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14.11.23

POESIA ÀS TERÇAS - LUÍS RODRIGUES - SE FOSSES UM LIVRO



SE FOSSES UM LIVRO

Penso que

se fosses um livro

te desfolharia folha a folha

todos os dias faria uma cópia 

de cada folha

que eras tu

juntaria a minha folha 

com a tua folha

que eras tu

 

Assim passávamos a ser uma obra

toda igual mas toda diferente 

repleta de palavras

umas comuns outras difíceis 

que falaríamos num coro 

com o rosado das nossas bocas

e viveríamos juntos 

corpo com corpo

numa estante qualquer.

 

 Luís Rodrigues   

7.11.23

POESIA ÀS TERÇAS - MIA COUTO - SEM DEPOIS

 


SEM DEPOIS


Todas as vidas gastei

para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só meus olhos
se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.


Mia Couto

30.5.23

POESIA ÀS TERÇAS - LUÍS RAIMUNDO RODRIGUES - UM POETA



 UM POETA


Tomo do poeta

o alcance das suas palavras

de uma boca que era uma fisga

certeiras as palavras-pedra

tanto mais belas 

quanto mais ousadas

Tomo do poeta

algumas palavras

silêncio

ternura

nobreza

limite

emoção

e a real e crua leitura

das palavras____das incómodas

ruína 

obsceno

maníaco

verme

sémen

junto-as todas e guardo-as

para evitar a morte da poesia e do poeta.


NOTA: Como muitos de vós sabeis o poeta de hoje é o nosso amigo Luís Rodrigues do blogue 

Brancas Nuvens Negras , Este será, (esperamos todos os que gostamos de poesia) o primeiro de vários livros a serem publicados. 

9.5.23

POESIA ÀS TERÇAS - PABLO NERUDA - A INFINITA


 

A Infinita

Vês estas mãos? Mediram
a terra, separaram
os minerais e os cereais,
fizeram a paz e a guerra,
derrubaram as distâncias
de todos os mares e rios
e, no entanto,
quando te percorrem
a ti, pequena,
grão de trigo, calhandra,
não conseguem abarcar-te,
fatigam-se ao agarrar
as pombas gémeas
que repousam ou voam no teu peito,
percorrem as distâncias das tuas pernas,
enrolam-se na luz da tua cintura.
Para mim tu és tesouro mais rico
de imensidade do que o mar e seus cachos
e és branca e azul e extensa como
a terra nas vindimas.
Nesse território,
desde os pés à fronte,
andando, andando, andando,
passarei a vida.

PABLO NERUDA

Amigos, se amanhã não houver post novo, não se assustem. Há três dias que tenho muitas dores nos olhos, não queria parar, mas não sei se não terei de fazê-lo. Vou hoje ao oftalmologista. 

2.5.23

POESIA ÀS TERÇAS - MIA COUTO - FUI SABENDO DE MIM

 


Fui Sabendo de Mim

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia


                    MIA COUTO 

25.4.23

POESIA ÁS TERÇAS - 25 DE ABRIL


LIBERDADE

Ontem
Olhavas e fingias que não vias.
Os órfãos e viúvas de guerras inglórias
O desespero dos emigrantes clandestinos
As terras abandonadas ao sabor da fome
A força-sacrifício dos ideais feitos homens
Encerrados e torturados nas prisões do meu país.

Acordaste numa manhã de Abril
E ficaste arrepiado…
Porque nas nossas mãos
O sangue era cravo rubro.
Nas nossas gargantas
O medo era um hino à Liberdade.
Os nossos braços,
Enlaçavam-se na esperança do momento.

Acordaste...
E como quem muda de camisa
Puseste-te ao nosso lado.
Era o tempo
De fingires ser democrata.
Os anos passaram
Com a liberdade por companheira
Entre avanços e recuos,
Fomos fazendo a nossa história
E tu
Como joio insidioso abafando o trigo
Ias minando a caminhada.
Encerrando escolas
Fechando fábricas
Cortando subsídios
Empurrando-nos para a emigração
Aprisionando os nossos sonhos
No desespero e desencanto
Fomentando a descrença
Entre o Povo

Agora largaste a máscara
E ameaças voltar.
Mas hoje
O povo conhece o sabor
Da Liberdade.
Distingue-lhe o sal das lágrimas,
O odor do sangue derramado
Daqueles que por ela
Deram a vida.
E não se deixa enganar!

Elvira Carvalho

18.4.23

POESIA ÀS TERÇAS -JOAQUIM PESSOA

 


Estou Mais Perto de Ti porque Te Amo

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

Foi com grande tristeza que tomei conhecimento ontem, numa tertúlia poética que Joaquim Pessoa tinha partido. Já tinha este post programado para hoje, apenas substitui a foto de um casal romântico que ilustrava o poema, pela foto do autor. 
LUZ e PAZ para ele.

11.4.23

POESIA ÀS TERÇAS - JAIME PORTELA

                      

FLOR SUBENTENDIDA (481)


 

Há em ti uma flor subentendida

e, enquanto a razão apenas presume,

hesitante,

ela caminha segura na pele do instinto

à procura da seiva,

infiltra-se nos poros e enlouquece a melodia

que até aqui me soava mortiça nas fontes.

 

Cheiras a terra e à frescura da resina,

tens a forma de flecha

que me perfura o peito em desejo,

fazendo rebentar da minha carne

a miragem que deseja tornar numa certeza

a tua flor subentendida.

 

Mostra-me o corpo

com o peito a dançar nas minhas mãos,

para que beba da tua boca a chama e a terra,

para que inunde com a minha resina de verão

o orvalho da tua primavera .

 

Jaime Portela , pode ser seguido no seu blogue RIO SEM MARGENS


7.3.23

POESIA ÀS TERÇAS - VASCO GRAÇA MOURA - INSINCERIDADE

 


 

insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

28.2.23

POESIA ÀS TERÇAS - CASIMIRO DE BRITO - POETA COMO TU, IRMÃO

 



Poeta como Tu, Irmão

Não sou mais poeta do que tu, irmão!
Tu cavas na terra a semente da vida,
eu cavo na vida a semente da libertação.

Somos partes perdidas dum só
que a razão de ser das coisas
separou. Não sou mais poeta do que tu, irmão.
A mãe que te gerou a mim me gerou —
não foi ela quem nos trocou
as mãos, a voz do coração.

Abandona um pouco a charrua, arranca
da terra os olhos cansados, e limpa
o sujo da cara ao sujo das mãos — onde
os calos são um só e as rugas da morte
caminhos cobertos de pó.

E olha
na direcção do meu braço cansado, sem
músculos quadrados
nem merda nas unhas, mas que te aponta
o mundo onde as raízes do dia, a luta, o trabalho
reclamam suor
mas não te roubam o pão.
Arranca os olhos da terra, irmão!

21.2.23

POESIA ÀS TERÇAS - DIA DE CARNAVAL -




BACANAL


Quero beber! cantar asneiras
No esto brutal das bebedeiras
Que tudo emborca e faz em caco...
Evoé Baco!

Lá se me parte a alma levada
No torvelim da mascarada,
A gargalhar em doudo assomo...
Evoé Momo!

Lacem-na toda, multicores,
As serpentinas dos amores,
Cobras de lívidos venenos...
Evoé Vênus!
Se perguntarem: Que mais queres,
Além de versos e mulheres?...
— Vinhos... o vinho que é o meu fraco!...
Evoé Baco!

O alfanje rútilo da lua,
Por degolar a nuca nua
Que me alucina e que eu não domo!...
Evoé Momo!

A Lira etérea, a grande Lira!...
Por que eu extático desfira
Em seu louvor versos obscenos,
Evoé Vênus!

Manuel Bandeira


 

14.2.23

POESIA ÀS TERÇAS - JOAQUIM PESSOA - NENHUMA MORTE APAGARÁ OS BEIJOS

 PORQUE HOJE É O DIA DOS NAMORADOS, FELIZ DIA  A TODOS OS QUE POR AQUI PASSAREM.. 


Nenhuma Morte Apagará os Beijos

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
[clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
[e atormentada

desvendará em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

7.2.23

POESIA ÁS TERÇAS - EUGÉNIO DE ANDRADE - CORAÇÃO HABITADO


Coração Habitado

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

17.1.23

POESIA ÀS TERÇAS - JÚLIO CORTÁZAR

 


OS AMANTES


Quem os vê andando pela cidade

se são todos cegos?
De mãos dadas: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a palma úmida, percorrem as falanges,
e acima está a noite cheia de olhos.

Eles são os amantes, sua ilha flutua à deriva
em direção a mortes de capim, em direção a portos
que se abrem entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo encontra sua figura oculta;
mas eles nem sabem
que enquanto rolam em sua areia amarga
há uma pausa no trabalho do nada,
o tigre é um jardim que brinca.

Amanhece nos carrinhos de lixo,
os cegos começam a sair,
o ministério abre suas portas.
Amantes rendidos olham e tocam
mais uma vez antes de cheirar o dia.

Já estão vestidos, vão para a rua.
E é só então
quando estão mortos, quando estão vestidos,
que a cidade os recupera
hipocritamente e lhes impõe seus deveres cotidianos.

Autor do poema: Julio Cortázar

Biografia AQUI

10.1.23

POESIA ÀS TERÇAS - ALEXANDRE O'NEILL - HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

 




Há Palavras Que Nos Beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

3.1.23

POESIA ÀS TERÇAS - LUÍS RODRIGUES - UM JARDIM EM NOSSA CASA



Um jardim em nossa casa


Talvez valha a pena esperar mais um tempo 

vem aí o Inverno ___ deixamos passar o Natal

depois lá para a Primavera 

abrimos a parede de fundo ___ a que dá para o jardim 

e faremos da nossa casa um lugar natural 

com um atapetado de flores silvestres. 

Vamos surpreender-nos com cogumelos exóticos 

a tentarem a nossa sabedoria sobre eles, 

as aves ganharão confiança 

e serão a decoração da nossa casa 

com as suas cores e os seus cantos. 

Melancolia nunca mais! 

Poremos várias pedras sobre o assunto 

e no Outono já o musgo nos terá convencido 

de que aqui nunca houve tristeza.



Luís Rodrigues


Brancas nuvens Negras

20.12.22

POESIA ÀS TERÇAS - DAVID MOURÃO FERREIRA - NATAL À BEIRA RIO

 





Natal à beira rio 



É o braço do abeto a bater na vidraça? 
E o ponteiro pequeno a caminho da meta! 
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa, 
A trazer-me da água a infância ressurreta. 

Da casa onde nasci via-se perto o rio. 
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado! 
E o Menino nascia a bordo de um navio 
Que ficava, no cais, à noite iluminado… 

Ó noite de Natal, que travo a maresia! 
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra. 
E quanto mais na terra a terra me envolvia 
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra. 

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me 
À beira desse cais onde Jesus nascia… 
Serei dos que afinal, errando em terra firme, 
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia? 


David Mourão-Ferreira
 (Lisboa, 1927 – 1996)