consegue recuperar as aulas perdidas?
- Claro que sim. Tenho feito as lições com ele, todas as tardes no hospital, -respondeu Luísa.
- Devia calcular que não o ias deixar para trás. Se vais todos os dias, sabes que com a fisioterapia está a fazer grandes progressos. Mas depois de ter alta precisa de especial cuidado. Uma queda, ou pancada naquela perna, pode ser muito grave.
- Dentro da escola, não terá qualquer problema. Cuidarei dele o tempo todo. Mas as aulas estão quase a terminar, os pais estão emigrados e ele vive com os avós, que já não são novos e têm problemas de saúde especialmente o avô.
- Então provavelmente o melhor é aguentá-lo mais uma semana no hospital. Não sei se sabes, mas aquele osso teve várias fraturas, estava praticamente todo fragmentado foi necessário recorrer a placas metálicas para o reconstruir.
-Sabia que tinha sido grave, mas não imaginei semelhante quadro.
Tinham acabado a refeição, e o empregado aproximou-se para recolher os pratos e entregar-lhes a ementa dos doces.


7.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVIII

 


- Queres dizer que meu pai perdeu a memória e por isso não sabia da minha existência? - perguntou Matilde depois da longa explicação da mãe. Mas porque não lho disseste tu?

Mãe e filha encontravam-se no quarto da última. Helena acabara de fazer um resumo do que Gonçalo lhe contara, mas Matilde era uma menina muito inteligente e um tanto precoce. Seria muito diferente se fosse uma criança de tenra idade a quem ele se limitaria a dar uma explicação mais ou menos romanceada para explicar a ausência paterna.  

- Como acabei de te dizer, nós apaixonámo-nos nas férias. Nem um nem outro estávamos na nossa terra, e o nosso contacto era o telemóvel que se perdeu no acidente. Eu só sabia que o teu pai vivia em Braga e estava na Universidade no Porto. Não tinha como encontra-lo depois dele não responder às minhas mensagens. Na verdade, nunca mais soube nada dele até há poucos dias. Nem sequer sabia se tinha casado, se tinha outra família.

- E casou? Tem outros filhos?

 -Não. Segundo sei, um dos amigos com quem estava de férias no Algarve quando nos conhecemos, um dia perguntou-lhe por mim e estranhando que estando tão apaixonados eu não tivesse ido vê-lo. Desde aí ele nunca mais deixou de pensar em mim, e por isso nunca casou.

- E agora, recuperou a memória? E é um homem normal ou está tontinho?

- À parte o não recordar aquela parte da sua vida, antes do acidente, não tem nada de tontinho, é até muito inteligente.

-Bom, e agora que já o encontraste, vais-me dizer quem é? E falar-lhe de mim? Quando vou conhecê-lo?

-Na verdade, já o conheces, filha. Lembras—te do doutor Gonçalo, aquele médico que te deu o livro? É o teu pai.

- O quê? Não pode ser!

- Porque dizes isso? - perguntou Helena assombrada.

- Mãe, ele é moreno, tem olhos escuros, eu sou loira e tenho olhos azuis. Não me pareço nada com ele. Como não me pareço contigo, tinha que ser parecida com ele e não sou.

- O Gonçalo parece-se com o pai. Tu pareceste com a sua mãe, e a sua irmã. Os filhos nem sempre se parecem com os pais. Às vezes vão buscar parecenças aos avós e até aos bisavós. Na verdade, foi por tu seres parecidíssima com a tua tia, que ele soube que nos encontrara.

-E agora, mãe? Como vai ser a nossa vida daqui para a frente? Ele já sabe que eu existo, mas vai querer ser meu pai? Ou vai aparecer uma ou duas vezes por ano e fingir que eu não existo no resto do ano? Porque se assim for, eu vivo bem sem ele.

-Não Matilde, o teu pai não é assim. Ele que ver-te, levar-te para conheceres a sua família, ser teu pai a sério. Ele até quer casar comigo.

-É claro que quer casar contigo. De outro modo nunca seria meu pai a sério, pois nunca seríamos uma família com os avós, ou o tio Sérgio.

-Não é bem assim, Matilde. Nem todos os pais vivem juntos. Decerto tens colegas com pais divorciados – disse Helena sentindo uma angústia enorme.

- Claro, como a Sónia. Mas a mãe dela voltou a casar e o pai também. Tem agora duas famílias e até mais irmãos. Tu e o Gonçalo estão sozinhos. Se ele quer casar o que te impede de o fazer? Não gostavas dele antes de eu nascer?  Ele teve culpa de ter perdido a memória? Então porque não queres casar? – perguntou obstinada.

 

5.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE II





Durante uma semana, Gonçalo ligava várias vezes ao dia, mandava carinhosas mensagens cheias de saudades. Lena respondia da mesma maneira.

E chegou o dia do regresso à casa paterna.  Sérgio, o irmão, resolvera regressar dois dias antes do fim das férias, a fim de passar esses dias na quinta, para que os pais pudessem desfrutar da presença do neto, que começava a dar os primeiros passos e a balbuciar as primeiras palavras. Depois voltaria para Coimbra e só se veriam meia dúzia de vezes até que chegasse o Natal e todos se reunissem de novo.

Por sua vez, Lena também iria para Lisboa, a fim de iniciar os seus estudos. O pai tinha-lhe conseguido um quarto, na casa de uma jovem, filha de um grande amigo de infância, Francisco e neta do velho ferreiro da aldeia, Alberto Santos.

O dia em que chegou a casa de Rita, foi o primeiro em que Gonçalo não telefonou, nem respondeu à mensagem que ela lhe enviou já com a morada de Lisboa.

E esse foi o primeiro dia, do fim daquele amor que parecia indestrutível.

Rita Santos, era alta, morena, de cabelos e olhos escuros, nariz pequeno e boca carnuda. Tinha vinte e seis anos e acabara de se divorciar, mas contrariamente ao que Lena pensara, não se sentia triste, antes pelo contrário dava graças, por se ter livrado do marido, um pinga amor, capaz de a trair com qualquer uma. As duas, sentiram uma grande empatia, e em breve era como se fossem amigas de longa data.

Uma tarde, Rita que trabalhava na agência imobiliária do pai chegou a casa e encontrou Lena na sala com os olhos vermelhos e inchados, sinal mais que evidente de ter passado a tarde a chorar.

-Lena, querida que se passa? Estás doente? Aconteceu alguma coisa com os teus pais ou o teu irmão?

As sua perguntas despoletaram uma nova avalanche de lágrimas. De seguida tirou as mãos do colo e mostrou o teste.

- Meu Deus, estás grávida! E o Gonçalo continua sem responder às tuas mensagens? Tens que lhe dizer. Ele tem que assumir a responsabilidade.

- E como vou fazê-lo se o telemóvel está sempre desligado e nem sequer viu as mensagens que lhe enviei. Meu Deus Rita, como é possível que me tivesse enganado tanto com ele? Juro que acreditei de coração que ele retribuía o meu amor!

- Alguns homens são mestres na arte de sedução. São capazes de enganar a maior cínica da terra, quanto mais tu que és tão ingénua. Mas chorar não resolve nada. Tens que decidir se vais querer esse bebé, e as implicações que isso vai ter na tua vida, ou se queres fazer…

-É claro que eu quero este bebé, Rita. Mal soube que ele estava aqui, - disse colocando a mão no ventre, - o meu coração encheu-se de amor por ele. O que me preocupa é a deceção que vou dar aos meus pais.  Não sei como arranjar coragem para lhes contar. Estão velhos, viveram sempre na quinta. O meu irmão, não quis casar, vive em união de facto e é feliz, mas os meus pais, custaram a aceitar a decisão do filho. E agora eu apareço grávida, sem casamento, sem namorado, sem nada.

-Talvez seja melhor telefonares ao teu irmão, e pedir-lhe que venha cá. Contas-lhe e decerto ele te ajudará a enfrentar os teus pais. De resto eu estou aqui para te apoiar em tudo o que precisares, já que não podes nem deves abandonar os estudos. Eles serão a tua porta, para um futuro melhor.

 

3.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE I

 




O casal desceu a rua da Gafaria, entrou na travessa da Biker, até ao cruzamento com a rua do Infante de Sagres, continuando por esta até à baixa, passando pela Praça Luís de Camões, Rua Garrett até se encontrarem finalmente na Praça Gil Eanes, onde se dirigiram ao café Oceano para tomar o pequeno almoço.

Eram jovens, e apesar de se terem conhecido há menos de um mês, pareciam tão apaixonados que qualquer pessoa pensaria estarem juntos desde a infância. Ele, era alto e magro, tão moreno que a sua pele apresentava um tom quase azeitonado, de cabelos e olhos escuros. Tinha vinte e cinco anos e estava de férias antes de entrar no último ano de medicina. Ela, de estatura mediana, tinha os olhos castanhos, e os longos cabelos cor de trigo maduro, presos numa única trança que lhe caía sobre o peito, de seios pequenos e firmes. Tinha feito dezanove anos no mês anterior, e preparava-se para entrar no ISCAL a fim de  continuar os seus estudos.

Nenhum deles morava na cidade, onde ambos se encontravam de férias. Conheceram-se quando ambos, decidiram conhecer as belas grutas da Ponta da Piedade e no cais só estava um barco disponível que ambos partilharam. Foi um passeio mágico que os deixou maravilhados. E desde aí passaram a andar sempre juntos. Amor à primeira vista, e uma paixão avassaladora como só acontece na juventude. Caminhavam de mãos dadas, parando de vez em quando para um beijo rápido.

 Gonçalo Bacelar, pertencia a uma abastada família de Braga, onde vivia com os pais e Laura a irmã mais nova. Ele e dois amigos de longa data, ambos estudantes como ele, tinham por hábito todos os alugar um apartamento para férias no Algarve. Todos os anos escolhiam uma cidade diferente e os três divertiam-se de dia na praia, de noite namoriscando nos bares, mas nunca com a mesma jovem mais do que duas noites seguidas. Nunca até agora algum deles se tinha apaixonado de modo a esquecer por completo os amigos e a diversão.

Helena Cadeira, (Lena para a família e amigos) era a segunda filha de um casal de agricultores de uma aldeia cheia de história, situada no interior da Beira Baixa, a sul da Serra da Gardunha.  Aí vivera, brincara, estudara até ao sexto ano. Depois ia todos os dias para o Fundão onde completou o Secundário. Até aos dezoito anos, tirando as viagens de estudo, o mundo dela terminava em Castelo Branco, onde fora duas ou três vezes com o pai. Sonhava em conhecer outras terras, especialmente a capital e o Algarve, mas os pais não a deixavam ir sozinha, e o irmão sete anos mais velho, que como ela sonhava com outros horizontes, terminados os estudos em Coimbra, lá se empregara como gerente, na loja do pai da companheira, antiga colega de estudos, por quem se apaixonou e com quem passou a viver, uma relação feliz, que já fora contemplada com o nascimento de um filho.

Este era, pois, o primeiro ano em que a jovem estava de férias longe dos olhares paternos, embora estivesse no mesmo apartamento com o irmão, e a família que ele formara.

Enquanto comiam, os jovens faziam juras de amor eterno e projetos para o futuro.

Eram os últimos momentos que estavam juntos. Uma hora mais tarde, Gonçalo partiria, acabadas que eram as suas férias. Lena ainda ficaria mais uns dias.

-Juras que não te vais esquecer de mim, - perguntou ela abraçando-o, antes que entrasse no carro, onde os amigos já o esperavam.

-Ainda que quisesse, e não é o caso, não o conseguiria. Levo-te aqui, - disse levantando a mão e apoiando-a sobre o coração.

 -Telefona-me quando chegares, - pediu ela quando ele já punha o carro em andamento.

-Assim farei, - respondeu  agitando a mão numa despedida, enquanto os amigos riam trocistas.



Pela segunda vez em anos, vou começar a publicar uma história sem ainda a ter acabado. Espero não ter de a parar, já que o tempo que posso estar aqui é cada vez menor, porque a Margarida só está sossegada a dormir e cada vez dorme menos. E os olhos cada vez me dão mais problemas.                                                                                                                          

8.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XIV


Na manhã seguinte, quando Isabel chegou para o seu dia de trabalho, foi recebida por Antónia, que a informou que Hélder viajara na noite anterior. Informou-a também que o patrão antes de partir, lhe dissera para lhe comunicar que tinha deixado uma mensagem gravada para ela. 

Agradeceu o recado e dirigiu-se ao escritório para ouvir a mensagem. Ligou o gravador, e a voz grave fez com que as lágrimas voltassem a deslizar pelo seu rosto pálido.
" Bom dia, Isabel. Deves estar surpresa com a minha súbita partida, mas aconteceu algo que não posso adiar. Não sei quanto tempo vou estar ausente, espero que não seja muito. Até lá, estás de férias." 

Que podia ter acontecido para que tivesse de partir tão repentinamente? Algum problema com a editora e a publicação do livro? Mas se era isso, porque não o dizia? De qualquer modo, que lhe importava agora? Não tinha decidido ir-se embora? Pois ali estava uma boa oportunidade. 

Quando ele voltasse, já estaria longe. Tinha pena de se afastar da avó, tinha quase oitenta anos, não viveria muitos mais e ela sonhava estabelecer-se ali e ficar junto dela, o tempo que o destino lhe reservasse. Mas o melhor que fazia era voltar para o escritório na cidade. O seu lugar não podia ser ali, ao lado do homem que amava e simultaneamente tão longe dele.

Pensou deixar-lhe uma mensagem gravada. Mas desistiu. Que podia dizer-lhe? Que os dois eram vítimas de uma brincadeira do destino? Não. Levantou-se, desligou e guardou o gravador, abriu o computador e rapidamente redigiu e imprimiu a carta de demissão.
Desligou o portátil e a impressora, meteu a carta num envelope, que deixou em cima da secretária. Chamou Antónia, a quem disse que a ordem deixada era para ir de férias até à volta do patrão. Despediu-se e voltou para casa. Foi para o seu quarto, pôs a mala em cima da cama, guardou as suas roupas, e quando fechou a mala, viu a avó parada na porta do quarto.

A avó abriu os braços e ela correu para eles. Choraram juntas. Depois, mais calma a avó disse:
-Tenho medo de não voltar a ver-te, filha.
- Não digas isso, avó. Tinha, decido viver  contigo. Agora, não me sinto com coragem para isso. Mas prometo que venho ver-te muitas vezes. Um fim de semana, um feriado. O tempo suficiente para estar contigo, e não ter encontros dolorosos. O melhor mesmo era ires viver comigo, mas já sei que ninguém te arranca daqui.

Acariciando-lhe os cabelos, a avó perguntou com lágrimas na voz:
- Vais-te embora já?
- Não. Só depois do almoço.
- Então vem. Vamos tratar dele agora.

13.1.21

SONHO AO LUAR -- PARTE III



Agora, Isabel tem vinte e seis anos, é advogada, trabalha num escritório de advocacia, e encontra-se de férias, que mais uma vez decidiu passar na casa da avó, que ela adora e com quem está a pensar, passar mais tempo. Na verdade, anda a estudar a hipótese de montar o seu próprio escritório de advocacia, na aldeia.
 
 A terra , tinha evoluído muito nos últimos anos, devido à proximidade da praia e da serra, o que a tornava única para o turismo. Ela nunca fora muito apegada aos pais. A mãe era professora,  e o pai médico, não dispunham de muito tempo para a filha, a quem não faltava nada material, mas faltava o carinho e atenção que uma jovem sensível como ela, necessitava. 

Por isso estava sempre a sonhar com as férias em casa da avó, e talvez por isso se tivesse apaixonado como uma tonta por Hélder Figueiredo.

A avó recebeu-a com o carinho de sempre. Disse que estivera à sua espera para jantar, mas como se fizera tarde e precisava tomar a medicação a horas certas, já jantara. Mas o seu prato estava no forno.

A jovem levou a mala para o seu quarto, lavou o rosto e voltou para a cozinha. Sentou-se à mesa. Enquanto comia ia conversando com a avó. A certa altura disse:

- Não sabia que o teu vizinho estava cá. Vi-o na praia.
- Sozinho? – Admirou-se a avó
- Sim. Estava sentado perto das dunas com um cão.
- Deve ser um cão guia, - disse a avó
- Um cão guia? - espantou-se a jovem. - Para que quer ele um cão guia?
- Ora filha, para que é que um cego, há de quer um cão guia?

Deixou cair o garfo, o rosto sem cor.

-Cego? O Hélder, está cego? Desde quando?
- Não sei. Sabes há quantos anos não o via? Dez anos. Há dez anos que ele não vinha para cá, que não sabia nada dele, quando de repente há três meses, chegou uma carrinha cheia de homens e começaram a remodelar a casa toda. E depois na semana passada, ele chegou com o cão e um casal idoso e instalaram-se. Ainda não falei com ele, mas encontrei-me no talho, com a mulher que vive lá em casa, e conversamos. Disse-me que é a cozinheira, o marido é motorista, e percebe um pouco de jardinagem e o patrão é escritor e está cego.

-Muito amigas se fizeram para que te contasse tudo isso.
-Sabes como é, nestas terras pequenas. Depois eu confessei-lhe que o conhecia desde menino. E sabes que mais? Disse-me que veio para escrever um novo livro e que anda à procura duma secretária para lhe ajudar.


11.1.21

SONHO AO LUAR -- PARTE II

 




Passou os meses seguintes a sonhar com as férias junto da avó, para voltar a vê-lo. E apesar da diferença de idades, e de ele ter menos tempo por estar empregado, todo o tempo livre que tinha, passava-o com ela.

No ano em que fez quinze anos, não o viu, pois nesse ano, ele tinha viajado, com os pais, e as férias foram uma desilusão para ela. E mais um ano se passou, e de novo, chegaram as férias e desta vez ele estava lá. 
Triste, meio deprimido, com a recente morte dos pais num acidente de automóvel, apoiou-se na amizade e alegria de Isabel, e os dois estiveram mais unidos que nunca, ao ponto de na aldeia se dizer, que um, era a sombra do outro.

Isabel tinha acabado de fazer dezasseis  anos, tinha crescido muito, media  mais de um metro e setenta,  mas contrariamente a outras jovens que nessa idade já têm formas bem femininas, ela era demasiado magra, as suas ancas ainda não se tinham arredondado, os seios eram como dois  botões de rosa por desabrochar. Mas naquele peito quase liso,  batia um coração de mulher, que ansiava, por beijos e afagos do homem que amava. 

Sem qualquer suspeita, do que ela sentia, ele via-a apenas como aquilo que era, uma menina. E como tal a tratava. Continuavam a ser amigos inseparáveis, ria-se com as coisas que ela dizia, por vezes zangava-se e repreendia-a, enfim tratava-a como trataria uma irmã mais nova, se não fosse filho único.

Até à véspera da sua partida, altura em que ela tomara uma atitude, da qual ainda hoje se envergonhava.

Confessara-lhe que o amava, e pedira-lhe com todas as letras que fizesse amor com ela, enquanto despia a blusa, mostrando-lhe os seios pequenos e túrgidos, como pequenos frutos, mal despontando da flor.
Inicialmente, ele ficara espantado. Depois começara a barafustar, apertou-lhe o braço com violência, obrigou-a a vestir a blusa, disse-lhe que nunca mais a queria ver, virou-lhe as costas e afastou-se.

Ela chegou a casa da avó com os olhos vermelhos e o coração dilacerado. Felizmente a avó parecera não dar por nada, e no dia seguinte ela regressou a casa dos pais. Durante cinco anos manteve-se afastada da casa da avó, com a desculpa do muito que precisava estudar durante as férias para entrar cedo na faculdade.

Quando se sentiu com forças para voltar, era já uma mulher muito diferente. Tinha vinte e um anos e o seu corpo tal como um botão de rosa que desabrocha numa flor espetacular, tinha-a transformado numa bela mulher. Mas Hélder não estava por lá, como não estivera nos outros cinco anos que se seguiram.

4.6.20

ISABEL - PARTE XVII

                                             
- E depois? Não falaram? Não trocaram número de telefone? Não sabes como encontrá-lo?
Isabel abanou a cabeça e então contou o encontro do dia anterior, e de como ela fugira da estação de serviço de Palmela.
-Ó Isabel, tu estás irremediavelmente apaixonada - sentenciou Amélia.
- Estás louca! - Como posso estar apaixonada por um homem que mal conheço? De quem, nem o nome sei?
- Sempre achei que a tua fortaleza, a tua indiferença para as coisas do coração, era mais aparente que real. És uma mulher dedicada e sensível. Basta ver como cuidaste dos teus pais. Julgaste viver um grande amor…
- Não julguei. Eu vivi um grande amor – interrompeu Isabel
- Será Isabel? Eras uma menina ingénua e sonhadora que nada sabia da vida. Aos dezoito anos, não nos apaixonamos pelo homem. Enamoramos-nos do próprio amor. O homem, vem por acréscimo. E se muitas vezes é o companheiro ideal, que nos vai acompanhar pelo resto da vida, na maior parte das vezes os príncipes não passam de sapos disfarçados, que transformam os nossos sonhos em pesadelos. Culpa deles, ou nossa? Provavelmente de ambos, não sei. Consegues olhar para ti hoje, e, comparar-te à Isabel que eras nesse tempo? Claro que não. Quem nos diz, que se o Fernando não tivesse partido,  teria acompanhado a tua evolução? Ou quem sabe, não ficaria lá atrás no seu cantinho? Quem sabe se vocês, seriam hoje um casal feliz, ou se estariam divorciados? Ninguém.
Mas tu assumiste que ele era o teu grande amor e criaste à tua volta uma espécie de casulo, onde te encerraste, com a tua dor. Por causa disso afastaste todas as hipóteses de viveres um novo amor. Um amor de mulher, mais madura, que conhece a vida, os seus sonhos e as suas dores.
Isabel permanecia com os cotovelos em cima da mesa e o rosto entra as mãos. No fundo ela sabia que a amiga tinha razão. Mas custava-lhe admitir a verdade, até para si própria. Amélia passou-lhe a mão pelos cabelos, num gesto carinhoso, e acrescentou.
- Se a vida te está dando outra oportunidade não a desperdices minha amiga. Quem sabe se é a derradeira? E nada pior, do que viver o resto da vida imaginando, o que ela poderia ter sido e não foi por sermos covardes.
- Mas eu não sei nada sobre ele. Nem sequer o nome. Apenas que tem uns olhos cinzentos que parecem mergulhar dentro de nós até ao mais ínfimo da nossa alma. E uma voz rouca, sensual…
- E um corpo alto atlético e moreno, e uns braços fortes onde gostavas de te acolher – riu Amélia.
- Não sejas assim, - disse zangada. Vamos-nos deixar de conversas e trabalhar. Marca as entrevistas para quarta-feira. Uma para as dez horas a outra para as quinze. Telefona à Dulce e pergunta se a campanha do início das aulas que lhe entreguei antes das férias está pronta, quero vê-la. Como foi o Paulo que a aprovou, gostava que ele a visse. Se a gravação estiver pronta, telefona-lhe e pede para ele passar por cá para a ver.
Amélia afastou-se e levando a mão à testa, imitou o gesto do militar perante um superior dizendo:

- Sim chefe.

3.6.20

ISABEL - PARTE XVI


foto do google


Quando na manhã seguinte Amélia chegou à agência, Isabel já se encontrava na sua secretária, analisando alguns documentos.
- Bom dia saudou. Caíste da cama?
- Bom dia, - respondeu Isabel. Estive quinze dias fora. Foi muito tempo. Preciso ver como estão as coisas. Há aqui dois clientes novos?
- Potenciais clientes, Isabel. Com a crise, as pessoas retraem-se e não compram. Por isso alguns empresários começam a investir em campanhas mais agressivas. Esses dois querem algo assim. Agora que chegaste vou marcar uma reunião para veres o que desejam e tentar fazer o contrato.
- E a Luísa?
- Ah! Esqueci de te dizer. A Luísa só vem de tarde. Foi chamada à Segurança Social. O tempo de estágio termina no fim do mês. Vais contratá-la?
- Estou a pensar nisso. Estamos a precisar de ajuda e ela mostrou-se competente. É responsável e criativa o que no nosso trabalho é muito importante. Não vamos meter outra estagiária e perder tempo a ensinar tudo de novo. Ela já é a quarta estagiária que tivemos. As outras não tinham grande aptidão para o lugar. Agora que encontrámos uma competente, é uma estupidez mandá-la embora.
Durante uns segundos ficaram em silêncio. Depois…
- Isabel é verdade que não aconteceu nada nas férias?
Levantou a cabeça e olhou-a franzindo as sobrancelhas. Mas não respondeu.
Segundos depois Amélia insistiu:
- Ontem senti-te estranha. De vez em quando parecias ficar ausente. Entre nós nunca houve segredos. Sempre pensei que devias arranjar um namorado. E tu, tinhas dito poucos dias antes das férias, que te começava a pesar a solidão. Tinha esperança de que arranjasses alguém. Todas as vezes que te liguei senti que tudo estava igual. Mas ontem não. Até o Afonso comentou comigo que estavas estranha. Aconteceu alguma coisa? Não queres falar disso agora?
- Não há nada para falar, Amélia. Aconteceu que tive dois ou três encontros casuais com um homem no qual penso mais do que devia e isso desorienta-me. Na vida só amei o Fernando. Depois disso sempre que pensava refazer a vida, a imagem dele e as recordações sobrepunham-se ao meu desejo. Parecia-me que estava cometendo uma traição. Isso fazia com que logo desistisse.
Fez uma pausa. Passou a mão pela testa num gesto habitual quando algo a incomodava. Depois continuou
- Sabes que adoro crianças, e sempre sonhei ser mãe. Talvez seja o meu relógio biológico que alterou o meu equilíbrio hormonal e emocional, ou quem sabe o facto de me encontrar sozinha no mundo, pois como sabes sou filha única de pais que também não tinham irmãos. O certo é que ultimamente tenho-me sentido diferente. E de vez em quando, dou comigo a pensar como seria diferente se tivesse um homem a meu lado. Um homem que partilhasse o meu amor, as minhas preocupações, os meus sonhos, e a minha loucura. Claro que tento compensar com o trabalho, é nele que escondo as minhas fraquezas, e os meus desejos.
Calou-se e por breves instantes escondeu o rosto entre as mãos. Amélia foi até junto dela e poisou a mão sobre o seu ombro.
- As férias estavam quase a acabar – prosseguiu Isabel. No Sábado esbarrei na praia com um homem que me segurou nos seus braços por breves instantes. E não sei o que me aconteceu mas esse homem mexeu comigo. Santo Deus como mexeu. Penso nele de dia, sonho com ele de noite. Estou desorientada.


Nota: Hoje vou para o hospital de Santa Maria a fim de que o cirurgião que me fez o transplante veja como está o olho, e o que fazer a seguir uma vez que apesar de ter visão, coisa que não tinha antes do transplante, continuo a ver ondulado e meio desfocado.  A outra consulta por causa da retina que era para as 10h de hoje foi remarcada ontem para as 10h do dia 3 de Agosto.


2.6.20

ISABEL - PARTE XV


foto  minha



- É claro que vamos ter saudades vossas. Mas quando estivermos instalados mando a morada, e depois Braga não é no fim do mundo. Fico muito feliz por terem vindo. O Paulo gostava de convidar o seu sucessor para jantar. Mas acontece que não vive em Lisboa e ainda não chegou. Na verdade não nos lembramos dele. Os pais são nossos amigos, mas o filho parece que é um tanto aventureiro. Viajou muito. As visitas aos pais são esporádicas e rápidas. A mãe disse-me há dias que tinha esperança que ele agora assentasse. Coitada é mãe. 
Fez uma pausa e acrescentou:
- Bom, deixemos o homem em paz e vamos para a mesa.
O jantar decorreu com a animação própria de amigos que se estimam e sentem prazer em estar juntos.
Isabel falou das recentes férias, da cidade que não conhecera até aí, e de tudo o que nela lhe agradou. Contou, que visitara as grutas da Ponta da Piedade, recentemente consideradas no estrangeiro como um local "Tão bonito que até dói", e que a deixaram maravilhada.  E terminou.
- Incrível como viajamos tanto para o estrangeiro e temos localidades tão bonitas no nosso país que não conhecemos.
- Lá isso é verdade. Conheceste a história do mês que há-de vir? - perguntou Paulo.
- Mês que há-de vir? Não. Mas contaram-me porque é que lá chamam condelipas às conquilhas.
- Condelipas? - estranhou Amélia. Tens que me contar essa.
- Depois. Fiquei curiosa com essa história do mês que há-de vir. Podes contar Paulo?
- A Maria conta. Foi ela que nos contou.
Conta, conta – pediram todos.
A jovem não se fez rogada:
-Parece que em tempos remotos, havia em Lagos o costume, de sempre que chegava o mês de Maio, as damas da cidade, darem a um cavaleiro, todas as suas jóias de ouro para que as passeasse pela cidade. Um certo dia um cavaleiro menos honesto, e mais amigo do alheio,  fugiu com todo o ouro. Consta que alguns mais desconfiados diziam que estava a ir longe demais, e outros mais crédulos respondiam. “Quanto mais longe mais brilha”. Quando perceberam que tinham sido roubados, ficaram tão envergonhados que nunca mais ousaram falar do mês de Maio. Desde então em Lagos, a seguir a Abril, é o mês que há-de vir.
Hoje já quase ninguém  fala disto, mas a história foi contada na televisão pelo Professor José Hermano Saraiva, e imortalizada no livro "À descoberta de Portugal" 
- Não conhecia essa história - disse Isabel
- Pudera. Não deve ser coisa de que se orgulhem - comentou Afonso.
Todos riram e Amélia insistiu:
-Agora conta lá isso das conquilhas serem... conde quê?
- Condelipas.
-Isso.
Isabel contou a origem do nome e a conversa mudou de rumo. Até porque a refeição chegara ao fim.
Marta levantou-se.
- Vamos para a sala – disse. Tomaremos lá o café, e conversamos mais um pouco
Pouco depois Isabel perguntou pousando a chávena vazia sobre a mesa.
- Quando partem?
- Por mim íamos amanhã mesmo – respondeu Marta. Mas o Paulo ainda vai ter que reunir com o seu sucessor para o pôr ao corrente de tudo. E ainda não sabemos quando chega. Mas esperamos partir na  próxima semana.
-E essa Avis-rara, se é como dizem tão aventureiro, decerto é solteiro, - disse Amélia baixando a voz e depois de olhar de soslaio para Afonso, não fosse ele ouvi-la.
- Decerto que sim, - riu Marta. Ou a mãe não estaria tão ansiosa para que o rebento assentasse.
Riram as quatro.
Pouco depois despediam-se. Absorta nos seus pensamentos Isabel estremeceu quando Amélia disse.
- Que se passa? Onde estás que não nos ouves? Isto é muito estranho em ti. Tanto mais que toda a noite te senti meio ausente. Acho que anda mouro na costa. Amanhã, vais ter de me contar tudo.
O carro estacionou à sua porta e Isabel apressou-se a sair.



15.5.20

ISABEL - PARTE III

Hoje  estou AQUI numa gentileza da Teresa do blogue Ontem é só Memória Se puderem passem por lá.
                                                            Meia-Praia
                                                 

Mal tinha escolhido o local onde poisar o saco, quando o telemóvel tocou. Nunca podia estar sem comunicação, pois apesar das férias, várias vezes lhe ligavam do escritório. Isabel era  empresária, a sua firma, era uma das melhores da especialidade, e o trabalho  absorvia-lhe todo o tempo e energia de que dispunha. Mas ela não se importava.  O trabalho fora para ela o remédio sagrado, que evitara a perda da sua sanidade mental. Atendeu a chamada e durante alguns minutos esqueceu tudo o resto e dedicou-se apenas a dar instruções à sua assistente.
Desligada a chamada, meteu o telemóvel e a carteira nos bolsos dos calções, colocou os óculos escuros,  enfiou os chinelos no saco, tapou-o com a toalha de praia e aproximou-se da beira-mar para fazer uma caminhada ao longo da praia. Um quarto de hora depois, o ar começava a aquecer e o céu embora continuasse nublado tinha clareado bastante. Olhou para trás. O saco com a toalha ficara já muito distante. Tanto longe, que quase não o via. Encolheu os ombros e continuou a caminhada solitária pela praia. Reparou num homem alto que fazia a caminhada em sentido contrário e se aproximava dela. Notava-se que já não era um rapazinho mas apresentava um aspecto atlético e cuidado.
- Mais um solitário, - pensou e continuou a sua marcha.
Enquanto caminhava, deixou que as recordações saltassem da gaveta das memórias e invadissem o presente. Mentalmente recuou duas décadas, e viu-se de novo uma jovem de dezoito anos, esfuziante de alegria e entusiasmo. Apaixonada e prestes a casar. Lembrou a busca de casa para alugar, a escolha dos móveis, dos cortinados, os sonhos, a preparação da data do matrimónio, tudo partilhado com o namorado. Fernando era o homem amado, aquele que parecia adivinhar os seus pensamentos antes mesmo que ela os expressasse em voz alta.
O homem, avistado antes, cruzava-se agora com ela, e por breves segundos os seus olhares encontraram-se e logo se afastaram seguindo cada um o seu caminho.
                                                      

5.11.19

UMA HISTÓRIA PARA REFLETIR



No Domingo, o Padre da minha paróquia na homilia contou uma história de que muito gostei. Cheguei a casa e escrevi-a
como ele a contou. Como não sabia se a autoria da história, era dele ou de outra pessoa, procurei na Internet e com poucas alterações encontrei-a em vários sites, sempre como sendo de autor desconhecido.  Aqui a deixo tal como ele a contou.




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Um velho professor foi de férias aos Açores.  Um dia, passeava por um belo jardim, quando um homem jovem aproximou-se dele, cumprimentou-o e perguntou:
- O senhor lembra-se de mim?
O velhote olhou, mas não reconheceu o outro homem.
-Fui seu aluno na primária, lá no continente - diz o homem.  -Também sou professor.
- Olha que bom, - responde o velhote. - E de algum modo eu contribui para que escolhesse essa profissão?
O homem mais jovem pegou-lhe no braço, e disse:
- Venha daí, vamos sentar-nos.
Sentaram-se num banco e o mais novo falou:
-Quando eu andava na segunda classe, um dia um colega chegou à escola com um relógio novo. Era um relógio muito bonito, e eu nem relógio tinha, a minha família era muito pobre, o dinheiro mal chegava para comer. Não sei o que me deu, mas na hora do recreio fui ao vestiário e surripiei o relógio do bolso do casaco do meu colega.
A seguir entrámos na aula e o outro miúdo queixou-se do roubo. O senhor disse que ninguém saía da aula antes do relógio aparecer, e pediu que quem o tirou, o devolvesse. Fiquei apavorado, pensando na vergonha que meus pais iam sentir, na confiança dos colegas que ia perder e não tive coragem de entregar o relógio. Então o senhor mandou que todos nos levantássemos, fizéssemos uma fila indiana e fechássemos os olhos. O senhor ia meter a mão nos bolsos de cada um a fim de encontrar o relógio, mas ninguém podia abrir os olhos sob pena de ser castigado. Fiquei na fila a tremer esperando o momento em que encontrasse o relógio e me denunciasse. Mas o senhor pegou o relógio e continuou até ao fim da fila, e só então disse que podíamos abrir os olhos, já tinha o relógio. Entregou-o ao dono, mas não disse a ninguém quem o tinha. Naquele momento senti que tinha renascido. Eu tinha-me tornado um ladrão, tinha perdido a minha dignidade, e de repente o senhor devolveu a minha dignidade. A sua atitude era uma lição para mim, e naquele mesmo momento jurei a mim mesmo, que ia ser professor. Queria ser como o senhor. 
Calou-se emocionado e por fim perguntou:
-Porque o Senhor nunca me disse nada, nem mesmo quando estávamos sós?
- Meu jovem, - respondeu o velhote com um sorriso. - Até hoje, nunca soube quem tinha tirado o relógio. É que não foram só vocês que ficaram de olhos fechados. Antes de começar a meter as mãos nos vossos bolsos, também eu fechei os meus.




30.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VIII




Levantou-se cedo no dia seguinte. Tomou o duche, vestiu um fato azul-escuro com uma camisola de malha de gola alta, e dirigiu-se à cozinha, onde a empregada já se aprestava para lhe fazer o pequeno-almoço.
-Bom-dia Celeste.
-Bom dia, senhor.
- Só vou beber um café. Quando volta a Maria?
- As férias dela terminam hoje. Amanhã já cá estará.
-Muito bem. Suponho que estes dias tem trabalhado além do desejado. Tenho andado tão preocupado que me esqueci de que está sozinha com todo o trabalho da casa.
- Não me queixei senhor.
- Eu sei que não. Mas hoje mesmo vou pedir à agência que me arranje uma substituta para a Fátima. E a Celeste telefone à Odete. Se ela ainda estiver sem trabalho e quiser voltar, diga-lhe que venha falar comigo.
- Assim farei. Mas se o senhor me permite, e uma vez que infelizmente dona Sara não voltará, se a Odete voltar, nós três damos perfeitamente conta do recado. A Fátima estava ao serviço exclusivo da sua esposa, como sabe, não será necessário substituí-la.
Das quatro empregadas que anteriormente tinha em casa, uma estava de férias, outra tinha casado e abandonara o trabalho. E Odete, que além de cozinheira, era uma espécie de governanta, fora despedida num dos ataques de mau humor que Sara vinha tendo nos últimos dias antes da tragédia. A casa, com os dois pisos e os seus múltiplos cómodos, era demasiado grande para uma única empregada, a pobre da Celeste devia andar derreada.
Gil acabou de beber o café, poisou a chávena em cima da mesa, pegou na pasta com o portátil e dirigiu-se à porta. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
- Não venho almoçar, mas janto em casa.
Saiu. No ar frio que o envolveu, havia um agradável cheiro a terra molhada, fruto da chuva que caíra toda a noite.
Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e saindo da sua propriedade, seguiu em direção aquela que fora até agora uma das suas empresas em sociedade com o seu irmão, e que ia agora passar totalmente para ele.
Apesar da sua fortuna, Gil não esquecia as suas origens, nem os deserdados da fortuna que continuavam a existir no seu país, e especialmente no bairro onde viveu. Um dos seus grandes sonhos,  era criar uma fundação, que se dedicasse, a fazer com que essas crianças pudessem vir a ter as mesmas condições de futuro, de todas as outras. Que pudessem estudar, ou fazer uma formação profissional, que lhes permitisse terem um futuro melhor, do que aquele que os seus pais tiveram. Ele sabia que muitas dessas crianças iriam perder-se nos caminhos da droga e prostituição, se ninguém fizesse nada por elas. Algumas não chegariam sequer à idade adulta.
Anos atrás, quando ainda era um jogador de seleção, tivera conhecimento de uma fundação que se dedicava a construir escolas, abrir poços, montar pequenos hospitais, em locais remotos de África. Gil não sabia quem era o fundador dessa fundação, nem sequer sabia se era obra de um ou vários homens. Só sabia que o homem que estava à frente da mesma, mantinha um anonimato completo, e que era muito rigoroso com a admissão de colaboradores dessa obra.  Inicialmente pensara candidatar-se a colaborador nessa obra, mas depois pensou que era mais lógico que fizesse uma coisa parecida pelas crianças carentes do seu país. Não precisaria construir escolas nem hospitais, bastava dar-lhes meios para que frequentassem as que havia.
E projetara utilizar uma boa parte da sua fortuna, para realizar esse sonho. Atualmente com o êxito dos seus livros, e o excelente trabalho do seu diretor financeiro, que estudava o mercado e lhe investia parte do dinheiro sempre com excelentes resultados, a sua fortuna aumentava todos os dias. Por isso Gil achava que tinha chegado a hora de transformar esse sonho em realidade.


26.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVI


– Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho licença, nem atestado médico, - disse pedindo mentalmente perdão pela mentira, mas não podia dizer a verdade à tia.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto Palmira, empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca ninguém saiu sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de se encontrar Rita, nem queria que ela o visse partir.

Chegou a casa ao anoitecer. Abriu a porta e sentiu o peso da solidão. A primeira coisa a fazer, era telefonar à mãe e pedir para ela regressar no dia seguinte. Teria que dar uma desculpa convincente, para aquele regresso inesperado pois nessa mesma manhã, quando lhe telefonara, não dissera que tencionava regressar e ele conhecia bem a mãe. Se desconfiasse que alguma coisa não estava bem era capaz de abalar de noite a caminho de casa.
Mais tarde ligaria à tia, para que as duas mulheres dormissem descansadas. Depois das chamadas, estendeu-se em cima da cama e deixou-se dormir.