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18.5.22

MEDO DE AMAR - PARTE X


-Sinceramente não sei.  A minha vocação sempre foi o ensino, não sei se me vejo a fazer outra coisa. Tenho que pensar.

Naquele momento ouviu-se a campainha da porta.

-Devem ser os meus pais. Resolveram ficar comigo até que os noivos voltem da viagem de lua-de-mel.- disse Laura enquanto se dirigia para a porta.

Eram realmente Aníbal e Teresa Bacelar, os pais de Laura. Depois dos cumprimentos iniciais, a jovem disse aos pais:

- O Fernando, prometeu ao Gonçalo que levava e ia buscar as meninas à escola enquanto durasse a lua-de-mel. Voltou para me fazer uma proposta de trabalho temporário enquanto a sua assistente vai de baixa e posterior licença de parto. Já lhe disse que não seria necessário cumprir a promessa, pois com vocês cá em casa, tenho a certeza de que quererão essa tarefa para vocês.

O casal trocou um olhar rápido e foi Teresa quem respondeu.:

-Não tenhas tanta certeza disso. Já estamos na idade em que não nos apetece levantar cedo e queremos aproveitar esta semana em Lisboa para fazer algumas compras, e visitar algumas exposições, enfim aproveitar um pouco este tempo que temos de férias, coisa que não fazemos há muitos anos.

 Se o Fernando prometeu ao Gonçalo fazê-lo, é porque não interfere com o seu trabalho e nós agradecemos que continue a fazê-lo. E como agradecimento podemos depois jantar todos juntos num qualquer restaurante aqui perto.

- Por mim está ótimo, não preciso reagendar a minha agenda, pois logo que o Gonçalo falou comigo, a minha  assistente tratou disso. Além do mais, se a Laura aceitar a minha proposta e vocês cuidarem do Miguel, ela podia ir algumas horas à clínica para que a Diana lhe explique como funciona. A Diana é a minha assistente – explicou

-Eu penso que fazes asneira de não aceitares, filha. – disse a mãe. Eu sei que não teres conseguido colocação em nenhuma escola aqui perto, te deixou triste, mas não é uma tragédia, o Quim deixou-te uma situação financeira razoável e se assim não fosse, eu e o teu pai cuidaríamos para que não vos faltasse nada.

Todavia para a semana o Miguel vai para a creche, o teu irmão volta da lua de mel e a Matilde vai viver com os pais. A Sara estará na escola, e tu ficas todo o dia em casa a fazer o quê? A curtir a saudade e a chorar o dia inteiro?

- Não levo a chorar o dia inteiro, mãe. Aliás se o fizesse tenho a certeza de que o Fernando não me teria oferecido o emprego. Já lhe disse que vou pensar.

-Bom, já é alguma coisa, - disse a mãe. E voltando-se para o jovem perguntou:

-  Fernando, porque não aproveitas esta semana que estamos aqui, para ficarmos com as crianças e convidas a Laura para sair uma noite destas? Não sei mas há anos que ela não sai de casa, uma ida ao teatro, ou ao cinema, faziam-lhe bem.

-Mãe! Não acredito nisto, - gritou Laura corando envergonhada

- Não sei porquê. O Quim não vai ressuscitar, por muito que te feches para a vida e continues a ouvir as suas mensagens todas as noites. Depois, o Fernando foi criado contigo e com o teu irmão, conhece-te desde que nasceste, Não te vai fazer nenhum mal.

- Vamos amor, é melhor irmos dar uma volta, deixa que eles resolvam as coisas sozinhos, estás a constrangê-los – interrompeu o marido dando-lhe o braço e quase a arrastando em direção ao quarto.

O silêncio reinou por longos segundos após a saída do casal.


6.11.20

CILADAS DA VIDA -- PARTE LV

 


Faltavam dez minutos para o meio dia, quando David telefonou. Depois de combinarem o restaurante e a hora, vestiu o casaco apertou o nó da gravata e saiu. Ao passar pela secretária de Olga disse:

-Vou almoçar com o David e não volto de tarde. Se puderes, depois de almoço, dá um saltinho lá acima ver a Teresa.

- Vai descansado. A Teresa está bem acompanhada. A Sandra é uma excelente profissional e gosta da muito dela.

-Eu sei. A Teresa também gosta dela. Aliás, disse-me que são as três,  muito carinhosas e simpáticas. Bom, até amanhã.

- Até amanhã. Bom almoço.

- Obrigado

O restaurante onde o irmão, tinha reservado mesa, em Belém foi uma agradável surpresa. O “Caseiro” não era muito grande e nada luxuoso, era mais um restaurante típico para turistas, mas David afirmou, que almoçava lá muitas vezes, por ficar perto do seu escritório e que a comida e atendimento eram muito bons. Só tinha um defeito, estava sempre cheio, e não se proporcionava ambiente para conversas como a que os dois iriam ter. Mas isso não era problema, já que depois do almoço podiam ir para o seu escritório e aí sim, podiam conversar sem interrupções, já avisara Irene a sua a sua assistente, de que  nessa tarde, não estaria para ninguém.

E João teve oportunidade de ver que o irmão tinha razão. O “polvo à lagareiro” pedido por ele estava bem confecionado e muito saboroso e o vinho tinto da casa, leve e frutado foi um ótimo acompanhamento. David escolheu dourada grelhada com legumes que também tinha um ótimo aspeto. A sobremesa e o café foram igualmente bons e o atendimento uma simpatia.

Após o almoço, David disse:

-Não sei onde deixaste  o carro, mas se estiver bem estacionado, talvez não valha a pena ires busca-lo, o meu escritório fica a menos de duzentos metros, é só atravessar a rua, e entrar na rua transversal, mas como ela só tem um sentido, para ires para lá, de carro, tens que dar uma grande volta e entrares por cima.

-Então vamos. Caminhar um pouco, para quem como eu, leva metade da vida sentado, só faz bem.

 O escritório de David não era muito grande, uma entrada ampla, a um canto da qual havia um balcão disposto em quadrado, dentro do qual, uma secretária, um computador, um telefone e uma cadeira giratória. Sob o balcão várias prateleiras, onde se viam algumas pastas de arquivos. No resto da sala dois sofás de couro, colocados de modo a apanhar duas paredes formando um angulo reto. Na parece em frente duas portas e entre elas um painel retratando um pedaço de floresta cortada por um rio.  Uma das portas dava para o gabinete de David, a outra para a casa de banho. David acabara de abrir a porta do seu gabinete, quando a porta de entrada se abriu, e entrou uma mulher alta, morena, de cabelo escuro. Não era muito jovem, usava óculos, e vestia um saia-casaco cinzento e uma camisa branca. João pensou que ela andaria mais ou menos pela idade de Olga.

-Boas tardes, - saudou

-Boa tarde, -responderam os dois homens. Depois David disse:

- Dona Irene, tal como lhe disse esta manhã, não me passe nenhuma chamada e se houver pedidos de consulta marque dia e hora consoante a disponibilidade da agenda. Para todos os efeitos eu estou no tribunal.

E então, entraram no gabinete dele.

4.9.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XXVIII




AGRADECIMENTO

Do coração agradeço as carinhosas mensagens com que tornaram o meu dia  ontem um dia especial e mais feliz. Bem Hajam


As palavras da sua assistente mexeram com ele. Não que acreditasse que ela estava certa. De modo algum. O facto de se surpreender várias vezes ao dia a pensar como é que ela estaria, e com vontade de lhe telefonar, devia-se ao facto de saber que ela carregava no ventre um filho seu, não tinha nada a ver com paixões repentinas. Até porque ele não acreditava no amor. Nem sabia se existia tal sentimento, mas se existia ele nunca se tinha cruzado com ele. Acreditava no sexo, no poder do desejo, entre duas pessoas, no trabalho, até na amizade. Mas no amor? Se ele existisse, a sua mãe tê-lo-ia abandonado como se fora coisa sem préstimo? Não diz toda a gente, que o amor de mãe é o amor maior?

Então se esse era o amor maior, o que podia esperar dos outros.

Quando mais novo, procurara esse amor, com ânsia, na tentativa de provar a si mesmo que era um homem como os outros. Mas encontrou-o? Que nada. Encontrou mulheres capazes de jurar amor eterno, enquanto ele se mostrava generoso, mas quando deixava de o ser, partiam em busca de outro que satisfizesse os seus caprichos.

Por momentos recordou Glória, a última mulher que mitigara as suas necessidades de homem jovem e saudável. Tinha tanto de bonita, quanto de ambiciosa, e apesar da relação ter durado um pouco mais que as anteriores, nunca em momento algum tocou o seu coração.

Excetuando Olga e a mãe, nunca encontrara uma mulher em cuja sinceridade pusesse fé.

Então porque confiara em Teresa? Porque não pusera um investigador em campo para que lhe fizesse um relatório sobre ela e lhe mostrasse se era ou não confiável? Decerto que fora pelo receio de que se ela o descobrisse, afastasse dele a hipótese de ter nos braços o seu filho, ou porque isso a pusesse nervosa e pudesse prejudicar o desenvolvimento do seu filho, não era de modo algum porque em pouco mais de uma hora, ela tinha destruído a muralha que ele erguera, e mantivera intacta em toda a sua vida, na relação com as mulheres. Ou seria?

Bom, a sua decisão estava tomada. Tinha sensivelmente oito meses, para a convencer de que o melhor para a criança seria um casamento entre os dois. Se ela não acreditava nos homens e ele não acreditava nas mulheres, podiam realizar uma união de amizade e respeito mútuo. De resto era a única hipótese que ele via de poderem criar a criança em conjunto. Afinal quando o bebé nascesse, ele estaria quase nos trinta e cinco anos, ela já tinha ultrapassado os trinta. Ambos eram empresários, responsáveis, encarariam o casamento como uma transação entre iguais. Por mais voltas que desse à cabeça era a única solução que lhe parecia viável. Ela dissera que como amigos podiam criar e educar a criança entre os dois. Mas isso só seria possível com os dois a viverem debaixo do mesmo teto. Era uma questão de lógica, não de amor, como Olga insinuava. Amor! Ela só podia estar a sonhar. Afinal ela era uma romântica que por qualquer razão que ele desconhecia, resolvera ficar solteira. Isso era algo que ele nunca entenderia. Porque é que uma mulher bonita, inteligente e simpática, sempre pronta a ajudar os outros, cujos olhos brilhavam quando via alguma criança, nunca se casara? Durante toda a sua meninice, e adolescência, ele viu vários tipos a rondar a sua casa, mas nunca a viu sair com nenhum. Passava a vida no emprego, e em casa com a mãe. A única exceção era a sua casa, onde ia muitas vezes. Na verdade, pensando bem, era ela e a mãe quem cuidavam da sua casa, já que o seu pai, saía para a oficina logo de manhã e regressava à noite, muitas vezes diretamente para a cama, sem se preocupar sequer se o filho tinha ou não jantado.

Passou a mão pelo cabelo, num gesto habitual quando tomava uma decisão da qual não se afastaria.

 

 

26.5.20

ISABEL - PARTE X



Apesar da saúde da mãe que se ia degradando cada vez mais, foi uma alegria quando conseguiu o primeiro contrato. Uma campanha publicitária para uma grande superfície. Fez sucesso e logo veio uma outra para um telemóvel. E essa campanha mudou o conceito publicitário no país. Foi um sucesso tão grande, que em breve não conseguia dar conta de tantos contratos sozinha, e teve que arranjar uma assistente para a ajudar, até porque nos fins-de-semana tinha que cuidar da mãe e andava muito cansada. Foi nessa época que contratou Amélia,  que se veio a revelar ser de grande valia, uma assistente competente e confiável, que se tornou mais tarde,  também numa grande amiga.
Menos de dois anos depois a mãe partiu. O pai ficou muito abalado e a sua saúde, já débil, ressentiu-se ainda mais. Isabel desdobrava-se para conseguir cumprir datas no trabalho e cuidar do pai que uma noite caiu da cama e ficou ainda mais dependente. Ermelinda continuava cuidando de tudo de dia, mas de noite e nos fins-de-semana era sempre ela quem cuidava do pai. Lembrou-se da primeira vez que lhe deu banho. O pai chorou o tempo inteiro de vergonha.
Foram três anos muito cansativos. Um certo dia Isabel teve conhecimento de um concurso internacional de marketing  que ia decorrer na Alemanha, e decidiu concorrer. O seu trabalho foi premiado e teve que viajar para lá.
O pai estava cada dia pior e ela viu-se obrigada a procurar um lar onde o pôr. Não podia viajar de outro modo.
Depois desse trabalho Isabel teve outros trabalhos para a Europa e outras viagens. Sempre que estava no país passava todas as tarde duas horas com o pai. No escritório, agora apenas dela, já que Irene se casara e fora viver para Coimbra,  além de Amélia, sua assistente, tinha uma jovem estagiária, que acabou ficando a trabalhar com ela durante mais de quatro anos, até que decidiu trabalhar por conta própria A vida profissional de Isabel progredia a olhos vistos mas a vida pessoal praticamente não existia.
No início de 2007, o pai partiu. Morreu serenamente enquanto dormia.
Depois do funeral Isabel pôs à venda a casa dos pais e foi viver para um moderno apartamento perto do escritório. Talvez para compensar a sua solidão embrenhou-se ainda mais no trabalho.
Claro que muitas vezes se sentia sozinha. Por vezes ao olhar os casais de namorados que se cruzavam com ela na rua, sentia uma certa nostalgia, e até porque não um pouco de inveja.
Ela queria ter um homem a seu lado, a quem amasse, e que a fizesse sentir-se  amada. Que, como um rio, penetrasse nos recônditos da sua alma sequiosa de amor, transformando a aridez da sua vida, num oceano de novas sensações e emoções.
Era normal. Afinal era uma mulher na plenitude da vida, a quem já fora dado a conhecer, os prazeres de uma vida de amor e paixão. Não era freira, e naqueles vinte anos que passaram desde a morte de Fernando, teve alguns relacionamentos. Breves, sem mais intimidade que a troca de um ou outro beijo, mas logo terminadas, por não conseguirem despertar-lhe qualquer emoção.
“Por esse andar, um dia vais acordar velha e sozinha” costumava dizer-lhe Amélia sua assistente, amiga e confidente,  sempre a seu lado quase desde o primeiro trabalho.
Aquele era um cenário, que não lhe agradava nada. Mas que fazer, se ela ainda não esquecera Fernando? Ela nunca conseguiria partilhar a sua vida com um homem a pensar noutro. Nem acreditava que uma união assim fosse feliz, para qualquer dos dois.  
Veio-lhe à memória a imagem do marido, mas pela primeira vez em quase duas décadas, o seu rosto aparecia esbatido, como que envolto em neblina.
Deu mais uma volta na cama, ajeitou a almofada e por fim adormeceu.



 

15.5.20

ISABEL - PARTE III

Hoje  estou AQUI numa gentileza da Teresa do blogue Ontem é só Memória Se puderem passem por lá.
                                                            Meia-Praia
                                                 

Mal tinha escolhido o local onde poisar o saco, quando o telemóvel tocou. Nunca podia estar sem comunicação, pois apesar das férias, várias vezes lhe ligavam do escritório. Isabel era  empresária, a sua firma, era uma das melhores da especialidade, e o trabalho  absorvia-lhe todo o tempo e energia de que dispunha. Mas ela não se importava.  O trabalho fora para ela o remédio sagrado, que evitara a perda da sua sanidade mental. Atendeu a chamada e durante alguns minutos esqueceu tudo o resto e dedicou-se apenas a dar instruções à sua assistente.
Desligada a chamada, meteu o telemóvel e a carteira nos bolsos dos calções, colocou os óculos escuros,  enfiou os chinelos no saco, tapou-o com a toalha de praia e aproximou-se da beira-mar para fazer uma caminhada ao longo da praia. Um quarto de hora depois, o ar começava a aquecer e o céu embora continuasse nublado tinha clareado bastante. Olhou para trás. O saco com a toalha ficara já muito distante. Tanto longe, que quase não o via. Encolheu os ombros e continuou a caminhada solitária pela praia. Reparou num homem alto que fazia a caminhada em sentido contrário e se aproximava dela. Notava-se que já não era um rapazinho mas apresentava um aspecto atlético e cuidado.
- Mais um solitário, - pensou e continuou a sua marcha.
Enquanto caminhava, deixou que as recordações saltassem da gaveta das memórias e invadissem o presente. Mentalmente recuou duas décadas, e viu-se de novo uma jovem de dezoito anos, esfuziante de alegria e entusiasmo. Apaixonada e prestes a casar. Lembrou a busca de casa para alugar, a escolha dos móveis, dos cortinados, os sonhos, a preparação da data do matrimónio, tudo partilhado com o namorado. Fernando era o homem amado, aquele que parecia adivinhar os seus pensamentos antes mesmo que ela os expressasse em voz alta.
O homem, avistado antes, cruzava-se agora com ela, e por breves segundos os seus olhares encontraram-se e logo se afastaram seguindo cada um o seu caminho.
                                                      

28.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVIII

Santo Deus que loucura! Pedro caminhava pela rua completamente aturdido. Acabara de sair do médico e o que se passara tinha sido tão absurdo que se interrogava, se acontecera mesmo, ou se era fruto da sua imaginação delirante. Tinha saído de casa decidido a falar com o clínico. Chegou ao consultório e pediu à assistente uma consulta. Não era possível, disse ela. O médico tinha muitos doentes e não tinha ordem para marcar mais ninguém.
- Por favor menina, peça ao médico. É muito importante. Olhe diga-lhe que sou Pedro Medeiros e que me venho despedir...
A assistente hesitou. Depois virou costas, e dirigindo-se ao gabinete do médico, bateu, e entrou. Saiu logo de seguida.
- Por favor, siga-me. O Doutor vai recebê-lo já.
Ele seguira a assistente que lhe abriu a porta e se retirou. Avançou para a secretária e o médico pôs-se de pé.
- Boa-tarde, Doutor.
 – Boa tarde, Pedro. Como desejava vê-lo. Há mais de um mês que o procuro.
- Para quê Doutor? Para ver se o seu diagnóstico estava certo? - perguntou com ironia.
- Não amigo. A minha preocupação era outra. Acontece que pouco tempo depois daquela tarde em que vi as suas análises, eu tive que mandar repetir as análises de um outro doente. É que apesar das primeiras que fez me dizerem que estava tudo bem, o doente definhava a olhos vistos. Repetidas as análises, descobri que ele sofria de uma leucemia em fase terminal. Pouco ou nada podia fazer por ele.
- Como eu...
- Não! Como o senhor, não. Depois de estudar as  análises dele e as suas, que você não quis levar, e comparando os valores com das segundas que ele fez, cheguei à conclusão de que as vossas análises iniciais, tinham sido trocadas. Então procurei-o na morada que tinha na ficha, mas infelizmente não havia ninguém lá, e não sabia onde encontrá-lo.
Em silêncio, Pedro escutava a voz grave do médico, relutante em aceitar o que ele dizia. Por fim balbuciou receoso:
- Então eu...
 – Sim meu amigo – interrompeu ele – tinha apenas uma ligeiro distúrbio  nervoso, de que já deve estar curado, a julgar pelo seu óptimo aspeto.
 – Doutor não seria melhor eu fazer outros exames?
 – Se com isso fica mais descansado, posso marcar-los. Por mim não é necessário. O verdadeiro dono das outras análises faleceu na terça-feira à noite no hospital de S. José em Lisboa.
- Meu Deus!
Pedro ergueu-se. Mil pensamentos passavam velozes pela sua cabeça. A imagem de Rita, o seu olhar cândido, o som mavioso da sua voz, o toque sedoso dos seus cabelos, a casa da tia, a margem do rio, a preocupação de sua mãe, o pequeno Pedro, dona Célia, os passeios à beira-rio, tudo o que vivera nos últimos dois meses, voltaram à sua memória numa sucessão vertiginosa, como cavalos selvagens em louca corrida.
- Obrigado Doutor. Muito obrigado.


E como amanhã é domingo esta história volta na segunda.

13.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE V


No dia seguinte fez os exames que o médico lhe prescrevera. E ficou aguardando que passassem os dez dias para saber o que na verdade se passava consigo. Quando o dia chegou, passou no laboratório de manhã a apanhar o envelope com os resultados,  antes de ir para o emprego e à tarde quando saiu, foi ao consultório levá-lo ao médico. Desta vez, talvez porque já fosse tarde, a sala de espera estava vazia. Apenas a assistente do médico se encontrava na sua secretária folheando uma revista esperando por certo, que o médico desse o dia por terminado ou quem sabe esperasse ainda por algum retardatário . 
- Boa tarde. O senhor doutor está? Tenho aqui o resultado das análises que ele me pediu.
- Boa tarde, – respondeu a assistente. - Espere um pouco. Vou ver se o doutor o pode atender agora.

Afastou-se e entrou no consultório depois de ter batido suavemente à porta. Segundos depois saía.
Pode entrar, - disse afastando-se para o deixar passar e fechando a porta nas suas costas.  
 Já na sala, Pedro cumprimentou o médico e estendeu-lhe o envelope. Como da primeira vez, olhou à sua volta com desconfiança enquanto o médico abria o envelope e se embrenhava no resultado das análises.
Pensou que a sua desconfiança se devia ao facto, de em criança, ter caído e ficado com um enorme corte, num joelho, que teve que ser cosido. Porém desta vez, ao olhar o médico, foi invadido por um receio maior. Teve a certeza que qualquer coisa de muito grave se passava consigo. Foi algo que leu, no olhar receoso que o médico lhe lançou.
- Então Doutor, o que dizem as minhas análises?
 – Bem, tem que fazer repouso absoluto. Vou receitar-lhe umas injeções e umas cápsulas. E também...
 – Doutor, – interrompeu Pedro, certo de que o facto de o médico não responder à sua pergunta, configurava um caso muito grave. – Não sei o que vi nos seus olhos, mas tenho a certeza de que não é nada bom. Não será com repouso que resolvo o meu problema, e o Doutor sabe-o. Quero saber a verdade. Tenho direito a isso. Vivo com a minha mãe, que já ultrapassou os setenta anos e para quem sou tudo o que tem na vida. E é por ela, que preciso saber a verdade.
- Meu jovem, pede-me a verdade e esta por vezes é muito cruel. Quisera dizer-lhe que está enganado, que nada do que pensa é verdade, mas infelizmente só posso dizer-lhe que às vezes os milagres acontecem.





E porque hoje é Sexta-Feira 13 quem quiser conhecer uma história verdadeira é só carregar no link 

12.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE IV


Ao passar pela sala, Pedro verificou que esta se encontrava agora completamente cheia.
- Então que lhe disse o médico? - perguntou o jovem com quem conversara anteriormente.
- Que não via nada de importante. Mandou-me fazer análises e recomendou-me passeios e distracção. Voltarei cá quando tiver os resultados das análises.
-Victor Ferreira - chamou a assistente
- Então adeus e as melhoras. A menina está a chamar-me.
- Obrigado. As melhoras também para si.
O jovem acabava de passar a porta do consultório e já nem devia ter ouvido as últimas palavras de Pedro. Este aguardou a volta da assistente, pagou a consulta e saiu. Na rua respirou fundo.
A mãe já devia estar ansiosa à sua espera. Pobre mãe. Os seus setenta e um anos tinham sido bem sofridos, mas não queria que ele contratasse uma empregada. Dizia, zangada, que velhice não é invalidez.
- Boa tarde mãe. Como foi o seu dia? - perguntou enquanto a beijava.
- Normal, filho. E o teu? Foste ao médico? Que disse ele? - perguntou ansiosa e preocupada.
- Ora mãe, que queria que dissesse? Que não me encontrava nada de maior, que me distraísse. E mandou-me fazer umas análises e voltar lá quando tivesse os resultados.
- E os pulmões, filho? Viu-te lá no tal aparelho?
 – Claro, mãe. Pode ficar descansada, que não vou morrer tuberculoso, - e afastou-se rindo.
A mãe foi atrás dele.
- Não te rias filho. Andas mal-encarado e sem apetite. Sou velha, mas não sou cega. Nem quero pensar o que vai ser de mim se te acontece alguma coisa grave.
- Ora mãe, não me fale de coisas tristes. O médico disse para me distrair, e ninguém se distrai com tristezas. E mudando de conversa, o que é o jantar?
 – Pato assado.
- Ora valha-a Deus minha mãe. Então tem o meu prato favorito para o jantar e não dizia nada? Vamos lá para a mesa que já me cresce água na boca, -
disse-o rindo, mas o riso soou-lhe a falso. E mentalmente pediu a Deus que a mãe não o percebesse. Sentou-se à mesa e foi com grande esforço que conseguiu comer o suficiente para não deixar a mãe mais preocupada. Na verdade, embora fosse o seu prato preferido, não sentia qualquer vontade de comer.



11.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE III

- Está nervoso? - perguntou Pedro, mais para aquietar o outro do que por curiosidade.
- É a primeira vez que venho ao médico – respondeu o jovem – sempre fui saudável, mas ultimamente não sei o que tenho. Faltam-me as forças, canso-me a andar, não me apetece comer, e durmo mal. Não é normal na minha idade. E você?
 – Bem, a mim acontece-me mais ou menos o mesmo. - respondeu Pedro. É por isso que aqui estou. Também é a primeira vez.
- Pedro Medeiros chamou a assistente do médico.
Ele levantou-se mais nervoso ainda. Seguiu a assistente por um curto corredor, e atravessou a porta do consultório que ela lhe abrira.
Na sua frente estava uma sala com uma enorme secretária, atrás da qual se encontrava um homem dos seus cinquenta anos, cabelos grisalhos, e uns olhos que se escondiam atrás dos óculos de grossas lentes. Vestia uma bata branca. Ao lado da secretária um biombo branco escondia talvez alguma maca, ou marquesa, como dizia a sua mãe. Ao canto um aparelho grande, branco. "Deve ser o tal da radioscopia," - pensou.
- Sente-se, - disse o médico de mão estendida, apontando a cadeira vazia na frente da secretária. A assistente, poisou a ficha do doente na frente do médico e saiu
 fechando a porta atrás de si.
- Ora então diga-me lá, de que se queixa, senhor... - olhou para a ficha e continuou - Pedro Medeiros, não é verdade? 
O jovem assentiu com a cabeça, em vez de responder. Sentia-se intimidado. Engoliu saliva e a custo, explicou os sintomas. Quando acabou, o médico levantou-se, colocou o estetoscópio e disse:
- Passe ali para trás do biombo e dispa a camisa:
Pedro levantou-se e fez o que o médico lhe mandara. Este aproximou-se dele e fez um demorado exame, ao mesmo tempo que lhe mandava respirar fundo, e tossir. Depois  dirigindo-se à secretária pegou no 
esfigmomanómetro e mediu-lhe a tensão arterial. Por fim mandou-o deitar, apalpou-lhe a zona do fígado, do estômago, do apêndice. Mirou-lhe os olhos e mandou-lhe pôr a língua para fora. Endireitou-se e disse:
- Agora venha aqui a este aparelho.
Pedro seguiu-o cada vez mais nervoso, e foi fazendo o que o médico lhe pedia. Uns minutos depois o clínico deu o exame por terminado e dirigindo-se para a secretária disse:
- Pode vestir-se.
E começou a rabiscar algo. Quando ele se sentou já vestido, o médico disse:
- Não lhe encontro nada de nada. Mas para afastar qualquer hipótese, e ver se descobrimos a razão dos seus sintomas, vai fazer umas análises e volta quando tiver os resultados.
E dizendo isto estendeu-lhe a folha onde antes estivera a escrever.
Pedro, pegou na folha e balbuciando um obrigada dirigiu-se à porta e saiu. Antes ainda ouviu a última recomendação do médico:
- Dê uns passeios e distraia-se.


14.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVI





Não tiveram que esperar muito, para que a assistente do médico, chamasse por Miguel. Este deu a mão à jovem tentando incutir-lhe coragem. Ao vê-los entrar, o médico disse;
-Só o senhor por favor. A jovem, aguarda lá fora.
- Mas a consulta é para ela, doutor.
- Como assim? Aqui diz, Miguel Fernandes
-É que ela não sabe como se chama. E tinha de dar um nome, por isso dei o meu.
- Ela não sabe como se chama? E o senhor também não sabe o nome dela? - Estranhou o médico
- Não doutor. Nunca a tinha visto até ontem.
- Bem, - disse o médico recostando-se na cadeira, - o melhor é sentarem-se e contarem-me essa história.
Miguel contou como percebeu que a jovem se ia suicidar, como contra a sua vontade, a tinha salvado, o desmaio e depois a falta de memória da jovem quando acordou. 
-A falar verdade, - acrescentou, nem sequer sei se a perda de memória aconteceu naquela altura, ou se já existia antes.
O médico ouviu com atenção e depois pediu a Miguel para se retirar, e esperar na sala.
Depois que ele saiu, o médico fez algumas perguntas à jovem, nomeadamente se ela se lembrava da tentativa de suicídio, constatando que ela não sabia nada, a não ser o que Miguel contara. Depois, examinou-lhe os olhos, fez-lhe alguns testes simples, como seguir com o olhar um objecto ou responder a uma frase, com a primeira coisa que lhe viesse à cabeça, coisa que a jovem teve dificuldade em fazer, talvez porque se sentia perdida e cada vez mais nervosa. Por fim o médico deu-lhe uma folha em branco, pedindo-lhe que escrevesse nela o que lhe viesse à cabeça. A jovem olhou para o papel, pensou uns instantes e traçou uns riscos imprecisos que não significavam nada.
Então o médico pediu-lhe que chamasse Miguel.
Quando ele entrou, o médico disse:
-A jovem está com amnésia, que pode ser, ou não, temporária. Talvez, não saiba, mas a amnésia, pode ter origem emocional, ou física. Vamos supor que esta jovem sofreu um grande desgosto.  A perda de alguém querido, por exemplo,  é sempre um choque emocional muito grande, e isso pode ter-lhe provocado a amnésia. Mas também pode ter um problema físico. Um tumor, uma infecção no cérebro, certos tipos de doença bipolar, problemas da  glândula  hipófise, doenças crónico-degenerativas do sistema nervoso uma pancada na cabeça, enfim tanta coisa que pode provocar a amnésia. Ela tem-se queixado de dores de cabeça?
- Não doutor. Pelo menos ontem e hoje não.
- Bom, eu inclino-me mais para um distúrbio emocional. Mas não podemos descartar nenhuma das hipóteses. Para já, acho-a demasiado nervosa, e muito ansiosa.  Vou receitar-lhe o Lexotan.  Vai tomar meio comprimido à noite, durante cinco dias. A partir do sexto dia, passa a tomar um comprimido inteiro.  É  um ansiolítico, fraquinho,  só para ficar mais calma e menos ansiosa. É bom que não exceda a dose, para não corrermos o risco de provocar o efeito contrário. Entretanto vai fazer uma ressonância magnética do crânio, para detectarmos se existe alguma anomalia física. Só depois disso, podemos saber, que caminho trilhar.
 - E não se pode fazer mais nada?- Perguntou Miguel.
-Dê-lhe um bloco de desenho. E traga-me os seus desenhos quando voltar. Pode ser que deixem transparecer alguma coisa.
E voltem assim que tiverem a RM.
- Obrigado doutor.









6.3.18

A TRAIÇÃO - PARTE VI


João caiu no desespero. Nem ele próprio, se tinha dado conta, da intensidade do amor que tinha pela mulher. Mandou a sua assistente desmarcar todas as consultas, que tinha agendadas e fechou o consultório. Sentia vontade de largar tudo e desaparecer. E se não o fez, foi porque o sentido do dever para com os seus doentes, impunha-se mesmo ao seu desgosto. Não pediu o divórcio, se ela queria ser livre, que o pedisse. Durante meses, esperou todos os dias por isso, mas ela nunca o pediu, e ele também não. Como se adivinhasse o que se tinha passado, Inês que há algum tempo tinha regressado à cidade, divorciada, e já tinha tentado reatar a relação, sem qualquer sucesso, intensificou os seus esforços,  tentando cercá-lo numa teia de sedução, e recuperar o seu amor. Ele não lhe deu qualquer esperança. Para ele, ela morrera no dia em que descobrira a sua traição.
Durante quase um ano, sentiu-se no inferno, e só não caiu na depressão, graças à ajuda ao seu amigo Manuel, um excelente psicólogo, e a única pessoa a saber que a esposa o abandonara. Quando conseguiu enfim dominar o desgosto, reabriu o consultório, mas agora apenas duas vezes por semana. Os anos foram passando, e já lá iam quase quatro desde aquele dia em que Odete partira. João tinha agora, trinta e nove anos. Os cabelos apresentavam-se grisalhos e as rugas à volta dos olhos tinham-se acentuado. Profissionalmente tinha recuperado o prestígio de outrora. Mais. Era agora o diretor do hospital onde sempre trabalhara. No seu consultório, a sua assistente estava a marcar consultas, com três meses de espera. Ele não se importava. Quem tivesse urgência, procurasse outro cardiologista. Ele não voltaria a entrar naquela espiral de excesso de trabalho. Afinal para quê? Tinha mais dinheiro do que aquele que precisava para ter uma vida de qualidade. Não tinha filhos e já tinha perdido as esperanças de os vir a ter.  O facto de Odete não ter pedido o divórcio, criou no seu coração a secreta ilusão de que um dia ela voltaria.  E essa ilusão, dava-lhe forças para se manter vivo.
Abriu os olhos e endireitou-se. Pegou a garrafa de cerveja, e levou-a à boca. Bebeu um pouco e cuspiu de imediato para a garrafa. Estava quente e choca. Levantou-se e foi à cozinha, despejou a cerveja na lava loiça e pôs a vasilha no receptáculo da reciclagem. Introduziu uma cápsula na máquina e tirou um café. Precisava espantar o cansaço. Tinha que entrar em contacto com um colega espanhol por causa de uma técnica inovadora que ele usara no tratamento de um doente, e precisava estar bem desperto. Eram quase oito horas, a hora combinada para falaram. Foi ao quarto vestiu uma camisa, penteou os cabelos e dirigiu-se ao escritório onde abriu o computador.


25.9.16

VIDAS CRUZADAS - PARTE V


No dia seguinte fez os exames que o médico lhe prescrevera. E ficou aguardando que passassem os dez dias para saber o que na verdade se passava consigo. Quando o dia chegou, passou no laboratório de manhã a apanhar os resultados antes de ir para o emprego e à tarde quando saiu, foi ao consultório mostrar o envelope ao médico. Desta vez, talvez porque já fosse tarde, a sala de espera estava vazia. Apenas a assistente do médico se encontrava na sua secretária folheando uma revista talvez esperando que o médico desse o dia por terminado ou quem sabe esperasse ainda por algum retardatário . 
- Boa tarde. O senhor doutor está? Tenho aqui o resultado das análises que ele me pediu.
- Boa tarde, – respondeu a assistente. Espere um pouco. Vou ver se o doutor o pode atender agora.
 
Pode entrar, - disse a assistente abrindo a porta do consultório. 
 Pedro entrou e como da outra vez, olhou à sua volta com desconfiança enquanto o médico abria o envelope e se embrenhava no resultado das análises.
Pensou que a sua desconfiança se devia ao facto de, em criança, ter caído e ficado com um enorme corte, que teve que ser cosido. Porém desta vez, ao olhar o médico, foi invadido por um receio maior. Teve a certeza que qualquer coisa de muito grave se passava consigo. Foi algo que leu, no olhar receoso que o médico lhe lançou.
- Então Doutor, o que dizem as minhas análises?
 – Bem, tem que fazer repouso absoluto. Vou receitar-lhe umas injecções e umas cápsulas. E também...
 – Doutor, – interrompeu Pedro, certo de que o facto de o médico não responder à sua pergunta, configurava um caso muito grave mesmo. – Não sei o que vi nos seus olhos, mas tenho a certeza de que não é nada bom. Não será com repouso que resolvo o meu problema, e o Doutor sabe-o. Quero saber a verdade. Tenho direito a isso. Vivo com a minha mãe, que já ultrapassou os setenta anos e para quem sou tudo o que tem na vida. E é por ela, que preciso saber a verdade.
- Meu jovem, pede-me a verdade e esta por vezes é muito cruel. Quisera dizer-lhe que está enganado, que nada do que pensa é verdade, mas infelizmente só posso dizer-lhe que às vezes os milagres acontecem.

10.12.15

AMANHECER TARDIO - PARTE XII






Foi assim que passados uns dias, contrataram Ermelinda, uma senhora de meia-idade, forte e trabalhadora, que não só cuidava da sua mãe, como cuidava da casa e refeições.
Foi uma grande ajuda para Isabel atarefada com a montagem do escritório, que inicialmente era para dividir por três e acabou sendo só para ela e Irene que se tinha formado em advocacia. Depois da montagem era necessário contactar possíveis clientes, dar-se a conhecer.
E foi bem difícil abrir caminho num mundo que se fechava a tudo o que era inovação.
 Apesar da saúde da mãe que se ia degradando cada vez mais, foi uma alegria quando conseguiu o primeiro contrato. Uma campanha publicitária para uma grande superfície. Fez sucesso e logo veio uma outra para um telemóvel. E essa campanha mudou o conceito publicitário. Foi um sucesso tão grande, que em breve não conseguia dar conta de tantos contratos sozinha, e teve que arranjar uma assistente para a ajudar, até porque nos fins-de-semana tinha que cuidar da mãe e andava muito cansada.
Foi nessa época que contratou Amélia,  que se veio a revelar ser de grande valia, uma assistente competente e confiável, que se tornou mais tarde,  também numa grande amiga.
Menos de dois anos depois a mãe partiu. O pai ficou muito abalado e a sua saúde, já débil, ressentiu-se ainda mais. Isabel desdobrava-se para conseguir cumprir datas no trabalho e cuidar do pai que uma noite caiu da cama e ficou ainda mais dependente. Ermelinda continuava cuidando de tudo de dia, mas de noite e nos fins-de-semana era sempre ela quem cuidava do pai. Lembrou-se da primeira vez que lhe deu banho. O pai chorou o tempo inteiro de vergonha dela.
Foram três anos muito cansativos. Um certo dia Isabel que tinha concorrido a um concurso na Alemanha viu o seu trabalho premiado e teve que viajar para lá.
O pai estava cada dia pior e ela viu-se obrigada a procurar um lar onde o pôr. Não podia viajar de outro modo.
Depois desse trabalho Isabel teve outros trabalhos e outras viagens. Sempre que estava no país passava todas as tarde duas horas com o pai. No escritório, agora apenas dela, já que Irene se casara e fora viver para Coimbra,  além de Amélia, sua assistente, tinha também uma jovem estagiária. A vida profissional de Isabel progredia a olhos vistos mas a vida pessoal praticamente não existia.



Nota: Este conto, vai ser interrompido NO DIA 15, para postagens mais alusivas à época, regressando pós Ano Novo para o seu desfecho.