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1.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXV




O quarto do doente encontrava-se quase às escuras, apesar de lá fora estar um belo dia de sol, embora frio como são os dias de Dezembro.

- Porque está às escuras? – perguntou a jovem voltando-se para o doutor Azevedo.

- Não sei. Vejo o quarto sempre assim quando o visito, e nunca me deixa abrir os reposteiros.

 Sem mesmo olhar o doente, Anabela dirigiu-se à janela e correu os pesados cortinados, deixando que a luz entrasse no quarto. Depois voltou para junto do médico e aguardou que ele a apresentasse ao doente, que se encontrava meio deitado numa cama articulada.

- Tiago, apresento-te a enfermeira fisioterapeuta Anabela Campos, que a partir de hoje, vai cuidar de ti e da tua recuperação.

- Não te chegou a experiência com as anteriores. Já te disse que não quero nenhuma enfermeira, deixem-me em paz, por amor de Deus.

-Já conversámos sobre isso, mas também já te disse, que nem eu nem teus pais, vamos compactuar com a tua autodestruição. E agora vamos almoçar. Porque não te ajudamos a sentar na cadeira e vais connosco para a mesa?

Tiago soltou uma gargalhada sarcástica e não respondeu.

Anabela fez sinal ao doutor para sair e logo que ficou sozinha aproximou-se da cama e disse:

-Sabe de uma coisa? O Tiago intriga-me. Como é que uma pessoa que sempre se notabilizou por querer melhorar a vida dos outros, não se importando de pôr a sua vida em risco, para salvar desconhecidos, não se preocupa com o mal que está a fazer aqueles que o amam? Imagina o sofrimento dos seus pais e restante família? 

Calou-se à espera de ser contestada, mas perante o silêncio do doente continuou:

Sei que fez a vida negra às enfermeiras que me antecederam e provavelmente está a pensar fazer o mesmo comigo, mas desde já o informo que a única maneira de fazer com que me vá embora, é recuperar a sua vida anterior, que é o mesmo que dizer, voltar a andar. Acredite, se os médicos dizem que o pode fazer, não me vou embora enquanto isso não acontecer, diga você o que disser. Por agora, vou deixá-lo, vou almoçar e só voltarei aqui se me chamar. Mas amanhã logo depois do pequeno-almoço começaremos com os tratamentos. Na sala ao lado se cooperar, ou aqui nesta cama se não o fizer.

Voltou-lhe as costas e preparou-se para sair.

-Feche as cortinas antes de sair, - ordenou o doente.

-Não o farei e mais, darei ordem para que sejam abertas todos os dias de manhã até ao anoitecer. E nem pense em contrariar as minhas ordens, porque tanto o Joaquim, como a mulher, foram avisados de que por agora só a mim devem obediência. 

- E se eu os despedir?

- Porquê? Porque querem o melhor para si? Seria uma injustiça que os jornais adorariam. O homem que todos admiram, o herói que o Presidente da República quer condecorar, não é mais que uma fraude, capaz de despedir empregados, porque não obedecem uma ordem disparatada.  

E sem esperar resposta, saiu fechando a porta atrás de si.

 

20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIX






O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão.  Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
 Porém o facto de compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez que se lembrava dos sonhos.
 Continuava a pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada, amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo, onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão, e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”  
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio” responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.

3.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE III


                                                     foto do google



O telemóvel tocou e Isabel estremeceu. Nunca podia estar sem comunicação, pois apesar das férias, várias vezes lhe ligavam do escritório. Isabel era  empresária, a sua firma, era uma das melhores da especialidade, e o seu trabalho  absorvia-lhe todo o tempo e energia de que dispunha. Mas ela não se importava.  O trabalho fora para ela o remédio sagrado, que evitara a perda da sua sanidade mental. Atendeu a chamada e durante alguns minutos esqueceu tudo o resto e dedicou-se apenas a dar instruções à sua assistente.
Desligada a chamada, verificou que o ar começava a aquecer e o céu embora nublado estava agora muito mais aberto. Afinal parecia que sempre vinha bom tempo para a praia. Colocou os óculos escuros e olhou para trás. A bolsa com a toalha ficara já muito distante. Tanto longe, que já nem a via. Encolheu os ombros e continuou a caminhada solitária pela praia. Reparou num homem alto que fazia a caminhada em sentido contrário e se aproximava dela. Notava-se que já não era um rapazinho mas apresentava um aspecto atlético e cuidado.
- Mais um solitário, - pensou e continuou a sua marcha.
Enquanto caminhava, deixou que as recordações aflorassem à sua mente. Mentalmente recuou um quarto de século, e viu-se de novo uma jovem de 18 anos, esfuziante de alegria e entusiasmo. Linda, apaixonada e prestes a casar com o homem amado. Lembrou a busca de casa para alugar, a escolha dos móveis, dos cortinados, os sonhos, a preparação da data do matrimónio, tudo partilhado com o namorado. Fernando era o homem amado, o homem que parecia adivinhar os seus pensamentos antes mesmo que ela os expressasse em voz alta.
O homem, avistado antes, cruzava-se agora com ela, e por breves segundos os seus olhares encontraram-se e logo se afastaram seguindo cada um o seu caminho.