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25.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XV




Depois daquela tarde, era frequente encontrar os dois jovens juntos. Primeiro como dois amigos, depois já com um pouco mais de intimidade,   passeavam-se pela beira do rio, olhos nos olhos, dedos entrelaçados, sempre na companhia do pequeno Pedro. Era como se intimamente ambos tivessem assumido um amor, que nenhum dos dois se atrevia a mencionar.
Uma tarde, recebeu um telegrama da mãe, dizendo que como a sua irmã tivera de regressar a casa, ela resolvera ir também, e estava agora na casa da tia Rosa em Santarém.
 Pedro sentia-se perfeitamente bem. Nunca mais se sentira cansado, tinha perdido a palidez com que chegara, dormia bem e até engordara um pouco. Recordando a sua doença, e o que o médico lhe dissera, ele não se atrevia a fazer promessas a Rita. Às vezes lembrava-se de ter ouvido a mãe falar nas "melhoras da morte". Melhoras que muitos doentes terminais experimentam pouco antes de morrer. E angustiado, perguntava-se se era isso, o que lhe estava a acontecer. E os dias sucediam-se, e nada de novo acontecia. Uma tarde Rita disse-lhe:
- Estamos a acabar as férias. A mãe acaba sexta-feira,  a segunda série de tratamentos. Só pode fazer mais para o ano. No domingo chega o meu pai e regressamos a casa.

Pedro sentiu um aperto no peito, pois percebeu que Rita esperava que ele tomasse uma decisão relativamente ao futuro dos dois. Coisa que ele não podia fazer. Como ia dizer-lhe que se aproveitara da sua presença para tornar menos amargos os seus últimos dias? Era cruel demais.
Então decidiu que tinha de regressar. Precisava ir ao médico. Talvez fazer outros exames. Tinham-se passado mais de dois meses, e a verdade é que se sentia melhor que nunca. Todavia não se atrevia nem se permitia fazer projetos para o futuro sem voltar ao médico, e fazer novos exames. Era um grande risco que não faria a jovem correr.

Ela estranhou o seu silêncio. E quando nessa tarde ele voltou ao jardim não a encontrou. Apenas a dona Célia e o pequeno. A senhora olhou-o com um certo ar de reprovação, quando a cumprimentou, e o pequeno soltou a língua.
- Zangaste-te com a minha irmã?
 – Não. Porquê?
 – Porque ela não quis almoçar e foi para o quarto a chorar...
Sentiu-se um canalha, por ter feito chorar a jovem. Mas consolava-o o facto de que se ela soubesse a verdade iria sofrer muito mais. Despediu-se da senhora, fez uma festa na cabeça do pequeno e regressou a casa da tia. Aí chegado, foi direto para o  quarto, abriu o guarda-fatos e colocando a mala em cima da cama, começou a meter nela as roupas de qualquer maneira.
Logo de seguida batiam à porta do quarto.
- Entre.
A figura da tia perfilou-se no umbral, seguida da fiel empregada.
- Vais-te embora filho? Aconteceu alguma coisa grave com a tua mãe?

17.9.19

VIDAS CRUZADAS PARTE VIII



Na manhã seguinte, assim que o patrão chegou, Pedro pediu para falar com ele. Este olhou-o com estranheza, mas mandou-o entrar para o seu gabinete. O mais sereno possível, o jovem pediu a sua demissão e contou-lhe o que se passava. Mais do que patrão, ele sempre fora ao longo dos dez anos que levava no escritório um bom patrão, quase um amigo.  Um amigo com quem não se tem uma grande intimidade é verdade, mas que se estima.  O patrão olhou-o incrédulo. Custava-lhe a acreditar, que um jovem como Pedro, que nunca em dez anos tinha perdido um dia por doença, viesse agora dizer-lhe aquilo que estava a ouvir. Parecia-lhe um absurdo.
- E é por isso que eu quero a demissão, e também peço ao senhor Costa, que não conte a ninguém no escritório o que acabo de lhe dizer. Como deve compreender, não quero manifestações de pesar, que só me constrangem. Também não quero que a minha mãe possa vir a saber do que se passa.
- Claro. Se esperar um pouco eu mesmo faço as suas contas e passo já o cheque.
- Muito obrigado, senhor. Eu aguardo no meu lugar, enquanto ponho tudo em ordem.
Menos de uma hora volvida, Pedro saía do escritório sem se despedir de ninguém, com o cheque no bolso. Na verdade bem mais do que pensava receber, já que o Sr. Costa generosamente acrescentara uma  indemnização, coisa que não era habitual, nem de lei. Depositou o cheque no banco e saiu descansado. A conta sempre fora conjunta
com a sua mãe, e embora ela nunca fosse ao banco, sabia-o. E como sabia ler e escrever, não teria problemas em movimentá-la, quando ele já não fizesse parte do seu mundo.
Voltou para casa e começou os preparativos para a viagem. Estranhou a mãe não estar em casa, mas ela chegou logo depois.
- Fui aos correios mandar um telegrama à Palmira dizendo que chegavas hoje.
- Mas porquê mãe? Não era mais fácil telefonar?
- Fico mais descansada assim. A tua tia é um pouco dura de ouvido e podia entender mal o telefonema.
- E a tia Rosa? Já falou com ela?
- Já. Ontem à noite. Deve estar por aí a aparecer. Disse que vinha de táxi, mal rompesse a manhã.
Ele suspirou aliviado. Não queria partir, sem que a tia Rosa chegasse. Assim podia continuar os preparativos. Depois de fechar a mala da roupa, escolheu criteriosamente alguns livros, entre os últimos que recebera de prenda de aniversário e que ainda não tivera tempo de ler e meteu-os num saco. Guardou também uma caneta e um bloco de notas. Quem sabe se lhe apeteceria escrever alguma coisa? Fechou o saco e juntou-o à mala de viagem que repousava em cima da cama. Saiu do quarto e encontrou a mãe atarefada na cozinha.
- Mãe vou com o carro à oficina do senhor Duarte. Há mais de três meses que não ando com ele, preciso saber se está tudo em ordem. Não tinha graça ficar empanado no caminho, e tenho que ir à bomba encher o depósito.
- Vai filho. É melhor que ele veja o carro, sim. A tua avó sempre dizia que "quem vai para o mar avia-se em terra."
- Até logo, mãe.
- Vai com Deus, filho.



20.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE II






Foi direta à sala, onde sabia que encontraria a mãe a ler. Era o seu lugar favorito. Sentou-se a seu lado. Francisca fechou o livro e olhou para ela na expectativa. Não fez perguntas, e Ana teve a certeza de que a mãe sabia o que lhe ia dizer. A mãe sempre sabia o que se passava com ela:
- Mãe, já não vai haver noivado, muito menos casamento. Acabei tudo com o Paulo.
Se esperava que a mãe dissesse alguma coisa, enganou-se. Francisca levantou a mão, acariciou o rosto da filha, e esperou.
-Eu queria, mãe. Começo a desejar estabilizar a minha vida emocional. Ter a minha casa, marido, filhos. Pensei que com o Paulo, isso ia acontecer. Mas não é assim. Na intimidade, a chama não se acendeu, senti-me estranha nos seus braços. E não quero um casamento assim. Não me basta ter um homem apaixonado ao meu lado. Eu quero alguém a quem eu ame com intensidade.
A mãe abraçou-a como fazia quando ela era criança. Ana deitou  a cabeça no seu regaço, e deu largas à sua desilusão, deixando correr as lágrimas. Francisca sentiu um nó na garganta. Apesar dos anos, tinha bem presente o que fora o seu casamento com Jorge. Sabia bem o que era rolar na cama, depois de ter feito amor, pensando que devia estar feliz, mas sentindo apenas que cumprira uma obrigação, que a envergonhava e lhe deixava um aperto no peito que não a deixava adormecer. De forma nenhuma queria isso para a sua menina. Dos seus filhos, Ana era aquela que mais se identificava com ela. A mais sensível. Sentindo que se acalmara, afastou-a um pouco e olhou-a com ternura.
- Se assim é, fizeste bem, Ana. Um casamento é uma coisa muito séria. Bem sei que na atualidade, o divórcio está na ordem do dia. Mas acarreta sofrimento. Deixa cicatrizes. Já contaste ao pai?
- Eu sabia que me ias entender. No fundo, o que eu queria, era um casamento como o vosso. Essa felicidade que transportam no olhar, esse amor visível em cada gesto. Foi sempre assim, ou isso aprende-se com o tempo?
Francisca sorriu: Continuava a ser uma linda mulher apesar de já ter ultrapassado os cinquenta anos.
-No amor, nada se aprende Ana. Ele é espontâneo e avassalador. O tempo não lhe acrescenta, nem tira nada. Somos nós, com as nossas atitudes que o engrandecemos ou o matamos. Compara-o a uma fogueira. Quando começa, as labaredas são altas, o calor intenso. Mas se não fazes nada, à medida que a lenha vai ardendo, as labaredas vão diminuindo de tamanho, o calor vai enfraquecendo até que da fogueira inicial só restam cinzas.
- E é impossível uma fogueira arder só de um lado, - murmurou a jovem desalentada. Para depois acrescentar.
-Contei ao pai, e ficou furioso. Tenho a sensação de que sentia vontade de me bater.
- Está preocupado contigo. É natural. Não te preocupes. No fundo o que nós queremos é que sejas feliz. Estás com muito trabalho? Devias pedir-lhe que te desse umas férias. Precisas espairecer. Porque não fazes uma viagem?
- Agora? E a vossa festa de aniversário?
- Faltam cinco dias. Podias, aproveitar para pôr em ordem algum assunto que tenhas pendente e partir depois da festa.
-Não tinha pensado nisso. Obrigado mãe, fazes com que os meus grandes problemas se tornem menores e menos dolorosos.
Francisca sorriu quando a jovem se inclinou para a beijar murmurando:
-És um anjo.

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12.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XX



Dois meses mais tarde, numa visita aos pais, Francisca contou-lhes que tinha casado com o patrão, e convidou-os a irem conhecer a sua casa e o marido. Perante a admiração dos progenitores, afirmou que se tinham apaixonado e agora formavam uma família feliz. Não os convidara, para o casamento, porque devido ao facto de serem os dois viúvos, a cerimónia tinha sido muito discreta, mas tinha com ela a certidão de casamento que comprovava o que dizia.
Se os pais de Francisca ficaram apreensivos com aquele casamento relâmpago, deixaram de estar, depois de passarem juntos o domingo seguinte, após verem como os netos estavam felizes e a maneira carinhosa como eram tratados pelo genro.  Era evidente que as quatro crianças estavam felizes e que os pais os tratavam com amor. Já o apregoado amor da filha e do genro, que os levara a casar tão rápido, não lhes parecia tão evidente, mas enfim, nem toda a gente gosta de expressar os seus sentimentos ante estranhos, decerto seriam mais efusivos na intimidade.
Quando o dia findou, regressaram a casa com a sensação de que a filha tinha tido muita sorte. O marido era de certeza, homem abastado, pois teria sido preciso um bom dinheiro para comprar aquela mansão.
"Saiu-te a sorte grande" murmurou-lhe a mãe quando se despediram.
E mais dois meses se passaram...
Quando temos muitas coisas para fazer, o tempo passa a correr e nem temos tempo para pensar em nós. Isso aconteceu com Francisca naquele primeiro mês de escola das crianças. Embora estivessem na mesma escola, e nos mesmos horários, pelas idades estavam em situação diferente e não na mesma sala. Simão entrara para o primeiro ano, Marta e João estavam na pré-escola. Todos os dias, Francisca levava-os e trazia-os da escola, cuidava e brincava com Ana no jardim, procurando sempre que não se ressentisse com a ausência dos irmãos. Orientava a empregada, dava banho nas crianças, fazia as compras para a casa. Muitas vezes já ia meio a dormir de cansaço quando se deitava. Nem dava conta de Afonso entrar no quarto ao lado para  se deitar. Foi o que aconteceu naquela noite.
Afonso ficou parado, olhando a porta entreaberta do quarto. Fora sempre assim desde o primeiro dia, ela nunca fechara a porta, fosse porque confiava nele, fosse porque assim era mais fácil ouvir, se as crianças chorassem de noite.

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Estão a gostar da historia? A história desta família foi uma das que me deu mais prazer escrever. Saiu tão fluída que a escrevi de seguida numa noite. Nunca mais consegui escrever nada assim tão rápido. 



11.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XVII

Não abriu a porta. Bateu com os nós dos dedos.
-Entre
Entrou e fechou a porta atrás de si, ficando na expectativa.
Afonso deu a volta à secretária e dirigiu-se para ela.
-Senta-te. – Disse indicando-lhe o sofá. Esperou que ela se sentasse e fez o mesmo. Continuou.
-Deves estar cansada, não é fácil cuidar de quatro crianças tão pequenas. Podias ter aceitado a ajuda da minha irmã.
-A Graça vai embora depois de amanhã. Tenho que me habituar. E depois tenho a ajuda de Simão, – respondeu.
-Reparei que ele não é como o irmão. Parece triste.
-Sempre foi uma criança mais comedida nos sentimentos. E soube há poucos dias, que o pai morreu. Tinha-lhes dito que andava em viagem, mas ele ouviu uma conversa da avó com uma vizinha e questionou-me.  Tive que lhe contar a verdade. É muito responsável e acredita que tem de cuidar de mim e do irmão.
- E eu? Sou um intruso que odeia?
-De modo algum. Mas não esperes que seja tão espontâneo como o irmão. Ele é cauteloso. Tem de sentir que o chão onde põe os pés, é firme. Mas se percebe que assim é e se entrega, é um menino amoroso.
- Bom, sendo assim espero ganhar a sua confiança em breve. A Ana e a Marta, aceitaram-te como se estivesses com elas desde que nasceram.
- É natural, eram tão pequenas quando a mãe morreu que nem devem recordar-se dela. O mesmo acontece com João que só conheceu o pai por fotografia. O Simão é mais velho,  lembra-se, amava o pai, e tinha por ele uma grande admiração.  
Falavam nas crianças, chamando-as pelos nomes. Nem um nem outro se atreviam a dizer “nossos filhos” o que pressupunha uma intimidade que não havia entre eles, mas também não diziam, os teus filhos, os meus filhos, para que o outro não pensasse que não cumpriam a sua parte no acordo. Francisca quebrou o silêncio que se instalara.
- A Graça disse que me querias falar. Passa-se alguma coisa?
- Amanhã, é o dia dos meus ex-sogros virem passar o dia com as netas.
Propositadamente não lhes falei de ti nem das minhas intenções de voltar a casar. 


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2.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE III





-Tudo o que está estipulado no contrato que fizemos antes do casamento mantém-se. Porém há mais umas coisas que não estão no contrato e gostaria de te dizer. Como deves saber o trabalho de um advogado não é fácil. Às vezes aparecem casos complicados que exigem muito estudo e concentração. Por vezes trago casos para estudar em casa. Este é o meu espaço. Quando aqui estou não gosto de ser interrompido por ninguém e agradeço que mantenhas as crianças longe daqui.
A minha irmã, vai-se embora no fim-de-semana, também tem a casa dela, da qual já está afastada há bastante tempo por minha causa. O meu cunhado tem sido muito compreensivo, há quase um ano que só tem a mulher aos fins-de-semana, mas agora quando for já não volta. Até sexta, ela ajuda-te a apanhar a rotina da casa. 
Pensei melhor relativamente ao que tínhamos combinado de quartos separados.
A mulher estremeceu e ele notou-o.
-Não te preocupes. O casamento mantém-se como está no contrato. Sem intimidade que nem tu nem eu desejamos. Troquei a cama de casal por duas de solteiro. Pensei que era mais natural, as crianças vão crescer e podiam achar estranho, dormirmos em quartos separados. De resto mantenho o que está escrito. Cuidarei dos teus filhos, como se fossem meus, e confio em que farás o mesmo com as minhas filhas.
Calou-se. Como a mulher mantinha os olhos fixos no chão, ele pegou-lhe delicadamente no queixo, forçando-a a olhar para ele.
Reparou que tinha os olhos rasos de água e inquiriu:
- Que se passa? Estás arrependida?
Ela abanou vigorosamente a cabeça, as palavras sufocadas na garganta.
A voz dele suavizou-se.
- Bem sei, que isto não é o casamento com que as mulheres sonham. Mas ambos sabemos que ele não passa de um contrato. Tu não podes criar e educar os teus filhos, sozinha. Eles precisam de um pai. Eu não posso, nem sei cuidar das minhas filhas sem ajuda. Elas precisam de uma mãe. É troca por troca. Parece-me um contrato justo. Vou mostrar-te o quarto. Disse à Antónia, para levar para lá as tuas coisas. Podes tomar um duche e mudar de roupa. Mais tarde, iremos ver os quartos das crianças. Tu me dirás  se queres fazer alguma alteração. Pensa que a partir de hoje, esta é a tua casa.

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10.10.18

ENTRE O AMOR E A CARREIRA - PARTE XXIV




Com as pernas a tremer, Clara deixou-se cair no sofá. Nunca o seu corpo tinha reagido assim com Júlio, nem sequer nos momentos de maior intimidade.
“O que foi isto, meu Deus? Será a isto que chamam a química entre duas pessoas? Se o é, então entre nós existe química, mais do que suficiente para fazer explodir um quarteirão inteiro” – Pensou enquanto tentava acalmar-se.
Não teve porém muito tempo para isso pois as crianças irromperam na biblioteca a chorar.
- Desculpa. Não consigo acalmá-los – disse o irmão.
- Não faz mal, - disse abraçando as crianças. Vamos deixá-las chorar um pouco a fim de acalmarem. Depois a seguir, vamos aproveitar o sol na piscina, não é verdade meninos? Para a semana começam as aulas, e o outono está à porta. Temos que aproveitar o resto do verão.
E sabem de uma coisa? Se o vosso pai se esqueceu de alguma coisa, e volta atrás, vai ficar muito triste por vos ver a chorar. Vocês querem ver o vosso pai triste?
-Não – disseram em coro.
-Então toca a por, um sorriso nessas carinhas lindas, despir essas roupas, vestir os fatos de banho e… vamos para piscina.
- Tu também? Nunca vens – disse Soraia.
- Claro que vou. Só não fui antes, porque vocês estavam com o vosso pai, e o tio Tiago. Era muita gente na piscina, não acham? – Perguntou enquanto subiam as escadas para os quartos.
Pouco depois estavam os quatro na piscina. Enquanto Bernardo parecia tão à-vontade na piscina como peixe na água, Soraia, não sabia nadar. Não saía da zona onde tinha pé, e sempre que Clara ou Tiago tentavam que se deitasse na água tremia de medo. Tiago disse à irmã que tinha observado o mesmo comportamento da menina nos dias anteriores com o pai.
- Admira-me que o pai não lhe tenha comprado uma bóia para que ela perdesse o medo.
- Comprou. Contou-me que foi mesmo por causa de uma bóia que ela ficou assim. Disse-me que estavam os três na parte mais funda da piscina. Ele jogava à bola com o Bernardo, e a menina brincava na água suspensa pela bóia que de repente rebentou e a fez- afundar-se e engolir água até o pai chegar junto dela e a tirar da piscina. Depois disso levou bastante tempo até que voltasse a entrar na água mas limita-se a ficar ali quieta.
- Se me ajudares, vamos fazer uma brincadeira, a ver se aos poucos ela perde o medo.
-Vamos a isso.
- Meninos, vamos brincar um pouco na água? – Perguntou Clara depois de chamar Bernardo para junto da irmã. – Vamos fazer de conta que o Tiago é um Golfinho. Vocês já viram um Golfinho?
- Sim.
E gostam de Golfinhos?
-Sim – repetiram em coro
Então o Tiago vai ser um Golfinho que gosta de passear os meninos pela piscina. Eu sou a tratadora. E vocês querem passear no lombo do Golfinho. Muito bem. Como é que se vai chamar o Golfinho?
-Piloto – disse Bernardo.
-Piloto. Parece-me bem. Vamos lá Piloto levar o Bernardo a passear, – disse clara estendendo o menino ao comprido sobre as costas do irmão que nadou de um lado ao outro da piscina, sem contudo se afastar para a parte mais funda. O menino ria, as mãos agarradas aos ombros de Tiago. Clara olhou a menina, e viu-lhe nos olhos o desejo de entrar na brincadeira.
- Chega Piloto, agora é a vez desta menina linda, - disse Clara retirando Bernardo das costas do irmão e colocando no seu lugar Soraia.
Tiago sentia o corpo da menina tenso. Nadou tão devagar quanto possível enquanto emitia sons, como se fosse um verdadeiro Golfinho. A menina foi relaxando e quando ele se dirigiu à borda da piscina ela já ria e parecia esquecida do medo, embora os dois adultos soubessem que a brincadeira teria que se prolongar ainda alguns dias até que a menina perdesse o medo e confiasse o suficiente para desejar aprender a nadar.



27.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XLII


- E porque não o fizeste?
- Não se pode amar por dois. O sentimento não era recíproco, ela só via em mim um amigo. Casou com outro e é feliz.
 - E já a esqueceste?
- Sim, embora até há pouco tempo, pensasse que não.
Tinha-se instalado um clima de intimidade entre eles. Os olhos de Salvador, não se afastavam dela, e nervosa, Anete resolveu mudar de assunto.
- E já te decidiste, sobre a proposta de sociedade?
“Está nervosa. Tenho a certeza que não é esta a pergunta que queria fazer. Está com medo, do que pode descobrir.”
- Ainda faltam três dias para o final do mês. – Respondeu. Mas confesso-te que vou arriscar. Penso que vai ser melhor para o meu futuro. Ando assoberbado de trabalho não tenho tempo para nada. Tenho trinta e três anos. Supõe, que estou apaixonado. Como podia pedir a essa mulher para partilhar a minha vida, se a passo quase exclusivamente no escritório, no tribunal, ou viajando?
Olhou o relógio. Onze horas? Como é que o tempo tinha passado tão depressa? Eram horas de partir. Mas não o podia fazer, sem revelar o que lhe ia no peito.  Pôs-se de pé.
- Gosto desta sala, adorei o jantar, e esta partilha de perguntas e respostas, que nos revelaram um ao outro. Não sou homem de floreados, sou um homem de justiça, habituado a pôr o preto no branco. Por isso vou-te ser muito sincero, Anete. Gosto muito de ti, desse teu jeito tímido que te leva a fugir do meu olhar. Gosto da tua simpatia, do teu humor. Fico encantado com esse teu rubor. Não é fácil, hoje em dia, encontrar uma mulher com a tua idade, capaz de se ruborizar. Ainda não estou seguro de como catalogar estes sentimentos. Noutra situação eu diria que te amo. Mas dadas as circunstâncias de sermos quase família, tenho medo de estar a confundir sentimentos de amizade, e ambos já sofremos demais com confusões sentimentais, para querer repetir a dose. Como é óbvio, não sei se a minha pessoa te pode interessar o suficiente, para pores a hipótese de uma partilha de futuro comigo. Eu gostaria de tentar, e agora que já te abri o coração, a decisão é tua.
Nervosa, com o coração a bater desenfreadamente, Anete encarou-o.
- Não sei que te diga, Salvador. É muito arriscado o que propões. Para te ser sincera, eu também gosto da tua companhia. És um homem bonito, simpático, e gentil. Sabes na perfeição como fazer com que uma mulher se sinta especial, na tua companhia. Apaixonar-me por ti, é a coisa mais fácil do mundo. Mas e se depois descobres que esse sentimento que dizes ter por mim, não passa de amizade. Como é que ficamos? Como tu disseste há pouco, não se pode amar por dois. Além disso, tenho a certeza, que entre as tuas amizades, há mulheres muito mais interessantes do que eu. Nem sequer tenho um curso universitário.
-Complexos, não. Por favor, não vás por aí, Anete  Nenhum curso te ensina a amar. Nenhum te  forma para a vida familiar. Eles só te formam para executares uma profissão e não é disso que estamos a falar. É o carácter, os sentimentos, a alma que te tornam, ou não, na mulher ideal. E isso, que nem mil cursos dão, tu tens de sobra. Bom, são horas de ir. Eu acredito que temos tudo para viver um grande amor. Precisamos arriscar. Pensa na minha proposta com carinho.
Encaminhou-se para a porta. Sentia uma vontade louca de a beijar. E não podia fazê-lo. Tinha visto no seu olhar, um brilho, misto de dúvida e alegria, que logo foi substituído pelo medo. Por qualquer razão, a jovem tinha medo dele. Alegrou-se ao pensar que talvez não fosse dele, mas dos sentimentos que ele lhe despertava. Tinha que ser cauteloso. Aquele era o tribunal da vida e ele tinha que ser melhor que nunca. Uma precipitação, um passo em falso, e seria irremediavelmente condenado.
Ao chegar à porta, despediu-se roçando as costas da mão, suavemente pelo rosto feminino e saiu fechando a porta atrás de si. Com as pernas a tremer, Anete encaminhou-se para o quarto.

9.3.17

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO - PARTE IX




Pôs-lhe a mão no ombro e empurrou-a suavemente para a porta.
Sofia, estava espantada. Não só pelo que Quim acabara de lhe dizer, mas pelo jeito dele, pela maneira como a tratava.  Era afável, cordial, preocupava-se com ela, tinha-a deixado descansar. Tão diferente do comportamento dos homens da sua aldeia, para quem os sentimentos das companheiras pouco importava.  Até ao momento, não parecia lembrar-se que era seu marido. Não procurara nenhum tipo de intimidade. E se por um lado isso a deixava menos constrangida, por outro não deixava de lhe parecer estranho.
Entraram no carro e ele disse:
- O carro não é meu. É do tio, comprou-o para as suas deslocações na procura de novos fornecedores. Mas atualmente já não se sente seguro para conduzir. Daí que seja eu quem anda com ele. São ótimas pessoas, embora às vezes pareçam um tanto inconvenientes. Ficaria feliz se fosses simpática com eles.
-Disseste-me que são como teus pais. Como tal os tratarei, fica descansado, - respondeu um tanto agastada pela recomendação.

Quim curvou-se para depositar um beijo na testa enrugada da idosa. E acrescentou de seguida:
- Trouxe a Sofia para te cumprimentar.
A anciã cravou nela os seus pequenos olhos, mirando-a da cabeça aos pés.