Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta doutor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta doutor. Mostrar todas as mensagens

5.6.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LI

 


Intrigada, Anabela arrumou a sala, guardou a ficha do doente, e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou a empregada, pondo a mesa para o almoço.

- Bom dia, Isilda. Aconteceu alguma coisa especial nestes dois dias que estive ausente?

- Bom dia, Anabela. Bom foi Natal, e os pais do menino Tiago vieram passar o Natal. Porquê?

- O doutor Tiago, parece bem melhor, mais animado, mais conversador…

-Bem, isso está. Há dias que o meu Joaquim me dizia que ele estava bem melhor, já a movimentar a cadeira sozinho, e a tornar-se mais independente. Mas como sabe eu só entro no quarto quando vou fazer limpeza e isso é sempre pela manhã, ou quando está no banho ou nos exercícios de modo que nunca o vejo. Porém nestes dois dias ele veio comer à mesa com os pais, e realmente parecia outra pessoa, muito diferente de há um mês. Conversou bastante com os pais e eles estavam muito esperançosos, de que em breve o filho voltasse a andar. Por que pergunta?

-Porque anteontem quando fui embora, ele continuava com mau humor, e precisou da minha ajuda para sair da maca para a cadeira. E hoje, não só não precisou dessa ajuda, como estava bem-humorado e conversador.

- Ele soube ontem notícias de outro doutor que estava com ele, lá em África e ficou bastante contente. Mas penso que não foi esse o milagre pois ele já se mostrou simpático e bem-disposto na véspera, durante a consoada.

- Bom, vou até ao quarto, preciso mudar de roupa, e já volto para lhe ajudar.

Despejou a mochila em cima da cama, pôs de lado os dois embrulhos e guardou na cómoda a roupa que trouxera.  Depois de ter lavado a cara e o rosto, pegou nos dois embrulhos e desceu.

-Já na cozinha, entregou a Isilda um dos embrulhos, pôs o outro na cadeira onde Joaquim costumava sentar-se dizendo:

-É uma pequena lembrança de Natal.

-Obrigada. Mas não carecia de estar a gastar dinheiro connosco. E demais não comprámos nada para si.

- Mas que mais me podiam dar, se já me deram tanta atenção e carinho durante estas semanas? De resto como disse é apenas uma lembrança.

A empregada rasgou o embrulho e retirou uma bonita camisola de lã, cor de salmão.

- Obrigada. É tão bonita. E macia – disse encostando a malha ao rosto.

Nesse momento entrou Joaquim e a conversa repetiu-se. E depois de rasgar o seu embrulho, retirou um belo pulôver de lã castanho, que ele agradeceu. De seguida perguntou à mulher.

- Tens o almoço pronto para levar ao doutor?

- Tenho. É só preparar o tabuleiro.

Pouco depois ele levava o almoço ao patrão.

 

 Nota: Não estou a conseguir fazer visitas diárias, não só por causa dos olhos, como também por absoluta falta de tempo. Estamos no fim da época escolar e (da Universidade Sénior, que frequento). E até ao dia 15, há ensaios, festas de encerramento,  passeios, almoços, enfim. Por outro lado, este é também o mês em que eu e o marido, temos de fazer os exames de saúde anuais pois temos consultas a 22, 26 e 27. Comentarei sempre que possível. Provavelmente terei que fazer uma nova pausa. 

10.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXVI

 


Quando às oito horas da manhã, Anabela entrou na cozinha, encontrou a mesa posta para tomar o pequeno-almoço mas apenas Joaquim se encontrava ali.

-Bom dia, - saudou.

-Bom dia, menina - respondeu o homem com tristeza.

-Anabela, por favor! Aconteceu alguma coisa? A sua esposa?

-Está arrumando o quarto do doutor.

-Tão cedo? - estranhou a jovem. E como ele está?

-Mal. Deve ter tido outro daqueles pesadelos.

-Que pesadelos, Joaquim?

- Não sei, menina. Quando ele saiu do hospital, nos primeiros tempos, eu dormia na sala ao lado com a porta entreaberta de modo a atendê-lo se ele precisasse de mim, durante a noite. E quase todas as noites o ouvia gritar, entrava no quarto e encontrava-o em grande sofrimento embora estivesse a dormir.

 Dizem que não se devem acordar as pessoas com pesadelos, mas eu, que Deus me perdoe, acordava-o sempre, pois não tinha coragem de ver o seu sofrimento. Porém, ele nunca comentou comigo o que o atormentava e a menina sabe como é, se ele quisesse contar tentaria ajudar, mas se não o fazia eu não me ia pôr com perguntas. Afinal ele é o nosso patrão, não um familiar.

- Provavelmente tem a ver com o acidente, - refletiu Anabela. Acontece muitas vezes, que pessoas que sofrem acidentes traumáticos, como o que o doutor Tiago sofreu, revivem em sonhos a tragédia. Às vezes, se não têm ajuda psicológica, até durante anos.

- É horrível, o doutor grita, treme como se estivesse a arder em febre, e o suor encharca-o.  E depois que acorda o olhar está esgazeado e ele olha para nós como se não soubesse onde está e não nos conhecesse.

Naquele momento Isilda entrou na cozinha dizendo:

- O doutor fechou agora o chuveiro.

Joaquim afastou-se em direção ao quarto enquanto a esposa lavava as mãos e começava a preparar o pequeno-almoço para o patrão.

Anabela acabou de comer, levantou-se da mesa e disse:

-Vou caminhar um pouco. Estarei de volta antes da hora do tratamento do doutor.

Saiu pensando no que o caseiro lhe contara sobre o doente.  Os pesadelos não eram incomuns em vítimas de acidentes traumáticos. Porém quando se tornavam recorrentes, quebravam o animo do doente e atrasavam a recuperação.

 Tinha de falar com o doutor Azevedo, ele devia insistir com o sobrinho para aceitar a ajuda de um psicólogo.                                                                  

27.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXIII

 


- Desculpe doutor, mas parece-me que esqueceu algumas coisas que deve ter aprendido no curso. Ou não lhe ensinaram que a diminuição da gravidade sobre as estruturas ósseas e articulares facilita a mobilidade além de provocar o relaxamento muscular e redução das contraturas?

-Para doenças reumatológicas e artrites. Não é o meu caso.

- Pois, suponho que não, afinal ainda é um homem jovem, para tais doenças, mas talvez o doutor não saiba que cada vez mais se estão a usar os tratamentos em piscinas para outras patologias do aparelho locomotor, nomeadamente para lesões traumáticas e pós-operatório ortopédico, o que já é o seu caso.

Terminou o tratamento, limpou com cuidado o gel, voltou a tapar as costas do doente, guardou a mesa do ultrassons e retirou do hidrocolector uma placa de calores húmidos que enrolou em toalhas e colocou nas costas do doente

- Se aquecer demais avise, - disse antes de se afastar para registar na ficha os tratamentos anteriores. Pouco depois perguntou:

-Está bem? Não está demasiado quente?

-Eu não me queixei, pois não?

-Muito bem, só não quero que por orgulho ou teimosia, não diga nada e se esteja a prejudicar.

Quinze minutos depois, Anabela retirou a placa de calor húmido e preparou-se para a massagem.

-Agora vou fazer-lhe uma massagem. E depois terminamos esta série com as botas de pressoterapia. Como lhe disse faremos sempre de manhã, tratamentos de fisioterapia elétrica alternados, consoante indicado pelo doutor Azevedo, de tarde diversos exercícios de fisioterapia mecânica de reabilitação, também alternados.

Se esperava que o doente fizesse alguma pergunta ou contestasse o tratamento enganou-se pois Tiago mantinha a mudez que só quebrava quando absolutamente necessário. 

Anabela, espalhou uma generosa camada de óleo nas mãos e esfregou-as a fim de as aquecer e iniciou a massagem, tendo o cuidado de não tocar na zona das vertebras, mas trabalhando os músculos e ligamentos que as apoiavam, subindo depois para a zona dos ombros e pescoço até sentir que os músculos tensos do doente relaxavam.

Durante toda a massagem, manteve-se atenta a quaisquer sinais de dores, mas nem o doente se queixou, nem ela sentiu qualquer retraimento dele que sinalizasse dor.

-Pronto, acabou, consegue voltar-se sozinho, para lhe por as botas?

Tiago não respondeu. Soergueu o tronco apoiado nos cotovelos e virou-se. A jovem pôs-lhe as botas, e cobriu-lhe o peito nu com uma toalha.

Dez minutos depois o aparelho desligou-se, Anabela retirou-lhe as botas e guardou-as. Foi buscar a cadeira para junto da marquesa e estendeu-lhe o robe, que ele vestiu.

-Ponha um braço sobre os meus ombros e faça força com o outro na maca. Deixe cair o corpo devagar sem medo, eu seguro-o pela cintura. Isso, muito bem. Agora é só rodar o corpo e sentar-se.

 


7.8.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XVI







Olga bateu levemente à porta do escritório e entrou de seguida.
- O porteiro acaba de informar que está a subir a Teresa Sobral para a entrevista das dezasseis horas. Não está na minha agenda, esqueceste de me avisar? – perguntou.
- Como assim? Não marquei nenhuma entrevista para esta tarde, - disse João olhando-a com estranheza. - Para falar verdade, nunca ouvi tal nome. Será alguma cliente?
- Não sei, mas já deve estar lá fora. O que faço?
- Atende-a, pergunta-lhe qual o assunto e se for uma cliente encaminha-a para a secção de vendas. O Afonso também não telefonou hoje?
- Não. Sabes que ele só aparecerá quando conseguir uma informação válida. Bom vou ver o que quer a visita.
Olga saiu fechando a porta atrás de si e dirigiu-se para a sua secretária. A mulher que se encontrava de costas junto da janela, voltou-se e aproximou-se.
- Boa tarde! Venho falar como senhor João Teixeira.
- Boa tarde. Diz-me o seu nome por favor? – perguntou Olga pegando na sua agenda.
- Teresa Sobral. Mas não perca tempo a procurar, não está aí. Por favor, pode informar o seu chefe de que preciso muito de falar com ele?
- Não, sem saber qual o assunto. O doutor João é um homem muito ocupado, ainda há minutos me informou de que não devia interrompê-lo, e que devia passar a informação de que ele não estava.
-É uma pena, porque vou entrar na mesma, - disse encaminhando-se resolutamente para a porta, surpreendendo Olga que levou alguns segundos a reagir, o bastante para que Teresa abrisse a porta e se introduzisse no gabinete, perante o olhar atónito do homem que se encontrava sentado à secretária.
- Desculpa, surpreendeu-me e entrou sem autorização, - disse Olga da porta. - Chamo os seguranças?
- Não. Já que a senhora se deu a tanto trabalho para falar comigo, tenho curiosidade em saber o que a trouxe aqui. Volta para o teu lugar. Se for caso disso, eu mesmo chamo os seguranças.
A secretária saiu e por momentos reinou o silêncio no escritório. Depois João disse:
- Por favor, sente-se e diga-me ao que vem. Se é cliente deveria ter-se dirigido à secção de vendas e se pretende um emprego às Relações Públicas.
Ela sentou-se. Entre os dois a enorme secretária em madeira de mogno, e o silêncio.  Nervosa, Teresa remexia as mãos no colo sem saber como dizer ao que vinha. Pela primeira vez desde que saíra de casa, pensou que talvez se tivesse precipitado e estivesse a fazer asneira, mas já não havia como voltar atrás.
- Então, senhora, estou à espera.
Ela respirou fundo e disse:
-Eu também estou à espera, e se tudo correr bem vou esperar por nove meses…
João levantou-se de um salto, deu a volta à secretária e aproximou-se dela.
-Quem é você? E o que quis dizer com isso?
- Eu, sou a mulher que o senhor procura. Fui informada pelo meu médico do erro que o Centro Clínico cometeu ao fazer o procedimento, que me deixou grávida. Aquela que recebeu a doação de um material genético que não tinha sido doado. Também fui informada de que o senhor queria saber quem tinha sido a recetora, e que ameaçava o Centro com os tribunais e a imprensa. Sei que é poderoso e que o pode fazer, todavia vim informá-lo de que não tenho qualquer culpa do que aconteceu, a criança que trago no ventre é meu filho, e não estou disposta a perdê-lo porque o senhor decidiu armar um arraial, que me deixou de rastos e me fez abortar.
As palavras saíam-lhe aos borbotões, como água que brota da rocha.


6.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE III




Acordou alguns minutos mais tarde, deitada no sofá da sala de recepção, com a secretária do causídico, aspergindo-lhe o rosto, e os dois homens de pé, junto do sofá.
- Sente-se melhor? – perguntou a secretária, para acrescentar de seguida, estendendo-lhe um copo. – Beba um pouco. É água com açúcar, vai fazer-lhe bem.
Aos poucos a cor voltou ao rosto da jovem.
-Sente-se capaz de continuar? – perguntou então o advogado.
- Sim. Peço desculpa, não costumo perder os sentidos, mas a surpresa, o calor, não sei.
Levantou-se. Ainda sentia um tremor nas pernas, mas tal como Cristo no Calvário, ela também não podia afastar de si aquele cálice. Logo, era urgente que o bebesse até ao fim. Voltaram a entrar no gabinete, onde o advogado retomou a leitura do documento. Quando terminou, Eva perguntou:
- Esse testamento é legal? Quero dizer, não me refiro ao património, que o meu marido, deixou ao cavalheiro aqui ao lado. Afinal a casa era herança dele, estava no seu direito. Refiro-me à exigência de que terei que viver seis meses na casa, com uma pessoa que não conheço de lado nenhum, que não sei se é boa pessoa, ou um bandido da pior espécie. Perdoe-me o senhor, - disse sem se voltar para o homem que estava sentado a seu lado, - a minha intenção não é ofendê-lo, estou apenas a constatar um facto. É legal uma pessoa dispor em testamento da vida de outra, como se fora um objeto?
- É legal, quando uma pessoa é menor, ou ainda que seja de maioridade, se  é incapaz de sobreviver sozinha, o que, como é óbvio não é o seu caso. Mas também o é em algumas ocasiões especiais. Por exemplo numa aposta de jogo, as dívidas de jogo só podem ser revogadas pelo tribunal, o que pelo que julgo saber, é o presente caso. E assim sendo, terá que contestar o testamento e preparar-se para uma longa batalha judicial.
- Divida de jogo? Quer dizer que o meu marido, jogou e perdeu a casa e a própria esposa ao jogo? – perguntou verdadeiramente horrorizada.
- Por favor, doutor, se a nossa presença já não é necessária, eu gostaria de esclarecer os factos com esta senhora em particular. – Pela primeira vez, a voz grave e bem modelada do homem a seu lado, fizera-se ouvir.
-Preciso que me assinem estes documentos para fazer os registos. O resto,  suponho que o senhor Alfredo Magalhães, deve ter deixado tudo explicado, na carta que entreguei à dona Eva, no início desta reunião.
Assinaram os documentos, e depois de cumprimentarem o advogado, saíram do escritório. Já no elevador, ele disse:
- Não sei se tem carro ou veio de transporte público. Gostaria que me permitisse acompanhá-la a casa. Não me parece que esteja em condições de andar sozinha na rua, muito menos de conduzir um veículo.
- Que eu lhe permitisse acompanhar-me? – perguntou com ironia. – Não estará a inverter os papéis? Afinal a casa é sua, não é verdade?

12.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXVIII



Luísa acordou com a cabeça pesada. Dormira pouco e mal, preocupada com o desconhecido, levantando-se algumas vezes durante a noite para verificar o seu estado.
Saltou da cama, tomou um duche vestiu-se e foi à cozinha, precisava de uma dose de cafeína que a despertasse por completo. Depois iria ver como estava o doente. O doutor Fonseca dissera que voltava de manhã e decerto o faria antes de ir para o seu consultório.
Fez um café bem forte e bebeu-o deliciada. Nada na vida lhe dava mais prazer do que um café bem forte pela manhã. Especialmente quando se levantava com dores de cabeça, como era o caso.
Depois foi ao quarto ver como estava o doente. Encontrou-o muito melhor e a querer levantar-se. Era como se com a transpiração que tivera de noite, tivesse expulsado a doença. Pôs-lhe o termómetro e verificou que não tinha febre.
- Graças a Deus está bem melhor. Pregou-me um susto. Mas não se vai levantar enquanto o doutor Fonseca não vier vê-lo, vou preparar-lhe o pequeno almoço para que possa tomar a medicação.
Torradas e café, ou prefere outra coisa?
- Uma torrada está bem. Na verdade, não sinto fome.
- Teve febre alta, é normal que não lhe apeteça comer, mas precisa fazer um esforço. Daqui a pouco o doutor Fonseca está aí e fica zangado se eu lhe disser que não comeu.
Com efeito pouco passava das nove e meia quando o doutor chegou. Depois de um cuidadoso exame ao doente disse:
- Meu amigo, estou francamente admirado. Nunca vi um doente no seu estado que tivesse recuperado antes de três a cinco dias. Estou em crer que o meu primeiro diagnóstico estava incorreto. Apesar dos seus sintomas serem em tudo semelhantes aos de uma gripe, o problema seria antes um resfriado, agravado pelo stress emocional da perda de memória. Só assim se explica o desaparecimento de todos os sintomas em tão curto espaço de tempo.
- Quer dizer que não corro perigo se sair desta cama?
- Talvez. Mas diga-me, continua sem se lembrar de nada?
- Nada, doutor. É como se uma borracha tivesse apagado toda a minha memória.
-E dores de cabeça, náuseas, tonturas, visão dupla. Sentiu?
- Dores de cabeça, ontem até meio da noite. Hoje já não.
- Muito bem. O período mais perigoso para um possível traumatismo craniano já passou, mas até que faça as 72 horas, quero que avise imediatamente a Luísa, se sentir algum desses sintomas. Entretanto pode levantar-se e fazer a sua vida normal. Continue a medicação mais um dia, por precaução. 
O homem esboçou um esgar trocista. Ele sabia lá o que era a sua vida normal. Ele nem sequer sabia qual era o seu nome!
- E continuo a pensar que devia ir ao hospital, e fazer alguns exames para tentar descobrir o que lhe provocou essa amnésia - disse o clínico ao despedir-se.
Saiu, e ele levantou-se em seguida. Precisava com urgência de um bom duche que lhe tirasse do corpo aquele cheiro a suor, que parecia ter-se entranhado na pele. Ouviu que o médico falava com a dona da casa. Ela não era uma grande beleza, mas o seu rosto redondo, os cálidos e expressivos olhos castanhos, a boca bem desenhada, o nariz ligeiramente arrebitado, o corpo pequeno, mas bem proporcionado tornavam-na uma mulher bonita e interessante. Todavia, não era apenas o aspeto físico que a tornavam tão atrativa. Era qualquer coisa de sublime, que transparecia no seu olhar e que ele não sabia identificar, mas que sentia, lhe ia direto ao coração.



3.2.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXXIV



O doutor Fonseca voltou meia hora depois com a medicação. Um anti-inflamatório para fazer de oito em oito horas, um anti alérgico, para fazer uma vez à noite e um antitússico, já que o doente apresentava um princípio de tosse seca, irritativa. Também uma embalagem de Paracetamol, para lhe dar no intervalo do anti-inflamatório.
- Bom isto é tudo por agora e se não for nada mais do que uma gripe, amanhã ele deverá estar melhor. E não se esqueça de fazer com que beba muitos líquidos, de preferência chá, por ser uma bebida quente. Mas por favor, esteja atenta, se ele começar a vomitar ou apresentar qualquer outro sintoma diferente, telefone imediatamente para a ambulância; a ferida no rosto parece  indicar que ele bateu com a cabeça e não podemos nem devemos descartar a hipótese de um traumatismo craniano. A Luísa  tem noção de que estou a arriscar a minha carreira ao não enviá-lo para o hospital, não tem? Confio em si, por favor não nos meta em trabalhos.
- Fique descansado, doutor. Vou estar atenta e ao menor sinal de perigo, chamarei a ambulância.
O médico despediu-se e saiu, quando o dia já dava lugar à noite e esta se apresentava serena mas escura, como escuras são as noites sem lua.
Luísa  acendeu a luz do alpendre e foi à horta apanhar umas folhas de erva-príncipe. Foi para a cozinha e pôs uma cafeteira com água ao lume para fazer o chá. Cortou duas rodelas de gengibre para misturar à erva-príncipe, pois em tempos lera num livro que a mistura daqueles dois ingredientes era ótima pois que um era analgésico e anti bacteriano e o outro termogénico e relaxante. Além disso, ela fizera aquela mistura quando o irmão tivera gripe e constatara os seus efeitos benéficos.
Com o chá pronto, encheu uma chávena, pôs umas bolachas num pires e meteu tudo num tabuleiro junto com o anti-inflamatório que o médico trouxera e dirigiu-se ao quarto onde o desconhecido continuava agitado e febril. Poisou o tabuleiro em cima da cómoda e aproximou-se do doente dizendo:
- Vamos lá amigo, vamos sentar, para comer alguma coisa e tomar a medicação. E não me diga que não lhe apetece porque senão chamo a ambulância e vai para o hospital.
Com algum esforço e resmungos, o desconhecido sentou-se na cama. Ela ajeitou-lhe as almofadas atrás das costas, e colocou-lhe o tabuleiro na cama. Ele bebeu um pouco de chá e pegou no comprimido, mas ela tirou-lho da mão dizendo:
- Não senhor. Primeiro vai comer umas bolachas e depois sim, toma o comprimido. Isto é um anti-inflamatório. Nunca se tomam com o estômago vazio.
O homem fez uma careta, mas acabou comendo três bolachas. Depois pegou na chávena com uma mão, estendeu a outra e pediu:
-Por favor!
Luísa deu-lhe o medicamento, esperou que ele lhe desse a chávena vazia, pôs o tabuleiro em cima da cómoda e esperou que o homem se deitasse. Arranjou-lhe a almofada e colocou a sua mão sobre a testa dele para verificar a temperatura. Ele pegou-lhe na mão, e levou-a aos lábios dizendo:
- Muito obrigado. Agora sei que é verdade. Os anjos existem mesmo.
Ela apressou-se a virar-lhe as costas para esconder a sua perturbação, e pegando no tabuleiro, saiu do quarto sem responder.


Amigos o meu pc está doente. Vai hoje para o hospital. Tenho posts programados para os próximos dez dias. Vamos ver se a cura não é demorada, porque trabalhar com o Smartphone para mim não dá. 


13.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE V


No dia seguinte fez os exames que o médico lhe prescrevera. E ficou aguardando que passassem os dez dias para saber o que na verdade se passava consigo. Quando o dia chegou, passou no laboratório de manhã a apanhar o envelope com os resultados,  antes de ir para o emprego e à tarde quando saiu, foi ao consultório levá-lo ao médico. Desta vez, talvez porque já fosse tarde, a sala de espera estava vazia. Apenas a assistente do médico se encontrava na sua secretária folheando uma revista esperando por certo, que o médico desse o dia por terminado ou quem sabe esperasse ainda por algum retardatário . 
- Boa tarde. O senhor doutor está? Tenho aqui o resultado das análises que ele me pediu.
- Boa tarde, – respondeu a assistente. - Espere um pouco. Vou ver se o doutor o pode atender agora.

Afastou-se e entrou no consultório depois de ter batido suavemente à porta. Segundos depois saía.
Pode entrar, - disse afastando-se para o deixar passar e fechando a porta nas suas costas.  
 Já na sala, Pedro cumprimentou o médico e estendeu-lhe o envelope. Como da primeira vez, olhou à sua volta com desconfiança enquanto o médico abria o envelope e se embrenhava no resultado das análises.
Pensou que a sua desconfiança se devia ao facto, de em criança, ter caído e ficado com um enorme corte, num joelho, que teve que ser cosido. Porém desta vez, ao olhar o médico, foi invadido por um receio maior. Teve a certeza que qualquer coisa de muito grave se passava consigo. Foi algo que leu, no olhar receoso que o médico lhe lançou.
- Então Doutor, o que dizem as minhas análises?
 – Bem, tem que fazer repouso absoluto. Vou receitar-lhe umas injeções e umas cápsulas. E também...
 – Doutor, – interrompeu Pedro, certo de que o facto de o médico não responder à sua pergunta, configurava um caso muito grave. – Não sei o que vi nos seus olhos, mas tenho a certeza de que não é nada bom. Não será com repouso que resolvo o meu problema, e o Doutor sabe-o. Quero saber a verdade. Tenho direito a isso. Vivo com a minha mãe, que já ultrapassou os setenta anos e para quem sou tudo o que tem na vida. E é por ela, que preciso saber a verdade.
- Meu jovem, pede-me a verdade e esta por vezes é muito cruel. Quisera dizer-lhe que está enganado, que nada do que pensa é verdade, mas infelizmente só posso dizer-lhe que às vezes os milagres acontecem.





E porque hoje é Sexta-Feira 13 quem quiser conhecer uma história verdadeira é só carregar no link 

21.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXIII






Mal saíram dali, Miguel levou a jovem directamente para a clínica.
O médico já não estava, mas a empregada ao ouvir o relato do que tinha acontecido, disse;
- O que relata, são sintomas de um ataque de pânico. Vou ligar ao Doutor, explicar a situação, e vamos ver se ele autoriza a marcação para amanhã, uma vez que já tem a agenda preenchida.
 Fez a ligação e depois…
- O doutor disse para virem amanhã às duas. As consultas começam às três, ele vai atendê-los antes.
- Muitíssimo obrigado. Até amanhã.
O resto do dia foi tão sombrio, como noite sem lua. Miguel estava muito preocupado. Questionava-se, sobre como devia agir. Denunciar a situação da jovem à polícia e esperar que eles tomassem uma decisão, quanto ao destino dela? Era o mais razoável. Mas, como explicar a demora na denúncia do caso,  e os mais quinze dias que levavam juntos? E como arrancar do peito, aquele sentimento, mistura de carinho e pena que a jovem despertara nele? Desde que os pais tinham morrido, que vivia sozinho. Aventuras amorosas, tivera muitas. Fugazes, sem consequências. Gostava da sua vida de boémio, de partir para qualquer lado quando lhe apetecia, sem se preocupar com nada, nem ninguém. Tinha vários amigos, ali, na cidade, como tinha em Lisboa. Pintores, escritores, escultores. Gente ligada às artes como ele. Alguns tinham ao longo dos tempos, encontrado alguém com quem dividiam a vida e os sonhos. Ele não. Nunca sentira nada tão avassalador por alguém que o levasse a ponderar deixar o celibato. E aos quarenta e cinco anos,  já não acreditava  possível, que tal viesse a acontecer.
Quando viu a jovem tão nova, tão frágil, completamente perdida, sentiu que tinha que ajudá-la. Era como se o céu lhe enviasse uma filha. Claro que pôs a hipótese de que em algum local, alguém podia estar em sofrimento por causa do seu desaparecimento. Mas todos os dias comprava o jornal, ouvia as notícias na rádio e não havia nenhum apelo, nenhuma foto, nenhuma notícia na rádio, nada que se relacionasse com ela. Porém aquele episódio à tarde, deixou-o em sobressalto. E se ela sofria  de algum grave transtorno psiquiátrico? E se tinha fugido de alguma clínica do género? Atormentava-se sem saber  o que fazer e como  fazê-lo. Ir-se embora, deixando-a na casa, mesmo pagando todas as despesas, e contando com a ajuda de  Adélia, que entretanto  se fora também afeiçoando à jovem, não era viável.
Pedir ao médico que lhe aconselhasse uma boa clínica, para a internar, era o mais razoável, mas a ideia de a deixar num ambiente hostil, repugnava-lhe. Estava, como a avó Ermelinda costumava dizer, entre a Cruz e a Caldeirinha.







14.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVI





Não tiveram que esperar muito, para que a assistente do médico, chamasse por Miguel. Este deu a mão à jovem tentando incutir-lhe coragem. Ao vê-los entrar, o médico disse;
-Só o senhor por favor. A jovem, aguarda lá fora.
- Mas a consulta é para ela, doutor.
- Como assim? Aqui diz, Miguel Fernandes
-É que ela não sabe como se chama. E tinha de dar um nome, por isso dei o meu.
- Ela não sabe como se chama? E o senhor também não sabe o nome dela? - Estranhou o médico
- Não doutor. Nunca a tinha visto até ontem.
- Bem, - disse o médico recostando-se na cadeira, - o melhor é sentarem-se e contarem-me essa história.
Miguel contou como percebeu que a jovem se ia suicidar, como contra a sua vontade, a tinha salvado, o desmaio e depois a falta de memória da jovem quando acordou. 
-A falar verdade, - acrescentou, nem sequer sei se a perda de memória aconteceu naquela altura, ou se já existia antes.
O médico ouviu com atenção e depois pediu a Miguel para se retirar, e esperar na sala.
Depois que ele saiu, o médico fez algumas perguntas à jovem, nomeadamente se ela se lembrava da tentativa de suicídio, constatando que ela não sabia nada, a não ser o que Miguel contara. Depois, examinou-lhe os olhos, fez-lhe alguns testes simples, como seguir com o olhar um objecto ou responder a uma frase, com a primeira coisa que lhe viesse à cabeça, coisa que a jovem teve dificuldade em fazer, talvez porque se sentia perdida e cada vez mais nervosa. Por fim o médico deu-lhe uma folha em branco, pedindo-lhe que escrevesse nela o que lhe viesse à cabeça. A jovem olhou para o papel, pensou uns instantes e traçou uns riscos imprecisos que não significavam nada.
Então o médico pediu-lhe que chamasse Miguel.
Quando ele entrou, o médico disse:
-A jovem está com amnésia, que pode ser, ou não, temporária. Talvez, não saiba, mas a amnésia, pode ter origem emocional, ou física. Vamos supor que esta jovem sofreu um grande desgosto.  A perda de alguém querido, por exemplo,  é sempre um choque emocional muito grande, e isso pode ter-lhe provocado a amnésia. Mas também pode ter um problema físico. Um tumor, uma infecção no cérebro, certos tipos de doença bipolar, problemas da  glândula  hipófise, doenças crónico-degenerativas do sistema nervoso uma pancada na cabeça, enfim tanta coisa que pode provocar a amnésia. Ela tem-se queixado de dores de cabeça?
- Não doutor. Pelo menos ontem e hoje não.
- Bom, eu inclino-me mais para um distúrbio emocional. Mas não podemos descartar nenhuma das hipóteses. Para já, acho-a demasiado nervosa, e muito ansiosa.  Vou receitar-lhe o Lexotan.  Vai tomar meio comprimido à noite, durante cinco dias. A partir do sexto dia, passa a tomar um comprimido inteiro.  É  um ansiolítico, fraquinho,  só para ficar mais calma e menos ansiosa. É bom que não exceda a dose, para não corrermos o risco de provocar o efeito contrário. Entretanto vai fazer uma ressonância magnética do crânio, para detectarmos se existe alguma anomalia física. Só depois disso, podemos saber, que caminho trilhar.
 - E não se pode fazer mais nada?- Perguntou Miguel.
-Dê-lhe um bloco de desenho. E traga-me os seus desenhos quando voltar. Pode ser que deixem transparecer alguma coisa.
E voltem assim que tiverem a RM.
- Obrigado doutor.