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27.8.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XI

 



-Porquê, doutora? Porque me trazes para tua casa, e me tratas como se fora alguém da tua família?
- Não sei, - disse sustentando-lhe o olhar. -Talvez porque me sinta responsável por ti, desde que te vi meio morto na estrada, ou porque a época é de fraternidade e me aflige, que não saibas quem és, nem para onde hás de ir. Ou porque sempre me senti, um pouco a Joana D'Arc, e nunca tive oportunidade de o demonstrar. Ou simplesmente,  porque gostaria que alguém me ajudasse se fosse comigo. Mas isso que importa? 

Agora tenho que ir lá acima ao quarto andar, buscar o meu filho, a festa do amigo já terá terminado. Depois acabo de preparar o jantar que na verdade já está feito, é só ligar o forno para o aquecer. Enquanto isso, podes ir para o teu quarto descansar, ou para a sala, tens lá vários livros, ou  se te apetecer, liga a Televisão.

Com os olhos brilhantes de emoção, ele beijou-lhes as mãos e disse:
-És uma mulher incrível, doutora. Oxalá a tua generosidade possa ser recompensada.

 Soltou-a e virou-se para a janela, para esconder dela o desespero que a sua situação lhe provocava.

- Não fiques assim. Tenta relaxar. Quanto mais te esforças, mais frustrado ficas. A tua RM não acusou nenhuma sequela que seja a causa da amnésia. Deves ter tido um choque grande e o teu subconsciente recusa-se a recordar. É como se ele receasse alguma coisa. Quando deixar de recear, recordarás tudo. Agora, vou buscar o Diogo. Deveríamos arranjar-te um nome. Não pudemos dizer-lhe que não te lembras e como te chamas, porque isso iria fazer uma grande confusão, na sua cabeça. Tens predileção por algum?
- Fernando – disse sem pensar, e acrescentou. Foi o primeiro que me ocorreu. Será que é o meu nome?
- Quem sabe? Pode ser. Até já – disse saindo e deixando-o a sós com os fantasmas  que o atormentavam.

Fernando, foi até à sala. Acendeu a luz, e dirigiu-se à estante que ocupava toda uma parede. Muitos livros relacionados com a medicina, diziam bem do interesse da dona da casa. Mas também havia muitos outros. Clássicos da literatura mundial, como Goethe, Balzac, Shakespeare, Dostoiévski, Homero, Dante, Camus, Victor Hugo, Sartre, Ionesco, Steinbeck, entre muitos outros. Mas também os de língua portuguesa, como Camões, Pessoa, Machado de Assis, Jorge Amado, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Virgílio Ferreira, entre um numeroso grupo de bons autores. Escolheu “O Náufrago” de Thomas Bernhard, porque no fundo era assim que ele se sentia. Um náufrago da própria vida.
Sentou-se no sofá e abriu o livro. Mas não teve tempo para iniciar a leitura, porque nesse momento, a porta abriu-se e Helena voltou com o filho.
  



2.7.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXVI

 


-O que sei eu do presente, Helena? A minha cabeça está num caos. Procurei-te com desespero, não porque me recordasse de ti, do amor que sentimos no passado, mas porque me falaram de ti. E porque dentro do meu coração eu sabia que tinha de te encontrar. Passaram catorze anos de luta para recordar aquela fase da minha vida e confesso que começava a perder a esperança. Quando tropeçaste e te segurei. O meu corpo estremeceu e excitou-se, mas o meu cérebro não teve nenhuma reação e não fora a surpresa e o pânico que li no teu olhar, nada me levaria a pensar que a minha busca tinha terminado, que tu eras a pessoa que procurava, há tantos anos.  Mas foi no hospital, ao ver a Matilde, que eu tive a certeza de que a minha busca tinha terminado. Meu Deus ela é uma fotocópia da minha irmã, na idade dela, como pudeste comprovar na foto. Quero que a nossa filha saiba quem sou, quero dar-lhe o meu nome e todo o amor que não lhe dei até agora. E casar contigo, formar a família que o destino me roubou.

- Mas…

- Por favor deixa-me continuar. És uma mulher muito bonita, e há uma grande química entre nós. Sinto-o quando me tocas e tenho a certeza que tu sentes o mesmo. E esse é o presente que te posso oferecer. Não posso jurar que te amo, como certamente o terei feito no passado, pois na minha cabeça, eu conheci-te há dias. Entendes?  Talvez seja presunção da minha parte querer que aceites casar comigo quando nem sequer sei se algum dia vou recuperar a memória daquele pedaço de tempo, todavia acredito que podemos começar de novo, uma história de amor que pode ser muito bonita.  Mas enquanto isso não acontece podemos ter um casamento baseado no respeito, companheirismo e atração física. Pelo bem da nossa filha.

- Desculpa Gonçalo, acredito que tenhas o desejo de viver com a nossa filha, mas de momento o que temos de fazer, é falar com as nossas famílias, e principalmente com a Matilde. Não vamos por os bois à frente da carroça.

Olhou o relógio.

-Meu Deus, são quase oito horas. Tenho que telefonar para casa, saber como está a Matilde e avisar que vou chegar tarde.

- Fica longe a aldeia?

-Perto do Fundão. Quase duas horas e meia de carro.

- Se a Matilde estiver bem, porque não ficas em Lisboa? Afinal ela está com os avós, e decerto eles adoram-na. Ias amanhã, logo de manhã, e não tinha de conduzir de noite.  Podíamos jantar juntos em qualquer lugar sossegado e falavas-me da nossa filha, de como nasceu, dos seus tempos de bebé e da infância. Perdi tudo isso!  

Helena hesitou. Por um lado, ela compreendia o desejo dele de saber mais sobre a filha, e também não gostava muito de conduzir durante a noite, por outro ela tinha saído depois do almoço, dizendo que ia tratar de uns assuntos inadiáveis na agência, mas que estaria de volta à noite. Não poderia dizer aos pais que ia encontrar-se com o pai da sua filha, sem saber se o que Gonçalo lhe ia dizer merecia ou não que confiasse nele. Também não tinha dito nada a Rita e temia que ela telefonasse para saber da sobrinha e de algum modo mostrasse à sua mãe que não tinha conhecimento desses tais documentos.

Por fim decidiu-se.


 TERESA, não tinha saltado nenhum número no último capitulo. Tinha sim publicado anteriormente dois capítulos com o número XXIII. Agora já está tudo correto

21.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE VII


Sentaram-se. Ela voltou o rosto para a pista, para não ter de o olhar. Ele irritou-se. Inclinou-se para a frente e vociferou.
-Vais ou não falar, raios! Que diabo te passou pela cabeça para ires para o escritório, armada em camafeu? Para me ridicularizares?
- O regulamento da empresa, é omisso quanto a vestuário. Além disso fui contratada como secretária e sempre exerci exemplarmente a minha função.
- Olha para mim, Sandra. Quero entender o que se passa. Estás há seis meses como minha secretária. Sabes tudo o que se passa naquela empresa. E hoje descubro, por acaso, que me tens andado a enganar. Quem és tu? Uma espia comercial? Que diabo pretendias? Roubar algum dos meus projetos? E quem está por trás de ti?
-Espia comercial? O senhor não está bom da cabeça - disse nervosa.
Ele sorriu. Mais do que um sorriso parecia um esgar.
- Então é isso. Não negues, ficaste nervosa. Como é, queres falar agora, ou chamo a polícia e denuncio-te? - disse tirando o telemóvel, como se pretendesse fazer uma chamada.
Sentiu um nó na garganta, e um aperto no peito, como se toda a dor daqueles quase quatro anos, em que o pai estava preso, aí se tivessem concentrado.
- Faça como entender. Mais um, menos um pouco importa. Mandar inocentes para a prisão, deve ser mesmo o maior dos seus projetos – disse com raiva. 
Todos os músculos do homem se tornaram rígidos com o insulto. A sua voz soou cortante. 
- Levanta-te. Sem fitas nem escândalo. Vamos até ao jardim. Aqui está muita gente.
-E se eu não quiser ir?
- Tu não tens limites, pois não? Primeiro insultas-me, depois desafias-me.  Queres mesmo que te mostre do que sou capaz?
Ela não respondeu. Levantou-se e dirigiu-se ao jardim, seguida de perto por ele.
Afastaram-se da porta, procurando um local mais sossegado.
- Senta-te e fala. Que indireta, foi aquela lá dentro?
- Que indireta? Não me lembro.
As mãos dele cravaram-se como garras nos ombros femininos, apertando com tal força, que as lágrimas lhe chegaram aos olhos.
- Por favor, - suplicou. Está a magoar-me.
Afrouxou a pressão.
- Não brinques comigo, Sandra. Aquela firma, é toda a minha vida. Lutei muito por ela, e privei-me de muita coisa para que chegasse ao que é hoje.  Não vou permitir que ninguém me roube o que é meu. Não estou para brincadeiras. Quero saber, quem te paga, e o que é que tinhas que dar em troca. Agora, ou chamo a polícia e denuncio-te.
- Ninguém me paga, para que eu revele seja o que for da sua maldita empresa. Sou uma espia, sim.  Mas trabalho por conta própria. Há seis meses que tento encontrar uma coisa muito importante na sua empresa. Infelizmente sem o conseguir.
Exausta, ocultou o rosto nas mãos e desatou a chorar.



27.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXI


Entraram na cozinha
-Sente-se. Vou preparar umas torradas, ou prefere outra coisa? – perguntou Luísa enquanto abria o saco do pão.
- Não se incomode, não tenho fome.
Ela voltou-se e olhou-o. Tinha o rosto entre as mãos e parecia não se encontrar bem. Aproximou-se.
- Não se está a sentir bem? -perguntou
- Parece que a cabeça me vai explodir a qualquer momento.
- Se está assim, não devia ter-se levantado. Deve ter apanhado demasiado frio, ontem pode estar a ficar com gripe. Volte para a cama, eu vou preparar um chá e já lho levo. Entretanto na casa de banho há um termómetro. É melhor ver se tem febre.
Ele não respondeu. Levantou-se e saiu da cozinha.
“Devia levá-lo ao hospital. Pode estar com uma pneumonia, ou quem sabe um traumatismo. Deve ter batido com a cabeça, para ter aquela ferida no rosto. Oxalá não me esteja a meter em problemas.” - pensou Luísa enquanto preparava o chá.
Lá fora a chuva continuava a cair sem dar tréguas, embora a tempestade já não se fizesse sentir como na noite anterior. Pelo menos o vento parecia ter amainado.
Pôs o chá num tabuleiro com umas bolachas e dirigiu-se ao quarto.
A porta estava aberta e o homem estava em cima da cama, completamente vestido e a tremer de frio.
- Pôs o termómetro? – perguntou poisando o tabuleiro sobre a mesa de cabeceira.
-Ele meteu a mão dentro da camisa e retirou-o. Estendeu-lho.
- Não admira que esteja com frio, está com quase quarenta graus.  Vamos despir e meter debaixo da roupa, disse baixando-se e tirando-lhe os sapatos e as meias.
 Depois ajudou-o a sentar-se na cama e tirou-lhe o casaco que colocou nas costas da cadeira.
-Veja se consegue despir o resto, enquanto eu vou buscar um antipirético a ver se baixamos essa febre – disse saindo do quarto.
Demorou um pouco mais do que o necessário, esperando que ele se conseguisse despir sozinho. Não se sentia à vontade para ter de o despir.
Quando voltou ao quarto, as calças e a camisa estavam em cima da cama e ele estava debaixo das mantas.
- Muito bem, agora vamos beber o chá que já está quase frio e tomar estes dois comprimidos. Se até ao final da manhã não melhorar, chamo a ambulância e vai para o hospital – disse enquanto o ajudava a sentar e lhe chegava aos lábios a chávena de chá.
- Por favor, senhora, hospital não – disse agarrando-lhe o pulso com força fazendo com que quase entornasse o chá.
- Porque não? Não compreende que pode estar mal? Ter feito um traumatismo craniano, ou estar com uma pneumonia. Por muito boa vontade que tenha, não sou médica, nem enfermeira, não tenho conhecimentos para saber a gravidade do seu estado. Além disso diz que não sabe quem é não se lembra de nada. Precisa de cuidados médicos.
-Não. Isto vai passar. Não quero ir para o hospital. Por favor, prometa que não me manda para lá…
-Não posso prometer-lhe isso. Se melhorar e a febre passar tudo bem, caso contrário não quero arcar com a responsabilidade do que lhe possa acontecer – disse saindo do quarto antes que ele voltasse a protestar.



5.1.20

PORQUE HOJE É DOMINGO




SABIAM QUE.


Segundo estudos recentes:
- Em pé, fortalece a coluna;
- De cabeça baixa, estimula a circulação do sangue;
- De barriga para cima é mais prazeroso;
- sozinho, é estimulante, mas egoísta;
- em grupo, pode até ser divertido;
- no banho, pode ser arriscado;
- no automóvel, é muito perigoso…
- com frequência, desenvolve a imaginação;
- entre duas pessoas, enriquece o conhecimento;
- de joelhos, o resultado pode ser doloroso…
E ainda:
- sobre a mesa ou no escritório,
- antes de comer ou depois da sobremesa,
- sobre a cama ou na rede,
- nus ou vestidos,
- sobre o sofá ou no tapete,
- com música ou em silêncio,
- entre lençóis ou no “closet”:
- sempre é um acto de amor e de enriquecimento.
Não importa a idade, nem a cor,  a crença, o género, nem a posição sócio-económica…
… Ler é sempre um prazer !



(Recebido por email)

13.11.18

ESTRANHO CONTRATO -PARTE XXI




Francisca era muito bonita. A sua pele não tinha brancura da pele de Olga, a sua falecida esposa, mas nem por isso era menos bela. E era uma mulher de fibra. A maneira alegre e doce como tratava das crianças, a alma com que geria aquela casa, como tomava sobre os seus ombros todas as tarefas relativas, aos filhos para que ele não perdesse tempo, era admirável. Ele tinha muito trabalho, mas nem por isso lhe passava despercebido tudo o que se passava em casa. 
De súbito pensou que gostaria de passar os seus dedos pelo rosto adormecido. Sentir se a sua pele era tão macia quanto aparentava. 
Abanou a cabeça, como se assim expulsasse aquele pensamento inoportuno. Depois sem fazer barulho dirigiu-se à casa de banho. 
Pouco depois voltou. De pijama e chinelos, dirigiu-se à  cama e deitou-se. Apagou a luz. 
Não sabia quanto tempo dormiu. Acordou com o choro infantil.
Acendeu a luz. A porta do quarto ao lado estava aberta. Levantou-se. A cama estava vazia. Saiu para o corredor e viu que a luz estava acesa no quarto das filhas
Parou na porta. Francisca tinha Ana ao colo. Acariciava-a e murmurava palavras de conforto.
-Que aconteceu? – Perguntou em voz baixa.
- Não sei, talvez um pesadelo. Mas já está tudo bem. Não tarda a adormecer. Vai descansar.
Voltou para o quarto. Acordou às cinco da manhã. A cama no quarto ao lado continuava vazia. Levantou-se e foi ao quarto das filhas. Ana dormia profundamente, abraçada a Francisca. Fechou a porta sem fazer ruído e regressou à cama.

reedição


                                      

14.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XVI





Não tiveram que esperar muito, para que a assistente do médico, chamasse por Miguel. Este deu a mão à jovem tentando incutir-lhe coragem. Ao vê-los entrar, o médico disse;
-Só o senhor por favor. A jovem, aguarda lá fora.
- Mas a consulta é para ela, doutor.
- Como assim? Aqui diz, Miguel Fernandes
-É que ela não sabe como se chama. E tinha de dar um nome, por isso dei o meu.
- Ela não sabe como se chama? E o senhor também não sabe o nome dela? - Estranhou o médico
- Não doutor. Nunca a tinha visto até ontem.
- Bem, - disse o médico recostando-se na cadeira, - o melhor é sentarem-se e contarem-me essa história.
Miguel contou como percebeu que a jovem se ia suicidar, como contra a sua vontade, a tinha salvado, o desmaio e depois a falta de memória da jovem quando acordou. 
-A falar verdade, - acrescentou, nem sequer sei se a perda de memória aconteceu naquela altura, ou se já existia antes.
O médico ouviu com atenção e depois pediu a Miguel para se retirar, e esperar na sala.
Depois que ele saiu, o médico fez algumas perguntas à jovem, nomeadamente se ela se lembrava da tentativa de suicídio, constatando que ela não sabia nada, a não ser o que Miguel contara. Depois, examinou-lhe os olhos, fez-lhe alguns testes simples, como seguir com o olhar um objecto ou responder a uma frase, com a primeira coisa que lhe viesse à cabeça, coisa que a jovem teve dificuldade em fazer, talvez porque se sentia perdida e cada vez mais nervosa. Por fim o médico deu-lhe uma folha em branco, pedindo-lhe que escrevesse nela o que lhe viesse à cabeça. A jovem olhou para o papel, pensou uns instantes e traçou uns riscos imprecisos que não significavam nada.
Então o médico pediu-lhe que chamasse Miguel.
Quando ele entrou, o médico disse:
-A jovem está com amnésia, que pode ser, ou não, temporária. Talvez, não saiba, mas a amnésia, pode ter origem emocional, ou física. Vamos supor que esta jovem sofreu um grande desgosto.  A perda de alguém querido, por exemplo,  é sempre um choque emocional muito grande, e isso pode ter-lhe provocado a amnésia. Mas também pode ter um problema físico. Um tumor, uma infecção no cérebro, certos tipos de doença bipolar, problemas da  glândula  hipófise, doenças crónico-degenerativas do sistema nervoso uma pancada na cabeça, enfim tanta coisa que pode provocar a amnésia. Ela tem-se queixado de dores de cabeça?
- Não doutor. Pelo menos ontem e hoje não.
- Bom, eu inclino-me mais para um distúrbio emocional. Mas não podemos descartar nenhuma das hipóteses. Para já, acho-a demasiado nervosa, e muito ansiosa.  Vou receitar-lhe o Lexotan.  Vai tomar meio comprimido à noite, durante cinco dias. A partir do sexto dia, passa a tomar um comprimido inteiro.  É  um ansiolítico, fraquinho,  só para ficar mais calma e menos ansiosa. É bom que não exceda a dose, para não corrermos o risco de provocar o efeito contrário. Entretanto vai fazer uma ressonância magnética do crânio, para detectarmos se existe alguma anomalia física. Só depois disso, podemos saber, que caminho trilhar.
 - E não se pode fazer mais nada?- Perguntou Miguel.
-Dê-lhe um bloco de desenho. E traga-me os seus desenhos quando voltar. Pode ser que deixem transparecer alguma coisa.
E voltem assim que tiverem a RM.
- Obrigado doutor.









9.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XI



Depois que Miguel saiu, a jovem apertou a cabeça entre as mãos, como se quisesse alcançar a memória perdida.
Quando ele mencionara o facto de poder ser seu pai, ela sentira como se uma corrente eléctrica, lhe percorresse o corpo. Era uma sensação estranha e dolorosa que ela desconhecia. Que se passava com ela? A ser verdade que tentara matar-se, como Miguel dissera, ( e não tinha razão para duvidar da palavra de um homem, que até ali se portara como um cavalheiro) que fizera ela de tão grave para desejar a morte? Ou quem lhe tinha feito tanto mal, ao ponto de a levar àquele desespero? Porque não conseguia lembrar-se  de nada? A sua cabeça era como uma folha em branco, que ela não conseguia preencher. Soltou um gemido e de novo deu livre curso às lágrimas. Mais tarde, preparou-se para dormir.
Antes de se deitar, hesitou. Fechava ou não a porta à chave? Miguel tinha mostrado ser um homem íntegro. Não podia imaginar que se aproveitasse da sua fragilidade. Não fechá-la era a prova de que confiava nele. Por outro lado ele mesmo lhe dissera para o fazer. Então decidida, deu a volta à chave e deitou-se.
Levou horas para adormecer. Por fim, cansada, entregou-se nos braços de Morfeu.
Acordou sobressaltada a meio da madrugada. Sentiu passos na sala ao lado. Depois os passos no corredor, uma porta que se abria.
Minutos depois, a porta fechava-se, os passos firmes voltaram a ouvir-se pelo corredor até à sala. Logo em seguida, apagou-se a luz e o silêncio reinou na casa. E ela voltou a adormecer
Acordou cedo. Saltou da cama e num movimento mecânico, certamente efectuado ao longo de anos, fez dançar o pé direito debaixo da cama em busca de algo. De repente lembrou que não tinha visto nas coisas que Miguel lhe comprara, uns chinelos. Ia retirar o pé, quando encalhou em qualquer coisa. Eram os chinelos do dono da casa. Enfiou-os. Eram enormes, mas à falta de melhor serviam. Vestiu o robe, rodou a chave lentamente, e saiu procurando não acordar o homem que dormia vestido no sofá.
Coitado! Esquecera-se de retirar do quarto a roupa para dormir, e ela, presa à sua dor, nem pensara nisso.



31.7.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE II





Tudo arrumado, Miguel acendeu um cigarro. A jovem estava a levar mais tempo a acordar do que aquilo que ele previra. Quem seria? À primeira vista, não tinha documentos, pois não trazia nenhuma bolsa, nem se lhe notava na roupa qualquer carteira.
A jovem soltou um gemido e pouco depois abriu os olhos. E que olhos! Grandes, de um quente e aveludado castanho dourado. Na mente de Miguel ficou impressa a imagem que mais tarde iria transpor para a tela. Ele não era um pintor famoso, daqueles cujas obras vão para os museus, mas modéstia à parte considerava-se um bom pintor. Tinha palmilhado meio mundo, e em todos os lugares onde expôs, os seus quadros sempre se venderam bem, e sempre foi disso que ele viveu. Nunca se tinha dedicado a pintar o ser humano. Era um apaixonado da natureza, e  sempre optara por perpetuar as suas maravilhas, mas aquela imagem da jovem, deitada na vegetação o corpo soerguido sobre o cotovelo esquerdo, olhando-o de forma inquiridora, era por demais sugestiva.
Aproximou-se dela.
-Como se sente? - Perguntou.
- Confusa, -respondeu a jovem numa voz melodiosa. – O que faço aqui? Que lugar é este? E quem é o senhor?
Miguel engoliu em seco.“Querem ver que é doida?” – Pensou.
Estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se.
- Vamos por partes, - disse calmo. Chamo-me Miguel. E a menina?
- Não sei, - respondeu desconcertada.
Passou a mão, de dedos longos e finos pela testa, como se quisesse lembrar de alguma coisa e por fim murmurou.
- A verdade é que não me lembro. Não me lembro de nada. A minha cabeça está vazia.
Fez-se silêncio. A cabeça da jovem podia estar vazia, mas a de Miguel estava a mil. Quem seria ela? Teria sido a comoção do momento que lhe fizera perder a memória? Ou já tinha acontecido antes, e fora o desespero de não saber quem era, que a levara a tentar o suicídio? De súbito a jovem quebrou o silêncio, como quem acaba de ter uma ideia.
- Mas você sabe quem eu sou, verdade? Não teria vindo para aqui se não fossemos conhecidos. Vejo que é pintor. Sou sua modelo? 
-Não, - retorquiu Miguel. A menina não veio comigo.
-Como assim?- Interrogou a jovem. Pois se estava aqui dormindo, enquanto pintava.
Apertou a cabeça entre as mãos e desatou a chorar.
-Que se passa comigo? Porque não me lembro de nada? Porquê?- Gritou em desespero.




22.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLII


Helena, ouvia as explicações masculinas, com o coração batendo apressado, e o cérebro repetindo. “É amor. Ele ama-te”. Vendo que ele se calara e a olhava, como se esperasse uma resposta, ela murmurou:
- Continua.
-Segui-vos no carro, e ainda fiquei uns minutos do outro lado da rua, mas depois arranquei e fui-me embora. Ia cego de raiva, o coração ferido, a cabeça cheia de maus pensamentos. Desde esse dia, evitava encontrar-me com o pai. Quando o via, ao telefone contigo, afastava-me, pois a minha vontade era partir para a violência. Foram dias tenebrosos, de muito sofrimento. Lembrava-me das horas que passámos juntos e interrogava-me. Como era possível que me tivesse enganado tanto a teu respeito? Claro que o pai notou logo a diferença, mas nunca lhe passou pela cabeça, a razão  da mudança do meu comportamento. Uma noite questionou-me, e eu perdi a cabeça e disse-lhe tudo o que pensava da sua atitude ignominiosa.
- E ele?- Perguntou a jovem tentando adivinhar a reação paterna.
-Ele, com toda a calma, levantou-se e ordenou. “Vem comigo ao escritório. Agora!” Tu ainda não tiveste tempo para o conhecer, mas eu vivo com ele há mais de vinte anos. Quando ele dá uma ordem daquele jeito, sem mover um músculo do rosto e sem levantar a voz, quer dizer que está muito zangado e magoado, com algo que tu fizeste ou disseste. Não me atrevi a desobedecer. No escritório, ele pôs-me na mão aquelas certidões; e perante o meu espanto contou-me tudo. Se a terra se abrisse sob os meus pés, o meu espanto, não seria tão grande. Eu nem sequer sabia, que ele já tinha sido casado, antes de casar com a mãe. Dividia-me entre a vergonha de vos ter julgado mal, e a alegria de saber que através dele te ia encontrar. Então foi a minha vez de o surpreender contando-lhe que eras tu a mulher que tinha conhecido em Coimbra e por quem me tinha apaixonado.
Consegui convencê-lo a não te dizer nada, até que eu pudesse vir buscar-te, já que naquela altura, com o vinho a fermentar no lagar, não podia abandonar a quinta. Por outro lado, ele e a mãe tinham de conversar antes de eu vir. Agora a mãe já sabe tudo. Que és filha dele, mas que és também a mulher que eu amo e pretendo convencer a partilhar comigo o resto da vida. E está ansiosa por te conhecer.
Cláudio estendeu-lhe a mão, fazendo com que a jovem se levantasse. Com as duas mãos sobre os ombros femininos, disse sem deixar de a fitar.
- Penso em ti assim que acordo, sonho contigo, mal adormeço. O meu maior anseio é partilhar a minha vida contigo. Não me digas que isto não é amor.
Séria, suportando o fogo do olhar masculino, a jovem retorquiu:
-Eu, também te amo, Cláudio. E quero muito, ser feliz a teu lado, e fazer-te feliz. Espero que me ajudes a vencer os meus medos, não quero ser uma segunda edição de Natália Trindade.
Feliz, ele abraçou-a e beijou-a apaixonado.



Eu tinha dito que hoje só sairia um capítulo.  Mas ainda faltam dez capítulos e eu vou dia 30

17.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXII





Helena acordou, já passavam das oito horas. Tinha-se deitado cedo mas dormira mal. Cláudio não lhe saía da cabeça, nem do coração.
Sonhara que os dois estavam a fazer amor. Não era no quarto do hotel em Coimbra, nem naquele em que estava, tão pouco no seu quarto em Lisboa. Era num quarto grande, com uma cama de casal, em ferro, pintada de preto. No quarto havia duas portas e uma janela. Por uma dessas portas ela entrara, a outra não sabia para onde dava. Havia uma janela, cuja persiana não estava fechada. Apenas um fino e transparente cortinado branco, que não impedia o  luar de chegar até à cama, e os envolver no mesmo abraço amoroso. E era tudo tão real, que ela experimentou sensações que nem sequer imaginara que existiam, mas que a deixaram com pena de ter acordado. Mas alguma coisa a acordara, e sobressaltada, e olhou o relógio. Quatro horas da manhã. Depois disso, levara grande parte da noite, inquieta, e sem conseguir voltar a adormecer.
Tomou banho, vestiu-se e desceu. Ia tomar o pequeno-almoço, e esperar pelo seu suposto pai, a fim de irem fazer o exame de paternidade. Apesar de acreditar que Jorge Noronha era o seu pai, não se atrevia a trata-lo assim.  Poderia estar enganada, não queria apegar-se a um sentimento e depois sofrer uma desilusão. Iam fazer o exame, passaria parte do dia com ele, se fosse possível, e no dia seguinte partiria para a sua casa em Lisboa. Deixaria a morada no laboratório para lhe enviarem o resultado. Se como esperava  fosse positivo, o pai procurá-la-ia, quando tivesse contado tudo à esposa. E então ela gostaria de conhecer a sua casa, e a sua família. Não sonhava poder viver com ele. Seria difícil para a madrasta aceitar a sua presença, assim do nada, ao fim de tantos anos. Mas podia visitá-lo, e pelo que conhecera de Jorge Noronha, sabia que podia contar com o seu carinho, o seu apoio. Não queria pensar que o resultado fosse negativo. Jorge acreditava plenamente que era seu pai, por ele nem faria o teste. E ele tinha conhecido bem a sua mulher e o amor doentio que ela lhe devotava e que acabou por separá-los.
Na mala tinha um estojo com uma caneta que comprara dias antes, e onde mandara gravar o nome de Jorge. Era o seu presente de despedida, já que partiria no dia seguinte.
Eram nove horas e quarenta e cinco quando ele chegou.
-Bom-dia. Pronta? – Perguntou cumprimentando-a com um beijo na testa.
-Pronta e nervosa, -respondeu sorrindo.
-Não há motivos para isso. Vai correr tudo bem. Sempre vais amanhã para Lisboa?
Vou. O exame deve ser demorado e estou há quinze dias fora de casa. Foi difícil dar consigo, corri toda a região à sua procura.
- Então vamos passar o dia, juntos. Não voltaremos a poder fazê-lo tão depressa. Mas juro-te que logo que o médico diga que a Carmo não corre perigo, lhe conto e tenho a certeza de que vai querer que venhas viver connosco.  Tens algum namorico por lá?
- Não. Mas não gostaria de viver longe do tio Alberto. Gostamos muito um do outro. Foi o mais parecido com um pai que tive. E depois ele perdeu há pouco tempo o seu único filho. A tia Ana já morreu há dez anos, ele está muito sozinho.
-É muito nobre esse teu sentimento, minha filha. Quando chegar a altura logo se vê. Eu e o teu tio sempre fomos amigos, e apesar de estar aborrecido por ele não me ter falado de ti, não me importava nada de contar com ele junto de nós.
- A mãe, obrigou-o a jurar que não lhe contava.
Ainda me espanto com esse facto. A tua mãe amou-me sem medida e sem medida, me odiou. O Laboratório é aqui. Entramos?





Obrigada pelo vosso carinho. Não estou preocupada com a catarata, o marido foi operado há dois anos, aos dois olhos e sei que é uma cirurgia simples. Estava preocupada com a possibilidade de ser glaucoma, mas graças a Deus não é. Falei com o médico, e já decidi. Serei operada em Novembro.  Tenho tratamentos até ao fim do mês, em Agosto vou de férias, Setembro e Outubro tenho coisas agendadas. 


21.6.18

O DIREITO À VERDADE - IV



A perplexidade tinha-se apossado do espírito de Helena Trindade, a jovem, a quem todos os amigos e conhecidos, tratavam por Lena. Não tinha dormido nada na noite anterior, doía-lhe terrivelmente a cabeça. Deixou a caixa em cima do sofá, levantou-se e foi à cozinha. Procurou numa gaveta, e encontrou uma caixa de aspirinas. Retirou dois comprimidos que engoliu com um copo de água e dirigiu-se para o quarto onde se deixou cair em cima da cama. Não se despira, só queria ver se descansava um pouco, de modo a aliviar a dor de cabeça, embora a recém-descoberta, não a deixasse sossegar. Como é que a mãe fora capaz de lhe mentir? E sustentar a mesma mentira durante tantos anos.
Segundo sabia, a sua mãe viera viver para aquela casa, há mais de vinte anos.  Decerto antes mesmo do seu nascimento, já que ela nascera na Maternidade Alfredo da Costa. Também segundo a mãe, não tinha mais família que a irmã casada e já com um filho. Segundo lhe contou, as duas viviam em S. Pedro do Sul, na casa que fora dos seus antepassados. Ana, a tia, empregara-se no hotel Vouga nas termas, enquanto Natália, a mãe, trabalhava numa loja de tecidos, na Praça do Município. A tia conhecera o jovem Alberto Castro, quando ele acompanhara a mãe, que precisava fazer um tratamento termal.  Foi amor à primeira vista, e quando dona Alzira terminou os tratamentos os jovens já falavam em casamento. 
Alberto vivia em Lisboa com os pais. Quando ele partiu as vizinhas diziam à jovem Ana, que não tivesse esperanças. O rapaz quisera divertir-se enquanto a mãe fazia os tratamentos, mas uma vez em casa nunca mais se ia lembrar dela. Não foi assim. Alberto escrevia regularmente, e por vezes telefonava. Pediu-lhe os documentos e disse que ia tratar do casamento. Ela disse-lhe que queria casar ali na terra, na Igreja de S. Francisco onde fora batizada. Ele aceitou e quando voltou a S. Pedro, no Verão de mil novecentos e oitenta e sete, vinha acompanhado dos pais e irmã, e tinham o casamento marcado para dois dias depois.
Ana, despediu-se da irmã, com um abraço apertado, a saudade já a marcar presença no seu coração, mas o dever da esposa é acompanhar o marido, e não podia impor a presença da irmã, à sua nova família que mal conhecia.
Natália continuara em S. Pedro, vivendo na casa que fora dos seus avós e mais tarde de seus pais. Tinha muitas saudades da irmã, que só via uma vez por ano, durante as férias. Quando a mãe ficara grávida, e contara à irmã,  e as duas decidiram vender a casa, e com a sua parte da herança, ela mudara-se para Lisboa, e alugara uma casa, precisamente aquela onde vivia, e que anos mais tarde quando a dona da casa morrera, o herdeiro decidira vender. Como inquilina, a mãe tinha prioridade na compra, que por esse mesmo motivo foi muito mais barata, que se estivesse devoluta. 
Isto fora o que a mãe sempre lhe dissera. Mas então segundo aqueles documentos a mãe, viera para Lisboa logo a seguir ao divórcio, provavelmente para que o marido não tivesse conhecimento de que estava grávida, e pudesse requerer o seu direito paternal sobre o bebé.
A mãe, sempre trabalhara numa loja, na Avenida Almirante Reis. Mas além do trabalho diário das nove  às dezanove horas, a mãe ainda fazia rissóis e croquetes que vendia aos vizinhos e às colegas na Loja. E às vezes ainda fazia pequenos arranjos em roupas aos fins-de-semana. Umas bainhas para subir ou descer, uma saia para apertar, uma gola de camisa para virar, enfim o que lhe aparecia. Como trabalhava perto de casa, não tinha despesas com transportes. Assim as duas foram vivendo sem que ela mexesse na maior parte do dinheiro, da sua parte, na  venda da casa e pinhal, que as duas irmãs tinham herdado. Natália depositara esse dinheiro numa conta a prazo. Com os juros altos da época, a conta cresceu, bastante  e assim pôde comprar a casa, em dois mil e dois, quando a senhoria morreu e o herdeiro a quis vender.





Gente, Toda a noite  choveu e a trovoada foi forte.  Vejam as fotos que acabei de tirar da minha varanda.  ( 9. 00 horas) Penso que alguém devia avisar o Senhor do Tempo, que o Verão começa hoje.





11.6.18

CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA - PARTE XXVII



Por fim decidiu-se. Fosse o que fosse que estava a acontecer, quanto mais depressa enfrentasse o problema, menor seria a sua angústia. Sentou-se na cama, e acariciou-lhe a cabeça.
- Bom, querida, não precisas chorar, não queres sair, não saímos.
Era a segunda vez que o marido a chamava de querida, e tal como da outra vez, aquela simples palavra soou-lhe como uma carícia. Pedro sempre a tratava pelo nome. Nunca lhe falara de amor nem mesmo nos momentos de maior intimidade.
-Desculpa, -disse olhando-o por entre as lágrimas. Não queria fazer esta figura mas não sei o que se passa comigo.
Ele empurrou-a levemente e estendeu-se na cama a seu lado.
A sua voz soou quase num murmúrio:
-Será que não sabes mesmo, ou não queres contar-me? – Lembras-te da noite do nosso casamento? Também nesse dia estavas a chorar. Nessa noite pedi-te que confiasses em mim e me contasses o que te atormentava. E tu confiaste. Quando foi, ou de que modo te magoei, para que tenhas deixado de confiar em mim?
-Nunca deixei de confiar em ti, -disse num soluço.
-Então o que há de diferente hoje, para que não me contes o que te atormenta?
- Naquela noite o que te contei reportava-se a algo que me atormentava sim, mas era um facto passado. Isto é pior, porque está relacionado com o nosso presente e futuro.
-Então confia em mim, e diz-me. Duas cabeças pensam melhor que uma só. Seja o que for, tem que haver solução.
Como não obteve resposta, ele arriscou num sussurro que ela mais adivinhou que ouviu.
-Estás cansada do casamento e queres o divórcio?
-E tu, estás? – Perguntou por sua vez
-Não. Mas não sou eu que estou a chorar. E tu não o fazes por capricho, gratuitamente. Há dias que noto que estás diferente. Nota-se no teu rosto que alguma coisa te atormenta.
- Tu também estás diferente. Também andas preocupado e não me dizes nada.
- E como queres que não ande preocupado, se dia a dia te vejo mais triste, mais pálida? Os teus olhos perderam o brilho o teu sorriso é forçado, não há alegria em ti. É preciso ser cego para não ver que estás infeliz. Pensei que estavas farta do casamento, de mim, sei lá. Receio que estejas à espera dos dois anos para entrares com o pedido de divórcio.
- E em que é que isso te afeta? O nosso casamento não é um negócio? Os negócios nem sempre correm bem, - disse entre soluços.


Parece que os dois caíram num impasse. Ela não lhe vai dizer que está grávida. A menos que ele abra o coração. Mas será que ele vai ter coragem de lhe contar a verdade escondida por trás daquele pedido de casamento?
O que vos parece?



28.10.17

A RODA DO DESTINO - PARTE XLIII






Acordou já passava das nove. Tinha dormido mal. Levara imenso tempo para adormecer, e o sono fora povoado por vários sonhos, onde Salvador era sempre o protagonista.
O que ele lhe tinha dito na noite anterior, não era uma declaração de amor, embora pudesse soar como tal.  Desde que o vira, o seu coração ficara preso no seu sorriso, na profundidade do seu olhar. O seu corpo reagira com intensidade ao toque da sua pele, e o desejo apareceu pela primeira vez no seu corpo e na sua vida. Contudo esforçara-se para ver nele apenas um amigo, um familiar. Não lhe passava pela cabeça, que ele se pudesse interessar por ela como mulher.
O que ele lhe propunha, era muito arriscado. Porque ela sabia que se começasse a conviver amiúde com ele, se trocassem carinhos estava perdida. E se depois de tudo,  ele chegasse à conclusão que era apenas amizade o que sentia por ela? Como é que ia conseguir sobreviver? Por outro lado se não tentasse, ia viver toda a vida lamentando a sua cobardia. Pensando no que podia ter vivido.
Saltou da cama, foi até à janela e abriu a persiana. O vento acalmara. Já não chovia, mas o céu mantinha-se bastante nublado. Abriu o vidro e deixou que o ar húmido lhe viesse beijar o rosto. Na casa paterna fazia sempre aquilo após uma noite de chuva. Adorava o cheiro a terra molhada. Na cidade não cheirava a nada. Pudera, Por todo o lado, só havia alcatrão, e a calçada dos passeios.
Voltou a fechar a janela. Foi levantar as persianas da sala e da cozinha, organizando mentalmente o seu dia. Precisava fazer umas compras. Já não tinha iogurtes, e o leite só daria para os cereais do pequeno-almoço.
Foi à casa de banho, lavou o rosto, escovou os dentes e os cabelos, que prendeu num rabo-de-cavalo. Vestiu o robe, e voltou à cozinha para preparar os cereais. A seguir iria limpar a casa, depois às compras. De tarde ia ver a irmã. Estava a precisar de um conselho. Ana Clara tinha outra experiência da vida, conhecia Salvador há anos. Talvez até soubesse como era a tal mulher de quem ele lhe falara um dia. Sentia a necessidade de saber quem e como era.Talvez assim conseguisse avaliar as suas hipóteses.
Acabou de comer, passou a taça de cereais por água e meteu-a na máquina que se encontrava quase cheia. Como vivia sozinha, tinha que juntar a loiça de vários dias para encher a máquina. Ligou-a e pôs mãos à obra, na limpeza da casa, começando pelo quarto.
O apartamento era pequeno, mas mesmo assim já passava das onze quando deu a tarefa por terminada.
Tomou um duche rápido, vestiu-se e preparava-se para secar o cabelo quando o telemóvel tocou.
- Estou…
- Bom-dia. Como está a minha Princesa? 
A voz de Salvador, provocou-lhe um arrepio, como se ele estivesse sussurrando no seu ouvido.
- Sou…?
- Tens dúvidas?
-Muitas.
- Não tenhas. Tens programa para hoje?
- Pensava ir esta tarde a casa da minha irmã.
- Passo aí a apanhar-te às duas. É boa hora para ti?
- Sim.
- Então fica combinado. Até logo, querida.