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27.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE XIV


Laura conversou com a mãe, que se mostrou radiante por ela ter aceitado a proposta de Fernando e afirmou cuidar do neto, enquanto ela estivesse ausente.

Assim, pouco depois das nove ela chegava à clínica do psiquiatra e apresentava-se à sua assistente, que não se mostrou surpreendida pois um telefonema do chefe logo de manhã, tinha-a avisado.

Diana era uma jovem morena de estatura mediana, de olhos castanhos e sorriso fácil. O cabelo curto, era igualmente castanho, embora mais claro que os seus olhos. O seu enorme ventre, mostrava que devia estar muito perto do final da gravidez e fazia com que a jovem parecesse mais baixa do que realmente era.

Quando sorria, duas covinhas apareciam no seu rosto que parecia iluminar-se.

Laura gostou imediatamente dela.

- Já era tempo de que o doutor se decidisse a arranjar alguém para me substituir – disse. Mais um pouco e eu entraria de baixa e ele ver-se-ia na contingência de ter que ser ele a explicar o serviço. Podes ir buscar uma cadeira à sala de espera, para te sentares aqui ao pé de mim?

- Claro.

Laura fez o indicado e logo que se sentou, disse:

-Não pareces surpreendida por não vir de nenhuma agência temporária.

-Não. O doutor detestava ter de o fazer. Ele gosta de trabalhar com alguém conhecido, sente-se melhor. E eu sabia que ele te queria aqui, desde que o teu irmão lhe contou que querias regressar ao trabalho, mas não tinhas conseguido vaga numa escola aqui na cidade.

-Conheces o meu irmão?

- Como não? Os dois são tão amigos que quando comecei a trabalhar aqui, e o doutor Gonçalo passava quase sempre aqui no fim das consultas, pensei que eram irmãos. Foi há anos, o chefe já tinha a clínica e alguns clientes, embora na altura ainda fizesse serviço no Hospital de S. José.  O teu irmão tinha acabado o curso e estava a estagiar no hospital de Santa Maria. Segundo me disse deveria ter acabado o Curso mais cedo, mas um grave acidente de moto, interrompeu-lhe os estudos.                                  

Quando acabou o estágio, o teu irmão foi para um hospital no Porto, o chefe decidiu encerrar a clínica e foi para Londres, onde esteve dois anos, num hospital. Ele era na altura um homem muito amargo, eu só o sentia mais alegre, quando o teu irmão o visitava. Bom, vamos então começar?

- Claro, foi para isso que vim, - disse Laura embora tivesse gostado que Diana lhe continuasse a falar de Fernando. Na verdade, ela perdera todo o contacto com ele quando casara e viera viver para Lisboa. Na altura, ele já tinha terminado o curso, e embora já estivesse em Lisboa, ela tinha-lhe perdido o rasto.

- Aqui atrás de mim, está o ficheiro onde se guardam todas as fichas dos clientes por ordem alfabética. O chefe não usa estas fichas, ele escreve tudo no computador. Depois que as consultas acabam, tens que transcrever tudo para as fichas do doente. Isto porque pode haver uma falha do sistema, e sem uma ficha atualizada em papel, ele não teria acesso aos dados do doente.

 É a velha história, os computadores são rápidos e eficientes, mas quando o sistema falha o que salva qualquer negócio, são os registos em papel. Quando fazes a inscrição, se for a primeira vez, abres esta gaveta, tiras uma ficha destas e preenches com o nome e idade do doente. Se já é doente é só procurares no ficheiro.

- Não parece difícil.

-Nada. Tenho a certeza que é bem mais difícil preparar uma aula nova todos os dias.

25.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVIII

Afastou-se deixando-o só. Nuno olhou à sua volta. Nervoso, sem vontade de se sentar, dirigiu-se para a janela, de onde podia observar o movimento na rua. Ensimesmado, nem se apercebeu do tempo decorrido.
-Demorei? - perguntou Luísa, à entrada da sala.
- Não.
Caminhou até ela, olhando-a com admiração. Passou um braço ao redor da sua cintura, atraindo-a suavemente.
- Penso que podíamos passar o fim-de-semana, juntos. Queres?
- Sim,- respondeu trémula, sem deixar de o olhar.
- E não queres ir buscar algumas coisas pessoais?
- Não queres ficar aqui?
- Não. Prefiro o meu apartamento.
- Então vou pôr algumas roupas numa maleta.
Ele soltou-a e ela dirigiu-se ao quarto, voltando pouco depois, com uma pequena mala, que pousou no chão. Foi à cozinha fechar a torneira do gás, enquanto Nuno pegou na maleta e encaminhou-se para a porta da rua.
Saíram. Ele colocou a mala na bagageira, enquanto ela fechava a porta e se dirigia ao carro. Entrou e colocou o cinto de segurança, ao mesmo tempo que ele se sentava ao volante, e fazia o mesmo. Voltou-se para ela.
- São horas do lanche. Conheces algum sítio sossegado, onde o possamos fazer?
- Podemos ir à Padaria Portuguesa. Tem uma grande variedade de sandes em pães de diferentes massas, e se preferires bolos também não falta por onde escolher.
- É longe?
- Não. Nos segundos semáforos, viras à esquerda.
- Então vamos lá, - disse pondo o veículo a trabalhar.
Rodaram em silêncio durante alguns minutos. Depois…
- O Dinis já retomou as aulas? Tem-se portado bem?
- Sim, claro. É muito ajuizado, ou tem muito medo de voltar ao hospital. O certo é que tem imenso cuidado. Graças a Deus o avô melhorou, e a avó pode dedicar-se mais a ele.
Tinham chegado à pastelaria. Nuno estacionou um pouco mais à frente pois junto do estabelecimento não havia qualquer lugar vago.
- Acreditas que estou extremamente nervoso? – perguntou enlaçando-a, e dirigindo-se ao estabelecimento.
- Porque não havia de acreditar? Estou na mesma. Apesar disso, acredito que vai dar tudo certo. Sabes, penso que não pode ser por acaso que voltamos a encontrar-nos tantos anos volvidos e tanto sofrimento passado.
- Gostava de ter essa mesma fé, Luísa. Mas vamos em frente. Pode ser que, como diz o poeta, hoje seja o primeiro dia do resto das nossas vidas.




23.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXVII

 

Telefonou pouco antes das quatro da tarde, quando estava a acabar o turno. Ela atendeu ao segundo toque.
- Sim.
- Olá, como estás?
- Esperando…
- Estou a ligar por isso, Vou sair agora. Estás na escola?
- Ouves a campainha? As aulas estão a terminar agora.
- E vais para casa?
- Vou.
- Vou lá ter contigo. Pode ser?
- Penso que fui muito clara naquele dia, Nuno. 
- Está bem. Até já. Beijo.
Desligou sem esperar resposta.
Luísa ficou uns segundos a olhar para o telemóvel. Depois apressou-se a guardar o material que estivera a usar. Pegou na mala e levantou-se para sair, no momento em que a auxiliar entrava na sala para a limpeza da mesma.
Na saída saudou a outra auxiliar que ao portão impedia as crianças de saírem sem antes identificar o familiar que as viera buscar e entrou no carro.
Estava nervosa. Tinha noção de que algo na sua vida ia mudar muito em breve, fosse qual fosse a decisão que Nuno tivesse tomado. Dentro de dias, faria trinta e cinco anos. Alguns diriam que estava na plenitude da vida. Porém não era assim que ela se sentia.
A verdade, é que a vida teimara em ser para ela, como as bruxas más dos contos de infância. Tempos atrás, pensando que Nuno tivesse casado e fosse feliz, ela só pensava nas suas aulas, nas suas crianças, e era feliz. Mas o reencontro com o homem que sempre amou, o saber que ele não tinha qualquer compromisso de ordem amorosa, despoletou o vulcão adormecido no seu peito. As aulas, as crianças, as reuniões com as colegas, já nada lhe bastava. Ela precisava de algo mais que a completasse. Algo que ela pensou ter morrido, com a má experiência do passado, mas que renascia agora mais forte que nunca.
O que ele lhe contara no último encontro, chocara-a. Como não? Saber que uma pessoa, perde um membro por causa de uma mina, que os senhores da guerra deixaram esquecida como objeto inofensivo choca sempre. Mas isso não alterou em nada o que sentia por ele. Ou talvez sim, pois a admiração que sempre sentiu por ele era agora bem maior.
Mas e ele? Conseguiria algum dia livrar-se daquele sentimento de inferioridade, que a mina lhe deixou no lugar da perna?
Tantas interrogativas passavam pela sua cabeça, enquanto conduzia a caminho de casa. Precisavam fazer amor. Luísa sentia que era a única coisa que podia por tudo nos seus devidos lugares, para o bem ou para o mal. Só nesse momento intimo, ela saberia se o amor que sentia por Nuno, era maior do que o medo das lembranças que o acto em si, despoletaria. Acreditava que acontecesse o mesmo com ele.
Finalmente chegou ao estacionamento do seu prédio. Nuno já tinha chegado. Saiu do carro mal ela estacionou o veículo. Deu a volta ao carro, e abriu-lhe a porta.
- Olá, – disse saudando-a com um leve roçar dos lábios, pelos seus. - Tive tantas saudades tuas. Vim buscar-te. 
- Olá. Está um trânsito  infernal. Onde vamos? - perguntou abrindo a porta de casa. Sem esperar resposta, acrescentou.
- Espera-me na sala. Vou tomar um duche e mudar de roupa. Não me demoro.


Nota: Aos amigos que manifestaram o desejo de adquirir o RENASCER. O meu mail está no meu perfil.


4.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE II

 






E passaram quase seis anos. Helena, viveu com os pais, até que o filho fez dois anos, trabalhando num posto médico na aldeia vizinha. Depois achando que o filho estava suficientemente crescido para entrar numa creche, começou a enviar currículos para hospitais e clínicas da capital. 
Pensava que tinha chegado a hora de dar um pulo na profissão, quiçá concretizar o sonho da sua vida. Três meses depois, tinha uma proposta de trabalho muito interessante numa clínica privada, para pequenas cirurgias de ambulatório. Ela gostaria mais de um hospital estatal, mas a proposta era irrecusável, o horário deixava-lhe muito tempo livre, já que estava ocupada apenas da parte da manhã, e quem sabe mais tarde conseguia entrar para um hospital. Afinal ela tinha conhecimento de que havia tantos médicos que trabalhavam em hospitais e clínicas, ou consultórios particulares em simultâneo. Assim mudou-se de armas e bagagens para a capital, alugou um pequeno apartamento, arranjou uma creche para o filho e iniciou uma nova vida.
Com a falta de médicos no país, e com o seu curriculum, não foi difícil conseguir trabalho num dos hospitais da capital. Foram apenas seis meses de espera. Depois teve que conciliar o trabalho no hospital, com o da clínica, reduzindo as horas na Clínica e passando-as para o final da tarde, depois da saída do hospital. Teve que arranjar uma empregada de confiança para ir buscar Diogo à creche, e ficar com ele até à hora em que ela chegava. Felizmente que a lei lhe permitia não fazer turnos, por ter um filho com menos de doze anos a seu cargo.
O seu filho completara cinco anos, no próximo ano entraria para a escola oficial. Ela estava feliz com a sua profissão. Estava no chamado hospital dia, fazia apenas as pequenas cirurgias que podiam ser feitas em ambulatório, mas ainda assim era melhor que o anterior trabalho de médica de família no centro da aldeia.  Na semana anterior, tinha ido a Londres assistir a um congresso. Antes disso foi à terra levar o filho, que deixou com os pais. Podia deixá-lo com a empregada, ela era competente e adorava o menino como se ele fosse seu próprio neto. Mas ela tinha a certeza, de que os pais teriam ficado aborrecidos se o fizesse. Era essa a razão, porque ela se encontrava naquela tarde de domingo, a despedir-se dos progenitores, para empreender a viagem de regresso a casa.
Uma hora depois o carro avariou, e Helena viu-se obrigada a telefonar para a Assistência em viagem e aguardar que mandassem alguém para solucionar o caso.

25.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXIV

 

Novamente o silêncio. Como se Gonçalo precisasse recuperar a força necessária para continuar a desnudar a alma, despindo todo o sofrimento e angústia que a envolviam.

Lágrimas silenciosas rolavam pelas faces pálidas de Helena, e a sua mão como se tivesse vida própria, apertou a dele tentando dar-lhe ânimo. Ante aquela sofrida confissão, toda a raiva que ela guardara durante aqueles anos desapareceu deixando no seu lugar apenas o imenso amor que sempre existiu no seu coração e que durante anos, ela tentara em vão esconder por trás da muralha do ódio e  uma enorme compaixão pelo nítido sofrimento dele.  Pouco depois ele retomou a palavra.

-O cérebro é um órgão muito complexo. Danos físicos são fáceis de detetar, mas danos psicológicos são mais difíceis de avaliar. A minha neurologista diz que as palpitações e flashbacks que sofro são reais, mas a causa dos mesmos não é nada que ela possa identificar e tratar. Acredita que eles estão relacionados com a perda de memória. Devido ao facto do meu subconsciente ter bloqueado memórias do acidente, eu não fui capaz de processá-las e seguir em frente. 

O psiquiatra diz que talvez o traumatismo que sofri com a pancada na cabeça tenha apagado algum pedaço de memória e o psicólogo que talvez de forma inconsciente, o cérebro tenha bloqueado essa informação por medo de voltar a sofrer ao recordar. O certo é que no início de Setembro faz catorze anos e eu continuo desesperado tentando recuperar uma parte da minha vida que se perdeu nesse maldito acidente.

 Durante todo este tempo, sempre que me cruzava com uma mulher mais ou menos da minha idade, pensava se poderia ser aquela a quem amara ao ponto de querer casar-me, todavia não é nada fácil encontrar uma pessoa de quem não se sabe sequer o nome e nunca senti nada de especial, nem nenhuma mostrou reconhecer-me. Já tinha perdido a esperança, quando um dia fui à escola da minha sobrinha, para uma reunião de encarregados de educação. A minha irmã é viúva e além da Sara, que viu naquele dia, tem outro filho o Miguel ainda bebé, razão porque assumi a responsabilidade de ser o encarregado de educação da Sara, na escola, para evitar deslocações da minha irmã.

Quando a Helena chocou comigo, o meu corpo reagiu de forma estranha, e quando me olhou, vi surpresa e medo nos seus olhos. Quis perguntar se me conhecia, mas você fugiu e desde aí pensava em como encontra-la de novo. A minha sobrinha disse-me que não era professora naquela escola, e que só podia ser uma mãe, que ia para a reunião das onze.

 Não sabia como fazer para a encontrar  e desesperava-me quando atendi a Matilde no hospital. E quando vi a sua filha, levei um choque pelas semelhanças com a minha irmã e minha mãe. 

Acreditei que  tivesse chegado a hora de descobrir aquela parte desconhecida do meu passado, mas fiquei sem chão quando mais tarde fui ver a menina pedindo que me ouvisse e a Helena me expulsou do quarto. 

Desesperado falei com um psiquiatra, amigo de longa data que me disse que parecia que finalmente eu tinha encontrado a mulher da minha vida e provavelmente a menina seria minha filha. Aconselhou-me a fazer o teste de ADN, mas eu seria incapaz de o fazer às escondidas. Por isso decidi fazer mais uma tentativa para que me escutasse e coloquei o cartão dentro do livro que ofereci à Matilde.


 Diga-me por favor, - pediu olhando-a desesperado. É a Helena a mulher a quem amei? E a Matilde é minha filha?

 

24.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE X

 





- O que aconteceu, Lena? A Matilde está com problemas na escola?

- Não. Apesar de ter baixado um pouco nos últimos testes não foi nada de muito grave. As notas deste período não vão baixar.

-Bom. Todavia se tudo está bem, qual a razão desse nervosismo?

-Quem disse que estou nervosa? – perguntou sorrindo.

-Conheço-te bem, Lena. Podes enganar os nossos clientes com esse falso sorriso, mas não a mim.

-Tens razão! – disse deixando-se cair na cadeira. Vi o Gonçalo.

-O Gonçalo? Que Gonçalo? Não conheço nenhum… espera, estás a falar do pai da tua filha?

-Pai é quem cria, dá amor! A Matilde não tem pai.

-Pai, progenitor, dador de esperma, o que quiseres. É dele que estás a falar? Tens a certeza? As pessoas mudam muito, e já se passaram vários anos.

-Absoluta. Foi há mais de treze anos, mas podiam passar mil anos e eu reconhecê-lo-ia, em qualquer lugar da terra.

- Meu Deus, Lena! A conversa de que não acreditas no amor, não passa disso mesmo. Conversa. Tu continuas apaixonada por esse homem. Como é que eu nunca me apercebi disso!

-Não digas asneiras. Não se ama, quem se odeia!

-Não? Pois eu sempre entendi que o ódio é a outra face da moeda do amor. Mas deixemos isso agora e conta-me. Como foi isso? E ele reconheceu-te?

- Foi em frente à escola. Eu ia quase a correr, e ao dobrar uma esquina esbarrei num homem que vinha com uma menina pouco mais nova que a Matilde. Teria caído, se ele não me segurasse pela cintura, e ao levantar os olhos para me desculpar, quase desmaiava com a surpresa.

-Não me digas! Se ele tem a filha na mesma escola, significa que mora perto, e que talvez se voltem a encontrar. Mas não te reconheceu?

- Não sei! Mal me apercebi de quem era, pedi desculpa e saí correndo.

-E agora, o que vais fazer?

-Nada. Só espero nunca mais me cruzar com ele.

- A vida prega-nos muitas partidas e do mesmo modo que se encontraram hoje, pode voltar a acontecer. E um dia ele vai reconhecer-te. E se vir a Matilde e souber somar dois mais dois vai descobrir a verdade. E tens de pensar na Matilde e na promessa que lhe fizeste. Que lhe vais dizer? Que não sabes o que foi feito dele, quando provavelmente ele já se cruzou com ela na entrada ou saída da escola.

-A promessa de lhe falar sobre o pai quando fizesse treze anos!  E falta menos de um mês para o seu aniversário, - Lena deixou—se cair na cadeira com um suspiro de desalento.

--A Matilde é extremamente inteligente e muito obstinada, - continuou Rita. Tenho a certeza que é a primeira coisa que te vai perguntar no dia do seu aniversário. E é bem capaz de tentar encontra-lo. Sabes que hoje em dia os miúdos, com um computador nas mãos, sabem tudo o que querem. O que farás se ela quiser entrar em contacto com o pai?

-Não sei. Talvez lhe diga que ele morreu.

-Isso é meio caminho andado para perderes a tua filha, se ela um dia tomar conhecimento da verdade. Nunca mais confiará em ti. Se queres o meu conselho conta-lhe toda a verdade, embora claro não lhe digas que provavelmente ele vive perto. E agora vamos almoçar, ou esperamos pela Matilde?

-Hoje é Quinta-feira, ela almoça na escola tem aulas até às dezasseis. E o Inácio? Não vem almoçar connosco, hoje?

-Não. Vai almoçar com um cliente. Então vamos!

 


14.5.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE VI


- Lena, já passa das dez e meia. Não te esqueceste da reunião na escola, pois não?

- Meu Deus, já? Estava distraída, com o inventário dos bens do caso Mendes verso Correia. Tenho que resolver isto esta semana. Mas agora tenho mesmo que ir. Até logo, Rita.

Saiu, meteu-se no automóvel e dirigiu-se à escola. Ficou aborrecida ao chegar e verificar que não tinha lugar para estacionar no parque frente à mesma. Deu uma pequena volta e estacionou numa transversal ali perto. A caminho da entrada olhou o relógio. Estava quase em cima da hora e ela detestava chegar atrasada. Apressou o passo e ao dobrar a esquina para entrar na zona da escola chocou com um homem que vinha em sentido contrário, trazendo uma menina pela mão. Teria caído se ele não a tivesse segurado.

- Está bem? – perguntou ele

- Desculpe, a culpa foi minha, estou atrasada, vinha quase a correr - disse ela  levantando os olhos para ele.  Nesse momento, o seu rosto empalideceu, sentiu que as pernas lhe tremiam, mas num enorme esforço de vontade, desprendeu-se dos seus braços, e correu para o portão da escola.

-Que mulher maluca! - disse a menina e dando a mão ao homem que continuava estático olhando o portão da escola, perguntou:

-Vamos?

-Vamos sim, Princesa, a tua mãe já deve estar a perguntar-se porque nos demoramos tanto.

 - A mãe não sabe que vou contigo. Ia ligar-lhe quando soube que não tinha as duas últimas aulas, mas então vi-te a saíres da sala de reuniões e já não o fiz.

Entraram no carro e a caminho de casa, ele perguntou:

-Conheces todas as professoras da escola, Sara? Aquela mulher é professora?

-Tenho a certeza que não. Nunca a vi antes. Mas hoje é dia de reunião de pais. Deve ser alguma mãe, que ia para a reunião das onze. Porquê?

-Curiosidade, Sara. Apenas isso.

Não voltou a falar até chegarem a casa. Gonçalo estava inquieto. Só tinha segurado aquela mulher durante breves segundos, mas a sensação que teve foi muito estranha. Como se de algum modo, o seu destino estivesse ligado ao daquela desconhecida.

 Chegaram. Mal teve tempo de estacionar, em frente da moradia e já uma jovem mulher abria a porta de casa.

- Já em casa, Sara? – perguntou admirada

- Não tinha as duas horas de Inglês. Ia telefonar-te, mas então vi o tio Gonçalo a sair da reunião e vim com ele. O mano?

- Está a dormir.  Vamos entrar. Gonçalo, quero que me contes tudo sobre a reunião. Como está a Sara nos estudos?

- Não tens razões para estar preocupada. A tua filha é uma ótima aluna. Vai ter excelentes notas como sempre.

-Obrigado. Não sei o que seria de nós sem ti. Vamos entrar?

Afastou--se para deixar entrar a filha e o irmão, fechando a porta em seguida. 

- Mãe, vou para o meu quarto fazer os TPCS.  Almoças connosco, tio?

- Se a tua mãe me convidar, - respondeu o homem sorrindo.

- E desde quando, é preciso convidar-te?  Não tens hospital hoje? – perguntou Laura.

 

Finalmente ontem levei a primeira dose da AstraZeneca. Mas ainda tive que ir buscar mais um documento ao meu centro médico. Hoje tenho uma nova ida ao hospital para uma consulta de pneumologia. Não me tem sido possível visitar-vos. Ou melhor tenho lido alguns dos vossos posts nas salas de espera, mas não consigo comentar através do telemóvel. Penso conseguir voltar ao normal no próximo fim de semana

10.5.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE IV





Quase doze anos depois…

O relógio despertou como habitualmente às seis e trinta da manhã. Helena saltou da cama, calçou os chinelos, e dirigiu—se à casa de banho. Abriu a torneira, despiu-se e meteu-se por baixo do chuveiro, no mesmo ritual de todos os dias.

Depois de um duche rápido, secou o cabelo, vestiu-se, passou um pouco de sombra nas pálpebras que realçavam o dourado dos olhos, puxou as orelhas à cama e antes de ir para a cozinha bateu à porta do quarto da filha.

- Está na hora de te levantares, Matilde! Não te demores, já vou fazer o pequeno-almoço!

Não esperou para ver se a filha de doze anos se levantava. Ela nunca se atrasava fosse de Verão ou Inverno. Já na cozinha, pôs o avental, colocou o leite ao lume, para os cereais da filha e colocou duas fatias de pão na torradeira. Ligou a máquina do café, e abriu uma carcaça. Barrou-a com manteiga, colocou-lhe em cima uma fatia de queijo. Ia embrulhá-la num guardanapo, mas desistiu ao sentir as fatias de pão saltarem na torradeira. Colocou-as num prato, e antes que arrefecessem, apressou-se a barrá-las.  Sem se sentar, deu uma trincadela numa, no momento em que a filha entrava na cozinha com a mochila, já preparada para tomar o pequeno almoço e ir para a escola.

-Bom dia mãe.  Hoje há a reunião de pais, não te esqueceste, pois não? – perguntou enquanto despejava o leite quente na taça, sobre os cereais.

- Não, claro que não, - respondeu Helena, dando mais uma trincadela na torrada, ao mesmo tempo que abria o frigorífico e tirava um sumo para juntar à sandes que acabara de preparar para a filha levar para o lanche.

Acabou de comer as torradas, meteu uma cápsula na máquina e tirou um café que bebeu de pé, enquanto lançava um olhar ao relógio.

-Acabei, mãe - disse a filha levantando-se da mesa.

- Guarda o dinheiro para a senha do almoço-- disse  estendendo-lhe umas moedas. - E vai lavar os dentes enquanto eu acabo isto.

Matilde agarrou nas moedas, colocou-as na bolsa a mochila e dirigiu-se à casa de banho

A mãe guardou a sandes e o sumo, na pequena lancheira plástica e esta na mochila, passou a chávena e a taça por água e meteu-as na máquina.

De seguida limpou as mãos, retirou o avental e dirigiu-se para a casa de banho, precisamente quando a filha saía dizendo:

-Estou ponta!

-Vê se não te esqueces de nada, eu não demoro.

Escovou os dentes, passou um pouco de brilho nos lábios, deu uma rápida olhadela ao espelho e saiu. No corredor retirou de uma mesinha de apoio, o porta-chaves, e o telemóvel, pegou na mala que tinha ali ao lado, pendurada no bengaleiro e saiu. Fechou a porta e apressou-se a seguir a filha, que já descia as escadas em direção à porta da rua.

Já instaladas no carro, e antes de ligar o motor, perguntou:

-Não te esqueceste do passe?

Os magníficos olhos azuis da filha, tão brilhantes que parecias duas safiras, olharam para a mãe com expressão de aborrecimento, enquanto respondia:

- Não mãe, está na bolsa da mochila. E já sei, quando sair apanho o autocarro e vou ter contigo à agência. Não precisas repetir o mesmo todos os dias, já não sou uma miúda.

Atenta à estrada, Helena não respondeu. A verdade é que a filha ia a caminho dos treze anos, e desde menina sempre fora muito responsável, mas o seu coração ficava sempre em sobressalto quando não podia ir buscá-la.

Estacionou junto ao portão da escola, recebeu o beijo de despedida da filha, esperou até que ela atravessou o portão e só depois arrancou e se dirigiu à agência.

 

26.4.21

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE XXVI

Lembram-se da crónica feminina? Pois é, procurei uma noiva de 1979, e olhem o que encontrei.




EPÍLOGO

Três anos depois o casal está estabelecido em Aveiro. Quim tinha ajudado os pais, e sogros, na recuperação das velhas casas de família, para lhes dar uma vida de maior conforto, mas a aldeia era demasiado pequena para os seus sonhos. Ele queria montar um bom restaurante, numa cidade,  mas ao mesmo tempo, queria uma zona relativamente perto da aldeia, de modo a que os pais e sogros, pudessem ter uma certa relação de proximidade com os netos.
Dentro desses parâmetros surgiram dois nomes. Aveiro e Viseu. Estudadas as características das duas cidades, o casal optou por Aveiro, pois tinha, segundo a sua lógica, mais condições para atrair o turismo, pela beleza dos seus canais. E passados três anos, o Restaurante Típico da Beira, é o melhor restaurante da cidade e o mais procurado por turistas e residentes. 
Catarina tem sete anos e já está na escola, Maria tem três anos e é o encanto da irmã, pais e avós.
Mas naquele dia o casal está na aldeia.  E é Setembro de novo. O último da década de setenta.
Sofia, está em casa da mãe, no seu antigo quarto de solteira, às voltas com um vestido de noiva. As crianças, lindas nos seus elegantes vestidos de damas, entram e saem sem se calarem, excitadas pela novidade, e seguidas pela velha Idalina, que zela para que não mexam em nada que as possa sujar.  Sofia acaba de se vestir de noiva, como há dez anos atrás. E como nessa altura as primas, Celeste e Maria João, ambas já casadas, ajudam-na a preparar-se. A mãe entra no quarto para as apressar e está radiante. Não só porque a sua menina vai receber o sacramento do casamento, (e para as suas convicções religiosas, deixará de viver em pecado,) como porque agora ela sabe que não tem com que se preocupar. A filha é uma mulher feliz. E se alguma dúvida pudesse ter, bastava-lhe ver os dois juntos. Como se olham, como estão pendentes um do outro, como se entendem com um único olhar. A ideia do casamento religioso, foi de Quim. Ele queria vê-la vestida de noiva, queria viver a emoção de a esperar junto ao altar.
Ela aceitara. E no fundo, também está muito feliz, apesar de pensar que a cerimonia, não vai aumentar nem diminuir o amor que os une. Mas também ela sente a emoção de se vestir de noiva para ele.
O desejo de se ver refletida nos seus olhos na hora do juramento sagrado. De sentir o calor da sua mão, na troca das alianças. Pequenas coisas que fazem a felicidade de uma mulher, e que ela ainda não vivera.
E depois, ele não lhe tinha dito uma vez, que o juramento perante Deus, era para aqueles que sentiam um grande amor?

Fim


Elvira Carvalho

10.6.20

ISABEL - PARTE XXI






A caminho de casa, Isabel interrogava-se. Que raio se passava com ela? Seria o aproximar dos quarenta anos? Um problema hormonal? 
Entrou no prédio e dirigiu-se ao elevador
- Boa tarde menina, - saudou a porteira que se dirigia para a porta da rua com um balde e uma esfregona.
- Boa tarde dona Rosa. Desculpe não a tinha visto. E dizendo isto abriu a porta do elevador.
- Não faz mal menina. Tenha cuidado ao sair do elevador, o chão pode não estar seco ainda.
- Terei cuidado. Até logo e obrigada pelo aviso
- Até logo menina. Vá com Deus.
A conversa com a porteira tivera o condão de a desviar dos seus pensamentos e sentia-se agora mais calma.
Quando dez anos antes, ela fora morar para aquele prédio, já a dona Rosa lá estava. Era uma mulher sozinha. O marido morrera há anos e o único filho que tivera emigrara para França. Queria fugir dum futuro sem esperanças. Lá casou e lá foi pai por duas vezes. A princípio vinha sempre a Portugal, todos os anos em Agosto. Depois os filhos começaram a crescer, foram para a escola, arranjaram amigos e foram-se desinteressando das férias em Portugal. Afinal lá é que era a sua terra e lá estava o seu futuro. Se a nora fosse portuguesa, decerto faria pressão para vir ver a família. Mas não era. Aos poucos as visitas foram rareando. A última vez que viu o filho e os netos foi no funeral do marido. Nessa altura o filho insistiu em levá-la, tinha lá boa vida, boa casa que comprara há poucos meses, e até tinha um quartinho para a mãe. Mas ela não quis. Costumava dizer “Vivi aqui toda a vida, quero morrer aqui". E depois eles têm lá a sua vida, os seus costumes e eu ia para lá servir de estorvo. São outras terras, outras modas."E burro velho não aprende línguas". "Aqui, tenho a sorte de ter este trabalho, tenho a casa, não pago renda, os inquilinos são como amigos, tratam-me com carinho que mais hei-de querer?”
Um dia Isabel perguntou-lhe: - Mas não tem saudades deles?
-Ai menina, se tenho. É uma mágoa sem tamanho. Mas sabe a minha avó sempre dizia. Quando casamos uma filha, ganhamos um filho, quando casamos um filho perde-mo-lo.
- Nem sempre dona Rosa, nem sempre.
- Claro, menina há excepções. Mas do mesmo modo que uma filha puxa o marido para nós, a nora também puxa o marido para a família dela. É a ordem natural das coisas, não há como fugir dela.
Isabel tinha um carinho especial pela porteira. Talvez fosse a solidão das duas que as aproximava, ou porque de certo modo a senhora lhe fazia lembrar da sua falecida mãe. 
Tomou um duche rápido, envolveu-se num roupão de seda e dirigiu-se à cozinha.
Não lhe apetecia cozinhar. Procurou no frigorífico as sobras da véspera. Tinha um pouquinho de frango assado. Também um resto de arroz branco. Meia alface, um pimento, e um tomate.
Na dispensa havia sempre uma lata de milho. Decidida fez uma salada de frango.                             

17.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XXVI

   
Era ela quem sustentava a casa. Fazia limpezas. Trabalhava de manhã à noite. E aos fins-de-semana ainda lavava roupas para fora. Ele só sabia beber. E quando queria dinheiro e ela não lho dava, batia-lhe. Lembro-me de ser bem pequeno, e meter a cabeça debaixo dos cobertores para não ouvir os seus gritos, nem o choro da minha mãe.
 Um dia, tinha os meus sete anos, estava no primeiro ano, a escola ia fazer uma recita de Natal. Fui escolhido para entrar. Na altura estavam na moda uns ténis que se tornavam luminosos com o andar. Todos os meninos da minha sala os tinham, menos eu. Então a professora disse que seria bonito que todos os levassem calçados no dia da recita. Faria um efeito muito bonito no palco.
Fiquei muito triste. Cheguei a casa a chorar. A minha mãe quis saber o que se passava, e eu contei-lhe. Prometeu que me comprava os ténis. Naquela semana trabalhou mais horas do que nunca
Na sexta-feira à saída da escola levou-me à sapataria e compramos os ténis. Não cabia em mim de contente. Escondi-os  debaixo da cama, e fiquei a sonhar com o dia da festa. Todos os dias quando chegava da escola,ia buscar a caixa, e sentava-me na cama, a olhar para eles. Eram tão bonitos. Não via a hora de os poder calçar. Porém no  dia da festa, a caixa não estava no sítio. Procurei por todo o quarto, e não a encontrando fui perguntar por ela, à mãe. Disse-me a chorar que ele os tinha descoberto, e os tinha entregado na loja em troca do dinheiro. Só não me disse que era para se embebedar, mas não era preciso. Eu sabia. Jurei à minha mãe que havia de ser um homem muito rico. Depois, enlouquecido pela raiva, ou pela vida que levávamos, adoeci de tal modo que fiquei de cama. Levei três dias com febre, e vómitos.
Falava baixo e devagar. Notava-se quão penosas eram aquelas recordações. Teresa tinha os olhos rasos de água. Não conseguia imaginar, uma criança com um sofrimento tão grande. Levantou a mão e acariciou ternamente a face masculina. Não era a carícia de uma mulher apaixonada. Era a carícia de uma mãe, solidária com o sofrimento do filho.
Rui agarrou os ténis, e pressionou-os na mesa, fazendo com que uma corrente luminosa, percorresse a face visível da base.


7.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVIII


No gabinete, Teresa deixou-se cair na cadeira sem forças.
O que acontecera não podia ter acontecido de jeito nenhum. Quisera provocá-lo, dar-lhe a entender que podia haver alguém na sua vida, fazer com que sofresse. E bastara o contacto da boca dele na sua mão, para que o cérebro deixasse de fazer o que lhe competia, o coração empreendesse uma louca corrida, e todo o seu corpo reagisse, numa tremedeira inoportuna.  Como podia fugir daqueles sentimentos?  Tinha a certeza que ele sentira aquilo que lhe provocara. Como não? Conhecia-a como ninguém. Estava perdida.
Esperou com ansiedade o fim da manhã, para deixar o trabalho.
Tinha que estar às três na escola do filho. Era a festa de Natal, Martim ia entrar na récita e não cabia em si de tanto entusiasmo.
Tinha-lhe pedido quase a chorar para o ir ver, e não queria causar-lhe uma decepção.
Passou-lhe pela cabeça uma ideia peregrina. Que faria Rui se soubesse que tinha um filho?
Será que se importaria? Quereria conhecer o menino? Assumiria o papel de pai? Ele nunca assumira a relação deles. Nunca lhe falara de si, dos seus sonhos, dos seus anseios. Nunca lhe falara da família, nunca lhe dissera quem eram ou onde moravam. Só se importava com ela, na cama. Aí convertia-se num amante excecional, sempre preocupado em levar a companheira à loucura. Mas nem isso fora suficiente para continuar a seu lado Por fim acabou a manhã de trabalho.
A festa na escola, foi muito emotiva. As crianças cantaram, dançaram, e recitarem pequenos poemas. Estavam no palco com naturalidade e alegria. Por último, recriaram a história do nascimento do Deus Menino.
No fim, todas estavam muito felizes e os pais orgulhosos do talento dos seus rebentos.
Finalmente despediram-se de Tiago e do filho, e saíram pois Teresa ainda queria fazer umas compras, já que faltavam poucos dias para o Natal.
No carro, o garoto não se conseguia calar com as peripécias da festa.
Era uma criança muito extrovertida, muito alegre, fazia amigos com facilidade, e era muito popular. Teresa agradecia a Deus por o filho ser como era.
"Pensa em mim", - dissera Rui naquela manhã. Como podia deixar de pensar nele, se Martim era fisicamente o seu retrato? - Interrogava-se enquanto passava a mão na cabeça do filho, numa terna carícia.


Amigos consegui hoje consulta por causa da dor no braço que me tem deixado louca.
A médica diz que lhe parece ser uma tendinite e mandou fazer 10 dias de anti-inflamatório Naproxene, um relaxante muscular,  Sirdalud, e gelo. e mandou fazer RX à cervical, ombro e braço. E ecografia  tecido moles, ombro e braço. 


1.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XI



 Porém o namorado tinha regressado dois meses depois do casamento e não pretendia desistir dela nem do filho. E ela só se mantivera em casa durante aqueles meses, enquanto arranjavam casa e a preparavam para se mudar. Terminava pedindo-lhe que a perdoasse e que não lhe dificultasse o divórcio.
Perdoar? Como é que um homem podia perdoar a mulher, que fez dele motivo de chacota para o bairro inteiro? Um misto de sentimentos tomou conta dele. Raiva, vergonha, humilhação. Como era possível ter sido tão trouxa? Mais uma vez, valeu-lhe a compreensão dos pais, que o ajudaram e apoiaram até ao divórcio. Depois ele sentiu que tinha de partir por uns tempos. Queria afastar-se de amigos e conhecidos, que disfarçavam sorrisinhos de gozo quando o viam. Assim, quando soube que uma firma estava a pedir mecânicos para Angola, foi lá e não lhe foi difícil conseguir um bom contrato por cinco anos. Partiu pois numa manhã de Março, poucos dias antes de fazer vinte e dois anos, deixando a mãe lavada em lágrimas. Porém o pai compreendeu e apoiou-o. Apesar da sua pouca idade Ricardo era um excelente mecânico. Desde menino sempre gostara de mexer nos carros e quando saía da escola, em vez de ir jogar à bola com os outros miúdos do bairro, ia para a oficina do pai, ver como ele trabalhava, aprendendo a conhecer o canto do motor, e o significado de cada uma das suas desafinações. Depois já adolescente, trabalhou durante as férias escolares na oficina, e mais tarde todo o tempo que durou o seu casamento. Tinha por isso um bom conhecimento do trabalho, era aplicado, e simpático e em breve ganhou a simpatia do patrão, e dos colegas. Apesar do fascínio que África exercia sobre ele, Ricardo fazia uma vida recatada, gastando apenas a pequena parte do ordenado necessário à sua sobrevivência e transferindo para Portugal tudo o que a firma lhe permitia. Já nessa altura tinha o sonho de criar uma firma de aluguer de carros de luxo.
Terminado o contrato, regressou a Lisboa, apesar do vantajoso prolongamento do contrato, que a empresa lhe propunha  . Tinha quase vinte e sete anos, a cabeça cheia de sonhos, mas nenhum de amor.
Alugou uma pequena garagem, comprou o seu primeiro carro que lhe levou grande parte do seu pecúlio, e anunciou na Internet o aluguer do mesmo. Começou sozinho, com um único carro, sendo mecânico e motorista. Foi um êxito, as encomendas eram superiores ao que ele pensava, e assim ao fim de um ano, comprou o segundo, e contratou o seu primeiro motorista, Sérgio, que mais que um empregado era um verdadeiro amigo. Os anos foram passando, o negócio prosperando cada vez mais, e agora doze anos depois, ele tinha uma dúzia de carros de luxo, e dez motoristas-mecânicos que podiam conduzir os clientes a qualquer parte, mas estavam aptos a reparar de imediato o carro se surgisse alguma anomalia. 
De súbito voltou-lhe à memória aquela criança e o imbróglio em que o tinham metido. Mas ele iria exigir a retirada do seu nome do registo dela, logo que tivesse em mãos o resultado do teste de ADN. E só não exigiria uma indemnização, porque pelo que viu daquela casa, a mãe, ou tia da criança não teria como a pagar.
Estava desejoso, que o seu amigo Artur lhe trouxesse o relatório da investigação que estava a fazer.

23.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE VII







- Bom dia Paula.
- Bom dia Cidália. Tão cedo por aqui? Passa-se alguma coisa? Como está o meu irmãozinho?
- Deixei-o na escola agora. E aproveitei para vir falar contigo, calculei que a esta hora ainda não estivesses muito ocupada.
- Fizeste bem. Realmente nos últimos tempos, não tenho tido tempo para nada, tem sido umas festas atrás de outras. Mas não me devia queixar, enquanto estou a trabalhar não me lembro do desastre que é a minha vida pessoal.
- Ainda sofres, por causa do Adolfo?
- Que te parece? Foram quatro anos da minha vida, sonhando com uma vida em comum, fazendo projetos em vão. Mas não falemos de mim. Diz-me, que te trouxe cá?
- Sabes que os negócios do teu pai, não vão nada bem?
- Não. Que se passa? É grave?
-Está na falência. Má gestão talvez, mas também por causa do António Ferreira. Já ouviste falar nele? 
- Quem não ouviu falar nesse tubarão da restauração? Mas o que tem ele a ver com os maus negócios do meu pai.
- Parece que nem sempre foi um empresário rico. Há muitos anos foi empregado do teu pai. Houve um desentendimento entre eles, não me perguntes o quê que o Jorge, não me quis contar. E ele jurou que um dia se ia vingar. Não sei como conseguiu chegar a ter tanto poder económico, o teu pai garante que naquela época, não tinha onde cair morto. O certo é que a sua área de intervenção, não é apenas a cadeia de restaurantes, “Cozinha Portuguesa” mas também tem a maior imobiliária do país, a “Casa dos seus sonhos”. E tem roubado todos os negócios ao teu pai, que para lhe fazer frente, acabou hipotecando a empresa, a hipoteca está a vencer-se e ele não tem como resgatá-la. Resumindo, está completamente arruinado.
-Meu Deus. Porque é que não me contaste antes?
-Eu também não sabia. O teu pai andava preocupado e eu sabia que as coisas não iam bem, mas não imaginava quanto. Só agora me contou.
- E não se pode fazer nada?
- Não. Embora o Jorge ainda tenha esperanças de que possas salvá-lo.
- Eu? Empreguei o dinheiro da herança da minha mãe na empresa. Os negócios têm corrido bem e tenho algum dinheiro mas pouco, e não quero recorrer a empréstimos que hipotequem o meu futuro. Como é que eu posso ajudar?
- Conheces o António Ferreira?
- Não. Aliás, penso que o vi uma vez numa festa que fiz, mas de longe, e nem tenho a certeza se seria ele, embora me lembre de ouvir comentar o seu nome. Porquê?
- Porque ele deu oito dias ao teu pai para te convencer a casar com ele. Se isso acontecer, não só esquece a hipoteca que tem sobre a “Casa Nova” como lhe concede um empréstimo, para voltar aos negócios, e se compromete a deixá-lo em paz. Caso contrário, dentro de oito dias, executa a hipoteca e anexa a empresa à sua.
- O homem é doido. Como pode querer casar comigo se nem me conhece? E quem pensa ele que sou? Uma mercadoria que pode comprar? Como se eu fosse um saco de batatas para os seus restaurantes?
Pôs-se de pé. Estava furiosa. Percorreu o gabinete, de uma ponta à outra barafustando. Depois voltou-se para a madrasta.
-Foi o meu pai que te mandou cá? Para me convenceres?

20.12.18

O DIA EM QUE FIZ O PAPEL DE MARIA



Quando morávamos à beira-rio, ainda havia invernos a sério: muito frios, com muita neve e cristais de gelo nas janelas.
Quando morávamos à beira-rio, a minha mãe acendia sempre o fogão pela manhã.
Amarrota folhas de jornal e mete-as na portinhola do fogão. Por cima coloca lascas de madeira e depois dois briquetes em brasa retirados da caixa do carvão. Embrulhada na camisa de dormir comprida e branca, ajoelha-se em frente do fogão e sopra com cuidado.
Puxo até ao pescoço o cobertor grosso e observo-a. Faz isto todas as manhãs. Fecho os olhos e ouço a madeira a crepitar.
Quando morávamos à beira-rio, podia ficar na cama até a cozinha estar aquecida. Em seguida, a mãe fazia chocolate quente e colocava à minha frente, sobre a mesa, a chávena cor de rosa com desenhos de nuvens.
Podia ficar o dia inteiro sentada em frente da chávena das nuvens mas não posso, porque a escola começa às oito menos um quarto e a Brigite já está na esquina à minha espera.
A mãe dá três voltas com o cachecol no meu pescoço. Ajuda-me a pôr a pasta às costas e diz-me para não me atrasar. Não gosto de ir à escola. Acabámos de nos mudar, e eu sou a nova e ninguém quer sentar-se à minha beira nem brincar comigo, nem mesmo a Brigite. Só espera por mim porque o professor Alfredo quer. Na verdade, acha que sou uma pateta.
— Pareces um pulgão — disse-me. — E és tão lenta! E… olha só para ti…
A Brigite tem tranças pretas, compridas, e orelhas de abano. Só que elas não se vêem quando faz de Maria, porque solta os cabelos e põe um lenço na cabeça.
Foi o pai do Martim quem construiu o presépio, porque o Martim vai fazer de S. José. O papel é simples, José quase não tem nada para dizer. Só tem se apoiar no cajado e ficar em pé, com um ar de devoção, ao lado de Maria e do Menino. Para o Martim, a devoção é o mais difícil, porque o Óscar, na última fila, passa o tempo a fazer caretas. O Óscar não só abana as orelhas como consegue trocar os olhos de tal maneira, que uma pessoa até pensa que eles vão ficar assim para sempre.
O Professor Alfredo é muito severo e pode encolerizar-se a sério! Sempre que se enfurece, tem uma veia na testa que fica muito grossa. E até se vê o sangue a pulsar. De cada vez que a Filomena Cardoso não está concentrada, vejo o sangue do professor Alfredo a latejar. E isto acontece muitas vezes. De qualquer maneira, eu não tenho nada para fazer porque faço o papel de ovelha e limito-me a ficar junto dos pastores. Todos se riram quando o professor me deu o papel de ovelha.
— Até te fica bem — disse a Brigite com um risinho. — Uma ovelha preta…
Riu-se baixinho, porque também ela tem medo dos ataques de fúria do professor.
A mamã está a coser-me um fato de ovelha. Tinha-mo prometido. E disse que estava contente por eu fazer de ovelha na peça de teatro. Porque as ovelhas são animais pacíficos. Meiguinhas e suaves, que são qualidades boas, diz a mãe.
Mas eu preferia ser um pastor e gostava ainda mais fazer de Maria. Mas nunca hei de sê-lo porque a mamã me cortou o cabelo.
Cabelos curtos são mais práticos, diz ela.
Mas não existem Marias com o cabelo curto.
Os ensaios para a representação do presépio já duram há quatro semanas. O Natal está cada vez mais próximo.
À tarde, à beira-rio, escurece muito cedo. A mamã faz bolachas e eu ajudo-a. A nossa cozinha cheira a Natal. As bolachas prontas vão para uma lata prateada e aí ficam à espera da noite de Natal, diz a mãe.
Eu gostava de também poder esperar pela noite de Natal dentro de uma lata prateada, mas não posso. Todos os dias, pela manhã, tenho de ir para a escola fazer de ovelha.
Do que tenho mais medo é do dia vinte e quatro de dezembro, que é quando vamos representar a nossa peça, na igreja.
O professor Alfredo diz que as pessoas vêm todas assistir só para nos ver. E que por isso devemos dar o nosso melhor.
Mas como é que uma ovelha dá o seu melhor? O que é o melhor de uma ovelha? De qualquer maneira, vou esforçar-me e ficar deitada muito quieta. Espero que ninguém se ria porque isso seria o pior, não para mim, mas para a mamã, que se envergonharia de mim, e isso, eu não quero.
No dia dezanove de dezembro começa a nevar. Estou sentada no meu lugar, na sala de aula, e olho para os flocos de neve que caem do céu como açúcar em pó. De tanto olhar, uma pessoa até se sente cansada.
Felizmente, o professor não repara como estou cansada porque tem de prestar atenção ao Martim e à Filomena. A Brigite belisca-me o braço mas eu não posso gritar, nem sequer dizer “Ai!”, porque senão o professor Alfredo fica furioso.
No intervalo grande, fazem uma batalha de bolas de neve e eu sou o alvo. O professor Alfredo é quem está a vigiar. Encostado ao muro da escola, vai trincando a sua sanduíche e desvia o olhar.
Apesar de tudo, gosto da neve porque, sob o gorro de flocos, tudo tem um aspeto diferente. De certa maneira, mais limpo e mais fofo do que de costume.
Quando era pequena, pensava que, se me lavasse com neve, ficava branca como os outros meninos. Mas a mamã disse que aquilo era uma patetice e que gostava que eu fosse assim, mais escura. Disse escura, porque sou negra. A minha pele é toda preta, exceto nas solas dos pés e nas palmas das mãos.
— Tu és muito especial — disse a mamã.
Mas eu não quero ser especial.
Na minha lista de desejos para o Natal escrevi que queria fazer o papel de Maria. Este é o meu maior desejo, e também o do próximo ano, mas isso, o Menino Jesus já sabe. Fecho o envelope com cola e coloco-o no beiral da janela. A mamã acrescenta uma bolacha da caixa prateada. É para o anjo carteiro. É um longo caminho até ao céu!
Temos de lá estar uma meia hora antes, como disse o professor.
Espero pela Brigite na esquina da rua mas ela não aparece. Espero cinco minutos, espero dez minutos, depois, desato a correr.
A igreja já está cheia. E a veia do professor Alfredo a latejar. Mas não ralha.
— Graças a Deus! — exclama ele, ao ver-me. — Depressa! Veste-te. Tens de fazer de Maria! Sabes o texto?
— Mas… mas… a Brigite… — gaguejo.
— Está doente — responde o professor.
Os sinos começam a tocar e o órgão ressoa.
Todos cantam “Noite Feliz. Noite de Amor.”
Estou de pé junto do Martim e seguro o Menino Jesus nos braços. A Filomena, hoje, tem um olhar muito concentrado.
Quando terminamos, toda a igreja está em silêncio. Depois, as pessoas começam a aplaudir e nunca mais param.



Jutta Richter; Jacky Gleich
Als ich Maria war
München: Karl Hanser Verlag, 2010
Tradução e adaptação
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