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7.9.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XLVIII




Tinham-se conhecido, muitos anos atrás. Miguel tinha dezanove anos, era estudante. Olga, quarenta e era uma mulher  muito bela, alegre, que vivia dos favores que o seu corpo proporcionava aos homens. Ganhara fama a sua beleza, e era procurada pelos homens mais ricos da cidade. Mas também por jovens estudantes, que gastavam no seu leito, a maior fatia das suas mesadas. Miguel fora um desses estudantes.
Era muito novo, quase um rapazinho. Ele apaixonou-se pela bela mulher, que lhe ensinava todos os prazeres do sexo, despertando-lhe, sentidos e emoções, nunca antes experimentados.
Ela gostou do rapaz que a tratava com cuidado e carinho, fazendo-a esquecer-se da realidade da sua vida, para se sentir apenas uma mulher amada. Foi tão intenso, que Miguel, um sonhador com alma de poeta, como ela costumava dizer, chegou a pedir-lhe para ficarem juntos, mesmo que para isso  tivesse de abandonar os estudos, e ir trabalhar para a sustentar. Ela não se iludia. Sabia que mais dia, menos dia, Miguel ia encontrar alguém,da sua idade, e nunca mais punha os pés na sua casa.
E isso aconteceu, uns tempos depois, quando Miguel se apaixonou por uma colega na universidade. Lembrar-se-ia sempre, da tarde em que chegou com o ar mais sério do mundo, e lhe contou, pedindo-lhe desculpa, por ter traído o seu amor.
Para ela não foi nenhum drama. Nunca tivera ilusões. E aquilo, era o rumo natural da vida.
Pensou que ele nunca mais ia aparecer. Seria o que faria qualquer outro no seu lugar. Mas Miguel não era qualquer um. Era um ser especial como ela não conhecera outro na sua vida.
Apesar de nunca mais, se ter deitado  na sua cama, de vez em quando,  Miguel aparecia por lá. De manhã, sabendo que estava sempre sozinha nessa altura.
Conversavam um pouco, bebiam um chá e ia-se embora antes da hora  do almoço. E foi assim ao longo dos anos, antes e depois, dela ter largado a 
"vida", e se ter tornado uma simples e idosa dona de casa.
 Às vezes não aparecia durante um ano ou mais. Mas quando alguma coisa o incomodava, era com ela que ia desabafar. Como quando os pais morreram. Ou como agora.
- Não te atormentes. A história é totalmente diferente. Desde logo, porque uma mulher de vinte anos é muito mais madura, do que tu eras nessa idade. Não confunde sentimentos, sabe muito bem o que quer. Depois, nem tu nem eu nos amávamos, embora na altura pudesses ter pensado que sim. Tu ficaste deslumbrado, pela mulher mais velha, que te despertava os sentidos. Eu, gostava do  rapazito, que me tratava como se eu fosse uma princesa. Nada mais. 
Entre nós, nunca houve amor, Miguel. Atracção física, troca de experiências, um pouco de carinho, talvez. Mas, amor não. Nenhum de nós traiu o outro, porque não há traição, onde não há amor.
Anda, vai para casa. Escuta o teu coração. E se realmente, amas a rapariga, aproveita a oportunidade que a vida te dá e sê feliz. O tempo passa rápido, e quando damos conta, a vida está no ocaso como o sol no fim do dia.
Miguel não queria ir para casa, Não naquela noite. A tensão, a que obrigara o corpo, deixara-o de rastos. Estava muito cansado, sentia-se sem forças, não queria tomar uma decisão que ia mudar a sua vida naquele momento. Podia vir a arrepender-se.E traria mais sofrimento para a vida da jovem. Perguntou:
- Posso, ficar aqui, esta noite?
- Claro que sim. Vou buscar um cobertor que a noite está fria.
Quando voltou, já Miguel dormia estendido no sofá. Tirou-lhe os sapatos, estendeu sobre ele o cobertor, apagou a luz e retirou-se em seguida.







20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIX






O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão.  Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
 Porém o facto de compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez que se lembrava dos sonhos.
 Continuava a pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada, amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo, onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão, e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”  
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio” responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.

19.6.18

O DIREITO À VERDADE - II




Parou o carro junto à porta da jovem, numa casa ali frente ao Jardim Constantino.
- Vai descansar querida. E não te esqueças de comer. Amanhã é outro dia. Não sei como estás de dinheiro, mas se precisares alguma coisa, telefona-me.
- Obrigada, tio. Agora que a mãe partiu, - não conseguia dizer morreu – não vou voltar à Universidade. Vou começar a procurar emprego. Felizmente que a casa é nossa, não preciso preocupar-me com a renda, mas há outras despesas, água, luz, gás. E preciso de comer. Tenho algum dinheiro, desde o décimo ano que dou explicações, e a mãe nunca me deixou gastar esse dinheiro, vai dando para me aguentar até arranjar algum trabalho.
-Devias acabar o curso. Afinal faltam-te dois semestres. E eu posso pagar-tos.
- De modo nenhum tio. Estive a pensar que posso alugar um quarto a uma estudante. A casa é demasiado grande só para mim, e a solidão é muito triste.
-É uma boa ideia, mas precisas ter cuidado com quem metes em casa. Tem que ser pessoa de bons princípios, senão em vez de ajuda, arranjas problemas. Agora tenho de ir, mas já sabes, alguma coisa que precises telefona-me.
A jovem desapertou o cinto, e beijou o tio com carinho.
- Fica descansado, se necessitar de alguma coisa, telefono-te, - disse abrindo a porta do carro e saindo.
Ele esperou até que ela entrou no prédio e só então ligou o motor e se pôs em marcha.
A jovem subiu as escadas até ao segundo andar, abriu a porta e entrou. Meteu a chave na porta e deu duas voltas. Depois lentamente começou a percorrer a casa. Uma entrada espaçosa, uma cozinha não muito grande, um quarto com entrada pela cozinha e com casa de banho, um corredor com várias portas que davam sucessivamente para a casa de banho a dispensa, o quarto da mãe, a sala-comum e o seu quarto. Entrou no quarto da mãe, abriu o grande armário e começou a colocar todas as roupas em cima da cama. Ia dobrá-las, e metê-las em sacos para depois levar para alguma instituição de caridade. Num canto do armário encontrou uma caixa de cartão, que colocou em cima da mesa-de-cabeceira.
Foi à cozinha, procurou numa gaveta, um rolo de sacos de plástico pretos, que a mãe usava para o lixo, e começou a dobrar e acomodar as roupas nos sacos. De vez em quando, passava pelo rosto alguma peça de que sabia que a mãe mais gostava. Era como uma última despedida.
Depois fez o mesmo com as três gavetas da cómoda. Separou algumas peças demasiado gastas pelo uso, mas que a mãe se negava a deitar fora porque lhe lembravam algum momento feliz, bem como a roupa interior, para deitar no lixo. O resto ficou tudo acomodado nos sacos. Feito isto, pegou na caixa de cartão, dirigiu-se à sala, 
Sentou-se no sofá e abriu-a.