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9.2.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XI

 





Nuno entrou em casa, acendeu a luz e fechou a porta atrás de si. Despiu o casaco e jogou-o com displicência para um cadeirão na sala. Foi até ao bar e serviu-se de uma bebida. Sentou-se no sofá e cerrou as pálpebras. Mentalmente reviu a figura de Luísa. Já não era a jovenzinha que ele tanto amara, e que lhe destroçara o coração. Era uma mulher muito bela.
 O amadurecimento tinha-lhe dado um outro encanto. E apesar da raiva que o consumira durante aqueles dezasseis anos, a sua presença mexeu tanto com ele que teve de fazer um enorme esforço para aparentar uma naturalidade, tão falsa como ela própria.
Namoravam há dez meses e ele tinha a certeza do seu amor. Recordou o dia em que a pediu em casamento. Os planos, para um futuro próximo. As juras de amor que ela lhe fizera. Parecia tão sincera, tão apaixonada. Ele estava tão feliz, que deixara de lado o sonho de ir para África. 

Uma semana foi o tempo que durou a sua felicidade. Uma semana e as juras de amor foram quebradas, com a desculpa de que era muito jovem, e não estava preparada para assumir um compromisso sério. 
Devastado, com a atitude da mulher que amava, a tal ponto que estava disposto a renunciar aos seus sonhos, com a alma em farrapos, Nuno partiu para o Zimbabwe, onde esteve durante três anos.

 Foi lá que recebeu a carta do pai que lhe anunciava o casamento de Luísa, com um homem que quase podia ser seu pai. Não tinham passado nem seis meses depois da sua partida. Amaldiçoou-se pela dor que sentia, por não conseguir esquecê-la. E fez uma jura a si próprio, de que mulher alguma no mundo ia voltar a ter poder sobre ele. Nunca mais ia deixar que o seu coração se prendesse.
Integrado numa equipa de Médicos Sem Fronteiras, Nuno tinha chegado a Chitungwiza, nos subúrbios de Harare, a capital do Zimbabwe. Da mesma equipa, fazia parte a doutora, Helena Santos, que desde o início mostrou sentir grande atração por Nuno, apesar de ele nunca ter demonstrado qualquer outro sentimento que não o saudável companheirismo de dois colegas de profissão. Apesar disso Helena mantinha esperança. De tal modo que quando a missão do grupo acabou, e Nuno decidiu ficar, ela fez o mesmo, talvez pensando que acabaria por o conquistar.

Nuno continuou dedicado de corpo e alma às suas crianças, até que farta de esperar, Helena decidiu tomar a iniciativa e declarar-se ao colega. Sentindo-se incapaz de corresponder ao sentimento dela, Nuno despediu-se dos seus pacientes, e rumou ao Bangladesh, onde permaneceu durante dois anos.
Findo esse tempo voltou a África, tendo passado pela República Centro Africana, Eritreia, Burundi,  e Angola, para acabar por voltar ao Zimbabwe,  onde permaneceu até ao maldito acidente.

 Depois foi uma longa batalha consigo mesmo, até vencer as suas limitações e voltar a ser o médico, conhecido e estimado.
O acidente porém causara grande preocupação aos seus pais, que sentindo-se na reta final da existência , temiam não voltar a ver o filho.
Daí, que quando finalmente recebera alta do hospital da Universidade Técnica de Munique, para onde fora enviado após o acidente e onde estivera mais de três meses, regressou a Portugal  onde se candidatou a um lugar num hospital em Lisboa, e se mudou, para um apartamento não longe da casa dos pais. E quando pensava que tinha enfim encontrado a paz de espírito eis que encontrava Luísa e com ela regressava todo o passado. A dor e o ódio, que o acompanharam ao longo de dezasseis anos.

4.5.20

À MÉDIA LUZ - PARTE XIV





Depois daquele fim-de-semana alucinante, em que o patinho feio da empresa se transformou num belo cisne, e fechadas que foram as bocas de espanto, com o novo visual da secretária, a vida parecia ter voltado ao normal. 
Parecia, porque não raras vezes, depois daquele dia, Gabriel visitava Sandra à noite. Como se houvesse prévia combinação, chegava pelas dez horas, perguntava se ela lhe oferecia um café, e seguia para a sala, enquanto a jovem ia preparar a aromática bebida. Durante uma hora, conversavam de tudo e de nada, e pelas onze horas ele levantava-se e ia embora.  O que o levava a agir assim, nem ele próprio entendia. O que sabia é que às vezes na solidão da sua grande e luxuosa sala, sentia uma necessidade premente de conversar com ela, saudade do calor humano que sentia na modesta sala de Sandra. 
 Ninguém que conhecesse Gabriel, acreditaria, que ele sentia necessidade de estar com uma mulher, que não fosse sua amante, e no entanto nunca houvera nada entre eles, nem sequer uma insinuação de ordem mais intima. Durante as horas de expediente, as suas relações, eram agora as de qualquer chefe, com a sua secretária. Educadas e profissionais. À noite, eram… bom a falar verdade nem ele mesmo sabia o que eram. Só sabia que aquele estranho ritual lhe dava um imenso prazer, e que se sentia em casa dela, como alguém que anda perdido e de repente encontra o seu porto de abrigo.
Por vezes sentia uma vontade louca de a beijar.  Todavia sabia que se a beijasse, não se contentaria só com isso. E provavelmente ela não lhe iria perdoar nunca, e ele não arriscaria de modo algum, perder aquela sensação de bem estar consigo e com os outros, tão desconhecida até uns meses atrás. 
Por isso, quando o desejo ameaçava tornar-se maior do que a sua força de vontade, despedia-se e regressava a casa.
Sandra não dizia nada. Limitava-se a fechar a porta e a encostar-se nela sorrindo tristemente. Depois que teve a certeza de que ele não era culpado do desfalque que tinha jogado o seu pai, na prisão; e que estava sinceramente disposto a ajudá-la a descobrir a verdade, o seu coração solitário e carente não resistiu. Apaixonou-se como uma adolescente. Todavia não tinha ilusões, nem acreditava no futuro daquele amor. Afinal ele era um homem rico, com uma grande empresa, e ela era apenas a filha do homem que segundo a justiça o roubara.
No seu intimo, acredita que Gabriel terá por ela um sentimento semelhante ao seu, embora talvez ele não o reconheça. Conhece-lhe o desejo, percebe a luta que ele trava consigo mesmo.
Por sua vez, ele sabe, que ela nunca será sua amante. Do mesmo modo que sabe, que ainda não está preparado para aceitar e viver uma relação séria de casamento. Por isso vivem assim, a vida pela metade, o sonho presente, uma hora por dia, quase todas as noites.
E entretanto passaram três semanas e o inspetor Pedro, ainda não dera sinal de vida.


Nota: devem notar que tenho estado mais ausente nos últimos dias. Tenho estado com ardores nos olhos e muito chorosa, pelo que estou no computador o mínimo possível. Felizmente a história é uma reposição, pois há quase uma semana que só consigo escrever alguns comentários e pouco mais.

23.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XIV







Três meses depois, Eva estava irremediavelmente apaixonada por André. Naqueles três meses de convivência, ele mostrou-se sempre um companheiro fantástico. Juntos conheceram Sintra, com os seus majestosos monumentos, os seus românticos recantos, as tradicionais queijadas, os deliciosos travesseiros.
Tomaram banho na Praia das Maçãs, encantaram-se com a beleza das Azenhas do Mar, descobriram a histórica Ericeira; e Mafra, em cuja Tapada passearam, almoçaram e se deixaram enredar pela história de outros tempos.
Ainda em Mafra, visitaram o Convento que inspirou José Saramago, o Nobel da Literatura Portuguesa. Mas também do outro lado do Tejo, visitaram o Cristo-Rei, a bela Igreja  de Nossa Senhora do Bom Sucesso, a Casa da Cerca, onde ficaram duplamente encantados com o belo jardim botânico e com a maravilhosa vista para Lisboa, desceram ao Ginjal e almoçaram ali mesmo no restaurante Ponto Final, embalados pela suave melodia das águas do Tejo. 
Também foram até Palmela, a terra das vinhas, pelas quais André pareceu interessar-se vivamente, percorreram a rota dos Moinhos na Serra dos Louros,visitaram o Castelo.
Visitaram Sesimbra, e também Setúbal, onde se deliciaram com o choco frito, o Parque Natural da Serra da Arrábida, a bela praia do Portinho. Todos os fins-de-semana, desde aquele primeiro sábado, partiam à descoberta de uma localidade.
Nesse meio tempo, André fora com a jovem ao orfanato onde conheceu a Irmã Madalena, de que a jovem tanto falava. Curiosamente, ou talvez não, a empatia entre os dois foi evidente.
Se Eva se apaixonara pelo homem que se revelara, um companheiro inteligente e divertido, gentil e cavalheiro, o homem experiente que ele era, ficava doido, com aquela mulher-menina, que mostrava uma inocência difícil de igualar, pese o seu corpo, onde tudo estava no lugar certo, e o seu rosto cuja beleza era indesmentível. A tensão entre eles crescia. Os toques tão naturais no início, eram agora evitados a todo o custo, como se ambos soubessem que qualquer toque provocaria um fogo sem limite na paixão que os devorava.
André percebera já que a sua paixão era retribuída pela jovem. Porém ele tinha jurado que não lhe faria mal. E não era livre. Na próxima semana, partiria para Londres. Não sabia por quanto tempo.
Depois disso, sim, seria livre. Decidiu-o, quando percebeu o sentimento que ela lhe inspirava. Por isso evitava a todo o custo, qualquer situação que não conseguisse controlar.
E para isso, passou a sair de casa antes dela chegar do emprego, jantar fora, e só voltar para casa de madrugada, quando tinha a certeza, que Eva já dormia.


Espero que os meus amigos estejam todos bem. Eu tive um grande susto na Sexta feira. Quando me levantei, não me segurava nas pernas, não tinha equilíbrio e sentia a mão esquerda dormente. Só a mão dormente não me afligiria, pois tenho muitas vezes, as mãos e as pernas dormentes,  devido a problemas de coluna. Mas o resto sim. Pensei imediatamente no AVC, embora a Tensão Arterial estivesse normal. Felizmente esse estado durou apenas uma hora e o resto do dia bem como sábado e Domingo estive bem. Não sei se o que aconteceu foi por ter dormido em má posição, ou se pela crise de refluxo que tive na véspera, mas digo-vos que foi um susto do caraças.



12.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVII

Boa noite, amigos.
Hoje falei com o neurologista que acompanha o meu marido. Disse-me que o registo do holter estava normalíssimo. Que amanhã fará a RM, na Segunda feira fará o dopler das carótidas e começará a ir ao ginásio a fim de fazer fisioterapia pelo menos uma semana. no dia 19 fará um ecocardiograma e se continuar tudo bem, virá para casa. Entretanto eu estou com uma tendinite no braço direito. Que mais nos acontecerá neste ano que tem sido tão aziago.






Sentiu que uma garra gelada lhe penetrava no peito e o rasgava de cima, abaixo.
- Perguntou quase num sussurro:
- Queres o divórcio? Estás apaixonada por alguém?
“ Meu Deus! Como pode ser tão inteligente para os negócios e tão burro para as coisas do coração?”- pensou Isabel, sentindo que tinha chegado a hora de abrir o seu coração, e deixar que ele visse o que a trazia atormentada.
-É claro que não quero o divórcio. Mas não sei onde arranjar forças para continuar a aguentar este arremedo de casamento. Perguntaste se estou apaixonada por alguém. É óbvio que estou. Estou apaixonada por um homem que me quer dar segurança material, mas não me dá o seu coração. Estou apaixonada por um homem, a quem dei tudo o que tinha, o meu corpo, o meu coração, os meus pensamentos, os meus sonhos. E o que me deu esse homem, em troca? Sexo. O sexo é bom, tão bom que me deixei deslumbrar e pensei poder viver do prazer que ele me dava. Mas depressa verifiquei que era uma triste imitação daquilo que o meu coração ansiava. O homem por quem me apaixonei, nunca me falou da sua vida passada, dos seus sonhos para o futuro, nada. Eu amo tanto esse homem, que o maior sonho da minha vida, é ter um filho seu. Mas em momento algum, ele mostrou desejo de ter esse filho, e assim tomo a pílula todos os dias, não vá ter uma gravidez que ele não deseje, e acabar com a pouca esperança que me resta, de que um dia sinta por mim, o mesmo amor que sinto por ele.
Estava descontrolada. Chorava copiosamente, mas nem por um momento pensou em se calar. As palavras saíam em catadupa, cheias de amargura.
Ricardo levantou-se. O seu rosto estava tão pálido quanto o de um defunto. As mãos trémulas, ansiavam por acariciar a mulher. Mas de algum modo, sabia que se o fizesse naquele momento, ela rejeitá-lo-ia. Virou-lhe as costas e caminhou até à janela, deixando que ela chorasse até se acalmar. Quando percebeu que o choro tinha perdido intensidade, ele retomou a conversa, sem se voltar para ela, o olhar perdido no Tejo.
Aquele homem de quem te falei, apaixonou-se uma vez quando era ainda estudante, um miúdo que acabara de completar vinte anos. Nessa idade, o mundo é demasiado pequeno para os nossos sonhos, e fazemos tudo em demasia. Comemos demais, bebemos demais, amamos demais. Ele apaixonou-se loucamente, por uma mulher um pouco mais velha, e sentiu-se o homem mais feliz do universo quando num momento, que ele pensava ser de paixão retribuída, fez amor sem tomar precauções. Pouco tempo depois ela disse-lhe que estava grávida. Ele ficou aflito, ainda estava na faculdade, não tinha como sustentar uma casa, mas nem por um segundo, pensou livrar-se dela ou do bebé, que amou desde o primeiro momento. Falou com os pais, e eles assumiram as despesas do casamento, em troca dele transferir a matrícula para a noite, e ir trabalhar com o pai para a oficina, pois nessa altura já era um bom mecânico.
Sem se voltar uma única vez, Ricardo contou tudo o que passou com aquele casamento, o que sofreu, quando tomou conhecimento de como aquela mulher e o tinha enganado, da dor que foi descobrir que aquele pequeno ser que tanto amava e que nunca iria conhecer, por quem aguentou aqueles seis meses de martírio, não era nada seu. 




16.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXVII





Afonso, chegou a casa, à hora de jantar. As crianças que ouviram o carro vieram ao seu encontro, mal abriu a porta. Era um ritual que se repetia diariamente, e que lhe aquecia o coração. E apesar de naquele dia não ser diferente, ele notou algo estranho. João, sempre tão alegre, tão extrovertido, estava sério. Parecia ter chorado. Inquietou-se. 
- Meninas vão brincar. Quero falar com os manos.
Baixou-se e agarrou o menino.
-Que aconteceu? Choraste?
João respondeu com outra pergunta.
-Vais continuar a ser meu pai? Não vais virar estrelinha como o outro?
Percebeu o que acontecera. Inconscientemente pensou como reagiriam as filhas, quando soubessem a verdade sobre a mãe biológica.  Abraçou o menino com carinho.
-É claro que vou ser, sempre teu pai, filho.
- Obrigado, pai.
Sentiu um nó na garganta. Não fora João quem falara, mas sim o irmão. Era a primeira vez que Simão lhe chamava pai, depois de conviverem há quase um ano, e de ouvir o irmão, a chamar-lhe assim, quase desde o primeiro dia.  Passou-lhe a mão pela cabeça, numa caricia e disse:
- O pai ama-vos muito. Mas agora vão chamar as manas, e lavar as mãos, para irmos jantar.  
Ergueu-se emocionado. E só então reparou em Francisca.
-Ouviste? Chamou-me pai. Finalmente.
Acenou afirmativamente
- Sempre soube que o faria. Tinha-te dito, que tinhas de ser paciente. Compraste o que querias?
- Sim. Está tudo no escritório.
Olhou-a e sussurrou:
-Estás linda.
Estremeceu. Era a primeira vez que Afonso lhe elogiava a beleza. E fazia-o de uma forma apaixonada, intima. Que se passava? Era uma consequência da emoção anterior, ou o homem finalmente reparara nela?
As crianças, voltaram e todos foram para a mesa. O jantar decorreu animado como sempre. Quando se sentem amadas, as crianças esquecem depressa  qualquer coisa mais desagradável. E depois João  nascera após a morte do pai, nunca o vira a não ser por foto, apesar da mãe sempre lhe ter ensinado a amá-lo.
Depois do jantar, enquanto Francisca levantava as loiças da mesa e as punha na máquina, Afonso foi para a sala ver a árvore, e os garotos contaram ao pai, como tinham ajudado a decorá-la. Estavam entusiasmados com a festa que se aproximava, e a perspectiva das prendas que iriam receber. Mais tarde, Francisca reuniu-se-lhes dizendo que eram horas de ir lavar os dentes e dormir.
- Ajudo-te, - disse Afonso levantando-se e seguindo-os.

reedição



15.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXVIII




Por essa altura, Clara tinha uma única certeza na sua vida. Estava irremediavelmente apaixonada pelo homem com quem celebrara um contrato de trabalho que incluía um casamento para sociedade ver. Não sabia quando isso acontecera nem esperara que tal viesse a acontecer, e Deus era testemunha que se tal ideia lhe atravessasse a mente, decerto agora não estaria ali. Mas o certo, é que acontecera, e agora o futuro apresentava-se-lhe pintado de sombrias cores. Porque uma coisa era estar ali cumprindo o contrato como uma empregada.
Outra coisa muito diferente, seria fazê-lo dia após dia, com o coração cheio de amor por alguém que não lhe correspondia.
Embora as mensagens de Ricardo chegassem quase diariamente, elas não acalmavam o seu coração, nem lhe davam qualquer esperança de que ele pensasse nela de outra maneira que não, a ama que lhe cuidava dos filhos.
Aquela última semana antes de Natal foi muito intensa. Alfredo trouxe para casa um vaso com um pequeno pinheiro, que Clara e Tiago enfeitaram com a ajuda das crianças.
Natal era festa de família. Uma vez que Ricardo não estava presente, Clara decidiu que a Ceia de Natal seria partilhada com os empregados. Afinal Antónia tinha um verdadeiro amor por todos os habitantes da casa. E dado que Adelaide, ficaria sozinha com os dois filhos, disse-lhe que os trouxesse e jantariam todos juntos. Natal é festa de Amor e partilha.  
Depois os dois irmãos foram ao Centro comercial e compraram as prendas para todos. Uma bola de futebol e um estojo completo de pintura, presentes que os filhos de Adelaide tinham pedido na carta ao Pai Natal. Um pequeno órgão para a Soraia, uma bicicleta para o irmão, também pedido por eles ao Pai Natal. Também comprou um traje completo para cada um. As crianças gostam de vestir roupa nova nos dias festivos.
 Tiago escolheu os seus próprios presentes. Um novo portátil, já que o seu estava avariado e um blusão. Para ela não comprou nada. Na verdade não tinha vontade de nada, e a noção que tinha da festa de Natal, era a partilha de Amor, não de presentes. Esses eram para as crianças. Depois passaram numa loja de disfarces e compraram um fato de Pai Natal
Todos os presentes acomodados no carro, regressaram a casa. Não os levaram para casa. Clara tinha combinado com Alfredo, que depois do jantar ele arranjaria alguma desculpa para se retirar, vestiria o fato e entregaria os presentes.
A meio da tarde Ricardo esteve com os filhos numa video-chamada.
Clara que o observava, achou-o mais magro. Também era visível o esforço que fazia para se mostrar feliz com os filhos. “Deve estar cheio de saudades” pensou. Depois que ele se despediu dos filhos ela pediu se ele podia ficar mais um pouco. Pediu às crianças que fossem brincar com os filhos de Adelaide e fechou a porta quando saíram. Voltou para o computador e disse:
 -Não me parece que estejas muito bem. Estás doente?
-Não. Apenas cansado e cheio de saudades. Daria qualquer coisa para estar aí.
- Calculo. Suponho que aí não festejem o Natal.
-Eu e os meus homens, vamos fazer uma ceia especial daqui a pouco.
A religião aqui é quase cem por cento muçulmana. Não há igrejas católicas no país. Há apenas uma capela na embaixada italiana em Cabul.
-Olha, vou filmar a hora em que eles vão receber os presentes e mando-te por correio eletrónico, ainda hoje.
- Agradeço-te. Só verei amanhã, porque depois das dez não temos acesso aos computadores.
-Cuida-te Ricardo. Nós precisamos de ti.
- Nós? Tu também?
- Não costumo dizer o que não sinto – ela tinha a noção de que devia estar mais vermelha do que a camisola que trazia vestida. – Adeus.
- Adeus Clara.


5.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLIV




O sol brilhava, naquele dia de Natal, embora estivesse bastante frio.
No seu quarto, Mariana acabara de se arranjar, disfarçando com o corrector os círculos arroxeados que lhe circundavam os olhos e davam conta da noite mal dormida. Escolheu  umas calças de fazenda preta, e uma camisola de gola alta da mesma cor. Completava a indumentária com umas botas também  pretas. O cabelo estava de novo entrançado. Parecia mais alta, mais estilizada a figura.
E Miguel? Por onde andaria? - Interrogava-se.
Quando meia hora antes se levantara, ele já não estava em casa.
“Volto logo” era tudo o que estava escrito no bilhete preso na porta do frigorífico.
Arrumou o quarto, apanhou do chão o belo vestido preto, que levou para o cesto da roupa suja, e dirigiu-se à sala, onde deu início à tarefa de arrumação da mesma, pois se encontrava com loiças, frutos e restos de velas, testemunho da noite anterior.
Pouco depois ele chegou.
- Bom dia. Vim buscar-te, para almoçar.
Assim, tranquilamente, como se não tivesse acontecido nada na noite anterior. Sentiu-se frustrada, enraivecida, com vontade de o arranhar. Mas era preciso que ele não percebesse.
-Bom dia Miguel. Faz muito frio lá fora?- Perguntou aparentando uma naturalidade que não sentia.
- Bastante. É melhor ires bem agasalhada.
- Está bem. Não me demoro.
Entrou no quarto, deixando o homem perplexo. Estava tão diferente da mulher apaixonada da noite anterior. Decerto nem se lembrava do que tinha dito horas antes ali mesmo. O que provava, que ele estava certo. Tinha que sufocar aquela lembrança e fazer por esquecer.
- Estou pronta. Podemos ir.
Tinha vestido um grosso casaco de fazenda e na cabeça, um gorro de lã, dava maior graciosidade ao seu rosto.
Já na rua, seguiram em direção ao carro.
- Pensei que almoçávamos aqui mesmo no bairro.
- Neste dia há poucos restaurantes a funcionar. Vamos almoçar a Cascais, já fiz a reserva há mais de quinze dias. Depois damos uma volta até Sintra. Toda aquela zona é muito bonita e o sol convida.
Não respondeu.
- Não dizes nada? Não te agrada?
- Sim claro, - respondeu sem entusiasmo.  
O silêncio instalou-se entre eles, acompanhando-os  na viagem o resto do trajecto.


Informando os amigos. 
Hoje fui buscar os resultados dos últimos exames médicos. A consulta está marcada para dia 11.
Também retomei os tratamentos de fisioterapia, e tive a neta comigo. O que me deixou sem tempo para a blogosfera.
Retomarei as visitas normais amanhã.

8.7.18

O DIREITO À VERDADE - XIX




Despediram-se à porta do hotel.
- Venho buscar-te amanhã à mesma hora, - disse ele olhando-a nos olhos as mãos nos ombros dela.
-Não me encontrarás. Saio logo pela manhã.
- Porquê Lena? Porque vais fugir inviabilizando alguma coisa entre nós? Do que tens medo?
- Não é medo Cláudio. Tenho que ir. Não vai haver nada entre nós, somos dois estranhos que se conheceram, passaram momentos agradáveis juntos mas nada mais. Na minha vida não há tempo para romances, tenho outras prioridades. Estou-te muito grata, vou recordar-te com carinho mas é tudo.
De súbito ele desceu as mãos pelas suas costas atraindo-a a si e beijou-a. Não um beijinho terno como o daquela tarde, mas um beijo apaixonado, um beijo tão intenso que a jovem quase desmaiou nos seus braços.
- Por favor Lena, não insultes a minha inteligência, dizendo que não sentiste o mesmo que eu. A química que há entre nós, é por demais evidente. Não jogues fora, a oportunidade de podermos viver uma coisa especial. Venho buscar-te amanhã. Almoçamos juntos e depois levo-te a conhecer os meus pais.
Helena, não respondeu. Desprendeu-se dos seus braços e sem olhar para trás entrou no hotel. As lágrimas ofuscavam-lhe a visão, mas a razão mantinha-se teimosamente clara. Sairia logo pela manhã.
Entrou no quarto e atirou-se para cima da cama, onde deu livre curso às suas lágrimas. Amaldiçoou a hora em que pensou ficar em Coimbra. Se tivesse seguido no mesmo dia para Viseu não estava agora a sofrer. Sim, porque ela estava a sofrer. Não sabia se estava apaixonada por Cláudio, mas sabia que os seus beijos mexeram com ela. E se o primeiro a perturbou, o segundo, despertou nela o desejo pelo homem e por outras carícias, nunca antes experimentadas.
Porém ela não acredita que um homem como Cláudio, homem mais velho, bonito, que a julgar pelo carro que conduz e pelas suas maneiras pertence a um estrato social alto se possa interessar por uma mulher, que a única coisa que possui é a casa onde vive, não tem nenhuma experiência de vida, nem sequer terminou a faculdade. Helena não sabe que era exatamente assim que a mãe pensava. Na verdade Natália nunca se julgou merecedora do amor do marido. Por causa da sua insegurança, ela sempre esteve à espera do dia em que o marido a traísse. Por isso nunca quis ouvir as suas explicações. Ela tinha feito o filme e deu-lhe um fim. E a vida mostrou-lhe que estava certa. Pelo menos era nisso que ela acreditava, De forma inconsciente, Helena estava a percorrer o mesmo caminho.
Quando acalmou, foi à casa de banho lavar o rosto para apagar o vestígio das lágrimas e desceu. Estava quase na hora do jantar e ela ainda ia procurar uma papelaria para comprar uma carta. Depois do jantar, já no quarto, telefonou ao tio, contou-lhe do passeio, sem mencionar Cláudio, confirmou que ia sair no dia seguinte na camioneta da manhã. Já tinha marcado o hotel Avenida em Viseu. Depois de se despedir do tio sentou-se e começou a escrever.


12.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXIX



-  Agora vem a parte mais difícil, porém sinto que tenho de te contar tudo, para que nenhum fantasma possa assombrar-nos no futuro. Como dizia, resolvi apostar no teu amor pela tua mãe e pelo Pedro, para te propor o casamento tal como tu sabes. Na altura resolvi impor o prazo de dois anos, pensando que dois anos era tempo suficiente para me tornar no pai adotivo do Pedro e ganhar o seu amor. Se depois de dois anos te quisesses divorciar, eu contava ganhar a guarda dele, por ter muito melhores condições financeiras que tu. Sim querida, era uma canalhice, mas naquela altura eu pensava que no caso de divórcio, te tiraria a guarda dele. Tal como eu esperava, tu aceitaste as condições impostas e avancei com o casamento. Estava convencido que só o menino me interessava. Não foi assim. Hoje ao pensar no que sucedeu a seguir ao nosso casamento, sei que já nessa altura tinhas derrubado as minhas defesas. Tu não fazes ideia de como eu te desejava. Já me conheces, sabes como sou sexualmente ativo. Desde o dia que combinámos o casamento, não voltei a ter uma mulher. Tinha deixado bem claro o que pretendia do nosso matrimónio, e no entanto respeitei a tua dor e o teu tempo, naquela e em todas as noites que se seguiram. Achas que o faria se não me importasses? Estava tão preocupado em não dar a nenhuma mulher, o poder de me fazer sofrer, que me convenci que o amor não existia, e não soube reconhecê-lo. Dizia a mim mesmo, que o que nos ligava era só sexo, e que o sexo era uma necessidade fisiológica, nada tinha a ver com amor. Apenas me comecei a questionar em relação aos meus sentimentos, quando notei que estavas  diferente. Comecei a pensar que te tinhas cansado da vida que tinhas, e querias por fim ao casamento. Só então me dei conta de como tinhas entrado no meu coração, e de como és importante para mim. Agora que já sabes na verdade quem sou, e como sou, com todos os meus defeitos, talvez possas contar-me o que te aflige. 
- Pese a patifaria que pensaste fazer-me, e agradeço-te teres sido sincero, a verdade, é que comigo sempre foste gentil. Apesar dos meus vinte e nove anos, eu era uma menina que tinha passado por uma experiência terrível, e que nada sabia dos jogos do amor. A tua atitude entrou no meu coração e ele encheu-se de amor por ti. Mas os meses passaram, e tu não davas nenhum sinal de teres qualquer sentimento por mim que não fosse o cumprimento rigoroso do que tinha sido assinado naquele maldito acordo pré-matrimonial. Parecia que para ti só importava o Pedro e agora percebo que afinal era ele que tu querias, e não eu. 
- Não...
- Chiu! Agora sou eu que te peço, deixa-me continuar. Se é hora de abrir a alma e alijar mágoas, que o seja para os dois. Eu estava perdidamente apaixonada, mas tu não me davas nada a não ser as horas loucas na cama. Eu ansiava por amor e tu davas-me presentes, dinheiro e sexo. Suponho que seja o que qualquer homem dá à amante, não à sua esposa. Convidavas-me a acompanhar-te nas viagens, mas não me falavas dos teus projetos, muito menos dos teus sonhos. Nunca me disseste se estavas feliz, se querias ter mais filhos, nunca me disseste uma palavra que trouxesse alguma esperança ao meu coração enamorado. Daí que eu todo este tempo, eu nunca me senti verdadeiramente como tua mulher, mas sim como algo que tu compraste. E é isso que me transtorna e me atormenta.




Bom amigos, devem ter verificado que nos últimos dias têm saído dois capítulos por dia. Isso aconteceu porque eu queria que esta história terminasse dia de Santo António. Daí que felizes ou infelizes, o Pedro e a Joana vão dizer-nos adeus amanhã. Amanhã é dia 13 e dizem os supersticiosos que é dia de azar. Será que a história vai acabar mal?


FELIZ DIA DOS NAMORADOS para os/as amigos/as do outro lado do Atlântico.

8.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXIII





Alguns dias se passaram. Já tinham visto algumas casas, mas ainda não, aquela que ele pretendia. Joana continuava com o seu trabalho. Quando não tinha encomendas, dedicava-se a inventar novas receitas, e a testá-las. Por seu lado, os inúmeros negócios de Pedro, obrigavam-no a várias deslocações, viagens que ele fazia o mais curtas possíveis, pois o estar em casa agora tinha outro encanto, embora eles não fossem um casal, na verdadeira aceção da palavra.
Tal como se tinha proposto, e fazendo gala de um controlo absoluto sobre o seu corpo e o seu desejo, ele iniciara uma espécie de ritual, que ia noite após noite despertando a libido feminina, fazendo-lhe perder o medo, trocando-lhe o pavor pelo desejo. Fazendo uso da experiência ganha ao longo dos anos, ele utilizava tudo o que tinha, a boca, a língua, as mãos, em carícias cada vez mais intensas. A primeira vez que a mão dele, tocou o ponto da sua feminilidade, o corpo de Joana, tornou-se tão rígido, que imediatamente a mão subiu, numa carícia pelas suas costas, enquanto a boca continuava colada à dela, e a mão voltava a descer e subia acariciando o ventre liso, subindo até aos seios, para voltar lá ao ponto nevrálgico das suas sensações, a boca descendo aos seios, numa espécie de jogo de toca e foge, sem se impor, sem tentar ir mais longe, até sentir que aos poucos,ela ia perdendo o medo, e cada dia despertava para uma nova sensação. Quando ele sentia que o corpo ameaçava fugir ao seu controlo, terminava a "sessão" com um beijo de boas noites, fugindo do desejo que podia por em risco, todo o seu esforço.
 Foi um esforço titânico, mas quando finalmente tiveram a sua noite de amor, sentiu-se recompensado, porque a mulher apaixonada que teve nos braços, estava livre do trauma que a perseguira durante dez anos. A nova Joana tinha aprendido a conhecer o seu corpo, e a viver a sua sexualidade sem vergonha nem pavor. E qual Pigmaleão ele sentia-se orgulhoso dela e de si próprio ao pensar que aquela nova mulher era obra sua.
Dois meses depois, encontraram a casa dos seus sonhos, ali para os lados de Sintra, perto da Praia das Maçãs. Tratava-se de uma casa de dois pisos, sendo que o segundo fora construído posteriormente pelos anteriores moradores, para residência do filho, quando ele se casara, e portanto tinha acesso por escadas exteriores, tornando assim os dois andares completamente independentes. A casa dispunha ainda de um bom terreno à sua volta, cercado por um muro, com um largo portão, que dava acesso à garagem, ao fundo do terreno, junto ao muro, e uma outra porta mais pequena, com acesso direto ao edifício.
Era o ideal para eles, poderiam viver em família, sem contudo perder a privacidade. Por outro lado o sítio era lindo, poderiam ajardinar o terreno, colocar um baloiço e um escorrega, para o pequeno Pedro. 
Para Joana, o mais importante era a enorme cozinha, onde ela poderia dar asas à sua criatividade.
Gostaram tanto da casa, que logo sinalizaram a compra.

Gente até ao dia 14 vou ter uns dias complicados com vários eventos de encerramento do ano na Universidade Sénior que frequento.. até dia 13 e dia 14 vou fazer a TAC. Estou bastante melhor, mas ainda não consigo fazer muitas coisas e também não consigo estar muito tempo no pc., pelo que peço-vos desculpa se não for tão assídua como é habitual nos vossos cantinhos.
Bom fim de semana a todos


30.4.18

11.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XIII




Odete acabara de se deitar, e o pensamento voou para o seu marido. Não tinha mudado muito naqueles anos. Tinha alguns cabelos brancos é certo mas isso não lhe tirava o charme. O que mais tinha mudado era o seu olhar. A sua expressão, era agora bem mais dura do que antes da sua separação. Quando desesperada, partiu para Leeds, pensou que ele não tardaria a pedir o divórcio, para se casar com Inês. Porém João não só não pedira o divórcio, como decerto não estava com ela. Senão porque exigiria a sua volta? A menos que estivessem zangados e lhe quisesse fazer ciúmes. Mas não. O João que ela amava, não manteria durante tantos anos uma relação dúbia. Mas será que ela conhecia o marido?
Oriunda de uma família humilde, mal terminara o décimo segundo ano, empregou-se num café pastelaria bem perto de casa. Não era exatamente o emprego que sonhava, mas era perto de casa, não precisava tirar passe, nem passar tempo em transportes, e estava em contacto com pessoas o que lhe agradava bastante. Um dia João apareceu por lá de manhã. Pediu uma torrada e um galão. Depois apareceu no dia seguinte e no outro e no outro. Um mês, após outro. E quase sem dar por isso ela começou a esperar com ansiedade a chegada dele. O seu coração saltava de alegria, quando ele entrava. Reconheceu que se tinha apaixonado, quando descobriu que adormecia e acordava a pensar nele.
Quase cinco meses depois de o ter visto pela primeira vez, João convidou-a para ir ao cinema. Era Verão o tempo estava quente, e depois do cinema foram até um bar, ouvir música. Depois dessa noite outras se seguiram. A sua mãe estava deveras preocupada, e não se cansada de lhe dizer:
- Tens que acabar com essas saídas filha. Esse rapaz é um médico famoso. Não pode querer nada sério contigo. Um dia destes ele arranja uma namorada da sua classe, ou uma médica como ele e nunca mais se lembra de ti.
No se intimo, ela dava razão à mãe, mas não se pode pedir a um coração apaixonado que pare de sonhar. Porém um dia, João confessou-se apaixonado, e começaram a namorar. Sério, ele falou com os seus pais, e desde aí até ao casamento, foram apenas seis meses. Seis meses em que se sentia como uma princesa de um conto de fadas.
Depois do casamento e da lua-de-mel, Odete decidiu estudar, e João encantado com a ideia apoiou-a. Sempre gostara de crianças, e assim resolveu matricular-se na Escola Superior de Educadores de Infância. Nos três anos que se seguiram, Odete não podia ter sido mais feliz. O marido não se cansava de a mimar, Além de lhe pagar os estudos, comprava-lhe roupas, e jóias. Era carinhoso e compreensivo no dia-a-dia, e um homem apaixonado nos momentos de intimidade. Que mais podia desejar?  E ela fez os três anos correspondentes à Licenciatura em Educação Básica, e estava a pensar começar a sua carreira profissional, pois faltava-lhe a paciência para passar os dias em casa à espera do marido que tinha cada dia mais trabalho e menos tempo para a vida familiar.




É já amanhã, que todos vão ficar a saber o que levou Odete a fugir de casa. 

17.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XV






Depois daquele fim-de-semana alucinante, em que o patinho feio da empresa se transformou num belo cisne, e fechadas que foram as bocas de espanto, com o novo visual da secretária, a vida parecia ter voltado ao normal. Parecia, porque não raras vezes, durante aqueles dias, Gabriel visitava Sandra à noite. Chegava pelas dez horas, perguntava se ela lhe oferecia um café, e seguia para a sala, enquanto ela ia preparar a aromática bebida. Durante uma hora, conversavam de tudo e de nada, e pelas onze horas ele levantava-se e ia embora. Ninguém que conhecesse Gabriel, acreditaria, que nunca houvera nada entre eles, nem sequer o mais casto dos beijos. Durante as horas de expediente, as suas relações eram as de qualquer chefe com a sua empregada. À noite, eram… bom a falar verdade nem ele mesmo sabia o que eram. Só sabia que aquele estranho ritual lhe dava um imenso prazer, e que se sentia ali, como alguém que anda perdido e de repente encontra o seu porto de abrigo.
Por vezes sentia uma vontade louca de a beijar. Porém conhecia-se bem demais. Sabia que se a beijasse, não se contentaria só com isso. Por isso, quando o desejo ameaçava tornar-se maior do que a sua força de vontade, levantava-se e ia embora.
Sandra não dizia nada. Limitava-se a fechar a porta e a encostar-se nela sorrindo tristemente. Estava apaixonada por ele, desde que compreendera que Gabriel não só tinha nada a ver com o desfalque, como estava decidido a ajudá-la a descobrir a verdade. Mas não acreditava no futuro daquele amor. Afinal ele era um homem rico, com uma grande empresa, e ela era apenas a filha do homem que segundo a justiça o roubara.
No seu intimo, sabe que ele também a ama, embora ele próprio talvez ainda não o saiba. Conhece-lhe o desejo, percebe a luta que ele trava consigo mesmo.
Gabriel sabe, que ela nunca será sua amante. Do mesmo modo que sabe, que ainda não está preparado para aceitar e viver uma relação séria de marido e mulher. Por isso vivem assim,a vida pela metade, o sonho presente, uma hora por dia, quase todas as noites.
E já se passaram quinze dias e o inspetor ainda não deu qualquer sinal de vida.


12.6.17

JOGO PERIGOSO - PARTE XXVIII


A dor que Daniela sentiu foi tão intensa que não resistiu. Sentiu que a visão se  lhe nublava, teve a nítida sensação de que o chão vinha ao encontro da sua cabeça e mergulhou no abismo.
Acordou minutos mais tarde, estendida no sofá. Sentado ao seu lado, David, passava-lhe uma toalha molhada pela testa.
- Sentes-te melhor? – Perguntou apreensivo.
- Já passou. Queres ou não ouvir-me?
 -Achas que vale a pena? - Perguntou com amargura
-Talvez sim, talvez não. Tu dirás. Lembras-te, de me teres perguntado porque me divorciei? Perguntaste se houve traição e eu respondi que sim e não. Bom para ir ao princípio da questão, casei-me aos vinte e quatro anos,   profundamente apaixonada, sonhando com uma relação para toda a vida. Um ano depois de casada, Felipe começou a questionar-me porque eu não engravidava, e ele queria logo ser pai. Consultei um ginecologista, fiz vários exames e no fim ele disse-me que era estéril. Calculas a dor que é para uma mulher de vinte e cinco anos, cujo marido a pressiona todos os dias, para lhe dar um filho, saber que nunca vai poder fazê-lo? Foi como se o mundo inteiro ruísse à minha volta. Fiquei destroçada. Quando contei ao Filipe, ele disse-me que não importava e durante alguns dias, eu acreditei nisso. Mas foi sol de pouca dura. Pouco depois começou a marcar-me consulta em vários médicos, sempre acreditando que um deles ia fazer o milagre. A minha vida, deixou de fazer sentido, era um verdadeiro calvário, de médico em médico, de exame em exame.
David estava pálido. Percebeu a crueldade, que as suas palavras tinham representado, e a causa do  desmaio da jovem, e recriminou-se por isso.  Abraçou-a.
- Perdoa-me. Não precisas continuar, não quero que sofras.
- Tenho de o fazer. Não percebes que é um espinho que trago cravado no peito? Deixa-me continuar. Ao fim de quatro anos, quando o último médico aconselhou o Filipe, a esquecer os filhos biológicos e a fazer uma adoção, ele pediu o divórcio. Sofri muito. Não tinha sido traída por nenhuma outra mulher, fui traída pelo meu ventre inútil. Jurei que nunca mais me ia interessar por nenhum homem, e durante mais de três anos, consegui viver apenas para o trabalho, mas quando te conheci, esqueci todos os meus propósitos, e apaixonei-me que nem uma idiota. Espera, deixa-me ir até ao fim, - disse colocando-lhe uma mão no peito e empurrando-o ao perceber que ele se inclinava para a beijar. -Via nos teus olhos, que me desejavas, e pensei que podia ser feliz mantendo uma relação de amante contigo. Tinhas fama de mulherengo, não te ias prender, não quererias mais do que isso, e eu poderia desfrutar desse arremedo de felicidade, pelo menos até que te cansasses de mim. Era um jogo perigoso, sabia que mais cedo ou mais tarde, te ia perder, mas enganava-me dizendo que teria tempo suficiente para me habituar à ideia. Tu nunca quererias mais do que uma relação passageira, não tinhas que saber da minha inutilidade, como mulher. Mas depois daquela noite, tu disseste que me amavas, que querias casar, e eu fiquei apavorada, - concluiu com um soluço.
Ele apertou-a nos braços, e deixou um rasto de beijos no rosto molhado.



Aceito a critica de que o David entrou a matar. Mas temos que convir não foi pior do que a Daniela fez aquando do pedido de casamento. Os dois usaram a crueldade como um escudo.

6.6.17

JOGO PERIGOSO -- PARTE XX








Deu meia volta na cama, e encontrou-se com o olhar profundo de David. Sentiu que corava como uma adolescente. Ele sorriu-lhe.
Estendeu a mão, afastou-lhe uma madeixa de cabelo da cara e puxou-a para si.
- Dormiste bem?
-Sim. 
- Estava a observar-te. Dormias serenamente e estavas tão bonita. És uma mulher fantástica, inteligente e muito apaixonada. Foi a noite mais feliz da minha vida. Quero dormir e acordar contigo o resto da minha vida.
Afastou-se tensa. Saltou da cama e envergonhada reparou que estava nua. Puxou o lençol e enrolou-se nele. A sua voz soou fria ao perguntar:
-Que queres dizer com isso?
David ficou atônito com a reação dela. Sentou-se na cama, sem se preocupar com a sua nudez.
- Que quero dizer? Que havia de querer dizer senão que te amo, que desejo casar contigo, e partilhar contigo o resto dos meus dias? Pensei que isso tinha ficado mais que evidente ontem à noite.
Arrancando forças ao desespero que a invadia, respondeu com  desfaçatez:
-O que aconteceu ontem, não tem nada a ver com amor. Foi o aplacar de um intenso desejo sexual irreprimível.
Sentia as palavras como facas retalhando-a, mas não podia fraquejar, mesmo que se sentisse a morrer por dentro.
Viu como os olhos masculinos escureciam, e o rosto empalidecia.
- Queres dizer que para ti, foi só o aplacar do desejo sexual? Que aquilo que vivemos não teve nada a ver com sentimentos? Que podia ter acontecido com outro qualquer? Usaste-me, porque estava à mão?
Começou a vestir-se furioso. Daniela sentia-se destroçada. Não conseguia vê-lo assim. Não depois de o ter conhecido como o conhecera nessa noite. Não depois de descobrir que estava apaixonada por ele. Mas não podia recuar. Não queria iludir-se para ser abandonada mais tarde, quando ele descobrisse a sua esterilidade.
- Desculpa, não sabia que te ias sentir ferido. No fim de contas, sempre viveste rodeado de belas mulheres, deves estar habituado a esquecê-las na manhã seguinte.
- Enganas-te. Nunca pedi a uma mulher que casasse comigo. Nem nunca dormi na cama de nenhuma mulher, apesar de ter tido muitas. Com quem passava algumas horas agradáveis, do dia ou da noite, desfrutando do que me ofereciam, mas sempre voltava à minha cama, onde dormia sozinho. Mas isso agora não interessa. Aconselho-te a comprares um vibrador. Há modelos muito interessantes. Para não correres o risco de meteres na tua cama algum psicopata, quando voltares a ter desejos irreprimíveis,  – disse com raiva, e saiu atirando com a porta.
Ela atirou-se para cima da cama e chorou como nunca o tinha feito na sua vida.






Pronto! Eu não disse que isto estava a ir depressa demais?  E agora? Como é que vamos resolver isto? Alguém tem uma ideia?


24.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE III


Quando o pai morreu, já havia mais de um ano que Daniela estava à frente da empresa. O irmão desistira da sua ideia de ir para África por causa da saúde precária do seu progenitor. Mas quando ele partiu, voltou à ideia de deixar tudo e ir para África.
Uns meses antes tinha realmente tentado vender-lhe a sua parte da empresa. Ela recusara pensando que assim mantinha o irmão por perto. Era o único familiar que tinha, a mãe morrera ainda eles eram pequenos, e o pai fora pai e mãe dos dois. Daniela casara aos vinte e quatro anos completamente apaixonada. Mas para o marido, uma mulher apaixonada não chegava. Ele queria perpetuar-se na descendência. Ela não engravidava. Então começou a andar de médico em médico, de tratamento em tratamento, num calvário que durou quatro longos anos, ao fim dos quais todos os médicos eram unanimes em dizer que ela era estéril, e que o casal deveria procurar a adoção, como solução para o seu desejo de serem pais. O problema foi que Felipe não queria ser pai adotivo. Ele queria ser pai biológico. E assim resolveu pedir-lhe o divórcio, descartando-a como coisa sem préstimo.
Daniela ficou arrasada. Sofreu a desilusão, chorou a morte dos seus sonhos. Chorou dia e noite tudo o que havia para chorar. E depois levantou a cabeça e decidiu levar a vida pra frente. Dedicou-se inteiramente à empresa. Tinha trinta anos quando o pai adoeceu e deixou tudo nas suas mãos.
Um ano mais tarde o pai morreu deixando a empresa em quotas iguais para os dois filhos. E ela assumiu a direção e continuou o trabalho do pai, enquanto o irmão continuava a exercer a profissão, de médico. A medicina, e os seus doentes era tudo o que lhe interessava. Não se importou. Mergulhava no trabalho, era uma boa forma de esquecer a sua tragédia pessoal, e a sua descrença nos homens e no amor.
Uns meses atrás, o irmão tentara vender-lhe a sua parte do negócio. Precisava dinheiro para ir para África e montar um pequeno consultório, onde pudesse atender os mais necessitados.
Ela não levara muito a sério a proposta e tentara dissuadi-lo dessa ideia. Desde aí nunca mais soubera dele, até aquela manhã, quando o advogado do novo sócio a procurou com toda a documentação relativa à transação.