Nuno entrou em casa, acendeu a luz e fechou a porta atrás de si. Despiu o casaco e jogou-o com displicência para um cadeirão na sala. Foi até ao bar e serviu-se de uma bebida. Sentou-se no sofá e cerrou as pálpebras. Mentalmente reviu a figura de Luísa. Já não era a jovenzinha que ele tanto amara, e que lhe destroçara o coração. Era uma mulher muito bela.
O amadurecimento tinha-lhe dado um outro encanto. E apesar da raiva que o consumira durante aqueles dezasseis anos, a sua presença mexeu tanto com ele que teve de fazer um enorme esforço para aparentar uma naturalidade, tão falsa como ela própria.
Namoravam há dez meses e ele tinha a certeza do seu amor. Recordou o dia em que a pediu em casamento. Os planos, para um futuro próximo. As juras de amor que ela lhe fizera. Parecia tão sincera, tão apaixonada. Ele estava tão feliz, que deixara de lado o sonho de ir para África.
Uma semana foi o tempo que durou a sua felicidade. Uma semana e as juras de amor foram quebradas, com a desculpa de que era muito jovem, e não estava preparada para assumir um compromisso sério.
Devastado, com a atitude da mulher que amava, a tal ponto que estava disposto a renunciar aos seus sonhos, com a alma em farrapos, Nuno partiu para o Zimbabwe, onde esteve durante três anos.
Foi lá que recebeu a carta do pai que lhe anunciava o casamento de Luísa, com um homem que quase podia ser seu pai. Não tinham passado nem seis meses depois da sua partida. Amaldiçoou-se pela dor que sentia, por não conseguir esquecê-la. E fez uma jura a si próprio, de que mulher alguma no mundo ia voltar a ter poder sobre ele. Nunca mais ia deixar que o seu coração se prendesse.
Integrado numa equipa de Médicos Sem Fronteiras, Nuno tinha chegado a Chitungwiza, nos subúrbios de Harare, a capital do Zimbabwe. Da mesma equipa, fazia parte a doutora, Helena Santos, que desde o início mostrou sentir grande atração por Nuno, apesar de ele nunca ter demonstrado qualquer outro sentimento que não o saudável companheirismo de dois colegas de profissão. Apesar disso Helena mantinha esperança. De tal modo que quando a missão do grupo acabou, e Nuno decidiu ficar, ela fez o mesmo, talvez pensando que acabaria por o conquistar.
Nuno continuou dedicado de corpo e alma às suas crianças, até que farta de esperar, Helena decidiu tomar a iniciativa e declarar-se ao colega. Sentindo-se incapaz de corresponder ao sentimento dela, Nuno despediu-se dos seus pacientes, e rumou ao Bangladesh, onde permaneceu durante dois anos.
Findo esse tempo voltou a África, tendo passado pela República Centro Africana, Eritreia, Burundi, e Angola, para acabar por voltar ao Zimbabwe, onde permaneceu até ao maldito acidente.
Depois foi uma longa batalha consigo mesmo, até vencer as suas limitações e voltar a ser o médico, conhecido e estimado.
O acidente porém causara grande preocupação aos seus pais, que sentindo-se na reta final da existência , temiam não voltar a ver o filho.
Daí, que quando finalmente recebera alta do hospital da Universidade Técnica de Munique, para onde fora enviado após o acidente e onde estivera mais de três meses, regressou a Portugal onde se candidatou a um lugar num hospital em Lisboa, e se mudou, para um apartamento não longe da casa dos pais. E quando pensava que tinha enfim encontrado a paz de espírito eis que encontrava Luísa e com ela regressava todo o passado. A dor e o ódio, que o acompanharam ao longo de dezasseis anos.















