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3.3.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXVI

 


Dirigiu-se à cozinha, onde Isilda punha o almoço no carrinho que o marido levaria ao doente.

- Joaquim – disse ela, -  se o doente lhe pedir para fechar as cortinas, não o faça. De hoje em diante não mais o quero, no quarto às escuras.

- Está bem, menina. O doutor Azevedo já nos avisou que eram as suas ordens que tínhamos de cumprir e não as do doutor Tiago. Só espero que ele não nos despeça.

- Não poderá fazê-lo. Tudo o que fazemos é em prol da sua recuperação e tenho a certeza de que daqui a uns tempos ele compreenderá isso. Agora pode ir antes que o almoço arrefeça.

-Que lhe disse? – perguntou o doutor Azevedo enquanto se sentavam à mesa.

- Que amanhã iniciaríamos os tratamentos, com ou sem a sua cooperação e que não ia admitir que mantivesse o quarto às escuras.

Creio que nesta fase é necessário contrariá-lo, espicaçar o seu amor próprio, desencadeando-lhe a raiva e o desejo de mostrar que estou errada. Sei que não vai ser fácil e estou preparada para que me agrida verbalmente na tentativa de que faça como as outras profissionais que me antecederam. Quando vir que nada do que me disser me fará desistir, começará a colaborar, quanto mais não seja para que o deixe em paz.

 Oxalá esteja certa. Deixei o plano de tratamentos na gaveta da secretária que está na sala de tratamentos. De qualquer modo, telefonarei amanhã à noite para saber como foi o dia. 

-Pelo que me disse do seu sobrinho, penso que se me mostrar dócil, e me mostrar magoada com a sua atitude, não vou conseguir outra atitude do que aquela que tem tido. E muito menos se perceber que tenho pena dele. Nenhum homem aceita bem a compaixão, muito menos alguém como o doutor Tiago. Ele queixa-se de dores, toma algum tipo de medicação?

-Penso que não. Na última consulta que fez no hospital, receitaram-lhe analgésicos e  antidepressivos. Mas o Joaquim diz que ele se nega a tomá-los. O neurocirurgião, queria enviá-lo para o Alcoitão para a sua recuperação, mas ele recusou e pediu alta. Quanto tempo pensa que ele levará até começar a reagir?

- Não me atrevo a tentar adivinhar. Não será nada fácil. Primeiro ele terá de aceitar o que lhe aconteceu, não só fisicamente, como o fim dos sonhos que teria com a noiva. E entender que a vida segue em frente, só pára quando morremos e que por isso é necessário acompanhá-la. Seria muito mais fácil se ele aceitasse a ajuda psicológica.

Todavia não vi o relatório dos médicos, não sei qual a lesão exata que ele terá. E como o doutor sabe, alguns danos na coluna são irreversíveis, outros são pouco importantes, mas entre os dois existe uma infinidade de lesões mais ou menos graves. Vou dar o meu melhor, mas não posso prometer milagres.

- Os relatórios estão com os pais, mas eu já os li. A cirurgia corrigiu o estrago maior, e segundo eles, não há nenhuma lesão irreversível. Ele tem alguma sensibilidade nas pernas, mas é incapaz de andar, ou mesmo suster-se de pé sem apoio. A opinião do neurocirurgião, é que ele pode recuperar por completo o uso das pernas, mas precisa de muita fisioterapia de estimulação e recuperação além claro, da força de vontade. A fisioterapia que lhe receitei é baseada nessa afirmação.

O resto da refeição, decorreu em silêncio e pouco depois, o doutor despedia-se do sobrinho e partia em direção à capital.


21.6.21

COMEÇAR DE NOVO PARTE XXII

 


Encontravam-se sentados num banco de jardim num dos locais menos frequentados do parque, longe da zona onde estavam os baloiços e os escorregas, que faziam as crianças encher o ar de risos e gritos. Depois de alguma troca de mensagens, Lena aceitara encontrar-se com Gonçalo naquele local, já que não podia convidá-lo para sua casa, e um restaurante ou café, cheio de turistas nas férias da Páscoa, não lhe pareciam ser um bom local por recear exaltar-se com Gonçalo.

Ela não entendia porque ele procedia como se não a conhecesse e insistisse que tinham de falar. Quase lhe disse que não queria qualquer conversa com ele, mas então lembrou-se do enorme desejo que a filha tinha em saber quem era o pai, e conteve-se.

Dias antes, quando se preparava para levar a filha do hospital para casa, perguntara ao médico, se a filha poderia viajar para a aldeia e como ele não vira inconveniente, desde que tomasse os cuidados por ele recomendados, no dia seguinte viajaram para a aldeia, onde Matilde tinha todos os cuidados e mimos da mãe e avós.

E até os primos, já de férias com os avós, embora sem a presença dos pais, que por razões profissionais, só chegariam no fim de semana, respeitaram as limitações dela, limitando-se a fazer-lhe companhia em casa, ou a acompanha-la nos curtos passeios, sem as brincadeiras do costume.

Nesse mesmo domingo, depois do almoço, enquanto a filha descansava na cama, Helena mandara a primeira mensagem a Gonçalo. Nela lhe agradecia o livro que oferecera à filha, o cuidado que tivera com a menina.

Não telefonara, porque receava o desabar dos seus sentimentos e a raiva que sentia por ele fingir que não a conhecia.

Ele respondera. Pedira mais uma vez para falar com ela, era muito importante.

Ela não respondera e Gonçalo enviara outra mensagem. Decidido a resolver o problema que o atormentava há tantos anos, ele suplicara-lhe, pelo amor que ela tinha à filha.

Era uma chantagem sentimental, ela percebeu, mas também decidida a acabar com aquela história, tanto mais que agora sabia que em qualquer lugar ou a qualquer hora se podiam cruzar, ela aceitara.

Ele respondera agradecendo e informando que nessa semana estava no hospital das oito da manhã às quatro da tarde, pelo que só se poderiam encontrar depois dessa hora. Mais mensagens foram trocadas até que o dia, o local, e a hora foram combinados.

Assim ali estavam os dois naquela Quinta feira Santa, sentados num local público, mas suficientemente isolados para poderem conversar.

-Boa tarde - saudou Gonçalo ao chegar ao local indicado estendendo-lhe a mão num cumprimento social, acrescentando em seguida. Obrigado.

 

- Penso que antes de mais me deve uma explicação para esta quase perseguição para que o escute, - disse nervosa, o corpo tremendo com aquele aperto de mão.

Sentaram-se. Por motivos diferentes ambos estavam tensos, sem saber bem o que um podia esperar do outro ligados por um passado comum que apenas um recordavam. Então depois de uns segundos de silêncio, que a Helena pareceram intermináveis ele começou.

Para que perceba a minha insistência e o meu desespero tenho que lhe dizer que há quase 14 anos tive um terrível acidente de moto. Sobrevivi por milagre depois de mês e meio em coma no hospital…

 

30.6.20

ISABEL - PARTE XXXV


foto do google

Quando os três chegaram ao hotel, onde ia decorrer o lançamento de “Vidas cruzadas”, o segundo livro de Nuno Fraga, já o evento tinha começado há muito. Na verdade, Afonso esquecera os convites, tiveram que voltar atrás, o trânsito estava caótico e por isso quando chegaram, a parte da apresentação já tinha decorrido. O local estava apinhado. Muita gente conhecida, gente da rádio e TV. Também muitos jornalistas e fotógrafos. Todos queriam conhecer o escritor da moda. Este encontrava-se sentado numa secretária onde autografava os livros que lhe iam apresentando. Estrategicamente colocada,  outra mesa repleta de livros. Também havia várias mesas com doces e salgados bem como água e outras bebidas. As duas amigas compraram, o livro e dirigiram-se à mesa do autor para recolher o seu autógrafo. Quando Isabel finalmente conseguiu vê-lo, empalideceu, deixou cair o livro, e sem se preocupar em apanhá-lo dirigiu-se para a porta de saída deixando a amiga espantada. Luís também a viu. Cerrou os punhos e apertou-os com raiva. Desejou largar tudo e segui-la, mas sabia que não podia fazê-lo. Pelos seus leitores que aguardavam pacientes na fila, a sua atenção. Mas também por ela. Bastava que a chamasse para atrair sobre ela a curiosidade dos jornalistas ali presentes. Continuou pois a sessão enquanto Amélia e Afonso se dirigiam para o carro onde Isabel já os esperava.
- Que aconteceu Isabel? – perguntou-lhe a amiga. Estás a tremer.
- O Luís, - murmurou
- O Luís? – admirou-se a amiga - Mas o que é que tem o Luís?
- É ele.
- Ele quem, mulher? O escritor?
Acenou com a cabeça, os olhos marejados de lágrimas.
Virando-se para o companheiro Amélia disse:
- Afonso por favor volta para lá. Nós vamos tomar qualquer coisa ali na pastelaria em frente e já lá vamos ter.
- Não se preocupem. Eu vou. Afinal de contas ainda não tenho o autógrafo do autor.
Quando ficaram sós, Amélia disse.
- Não fiques assim. Deve haver uma explicação.
- Claro que há. Servi de cobaia ao escritor da moda. Quem sabe até devia sentir-me honrada, - disse com amargura.
 - Como tu sofres Isabel. Sabia que estavas apaixonada, mas não pensei que fosse um sentimento tão intenso.
-Como é que eu ia adivinhar? Se nunca tinha visto nenhuma fotografia dele? E depois parecia tão sincero, era tão convincente, que pelas suas palavras fui alimentando sonhos e sentimentos. Só mentiras. Estou destroçada. Por favor Amélia, leva-me a casa. Quero ficar sozinha.
- Claro. Vou ligar ao Afonso. Levo-te a casa e volto depois. Quero ver melhor esse homem.
Mas quando meia hora depois voltou, Afonso já se encontrava cá fora com o livro autografado, e não teve ensejo de rever o escritor.



14.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE VI





- Um cancro, Doutor? - a voz saiu-lhe a medo, certo da resposta.
O médico assentiu em silêncio. Depois...
- Mais concretamente, uma leucemia. Existem vários tipos de leucemia e alguns são agudos, e estes são muito rápidos. Creio que é o seu caso atendendo a ser a primeira vez que se queixa e aos valores que as análises apresentam.
O silêncio que se seguiu parecia de chumbo. Por fim, Pedro perguntou:
- Não se pode fazer nada?
 –Com estes valores é impossível. Se me tivesse procurado mais cedo, eu podia enviá-lo para um hospital em Lisboa, onde lhe fariam um mielograma,  para terem uma noção exata do estádio em que se encontrava a doença, e com transfusões de sangue e quimioterapia, podiam controlá-la, até fazer um transplante de medula, única hipótese de cura.  Neste momento é demasiado tarde. A doença está na fase terminal, só um milagre o poderia salvar. Lamento, não sabe o que me custa dizer-lhe isto, mas como o senhor disse, tem direito à verdade. Segundo o laboratório diz aqui, porque os resultados eram muito graves eles tiveram o cuidado de os confirmar. Se quiser pode procurar outro médico. Num caso destes, está no seu direito de duvidar do meu diagnóstico.
- Obrigado Doutor, confio no senhor, não tenciono consultar mais ninguém.
Naquele momento, Pedro sentia vontade de gritar, de bater no médico, de destruir o mundo. À raiva inicial, seguiu-se uma enorme vontade de correr para casa, esconder a cara no regaço materno, e chorar como fazia em criança, quando alguma coisa o fazia sofrer. Por fim, sentindo a cada momento as forças a desmoronar dentro de si, perguntou:
- Quanto tempo? Quanto tempo me resta?
 – Não sei, ninguém pode dizer com precisão. Algumas semanas, um mês, no máximo uns três meses.
- Obrigado, Doutor, muito obrigado.
Levantou-se e dirigiu-se para a porta, sob o olhar consternado do clínico
 – As suas análises -lembrou o médico.
 Saiu sem se voltar, como se não o tivesse ouvido.  




22.7.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE IV




O rapazinho, encolheu-se mais na cama ao ouvir os gritos do pai.
-Outra vez, não,- gemeu tapando os ouvidos com as mãos.
Era sempre assim, quando o pai vinha bêbado para casa. O pai gritava com a mãe, e batia-lhe. E o pior é que ultimamente o pai vinha todos os dias bebado. Nessas alturas, Rui ficava cheio de raiva contra o pai. Queria crescer para poder enfrentá-lo. Às vezes pensava que se pudesse o mataria.
Até ele chegou um baque surdo e ouviu nitidamente o choro da mãe. Ele estava a bater-lhe de novo. Sem poder conter-se saltou da cama e dirigiu-se à cozinha, local donde vinham os gritos.
Sabia que o pai lhe iria bater mal chegasse lá, mas não se importou.
Naquele momento o pai tinha a mão fechada e preparava-se para a deixar cair de novo no rosto da mãe.
O menino arrancou, com o ímpeto dos seus onze anos e arremeteu com toda a força contra o pai. Este cambaleou, desequilibrou-se e caiu para trás, bateu com a nuca na esquina da mesa e finalmente imobilizou-se no chão.
Por momentos mãe e filho ficaram imóveis esperando que ele se levantasse.
Como isso não aconteceu, a mãe com o rosto ferido, e um olho violáceo, resultado dos maus tratos do marido, baixou-se tentando ajudá-lo, mas ao ver os seus olhos, e a poça de sangue que se ia formando à volta da sua cabeça,  teve a certeza de que ele nunca mais lhe faria mal.
Levantou-se e encarou o menino.
-Está morto, filho, -disse quase sem voz
O menino estava a tremer.
-Matei-o? - Perguntou assustado.  
- Não, filho, não. Fui eu quem o empurrou. Estava cansada de apanhar pancada. Mas não queria matá-lo.
- Mas mãe…
-Nem mas, nem meio mas. Ficas proibido de dizer o contrário, - disse erguendo a voz autoritária. - Agora vai bater à porta da vizinha e pede-lhe que chame a polícia. Mas vê lá o que fazes. Aconteça o que acontecer, fui eu quem empurrou o pai. Ouviste?
- Sim mãe. 
A tremer, de frio e de medo, abriu a porta para ir chamar a vizinha.


Ó p'ra vocês a franzirem a testa e a perguntarem: " Donde saiu este episódio? Quem é este Rui? Será que a autora exagerou no alentejano do jantar de ontem?" 
Gente estou a brincar para aliviar um pouco a violência do texto.


1.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XI



 Porém o namorado tinha regressado dois meses depois do casamento e não pretendia desistir dela nem do filho. E ela só se mantivera em casa durante aqueles meses, enquanto arranjavam casa e a preparavam para se mudar. Terminava pedindo-lhe que a perdoasse e que não lhe dificultasse o divórcio.
Perdoar? Como é que um homem podia perdoar a mulher, que fez dele motivo de chacota para o bairro inteiro? Um misto de sentimentos tomou conta dele. Raiva, vergonha, humilhação. Como era possível ter sido tão trouxa? Mais uma vez, valeu-lhe a compreensão dos pais, que o ajudaram e apoiaram até ao divórcio. Depois ele sentiu que tinha de partir por uns tempos. Queria afastar-se de amigos e conhecidos, que disfarçavam sorrisinhos de gozo quando o viam. Assim, quando soube que uma firma estava a pedir mecânicos para Angola, foi lá e não lhe foi difícil conseguir um bom contrato por cinco anos. Partiu pois numa manhã de Março, poucos dias antes de fazer vinte e dois anos, deixando a mãe lavada em lágrimas. Porém o pai compreendeu e apoiou-o. Apesar da sua pouca idade Ricardo era um excelente mecânico. Desde menino sempre gostara de mexer nos carros e quando saía da escola, em vez de ir jogar à bola com os outros miúdos do bairro, ia para a oficina do pai, ver como ele trabalhava, aprendendo a conhecer o canto do motor, e o significado de cada uma das suas desafinações. Depois já adolescente, trabalhou durante as férias escolares na oficina, e mais tarde todo o tempo que durou o seu casamento. Tinha por isso um bom conhecimento do trabalho, era aplicado, e simpático e em breve ganhou a simpatia do patrão, e dos colegas. Apesar do fascínio que África exercia sobre ele, Ricardo fazia uma vida recatada, gastando apenas a pequena parte do ordenado necessário à sua sobrevivência e transferindo para Portugal tudo o que a firma lhe permitia. Já nessa altura tinha o sonho de criar uma firma de aluguer de carros de luxo.
Terminado o contrato, regressou a Lisboa, apesar do vantajoso prolongamento do contrato, que a empresa lhe propunha  . Tinha quase vinte e sete anos, a cabeça cheia de sonhos, mas nenhum de amor.
Alugou uma pequena garagem, comprou o seu primeiro carro que lhe levou grande parte do seu pecúlio, e anunciou na Internet o aluguer do mesmo. Começou sozinho, com um único carro, sendo mecânico e motorista. Foi um êxito, as encomendas eram superiores ao que ele pensava, e assim ao fim de um ano, comprou o segundo, e contratou o seu primeiro motorista, Sérgio, que mais que um empregado era um verdadeiro amigo. Os anos foram passando, o negócio prosperando cada vez mais, e agora doze anos depois, ele tinha uma dúzia de carros de luxo, e dez motoristas-mecânicos que podiam conduzir os clientes a qualquer parte, mas estavam aptos a reparar de imediato o carro se surgisse alguma anomalia. 
De súbito voltou-lhe à memória aquela criança e o imbróglio em que o tinham metido. Mas ele iria exigir a retirada do seu nome do registo dela, logo que tivesse em mãos o resultado do teste de ADN. E só não exigiria uma indemnização, porque pelo que viu daquela casa, a mãe, ou tia da criança não teria como a pagar.
Estava desejoso, que o seu amigo Artur lhe trouxesse o relatório da investigação que estava a fazer.

4.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXXVIII


- E foi tudo o que consegui saber.
As duas mulheres estavam sentadas à mesa da cozinha, cada uma com a sua chávena de chá. Cidália acabara de contar à enteada, tudo o que o marido lhe contara na manhã do dia anterior.
- Meu Deus, como pôde o meu pai acusá-lo de roubo, sem quaisquer provas?
- Não te recordarás,eras demasiado pequena, mas o teu pai era muito apaixonado pela tua mãe. Quando ela morreu, ficou desesperado. Dedicou-se aos negócios como se não houvesse amanhã. Com um único desejo. Esquecer. Tornou-se num homem insensível, cruel mesmo, em certas ocasiões. No escritório ninguém gostava dele, e ele sabia-o, mas isso não lhe importava. Naquela época nada lhe importava, nem mesmo tu. Aliás, disse-me que na altura te culpava indiretamente pela morte da tua mãe, já que ela teve um parto extremamente difícil, e nunca mais ficou boa depois disso. Nessa época, eu ainda não o tinha conhecido, mas quando o conheci, ele era detestável. Penso que descontava nos outros a dor e a raiva, pela perda da mulher amada. Ainda hoje não sei como pude apaixonar-me por ele, mesmo reconhecendo o seu mau génio. Talvez porque como disse Blaise Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece". Porque a verdade, é que apesar de reconhecer o seu mau feitio, me apaixonei por ele quase no primeiro dia em que fui trabalhar para a firma. 
Mas ele não casou comigo por amor. Casou porque percebeu os meus sentimentos e estava cansado e desorientado. Tu eras adolescente, tinhas entrado numa fase de rebeldia, e ele não sabia como lidar contigo.
-Mas, vocês pareciam tão apaixonados!
-Eu estava. E ele fingia na tua frente, porque eu lhe disse que se tu percebesses a nossa real situação não me ias aceitar, e eu nunca podia ser tua amiga e encaminhar-te na vida como ele desejava. Não foi nada fácil a minha vida na altura, mas eu tinha fé no meu amor por ele, e tu estavas faminta de amor, aceitaste-me muito melhor do que eu esperava, e ajudaste-me com o teu carinho. E acabei por conquistá-lo. Mas quando lhe pedi um filho foi outra luta. Ele temia que a história se repetisse, e só acabou cedendo quando lhe disse que se não me dava um filho, queria o divórcio. Mas tenho a certeza de que se me tivesse acontecido alguma coisa, o Miguel iria sofrer o mesmo, ou pior do que tu sofreste.
-Foi muito cruel. Ele perdeu a mulher, eu perdi mãe e pai, numa época em que qualquer criança precisa acima de tudo, do amor dos seus pais.
-Eu sei, querida. E sempre tentei compensar-te com o meu amor.
- Porque não me contaste antes?
- Porque não tinha a certeza se entenderias, tu não perdoavas a teu pai o quase desprezo com que te tratou, e tinha medo de que em vez de melhorar a vossa relação, a minha intervenção a piorasse. Estou a fazê-lo hoje, para que percebas a sua atitude naquela época. O que fez com o António, teria feito com qualquer outro empregado.
-Mas foi uma monstruosidade. Isso pode destruir a vida de qualquer um.
-Sei. E hoje o teu pai também sabe, e vive atormentado pelo remorso,todavia  o seu arrependimento não pode mudar o passado.
Por algum tempo, o silêncio reinou na cozinha. Paula lembrava as palavras do empresário a primeira vez que foi ao escritório, “arruinar o teu pai não paga um décimo do sofrimento que me causou” ou quando dias antes lhe entregara o envelope “desisti da vingança por ti. E também pela Cidália, porque me disseste que foi para ti a melhor das mães, e pelo Miguel que tanto te ama.” Será que realmente ele se importava com ela? Poderiam aquelas palavras no escritório serem realmente um declaração de amor? 
-Imagino que  António Ferreira deve ter sofrido muito, e compreendo a sua raiva - disse Cidália interrompendo-lhe os pensamentos.- Venho de uma família que nunca foi abastada, e sempre me lembro de ouvir meu pai dizer que a riqueza de um pobre era o seu nome honrado. Ele tinha muito orgulho do seu. Por isso entendo o seu desejo de vingança. O que não entendia, e me revoltava era o facto de ele te querer envolver nessa vingança. E que o teu pai, por medo da falência, estivesse disposto a pactuar com isso. Era imoral.


Porque amanhã é dia das mães, esta história volta Segunda-feira

1.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XIV




- E o espaço? Onde se realizará a festa? Não consigo fazer um projeto sem conhecer o espaço. Também preciso saber se a festa é diurna ou noturna. Se bem, que tendo renovação de votos terá que ser de dia, os sacerdotes, não trabalham de noite a não ser para dar a extrema-unção, a algum moribundo. E sendo assim, até pode ser ao ar livre. No fim do mês teremos entrado no Verão, uma festa ao ar livre seria uma boa ideia.

Parecia ter esquecido tudo o que acontecera antes, a discussão, a raiva, até o homem que a observava com um meio sorriso nos lábios, pensando que o segredo do seu sucesso, era a alma que ela punha naquilo que fazia. Por fim levantou a cabeça e olhou-o.

-Algum dos teus restaurantes tem um jardim bonito? – Perguntou

António olhou o relógio e disse:

- Tenho que me apressar, tenho uma reunião importante dentro de meia hora. Receberás amanhã todas as informações que desejas, para poderes iniciar os teus projetos. Pôs-se de pé e aproximou-se dela que também se levantara.

Apertou entre as suas, a mão que ela lhe estendia, dizendo:
-Acredites ou não; gostei de conhecer-te. É uma pena que o teu pai não te mereça.
Voltou-lhe as costas e saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a desconcertada.
Quando trinta segundos mais tarde, Irene entrou depois de uma ligeira batida na porta, ainda a encontrou de pé no mesmo sítio.
- E então, o que queria o nosso homem?
- Uma festa para o fim do mês.
- Que pena não poderes aceitar!
-Aceitei. Vai mandar por correio eletrónico, a lista dos convidados e o local.
- Aceitaste? Mas e a festa do casal Ferraz?
-É dia dezoito. Ficam doze dias até ao fim do mês. Vou conseguir nem que passe as noites sem dormir. É demasiado importante.
- Se tu o dizes… só espero que não adoeças a meio do trabalho. Há meses que não paras. E já agora que tipo de festa é que ele quer.
-A celebração de umas bodas de estanho com renovação de votos, para ofertar à irmã. A propósito, já fizeste a encomenda dos adereços para a festa do casal Ferraz? Pediste urgência?
-Está tudo tratado. Entregam depois de amanhã.
- E o conjunto musical escolhido, está disponível nesse dia?
- Estarão lá, não te preocupes.
- Ótimo. Telefona à Margarida Souto e pergunta se ela tem algum tempo disponível este mês, depois do dia dezoito. Preciso da sua colaboração
-Vou já tratar disso. Mas antes satisfaz a minha curiosidade. O homem é arrogante ou simpático?
- Nunca ouviste dizer que a curiosidade matou o gato? Vai lá telefonar à Margarida que o modo de ser do cliente não nos deve interessar.
- Pronto, está bem, - disse encaminhando-se para a porta. – É que não entendo como foste aceitar mais essa festa, se estás de rastos com tanto trabalho.
Não, ela não podia entender que daquele trabalho, dependia a salvação da sua família, porque Irene não ia adivinhar que o seu pai estava arruinado, e ela não tinha nenhuma intenção de lhe contar.

25.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XII


Três dias depois, Ana encontrava-se no escritório, estudando um processo de um divórcio litigioso, quando o pai lhe perguntou se ia nessa noite ao aeroporto despedir-se de Simão.
Sentiu raiva. Então o irmão ia-se embora nessa noite, e não lhe dissera nada? Verdade que não voltaram a encontrar-se depois da festa, mas ainda assim, ele podia ter-lhe telefonado. Não era justo que não o fizesse. Afinal fora ele a levantar as hostilidades, era ele quem tinha de pedir desculpas. De todos os irmãos, Simão sempre fora o seu preferido. Porque era o mais velho? Porque sempre tratava as irmãs com todo o cuidado como se elas fossem delicadas flores de cristal? Porque estava sempre perto dela, para a acalmar e a proteger de todos os perigos imaginários? Não sabia.
E agora? Tinham sido cinco anos sem o ver. Tinha saudades dele. Teria desejado contar com o seu apoio, e a sua compreensão, para lhe ajudar na fase de desilusão em que se encontrava, com a recente desilusão amorosa. E ele não só não lhe ligara nenhuma, como até se mostrara desagradável.  E agora ia-se embora assim? Ah! Não. Não ia ser assim tão fácil. Arrumou o processo:
- Pronto pai está aqui o processo que me pediste e todos os apontamentos necessários para a elaboração da defesa. Sempre posso contar com os quinze dias de férias que me prometeste?
- Claro. Vais viajar?
- Vou. Hoje mesmo vou marcar passagem. Preciso afastar-me. Espairecer. Pensava começar amanhã. Dispensas-me esta tarde? Preciso tratar de muitas coisas.
- Está bem, Ana. Porque não vais lá a casa, almoçar connosco? A mãe ia ficar contente de te ver, e se não vais logo ao aeroporto, aproveitavas para te despedires do teu irmão.
- Está bem.
O resto da manhã decorreu quase sem dar por isso, empenhada em deixar em ordem todos os processos que tinha entre mãos. Separou aqueles que pela proximidade das datas, não poderia tratar e combinou com os colegas, quem os ia assumir.
Quando chegaram a casa, a mãe e a irmã, mostraram grande alegria por vê-la. Mas não viu o irmão.
Ouviu o pai perguntar:
- O Simão não almoça connosco?
- Disse que sim. Deve estar a chegar. – Respondeu a mãe.

reedição







4.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLIII


Mariana deixou-se cair no sofá. Desalentada. Que se passara? A noite estava a ser maravilhosa. Ela sentia-se tão feliz enquanto dançavam. O que, ou porque, se quebrou o encanto? Porque a rejeitara? Acaso  tinha sido ilusão sua, a emoção que lhe julgara sentir, momentos antes, enquanto dançavam?
Ela fora sincera, abrira o seu coração, confessara-lhe o seu amor de mulher. E ele não a levara a sério.
Com as costas da mão, limpou com raiva, as lágrimas que lhe enevoavam o olhar.
E agora? Que fazer? Não podia arrancar do peito, aquele fogo que a devorava. Insistir e ser rejeitada de novo? Morreria de vergonha. Triste e desiludida, recolheu ao quarto.
Despiu o belo vestido, atirando-o com raiva para um canto do quarto.
Já deitada, dava voltas no leito sem conseguir dormir. Por fim deu largas à sua frustração e chorou até adormecer. Ela não sabia, que no quarto ao lado, o homem também não conseguia dormir, submergido num mar de dúvidas e inquietações.
Ele estava sentado na cama, a cabeça enterrada entre as mãos.
Relembrava a noite. Minuto a minuto, desde que ela saíra do quarto. Onde estivera escondida, aquela mulher que se apresentava na sua frente? Estava maravilhosa naquele vestido negro. Miguel tinha visto ao longo da vida muitas mulheres bonitas, Tinha conquistado algumas. Muitas, talvez. Nunca porém nenhuma o impressionara tanto. Depois do jantar, enquanto dançavam, sentindo o corpo dela, colado ao seu, o calor dos seus braços, envolvendo-o, sentiu que alguma coisa se quebrava dentro dele. O que ele sentia, não era de modo algum um amor fraternal, e muito menos paternal. Era o amor de um homem por uma mulher
Pela primeira vez, desejara aprisionar a boca dela na sua, num beijo apaixonado. A sua noção da realidade, impedira-o.
Em breve faria quarenta e sete anos, Ela tinha vinte. Era natural que se sentisse fascinada pelo homem mais velho, tal como muitas alunas se sentem fascinadas pelos seus professores, e pensam que estão enamoradas. E nela, que tinha sofrido tanto, e nos últimos meses não convivera com nenhum outro homem, era ainda mais plausível. Não podia iludir-se nem aproveitar-se da situação. Quando voltasse para a sua casa, a universidade, e os amigos da sua idade, a confissão dessa noite, haveria de parecer-lhe ridícula. E quem sabe não iria odiá-lo por ter-se aproveitado da sua fragilidade. Ah! Se ele fosse mais jovem!
Agora, outra realidade se impunha. Como continuar a fingir, que nada tinha acontecido, e que ela representava para ele, o que sempre fora? Onde arranjar forças?
O dia raiava e ele continuava sem adormecer

22.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXXII




Como era esperado, aquele dia foi complicado para o doutor João Santos. Toda a sua atenção esteve virada para os problemas que o hospital que dirigia enfrentava. Por isso foi com alívio que viu o dia chegar ao fim. Desejava acima de tudo, deixar as funções de diretor. A sua vocação eram os doentes, não resolver problemas burocráticos ou laborais. Estava decidido a pedir a demissão das suas funções como diretor.
A caminho de casa, relembrou os acontecimentos da véspera, e pela primeira vez, perguntou-se se não teria sido demasiado duro com a esposa. Certo que ele estava muito magoado, mas não era razão para a mandar embora. E se ela levasse à letra as suas palavras e voltasse a partir?
Aquele pensamento foi tão doloroso, que de forma inconsciente, carregou no acelerador.
Entrou em casa, e percorreu uma a uma as divisões da casa para constatar com tristeza que tinha sido de novo abandonado. Sentou-se num cadeirão e escondeu o rosto entre as mãos. Abandonado? De modo algum. Não podia queixar-se disso quando fora ele que a mandara embora.
Mas desta vez ela não fugiria para longe, não enquanto a mãe não estivesse totalmente restabelecida. Iria tomar um banho, mudaria de roupa e depois iria a casa dos sogros, pedir-lhe-ia desculpa por ter sido tão radical. Afinal não lhe dera ela na véspera, prova de que o amava? 
Decidido levantou-se e encaminhou-se para o quarto.
Foi então que viu a carta em cima da cómoda e pegou-lhe com mãos trémulas.
Era uma carta de hotel. Isso queria dizer que ela não tinha ido para casa dos pais. Talvez porque não quisesse dar um desgosto à mãe, ou talvez porque ainda tinha esperança de voltar para casa.
Sentou-se na cama, abriu o envelope e retirou as duas folhas de papel. Emocionou-se com a confissão da mulher e revoltou-se ao ler a missiva de Inês. Imaginou o sofrimento da esposa, e sem embargo nem vergonha, chorou. Chorou por ela, por ele, pelo sofrimento dos dois, pelos quase quatro anos de vida perdida.
Que Deus não permitisse que ele encontrasse Inês nos tempos mais próximos, era tanta a sua raiva que era bem capaz de cometer um disparate.
Deixou as cartas em cima da cama e foi tomar banho. Não só porque estava muito calor, mas porque simbolicamente queria livrar-se da sujeira moral, que Inês trouxera para a sua vida.
Minutos mais tarde saía de casa em direção ao hotel.

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E como hoje é dia de poesia, realizou-se na Biblioteca José Esteves, no Convento Madre Deus da Verderena, um evento que constou de três partes distintas. A primeira de Cante Alentejano, a segunda, crianças do 3º e 4º ano, disseram poemas da sua autoria subordinadas ao tema Moinhos, e terceiras, poetas da terra, leram poemas seus ou de poetas que admiram. 

Na foto abaixo, o momento em que lia um dos meus poemas.





20.3.18

A TRAIÇÂO - PARTE XXIX





No seu quarto João continuava furioso. Podia esperar tudo da mulher, menos que o abandonasse por uma suspeita de traição.
Durante anos recriminou-se por trabalhar demais e pensar que ela o deixara pelo pouco tempo que lhe dedicara. E era capaz de compreendê-la se essa fosse a razão, mas afinal tudo não passara de uma estúpida suspeita de traição.  Nunca, se sentira tão ferido. Tinha-se dado por inteiro naquela relação. Ainda se fosse antes do casamento, poderia levar em conta a sua juventude. Mas quando partiu, Odete já tinha vinte e cinco anos. Tinham três anos de vida em comum. Isso não era suficiente para confiar nele? Deu um murro na parede. Como pudera acreditar que ela o amava? Nem lhe merecera a consideração de uma explicação. Era tal a sua raiva que tardou a adormecer. Apesar disso, acordou cedo. Tomou um duche vestiu-se e saiu. Comeria qualquer coisa na cafetaria do hospital. Não queria encontrar-se com a mulher.
Felizmente o dia ia ser complicado, com a reunião do pessoal de enfermagem de manhã, os membros do governo, e o pessoal do sindicato dos médicos, de tarde. Isso faria com que pelo menos durante umas horas esquecesse o fracasso da sua vida sentimental.
Enquanto isso, em casa, Odete acabava de meter numa mala algumas peças de roupa. Pela segunda vez ia deixar a casa e o homem que amava. Ia para um hotel. Não queria que a mãe soubesse, que se tinham separado de novo, ela estava tão feliz pensando que se tinham reconciliado. E depois o desgosto podia fazer-lhe mal.
Escolheu um hotel perto da casa da mãe, fez o registo e saiu para espairecer a cabeça. Já na rua, lembrou-se de telefonar à sua amiga Isabel a quem não telefonava desde a Páscoa e que decerto ia ter uma grande surpresa, pois a julgava em Leeds.
A amiga tinha sido mãe há pouco tempo, estava em casa, gozando licença de maternidade e ao saber que estava em Lisboa, logo a convidou para ir almoçar com ela.
Odete entrou no centro comercial Amoreiras a fim de comprar um presente para o bebé, antes de ir. Entusiasmou-se com as pequenas e delicadas peças e acabou por comprar dois bodies, um pijaminha, um babete, e umas botinhas.
Saía da loja, quando teve um encontro inesperado. Na sua frente, exuberante como sempre estava Inês.


Rejeitado que foi o primeiro final, vamos então para o final da história como ela foi escrita desde o início. Na verdade só pensei em separar estes dois por causas dos vossos comentários que me passaram a impressão de que a maioria dos leitores não gostava da Odete. Bom afinal foi só impressão minha,



19.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE XXVIII




Fizeram amor ali mesmo, no sofá da sala, ansiosos demais para aguardar a chegada ao quarto. Mais tarde, acalmada a tempestade que traziam dentro de si, e já no leito, voltaram a fazer amor, desta vez com menos paixão e mais amor. Depois Odete deitou a cabeça no ombro do marido e suspirou. Ele sussurrou.
- Amo-te tanto. Ia enlouquecendo de saudades.
- Estranho amor que não impede a traição.
- Traição? O que queres dizer com isso?
-Tu sabes. A Inês.
- A Inês, o quê - Perguntou afastando-a e sentando-se na cama.
- Porque pensas que me fui embora? - Perguntou ela, finalmente disposta a pôr a nu a dor que guardou durante quase quatro anos. Descobri a tua traição, e não conseguia viver contigo sabendo que me enganavas.
Ele pôs-se de pé sem se preocupar com a sua nudez. Estava pálido e furioso.
- Quer dizer que me abandonaste porque meteste na cabeça que eu tinha alguma coisa com a Inês?
- Não meti nada na cabeça. Eu sei que vocês eram amantes.
- Nunca fui amante da Inês, fui seu noivo, antes de te conhecer, e isso, eu próprio te contei. Depois que casei contigo não me deitei com mais ninguém. Que raio de homem, pensas que sou? E que tipo de mulher és tu, que pensando que eu sou esse ser amoral e promíscuo, foste capaz de fazer amor comigo?
Estava tão zangado que por momentos ela pensou que estava a falar verdade. Mas como podia ser, se ela tinha a prova?
Ele pegou na roupa e disse.
- Podes dormir aqui. Eu durmo no outro quarto. Amanhã podes partir. A obrigatoriedade de viveres nesta casa, terminou neste momento.
Dirigiu-se à porta. Ela enrolou-se no lençol e foi atrás. Agarrou-lhe num braço.
- Espera João, não podes estar a falar a sério. Vamos falar, esclarecer as coisas.
- Deixa-me. A hora de esclarecimentos perdeu-se no tempo. Saber que me abandonaste por uma suspeita ridícula e sem fundamento, que não confiaste em mim, nem foste capaz de me falar sinceramente, deixa-me doente. És a maior desilusão da minha vida. Nunca mais quero ver-te.
Saiu batendo a porta com estrondo. Ela atirou-se para cima da cama e durante muito tempo, chorou amargamente. Naquele momento teve a certeza de que o marido estava a ser sincero. Mas e aquela carta? Tinha sido uma intriga de Inês para separá-los? Depois de ter visto a dor e a raiva nos olhos do marido, não tinha a menor dúvida, no entanto continuava a fazer-lhe confusão, como aquela carta foi parar ao bolso do casaco dele, sem que de alguma forma tivessem estado juntos.
Já passava da meia-noite quando se levantou, tomou um duche, vestiu um pijama e voltou para a cama, pensando que tinha afastado de si a única hipótese de ser feliz.
Agora não havia volta a dar. O marido nunca lhe perdoaria. 
Tudo acabara de vez.





Parece que a história acabou. Qual é a vossa opinião? Ponho aqui um fim? Ou continuo?



DIA 19 DE MARÇO - DIA DO PAI

Porque hoje é um dia triste, o meu pai partiu há 9 anos, não interrompi a novela para um post alusivo ao dia. Apesar disso quero desejar a todos os amigos que por aqui passam, um feliz dia.









11.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE VIII



Gabriel, que até aí permanecera em pé, sentou-se a seu lado. Apesar de toda a  sua fama de homem sem escrúpulos, Gabriel não gostava de ver uma mulher a chorar.  
Sentia-se atordoado. Primeiro tinha sido a surpresa, de descobrir que a sua insignificante secretária era a lindíssima bailarina. Depois a ideia de que havia alguma coisa por trás daquela insólita atitude, e agora aquela confissão. Nunca se sentira tão desconcertado. Principalmente porque sentia um estranho desejo de abraçá-la, e confortá-la. Por outro lado, sentia-se enganado, enraivecido e com vontade de denunciá-la à polícia.
- Toma. Enxuga esse rosto, e vamos embora. Precisas ir buscar alguma coisa lá dentro?
- Não. Só trouxe a bolsa e tenho-a aqui. 
-Ótimo. Espera aqui por mim, vou só despedir-me do casal com quem vim. 
Levantou-lhe o queixo obrigando-a a fitá-lo.
- Não te passe pela cabeça fugir. Estou tentado a confiar em ti. Não me faças acreditar, que todo esse choro foi fingimento. Acredita que posso ser muito pior do pensas que sou, se descobrir que me tentas enganar..
Afastou-se. Encontrou os amigos no bar, desculpou-se com uma dor de cabeça, o que fez o amigo soltar uma gargalhada, sinal evidente de que pensava que ele tinha arranjado companhia, e voltou ao jardim.
Encontrou-a exatamente no mesmo lugar, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Uma tal expressão de sofrimento que o deixou atônito.
Ajudou-a a levantar-se, e caminharam juntos até ao estacionamento.
- Trouxeste o carro?
-Não. Vim com a Inês.
Abriu a porta do carro.
-Entra. Vamos conversar como dois adultos. Na tua casa, ou na minha, tu escolhes.
- Num lugar público.
- Não. Ou confias em mim, ou não. E se não confias, também não tem qualquer interesse o que tenhas para me dizer. De qualquer modo vou levar-te a casa, se me disseres onde moras.
Ela disse-lho e ele dirigiu em silêncio até à porta. Ela também se manteve em silêncio, perdida nos seus pensamentos. Não sabia se podia confiar nele. Mas sentia-se tão cansada!
- Chegamos.
Ele estacionou, saiu e deu a volta ao carro. A jovem continuava absorta, como se estivesse ausente. Ele abriu a porta e estendeu-lhe a mão. Voltou a sentir uma impressão estranha. Raios, tinha razão para estar zangado, ela acabara por confessar que estava na empresa para o espiar. No entanto passado o choque inicial, e principalmente depois que a vira chorar, sentia  a sua raiva amolecer.  Ouviu-se a dizer:
- Queres deixar para amanhã? Deves estar cansada!
- Não. Se tenho que o fazer, quanto mais depressa melhor.
Pegou nas chaves, mas sentindo as mãos trementes estendeu-lhas:
- Por favor, abra o senhor!

26.9.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE VI





- Um cancro Doutor? - A voz saiu-lhe a medo, certo da resposta.
O médico assentiu em silêncio. Depois:
- Mais concretamente, leucemia.
O silêncio que se seguiu parecia de chumbo. Por fim, Pedro perguntou:
- Não se pode fazer nada?
 – Talvez se me tivesse procurado mais cedo pudesse reverter a situação. Neste momento é demasiado tarde. A doença está na fase terminal, só um milagre mesmo. Lamento, não sabe o que me custa dizer-lhe isto, mas como o senhor disse, tem direito à verdade. Posso pedir-lhe uma biopsia da medula, mas é praticamente escusado com os resultados destas análises, que como pode verificar, o laboratório confirmou os resultados. Se quiser pode procurar outro médico. O caso é muito grave, e está no seu direito de duvidar do meu diagnóstico.
- Obrigado Doutor, confio no senhor, não tenciono consultar mais ninguém.
Naquele momento, Pedro sentia vontade de gritar, de bater no médico, de destruir o mundo. À raiva inicial, seguiu-se uma enorme vontade de correr para casa, esconder a cara no regaço materno, e chorar como fazia em criança, quando alguma coisa o fazia sofrer. Por fim, sentindo a cada momento as forças a desmoronar dentro de si, perguntou:
- Quanto tempo? Quanto tempo me resta?
 – Não sei, ninguém pode dizer com precisão. Um mês, dois, no máximo quatro meses.
Obrigado, Doutor, muito obrigado.
Levantou-se e dirigiu-se para a porta, sob o olhar consternado do médico
 – As suas análises -lembrou o médico.
Não se voltou e saiu.

21.9.15

HOJE COMO ONTEM



                                                           Foto de Marcos Santos




Hoje como ontem companheiro
queremos encontrar a verdade
a saída para esta angústia
que grassa
as nossas feridas ainda mal cicatrizadas.

Hoje como ontem companheiro
os homens não são homens.
São brancos, pretos, amarelos
são ricos, remediados e mendigos,
são exploradores ou explorados
são chineses e ciganos
polícias e ladrões
mas não são homens...

Hoje como ontem companheiro
temos que encontrar o caminho
que há lobos esfaimados à nossa volta
esperando implacáveis o momento
de nos destruir.

Mas hoje como ontem companheiro
as nossas mãos unidas hão-de gritar
a nossa força.
Ainda que o medo sele os nossos lábios
ainda que a raiva cegue os nossos olhos
ainda que nos queiram algemar o pensamento
as nossas mãos unidas
ninguém há-de separar.



Este poema foi escrito e publicado numa pequena revista que existia em 1976. Republico-o hoje porque me parece que não evoluímos tanto quanto o  25 de Abril nos fez sonhar. É bonito dizer que somos um país democrático e livre. Mas democracia, sem pão, educação e saúde, é como poço sem água. E liberdade existe, quando somos obrigados a deixar a nossa casa, e o nosso país em busca de um emprego, que nos permita a sobrevivência?