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31.1.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE VII







Luísa saiu do banho e envolveu-se numa toalha. Retirou do armário o hidratante e espalhou um pouco na palma da mão direita. Sentou-se num banco e deixou que a toalha escorregasse deixando o seu corpo nu e livre. Começou a espalhar o creme de forma automática. O seu espírito estava lá no passado.  No curto noivado, e no casamento com o vizinho, que o pai lhe impusera. Luísa não gostava de Álvaro, embora ele fizesse todos os possíveis para ser simpático e delicado com ela. A farsa foi intensa, devia ter sido bem estudada. Mas a ela, sempre lhe parecera falso. Com trinta e sete anos, tinha quase vinte anos mais do que ela.
 E depois a primeira esposa suicidara-se. Diziam que fora vítima de uma grave depressão. E que o marido sofrera um grande desgosto. Mas Luísa não conseguia sentir compaixão por ele. Antes pelo contrário, de algum modo desenvolvera uma estranha aversão e um medo, cujas causas não sabia definir.  
Na época, a lei vigente no país só dava a maioridade ao individuo aos vinte e um anos. E ela fizera dezoito. Fora criada pelo pai, um homem rude, com muitas ideias retrógradas em relação ao papel da mulher na sociedade. Não havia como fugir da imposição paterna.
O casamento foi combinado entre os dois homens, para o terceiro domingo de Abril. Nessa noite Luísa chorara tanto que de manhã tinha os olhos inchados. Chorara por ela, por Nuno, pelo seu amor perdido. Se ao menos, ele não tivesse ido para África. Quem sabe, de algum modo, ele pudesse protegê-la.
Porém tudo o que chorou nessa noite, não foi sequer, uma ínfima parte do que choraria nas quatrocentas e vinte e sete noite seguintes. Mil anos que vivesse não esqueceria a sua noite de núpcias. A vergonha que sentiu, quando o marido lhe rasgara a camisa de dormir, e a deixara nua e exposta, sem qualquer ato de carinho ou compreensão com a sua pouca idade. E o medo que sentiu, quando ele tirou da gaveta umas tiras pretas e começou a amarrá-la à cama.
Mordeu os lábios afogando o soluço de terror. Como é que ela podia saber que era principalmente o choro dela, o terror, que o marido queria? Era quase uma menina.
Quando ele a penetrou de forma violenta enquanto lhe batia e lhe  chamava nomes ofensivos, ela dorida, magoada, humilhada, e ingénua ainda teve um pensamento de culpa. Pensou, que homem experiente, ele tinha descoberto que já não era virgem e se sentia enganado. E como ela também não se sentia de bem com a sua consciência por ter ocultado esse facto, tentou perdoar. Cedo porem viria a perceber que não se tratava disso. Na verdade nunca chegou a saber se ele se apercebeu desse facto, já que nunca em todo o tempo de casada fez alguma referência ao caso. O marido, era um doente, que só satisfazia as suas necessidades sexuais, através do sofrimento e da humilhação que lhe infringia. Passaram-se alguns meses, até ela perceber, que quanto maior era o sofrimento dela, maior era a satisfação dele.
Se ao menos engravidasse. Um filho podia ser um bálsamo para a sua dor. Mas ele assegurava-se de que isso não aconteceria. Ele mesmo lhe dava a pílula desde o primeiro dia para que a tomasse na sua frente e só deixara de usar o preservativo, um mês depois dela tomar a pílula. Claro se ela ficasse grávida, não poderia ser a escrava sexual que ele fizera dela.



Peço desculpa pela violência deste e do próximo capítulo. Vão perceber pelas memórias da protagonista, que embora ela nada soubesse sobre o assunto, casou com um homem que sofria de um transtorno que dá pelo nome de sadismo sexual.




19.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLVII

 


Ficou durante alguns minutos observando o seu rosto adormecido.

Apesar de haver apenas um mês que a conhecera, notava grandes diferenças entre aquela jovem frágil e pálida, com a mulher que estivera no seu gabinete quando lhe dissera que era ela quem estava a gerar o seu filho. Também não devia ser nada fácil para qualquer mulher, estar grávida de três filhos. Mas ele faria tudo o que estivesse ao seu alcance para que tudo corresse o melhor possível. E não era só pelas crianças, disso tinha a certeza. Desde a primeira vez que a viu sentiu uma emoção especial e o desejo de fazer dela sua esposa. E essa emoção intensificara-se naquele almoço em Cascais. Jamais conhecera uma mulher como ela. Nos seus trinta e quatro anos de vida, as mulheres sempre o rodearam e o tentaram conquistar, não por ele sabia-o, mas pelo seu dinheiro, pela vida que lhes podia proporcionar. Tereza não tentara seduzi-lo, não tentara tirar proveito do facto de estar grávida dum filho seu. Pelo contrário, fora logo dizendo que tinha o suficiente para dar uma boa vida a um ou dois filhos.

Naquele momento ela suspirou e mexeu-se e ele apressou-se a sair do quarto, não queria acordá-la.

Já no seu escritório, abriu a gaveta da secretária e retirou o envelope castanho que despejou em cima da mesa.  Pôs de parte a certidão de nascimento e começou a analisar as fotografias. Primeiro a mãe com ele ao colo. A expressão embevecida com que a mãe o olhava, os traços do seu rosto. Os olhos rasgados, como os seus e os de David, o rosto redondo, a boca pequena. Era a primeira vez que via uma fotografia da mãe, e chegou à conclusão que era uma mulher bonita. Depois foi olhando as restantes. Todas fotografias suas, cada uma um pedaço da sua história que de algum modo a mãe conseguira. Não acreditava que fosse o pai que lhas mandasse e se fosse a mãe da Olga, decerto esta lhe teria contado.

Também uma página de jornal com uma entrevista sobre o sucesso do seu primeiro jogo “Survive”, e vários outros recortes de imprensa que iam dando conta do seu sucesso.

Todas aquelas fotografias e recortes mostravam-lhe sem sombra de dúvida que contrariamente ao que o pai lhe fizera crer a vida toda, a mãe nunca o esquecera.

Guardou de novo tudo na gaveta sem se atrever a ler a carta da mãe. Olhou o relógio. Meia noite e dez.  No quarto onde tinha decidido que ia ficar, dirigiu-se à casa de banho, tomou um duche e enfiou um robe sobre o corpo nu. Estava habituado a dormir nu, e toda a sua roupa estava no "closet” do seu quarto onde instalara Teresa.

Com cuidado para não acordar a jovem foi lá e enfiou uns boxers sob o robe. Assim vestido voltou ao quarto e estendeu-se no sofá que havia no quarto, um pouco afastado do leito onde a jovem dormia.

Não ia deixá-la  sozinha num quarto estranho. Vamos que se sentia mal durante a noite? Uma vez que não tinha mais ninguém em casa, ele velaria o seu sono e ajudá-la-ia se fosse necessário.

E com este pensamento adormeceu.

Uma hora depois, Teresa acordou com uma necessidade premente de ir à casa de banho. Acendeu a luz da mesa de cabeceira e surpreendeu-se ao vê-lo sentado no sofá.

- Que fazes aí? – perguntou

- Velo o teu sono. Precisas de alguma coisa? Queres que te ajude a levantar?

- Por amor de Deus, João. Vai para a cama. Pese a opinião da médica, ainda sou capaz de ir à casa de banho sozinha.

- Tudo bem, não te zangues. Eu fico aqui quietinho, se prometeres que me chamas, caso tenhas alguma tontura.

- Prometo – disse Teresa levantando-se e encaminhando-se para a casa de banho, pensando que não ia manter uma discussão aquela hora da noite.

 

19.5.20

ISABEL - PARTE V


                                     Foto do google


Dirigiu-se ao aparelho e levantou o auscultador.
Do outro lado uma voz desconhecida perguntou se era a casa do senhor Fernando Cardoso, e depois de ouvir a confirmação, a voz identificou-se. Era da Polícia e perguntou se podia falar com a esposa do senhor Fernando Cardoso. Trémula, pressentindo algo grave, Isabel respondeu que era a própria.
Então, a voz informou-a que o senhor Cardoso tinha tido um acidente, e tinha sido transportado para o hospital da área da sua residência.  
Por pouco não saiu de casa a correr sem desligar o fogão, de tal modo ficou aflita.
Apesar de morar a menos de cem metros da casa dos pais, não lhe ocorreu passar por lá. Dirigiu-se imediatamente à praça de táxis e entrando no primeiro da fila pediu, para a levarem ao hospital.
Chegara ao hospital e dirigira-se correndo à recepção. Lá lhe disseram que sim, Fernando Cardoso dera entrada no hospital. A sua moto fora abalroada por um carro em despiste.  
- Aguarde um momento por favor. Vou avisar o médico que já chegou.
A recepcionista pegou no telefone interno e fez uma chamada. Depois voltou-se e disse:
Entre por essa porta à esquerda, siga o corredor e bata na quarta porta. O médico está à sua espera.
Seguiu as instruções. O coração batia desordenadamente, os olhos rasos de água, a voz presa ela sentia-se esmagada como se o mundo tivesse desabado sobre si. Bateu à porta.
- Entre – ouviu-se uma voz masculina
No gabinete encontrava-se um médico sentado atrás de uma secretária e a seu lado uma médica de pé.
- É a senhora Cardoso? - perguntou  o médico 
Incapaz de responder Isabel assentiu com a cabeça.  
- Eu sou o médico que atendeu o seu marido.  O estado dele é muito grave. Sofreu fracturas múltiplas, contusão cerebral, e hemorragia interna por rompimento do baço. Está neste momento no bloco operatório.
Vamos...
Não ouviu mais nada, sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés, e de repente tudo à sua volta desapareceu e ter-se-ia estatelado não fora a pronta assistência de um dos médicos.
Acordou estendida na marquesa, com a médica debruçada sobre si.
-A cirurgia terminou? – perguntou entre soluços.
- Ainda não. Tenha calma, a equipa de cirurgiões que está com ele é excelente e vai fazer tudo para o salvar - respondeu a médica estendendo-lhe um comprimido e um copo de água. E acrescentou:
- Vai ter que ser corajosa. As primeiras setenta e duas horas serão determinantes. O seu marido é jovem, mas não lhe podemos esconder que o estado dele é realmente muito grave. Hoje não poderá vê-lo. Deve ir para casa descansar mas não deve ir sozinha. Está muito nervosa. Podemos avisar alguém? 
 Ela não se recordava de ter dado o número do telefone dos pais, mas decerto o tinha feito já que pouco depois o pai estava no hospital, junto dela.
Também não se recordava de ter ido para casa. Decerto o calmante era bastante forte.
Apesar de continuar nublado, o tempo estava a aquecer, a praia a encher-se de gente e Isabel continuava vestida. Começava a sentir muito calor e a desejar chegar rápido junto da toalha para se despir. Passou a mão pela testa, como se quisesse com esse gesto, afastar as lembranças que a estavam a atormentar naquele dia.




24.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLII





- Mas tu és um homem famoso e muito rico. Como podes querer alguma coisa comigo? Não tenho mais que este pedaço de chão, esta casa, e a minha arte, que se me dá para viver não me deu fama, nem fortuna. Nem sequer sou uma beleza, como as mulheres com quem decerto estás habituado a conviver.
- Subestimas-te querida. Embora digas que não és uma beleza, és uma mulher muito bonita. O que acontece é que nunca te preocupaste muito com a tua aparência.  Tenho a certeza, de que bastará um pouco de maquilhagem, um novo penteado, e um tipo de roupa diferente, para que o patinho feio que julgas que és, se transforme num cisne esplendoroso, capaz de deixar qualquer uma dessas mulheres de que falas, cheia de inveja.
E para que saibas, um homem não procura só beleza na mulher dos seus sonhos, embora isso ajude muito numa primeira impressão. A minha falecida esposa, era uma mulher de grande beleza e nunca me fez feliz.
Agora chegou a hora da despedida. Conversei com a minha irmã, contei-lhe o que se passou e expliquei-lhe porque não dei notícias. E pedi-lhe para informar a polícia. Levas-me até à vila? Lá alugarei um carro que me leve a casa. Estou ansioso por ver a minha filha, mas já parto com saudades tuas.
Com dois dedos levantou-lhe o queixo e baixando a cabeça apoderou-se da sua boca, pondo naquele beijo toda a paixão que ela lhe despertara.
Ela enlaçou-lhe o pescoço e retribuiu com a mesma intensidade. Quando por fim ele a afastou, ela murmurou baixinho escondendo o rosto no seu peito.
- Faz amor comigo.
Ele afastou-a e mergulhou o olhar cheio de desejo nos doces olhos castanhos.
-Tens a certeza de que é isso que queres?
-Sim - balbuciou voltando a enlaçar-lhe o pescoço, o rosto corado, os olhos brilhantes de desejo. 
Então ele pegou-lhe ao colo e levou-a para o quarto.
Horas depois, despediam-se numa rua da vila.
-Vou manter-me em contato. E aguardar ansioso pela tua resposta.
Agora mais do que nunca, tenho a certeza dos meus sentimentos, e de que quero que faças parte da minha vida.
- Telefona-me esta noite. Quero saber como te sentes depois de reveres a família - respondeu Luísa abraçando-o.
As mãos dele afagavam-lhe os cabelos, os dedos roçando-lhe os lóbulos das orelhas. No seu olhar o desejo misturava-se com uma imensa ternura.
-Amo-te Luísa. Não te quero pressionar, mas por favor não me faças esperar muito!
Então os seus lábios desceram sobre a sua testa, num terno beijo de despedida.
Depois largou-a e afastou-se em direção a uma praça de táxis. Ela sentou-se ao volante, e ficou quieta, olhando como que hipnotizada para as costas do homem que falava com o motorista. Viu como abria a porta e a fechava depois de entrar. Viu o táxi arrancar na direção contrária em direção a Coimbra, e só quando ele desapareceu numa curva da estrada, limpou os olhos à manga da camisola, ligou o motor, fez a manobra de inversão de marcha e regressou a casa.




30.10.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE VIII




Levantou-se cedo no dia seguinte. Tomou o duche, vestiu um fato azul-escuro com uma camisola de malha de gola alta, e dirigiu-se à cozinha, onde a empregada já se aprestava para lhe fazer o pequeno-almoço.
-Bom-dia Celeste.
-Bom dia, senhor.
- Só vou beber um café. Quando volta a Maria?
- As férias dela terminam hoje. Amanhã já cá estará.
-Muito bem. Suponho que estes dias tem trabalhado além do desejado. Tenho andado tão preocupado que me esqueci de que está sozinha com todo o trabalho da casa.
- Não me queixei senhor.
- Eu sei que não. Mas hoje mesmo vou pedir à agência que me arranje uma substituta para a Fátima. E a Celeste telefone à Odete. Se ela ainda estiver sem trabalho e quiser voltar, diga-lhe que venha falar comigo.
- Assim farei. Mas se o senhor me permite, e uma vez que infelizmente dona Sara não voltará, se a Odete voltar, nós três damos perfeitamente conta do recado. A Fátima estava ao serviço exclusivo da sua esposa, como sabe, não será necessário substituí-la.
Das quatro empregadas que anteriormente tinha em casa, uma estava de férias, outra tinha casado e abandonara o trabalho. E Odete, que além de cozinheira, era uma espécie de governanta, fora despedida num dos ataques de mau humor que Sara vinha tendo nos últimos dias antes da tragédia. A casa, com os dois pisos e os seus múltiplos cómodos, era demasiado grande para uma única empregada, a pobre da Celeste devia andar derreada.
Gil acabou de beber o café, poisou a chávena em cima da mesa, pegou na pasta com o portátil e dirigiu-se à porta. Porém antes de sair, voltou-se e disse:
- Não venho almoçar, mas janto em casa.
Saiu. No ar frio que o envolveu, havia um agradável cheiro a terra molhada, fruto da chuva que caíra toda a noite.
Entrou no carro, pôs o motor a trabalhar e saindo da sua propriedade, seguiu em direção aquela que fora até agora uma das suas empresas em sociedade com o seu irmão, e que ia agora passar totalmente para ele.
Apesar da sua fortuna, Gil não esquecia as suas origens, nem os deserdados da fortuna que continuavam a existir no seu país, e especialmente no bairro onde viveu. Um dos seus grandes sonhos,  era criar uma fundação, que se dedicasse, a fazer com que essas crianças pudessem vir a ter as mesmas condições de futuro, de todas as outras. Que pudessem estudar, ou fazer uma formação profissional, que lhes permitisse terem um futuro melhor, do que aquele que os seus pais tiveram. Ele sabia que muitas dessas crianças iriam perder-se nos caminhos da droga e prostituição, se ninguém fizesse nada por elas. Algumas não chegariam sequer à idade adulta.
Anos atrás, quando ainda era um jogador de seleção, tivera conhecimento de uma fundação que se dedicava a construir escolas, abrir poços, montar pequenos hospitais, em locais remotos de África. Gil não sabia quem era o fundador dessa fundação, nem sequer sabia se era obra de um ou vários homens. Só sabia que o homem que estava à frente da mesma, mantinha um anonimato completo, e que era muito rigoroso com a admissão de colaboradores dessa obra.  Inicialmente pensara candidatar-se a colaborador nessa obra, mas depois pensou que era mais lógico que fizesse uma coisa parecida pelas crianças carentes do seu país. Não precisaria construir escolas nem hospitais, bastava dar-lhes meios para que frequentassem as que havia.
E projetara utilizar uma boa parte da sua fortuna, para realizar esse sonho. Atualmente com o êxito dos seus livros, e o excelente trabalho do seu diretor financeiro, que estudava o mercado e lhe investia parte do dinheiro sempre com excelentes resultados, a sua fortuna aumentava todos os dias. Por isso Gil achava que tinha chegado a hora de transformar esse sonho em realidade.


9.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLV


Horas mais tarde, tendo posto uma máquina de roupa a lavar, e arrumado as compras, Paula confecionou uma salada de presunto e queijo parmesão para o jantar e enquanto comia recordou a conversa com Cidália. Preocupava-a a situação da firma do pai. Apesar de nunca ter havido uma grande ligação afetiva entre eles, depois que Cidália lhe falou do grande amor que ele tinha tido pela esposa e do desespero em que a sua morte o mergulhara, começou a olhar o seu progenitor de outra maneira. Mas havia outra coisa que a atormentava. A saudade que sentia de António, o desejo quase doentio de ouvir a sua voz, de sentir o calor da sua mão, de ver o brilho dos seus olhos. Embora o negasse a todos os outros, não podia negar a si própria que se apaixonara pelo empresário. Recordou os dias em que ele esteve no Algarve e lhe telefonava todas as noites, sem ter nada de especial para dizer. E ela esperava a chamada com ansiedade. Se ao menos pudesse acreditar que realmente ele gostava dela, e que todo aquele encantamento não era apenas mais uma maneira de se vingar do pai dela.
Acabava de jantar, quando o telemóvel tocou. Admirou-se com a chamada do pai. Não se lembrava de ele lhe ter telefonado alguma vez desde que há sete anos saíra da casa paterna para morar sozinha.
-Estou…
-Boa noite Paula! A Cidália disse-me que tinhas interrompido as férias. Está tudo bem contigo, filha?
Sentiu um nó na garganta. Desde que se lembrava de ser gente não tinha memória de ter ouvido o pai chamar-lhe filha. Sempre a tratava apenas pelo nome.
- Está, não te preocupes. Estou demasiado habituada à vida agitada da cidade, a paz alentejana cansou-me.  
- Bom, fico contente que seja esse o motivo. Vou passar o telefone ao teu irmão que está ansioso por te contar as peripécias da pescaria de hoje.
-Mana, sabes que apanhei dois peixes? – perguntou o menino  eufórico.
-Ah! Sim? E eram grandes?
-Não muito. E sabes de uma coisa? Fiquei com tanta pena deles que pedi ao pai para os devolver ao mar.
- E ele devolveu?
-Pois foi. Mas parece que agora não vamos mais à pesca. É que os outros meninos também pediram aos pais para devolverem os seus peixes e alguns até choraram. Então ninguém trouxe peixes e disseram que para a próxima ficávamos em casa.
-Ó que pena!
-Pois é. Porque nós gostámos de andar no barco e até de pescar. Só que os peixinhos coitados estavam tão aflitos. Devias ver como se torciam todos, para se libertarem.
- Deixa lá, a próxima vez que o pai for pescar, telefonas-me e levo-te ao cinema.
-Que bom! És a melhor mana do mundo. E eu gosto muito de ti.
-Eu também. Mas agora são horas de ires para a cama. Dorme bem. Beijinho.
Desligou enternecida. Adorava o irmão, que pela diferença de idades podia ser seu filho. Sentiu um nó na garganta, e uma imensa vontade de chorar, ao pensar que nunca iria ser mãe. Dentro de uma semana faria trinta anos. Passara quatro anos da sua vida fazendo projetos para uma vida que a traição de Adolfo fizera ruir. Mal se recuperara desse desaire, apaixonara-se por um homem em quem não se atrevia a confiar. Decididamente não tinha sorte com a vida amorosa.


13.11.18

ESTRANHO CONTRATO -PARTE XXI




Francisca era muito bonita. A sua pele não tinha brancura da pele de Olga, a sua falecida esposa, mas nem por isso era menos bela. E era uma mulher de fibra. A maneira alegre e doce como tratava das crianças, a alma com que geria aquela casa, como tomava sobre os seus ombros todas as tarefas relativas, aos filhos para que ele não perdesse tempo, era admirável. Ele tinha muito trabalho, mas nem por isso lhe passava despercebido tudo o que se passava em casa. 
De súbito pensou que gostaria de passar os seus dedos pelo rosto adormecido. Sentir se a sua pele era tão macia quanto aparentava. 
Abanou a cabeça, como se assim expulsasse aquele pensamento inoportuno. Depois sem fazer barulho dirigiu-se à casa de banho. 
Pouco depois voltou. De pijama e chinelos, dirigiu-se à  cama e deitou-se. Apagou a luz. 
Não sabia quanto tempo dormiu. Acordou com o choro infantil.
Acendeu a luz. A porta do quarto ao lado estava aberta. Levantou-se. A cama estava vazia. Saiu para o corredor e viu que a luz estava acesa no quarto das filhas
Parou na porta. Francisca tinha Ana ao colo. Acariciava-a e murmurava palavras de conforto.
-Que aconteceu? – Perguntou em voz baixa.
- Não sei, talvez um pesadelo. Mas já está tudo bem. Não tarda a adormecer. Vai descansar.
Voltou para o quarto. Acordou às cinco da manhã. A cama no quarto ao lado continuava vazia. Levantou-se e foi ao quarto das filhas. Ana dormia profundamente, abraçada a Francisca. Fechou a porta sem fazer ruído e regressou à cama.

reedição


                                      

16.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXIX





Naquela noite, Ricardo custou a adormecer. Talvez se tivesse bebido mais uns copos, conseguisse embotar o espírito e não recordar que estava sozinho a milhares de quilómetros de casa, numa terra hostil, cujos costumes não compreendia, nem defendia, embora respeitasse, quando na sua terra, a sua família comemorava a magia daquela noite sem a sua presença.
Nunca em outras missões se sentiu tão cansado, tão solitário e com tanta vontade de regressar a casa. Decididamente, quando acabasse aquela missão ia requerer a sua passagem à situação de Reserva de disponibilidade.
Clara, tivera razão, quando lhe dissera que ele tinha que optar entre a carreira e o amor dos filhos. Ela era uma mulher inteligente e sensível. E ele estava grato ao destino por a ter posto na sua vida. Os seus filhos adoravam-na, e mesmo à distância ele via que ela os amava.
É certo que ela recebia um bom ordenado para cuidar deles. Mas se dinheiro compra cuidados não compra amor.
Antónia dissera-lhe antes da partida que Clara tinha no peito um coração amoroso, e a alma nos olhos. Francisco também lhe dizia que ela era uma grande mulher e que estava a tratar os seus filhos como uma verdadeira mãe. Mas poderia, esse coração amoroso, essa grande mulher, algum dia encantar-se por um homem como ele? Um homem amargo, desiludido com a vida e com o sexo oposto, que não acreditava no amor, a não ser claro o amor filial? Decerto que não. “Um dia interessar-se-à por alguém, mas decerto não por ti”
Acabou por adormecer. E sonhou que estava em casa, que Clara já não era apenas a sua esposa nominal, mas que eram um casal na verdadeira aceção da palavra. Ele já não estava no exército e tinha-se tornado um escritor famoso.
Acordou cedo, e graças ao sonho, poder-se-ia dizer que acordou feliz.
E logo depois do pequeno-almoço, dirigiu-se ao seu gabinete, a fim de ler o correio eletrónico.
A mensagem de Clara era muito curta. Talvez porque fora escrita já depois da meia-noite, ou porque tinham falado na véspera, ou ainda porque entendesse que o vídeo dizia mais do que as palavras.
Abriu o vídeo. E viu a sala da sua casa. A um canto da sala havia uma árvore de Natal muito bem decorada, e profusamente iluminada. Sob ela, quatro embrulhos, onde Ricardo conseguiu ler, os nomes de Bernardo, Soraia, Miguel e Nuno. Ao lado sobre uma mesa baixa, um presépio com várias figurinhas, entre musgo, e uma cabana feita de cortiça, com as imagens que simbolizavam Maria e José, um de cada lado de uma manjedoura com algumas palhas, mas sem o menino. “Decerto só o vão por ali depois da meia-noite” - pensou. Os seus filhos brincavam com dois meninos mais velhos. "Devem ser os filhos de Adelaide, que Clara disse que ia convidar para a ceia. Então ouviram-se sinos e o característico riso do Pai Natal, que entrou na sala, com um saco às costas, e logo foi rodeado pelas quatro crianças.
O Pai Natal pôs o saco no chão e tirou uma caixa, Leu o nome.
-Soraia. Há aqui alguém que se chame Soraia?
-Eu… eu, - gritou a menina puxando-lhe o casaco
O Pai Natal entregou-lhe uma caixa e seguindo o mesmo esquema entregou os outros três presentes, e de seguida disse que ainda tinha de ir levar presentes a muitos meninos e saiu.
As crianças rasgaram os papéis e ficaram radiantes com os presentes.   
Um órgão musical, uma bicicleta, um estojo de pintor com cavalete e tudo e uma bola de futebol. Decerto as prendas, que cada um desejava, a julgar pela alegria que demonstravam.
Depois Tiago pegou os embrulhos que estavam debaixo da árvore e distribuiu-os. Os meninos abriram-nos e verificaram que se tratava de roupa. Iam voltar para os seus brinquedos, mas de repente os seus filhos voltaram-se para a câmara e disseram:
-Boa-noite, pai. Temos muitas saudades tuas, -disseram soprando um beijo na direção da câmara.
 “Quem inventou que um homem não chora?”- murmurou limpando o rosto à manga do camuflado.


20.9.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE V


No seu quarto, Clara trocou a roupa que vestia por um pijama de algodão composto de calções floridos e t-shirt branca. Foi à casa de banho, escovou os dentes, soltou o cabelo e regressou ao quarto disposta a dormir. Tinha por hábito ler um pouco antes de adormecer, mas como se irritara com  Ricardo acabara por não trazer nenhum livro.
Foi até à porta que dava para o terraço. Afastou o cortinado, e olhou.
 No céu uma esplendorosa lua cheia iluminava toda a terra. “Boa noite para acampar”- murmurou pensando no irmão.
Teve vontade de sair para o terraço, mas pensou que todos os quartos deviam dar para ele, e não tinha vontade nenhuma de voltar a ver o dono da casa, naquela noite. Sim, porque apesar da aliança que ele lhe enfiara no dedo, ela nunca perdera a noção de que era apenas uma empregada, que por obrigação contratual, vivia em casa do seu patrão.
Talvez que a aliança lhe desse um estatuto especial, perante o mundo em que ele se movia, mas ali dentro daquelas paredes, era apenas a sua empregada. O contrato que ambos assinaram, era bem explícito. Ela devia proceder como sua esposa, em todos os eventos onde se fizessem representar, e deveria ser uma mãe para as crianças, acompanhando-as como tal até à sua maioridade. Depois assinariam o divórcio e ela era livre de fazer da sua vida o que bem entendesse. Aos quarenta e um anos. Era para todos os efeitos um contrato absurdo, mas tinha as suas contrapartidas. Desde logo tinha uma mesada mensal que era o dobro do que recebia no emprego anterior, tinha casa e alimentação para ela e para o irmão, que assim podia ir para a Universidade, tirar o Curso de Biologia, que era o seu sonho de menino e que ela nunca lhe poderia proporcionar. E o melhor de tudo, cuidar de crianças, era para ela que sempre as adorara, uma forma de realização pessoal. Fechou o cortinado, e deitou-se, mas o sono teimava em não chegar.
De algum recanto da sua memória, as lembranças começaram a sair em catadupa.
Viu-se bem pequenita, num baloiço do jardim, de uma grande moradia,  empurrada pelo seu pai, sob o olhar amoroso da mãe.
Tivera uma infância feliz. Seu pai era um empresário bem-sucedido, e sua mãe uma mulher muito apaixonada. Ambos se amavam muito e a amavam da mesma maneira.
Clara só tinha um problema. Era filha única, e o seu maior sonho era ter um irmão, com quem dividisse carinho e brincadeiras. Era a única menina da sua turma, que não tinha irmãos. Mas para sua felicidade até o irmão chegou, como o melhor dos presentes, três dias antes de fazer dez anos.
Porém antes de completar dezassete anos, a sua vida sofreu uma reviravolta inesperada. Por uma daquelas crises que de vez em quando assolam um país, varrendo a economia, os negócios do pai começaram a correr mal, e ele não foi capaz de travar a falência. Desesperado, sem saber como honrar os diversos compromissos com os credores, conduziu sem destino até que numa estrada montanhosa, não muito concorrida, fez com que o carro mergulhasse no vazio, acabando por morrer na explosão que se sucedeu ao embate.
Embora o coração da mãe ainda batesse, durante quase um ano, após a morte do marido, na verdade a mulher que ela fora, morrera no momento em que recebeu a notícia da morte do companheiro. Apesar da pouca idade, Clara chamou a si a tarefa de cuidar do irmão e da mãe, e ao mesmo tempo limpar o nome do pai. Começou por despedir duas das três empregadas, e por a esplêndida casa da família à venda, o carro topo de gama, que o pai oferecera à mãe pelo seu aniversário, no ano anterior, bem como algumas obras de arte onde o pai aplicara bastante dinheiro ao longo dos anos.
Claro que fora a mãe quem assinara os documentos, mas fora ela com a ajuda do advogado do pai, quem tratara de tudo.
Não foi fácil, a sua vida após a morte do pai. Com o dinheiro das vendas, pôde pagar as dívidas do pai e limpar o seu nome. Depois teve que procurar uma casa modesta para habitarem, o que não foi possível naquela zona onde os alugueres eram bastante caros.
Conseguiu arranjar um apartamento na zona de Alcântara, com dois quartos, sala, casa de banho e uma pequena cozinha.


20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIX






O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão.  Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
 Porém o facto de compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez que se lembrava dos sonhos.
 Continuava a pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada, amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo, onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão, e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”  
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio” responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.

18.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIV





O exame de ADN levaria oito dias úteis. Helena deixou no laboratório a sua morada de Lisboa e disse a Jorge, que iria embora no dia seguinte. Se o resultado do exame fosse o que os dois pensavam que era, o pai entraria em contacto com ela quando tivesse revelado à família a sua existência. Até lá podiam falar ao telefone. Disse-lhe também que gostaria muito de conhecer a sua casa, e a sua família, mas que entenderia se a família dele, não a quisesse receber. Entretanto resolveu ir ao hotel para lhe entregar as duas certidões. Elas serviriam para quando ele tivesse de falar com a esposa, e se o resultado não fosse o que esperavam, então ela não tinha qualquer direito a eles, os  documentos eram dele, e ele lhes daria o destino que entendesse.
Enquanto ela foi ao quarto, Jorge foi à receção pediu para fecharem a conta da jovem para o dia seguinte e pagou a estadia da jovem. Afinal, era por causa dele que ela viera até ali e fizera semelhante despesa. 
Quando a jovem desceu, guardou os documentos e saíram do hotel para irem almoçar.
Depois do almoço, passearam um pouco e despediram-se cerca das três horas, pois Jorge pretendia apanhar a camioneta que saía para Nelas a essa hora.
Helena ficou triste. Voltou ao hotel e já não saiu o resto do dia. À noite, depois do jantar, pediu que lhe fechassem a conta pois sairia no outro dia de manhã.
Na receção disseram-lhe que a conta já fora liquidada. O senhor Jorge Noronha pagara a conta nessa tarde enquanto ela se ausentara. Não gostou, e não ia aceitar. A conta era sua. Jorge teria tempo de lhe pagar o que quisesse, depois de saber o resultado do exame, se realmente fosse seu pai. Antes, não. Insistiu que queria pagar a conta e que devolvessem ao senhor Noronha a quantia que ele despendera. A empregada chamou o gerente.
Depois de muita insistência da jovem o gerente aceitou que ela pagasse a conta e prometeu que eles enviariam ao senhor Jorge Noronha um cheque com a importância que ele pagara.
Resolvido o assunto, e como a noite estava quente, saiu a dar um pequeno passeio. Era como uma despedida. Não sabia quando, ou se voltaria. Mas era também uma necessidade de cansar o corpo, de modo a adormecer logo que se deitasse. Ultimamente tinha dificuldade em fazê-lo. A recordação de Cláudio e dos momentos que passaram juntos em Coimbra, era cada dia mais pungente.
No dia seguinte, logo de manhã, apanhou a camioneta para Coimbra, onde iria apanhar o comboio para Lisboa. Já na estação depois de comprar o bilhete telefonou ao tio. Durante aqueles dias, fizera-o diariamente. Com exceção da noite anterior. Agora informava-o que já estava em Coimbra e da hora de chegada a Lisboa.  
Continuava a querer conhecer Coimbra, mas enquanto se lembrasse de Cláudio não voltaria à cidade. O pior, é que ela suspeitava que ia lembrar-se dele durante muito tempo.



13.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXX






- Perdoa-me, - disse apertando-a nos braços, perdoa-me por não ter reconhecido o sentimento que me despertaste, perdoa a minha incredulidade no amor, a minha cegueira. Dá-me uma oportunidade e juro-te que faço de ti a mulher mais feliz do Universo. Vamos começar de novo, como se tivéssemos casado hoje.
- Receio que isso não seja possível.
Pedro sentiu que lhe faltava o ar. Como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Não queria, nem podia perdê-la. Procurou a sua boca e beijou-a com desespero, tentando passar-lhe todo o amor que sentia.
- Por favor, Joana, não deixes que tudo acabe assim, precisamente agora que descobrimos o amor que nos une.
- Não sejas tonto. Ninguém falou em acabar, só disse que não será possível começar de novo, como se o casamento tivesse sido hoje, porque já existe alguém entre nós.
E perante o seu ar assombrado, pegou-lhe na mão e colocou-a sobre o seu ventre, olhando-o com um sorriso radioso:
-Aqui.
Pedro, o duro e implacável homem de negócios, sentiu que as lágrimas lhe corriam pela face, como quando era um menino solitário. A emoção era tão grande que não conseguia falar. Puxou suavemente a cabeça feminina para o seu peito, de modo a que ela ouvisse o bater acelerado do seu coração e entendesse a sua emoção.

 E ela entendeu.


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Três anos mais tarde…
Joana estava sentada num cadeirão, enquanto o filho brincava na carpete. Naqueles três anos muita coisa acontecera. A mãe e a tia continuavam a viver no andar de baixo, embora ultimamente passassem a maior parte do dia,  com ela, ali na sua sala, competindo entre si, para a apaparicar.
Pedro era um marido apaixonado, que cumprira a sua promessa, pois ela, Joana Teixeira Mesquita, afirmaria sem reservas que era a mulher mais feliz do Universo. Convencera-a a encerrar a sua firma, quando soube que estava grávida, coisa que na verdade ela já pensava fazer, depois do parto, pois apesar de gostar muito do que fazia, sentia que cuidar dos filhos era mais importante, naquela fase crucial na vida de qualquer criança. Talvez um dia voltasse à atividade quando os filhos crescessem. Por agora dedicava-se a aplicar o seu saber e a sua criatividade para a família. De vez em quando o marido ficava tão entusiasmado com alguma das suas criações que a incentivava, a escrevê-la. Fora assim que nascera o seu primeiro livro, a que dera o nome do restaurante onde tinham casado. Poesia dos Sabores.
Ouviu a porta a abrir-se e sorriu, com amor, enquanto André se levantava e corria para lá.
 Assim que Pedro entrou em casa com o filho mais velho, que apanhou na escola, ao sair do escritório, um menino de pouco mais de dois anos, cabelo castanho como o da mãe, e olhos verdes como os seus, veio ao seu encontro. Ele inclinou-se, pegou-lhe ao colo e beijou-o. Seguiu depois para a sala, rindo das festas que o filho lhe fazia.  
Foi encontrar a esposa, tricotando uma minúscula camisola cor-de-rosa. Sem largar o menino, beijou-a, aguardou que o filho mais velho, fizesse o mesmo e depois disse-lhe:
- Pedro, leva o teu irmão para o quarto, e vão brincar um pouco, enquanto falo com a vossa mãe. Já lá  vou buscá-lo para que possas fazer os trabalhos de casa.
Esperou as crianças saírem da sala, pegou nas mãos da esposa e ajudou-a a erguer-se. Acariciou-lhe o ventre volumoso, e perguntou:
- Já te disse hoje, que te amo?
Ela riu feliz.
-Desde que chegaste ainda não.
- Amo-te. Amo-te tanto que as horas que passo no escritório parecem-me  dias.
-É bom saber que me amas, apesar deste corpo disforme.
-É o corpo mas lindo que já vi, - disse com fervor, - e ajoelhando-se depositou um beijo na sua barriga dizendo. Este é para ti, Catarina. O pai ama-te muito e está ansioso por te conhecer.
Ergueu-se, abraçou-a e beijou-a apaixonado. Quando a soltou, disse:
-Volto já. Vou buscar o André, para que o Pedro possa fazer os trabalhos escolares. antes do jantar.
Saiu deixando-a só. Ela sentou-se. Levou a mão ao pescoço, e apertou o pequeno rubi em forma de coração, que recebera três anos atrás e do qual nunca se separava.  
E um radiante sorriso de felicidade iluminou-lhe o rosto.




FIM



Elvira Carvalho

19.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXVII







As quarenta e oito horas seguintes correram sem problemas, a paciente foi transferida para o quarto onde  o marido ou a filha, estavam praticamente o dia todo com ela. Oito dias depois, D. Arminda teve alta e regressou a casa.
 João voltou a contratar os serviços de uma enfermeira, para que a sua sogra tivesse o melhor tratamento até à sua recuperação total que andaria pelos três meses. Assim deixava Odete mais livre e sobretudo, o sogro podia retomar o trabalho sabendo que a esposa estava a ser bem tratada.
Aos poucos a vida foi retomando a normalidade, mas João começava a desanimar, pois apesar de todos os seus esforços, Odete não dava mostras de querer retomar a vida matrimonial, e ele não compreendia o que se passava, pois tinha a certeza de que a mulher o amava, e o desejava com a mesma intensidade de outros tempos. Ele sentia-o. Porém ela resistia, e ele estava a ficar desesperado.
Acabara de chegar do hospital e como era hábito ultimamente a esposa ainda não tinha regressado da casa da mãe. A senhora continuava a ter a companhia constante da enfermeira e estava cada dia melhor mas a filha passava mais tempo com ela, do que na sua casa. Às vezes pensava que ela só estava ali, pela chantagem que fizera com ela.
Sentado no sofá da sala, ouviu a chave na porta, sinal do regresso de Odete, pois a empregada só trabalhava de manhã.
- Boa tarde. Pensei que ainda não tinhas chegado.
- E eu pensei que estavas em casa. Passas demasiado tempo com a tua mãe, que tem quem cuide dela e que está quase boa.
- Queres proibir-me de a ir ver?
- Não ponhas na minha boca, coisas que eu não disse. Alguma vez te proibi alguma coisa, desde que casámos?
- Não? – Perguntou irónica.
Ele recordou a viagem de regresso de Aveiro, quando disse que não admitia encontros ou telefonemas com outro homem enquanto estivesse com ele, mas optou por não responder. Não queria de modo algum começar uma discussão. Estendeu o braço e puxou-a, fazendo com que se desequilibrasse e caísse a seu lado no sofá. Segurou o seu rosto entre as mãos e beijou-a. Não era a primeira vez que a beijava desde a sua volta. Mas desta vez não foi um beijo suave, carinhoso. Aquele foi um beijo intenso, simultaneamente apaixonado e desesperado. Ela não o repeliu. Pelo contrário devolveu o beijo com a mesma intensidade, enquanto as suas mãos acariciavam a nuca do marido, e o seu corpo se apertava contra o dele.
De súbito, o amor e a tensão sexual acumulada entre eles explodia com tal intensidade que não havia força humana capaz de os deter.



DIA 19 DE MARÇO - DIA DO PAI
Porque hoje é um dia triste, o meu pai partiu há 9 anos, não interrompi a novela para um post alusivo ao dia. Apesar disso quero desejar a todos os amigos que por aqui passam, um feliz dia.