- Perdoa-me, - disse apertando-a nos braços, perdoa-me por
não ter reconhecido o sentimento que me despertaste, perdoa a minha incredulidade no amor, a minha cegueira. Dá-me uma oportunidade e juro-te que faço de ti a
mulher mais feliz do Universo. Vamos começar de novo, como se tivéssemos casado
hoje.
- Receio que isso não seja possível.
Pedro sentiu que lhe faltava o ar. Como se lhe tivessem dado um murro no estômago. Não queria, nem podia perdê-la.
Procurou a sua boca e beijou-a com desespero, tentando passar-lhe todo o amor
que sentia.
- Por favor, Joana, não deixes que tudo acabe assim,
precisamente agora que descobrimos o amor que nos une.
- Não sejas tonto. Ninguém falou em acabar, só disse que
não será possível começar de novo, como se o casamento tivesse sido hoje,
porque já existe alguém entre nós.
E perante o seu ar assombrado, pegou-lhe na mão e colocou-a sobre o seu ventre, olhando-o com um sorriso radioso:
-Aqui.
Pedro, o duro e implacável homem de negócios, sentiu que
as lágrimas lhe corriam pela face, como quando era um menino solitário. A
emoção era tão grande que não conseguia falar. Puxou suavemente a cabeça
feminina para o seu peito, de modo a que ela ouvisse o bater acelerado do seu
coração e entendesse a sua emoção.
E ela entendeu.
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Três anos mais tarde…
Joana estava sentada num cadeirão, enquanto o filho
brincava na carpete. Naqueles três anos muita coisa acontecera. A mãe e a tia
continuavam a viver no andar de baixo, embora ultimamente passassem a maior parte do dia, com ela, ali na sua sala, competindo entre si, para a apaparicar.
Pedro era um marido apaixonado, que cumprira a sua promessa, pois ela, Joana Teixeira Mesquita, afirmaria sem reservas que era a mulher mais feliz do Universo. Convencera-a a encerrar a
sua firma, quando soube que estava grávida, coisa que na verdade ela já pensava
fazer, depois do parto, pois apesar de gostar muito do que fazia, sentia que cuidar dos filhos
era mais importante, naquela fase crucial na vida de qualquer criança. Talvez um dia voltasse à atividade quando os filhos crescessem. Por agora dedicava-se a aplicar o seu saber e a sua criatividade para a família. De vez em quando o marido ficava tão entusiasmado com alguma das suas criações que a incentivava, a escrevê-la. Fora assim que nascera o seu primeiro livro, a que dera o nome do restaurante onde tinham casado. Poesia dos Sabores.
Ouviu a porta a abrir-se e sorriu, com amor, enquanto
André se levantava e corria para lá.
Assim que Pedro entrou em casa com o filho mais velho, que
apanhou na escola, ao sair do escritório, um menino de pouco mais de dois anos, cabelo castanho como o da mãe, e olhos verdes como
os seus, veio ao seu encontro. Ele inclinou-se,
pegou-lhe ao colo e beijou-o. Seguiu depois para a sala, rindo das festas que o
filho lhe fazia.
Foi encontrar a esposa, tricotando uma minúscula camisola
cor-de-rosa. Sem largar o menino, beijou-a, aguardou que o filho mais velho, fizesse o mesmo
e depois disse-lhe:
- Pedro, leva o teu irmão para o quarto, e vão brincar um pouco, enquanto falo com a vossa mãe. Já lá vou buscá-lo para que possas fazer os trabalhos de casa.
Esperou as crianças saírem da sala, pegou nas mãos da esposa
e ajudou-a a erguer-se. Acariciou-lhe o ventre volumoso, e perguntou:
- Já te disse hoje, que te amo?
Ela riu feliz.
-Desde que chegaste ainda não.
- Amo-te. Amo-te tanto que as horas que passo no
escritório parecem-me dias.
-É bom saber que me amas, apesar deste corpo disforme.
-É o corpo mas lindo que já vi, - disse com fervor, - e ajoelhando-se depositou
um beijo na sua barriga dizendo. Este é para ti, Catarina. O pai ama-te muito e está
ansioso por te conhecer.
Ergueu-se, abraçou-a e beijou-a apaixonado. Quando a soltou, disse:
-Volto já. Vou buscar o André, para que o Pedro possa fazer os trabalhos escolares. antes do jantar.
Saiu deixando-a só. Ela sentou-se. Levou a mão ao pescoço, e apertou o pequeno rubi em forma de coração, que recebera três anos atrás e do qual nunca se separava.
E um radiante sorriso de felicidade iluminou-lhe o rosto.
FIM
Elvira Carvalho