O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão. Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
Porém o facto de
compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele
dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava
perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que
estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não
era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez
que se lembrava dos sonhos.
Continuava a
pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as
aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada,
amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os
cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e
o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e
o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou
o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo,
onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de
renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o
colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão,
e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de
limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de
papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças
tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha
tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio”
responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas
caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a
porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.

