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6.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE III




Acordou alguns minutos mais tarde, deitada no sofá da sala de recepção, com a secretária do causídico, aspergindo-lhe o rosto, e os dois homens de pé, junto do sofá.
- Sente-se melhor? – perguntou a secretária, para acrescentar de seguida, estendendo-lhe um copo. – Beba um pouco. É água com açúcar, vai fazer-lhe bem.
Aos poucos a cor voltou ao rosto da jovem.
-Sente-se capaz de continuar? – perguntou então o advogado.
- Sim. Peço desculpa, não costumo perder os sentidos, mas a surpresa, o calor, não sei.
Levantou-se. Ainda sentia um tremor nas pernas, mas tal como Cristo no Calvário, ela também não podia afastar de si aquele cálice. Logo, era urgente que o bebesse até ao fim. Voltaram a entrar no gabinete, onde o advogado retomou a leitura do documento. Quando terminou, Eva perguntou:
- Esse testamento é legal? Quero dizer, não me refiro ao património, que o meu marido, deixou ao cavalheiro aqui ao lado. Afinal a casa era herança dele, estava no seu direito. Refiro-me à exigência de que terei que viver seis meses na casa, com uma pessoa que não conheço de lado nenhum, que não sei se é boa pessoa, ou um bandido da pior espécie. Perdoe-me o senhor, - disse sem se voltar para o homem que estava sentado a seu lado, - a minha intenção não é ofendê-lo, estou apenas a constatar um facto. É legal uma pessoa dispor em testamento da vida de outra, como se fora um objeto?
- É legal, quando uma pessoa é menor, ou ainda que seja de maioridade, se  é incapaz de sobreviver sozinha, o que, como é óbvio não é o seu caso. Mas também o é em algumas ocasiões especiais. Por exemplo numa aposta de jogo, as dívidas de jogo só podem ser revogadas pelo tribunal, o que pelo que julgo saber, é o presente caso. E assim sendo, terá que contestar o testamento e preparar-se para uma longa batalha judicial.
- Divida de jogo? Quer dizer que o meu marido, jogou e perdeu a casa e a própria esposa ao jogo? – perguntou verdadeiramente horrorizada.
- Por favor, doutor, se a nossa presença já não é necessária, eu gostaria de esclarecer os factos com esta senhora em particular. – Pela primeira vez, a voz grave e bem modelada do homem a seu lado, fizera-se ouvir.
-Preciso que me assinem estes documentos para fazer os registos. O resto,  suponho que o senhor Alfredo Magalhães, deve ter deixado tudo explicado, na carta que entreguei à dona Eva, no início desta reunião.
Assinaram os documentos, e depois de cumprimentarem o advogado, saíram do escritório. Já no elevador, ele disse:
- Não sei se tem carro ou veio de transporte público. Gostaria que me permitisse acompanhá-la a casa. Não me parece que esteja em condições de andar sozinha na rua, muito menos de conduzir um veículo.
- Que eu lhe permitisse acompanhar-me? – perguntou com ironia. – Não estará a inverter os papéis? Afinal a casa é sua, não é verdade?

9.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XI



Depois que Miguel saiu, a jovem apertou a cabeça entre as mãos, como se quisesse alcançar a memória perdida.
Quando ele mencionara o facto de poder ser seu pai, ela sentira como se uma corrente eléctrica, lhe percorresse o corpo. Era uma sensação estranha e dolorosa que ela desconhecia. Que se passava com ela? A ser verdade que tentara matar-se, como Miguel dissera, ( e não tinha razão para duvidar da palavra de um homem, que até ali se portara como um cavalheiro) que fizera ela de tão grave para desejar a morte? Ou quem lhe tinha feito tanto mal, ao ponto de a levar àquele desespero? Porque não conseguia lembrar-se  de nada? A sua cabeça era como uma folha em branco, que ela não conseguia preencher. Soltou um gemido e de novo deu livre curso às lágrimas. Mais tarde, preparou-se para dormir.
Antes de se deitar, hesitou. Fechava ou não a porta à chave? Miguel tinha mostrado ser um homem íntegro. Não podia imaginar que se aproveitasse da sua fragilidade. Não fechá-la era a prova de que confiava nele. Por outro lado ele mesmo lhe dissera para o fazer. Então decidida, deu a volta à chave e deitou-se.
Levou horas para adormecer. Por fim, cansada, entregou-se nos braços de Morfeu.
Acordou sobressaltada a meio da madrugada. Sentiu passos na sala ao lado. Depois os passos no corredor, uma porta que se abria.
Minutos depois, a porta fechava-se, os passos firmes voltaram a ouvir-se pelo corredor até à sala. Logo em seguida, apagou-se a luz e o silêncio reinou na casa. E ela voltou a adormecer
Acordou cedo. Saltou da cama e num movimento mecânico, certamente efectuado ao longo de anos, fez dançar o pé direito debaixo da cama em busca de algo. De repente lembrou que não tinha visto nas coisas que Miguel lhe comprara, uns chinelos. Ia retirar o pé, quando encalhou em qualquer coisa. Eram os chinelos do dono da casa. Enfiou-os. Eram enormes, mas à falta de melhor serviam. Vestiu o robe, rodou a chave lentamente, e saiu procurando não acordar o homem que dormia vestido no sofá.
Coitado! Esquecera-se de retirar do quarto a roupa para dormir, e ela, presa à sua dor, nem pensara nisso.



5.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE VII



                                       


Quando a jovem entrou na cozinha a comida já estava na mesa, e Miguel esperava por ela, para iniciar a refeição.
- Sente-se. Vamos comer. Confesso que estou cheio de fome.  
Estendeu-lhe um prato com uma coxa de frango assado e batatas fritas. - Se gosta de salada, sirva-se, disse apontando para a travessa de tomate, salpicada de orégãos.
A refeição foi penosa para os dois. O homem porque tentava sem conseguir, introduzir uma conversa, que pudesse levar a jovem a vislumbrar uma nesga que fosse, sobre a sua identidade. A jovem porque estava demasiado preocupada, para ter fome. Não sabia quem era, nem como tinha chegado até ali. Não sabia quem era aquele homem, nem porque estava com ele. Até aquele momento, parecia ser confiável. Tinha agido consigo como um cavalheiro. Mas seria sempre assim? E ainda que fosse, quanto tempo demoraria a fartar-se dela e a mandá-la embora? Já não era muito jovem, via-se que estava habituado a viver sozinho. Quanto tempo aguentaria uma intrusa no seu espaço? E ela? Quem era ela? Seria solteira? Casada? Porque não se lembrava de nada?  Porque não tinha documentos? Uma mulher não sai de casa, sem mala, sem documentos. Então porque ela não tinha nada? Teria sido assaltada? Isso explicaria o facto de estar sem mala. Mas, porque raio, não se lembrava de nada? Por mais que se esforçasse, só se lembrava de ter acordado na relva, junto do pintor. Era como se tivesse nascido no momento em que abriu os olhos. Teria levado alguma pancada na cabeça? Mas não.Tinha acabado de lavar a cabeça e não encontrara nenhum hematoma.
 Sentia-se desesperada. Queria que o pintor lhe dissesse alguma coisa, que lhe desse uma pista.
Mas ele dissera que ela não estava com ele, não era seu modelo, e nunca a tinha visto antes.Então, o que poderia ele dizer-lhe para a ajudar?
Terminaram a refeição e Miguel começou a retirar a loiça da mesa em silêncio.
- Deixe eu arrumo a cozinha – ofereceu-se ela.
- Estou habituado a fazê-lo, - respondeu ele, não sem uma ponta de dureza na voz, magoado com o silêncio da jovem.
Talvez ela tivesse percebido, porque disse.
- Desculpe-me. Nem sei como lhe agradecer o que está a fazer por mim. Mas acredite que me é muito dolorosa esta situação. Nem sequer sei como me chamo. Estou desesperada.
O homem caminhou até ela, acariciou-lhe os cabelos como se ela fora uma criança e disse;
- Não se preocupe. Quando menos esperar vai lembrar-se. E se isso a faz feliz, pode lavar a loiça,- acrescentou sorrindo.