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11.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE III

- Está nervoso? - perguntou Pedro, mais para aquietar o outro do que por curiosidade.
- É a primeira vez que venho ao médico – respondeu o jovem – sempre fui saudável, mas ultimamente não sei o que tenho. Faltam-me as forças, canso-me a andar, não me apetece comer, e durmo mal. Não é normal na minha idade. E você?
 – Bem, a mim acontece-me mais ou menos o mesmo. - respondeu Pedro. É por isso que aqui estou. Também é a primeira vez.
- Pedro Medeiros chamou a assistente do médico.
Ele levantou-se mais nervoso ainda. Seguiu a assistente por um curto corredor, e atravessou a porta do consultório que ela lhe abrira.
Na sua frente estava uma sala com uma enorme secretária, atrás da qual se encontrava um homem dos seus cinquenta anos, cabelos grisalhos, e uns olhos que se escondiam atrás dos óculos de grossas lentes. Vestia uma bata branca. Ao lado da secretária um biombo branco escondia talvez alguma maca, ou marquesa, como dizia a sua mãe. Ao canto um aparelho grande, branco. "Deve ser o tal da radioscopia," - pensou.
- Sente-se, - disse o médico de mão estendida, apontando a cadeira vazia na frente da secretária. A assistente, poisou a ficha do doente na frente do médico e saiu
 fechando a porta atrás de si.
- Ora então diga-me lá, de que se queixa, senhor... - olhou para a ficha e continuou - Pedro Medeiros, não é verdade? 
O jovem assentiu com a cabeça, em vez de responder. Sentia-se intimidado. Engoliu saliva e a custo, explicou os sintomas. Quando acabou, o médico levantou-se, colocou o estetoscópio e disse:
- Passe ali para trás do biombo e dispa a camisa:
Pedro levantou-se e fez o que o médico lhe mandara. Este aproximou-se dele e fez um demorado exame, ao mesmo tempo que lhe mandava respirar fundo, e tossir. Depois  dirigindo-se à secretária pegou no 
esfigmomanómetro e mediu-lhe a tensão arterial. Por fim mandou-o deitar, apalpou-lhe a zona do fígado, do estômago, do apêndice. Mirou-lhe os olhos e mandou-lhe pôr a língua para fora. Endireitou-se e disse:
- Agora venha aqui a este aparelho.
Pedro seguiu-o cada vez mais nervoso, e foi fazendo o que o médico lhe pedia. Uns minutos depois o clínico deu o exame por terminado e dirigindo-se para a secretária disse:
- Pode vestir-se.
E começou a rabiscar algo. Quando ele se sentou já vestido, o médico disse:
- Não lhe encontro nada de nada. Mas para afastar qualquer hipótese, e ver se descobrimos a razão dos seus sintomas, vai fazer umas análises e volta quando tiver os resultados.
E dizendo isto estendeu-lhe a folha onde antes estivera a escrever.
Pedro, pegou na folha e balbuciando um obrigada dirigiu-se à porta e saiu. Antes ainda ouviu a última recomendação do médico:
- Dê uns passeios e distraia-se.


10.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE II




Perdera o apetite, e em consequência, alguns quilos. Sentia-se cansado, nervoso, e uma estranha opressão instalara-se-lhe no peito. A princípio nem ligara, porém os sintomas foram-se tornando mais insistentes, e a mãe começou a insistir com ele para que fosse ao médico. Um seu irmão tinha morrido nos anos antes de tuberculose, e ela estava muito preocupada. Por isso Pedro decidiu que ia ao médico, mais para descansar a sua velha mãe do que por vontade própria.
Estava-se nos primeiros anos da década de cinquenta, do século XX e os meios de diagnóstico no Barreiro, onde nem um hospital havia, eram quase nulos. Havia alguns médicos que tratavam de tudo e mais alguma coisa, já que as especialidades médicas eram muito raras.Quando os médicos não se entendiam com a doença, ou o caso era grave, mandavam-no para um hospital na capital.  
Todavia havia um médico que possuía um aparelho de radioscopia, no qual diziam que as pessoas se encostavam e o médico via logo o coração e pulmões. De modo que Pedro resolveu marcar consulta para esse dia, e por isso saiu mais cedo do escritório.
 A consulta estava marcada para as cinco, e ele chegou ao consultório faltavam quinze minutos para a hora marcada.
Sentou-se na sala de espera e olhou em volta. A sala de espera era simples, toda pintada de branco, com cadeiras a toda a volta, de madeira clara. Pinho, talvez. Numa das paredes o juramento de Hipócrates, numa imitação de papiro emoldurada. Na outra um quadro com uma floresta em tons dourados e vários pássaros esquisitos espreitando entre as folhagens.
Sentadas, sete pessoas aguardavam a sua vez. Uma mulher de meia-idade, de luto pesado, ostentava no dedo anelar duas alianças. Uma viúva – pensou Pedro. Depois três homens. Um deles com um grande bigode de longas guias retorcidas. Vestia bem e devia ter um grande orgulho no seu bigode. Ridículo, pensou antes de afastar o olhar para o seguinte. Este era um homem baixinho, de olhos pequenos e vivos. Vestia mal e tinha mãos grosseiras. Trabalhador de uma qualquer das quintas que existiam na zona, - deduziu. O outro era segurança da C.U.F., bastava ver a farda. Teria saído do trabalho directo para o consultório. A seguir uma mulher ainda jovem grávida.
Ostentava uma enorme barriga, que a julgar pelo tamanho estaria muito perto dos nove meses.
De cabeça encostada à parede, tinha os olhos fechados e uma cor macilenta. As pernas esticadas estavam anormalmente inchadas. Coitada, deve ser um sacrifício caminhar, - pensou.
A seu lado uma mulher mais velha, vestida de preto, passava-lhe de vez em quando um lenço pelo rosto. Apesar de não encontrar entre as duas grande semelhança, Pedro pensou que devia ser a mãe da jovem ou talvez, quem sabe, a sogra.
E finalmente a seu lado um jovem, talvez um pouco mais novo que ele. Era alto, magro, de grandes olhos escuros, rodeados por profundas olheiras violáceas. As suas mãos de dedos longos, não paravam quietas.

1.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XL






 Entretanto no  estúdio, Miguel acendeu um cigarro. Estava nervoso. Não conseguia deixar de pensar que em breve, Mariana ia embora, da sua casa. E na mudança que isso ia trazer à sua vida. Ele podia voltar à sua antiga vida de  boémio, mas sentia-se cansado e começava a questionar-se sobre a finalidade dessa vida.
Ultimamente já nem as saídas à noite lhe interessavam. A busca do prazer, pelo prazer, já o cansava. "Estou a ficar velho" ,- pensava.
A estadia da jovem lá em casa, tinha sido uma lufada de ar fresco na sua vida. Por causa dela, contratara Luísa, e passara a fazer as refeições em casa, coisa que não fazia, desde que os pais morreram. Ela enchia a casa, com seu jeito suave, os seus silêncios, os seus sorrisos. Aquecia-a com a sua presença. Agora a casa ia ficar vazia. E fria.
Começava a pesar-lhe a solidão. Tinha-se afeiçoado à jovem, gostava dela como se fosse seu pai. Mas não era, e portanto era natural que a jovem quisesse voltar à sua casa, e viver a sua vida longe dele. Mas doía-lhe. E como doía.
Como seria a vida dela, quando se fosse embora? Teria o pai, deixado à jovem, meios suficientes para a sua sobrevivência?  E se assim não fosse? Do que ia  ela viver, se não tinha mais ninguém no mundo? Talvez tivesse 
 que abandonar os estudos e ir trabalhar. Mas em quê, se não tinha experiência de coisa nenhuma? E depois cada vez havia menos empregos e mais desempregados. Por outro lado, não lhe agradava que abandonasse os estudos. Ele  podia pagar-lhos. Mas, ela aceitaria? Uma coisa era a jovem desmemoriada, carente  e totalmente dependente dele. Outra bem diferente a jovem que ele tivera à pouco, na sua frente. A segurança com que ela dissera. “Deixemos isso para depois das festas” quando ele sugerira que teriam de ir ao Algarve, era prova evidente que a jovem se libertara e  já não precisava dele.
Estava irritado, inquieto.
Não sabia o que se passava com ele, mas ficava sempre assim, quando pensava que um dia a jovem ia recuperar a memória e partir.  
Ouviu as jovens conversarem em baixo, sinal de que já tinham regressado. Relaxou. Ficava mais calmo, quando a sabia por perto.
Na tela, exposta no cavalete, a jovem, deitada na relva, parecia querer perguntar-lhe alguma coisa.

10.2.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE XXXV




Paulo chegou pontualmente às onze horas. Beijou a idosa e ajudou-a a entrar no carro, depois acariciou a cabeça de Martim e só então se virou para Amélia, e lhe roçou os lábios com uma caricia tão suave que mais parecia um beijo de brisa. Arqueou uma sobrancelha, num gesto que ela já reparara, ele repetia quando algo o preocupava, e perguntou quase num sussurro.
- Que se passa? Estás bem?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça e apressou-se a entrar no carro. Ele sentou-se ao volante e arrancou. Durante o trajeto Martim não se calou. Estava muito feliz por ir passar o dia com os seus novos amiguinhos.
Na quinta, todos estavam entusiasmados com a perspetiva da próxima boda e as mulheres trocavam ideias para a decoração da casa e a ementa. Paulo queria contratar uma empresa de “catering” mas elas queriam fazer a festa, já que a cerimónia seria íntima, e apenas os colegas de Amélia estariam presentes, além da família. Ao fim de algum tempo, ele acabou convencendo-as. Afinal ele queria que todos estivessem felizes com aquela boda, não queria ver ninguém atarefado e nervoso com medo de que alguma coisa corresse mal.  Resolvida esta questão, passaram às seguintes. Matilde iria levar as alianças, os meninos seriam os pajens, Alfredo e a esposa os padrinhos de Paulo. Amélia, ainda não falara com o irmão, de férias em Cabo Verde, e teria que lhe ligar, para saber se ele aceitaria ser o seu padrinho, ou se convidava Carlos e a esposa. O tempo era muito curto para preparar tudo mas Paulo não queria de modo algum prolongar o prazo. De resto o facto do irmão de Amélia estar em Cabo Verde não seria impedimento para ela falar com ele, que teria decerto o seu telemóvel à mão. As roupas e calçado, compravam-se num dia. Ele sabia que talvez Alfredo, não tivesse disponibilidade financeira para tanta despesa, mas mais tarde quando estivessem sozinhos resolveria esse problema.
Depois do almoço, os dois foram a Alvaiázera, a vila mais próxima, para falar com o padre. Alfredo informou-os que a igreja estava aberta todo o dia, e que quando o padre não estava por lá, estava em casa, mesmo ao lado da sacristia.
O sacerdote era um homem de idade avançada e rosto afável que os recebeu com cordialidade, e se mostrou contente por eles procurarem a bênção divina para o casamento, numa época em que as pessoas cada vez se casavam menos.
Depois de ouvirem atentamente as recomendações do sacerdote, despediram-se ficando a cerimónia marcada para quinze dias depois,  às onze horas.


PORTUGAL ACABA DE SE SAGRAR CAMPEÃO EUROPEU DE FUTEBOL.
PARABÉNS PORTUGAL



E como hoje é sábado de Carnaval, eis-me pronta para a farra.  Rsrsrs



21.9.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE II




Perdera o apetite, e em consequência, alguns quilos. Sentia-se cansado, nervoso, e uma estranha opressão instalara-se-lhe no peito. A princípio nem ligara, porém os sintomas foram-se tornando mais insistentes, e a mãe começou a insistir com ele para que fosse ao médico. Um antepassado seu tinha morrido nos anos quarenta de tuberculose, e a mãe estava muito preocupada. Por isso Pedro decidiu que ia ao médico, mais para descansar a sua velha mãe do que por vontade própria.
Naquele tempo não existiam os modernos meios de diagnóstico, nem especialistas de tudo e mais alguma coisa como hoje. Pelo menos na sua terra. Mas havia um médico que possuía um aparelho de radioscopia, no qual diziam que as pessoas se encostavam e o médico via logo o coração e pulmões. De modo que resolveu marcar consulta para esse dia, e por isso saiu mais cedo do escritório.
Chegou ao consultório faltavam quinze minutos para as cinco. A consulta estava marcada para as cinco.
Sentou-se na sala de espera e olhou em volta. Era uma sala simples, toda pintada de branco, com cadeiras a toda a volta, de madeira clara. Pinho, talvez. Numa das paredes o juramento de Hipócrates, numa imitação de papiro emoldurada. Na outra um quadro com uma floresta em tons dourados e vários pássaros esquisitos espreitando entre as folhagens.
Sentadas, sete pessoas aguardavam a sua vez. Uma mulher de meia-idade, de luto pesado, ostentava no dedo anelar duas alianças. Uma viúva – pensou Pedro. Depois três homens. Um deles com um grande bigode de longas guias retorcidas. Vestia bem e devia ter um grande orgulho no seu bigode. Ridículo, pensou antes de afastar o olhar para o seguinte. Este era um homem baixinho, de olhos pequenos e vivos. Vestia mal e tinha mãos grosseiras. Trabalhador de uma qualquer das quintas que existiam na zona, - deduziu. O outro era segurança da C.U.F., bastava ver a farda. Teria saído do trabalho directo para o consultório. A seguir uma mulher ainda jovem grávida.
Ostentava uma enorme barriga, que a julgar pelo tamanho estaria muito perto dos nove meses.
De cabeça encostada à parede, tinha os olhos fechados e uma cor macilenta. As pernas esticadas estavam anormalmente inchadas. Coitada, deve ser um sacrifício caminhar, - pensou.
A seu lado uma mulher mais velha, vestida de preto, passava-lhe de vez em quando um lenço pelo rosto. Apesar de não encontrar entre as duas grande semelhança, Pedro pensou que devia ser a mãe da jovem ou talvez, quem sabe, a sogra.
E finalmente a seu lado um jovem, talvez um pouco mais novo que ele. Era alto, magro, de grandes olhos escuros, rodeados por profundas olheiras violáceas. As suas mãos de dedos longos, não paravam quietas.