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3.4.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XXIII

Epílogo

Giovanna, acabara de prender o véu nos cabelos de Eva, quando Isabella entrou para dizer que a limusina já tinha chegado. Eva  ainda não sabia onde ia ser o casamento. André fizera questão de manter o segredo para surpreendê-la, e ninguém na família quisera quebrar a ordem.
Nunca, nem nos seus sonhos mais românticos, ela sonhara viver, como vivera aqueles dez dias. Dois dias antes, chegara o resto da família, que viera de Itália, bem como toda a família portuguesa, que vivia em Braga. E todos sem exceção a acolheram com todo o carinho. Na última noite, André fora dormir no hotel, donde seguiria para a igreja, com a família. Com ela ficaram a futura cunhada Giovana e Isabela, a sobrinha mais velha, filha de Pietro, para a ajudarem a preparar-se para a cerimonia. Agora, seguiam a caminho do local onde o casamento se  realizaria.
Quando a limusina parou junto do portão do orfanato, e viu os portões abertos, guardados por dois seguranças, e o grupo de meninos, rigorosamente vestidos, segurando folhas de palmeira formando um arco para ela passar, a emoção foi tão grande que quase não conseguia andar.
O sogro aproximou-se e deu-lhe o braço para a conduzir à capela, em cujo altar André aguardava ansioso.
Para Eva tudo era um sonho. As meninas todas vestidas a rigor, (saberia mais tarde que tinha sido o noivo e os seus pais, que tinham oferecido as roupas às crianças do orfanato) aguardavam-na perto da capela, muito compenetradas do seu papel de damas de honor, a Irmã Maria interpretando Avé – Maria, de Schubert. André, no altar, de olhos brilhantes e sorriso rasgado, ladeado pelo irmão e cunhada, que iam ser os seus padrinhos, a capela engalanada, a Irmã Madalena no altar, acompanhada de um tio de André, que se seriam os  padrinhos dela. 
A cerimonia decorreu de forma muito emotiva. Quando o padre, os declarou marido e mulher e disse ao noivo que podia beijar a noiva, o beijo foi tão intenso, que todos os presentes aplaudiram. O copo-de-água, no refeitório do orfanato, totalmente engalanado, a alegria das crianças, tudo contribuiu para um dia excecional que ela não esqueceria nem que vivesse várias vidas. Por fim, a emocionada despedida da Irmã Madalena, que só voltaria a ver quando viessem de férias a Portugal e da sua nova família, que iria reencontrar na Toscana, quando voltassem da lua-de-mel, cujo destino ela ainda desconhecia, mas a julgar pelo que vivera até ao momento, seria a continuação de um belo sonho, disso não tinha dúvidas.



 Fim 

Elvira Carvalho

                                      INFORMANDO

Para quem me lê há pouco tempo, devo dizer que as minhas histórias quase todas partem de um assunto que não me agrada, e para o qual quero chamar a atenção, nesta por exemplo, o tema era os malefícios do jogo (lembro-me da minha avó contar uma história de um homem que perdeu a casa e a mulher numa mesa de jogo, nos anos trinta do século passado) e do branqueamento do dinheiro, de atividades ilícitas, através do jogo. À volta desses dois temas criei esta história. Noutras o tema foram a fome, a guerra e os mutilados por bombas em África, a guerra no Afeganistão, a traição entre casais, a inseminação através de esperma de um dador anónimo, a violência doméstica, e as suas consequências na vida adulta das crianças que a sofreram, os acidentes por alcoolismo, etc. 
 As exceções são a "Rosa", retrato de uma época entre 1945 e 1975, que tentei retratar o mais fiel possível, (assisti a muitas das situações lá descritas), bem como em "As Cores do Amor," uma história romanceada entre 1973/1975 onde se descreve o antes e depois do 25 de Abril e o despoletar da guerra em Luanda, que vivi nesse tempo. O "Casamento por Procuração", retrato de uma época entre 1960/1974  cheia destes casamentos, e onde se lembram as fugas de salto para França e as condições quase sub-humanas em que viviam os emigrantes portugueses nos Bidonville, e "Renascer," 1971/1974 todas elas parte da nossa história no século passado. 
Posto isto, resta-me acrescentar que desta vez exagerei no romantismo. Na verdade agi como a fada madrinha para Eva.
Afinal, dizem que quando a idade pesa mais do que nós, ( e eu já estou nessa fase) voltamos a ser crianças. E elas acreditam em fadas.
Agradeço a vossa compreensão.


A nova história tem apenas um capítulo pronto e eu não gosto de fazer publicações antes de entrar na reta final. Por isso e como alguns me pediram "À Média Luz", escrita na mesma época de Dívida de Jogo" será essa que entra para a semana.


10.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXVII




Na manhã seguinte, pouco passava das nove horas, quando Alcides chegou a casa do Gil, onde Laura já o aguardava, pronta para irem à esquadra participar o desaparecimento do irmão.
Depois de o fazer, e tendo o advogado posto a hipótese de rapto,  foi-lhes notificado que se iria iniciar uma investigação, e o agente levou-os para outro gabinete, onde durante quase uma hora, um investigador fez com que respondessem  a inúmeras perguntas sobre os hábitos do desaparecido, seus negócios, familiares e amigos. Ao saber que o desaparecido tinha contratado segurança pessoal para acompanhar a filha e a ama, o investigador quis saber se essa decisão tinha sido tomada por terem havido ameaças de rapto, se o desaparecido tinha inimigos, e o advogado teve que informar que essa segurança se devia ao temor que Gil tinha, de que o violento ex-marido de Inês , tentasse alguma retaliação sobre a ama ou a bebé, e então foi-lhes pedido o nome completo do homem, bem como da ama.
Quando terminaram foi-lhes dito que deveriam manter-se contactáveis e disponíveis para quaisquer esclarecimentos adicionais que os investigadores achassem necessários. E que por sua vez, eles deveriam informar imediatamente, se houvesse algum contacto, ou se viessem a lembrar-se de algum facto que pudesse ter relevância para a investigação. O investigador informou-os também de que deveriam manter o desaparecimento em segredo, pois se realmente tivesse havido um rapto, e os raptores soubessem que a polícia já estava a investigar, podiam ficar nervosos e quem iria sofrer as consequências seria o próprio Gil.
- Resta-me ainda informá-los, - acrescentou por fim o agente - que todos os anos temos vários adultos, que por qualquer razão desaparecem, e quando os encontramos pedem-nos para informar que estão bem, mas não querem que se saibam onde estão.
-Tenho a certeza de que não é o caso do meu irmão – afirmou Laura convicta, - ele é muito apegado à filha bebé, que está prestes a fazer um ano, e mesmo quando em negócios viaja para o estrangeiro, está sempre a telefonar para casa e a fazer chamadas de vídeo para a ver.
Saíram do posto da polícia, não sem antes Laura ter assinado a participação, perto das onze horas.
Como tinham combinado na véspera, Alcides dirigiu-se em seguida ao banco, e Laura foi para a Fundação onde já a aguardavam alguns
doentes.
Durante duas horas dedicou-se inteiramente às consultas, quase tudo estados gripais, e felizmente nenhum muito grave. Como era quarta feira, era dia de dentista, de tarde o consultório estaria ocupado pelo seu colega Eduardo Mendes, pelo que depois do almoço, não voltaria à Fundação.
Pegou no telemóvel e telefonou ao irmão
- Estou, Marco?
- Sim. Há novidades?
- Não. Vocês almoçam no restaurante do costume?
- Sim, claro.
- Pede mesa para quatro. Precisamos falar. Estamos aí em dez minutos.



5.12.19

CONTOS DE NATAL - O MENSAGEIRO



-O Pai Natal desapareceu!O Pai Natal desapareceu!- alertou, Jeremias, o chefe dos duendes.
Todos os duendes ficaram muito assustados com a notícia.
Era véspera de Natal e os presentes estavam quase todos prontos para serem distribuídos, mas... faltava o Pai Natal!
- Que vamos fazer? - perguntou um duende.
-Temos que o procurar.
-Sim! - disse o chefe - Germano pega num trenó e vai, com o Rudolfo, ver se encontras o Pai Natal.
- Mas, já são 9 horas da noite. E se não o encontrar?
- Nesse caso tenho que usar o segredo.
Esperaram que o Germano e o Rudolfo voltassem com notícias.
- Não encontrei o Pai Natal - disse o Germano muito triste.
- Bom! Nesse caso tenho mesmo que usar o tal segredo! - concluiu o Jeremias.
O Pai Natal estava muito preocupado porque já era quase meia-noite. Também estava muito cansado e com muito frio e, estava amarrado a uma cadeira numa casa de madeira.
No canto da casa estava um adulto sentado e falava com ele:
- Pois é Pai Natal! Agora como é que vais fazer para distribuíres os teus presentes? Este ano não...
O Pai Natal olhou para ele. Estava de boca aberta, pronto para dizer a próxima palavra, mas imóvel. O Pai Natal sorriu, olhou para o relógio que estava em cima da mesa, fechou os olhos, contou até dez e voltou a olhar para o relógio. Percebeu o que tinha acontecido e esperou.
Uma luz apareceu e, como por magia, desamarrou-o
- Pai Natal! O que lhe aconteceu? - perguntou o chefe dos duendes.
- Vamos ao meu gabinete e eu conto-lhe tudo - murmurou o Pai Natal.
No gabinete o Pai Natal revelou-lhe que tinha sido raptado.
-Raptado!? Mas porquê?
-Foi alguém que não gosta do Natal porque não tem família.
-Coitada dessa pessoa! Tenho pena dela!
-Mas isso vai ficar resolvido.
- Como, Pai Natal?
- Trouxe-a para trabalhar connosco.
- Foi uma boa ideia. Pai Natal, tenho uma coisa para lhe dizer.
- Diz!
- O senhor estava desaparecido e eu usei aquela coisa que só deve ser usada em caso de emergência. Peço desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Fizeste bem! Eu percebi que a tinhas usado.
- Mas pode ficar descansado, Pai Natal. Eu usei-a, sozinho, no meu gabinete. Ninguém ficou a saber que temos pó mágico capaz de parar o tempo! Graças a isso ainda vamos a tempo.
- Pois, ninguém dará por nada. Mas há uma coisa que todos deviam saber.
- O quê, Pai Natal?
- Que sou um mensageiro do Menino Jesus! Foi ele que enviou uma estrela para me salvar! Eu apenas distribuo os seus presentes.  É a ele que todas as crianças devem agradecer!


DANIELA DO CARMO    in Chiado Editora " Natal em Palavras" (Colectânea de Contos de Natal) 

1.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XIV




- E o espaço? Onde se realizará a festa? Não consigo fazer um projeto sem conhecer o espaço. Também preciso saber se a festa é diurna ou noturna. Se bem, que tendo renovação de votos terá que ser de dia, os sacerdotes, não trabalham de noite a não ser para dar a extrema-unção, a algum moribundo. E sendo assim, até pode ser ao ar livre. No fim do mês teremos entrado no Verão, uma festa ao ar livre seria uma boa ideia.

Parecia ter esquecido tudo o que acontecera antes, a discussão, a raiva, até o homem que a observava com um meio sorriso nos lábios, pensando que o segredo do seu sucesso, era a alma que ela punha naquilo que fazia. Por fim levantou a cabeça e olhou-o.

-Algum dos teus restaurantes tem um jardim bonito? – Perguntou

António olhou o relógio e disse:

- Tenho que me apressar, tenho uma reunião importante dentro de meia hora. Receberás amanhã todas as informações que desejas, para poderes iniciar os teus projetos. Pôs-se de pé e aproximou-se dela que também se levantara.

Apertou entre as suas, a mão que ela lhe estendia, dizendo:
-Acredites ou não; gostei de conhecer-te. É uma pena que o teu pai não te mereça.
Voltou-lhe as costas e saiu fechando a porta atrás de si, deixando-a desconcertada.
Quando trinta segundos mais tarde, Irene entrou depois de uma ligeira batida na porta, ainda a encontrou de pé no mesmo sítio.
- E então, o que queria o nosso homem?
- Uma festa para o fim do mês.
- Que pena não poderes aceitar!
-Aceitei. Vai mandar por correio eletrónico, a lista dos convidados e o local.
- Aceitaste? Mas e a festa do casal Ferraz?
-É dia dezoito. Ficam doze dias até ao fim do mês. Vou conseguir nem que passe as noites sem dormir. É demasiado importante.
- Se tu o dizes… só espero que não adoeças a meio do trabalho. Há meses que não paras. E já agora que tipo de festa é que ele quer.
-A celebração de umas bodas de estanho com renovação de votos, para ofertar à irmã. A propósito, já fizeste a encomenda dos adereços para a festa do casal Ferraz? Pediste urgência?
-Está tudo tratado. Entregam depois de amanhã.
- E o conjunto musical escolhido, está disponível nesse dia?
- Estarão lá, não te preocupes.
- Ótimo. Telefona à Margarida Souto e pergunta se ela tem algum tempo disponível este mês, depois do dia dezoito. Preciso da sua colaboração
-Vou já tratar disso. Mas antes satisfaz a minha curiosidade. O homem é arrogante ou simpático?
- Nunca ouviste dizer que a curiosidade matou o gato? Vai lá telefonar à Margarida que o modo de ser do cliente não nos deve interessar.
- Pronto, está bem, - disse encaminhando-se para a porta. – É que não entendo como foste aceitar mais essa festa, se estás de rastos com tanto trabalho.
Não, ela não podia entender que daquele trabalho, dependia a salvação da sua família, porque Irene não ia adivinhar que o seu pai estava arruinado, e ela não tinha nenhuma intenção de lhe contar.

27.11.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XVI



Simão permaneceu algum tempo no escritório, tentando acalmar-se. 
Quando saiu procurou a mãe na sala. Francisca fechou o livro e perguntou:
- Contaste-lhe?
Olhou a mãe, surpreendido. Pensava que tinha conseguido esconder de todos os seu segredo.
- Como sabes?
- Uma mãe, sabe sempre o que vai no coração dum filho. Há muito que sei que é esse amor que te mantem longe de nós. A Ana saiu sem se despedir. Nunca o faz. Devia estar muito transtornada. Disseste-lhe?
- Não foi preciso. Ela leu-o nos meus olhos.
- E…
- Ficou indignada. Disse que é uma infâmia. Que somos irmãos.
- Não é verdade! Ela sabe-o, tal como tu.
- Não é verdade, no sangue. Mas é-o nos sentimentos. Ela sente-o assim no coração. Foi assim que sempre me amou. E contra os sentimentos é impossível lutar, - disse amargurado
-Apesar dos seus vinte e seis anos, Ana é uma menina, que sonha com o amor, mas que ainda não o encontrou. Conheço-a melhor que a qualquer de vós. Não quero que sofra. Sei que seria muito feliz contigo, mas como ela mesmo me disse, “o amor é uma fogueira, que não arde só de um lado” Oxalá consigas esquecê-la. Gostaria de te saber feliz.
Acariciou-lhe o cabelo como fazia quando ele era menino.
- Obrigado mãe. Perdoa-me se te faço sofrer.
- Não te atormentes. A vida às vezes leva-nos por estradas sinuosas. Vai cuidar das tuas coisas. Faltam poucas horas para o teu avião.
Não pôde deixar de abraçar a mãe. Admirava-a tanto. Sempre tão serena, tão doce, tão compreensiva.
- Cuida dela mãe. Vou sentir-me melhor se souber que o fazes.
- E não o fiz toda a vida, filho? Vai descansado. E que Deus te ajude.
Ficou a ver o filho afastar-se com uma secreta sensação de culpa. Se eles não tivessem fomentado tanto aquele parentesco. Se os tivessem criado normalmente, sem enfatizarem um laço que não existia na realidade, quem sabe agora não estavam a sofrer daquela maneira.

reedição.
Gente eu sei que não vos visitei a todos mas estou muito cansada, e vou "xonar"

Fica este capitulo agendado para sair daqui a pouco.

18.11.18

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXI









Afonso foi até ele. Dobrando os joelhos para ficar à altura da criança, perguntou:
-Estás triste? O Pai Natal enganou-se no presente?
-Não. Estou confuso.
- Queres dizer-me o que te faz confusão?
- Um menino na escola disse-me que não há Pai Natal. Que os presentes são os pais que os dão. No entanto tu estiveste sempre aqui. E o Pai Natal veio trazer os presentes. Tento perceber onde está a verdade.
Desde o primeiro momento, Afonso considerara Simão um menino muito especial.  Era muito precoce no entendimento das coisas, muito responsável, ele diria até que demais para a sua idade.
- Queres saber a verdade? E depois guardas segredo?
- Claro.
Afonso falou-lhe então, da lenda do Pai Natal. Disse-lhe que os irmãos acreditavam na sua existência e eram felizes com isso. Mas a verdade é que eram sim os pais que compravam os presentes. Depois pediam a alguém de confiança, que se vestisse de Pai Natal e fosse entrega-los naquela noite. Mas agora ele tinha que guardar segredo. Um dia quando os irmãos fossem maiores também iam descobrir a verdade. Mas por enquanto iam ficar muito desiludidos se perdessem aquela magia.
O menino sorriu feliz.
- Fica descansado. Sei guardar um segredo. E sabes uma coisa? Gosto muito de ti. 
-Também gosto muito de ti, filho – respondeu emocionado, abraçando o menino.
Por fim a noite chegou ao fim, as crianças recolheram aos quartos.
Mariana e Matilde, as gémeas, ficaram na cama de Ana, e esta foi dormir com a irmã. Os adultos trocaram então os presentes, com os pais de Francisca a retiraram-se logo a seguir, pois estavam habituados a dormir cedo. Na sala, Afonso conversava com o cunhado, e Graça aproveitou a ida de Francisca à cozinha, para a seguir.
- Ainda não tive oportunidade de falar contigo. Vejo que vocês se entenderam. Há muito tempo?
-Há dois dias.
-Por isso esse ar atarantado dos dois. Estão em lua-de-mel.
-Oh! Nota-se assim tanto? - Perguntou corando.
- Como não? – Vocês devoram-se com os olhos.
- Meu Deus que vergonha!
- Não sejas tonta, amar não é vergonha. Fico feliz por saber que vocês o são. Merecem-no bem. Estava preocupada convosco. Era evidente para mim que vocês estavam apaixonados um pelo outro. Mas são tão teimosos que temia, nunca viessem a reconhecê-lo.  

reedição




9.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXIV






Um ano passara desde que se tinham mudado para a nova casa, onde agora viviam. O pequeno Pedro era desde há oito meses, filho do casal, a dona Ermelinda estava bem de saúde, embora continuasse a fazer exames periódicos, pois determinadas doenças uma vez contraídas nunca são dadas como curadas. A dona Conceição, tia do Pedro, era apaixonada pelo menino e por causa dele, tornara-se visita constante da família e como a senhora tinha perdido o seu único filho e vivia sozinha, Joana, acabara por lhe propor mudar-se para o andar de baixo. A casa era muito grande só para a sua mãe, e as duas senhoras irmanadas na mesma dor, confortavam-se mutuamente. Exatamente o que Pedro e a tia desejavam, mas eles continuavam a guardar segredo, sobre o seu parentesco com o pai biológico do filho.
Aparentemente corria tudo bem na família, mas não passava de aparência.  Joana, que se apaixonara pelo marido, logo nos primeiros dias após o casamento, sentia que alguma coisa o preocupava. Alguma coisa que ele não queria partilhar com ela. Era como se entre os dois houvesse uma parede invisível, mas impenetrável. Pedro era um excelente pai, aproveitava todos os tempos livres para brincar com o filho, passear com ele, inventava histórias engraçadas para lhe contar. E o menino adorava-o. Havia uma tal ligação entre os dois que Joana chegava a ter ciúmes do filho. Com ela, era educado, gentil, preocupava-se em saber se precisava de alguma coisa, se não estava a trabalhar de mais, se necessitava de uma nova empregada, enfim, preocupava-se com as suas necessidades materiais, mas não fora as noites onde se mostrava um amante apaixonado, Joana diria que o sentimento que ele tinha por ela, não era diferente do que sentia pela sua tia, ou pela sogra. Essa sensação entristecia o seu coração, apagara o brilho dos seus olhos, e transformara o seu riso alegre, em sorrisos breves. E fazia com que dona Ermelinda andasse cada dia mais preocupada com a filha.
Naquela manhã, a jovem, que há uns dias se sentia diferente, fizera o teste e descobrira que estava grávida. Noutras circunstâncias daria pulos de alegria, mas apreensiva como andava em relação ao casamento, o facto só lhe trouxe maior preocupação.
A relação entre o marido e o pequeno Pedro, era tão intensa, que Joana temia que ele não quisesse mais filhos, e que visse o novo bebé como um intruso.  
- Que se passa, Joana? Estás a bater essas gemas há dez minutos.
Parou a batedeira e pegou na farinha, para a juntar às gemas batidas com o açúcar.
- Nada, mãe, não te preocupes!
- Não me enganas. É com o teu marido? Aborreceram-se? Sim porque com o Pedrinho, não é. Transpira saúde.
- Já te disse que não é nada. Apenas hoje não me sinto muito bem. Devo ter dormido mal.
- Na tua idade, só se dorme mal por duas razões. Ou estás preocupada ou doente. Se está tudo bem com o teu marido procura um médico. Não estás bem encarada, e há muitas doenças silenciosas. Lembra-te. Mais vale prevenir.
-Está bem mãe. Se não melhorar, vou ao médico. Agora, se quiseres ajudar-me, vai moldando os brigadeiros...



E aqui estou eu... num dos eventos que vos disse ontem.



20.11.16

ESTRANHO CONTRATO - PARTE XXXI









Afonso foi até ele. Dobrando os joelhos para ficar à altura da criança, perguntou:
-Estás triste? O Pai Natal enganou-se no presente?
-Não. Estou confuso.
- Queres dizer-me o que te faz confusão?
- Um menino na escola disse-me que não há Pai Natal. Que os presentes são os pais que os dão. No entanto tu estiveste sempre aqui. E o Pai Natal veio trazer os presentes. Tento perceber onde está a verdade.
Desde o primeiro momento, Afonso considerara Simão um menino muito especial.  Era muito precoce no entendimento das coisas, muito responsável, ele diria até que demais para a sua idade.
- Queres saber a verdade? E depois guardas segredo?
- Claro.
Afonso falou-lhe então, da lenda do Pai Natal. Disse-lhe que os irmãos acreditavam na sua existência e eram felizes com isso. Mas a verdade é que eram sim os pais que compravam os presentes. Depois pediam a alguém de confiança, que se vestisse de Pai Natal e fosse entrega-los naquela noite. Mas agora ele tinha que guardar segredo. Um dia quando os irmãos fossem maiores também iam descobrir a verdade. Mas por enquanto iam ficar muito desiludidos se perdessem aquela magia.
O menino sorriu feliz.
- Fica descansado. Sei guardar um segredo. E sabes uma coisa? Gosto muito de ti. 
-Também gosto muito de ti, filho – respondeu emocionado, abraçando o menino.
Por fim a noite chegou ao fim, as crianças recolheram aos quartos.
Mariana e Matilde, as gémeas, ficaram na cama de Ana, e esta foi dormir com a irmã. Os adultos trocaram então os presentes, com os pais de Francisca a retiraram-se logo a seguir, pois estavam habituados a dormir cedo. Na sala, Afonso conversava com o cunhado, e Graça aproveitou a ida de Francisca à cozinha, para a seguir.
- Ainda não tive oportunidade de falar contigo. Vejo que vocês se entenderam. Há muito tempo?
-Há dois dias.
-Por isso esse ar atarantado dos dois. Estão em lua-de-mel.
-Oh! Nota-se assim tanto? - Perguntou corando.
- Como não? – Vocês devoram-se com os olhos.
- Meu Deus que vergonha!
- Não sejas tonta, amar não é vergonha. Fico feliz por saber que vocês o são. Merecem-no bem. Estava preocupada convosco. Era evidente para mim que vocês estavam apaixonados um pelo outro. Mas são tão teimosos que temia, nunca viessem a reconhecê-lo.