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20.6.22

MEDO DE AMAR - PARTE XXI

 


Quando o carro parou à porta de casa da jovem, Fernando saiu do carro e acompanhou-a à porta, mas quando ela se voltou para lhe estender a mão, ele passou-lhe uma mão pela cintura, atraiu-a a si e baixando a cabeça beijou-a.  Foi um beijo suave, cheio de ternura, não o beijo apaixonado que gostaria de lhe ter dado, todavia ele sabia que que se queria ter sucesso na difícil tarefa de ganhar o seu coração tinha que ter paciência. Por isso soltou-a.

-Até amanhã. Não te peço que sonhes comigo, mas pensa com carinho em tudo o que te disse.

Esperou que ela entrasse em casa e só então virou costas e dirigiu-se ao seu automóvel.

Laura entrou em casa e encontrou-a às escuras e em silêncio, sinal de que os seus filhos e os avós já dormiam.  Subiu as escadas, mas antes de entrar no seu quarto, passou primeiro pelo quarto de Miguel, depois pelo de Sara. Depois de verificar que os filhos dormiam tranquilamente, entrou então no seu quarto e dirigiu-se à casa de banho onde trocou a roupa que vestira, pelo pijama, escovou os dentes e os cabelos, apagou a luz e foi para a cama.

Estava cansada, tinha que se levantar cedo, mas apesar disso levou muito tempo para adormecer, relembrando tudo o que acontecera naquela noite.  Principalmente tudo o que Fernando lhe dissera e o beijo que mal lhe aflorara os lábios, mas que apesar disso não conseguia esquecer.

E pela primeira vez desde há mais de três anos, esqueceu da sua habitual conversa com o falecido antes de adormecer.

Apesar de ter adormecido tarde, acordou cedo. Saltou da cama, tomou o duche matinal, vestiu-se, prendeu o magnífico cabelo loiro num carrapito. Não se maquilhou, há anos que não o fazia a não ser para um jantar especial, ou no casamento do irmão, apenas passou um corretor para atenuar as olheiras que denunciavam a noite mal dormida.

Saiu do carro e dirigiu-se à cozinha a fim de preparar os pequenos almoços. Pouco depois os pais juntavam-se-lhe.

Depois de comer um iogurte e engolir uma chávena de café, Laura deixou os pais a comer e foi chamar a filha. Depois foi acordar o filho, vestiu-o, calçou-o, e levou-o para a cozinha a fim de lhe dar a taça de cereais que ele costumava comer de manhã.

Três quartos de hora depois estavam todos prontos para saírem de casa. Laura disse aos filhos que se despedissem dos avós que iam para casa, depois meteu o filho na sua cadeirinha e enquanto Sara se sentava ao lado do seu irmão, Laura abraçava os pais e recomendava ao pai que não exagerasse na velocidade e à mãe que telefonasse assim que chegassem a casa pois ficava em cuidado.

Terminou desejando-lhes boa viagem, entrou no seu carro e acenando um último adeus, pôs o carro em movimento dirigindo-se primeiro à creche para deixar o filho e depois à Escola a fim de deixar a filha. Olhou o relógio. Tinha que abrir a clínica às nove, não sabia se conseguiria chegar a horas. Tudo dependia da intensidade do trânsito. Provavelmente no dia seguinte teria que sair de casa uns dez minutos mais cedo.

25.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIII


Quando Fernando chegou para levar as crianças à escola, já se tinha decidido.

- Bom dia! -saudou ele

- Bom dia, - respondeu. Entra, vieste mais cedo, hoje. As meninas estão a acabar o pequeno-almoço. Queres beber um café, enquanto esperas?

-Aceito, obrigado. Tenho uma notícia para a Matilde.

- Aconteceu alguma coisa? Tiveste notícia dos noivos? - perguntou assustada enquanto fechava a porta atrás dele que já se encaminhava para a cozinha.

- Não, descansa, não é nada grave. O Sérgio ligou-me ontem à noite. A Sofia tinha acabado de dar à luz um rapagão com quase quatro quilos.

- Meu Deus, outro menino. E ela tinha tanta esperança que desta vez fosse uma menina.

- Queres dizer que eles não sabiam que era um menino? Ela não fez ecografias?

- Fez. Mas o bebé estava sempre em má posição e o médico nunca conseguiu ver. E toda a gente lhe dizia que quando é assim, é menina! Deve ter sido uma desilusão.

-Pois ele pareceu-me muito feliz, quando me deu a notícia.

- E tenho a certeza que a Sofia também estará. Na verdade, o desejo de qualquer mãe ou pai, é que o seu bebé seja perfeito e saudável.

Tinham parado no corredor, e preparavam para entrar na cozinha quando Matilde saiu, seguida da prima.

-Olá! Que fazem vocês aí a bichanar no corredor? Aconteceu alguma coisa com os meus pais? – perguntou preocupada.

-Não, - respondeu a tia. O Fernando estava a contar-me que o teu tio Sérgio lhe ligou, a informá-lo de que já tens mais um primo.

- Outro rapaz? Coitada da tia Sofia! Queria tanto uma menina! Bom, tio Fernando, esperas um pouco, enquanto nós vamos lavar os dentes e buscar as mochilas?

- Claro Matilde não te preocupes. Enquanto isso vou aceitar o café que a Laura me ofereceu. Temos tempo, eu hoje vim mais cedo.

Enquanto elas se dirigiam à casa de banho, os dois entraram na cozinha. Laura tirou do armário uma chávena que encheu com o aromático café e colocou-a na mesa em frente dele.

-Bebes só o café, não queres comer nada?

- Não, obrigado!

- Tens consultas de manhã?

-Não. Vou ter uma vídeo conferência com outros psiquiatras de várias partes do mundo, sobre o desenvolvimento de novas doenças mentais e quais as melhores terapias. Porquê?

- Porque decidi aceitar a tua proposta, e tencionava ir esta manhã ao teu consultório, se os meus pais ficarem com o Miguel.

-Mas é claro que podes ir na mesma. A Diana está lá e põe-te ao corrente de tudo. Fico muito feliz com a tua decisão. Custava-me ter de recorrer à empresa de trabalho temporário, e ter que trabalhar com uma desconhecida.

Naquele momento as duas adolescentes apareceram à porta da cozinha.

-Já estamos prontas, tio Fernando. Podemos ir quando quiseres.

Ele levantou-se e encarou-as.

- Claro, quando eu ganhar o meu beijo das duas princesas.

Rindo elas beijaram-no, e depois fizeram o mesmo com Laura e os três encaminharam-se para a porta da rua, seguidos pela dona da casa.

-Juizinho, - recomendou-lhes antes que entrassem no carro. Elas voltaram-se e atiram-lhe um beijo na ponta dos dedos entrando no veículo em seguida e fechando a porta.

Logo de seguida o carro arrancou suavemente. Laura ficou na porta até vê-lo entrar na estrada e desaparecer. Só então fechou a porta e voltou à cozinha.

 

28.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXIX




- Vamos guardar as tuas coisas? - perguntou Nuno estacionando o carro uma hora mais tarde frente a um moderno edifício. 
Pegou na maleta, entraram no átrio e subiram no elevador, até ao primeiro piso. Nuno abriu a porta, e deu passagem à jovem fechando a porta atrás de si.
Encostou a mala à parede, e pegando-lhe na mão, disse:
- Vem conhecer a casa. Aqui temos a sala, é aqui que passo algum do meu tempo livre, ouvindo música ou vendo televisão.  Ali ao canto é a zona de refeições não tenho uma divisão específica para elas, como nunca recebo visitas, acabo sempre por comer na cozinha.
Voltaram ao vestíbulo onde ele apanhou a mala dela e abriu a porta em frente  mostrando um quarto, onde a enorme cama de casal se destacava..
-Aqui é o quarto principal, - disse pousando a mala dela  ao lado da cama - É o único com casa de banho integrada.   Mandei fazer-lhe  algumas adaptações na cabine do duche, para me facilitarem a vida. Agora vem conhecer o resto da casa. No vestíbulo abriu outra porta.
- Aqui, é o escritório e biblioteca. É aqui que tenho os meus livros de medicina, que leio ou estudo, e que comunico com médicos de outros países, sobre as mais recentes descobertas científicas. Tenho mais duas divisões,- disse fechando a porta do escritório. Abriu outra em frente - Este como vês, é um ginásio, com os aparelhos necessários ao tipo de exercícios que preciso, - fechou a porta e abriu a seguinte, - e aqui o quarto de hóspedes  que nunca foi usado, vivo aqui há pouco tempo.  A porta ao lado é uma casa de banho, e a porta mais à frente, é o meu laboratório como verás em seguida. 
- E não tens cozinha? - perguntou Luísa espantada
- Claro que sim, -  disse ele rindo. Chamo-lhe o laboratório porque gosto de me entreter a inventar receitas, nos meus tempos livres.
Abriu a porta e Luísa entrou na cozinha, maravilhada com o seu tamanho e funcionalidade.
- A casa é toda ela muito bonita. Mas  esta cozinha então, é o sonho de qualquer mulher. A minha casa como sabes é muito antiga. Fiz obras e modernizei a cozinha, mas é pequenina como viste.
Voltou-se e ficou presa nos braços dele, que estava mesmo atrás de si. Nuno inclinou a cabeça e os seus lábios aprisionaram a boca feminina, num beijo que se queria doce, mas que a paixão transformou num beijo intenso. A sua língua invadiu a boca feminina, com a mesma paixão de outrora. Ela levantou os braços, acariciando-lhe a nuca. As mãos de Nuno passeavam pelo corpo feminino, ora acariciando-lhe os seios através do fino tecido do camiseiro, ora descendo às ancas. Os seus corpos, procuravam-se como atraídos por um íman. Por fim, Nuno largou-a e voltou-se. Luísa percebeu que tinham voltado os seus receios. Pegou-lhe na mão e disse:
- Se tens algum carinho por mim, se ainda me desejas, vamos para o quarto. Agora. Acabemos de vez com esta agonia, que nos consome. Porém se não me queres, se não me desejas, diz-me e eu vou-me embora agora mesmo.
- Se não te quero? És a única mulher que amei em toda a minha vida. Meu Deus, nunca desejei nada com tanta intensidade na minha vida, como te desejo.
-Então vem.
Entraram no quarto, entre beijos apaixonados, Nuno começou a despi-la, sempre procurando nos olhos femininos algum sinal de medo ou rejeição. Porém Luísa, não sentia medo, sabia que o homem que a acariciava era incapaz de lhe fazer mal.
Completamente nua, deitou-a na cama dizendo:
- Dá-me uns minutos, enquanto vou à casa de banho, retirar a prótese.
Recostada nas almofadas, Luísa viu-o regressar uns minutos mais tarde, apoiado nas duas canadianas, o rosto pálido, os belos olhos escrutinando o rosto feminino, temeroso do que ela pudesse estar a sentir. Ela sorriu-lhe. Um sorriso terno, amoroso, de quem acolhe alguém que ama, e lhe dá as boas-vindas. Mais confiante, ele retribuiu o sorriso. 


12.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXX





Nunca a semana da Páscoa foi vivida de forma tão intensa por Helena e pela sua família. 

Matilde estava nas nuvens por finalmente conhecer o pai e por ele ser um homem tão bonito e simpático. "avó, sabes que conheci o meu pai? E que ele quer casar e viver connosco? Nunca mais me vou sentir inveja das minhas amigas porque elas têm pai e mãe e eu não. É verdade,"- disse ao ver a cara de surpresa da avó, a quem Helena ainda nada tinha contado, pois fora imediatamente ao quarto da filha quando chegara.

-Ainda não contaste aos avós? - perguntou Matilde olhando a progenitora.

- Não, filha. Acabei de chegar. Agora porque não te levantas e vais dar um passeio com os teus primos? Depois temos que ir ao posto médico para ver esse penso. Lembras--te do que o doutor Nuno disse? 

Deu um beijo na filha e saiu do quarto acompanhada pela mãe que parecia ter perdido a fala de tão surpreendida que estava. 

Pouco depois, já na cozinha, Helena punha a mãe a par de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias, desde que Matilde tinha ido para o hospital e Gonçalo a vira até ao que ele lhe tinha contado no dia anterior.

- E agora, Helena? Decerto aceitaste o pedido de casamento do rapaz.

- Não. A mãe não compreende, ele não se lembra de mim, nem do que vivemos. Quer casar por uma noção de honra arreigada no seu espírito, relativamente à filha. Mas ele pode reconhecê-la, dar-lhe o seu nome e ser o pai dela sem que seja obrigado a um casamento sem amor. 

- Não entendo Lena. A Matilde viveu quase treze anos sem pai. E agora queres que ela viva essa alegria apenas pela metade, como se fosse filha dum casal divorciado?

-E que outra coisa posso fazer, mãe. Casar com um homem que me conheceu há dois dias, que nada sabe de quem sou, dos meus sonhos e desejos?

- Um homem que amaste ao ponto de te entregares a ele, e que terás continuado a amar estes anos todos apesar de pensares que ele era um cafageste. E não me venhas dizer que o esqueceste, porque se assim fosse terias casado há dez anos quando o Roberto Martins te pediu em casamento. 

O rapaz é jeitoso, tinha um bom emprego no banco, é filho de amigos nossos e até queria perfilhar a Matilde. Foram dois anos de muita insistência. E o que é que nos  dizias quando eu, a Rita e a Sofia te aconselhávamos a aceitares o  rapaz? Não serias capaz de aceitar um casamento sem amor. 

- E é por continuar a pensar assim que não posso aceitar este casamento, a mãe não entende? O que importa que eu continue a amá-lo se ele não me ama? Se para ele sou alguém que conheceu há oito dias?  A história de que alguém ama por dois é muito bonita para ser cantada, mas completamente irreal na vida.

- O que eu sei, é que vocês viveram uma intensa paixão e a tua filha é a maior prova disso.  Se a vida vos afastou na altura, talvez seja porque eram muito novos e talvez esse amor não tivesse futuro com ambos sem saberem bem o que queriam. 

E se o destino vos juntou de novo agora, por alguma razão foi. De resto, tu estás solteira, ele também, ambos já passaram a casa dos trinta, e o tempo não para. Se ele quer casar, casa-te e dá à tua filha a família com que sempre sonhou. É o que qualquer mãe faria.

-Talvez seja. Mas para além de ser mãe, eu sou mulher. E depois do que vivi naquele mês, não posso contentar-me com um casamento por dever.

- Às vezes penso que a minha neta encara a vida com muito mais realismo do que tu. Não sei a quem é que tu sais, nem eu nem o teu pai tivemos algum dia a cabeça cheia de sonhos como tu. E sabes que sempre fomos felizes juntos. Quantas vezes pensas que teu pai me disse que me ama? Cem, duzentas?

 Pois fica sabendo que mo disse uma única vez, antes de casarmos. E eu preciso que ele mo diga? Para quê se eu vejo o amor que me tem cada vez que me olha? E se em tudo o que faz, está patente esse amor? Eu sei que ele me ama de corpo e alma, e ele sabe que é retribuído da mesma forma.

Sabes que mais? Vai ver onde andam as crianças, o almoço está quase pronto, o teu pai não tarda está aí.  E pensa bem no que fazes, para não te arrependeres depois.     



12.3.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE IX




Pôs-lhe a mão no ombro e empurrou-a suavemente para a porta.
Sofia, estava espantada. Não só pelo que Quim acabara de lhe dizer, mas pelo jeito dele, pela maneira como a tratava.  Era afável, cordial, preocupava-se com ela, tinha-a deixado descansar. Tão diferente do comportamento dos homens da sua aldeia, para quem os sentimentos das companheiras pouco ou nada importavam. 

 Até ao momento, não parecia lembrar-se que era seu marido. Não procurara nenhum tipo de intimidade. E se por um lado isso a deixava menos constrangida, por outro não deixava de lhe parecer estranho.
Entraram no carro e ele disse:

- O carro não é meu. É do tio, comprou-o para as suas deslocações na procura de novos fornecedores. Mas atualmente já não se sente seguro para conduzir. Daí que seja eu quem anda com ele. São ótimas pessoas, embora às vezes pareçam um tanto inconvenientes. Ficaria feliz se fosses simpática com eles.

-Disseste-me que são como teus pais. Como tal os tratarei, e respeitarei,  fica descansado, - respondeu um tanto agastada pela recomendação.
- Desculpa não quis ofender-te, disse estacionando o carro no parque, e voltando-se para ela, acrescentou:
- O restaurante está cheio, mas a nossa mesa está reservada. Vamos primeiro 
 lá acima, cumprimentar a tia Délia.

Ela saiu e olhou à volta com curiosidade. Depois encaminharam-se para as escadas que davam acesso ao primeiro andar. Realmente a casa devia ser muito espaçosa, pois ocupava todo o espaço por cima do restaurante. 
- Julgava que a tua tia também estava a trabalhar.
- Não. A tia é uma mulher muito doente, só sai de casa para as idas ao médico.

Abriu a porta, e deu-lhe passagem.
Dirigiram-se a uma sala, onde se encontrava uma senhora idosa.
Estava sentada no sofá, com as pernas estendidas apoiadas num pequeno banco. Não parecia ser alta, era magra, e a sua pele branca apresentava-se cheia de sulcos. O cabelo completamente branco, estava preso num carrapito.

-Olá tia. Como te sentes hoje? - perguntou Quim curvando-se para depositar um beijo na testa enrugada da idosa. E acrescentou de seguida:
- Trouxe a Sofia para te cumprimentar.
A anciã cravou nela os seus pequenos olhos, mirando-a da cabeça aos pés.

19.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XIX


Ele apertou-a nos braços e curvando a cabeça apoderou-se da sua boca, num beijo intenso e apaixonado, que a deixou tonta de felicidade.
- Achas que isto é um beijo de irmãos, Isabel?
- Não sei, não consegui perceber. Importas-te de repetir?
Ele não se fez rogado.                   


*********************************************************************




Algumas horas depois. 

Estavam os dois deitados. Com um dedo, ele contornava o desenho da boca dela.
- Desculpa Isabel.
-Porquê?
- Sei que todas as mulheres sonham que a sua primeira vez, seja algo muito especial. Desculpa desiludir-te. Porque não me disseste que ainda eras virgem? 

- Deves compreender que não era nada que me orgulhasse. Devia ser a única virgem no país aos vinte e seis anos. 

-A virgindade não é essencial na mulher que se ama. O essencial, são os seus  sentimentos. Mas também não é algo de que a mulher se deva envergonhar, como parece ser o caso na atualidade. Saber que me escolheste, para viver contigo esta experiência única, faz-me sentir um ser especial. O único receio, é que não tenha correspondido às tuas expectativas.  

- Não te preocupes. Estou muito feliz. Valeu a pena, ter esperado dez anos, por este momento sublime. Amo-te. Sempre te amei, desde a primeira vez que te vi. Mas tenho que te confessar uma coisa, - sorriu ao vê-lo erguer-se sobre o cotovelo numa atitude expectante. - Ainda não tinha jantado quando chegaste, e estou a morrer de fome.

Hélder  saltou da cama.
-Vou já à cozinha, ver o que se pode arranjar para resolver a situação. Não quero que a minha dama, morra de fome. Tenho planos para ela, bem mais interessantes.
Simulou uma vénia.  Ela soltou uma risada. Depois perguntou:

-Vais assim?
- Assim como? – perguntou por sua vez, mirando a sua própria nudez, para perguntar com ar de menino travesso.- Há alguma coisa de errado comigo? Não gostas do fato?
Saiu rindo, enquanto Isabel emocionada, acariciava o anel, que ele lhe enfiara no dedo, horas antes, quando a pedira em casamento.


FIM



Elvira Carvalho 


Gente a minha nova história ainda só tem 10 capítulos. Por isso e porque a maioria dos leitores atuais, não andava por aqui há quatro anos, vou fazer mais uma reposição. Peço desculpa aos mais antigos, que já a conhecem.
Entretanto a minha consulta de ontem para tirar os pontos do olho, foi cancelada. Recebi mensagem a dizer para aguardar carta com nova data.

25.6.20

ISABEL - PARTE XXXII




foto do google

O jantar decorreu animado. O coração foi-se aquietando, e aos poucos Isabel foi-se soltando e a conversa decorreu com  naturalidade. Descobriram que tinham muitos gostos em comum. Nos filmes, na literatura e na gastronomia. A certa altura ele propôs:
- Vamos tratar-nos por tu? Parece estranho continuar com o você…
- Que até já nem se usa, - disse ela rindo.
E o jantar continuou entre animada conversa.
- Agora tenho que ir, - disse Isabel algum tempo depois do jantar.
Luís pagou a conta e desceram juntos para o piso inferior. 
- Não me ofereço para te levar, porque não tenho carro, - disse ele enquanto se encaminhavam para a saída. - Como já te disse estou na cidade há pouco tempo e ainda não comprei.
- Eu estou com carro. Queres que te deixe nalgum lado?
- Não. Vou caminhar um pouco. Dás o teu número de telefone?
Ela abriu a mala e tirou um cartão, da firma.
- Fax e  telefone são da firma, mas o telemóvel é o meu número.
- Não tenho comigo nenhum cartão, - disse ele. Tens onde escrever?
Ela retirou uma pequena agenda da mala, e anotou o número que ele lhe ditou.
Saíram do edifício e já no parque, ela estendeu-lhe a mão dizendo:
- Agora tenho mesmo de ir.
Ele segurou-a, e olhos nos olhos, puxou-a para si. Abraçou-a.
Isabel sentiu as pernas a tremer. Tanto que receou não se segurar de pé. 
Sentindo o beijo eminente, baixou a cabeça, fazendo com que os lábios masculinos apenas roçassem a sua testa, enquanto o seu íntimo se revoltava, amaldiçoando-a pela falta de coragem.
O homem sentiu-lhe o corpo tremente. Percebeu-lhe a emoção. Se fosse mais jovem, teria-lhe-ia levantado o queixo e forçado o beijo. Mas Luís tinha quarenta e cinco anos, e nessa idade, um homem já não se preocupa tanto com a satisfação imediata dos seus desejos. Preocupa-se mais com as emoções da alma. Ele sabe que o resto vem por acréscimo. Soltou-a.
Ela entrou rápida no carro e arrancou. Ele ficou ali largos minutos fazendo dançar o cartão entre os dedos. Depois encaminhou-se para a estação do metro que o levaria de regresso à sua nova casa, pensando completamente desconcertado.
"Que raio de sentimento é este que me inibe, e ao mesmo tempo me deixa ansioso como um adolescente?"
Em casa Isabel revivia os acontecimentos dessa noite e chegava à conclusão que  tinha contado praticamente toda a sua vida pessoal e profissional, a  Luís se limitara a ouvir e pouco falara sobre ele, continuando assim a ser um quase desconhecido.
De uma coisa ela tinha a certeza. Estava irremediavelmente apaixonada por aquele homem. Como nunca estivera em toda a sua vida. Já não era uma menina. E, se como dizia Amélia,  "a vida é como brisa de verão em fim de tarde,  passa rápida e poucos dão por ela". Um dia destes acordava e a brisa tinha virado vento de inverno, derrubando-a como folha morta. Decidiu-se.  Se houvesse uma hipótese de ganhar o amor de Luís, ela iria lutar por consegui-lo. Assim Deus lhe desse coragem!

                                               


22.5.20

ISABEL - PARTE VIII

                                         Estátua do rei D. Sebastião
                                                    Foto minha


Nessa mesma tarde, perto das seis, Isabel saiu de casa com intenção de dar um último passeio pela baixa da cidade. O dia, que de manhã ameaçara chuva, apresentava agora um céu limpo, onde reinava um sol intenso.
Vestia uma saia calção, de algodão azul-marinho e uma blusa branca do mesmo tecido, com um decote na diagonal que deixava a descoberto um dos  ombros. O cabelo castanho apanhado mostrava a forma longilínea do pescoço.
Óculos escuros, escondiam-lhe os olhos sem tirar encanto a um rosto onde se destacava a boca pequena e bem desenhada. Desceu a rua Cândido dos Reis em direção ao centro histórico, passou pela Praça Gil Eanes, onde um turista se deixava fotografar junto à polémica estátua do rei D. Sebastião da autoria do escultor João Cutileiro, lançou um breve olhar à estátua humana, que do outro lado, aguardava que alguém deitasse na caixa uma moeda, para esboçar um breve agradecimento e aliviar ainda que momentaneamente o corpo da incomoda imobilidade.
Seguiu por entre esplanadas até ao mercado municipal, e aí atravessou a Avenida dos Descobrimentos e foi sentar-se num banco sob a sombra de uma frondosa palmeira, junto ao canal. Encantava-se com aquela enorme avenida que corria desde o início da cidade, ao longo da ribeira de Bensafrim, até ao forte Pau da Bandeira, onde se juntava ao mar. 
Pela ribeira, que naquele sitio mais parecia um canal, passavam constantemente barcos, dos mais variados tamanhos e origens.
Grandes e luxuosos iates, que pertenciam aos turistas e se dirigiam à marina, barcos de turismo que fazem a ligação Lagos – Sagres - Lagos, traineiras que saíam ou chegavam da pesca, e os pequenos barcos a motor, sempre cheios de turistas para uma curta viagem até à Ponta da Piedade, cujas grutas marinhas e formações rochosas, são o orgulho da cidade.
Isabel retirou da bolsa um livro e tentou concentrar-se na leitura. O livro "Tsunami!" de Richard Martin Stern, contava a história de um oceanógrafo que descobriu, uma plataforma rochosa abaixo da superfície do oceano Pacífico que está prestes a desmoronar-se o que provocará uma onda aterradora e de dimensão  gigantesca  capaz de destruir por completo a cidade de Encino Beach, no sul da Califórnia. O problema é que tudo parece demasiado calmo e ninguém quer acreditar no cientista, que luta com todas as forças para convencer as pessoas a abandonar a cidade antes do desastre, sabendo que a cada hora que passa o tempo encurta e a tragédia aproxima-se.
 A leitura era interessante, mas a atenção de Isabel aos poucos foi-se afastando,  até que a memória mergulhou de novo no passado. Ultimamente recordava demasiadas vezes o passado. Não sabia porquê, mas que acontecia era um facto.
Lembrou aquela tarde em que disse aos pais que queria trabalhar. E pouco tempo depois estava a trabalhar numa papelaria. Mas o trabalho, não chegava para apagar na memória e no coração a angústia pelo que tinha acontecido. Decidiu estudar. Matriculou-se num curso nocturno. Era uma boa aluna. Terminou o Secundário. Seguiu-se a faculdade. Ela sempre gostara muito de publicidade e era muito criativa. Na hora da escolha decidiu-se pelo curso de Marketing, Publicidade e Relações Públicas. O fim do Curso foi o último dia em que teve os pais junto de si.
Fechou o livro. Olhou à volta e reparou no homem que um pouco mais à frente observava qualquer coisa na água. Encontrava-se de frente para a ribeira, com um pé em cima da muralha e a mão apoiada no joelho. Vestia calça de ganga e uma camisa branca. 
Isabel não conseguiu ver-lhe o rosto voltado para a marina, mas qualquer coisa nele lhe despertou a atenção e pensou que a figura não lhe era totalmente estranha.          

24.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XV







Naquele domingo, Eva levantou-se cedo, mas não saiu de casa. Estava decidida a ter uma conversa séria, com André. Tentava entender as razões da mudança de comportamento dele, mas não encontrava nenhuma. Estava desesperada. Ela já tinha visto um filme semelhante com Alfredo, e sabia como tinha acabado. Toda a segurança que julgara sentir naqueles três meses de sonho, se evaporara.
Tomou banho, vestiu uns calções brancos, e um top azul-claro. Apanhou o cabelo num rabo-de-cavalo, e calçou umas sandálias sem salto.
Eram dez horas, quando ele apareceu na cozinha. Vestia calças de ganga pretas e um polo vermelho justo, que punha em evidência a sua impressionante figura.
- Bom dia. Não saíste hoje? - perguntou
-Pois, parece que não. Dava-te jeito que tivesse saído? Porquê, André? O que foi que aconteceu entre nós? Pensei que éramos amigos. Que podia confiar em ti. E de repente parece que recuei no tempo. Estou a viver o mesmo pesadelo. Interrogo-me a cada momento, se vou acabar de novo, numa mesa de jogo.
Crispou-se o rosto masculino.
- Não te atrevas a comparar-me com o teu falecido marido, - disse com raiva, dando dois passos e agarrando-a pelos ombros.
- Não? Então explica-me a diferença, - desafiou-o.-  Porque a sensação que eu tenho, é que estás a agir exatamente como ele.
Largou-a. Deixou cair os braços ao longo do corpo, e virou-lhe as costas.
- Não posso. Não agora. Tens que confiar em mim, – disse com voz rouca.
- Deus é testemunha que o desejo de todo o coração, - disse encostando o rosto às costas dele, e passando-lhe os braços à volta do peito. Sentiu o tremor do corpo masculino, o retesar dos músculos e teve a certeza de que não lhe era indiferente. Então porque fugia dela? Eram os dois livres e adultos. E ela desejava-o.
De súbito, ele voltou-se, apertou-a contra si e beijou-a. Um beijo intenso, urgente e sôfrego, como se quisesse arrebatar-lhe a própria alma. As mãos masculinas, inquietas, percorriam-lhe o corpo, em suaves e precisas carícias, que acordavam e faziam vibrar o corpo feminino.
-Quero fazer amor contigo, “cara mia” – sussurrou-lhe enquanto lhe mordiscava o lóbulo da orelha, uma mão apertando-a contra si, a outra acariciando-lhe a pele sob o top.
- Sim, André, sim – gemeu ansiosa.
Então pegou-lhe ao colo e levou-a para o seu quarto.



Informando: Tive uma consulta telefónica com a minha médica hoje, Segunda-feira por causa do que aconteceu na Sexta-feira. Ela está convencida que se tratou de uma vertigem provocada pelo não diretamente pela crise do refluxo tido durante a noite, mas pela má noite e falta de descanso que as dores me provocaram. 
Disse que o desequilíbrio, as coisas a andar à roda e o falta de força nas duas pernas, fazem crer tratar-se disso. Disse-me que ficaria preocupada, se a falta de força fosse só numa das pernas. De qualquer modo disse-me os sinais a que devia estar atenta, além de medir a Tensão Arterial diariamente, falta de força num dos lados, problemas de visão, náuseas, vómitos,  etc. Estou certa de que ela tem razão. 
Obrigado a todos pelo vosso cuidado.

1.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XX


Um sorriso rompeu no rosto materno, tão luminoso como um raio de sol em dia de chuva. Ela ergueu a mão, e acariciou-lhe os cabelos, com a mesma ternura com que o fazia em criança, quando o filho procurava a sua cumplicidade, nalguma travessura.
- Vai descansar, filho. Já é tarde e tens que levantar cedo. A viagem até S. Pedro é longa. 
Obedecendo, o jovem levantou-se, e dando um beijo na face enrugada, murmurou:
- Boa noite, mãe. Durma bem.
- Deus te abençoe meu filho. Que os anjos velem o teu sono.
Ao regressar à cozinha, Maria deu-se conta de que não tinham jantado. A mesa continuava posta, esperando a hora que já passara há muito. Encolheu os ombros, guardou a janta no frigorífico, apagou a luz e foi-se deitar.


Pedro, acordou na manhã seguinte com o delicioso aroma do café invadindo-lhe o quarto. Enquanto se dirigia para o duche, os acontecimentos da noite anterior, desfilaram na sua mente, como fita em tela de cinema. Adormecera tarde e tinha a sensação de pouco ter dormido.

Deixou que a água resvalasse pelo seu corpo, como se fosse uma carícia revigorante. Depois, com o corpo envolto na toalha, iniciou o escanhoamento do rosto. Enquanto o fazia a imagem de Rita pareceu sair dos seus pensamentos, e apareceu reflectida ao lado da sua, no espelho. Fechou os olhos e imediatamente soltou um queixume. Acabara de se cortar...

Na cozinha, Maria acabara de barrar as torradas. O filho deveria estar a entrar para o pequeno-almoço, cheio de fome pois não tinham jantado. Se bem o conhecia, não devia ter dormido grande coisa. Nunca em toda a sua vida,  vira o filho apaixonado. Namoricos, quando andava na escola, sim. Tivera muitos. Era um cata-vento, muito mais interessado nos rabos de saias, do que nos estudos. Depois subitamente acalmou, e nunca mais o viu interessado em ninguém. Até à noite anterior. Aí, percebera, mais pelo seu tom de voz, do que pelas palavras pronunciadas que o seu menino deixara de o ser, e era agora um homem profundamente apaixonado. Tentou imaginar como seria aquela Rita. Seria uma boa pessoa, capaz de fazer o filho feliz? Não parecia dar muito crédito aos elogios do filho. Tinha idade e experiência suficiente para saber que um homem apaixonado fica cego para tudo, menos para aquilo que ele próprio idealiza.

- Bom dia, mãe. Hum que cheirinho delicioso – disse curvando-se para a beijar.

- Meu ou do pequeno-almoço? - questionou ela rindo.

- Os dois, mãe, os dois – respondeu rindo também.


15.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXV


Ouviu a campainha. Vestiu o casaco, pegou na mala, abriu a porta e saiu.
-Olá.- Disse ele, ao mesmo tempo que se inclinava e lhe aflorava a testa com um beijo breve.
- Foste pontual. Não me quero demorar.
- Não te preocupes, - disse abrindo-lhe a porta do carro.
- Onde vamos?
-A minha casa.
“Mau. Se ele pensava em levá-la para sua casa no intuito de uma tarde na cama, nunca lhe perdoaria”
- Não te preocupes. Confia em mim.
Era como se ele tivesse adivinhado os seus pensamentos. Chegaram a um luxuoso condomínio. Um segurança, abriu o portão e o carro rolou até se deter em frente de um bonito edifício de dois pisos.
Ajudou-a a descer, e conduziu-a pelo braço até casa. Abriu a porta, e desviou-se para lhe dar passagem. Quase de uma forma inconsciente fechou a porta com o calcanhar. Teresa, não se atrevia a falar. Deixou que lhe despisse o casaco, e a conduzisse à sala.
Pegou num comando e fez correr o reposteiro que cobria a enorme janela, inundando a sala de luz. Ela viu que estava numa divisão de grandes dimensões. Reparou na parede coberta de livros, atrás de um dos sofás. No móvel bar, e na brancura dos enormes sofás. Em frente de um deles, uma mesa de vidro. Sobre ela um par de ténis de criança, e um álbum.
- Senta-te Tê. Trouxe-te aqui para te mostrar algo, que nunca pensei mostrar a ninguém.
Sentou-se e ele sentou-se a seu lado. Pegou no álbum, abriu-o e entregou-lho.
Ela viu vários recortes de jornal. Eram muito antigos. Leu o primeiro.
Relatava um crime. Uma mulher vítima de maus tratos, matara o marido. E tinha uma foto de um homem estendido no chão. Leu outro. Falava do mesmo crime. Sem compreender o que se passava, virou a página. E viu mais recortes. Com ligeiras variantes, mais ou menos sensacionalistas, os recortes traziam todos a mesma notícia.
Numa delas havia uma foto de criança. Dizia-se que era o filho do casal, que devia ser enviado para numa instituição estatal.  Numa outra dizia-se que a mulher aguardava julgamento em prisão preventiva, e que o filho fora acolhido por uns tios.
Sem saber o que pensar olhou para Rui.
- Eram os meus pais. Eu sou essa criança.- Disse com voz rouca.
Sentiu-se zonza. Como se tivesse levado uma pancada na cabeça. Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. O que viu nos olhos do homem, era terrível. Estendeu a mão e colocando-a sobre a masculina, apertou-a suavemente. Ele continuou
 - Por mais que me esforce, não me recordo de ter visto algum dia o meu pai sóbrio. Em contrapartida sempre me lembro de ouvir os seus gritos e o choro da minha mãe, quando ele lhe batia.

12.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXII



Noite de Sábado. Teresa acabara de deitar o filho, quando o telefone tocou. Estranhou. Não conhecia o número.
- Olá - a voz rouca surpreendeu-a. Tardou em responder.
-Ficaste sem voz?
- Não. Não, estava à espera que telefonasses.
- Tenho saudades tuas. Olha, ainda não são dez horas. Vamos sair?
- Não. Não quero sair.
- Está bem. Mas continuo com saudades. E se não te apetece sair, vou a caminho da tua casa.
- Não – quase gritou.
Ele já não ouviu. Desligara a chamada. E antes que ela tivesse tido tempo de pensar em qualquer coisa a campainha da porta tocou. Ficou a pensar que  já devia estar à porta do prédio quando telefonou.
Abriu a porta mas não lhe deu passagem.
-Estás doido? Com que direito é que me vens incomodar na minha própria casa?
- Com o direito de ser o teu futuro marido.
- És muito engraçado.
De súbito, reparou que o rosto masculino, ficava extremamente pálido, enquanto olhava um ponto atrás de si. 
Voltou-se e ficou sem ação ao ver Martim em pijama de pé no corredor.
- Quem é mamã?
- Um amigo. – caminhou até ele. – Vai para a cama filho. A mãe já lá vai dar-te um beijo de boas-noites. Agora tenho que falar com este senhor.
O homem permanecia à porta, sem se mexer. Parecia petrificado.
- Entras, ou sais? – Perguntou sarcástica
Entrou. Agarrou-lhe num braço.
 - Porque não me contaste? – Perguntou  com a voz embargada pela emoção
- Não tinhas que saber. Não é teu filho.
- Não digas disparates. Vê-lo ali assustado no corredor, foi como recuar  trinta anos, e ver-me a mim mesmo. Não tinhas o direito de mo esconder.
- Direito? Mas que direito? - Interrogou agastada. -  Lembras-te que te pedi para irmos passar o Natal à terra, com a minha família? Disseste que não podias, que eu fosse sozinha. Foi lá que descobri que estava grávida. Regressei ansiosa, para te contar imaginando que ias ficar feliz. E adivinha o que aconteceu? Encontrei a casa vazia, sem um bilhete de despedida, que me desse sequer a ilusão, de que tinha significado alguma coisa na tua vida.
- Contra isso nada posso fazer. Reconheço que  me portei como um canalha. Sei que o meu arrependimento, não te retira o sofrimento que passaste. Se te serve de consolação, devo dizer-te que nunca o teria feito, se passasse pela minha cabeça, a ideia de que podias estar grávida. Mas tinhas-me dito que tomavas a pílula.
- E tomava. Mas lembras-te que estive doente, um tempo antes e que tomei alguns medicamentos? O médico disse-me depois, que um deles pode anular o efeito da pílula, devíamos ter tomado outras precauções. Mas na altura eu não sabia.
- Ouve, quero que amanhã digas ao menino que eu sou seu pai. Quero vê-lo crescer, passear com ele, acompanhá-lo à escola. Quero fazer parte da sua vida.
- Quero, quero, quero. É só isso que sabes dizer. Como se nós fossemos mais uma empresa, uma máquina ou um carro, que te dispões a comprar.  Somos gente e sentimos como tal. Não estamos à venda.  E se eu não lho disser? E se eu não quiser que ele te veja?- Estava cada vez mais exaltada.
- Vais fazê-lo, Tê. Tenho esse direito e juro-te que o vou conseguir, nem que seja através dos tribunais. 
Apertava-lhe o braço zangado, o rosto pálido. Ela nunca o tinha visto assim.
Curiosamente a fúria dele, acalmou-a.
-Vai. Amanhã falamos. Estamos os dois nervosos, precisamos pensar com calma.
E empurrou-o para a porta.




29.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE X


Quando naquela manhã, Teresa chegou a casa de Luísa, a amiga viu logo que a noite não tinha sido benévola para ela.
Teresa, saudou Tiago e entregou-lhe o filho, de quem se despediu com um beijo e as habituais recomendações. 
Depois entrou no carro da amiga, que já a esperava para seguirem para o emprego.
- Estás pálida. Não conseguiste dormir?
Teresa que apertava o cinto de segurança, retorquiu:
- Tu dormirias se estivesses no meu lugar? Hoje mesmo vou começar a procurar emprego. Não será fácil, mas não posso continuar na “Tudilar”
- Porquê? Amaste-o tanto que ainda mexe contigo passados todos estes anos?
- Nem devias perguntar isso. Tu, melhor que ninguém, sabes que o amei mais do que tudo no mundo. Sofri muito. Não foi só o seu abandono, foi a falta de uma qualquer explicação, o que implica uma rejeição total ao meu amor e à minha pessoa. Tenho medo de não ser, suficientemente forte, para que não se reacendam sentimentos antigos. E não quero voltar a passar pelo mesmo.
- Já pensaste que pode ter casado?
- Não. Não acredito que alguém o tivesse interessado a esse ponto. Teria que ter mudado muito.
- Chegamos. Vamos lá a ver como corre o dia. Almoçamos juntas?
- Claro.
Separaram-se à porta do escritório. Teresa seguiu para o seu gabinete no outro extremo da empresa. Tirara o casaco e preparava-se para o pendurar quando o telefone interno tocou.
- Teresa? – Era a voz de Luísa
- Já tinha saudades de te ouvir – disse rindo. Até ela chegou o riso da amiga. Depois…
- Tê, ele deixou uma nota em cima da minha secretária. - Não precisava nomear quem deixara. As duas sabiam-no. - Quer todos os chefes de secção na sala de reuniões às 11 horas. Estou nervosa. Será que vai haver despedimentos?
- Não fiques. Logo se verá. Já avisaste mais alguém?
- Não. Vou fazê-lo agora. Até logo.
Desligou e ficou pensativa. Que quereria ele? Todos sabiam que a firma  estava quase na falência. Será que ele ia despedir pessoal?
Trabalhava naquela empresa, há quase seis anos. Quando lá entrou, a situação era bem diferente do que estava hoje. Havia muitas encomendas, exportavam muito, mas também vendiam bem para o mercado nacional. Depois veio a crise, as encomendas começaram a diminuir, o preço dos o materiais subiram, e a situação começou a deteriorar-se.


Peço desculpa se continuo um tanto ausente, não está fácil conseguir tempo para blogar, enquanto os problemas atuais se mantiverem. Tenham no entanto a certeza que sempre que puder estarei convosco.



30.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XX


Durante um longo minuto, o silêncio caiu sobre eles. Por fim Ana falou.
- Eu queria sentir esse amor. Queria que me ensinasses a ser feliz, e a fazer-te feliz. Mas tenho medo Simão. Um medo irracional, que me sufoca.
- E de que tens medo, querida?
- De não ser capaz de corresponder às tuas expectativas. De não conseguir fazer amor contigo, porque de repente me lembro, que somos irmãos.
- Tu sabes que não é verdade, Ana.
 – Por favor, não me interrompas. Deixa que te exponha todos os meus receios. Supõe que não dá certo. Vou perder-te para sempre, magoar os nossos pais, e isso aterroriza-me.
Com imensa ternura, contornou os olhos brilhantes, numa carícia suave.
- Já chega. Não te atormentes. Eu não tenho medo. Acredito em nós, e na força do amor. Vieste ter comigo. Sabes o que sinto e o que desejo. Só tens que decidir se vieste para ficar, e viver este amor que tenho para te oferecer, ou se te vais embora agora, e dás outro rumo à tua vida. 
Era o momento derradeiro, a última hipótese de virar costas e procurar um caminho que lhe parecesse mais seguro, ou fechar os olhos e saltar o abismo em que o medo se transformara. Lembrou-se da mãe. “Às vezes é preciso correr riscos”
Prendeu-lhe o rosto entre as mãos, e  disse baixinho:
- Fico.
Ele engoliu em seco. A emoção era um garrote que lhe sufocava a garganta. Apertou o corpo tremente nos braços, e começou a beijá-la. Lentamente, como quem saboreia um doce, foi-lhe beijando os olhos, e o rosto, até aflorar os lábios femininos. As suas mãos pareciam ter vida própria. Percorriam-lhe os braços, as costas, infiltravam-se sob a blusa, em suaves caricias que a enlouqueciam.
O beijo, tornou-se mais intenso, atrevido e urgente. Simão concentrava toda a sua energia, todo o seu amor,  toda  a sua experiência e conhecimento do corpo feminino, na tarefa única, de a levar pelos secretos labirintos da paixão, até à mágica saída, na apoteose final.
As roupas desapareceram, como por magia, e os corpos livres, uniam-se, na mais famosa dança de todos os tempos, num reconhecimento que vinha desde os primórdios da humanidade.
Mais tarde, apaziguada a loucura que os envolvera, num gesto cheio de ternura, ela tocou com a ponta dos dedos, o rosto masculino. Ele segurou-lhe a mão e beijou-os.  Simão, era um homem experiente, sabia reconhecer quando a mulher que tinha nos braços, estava com ele na entrega sublime do amor. Ana tinha estado. Tinha-se entregado de corpo  e alma. Ele sentiu-o. Mas precisava ouvi-lo da sua boca. Saber até que ponto ela tomara consciência do que acabara de acontecer, saber se conseguira matar todos os seus fantasmas. 
- E, então, querida?- Perguntou num sussurro 
- Amo-te.
- Sem medos, nem fantasmas?
- Sim
-Tens a certeza?
- Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida. É… incrível. Sei que é um lugar-comum, mas não me ocorre outra maneira de to dizer. Sinto-me a mulher mais feliz do mundo.

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