O resto da refeição decorreu quase em silêncio.
-Está uma noite demasiado bonita para irmos já para casa. Queres ir dar uma volta? Podíamos ir pela marginal, talvez até Belém, o que achas? – perguntou Nuno quando saíam do restaurante.
- Já te disse que não costumo sair à noite. Confio em ti. Vamos onde quiseres desde que não chegue muito tarde a casa.
- Tens medo que a carruagem se transforme em abóbora?
- Não. Tenho medo de sonhar. Nem eu uso sapatos de cristal, nem tu és um príncipe apaixonado.
Fora direta. Ele engoliu em seco. Não podia responder de igual modo. Os seus sentimentos estavam confusos. A barreira que erguera à sua volta, explodira em milhares de bocados, como se fora de cristal. Ficara a lembrança do seu corpo macio, dos seus beijos ingénuos e simultaneamente apaixonados. Da confiança com que se lhe entregava. Sentiu que o seu corpo reagia aquelas lembranças. Passou a mão pela testa, como se assim eliminasse aquelas imagens. Conduziu até Belém e estacionou no jardim em frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Voltou-se para ela:
- Vamos conversar, Ser diretos e expurgar de uma vez o passado. Precisamos disso, como do ar que respiramos. Eu pelo menos preciso. Começas tu, ou eu?
- Começa tu.
- Muito bem. Já me disseste que o teu pai te forçou a acabares comigo e te marcou o casamento com outro homem. Lamento sinceramente que não tenhas tido a coragem de me dizer a verdade. Teria tentado demover o teu pai, dessa ideia, e ainda que o não conseguisse não teria levado anos a amaldiçoar-te, julgando-te uma leviana que tinha troçado dos meus sentimentos. Por não teres tido a coragem de seres sincera, perdi a confiança nas mulheres e renunciei à hipótese de formar uma família, ter filhos. Calculas o que foi a minha vida durante estes dezasseis anos? Não te será estranho que quando pensava em ti apenas sentisse raiva e desejos de me vingar provocando-te o máximo sofrimento. Cada vez que te imaginava casada, dando a outro o que já tinha sido meu, sentia vontade de te matar. Graças a Deus que estava longe. Se estivesse aqui, talvez agora estivesse numa prisão.
As lágrimas corriam silenciosas pelas faces de Luísa, quando tomou a palavra.
Não penses que sofri menos do que tu. Também não vou dizer que sofri muito mais, o sofrimento não se mede ao metro, nem a peso. Mas tu eras maior e livre. Pudeste partir e de certa maneira estavas a realizar o sonho da tua vida, decerto de algum consolo, isso terá servido. Eu não tinha ninguém. Meu pai casou-me com um monstro. O meu casamento durou catorze meses, mas para mim foram mais que catorze anos. Uma infinidade de tempo, em que o sofrimento era tanto que quase enlouquecia.
De súbito desabotoou os botões do casaco e abrindo-o, expôs aos olhos do homem a parte superior do corpo, apenas coberto pelo sutiã de renda e cheio de cicatrizes.
-Olha para o meu corpo Nuno. É assim que o recordas? – perguntou com voz rouca. - Estas são as marcas da felicidade que o meu marido me deu.
Voltou a abotoar o casaco, e continuou
- Não penses que são apenas estas. Todo o meu corpo ficou marcado. Meu Deus, tenho vergonha e nojo de mim mesma, cada vez que penso no que passei.
Por momentos Nuno ficou sem fala. Poderia ter imaginado tudo, menos aquela barbaridade. Sem se poder conter, Nuno puxou-a para si, e abraçou-a com carinho.
Por momentos Nuno ficou sem fala. Poderia ter imaginado tudo, menos aquela barbaridade. Sem se poder conter, Nuno puxou-a para si, e abraçou-a com carinho.
- Acalma-te, não quero saber mais nada, não quero que recordes essas atrocidades. Perdoa-me.
- Não. Deixa-me continuar. Tu mesmo disseste que precisamos expurgar o passado.











