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19.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXI



Teresa levantou-se cedo nessa manhã, embora não tão cedo como antes de ficar grávida, quando chegava à pastelaria antes das cinco da manhã.
No dia anterior, quando chegara a casa extremamente nervosa por todas as emoções que sofrera desde o momento que entrara no Centro Médico até à altura em que abandonou o parque da TecnInformática, depois da longa conversa com o empresário, tomara um duche, vestira um curto pijama de algodão e bebera um copo de leite. De seguida estendera-se no sofá para um curto descanso e adormecera. Quando acordou, eram quase dez da noite.
Embora sem fome, mas pensando no bebé fez uma refeição frugal, e foi para a cama. Porém, ou por causa das horas que tinha dormido anteriormente, ou porque só naquele momento conseguisse racionalizar o que lhe acontecera, levou horas para adormecer, e o pouco tempo dormido foi cheio de pesadelos, em que se via a ter o seu filho e quando depois do nascimento pedia que lho mostrassem, a enfermeira ria-se e dizia-lhe que o bebé não era seu, e que já o entregara ao pai.
Acordou transpirada e aflita. Tomou o duche, secou os cabelos, que prendeu numa trança e vestiu-se. Correu a persiana e abriu a janela para arejar o quarto. O céu mostrava um azul brilhante e sem nuvens e o ar era ameno.
-Outro dia de calor insuportável – murmurou
Olhou o relógio. Seis e um quarto e o sol já nascera. Os longos dias de Verão, eram a sua paixão, embora o calor infernal dos últimos dias a fizessem recordar com saudade os meses amenos da Primavera.
Enquanto tomava o pequeno almoço, recordou mais uma vez, a conversa com o empresário. Surpreendera-a. Depois de tudo o que lhe tinham dito, julgara-o um homem arrogante e convencido, inflexível na sua decisão de ir para a justiça e mentalmente tentara preparar-se para um duro confronto, a fim de conseguir convencê-lo a não prosseguir as investigações e a ida ao tribunal, porém fora muito mais fácil do que pensara.
Apesar da dureza latente no empresário, e de alguns avisos da sua parte, ele mostrara-se bem mais compreensivo e confiante do que ela esperara. Todavia não podia esquecer que os dois eram pais daquela criança e os dois a queriam, pelo que teriam de tomar uma decisão o mais justa possível, e essa decisão iria fazer com que os dois tivessem de conviver. Não era de modo algum, o futuro que sonhara, quando decidira ser mãe daquela forma.
Acabou o pequeno almoço, e depois de uma passagem pela casa de banho, para lavar os dentes, fez a cama, trocou os chinelos por umas práticas sandálias sem salto, fechou a janela, correu a persiana para evitar o aquecimento do quarto, e saiu. Olhou o relógio. Quase sete e meia. A Inês só chegaria perto das nove, mas ela tinha que verificar alguns documentos antes. Pegou nas chaves do apartamento e saiu. Como a pastelaria ficava no passeio contrário, a menos de cem metros de distância do apartamento, nunca usava o carro.
Sabia que ia sentir saudades não só do trabalho na pastelaria, mas também do convívio com os clientes. Salvo um ou outro turista, a esmagadora clientela era composta por moradores da avenida e ruas adjacentes, que ela conhecia desde os tempos em que era apenas mais uma empregada.  Eram muito mais do que clientes; eram amigos a quem ela tratava pelo nome.



26.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXXIII

SEGUNDA PARTE

A fome acordou-o. A luz que chegava ao quarto, através da janela era tão suave que mal se distinguiam os objetos. Ouviu a leve e regular respiração de Isabel, que lhe deu a certeza de que dormia tranquila, e os seus olhos, já habituados à penumbra observaram-na. Dormia profundamente, a longa cabeleira dourada espalhada na almofada. Tinha o edredão puxado até ao pescoço, e o seu rosto calmo e sereno, não parecia o mesmo de horas atrás, quando a paixão os arrebatou.  Devagar, levantou-se. Estava nu e sentiu frio. Às escuras, procurou um pijama, vestiu um roupão e  dirigiu-se à cozinha. Acendeu a luz e viu as horas. Meia-noite. Não admirava que sentisse fome. Não tinham comido nada desde o almoço. O frigorífico estava recheado com tudo para que tivessem tido um excelente jantar, contudo o seu desejo fora superior à fome. Bom, não jantaram, mas podiam fazer uma ceia. Retirou do frigorífico o marisco, o bacalhau com natas, o cabrito assado, o pudim caseiro, e a mousse de chocolate, iguarias que ele tinha encomendado ao restaurante, na véspera e que tinham vindo entregar nessa manhã, pouco antes de ele sair para o casamento, e colocou tudo em cima da mesa da cozinha.
A mesa na sala estava posta. Nem faltavam velas e flores, tudo o que se deve usar num jantar romântico, tal como vira numa revista da especialidade.
O seu estômago já roncava protestando com a fome, o melhor era ir ver se acordava Isabel, para cearem.
Dirigiu-se ao quarto, ajoelhou junto da cama, e beijou-a suavemente. Ela abriu os olhos espantada, como se não se lembrasse onde estava, e ele sussurrou.
-Hora da ceia. Estou morto de fome.
Ela tentou levantar-se mas ao ver que estava sem roupa, corou e voltou a tapar-se. Ricardo levantou-se, foi buscar um robe e deu-lho dizendo.
-Espero-te na cozinha.
Ela esperou que ele saísse para saltar da cama. Enfiou o robe sobre o corpo nu e de seguida foi ao armário onde dias antes guardara as suas roupas, retirou uma linda camisa de dormir, branca, de cetim e rendas, que Natália lhe oferecera para aquela noite, foi à casa de banho, despiu o robe, vestiu a camisa e o robe por cima, lavou a cara, escovou o cabelo, e dirigiu-se à cozinha. Viu os diversos pratos em cima da mesa, e perguntou:
-Estás a pensar comer tudo isso?
-Tenho fome mas não tanta – disse rindo. – Começamos com o camarão?
-A esta hora não me apetece marisco. Mas tu podes comer se te apetece.
Ele pegou na travessa de camarão, e guardou-a no frigorífico dizendo:
-Também não me apetece muito. Vou aquecer o Bacalhau com Natas, no Micro-ondas e entretanto ponho o cabrito no forno. Queres esperar na sala?
- Vou pondo a mesa se me disseres onde estão as coisas - disse, enquanto ele regulava o tempo no Micro-ondas.
- A mesa já está posta. São só dois minutos, e vamos começar.
Isabel encaminhou-se para a sala, grata por ele não ter feito nenhuma alusão ao que tinham vivido horas antes.



12.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XXI


                                                              
-Bom ainda não acabei a conversa, -disse Ricardo ao saírem do restaurante. – Queres andar um pouco por aqui, a noite está agradável, ou queres regressar e conversamos em tua casa?
-Prefiro regressar, a Natália já passou grande parte do dia com a Matilde, não quero prendê-la mais tempo do que o necessário.
Entraram no carro e minutos depois seguiam a caminho de casa da jovem. Fizeram a viagem de regresso em silêncio. Ela pensando no que ele tinha dito no restaurante, ele ensimesmado na sua ideia e na maneira de a expor de modo a convencê-la. Não lhe passara despercebido que fora a sua proposta que a fizera engasgar-se. Só não sabia se de surpresa, ou de rejeição à ideia. Não tinha sido fácil para ele tomar aquela decisão, mas agora que a tomara, queria muito que ela aceitasse, pois analisando a situação chegara à conclusão que era o melhor para a menina. 
Tinham chegado. Estacionou o carro em frente à casa dela e saiu. Isabel  também o fizera, mal ele parara o veiculo, e os dois encaminharam-se para a porta que se abriu antes que ela metesse a chave na fechadura.
- Estava a ler perto da janela, vi quando chegaram - disse Natália
-A Matilde? – perguntou a jovem.
- Dorme que nem um anjinho. Agora vou. Até amanhã.
-Até amanhã Natália e obrigada.
Ela saiu fechando a porta. Isabel voltou-se para ele.
-Entra para a sala. Já sabes onde é. Eu vou ver a Matilde e já volto.
Sentiu vontade de lhe pedir para ir com ela, mas não o fez. A criança não o conhecia, o vínculo que tinha de estabelecer com a menina,  seria demorado e teria que estar bem desperta. Entrou na sala, mas não se sentou. Minutos depois Isabel regressou. Tinha tirado o casaco, e ele admirou a figura daquela mulher que parecia tão frágil e segundo o relatório do Artur era forte como uma rocha.
-Senta-te, e diz-me então o que decidiste – disse, sentando-se num sofá.
Ele fez o mesmo no outro e inclinando-se para a frente disse:
- Bom, já sabes o que decidi, disse-o no restaurante. Penso que o melhor que podemos fazer pela Matilde, será casar-mo-nos. Tenho um bom apartamento, e uma situação financeira desafogada. Posso vender o apartamento e comprar uma casa quando ela começar a crescer, dar-lhe uma boa educação académica, prepará-la para a vida, Dirás que também o podes fazer, e a julgar pelo que fizeste com a tua irmã tenho que acreditar. Mas terás que levar uma vida de muito sacrifício. E olha para esta casa. Está a precisar de reforma, e embora por agora a possas adiar, vai chegar o dia em que terás mesmo de fazer obras.  Isso é muito caro, e não ganharás suficiente para elas e para cuidares da educação da Matilde. Não acredito no amor e tinha decidido morrer solteiro. Tu renunciaste ao casamento pela educação da tua irmã, e continuarás a fazê-lo pela Matilde. O nosso casamento seria assim como uma espécie de acordo comercial. Além do mais, depois de casados poderás requerer a adoção da Matilde e ela será legalmente filha dos dois.    
Com o nosso amor, vamos fazer dela uma pessoa feliz, e nem precisará saber das suas conturbadas origens.
-És muito generoso, - disse ela irónica. Tantas vantagens, só para mim e para a Matilde. E tu? Que exiges tu em troca de tanta generosidade?



Dois capítulos num dia?  Pois é amigos. É que eu estou muito feliz e tinha que vos contar. Meu marido não andava bem, e fez uma endoscopia há 3 semanas. Na endoscopia, o médico viu um nódulo e mandou fazer biopsia. Tenho andado com o coração nas mãos, pois como a maioria sabe, ele já teve cancro na próstata em 2010. Há meia hora telefonaram-me a dizer que tinha chegado o resultado. E o nódulo é um quisto glandular.





17.5.19

ESCRITO NAS ESTRELAS - PARTE III

Reedição



A partir daí, durante uma semana, todos os dias se falavam pelo telefone, cada um abrindo um pouco mais, a janela da sua alma para o outro.
Na Sexta-feira, da semana seguinte,  Ema anunciou que ia passar o fim-de-semana a Lisboa. Não informou quando chegaria, nem como, apenas pediu para ele ir ter com ela a um conhecido centro comercial,no sábado seguinte, local para onde se dirigia naquela manhã de Domingo.
Nessa noite, Abílio quase não dormiu de tanta excitação. O cabelo embranquecera, o rosto enrugara, mas o coração mostrava-se tão apaixonado, como se tivesse vinte anos. Abriu a velha caixa que o acompanhara toda a vida, mirou e remirou o monte de cartas amarelecidas pelo tempo, presas com um laço azul, sem saber se devia ou não levá-las para o encontro.  No Sábado perto da hora do almoço, sentiu-se mal. Tinha ido à rua buscar o pão e o jornal e de súbito, no regresso a casa, o dia escureceu de repente, o chão fugiu-lhe debaixo dos pés, sentiu que devia segurar-se a qualquer coisa, mas não foi capaz e depois de um estranho bailado acabou estatelando-se junto da porta do vizinho.
Incomodado com o barulho, este abriu a porta, e vendo o que se passava apressou-se a chamar os bombeiros que o levaram para o hospital, onde foi medicado, fez uma série de exames e ficou em observação. Sem ter como avisar Ema, temia que desiludida, ela voltasse para Braga sem se encontrarem. Finalmente já depois das dez da noite, convencidos os médicos, de que tudo não passara de um episódio provocado pela ansiedade e que não havia a temer, nenhum mal maior, foi-lhe dada alta.
Regressou a casa num táxi, e lá chegado mandou uma mensagem a Ema explicando-lhe  o sucedido. Ela respondeu-lhe que relaxasse, dormisse descansado e se encontrariam no mesmo local no dia seguinte às onze horas para almoçarem juntos.
Fosse pela resposta, ou pela medicação tomada no hospital o certo é que adormeceu rápido.
A meio da noite, sentiu que não estava sozinho. Abriu os olhos e a figura à Fernanda envolta num manto tão branco que feria os olhos, sorria-lhe junto da cabeceira da cama.  Transpirando, sentindo que estava a morrer, estendeu-lhe a mão. Mas ela não lhe pegou. Com uma voz doce, disse:
“Não meu querido, ainda não. Ainda tens um pedaço de vida para cumprir. Vim para te libertar desse remorso, que parece querer levar-te,  antes que o teu tempo se cumpra. Sempre soube que no teu coração havia outro amor. Mas nem por isso fui infeliz. Porque apesar disso, do jeito que podias e sabias, sempre me amaste, como amaste os nossos filhos, e nunca em momento algum senti que não estavas comigo. Fui muito feliz contigo, não tens que pedir perdão nem recriminar-te. Agora é hora de te libertares e viveres esse grande amor que já estava escrito nas estrelas, muito antes de eu chegar à tua vida. E quando pensares em mim, que eu seja uma doce lembrança, e não motivo de sofrimento. Agora vou, mas estarei sempre por perto para te proteger. Na brisa que te acaricia o rosto, na espuma que te molhe os pés na praia, no sorriso de uma criança no desabrochar de uma flor. Vai meu amor, vai ser feliz”
Acordou sobressaltado, com um raio de sol sobre a face. Oito horas? Mas como era possível ter dormido tanto? E a presença de Fernanda no quarto, afinal não passara de um sonho? Mas parecia tão real.
Levantou-se, tomou banho, vestiu umas calças de ganga, e uma suéter azul, uns ténis e saiu para a rua. Ia à padaria, mas antes tinha que bater à porta do vizinho para lhe agradecer tê-lo socorrido no dia anterior.
Às onze em ponto, entrou no local combinado para o encontro e o coração acelerou quando a viu. Ema tinha sessenta anos, mas não aparentava mais de cinquenta. Era uma bela mulher, e ao olhá-la, sentiu aumentar os seus receios. Sentia-se como se em vez de cinco anos os separassem vinte. Nesse momento sentiu uma impressão no rosto, como o suave roçar de uma pena, lembrou do que Fernanda lhe dissera no sonho e avançou confiante.
- Desculpa o atraso, querida. Nunca me tinha acontecido uma coisa assim- disse depositando na bela face um suave beijo.
- Esperei por ti toda a vida, - disse ela sorrindo. Mesmo quando ainda não tinha consciência disso. Que diferença faz, meia dúzia de horas mais?
Sem mais explicações, deram as mãos e afastaram-se de dedos entrelaçados.

Fim


Maria Elvira Carvalho




15.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE II





Assim que ficou só, António levantou-se e caminhou até à janela. Precisava esticar as pernas, libertar a tensão em que estivera, durante a reunião com o seu inimigo.
António nem sempre fora um homem rico. Seus pais vinham de famílias pobres, não tinham grandes estudos. O pai trabalhava nas obras, a mãe, nas limpezas em várias lojas no bairro. Ainda assim queriam dar aos filhos os estudos que eles não puderam ter. António terminara o Secundário com boas notas e preparava-se para entrar na Universidade, quando o pai adoeceu gravemente. Se o seu ordenado não era grande coisa, o subsídio de doença era bem mais pequeno. Por outro lado a mãe para poder tratar do pai, não podia sair de casa, e deixou de poder trabalhar, limitando-se a aceitar alguns trabalhos que podia fazer em casa, como levantar umas bainhas, ou pôr um fecho numas calças. Como filho mais velho, António viu-se obrigado a abandonar os seus sonhos de entrar para a faculdade e a procurar um trabalho que lhe permitisse ajudar a sustentar a casa. Foi assim que conheceu, Jorge Maldonado em cujo escritório se empregou. Tinha dezanove anos.
Um ano mais tarde, António foi assaltado quando voltava à empresa, depois de ter efetuado uma venda e ter recebido a importância que sinalizava o negócio.
O patrão não acreditou no assalto e acusou-o de ter simulado o roubo para ficar com o dinheiro.
Despediu-o e denunciou-o à polícia. O jovem foi interrogado pelos agentes de autoridade vezes sem conta, mas nunca se  desviou um milímetro do que contara a primeira vez, pois isso fora o que acontecera, essa era a verdade.
Entretanto, o pai sofreu uma violenta recidiva do AVC anterior e faleceu três meses depois. A mãe levava os dias a chorar, e os amigos deixaram de lhe falar. Por mais que António, procurasse um trabalho que pudesse ajudar na sobrevivência da família, não conseguia. Ninguém dá trabalho a uma pessoa, quando essa pessoa está a ser investigada por roubo. Desesperado, António jurou a si mesmo que um dia ainda ia ter poder suficiente para se vingar do homem que lançara sobre ele aquele estigma.
Seis meses depois, o processo foi arquivado por falta de provas.
António despediu-se da mãe e da irmã partiu para o Alentejo, onde foi trabalhar na apanha da azeitona.Quando a safra acabou, deu parte do dinheiro à mãe e com o resto partiu para a França.

Bom fim de semana

8.12.18

E MANUEL SORRIU






E Manuel sorriu
A noite aproximava-se quando o comboio chegou à cidade alemã de Colónia. Desceram muitos passageiros, entre eles um homem e uma mulher que ficaram parados na plataforma como que perdidos. Fazia frio e eles eram uns desconhecidos na grande cidade.
— Vamos procurar um quarto para passar a noite — disse o homem.
— Está bem — respondeu a mulher — Já não vai demorar muito.
O homem fez com a cabeça um sinal afirmativo.
Procuraram incessantemente por um quarto, mas não encontraram nenhum. O Natal estava próximo e já todos estavam ocupados. A dada altura pareceu-lhes que talvez tivessem encontrado qualquer coisa, mas eram pobres e as pessoas viam que a mulher estava grávida e não os aceitavam. A criança não tardaria a nascer. Por fim, um indivíduo, com uma garrafa de cerveja na mão, indicou-lhes um edifício, dizendo:
— Ali, ao virar a esquina, há um abrigo noturno. Quem não tem casa, pode lá dormir.
Chegados, o gerente olhou pela janela.
— Esta é uma casa só para homens — disse. — Não posso aceitar mulheres.
A jovem assustou-se e amparou o ventre com as duas mãos.
— O que foi? — quis saber o marido.
— As dores do parto começaram. Não posso continuar.
Então o gerente teve pena dela.
— Pronto, entre, então. Ali ao fundo da casa tenho mais um quarto.
Conduziu-os através do dormitório dos homens até um quartinho minúsculo. A criança nasceu ao fim de umas horas. Mais tarde, a mulher mostrou o bebé aos homens do albergue.
— Como é que vai chamar-se? — perguntou um.
— Vai chamar-se Manuel — respondeu a mãe.
Os homens admiraram-se com o nome, mas lembraram-se que a jovem viera de longe.
De repente, todos tinham qualquer coisa que queriam oferecer. Um, depois de vasculhar na mochila, tirou quatro flores de papel que ofereceu à mãe, outro foi buscar uma pele de ovelha quase nova e disse:
— Para o Manuel estar sempre quentinho.
— Espera aí — disse um outro. — Devo ter aqui algures uma manta de lã.
Procurou no seu saco de plástico e encontrou a manta. Era uma peça realmente bonita, felpuda e de um vermelho vivo.
— Para o Manuel — disse.
A esposa do gerente entrou para ver a criança.
— Do que vocês se lembram! — disse ela. — Manta, pele de ovelha e flores de papel! Do que a criança precisa é de fraldas, uns casacos de bebé e calcinhas.
— Clara, as coisas da nossa Elisabete não estão ainda na gaveta? — questionou o marido.
— É verdade, Francisco! — exclamou a mulher. — Como é que eu não me lembrei!
Correu a casa e regressou com fraldas, casaquinhos, calcinhas e com um maravilhoso gorro de bebé.
— Toma, para o teu bebé — disse à mãe.
— Olha! — disse um homem muito velho. — Acho que o Manuel sorriu.
Todos viram.
Um dos homens pegou então no realejo.
— Já não toco há muito tempo — disse. — Espero ainda conseguir.
Ouviram-se uns sons muito delicados e os homens começaram a cantar baixinho. E como o Natal estava próximo, cantaram “Noite Feliz!”.
— Agora chega — disse a mulher do gerente. — A mãe e a criança precisam de sossego.
O gerente murmurou:
— Esquisito! Os fulanos nunca estiveram tão calmos aqui no albergue como hoje!
E em seguida acrescentou:
— Não falta muito e ainda vão arranjar o boi e o burro!
Pouco depois, apagou a luz.
Mas alguns dos homens ainda ficaram acordados muito tempo e voltou-lhes à lembrança o tempo em que tinham sido crianças.
Um disse, já meio a dormir:
— É estranho que tudo isto tenha acontecido aqui. Pouca gente vai acreditar, quando contarmos.


Willi Fährmann
Folget dem Stern
München, OMNIBUS, 2004
(Tradução e adaptação)

26.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XIV


Aproximou-se perigosamente dele.  
-Que se passa contigo, Simão? O que foi que eu te fiz? Porque me odeias? Desde menina, sempre foste o meu irmão preferido. Aquele em quem confiava de olhos fechados. Depois já adolescente, eras o meu ídolo. Ficava tão feliz quando nos ias buscar à escola e nos trazias para casa. Imaginas o que choramos, eu e Matilde quando foste para Paris? O quanto nos sentimos desamparadas sem ti?
A Marta não. A Marta era muito extrovertida, tinha muitos amigos, uma legião de admiradores, primeiro na escola, depois na Universidade. Ela não deve ter sentido a tua falta. Eu e a Matilde éramos diferentes. Mais tímidas. Tínhamos um certo receio de nos juntarmos aos outros. Tu eras a nossa tábua de salvação. E deixaste-nos à deriva.
As últimas palavras foram como um lamento. Simão amaldiçoou-se em silêncio. Queria consolá-la e não o podia fazer. Se lhe tocasse, não ia resistir. 
Ela revoltou-se. Porque não dizia nada? Sentiu vontade de lhe bater:
- Porquê, Simão? Porque o fizeste? E porque o fazias hoje? Fala pelo amor de Deus. Desde quando começaste a odiar-me?
- Eu não te odeio.- A sua voz soou rouca. Pelo esforço em se conter, ou pela emoção? Ele não sabia. Do que tinha a certeza é que estava utilizando todas as suas forças para resistir à tentação de a apertar nos braços e a beijar até aquietar a angústia que lhe amargurava o coração.
- Não? Então o que é? Desprezas-me? É isso? Porquê?
“Meu Deus fá-la calar. Não aguento mais” – implorou ele mentalmente
- Não sei de onde tiraste essas ideias absurdas, Ana. Porque não vives a tua vida e me deixas em paz?
- Vês? O Simão de antigamente, nunca me falaria assim.
Ia começar a chorar. E ele não ia conseguir conter-se.
- Por Deus Ana. Deixa de remoer o passado. O tempo não passa incólume por ninguém. Todos mudamos.
Semicerrou os olhos. Não queria que ela surpreendesse aquilo que ele teimava em esconder.
De súbito ela voltou-se para a janela. Estava cansada. E muito triste. A sua vida era um desastre. Precisava de se ausentar rapidamente. Ver outras terras, conhecer outras gentes. Para não sentir aquele terrível vazio no peito.
Deixou escapar um soluço.

reedição







27.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XII





Ricardo contara tudo isto, de pé junto à janela, de costas para ela.
Sentia uma mistura de vergonha e raiva, por se ter deixado enganar, duma maneira tão infantil. Tinha sido um idiota.
Clara era uma mulher muito sensível. Teve a noção exata de quanto ele devia estar a sofrer, e resolveu interrompê-lo.
- Fala-me de Soraia. Costuma ter pesadelos com o desta noite?
- Durante uns meses teve-os diariamente. Agora já não são tão frequentes- respondeu voltando-se por fim
-Que aconteceu com ela?
-A aldeia onde nasceu foi palco de um bárbaro assalto. Como já te disse tenho estado quase sempre em missões no estrangeiro pois já por duas vezes fui destacado para o quadro da NATO e também já estive ao serviço da ONU. Há dezoito meses numa missão no Mali, encontramos uma aldeia em cinzas. Todos os habitantes da aldeia tinham sido chacinados. Quando íamos embora, um dos meus homens disse ter ouvido um choro. Não acreditei que alguém pudesse ter escapado com vida daquele inferno, mas podia ser algum animal que caísse nalguma armadilha. Ordenei-lhes que se separassem em dois grupos, e fizessem uma batida pelos arredores.
 Eu mesmo parti à frente de um dos grupos, o capitão Santos comandava o outro.
 Foi um dos meus homens que me chamou a atenção para o ruído que se ouvia por trás de uns arbustos ali perto.  Ela estava aí num buraco encoberta pelos arbustos.  Não sei a idade exata que teria na altura, mas calculamos que devia andar pelos dois anos. Também não  sabemos como fora parar naquele buraco, se alguém a escondera ali, ou se ela própria se afastara e caíra no buraco. O facto é que isso lhe salvou a vida. Quando a encontramos estava suja, faminta e desidratada. Quando lhe peguei, ela agarrou-se ao meu pescoço, como quem se agarra à própria vida. Penso que deve ter tentado sair do buraco, mas aterrorizada pelas chamas, acabou escondendo-se de novo. Isto porque ela ficava aterrorizada cada vez que via uma chama, mesmo que fosse de um fósforo, quando algum dos rapazes acendia um cigarro. 
Levei-a para o hospital onde esteve quase um mês. Ia vê-la todos os dias, e era tal a sua alegria, quando eu chegava que até o pessoal do hospital ficava impressionado. Deixei-me encantar por ela. Deves ter reparado que é praticamente da mesma idade do Bernardo. Um dia o pediatra disse-me que ela ia ter alta e iriam entregá-la às autoridades, a fim de ir para algum orfanato. Fiquei de rastos. Tinha criado com ela um vínculo de amor, não podia deixá-la para trás, abandonada à sua sorte. Perguntei ao médico, o que podia fazer para a tirar do país. "Nada - respondeu-me ele.- Só poderia fazer alguma coisa se fosse sua filha".  " E que tenho de fazer para declarar que é minha filha - perguntei".  "Com uma boa maquia, pode-se arranjar um registo de nascimento falso - respondeu-me". 
Dinheiro nunca foi problema para mim.  Não serei um multimilionário, mas tenho uma fortuna considerável. Disse-lhe que pagaria o que fosse preciso e ele mesmo me apresentou ao funcionário que arranjou o documento, inventando um nome e uma data de nascimento para ela, bem como um nome de mãe, falecida e claro o meu nome como pai. 
Portugal não tem embaixada no Mali. É o embaixador de Portugal no Senegal, que a partir da embaixada em Dakar resolve os casos de diplomacia no Mali. De posse do documento, recorri a ele, solicitando a sua mediação, para a trazer comigo. E assim  a menina foi-me entregue, e quando a missão terminou, trouxe-a comigo sem problemas já que toda a documentação dela diz que é minha filha e que a mãe já faleceu. 
- Está contigo há muito tempo?
-Como disse encontrei-a há ano e meio, e desde então estive sempre por perto, mas aqui, nesta casa, está há catorze meses. Por causa deles, estou há mais de um ano em Portugal, arranjando desculpas várias, movendo influências, para não sair  em nenhuma missão. Não podia ausentar-me e deixá-los com a Antónia. Mesmo sabendo que ela os adora. 
Tanto ela como o marido, têm uma certa idade e nenhum laço de parentesco com eles. A Segurança Social cair-me-ia em cima, e poderia perdê-los. 
Então Francisco, o meu advogado, deu-me a ideia do casamento,  para lhes dar uma mãe, que os protegesse quando eu me ausentar.

Respondendo à pergunta:
O que ando a ler? "A soma dos dias" de Isabel Allende. A seguir vou ler o último livro de Carlos Correia,  "Momentos para inventar o amor"
Filmes não vejo há bastante tempo.

20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIX






O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão.  Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
 Porém o facto de compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez que se lembrava dos sonhos.
 Continuava a pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada, amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo, onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão, e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”  
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio” responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.

23.2.18

ENTRE DUAS DATAS - FINAL


Passaram cinco anos. E também hoje é um belo dia de Setembro. Clara acordou com os primeiros raios de sol, beijando a janela. Olhou à sua volta. Ao lado da cama, num berço de vime, o seu filho dormia o sono dos anjos. Saltou da cama, tomou banho e tratou de se embelezar um pouco. Nada de especial, que mulher de pescador, anda de cara lavada. Apenas um entrançado diferente no cabelo e um vestido mais alegre. Porque para ela, é um dia especial. Chega hoje o Gazela, um velho barco da pesca bacalhoeira, e nele, vem o seu marido. Enquanto espera que o bebé acorde, Clara vai recordando como conseguiu namorar Pedro e casar com ele. Não fora nada fácil. Gato escaldado de água fria tem medo, diz o povo e com razão.
Quando ele descobriu a traição, levou dois dias sem aparecer na rua, nem no trabalho. No terceiro dia quando voltou, não comentou nada com ninguém, e não falou mais da falecida. Era um homem diferente, não já revoltado,  mas mais duro, mais duro, mais fechado, mais indiferente, como se o mundo à sua volta, tivesse deixado de lhe importar. 
Clara, que desde os bancos da escola, sonhava o seu futuro com ele, propôs-se consegui-lo. Durante os meses que o navio levou até partir de novo para os bancos de bacalhau, quantas vezes ela se sentou a seu lado e ali ficou em silêncio como se fosse a sua sombra? E depois que ele partiu, quantas cartas escreveu, para o porto de St. John's, onde se abasteciam, sem receber resposta?
Quando ele voltou, Clara estava no cais, com a velha mãe de Pedro. E foi grande a desilusão quando ele agiu como se não a visse. Mas não desistiu. O amor que lhe tinha era demasiado grande. E a sua perseverança deu frutos, dois anos mais tarde.
O bebé chorou, e ela sacudiu a cabeça, com se quisesse afastar as recordações e dirigiu-se ao berço. Mudou-lhe a fralda, e deu-lhe o peito. Acariciou a cabeça do filho, e enquanto ele se alimentava, deixou-se envolver de novo, pelas recordações. Um dia, Pedro olhou para ela, e pareceu vê-la de outra maneira. Ficou a fitá-la pensativo. O coração apaixonado de Clara ficou em sobressalto.
Uns dias depois pediu-lhe namoro. Não foi uma declaração apaixonada. Muito longe disso. Foi assim como se o homem, não visse nela a mulher, mas uma amiga, uma companheira. Alguém a quem se habituara, o único ser humano que parecia importar-se com ele, depois que a sua mãe morrera.
Clara aceitou. E teve que lutar contra os preconceitos dos próprios pais, que não viam com bons olhos, aquele namoro. Diziam eles, que um homem viúvo carrega recordações, sempre vai fazer comparações. Mas Clara manteve-se firme, contra tudo e contra todos. Confiou no seu amor, para lhe fazer esquecer as más recordações. E ganhou a batalha. Agora, - ela acreditava nisso, - Pedro amava-a tanto, quanto ela o amava. O filho acabou de mamar. Clara levantou-se, e com o filho ao colo foi até à janela.
O barco já tinha passado a ponte férrea que ligava  o Barreiro ao Seixal, e dirigia-se para o local onde ia  fundear. Clara apertou o filho ao peito, e correu para a velha ponte de madeira, que serve de cais, onde os pescadores vão desembarcar. Pelo caminho, Clara recordou aquele outro dia, cinco anos atrás. Mas que diferença entre um e outro. Hoje, Pedro, será dos primeiros a saltar para a lancha que o trará para terra. E como ela está ansiosa por o abraçar, e lhe mostrar o filhito, que ele ainda não conhece. 
E ei-lo que galga as escadas, e chega perto dela. Abraça-a fortemente, de tal modo que o menino que ela tem no colo começa a chorar. Pedro pega o filho, com lágrimas nos olhos e ar desajeitado, e a criança chora ainda mais, assustada com aquele rosto desconhecido. Clara acalma o filho, e o marido enlaçando-a murmura emocionado, como numa prece:

-Mulher...Mulher...

Amorosamente o olhar de Clara envolve o marido, e diz com emoção.

- Pedro! Meu Pedro!

Fim


Elvira Carvalho


8.11.15

FOLHA EM BRANCO PARTE XX




Acabava o sumo, quando Miguel voltou.
- Bom dia! Dormiu bem, Maria? – Perguntou, tentando ver se o nome lhe provocava alguma reacção. Mas não vislumbrou qualquer alteração no rosto da jovem.
- Bom dia Miguel. Dormi toda a noite, mas acordei com a cabeça pesada, e a boca seca.
- Efeito colateral da medicação. Tenho uma boa notícia. Consegui marcar o seu exame. Dentro de dez dias em Portimão. Vamos almoçar agora?
- Não tenho fome.
-Não se preocupe. Ela virá antes de chegarmos ao restaurante. Adélia está cá?- Perguntou de seguida
-Está lá dentro- respondeu.
-Vou falar com ela. Volto já.
Encontrou-a atarefada a limpar os vidros da janela.
- Adélia queria pedir-lhe um favor.
- Pois não, Menino.
- Como lhe disse esta manhã, a jovem que está lá dentro, está doente, toma medicação, que não a deixa acordar cedo. Por isso na próxima vez, não venha antes das dez.
-Fique descansado, Menino.
-Então, estamos combinados. Agora vamos sair. Até logo.
-Vão com Deus.
Saíram e seguiram em silêncio durante uns minutos. De súbito a jovem perguntou:
- O Miguel não tem família?
- Não, respondeu secamente como se a pergunta o tivesse incomodado.
-Desculpe. Não queria zangá-lo.
- Não me zanguei. Mas nem sempre é bom despertar lembranças.
- Quem dera que eu tivesse alguma, mesmo que não fossem muito boa, -murmurou com tristeza.
- Vá lá Amélia, não se torture. Como dizia a avó Ermelinda, não é por chorar sobre o leite derramado, que ele volta para a cafeteira.
A jovem não respondeu. Após alguns minutos Miguel quebrou o silêncio.
- Estive a pensar que tenho uma tela inacabada. Amanhã, vou voltar lá à falésia. Gostava que fosse comigo. Sente-se com coragem para isso?
Notou a contracção no rosto da jovem. E a tremura na voz quando respondeu:
-Penso… que sim.




8.9.13

ENTRE DUAS DATAS



foto da net
                                                                                 I

O dia amanhecera radioso. Era um belo dia de Setembro, quando Setembro capricha ainda por nos dar um Verão, que a pouco e pouco se vai despedindo. Quando ela abriu os olhos, o sol iluminava já a janela, como que a dizer-lhe:

- Acorda preguiçosa. Não sabes que dia é hoje? É um grande dia!

Ela sorriu. Sorriu para o sol, sorriu para o passarinho, que naquele momento passou a cantar esvoaçando pela janela do seu quarto. Levantou-se, foi até à janela e abriu as vidraças, deixando que o sol lhe beijasse o rosto moreno. Na sua frente, o rio, maré cheia, águas calmas, mais parecia um espelho, onde o céu se reflectia vaidoso. Tomou banho, vestiu a sua melhor roupa e foi acordar a irmãzita que dormia na cama ao lado da sua. Deu-lhe banho, o pequeno-almoço, e deixou-a a brincar à porta, enquanto arrumava os quartos. Pouco passava das dez, quando a pequenita gritou alvoraçada:

- Mana, já se vê o barco, já lá vem...

Correu à janela. Era verdade. Do outro lado da ponte já se via o barco. Resolveu ir até ao cais de desembarque. Porque o navio que se via ao longe era um lugre da pesca bacalhoeira, que pertencia à Seca da Azinheira. Andando devagar, com a irmã pela mão chegou até à velha ponte de madeira, que servia de cais de desembarque da Seca. Ali já se encontravam muitas mulheres, velhas e novas, bem como alguns homens idosos, e muitas crianças. Eram os pais, as mulheres, e os filhos dos pescadores, que ali tinham ido esperá-los, a fim de anteciparem de algumas horas, a visão dos entes queridos, que há mais de seis meses, haviam partido, para os mares distantes, da Terra Nova, e Gronelândia. Era assim todos os anos. Mas apesar de não ser novidade, ela ia lá sempre. E sempre se emocionava como se fora a primeira vez. Não tinha lá ninguém e tinha toda a gente. Nascida ali, conhecia todos os pescadores e a todos admirava. Alguns, mais novos, tinham andado com ela na escola, foram companheiros de brincadeiras. Depois ou por gosto, ou por falta de opção juntaram-se aos pais, ou substituíram-nos, nos navios de pesca bacalhoeira. Com custo arrastada pela irmã, cuja curiosidade a empurrava lá para a frente, chegou mesmo lá à ponta do cais. Olhou à volta sem curiosidade. Sabia o que ia encontrar. Alentejanas, algarvias, nazarenas. Algumas vinham da terra, outras à muito se tinham radicado à volta da Seca, sabendo que tinham trabalho sempre que chegavam os barcos. Todas vinham à espera de alguém. Um filho, um pai, um irmão, um noivo, um marido...


Continua

O problema do feed por agora foi resolvido. Já repararam que me faltam 15 comentários para os 12.000? Pois é.  Vamos ver quem fica com o número redondinho...


Bom fim de semana.