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11.3.22

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXIII

 




O resto da refeição decorreu quase em silêncio.
-Está uma noite demasiado bonita para irmos já para casa. Queres ir dar uma volta? Podíamos ir pela marginal, talvez até Belém, o que achas? – perguntou Nuno quando saíam do restaurante.
- Já te disse que não costumo sair à noite. Confio em ti. Vamos onde quiseres desde que não chegue muito tarde a casa.
- Tens medo que a carruagem se transforme em abóbora?
- Não. Tenho medo de sonhar. Nem eu uso sapatos de cristal, nem tu és um príncipe apaixonado.
Fora direta. Ele engoliu em seco. Não podia responder de igual modo. Os seus sentimentos estavam confusos. A barreira que erguera à sua volta, explodira em milhares de bocados, como se fora de cristal. Ficara a lembrança do seu corpo macio, dos seus beijos ingénuos e simultaneamente apaixonados. Da confiança com que se lhe entregava. Sentiu que o seu corpo reagia aquelas lembranças. Passou a mão pela testa, como se assim eliminasse aquelas imagens.  Conduziu até Belém e estacionou no jardim em frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Voltou-se para ela:
- Vamos conversar, Ser diretos e expurgar de uma vez o passado. Precisamos disso, como do ar que respiramos. Eu pelo menos preciso. Começas tu, ou eu?
- Começa tu. 
- Muito bem. Já me disseste que o teu pai te forçou a acabares comigo e te marcou o casamento com outro homem. Lamento sinceramente que não tenhas tido a coragem de me dizer a verdade. Teria tentado demover o teu pai, dessa ideia, e ainda que o não conseguisse não teria levado anos a amaldiçoar-te, julgando-te uma leviana que tinha troçado dos meus sentimentos. Por não teres tido a coragem de seres sincera, perdi a confiança nas mulheres e renunciei à hipótese de formar uma família, ter filhos. Calculas o que foi a minha vida durante estes dezasseis anos? Não te será estranho que quando pensava em ti apenas sentisse raiva e desejos de me vingar provocando-te o máximo sofrimento. Cada vez que te imaginava casada, dando a outro o que já tinha sido meu, sentia vontade de te matar. Graças a Deus que estava longe. Se estivesse aqui, talvez agora estivesse numa prisão.  
As lágrimas corriam silenciosas pelas faces de Luísa, quando tomou a palavra.
Não penses que sofri menos do que tu. Também não vou dizer que sofri muito mais, o sofrimento não se mede ao metro, nem a peso. Mas tu eras maior e livre. Pudeste partir e de certa maneira estavas a realizar o sonho da tua vida, decerto de algum consolo, isso terá servido. Eu não tinha ninguém. Meu pai casou-me com um monstro. O meu casamento durou catorze meses, mas para mim foram mais que catorze anos. Uma infinidade de tempo, em que o sofrimento era tanto que quase enlouquecia.
De súbito desabotoou os botões do casaco e abrindo-o, expôs aos olhos do homem a parte superior do corpo, apenas coberto pelo sutiã de renda e cheio de cicatrizes.
-Olha para o meu corpo Nuno. É assim que o recordas? – perguntou com voz rouca. - Estas são as marcas da felicidade que o meu marido me deu.
Voltou a abotoar o casaco, e continuou
- Não penses que são apenas estas. Todo o meu corpo ficou marcado. Meu Deus, tenho vergonha e nojo de mim mesma, cada vez que penso no que passei.
Por momentos Nuno ficou sem fala. Poderia ter imaginado tudo, menos aquela barbaridade. Sem se poder conter, Nuno puxou-a para si, e abraçou-a com carinho.
- Acalma-te, não quero saber mais nada, não quero que recordes essas atrocidades. Perdoa-me.
- Não. Deixa-me continuar. Tu mesmo disseste que precisamos expurgar o passado.

3.2.21

SONHO AO LUAR - PARTE XII

Um mês depois, tinha-se estabelecido uma grande amizade entre os dois. O livro estava quase pronto, e era frequente vê-los, passeando, ora até à praia, ora aventurando-se pelos caminhos da serra. 

Para Isabel era como se tivesse voltado dez anos atrás, quando inseparáveis percorriam aqueles mesmos caminhos, em longas conversas.
Raro era o dia, que a avó não lhe chamava a atenção, preocupada que estava com a sua felicidade. Ela, fazia ouvidos de mercador, empenhada em desfrutar ao máximo da companhia dele. 

Tinha pedido férias sem vencimento, no escritório, e pensava todos os dias, que tinha que procurar um espaço para montar o seu escritório, mas arranjava sempre uma desculpa para adiar essa resolução.
Uma tarde, depois de terem estado durante uma hora a rever o último capítulo, ela lendo o que estava escrito, ele corrigindo frases, mudando palavras, deram enfim o livro por terminado.
No dia seguinte sairia para a editora.

Então, ele disse-lhe que ia visitar a idosa, da casa ao lado, e pediu-lhe para o acompanhar. Isabel ficou aflita, não podia avisar a avó, e receava que ela a pudesse denunciar.

Ele cumprimentou carinhosamente a senhora, que o levou para a sala, onde conversaram sobre a sua ausência, e o que tinha feito da vida durante a sua ausência.
Depois a avó disse que ia fazer um chá, e Isabel ofereceu-se para a ajudar, a fim de recomendar à avó, que não a desmascarasse.

A visita foi muito agradável, e acabou por se prolongar. Na volta, ele rompeu o silêncio para dizer.
-É uma senhora muito agradável. Tanto que me esqueci de lhe perguntar pela neta. Antigamente ela estava sempre cá, de férias, nesta altura do ano.

Isabel estremeceu. Ele lembrava-se dela. Com voz tremente, perguntou:
-Eram amigos?
- Amigos? Não. Era muito mais do que uma amiga. Era uma irmã.

Ela deu graças a Deus por ele não a poder ver. Uma irmã. Foi assim que ele sempre a viu. Por isso ficou tão zangado naquele dia. Com raiva, limpou as lágrimas que iam deixando um rasto molhado no rosto pálido. Percorreram em silêncio, o resto do caminho. Depois ele recolheu-se ao quarto, enquanto ela morta de dor, arrumou a secretária, pegou na mala e foi para casa. Ficaria muito surpreendida, se tivesse visto o sorriso enigmático do homem, quando meia hora depois regressou ao escritório.

28.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XLIV






EPÍLOGO


Um ano e dois dias depois…
A elegante e sofisticada mulher que se encontrava no salão, tinha tantas semelhanças com aquela outra Luísa, que ela fora até há um ano atrás, como uma lagarta com uma borboleta.
Estava tão diferente, que às vezes ela mesma tinha dificuldade em se reconhecer. Mas se a aparência mudara e muito, ela sentia que a maior transformação ocorrera dentro de si mesma. Agora é uma mulher confiante, que conhece bem o seu valor e isso fez-se notar também na sua arte, agora mais madura e mais forte, de acordo com a opinião dos críticos sobre a sua última exposição realizada no mês anterior. E tudo isso ela deve ao amor e incentivo de Gil, o seu marido, que desde o primeiro momento descobriu nela a beleza e talento, que ela desconhecia possuir. 

Parabéns a você  
nesta data querida  
muitas felicidades  
muitos anos de vida.

Hoje é dia de festa 
cantam as nossas almas 
para a menina Mariana  
Uma salva de palmas.

Gil pegou a filha ao colo e aproximou-a do seu bolo de aniversário para que a menina soprasse as duas velinhas. Depois voltou a sentá-la, na sua cadeirinha no topo da grande mesa, e, enquanto Inês pegava na faca e começava a partir o bolo que Celeste distribuía pelos convidados, Gil deu a mão à mulher que estava a seu lado, e disse:
- Telefonou a dona Aurora, para dar os parabéns à Mariana. Diz que tem ido uma vez por semana lá a casa abrir as janelas, que está tudo em ordem e que tem muitas saudades das vossas conversas. (Após o casamento, tinham  decidido manter a casa, o sítio idílico, era ideal para alguns dias de férias no Verão, não só para o casal como para os familiares.) Convidei-os para virem passar o Natal connosco. Afinal são os nossos padrinhos de casamento, e não têm mais família.
- Obrigado – disse ela pegando um bocado de bolo e levando-lho à boca. Depois perguntou baixinho:
-Estás feliz?
Ele inclinou-se e respondeu no mesmo tom
-Duvidas? Tenho a meu lado a mulher que amo, que realizou todos os meus sonhos de homem apaixonado, que é uma excelente mãe, e em breve me vai dar um novo filho. E olha à tua volta. Que vês? Laura e o seu marido Alcides, recém-casados, alegres e felizes, Marco com Isabel, sua esposa, e o filho Manuel de dez meses. Inês, a ama e o seu filho Luís, que ama a nossa menina e a considera como uma irmã mais nova, a quem satisfaz todos os caprichos. E as empregadas? Da cozinheira à governanta, estão
alegres e felizes.  Até Luna, a minha agente, irradia felicidade. Todos estão  em festa e isso, deve-mo-lo a ti, que me salvaste a vida e me devolveste para eles - disse enlaçando-a com carinho.
-Não, amor, não – protestou ela. Se alguém aqui deve algo, sou eu.
O teu amor, fez daquela Luísa provinciana e sem graça a mulher que hoje sou. Graças a ti, e ao poder do teu amor, hoje sou uma nova mulher e uma pintora muito melhor. Repara, o meu irmão e a sua noiva olham-me com carinho e orgulho. Até o meu pai e a sua mulher, deixaram de me ignorar.
Gil apertou a mulher ao peito e acariciou-lhe os cabelos enquanto olhava à sua volta. Inês tirava Mariana da cadeirinha e punha-a no chão. Luís deu-lhe a mão e iniciaram uma brincadeira num canto da sala onde estava uma manta com vários brinquedos. “Para o ano, irá para o infantário, precisa conviver com outras crianças” - pensa.
Inês é uma mulher jovem. Um dia voltará a apaixonar-se, quererá casar, ter a sua casa, a sua família e ele irá ajudá-los, porque ela e o filho, já são como família. Mas enquanto isso não acontece, ela será a ama do pequeno Luís que está para nascer, e cujo nome ele escolheu em homenagem a Luísa.
Respira fundo e sorri. Pensa que apesar de todos os seus esforços, o mundo não mudou muito, mas tem consciência de que fez a sua parte para torná-lo um pouco melhor. Agora a sua tarefa vai ser, criar nos filhos que tiver, a mesma consciência que sempre o regeu. Cada um deve olhar à sua volta e dentro das suas possibilidades, trabalhar para um mundo mais justo.
-Alô, alô, daqui planeta terra, chamando Gil Gaspar! - disse Luísa, vendo o ar sonhador do marido.
Ele sorri, inclina-se e beija a esposa pensando: "Quando se tem o mundo nos braços, não há lugar para os sonhos"!


FIM


NOTA FINAL: Espero que tenham gostado deste final cor-de-rosa, escrito a vosso pedido, pois como sabem, eu tinha terminado a história com o acidente do Gil e cada um de vós imaginaria a seu gosto o que tinha acontecido.
devido ao estado dos meus olhos tenho cada vez mais dificuldade em escrever, pelo que a seguir vão entrar reedições que servirão para os leitores novos e para os antigos que queiram recordar.
continua á espera de ser chamada para o transplante, que quando lerem este final até já pode ter acontecido, e como não sei quando poderei voltar,, após a cirurgia, estou a programar posts a longo prazo.
de qualquer modo quando isso acontecer, eu,  ou o meu filho, daremos notícias 

20.12.19

CONTOS DE NATAL - MÚSICA PARA OS MEUS OUVIDOS



Sentei-me em silêncio no banco de trás enquanto regressávamos a casa de uma cerimónia vespertina da igreja, onde tinha ouvido, uma vez mais, a maravilhosa história do nascimento de Jesus. E o meu coração transbordava de alegria enquanto nós os três entoávamos conhecidas canções de Natal vindas do rádio do carro.
Com o nariz achatado contra o vidro do carro, não conseguia tirar os olhos das decorações dos grandes armazéns. À medida que passávamos pelas casas com árvores de Natal iluminadas nas janelas, imaginava as prendas debaixo delas. A alegria própria da quadra estava por todo o lado.
A minha felicidade durou apenas até chegarmos à estrada empedrada que levava à nossa casa. O meu pai virou para o escuro caminho rural onde a casa se erguia há duzentos anos. Não havia luzes de boas-vindas a saudar-nos; não havia árvore de Natal a brilhar na janela. E a tristeza tomou conta do meu coração de menina de nove anos.
Tal como as outras crianças, eu não podia deixar de desejar árvores e prendas. Mas estávamos no ano de 1939, e eu tinha sido ensinada a ser grata pelas roupas que me cobriam e os sapatos que me calçavam, a ser grata por ter alimento e casa — mesmo que muito humilde. Já tinha ouvido, mais que uma vez, os meus familiares dizerem “as árvores de Natal são um desperdício de dinheiro.” E eu supunha que os presentes também deviam ser.

Embora os meus pais tivessem já deixado o carro e entrado em casa, eu mantive-me lá por fora e deixei-me cair sobre os degraus do alpendre — receando perder toda a alegria própria da quadra festiva que tinha sentido na cidade, e desejando que o Natal estivesse também em minha casa. Quando, por fim, o frio da noite trespassou o meu vestido e o casaco de malha, estremeci e coloquei os braços à volta de mim própria, como num abraço. Nem mesmo as lágrimas quentes que me caíam pela face abaixo conseguiam aquecer-me.

E foi então que ouvi. Música. E cânticos.

Ouvi, e olhei para as estrelas que se amontoavam no céu, brilhando mais intensamente que nunca. Os cânticos rodearam-me, animando-me. Algum tempo depois, dirigi-me para dentro de casa para continuar a ouvir o rádio, pois aí estaria mais quente. Mas a sala de estar estava envolta em escuridão e silêncio. Que estranho! Regressei lá fora e ouvi de novo os cânticos. De onde é que aquilo vinha? Talvez do rádio do vizinho? Percorri a pé a estrada comprida, com aquela música maravilhosa a acompanhar-me durante todo o percurso. Mas o carro do vizinho nem se encontrava ali, e a casa deles estava tranquila. Até mesmo a árvore de Natal deles estava às escuras.
A música, contudo, ouvia-se mais alta do que nunca, seguindo-me e ecoando à minha volta. Poderia vir da casa do outro vizinho? Mesmo à distância, eu conseguia ver que também não estava lá ninguém. Ainda assim, percorri os quase trezentos metros que separavam a casa deles da nossa. Mas não havia nada, nem ninguém. No entanto, os cânticos continuavam, cristalinos e puros. Ouvia-os distintamente. E as estrelas, naquela noite, brilhavam com tanto esplendor que eu nem sentia medo de voltar para casa sozinha.
Uma vez chegada a casa, sentei-me de novo nos degraus do alpendre e refleti sobre este milagre. Pois, para mim, era um milagre. Porque eu sentia, no meu coração, que estava a ouvir uma serenata dos anjos.
Já não sentia frio ou tristeza. Agora estava quente e feliz, por dentro e por fora. Enquanto olhava lá para cima, para aquela infinitude, rodeada pelos louvores dos anfitriões celestes, soube que tinha recebido uma linda prenda de Natal – uma prenda vinda diretamente do Alto.

A prenda do amor. A estrela brilhante.

E um Natal eterno.

27.11.19

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XIX



Minutos mais tarde, Laura voltava acompanhada de Inês.
-Boa-noite - saudou olhando preocupada o homem que do outro lado da secretária se pôs em pé quando as duas entraram.
-Boa-noite, Inês. Sente-se e diga-me. Como encontrou hoje a minha filha? Recebeu alguma informação? Sabe quando ela terá alta?
- Falei com o médico. Ele disse-me que apenas quer repetir uns exames e depois lhe dará alta. Perguntei quando faria esses exames, e disse-me que no dia dezanove, e se tudo estiver bem como lhe parece, o mais tardar dia vinte e um terá alta, e já passará em casa o dia de Natal.
- Que bom - disse Laura indo abraçar o irmão.
Durante alguns segundos permaneceram enlaçados na mesma emoção, como se não lembrassem que não estavam sozinhos.
Por fim, Gil afastou a irmã, voltou costas e foi de novo sentar-se à secretária. Exercendo todo o seu controlo sobre os sentimentos, quando falou a sua voz soou serena.
- Obrigado. E diga-me, Inês. Está contente com o seu emprego?
- Estaria mais contente se a menina estivesse aqui, é uma bebé adorável, de quem vou cuidar com muito gosto. Mas sim estou muito feliz com o emprego.
-Contudo a sua expressão não demonstra essa felicidade.
- A minha expressão não vai influir em nada os meus cuidados com a sua filha senhor. Ela estará sempre acima de qualquer preocupação que me atormente. Juro-vos.
Os seus olhos rodavam preocupados, de um para outro dos irmãos, como se temesse que a fossem despedir. Gil notou o brilho húmido e receou que a jovem fosse começar a chorar.
- Tenho a certeza disso. Acalme-se, só queremos ajudá-la - disse Laura sentando-se a seu lado e segurando-lhe nas mãos. Estavam geladas.
Gil esperou uns segundos, para que a jovem se acalmasse e depois retomou a palavra.
- Não vou denunciar a fonte, mas ficámos a saber, o que se passou consigo, a razão do seu divórcio, bem como da existência do seu filho.  Eu e a minha irmã conversámos sobre isso e chegamos à conclusão, de que uma vez que vai ficar a viver aqui, deve trazer para cá o seu filho. Amanhã vou mandar pôr um divã no seu quarto, e depois com mais tempo poderá decorar o quarto a seguir ao seu para ele. A minha irmã vai ajudá-la.
Laura abraçava a jovem que chorava copiosamente, sem saber que dizer, nem como lhes agradecer.
Gil não gostava de ver uma mulher chorar. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se à porta dizendo à irmã:
- Tenho que ir ao quarto buscar uns documentos. Combinem a hora a que podem ir buscar o menino de manhã, uma vez que de tarde a Inês terá que ir ao hospital.
Fechou a porta e subiu. Não porque precisasse de ir buscar algum documento, mas porque tinha de digerir a emoção, que o facto de saber que em breve tinha a filha em casa lhe proporcionara. Saber que dentro de dias ia poder abraçá-la, dava-lhe um aperto no peito, e punha-lhe os olhos brilhantes.  Podia compreender a angústia de Inês, tendo que viver longe do filho. E sentia-se satisfeito pela decisão que tomara de trazer o miúdo para junto da mãe. Aquela casa estava demasiado triste. Duas crianças iam decerto ser como um raio de sol que rompe a escuridão e ilumina tudo à sua passagem.

  

4.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXIII









Por volta das quatro,  dirigiu-se ao hotel
Ao chegar ao átrio do mesmo, verificou que o empregado já não era o mesmo que o atendera no final da manhã. 
- Boa tarde. Sou Pedro Medeiros. Já aqui estive de manhã para saber se a menina Rita Sequeira, tinha deixado alguma mensagem para mim. O seu colega disse-me que não tinha nada, mas para passar a esta hora, podia ser que o senhor tivesse.
- Boa tarde. Sim a menina Rita deixou-me um envelope para lhe entregar, caso o senhor viesse procurá-la. - E abrindo uma gaveta retirou um envelope que lhe estendeu. - Aqui está.
Com mão trémula recebeu o envelope, agradeceu ao empregado e dirigiu-se a passos largos para o automóvel.
Aí chegado hesitou. Abria ou não o envelope imediatamente? Seria uma despedida? Um contato? Só havia uma maneira de o descobrir. Com as mãos a tremer, abriu o envelope e retirou de dentro dele uma folha de papel perfumado. Cada vez mais ansioso percorreu-a com o olhar. Tinha pouca coisa escrita. Apenas uma morada em Castelo Branco e a assinatura da jovem. Mas para ele aquilo foi como a mais bela declaração de amor. 
Olhou a cabine telefone,pensando que devia telefonar à mãe, mas de pronto decidiu retomar a viagem. Ligaria à mãe quando chegasse a Castelo Branco. Afinal ela já sabia que tinha chegado bem a S. Pedro e só esperaria novo telefonema à noite. Pôs o motor a trabalhar e o carro arrancou em direção ao sul. O sol aquecia a natureza, e a felicidade inundava o seu coração.Tinha a certeza de que Rita ia perceber as suas razões, e não só lhe ia perdoar, como  ia aceitar ser a rainha da sua vida.

Fim


Elvira Carvalho


                                          
Bom gente ontem estive no Hospital de Santa Maria desde as duas e meia até aos vinte para as seis. 
As notícias não foram lá grande coisa. Foi-me dito que tão breve haja uma córnea, farei o transplante e também que embora seja uma cirurgia combinada, ou seja tirar pontos, silicone, redução de um edema ocular e transplante de córnea, não me será posta a lente nesse dia por uma questão de prevenção de possibilidade de rejeição. O professor disse-me que prefere que eu faça a recuperação total do transplante e só depois fazer uma pequena cirurgia para por a lente.  Postas as coisas neste pé, não será tão cedo que eu estarei livre disto. E já faz hoje 8 meses. 

5.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XVI





Abriu a porta, entrou e como era seu hábito, cerrou-a com um toque de calcanhar. Tirou o telemóvel do bolso do casaco, despiu-o e pendurou-o no bengaleiro. Então reparou num papel em cima da mesa de entrada. Aproximou-se, e verificou que se tratava da fatura de uma compra de produtos de limpeza, que a mulher-a-dias lhe tinha deixado.
Há anos que tinha aquela empregada, era pessoa em quem tinha confiança total. Tinha cuidado da sua mãe, e anos mais tarde, quando comprara aquela casa, contratara-a com a certeza de que podia estar descansado que a casa estaria sempre impecável.
Raramente a via, ela chegava sempre depois dele ter saído. Levantava a chave no condomínio e voltava a deixá-la lá, quando se ia embora. No final de cada mês, ele deixava o dinheiro ali, e o recibo que ela assinava e deixava no mesmo sitio. E quando era necessário fazer alguma compra, fazia-a e deixava-lhe ali a fatura. No dia seguinte encontrava o dinheiro. 
Foi até à sala, e deixou-se cair no sofá. Não parecia o homem forte e dominador que geria com mão de ferro, os seus negócios. Dirigiu-se à estante mas não pegou em nenhum livro. Ficou parado durante uns segundos, e depois, abriu o armário que ficava na parte inferior da estante, e retirou um saco de pano preto com uns desenhos circulares em cinzento.
Voltou para o sofá. Abriu o saco e retirou uns ténis infantis, azuis-escuros com estrelas nas laterais.
Durante uns momentos, deu-lhes várias voltas nas mãos. Estava pálido, e o seu rosto estava tão tenso que  dir-se-ia  ser de pedra.
Depois pressionou-os contra a palma da mão, e os ténis faiscaram como se tivessem uma corrente luminosa à volta da sola.
Decorreram largos minutos, com o homem fixando as luzinhas como se estivesse hipnotizado. Finalmente abrandou a pressão, e ao apagarem-se as luzes, como que voltou à terra. Respirou fundo e voltou a guardar os ténis no saco de pano.
Se alguém tivesse presenciado aquela cena, decerto ficaria perplexo. Como é que um homem, que todos conheciam como um implacável homem de negócios, ficava assim emocionado à vista de um simples par de ténis?  Que fetiche era aquele?
 Recostou a cabeça no enorme sofá branco, fechou os olhos, e durante um bom tempo, permaneceu assim, relembrando os dois anos que vivera com Teresa. Agora, à distância, dava-se conta de que aquela época da sua vida  fora a única realmente feliz que vivera. Agora que cumprira as juras de criança, que a ambição de riqueza já estava aplacada, chegava à triste conclusão que toda a fortuna amealhada, não servia para comprar um único dia de felicidade.  E afinal para quê? Se a única pessoa a quem gostaria de dar uma vida de luxo, não tivera forças para viver até esse dia.

10.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLV


Nessa mesma tarde saiu do emprego com o ramo de rosas na mão e o presente para o marido na mala, e como sempre  ele já a esperava à porta.
Cumprimentou-o com o habitual beijo rápido e ele pôs o carro em movimento.
-Obrigada pelas rosas, São lindas.
-Fico feliz por teres gostado. Na verdade, gostava de te comprar uma jóia, não tens nada além da aliança e do fio que te dei pelo Natal, mas receei que não aceitasses. Sei que gostas de flores, mas só alegram o momento, dois dias depois estão mortas e vão para o lixo.
- Nas minhas recordações, sempre que me lembrar deste dia, elas vão estar tão bonitas como estão agora, e a sensação de felicidade vai ser igual à que hoje me proporcionaram.
Ele lançou-lhe um breve olhar e logo voltou a sua atenção para a estrada. Uns segundos depois disse:
- Nunca conheci ninguém como tu.
Ela não respondeu. Porque não tinha nada para dizer, ou porque acabavam de chegar ao prédio onde viviam. Ele acionou o comando da porta da garagem e estacionou no lugar que lhe estava reservado. Saíram cada um pela sua porta, e dirigiram-se para o elevador.
-Pensei que a exemplo do dia de casamento, não quisesses sair. Encomendei o jantar, vêm entregar, - olhou o relógio – dentro de meia hora. Temos tempo para um banho, o dia esteve muito quente. Podemos tomá-lo juntos, - disse num sussurro ao ouvido dela.
-Não! – A negativa saiu tão brusca que se assustou a si própria. – Desculpa, mas realmente preferia fazê-lo sozinha.
Se ficou aborrecido, não o demonstrou. Na verdade, já tinha decidido, que nessa noite teriam que discutir a relação. Não suportava mais a tristeza que notava no olhar feminino. Esboçou um sorriso.
- Sem problema. Ficas com a suite, eu uso a outra casa de banho.
Entraram em casa, e imediatamente o olfato detetou um perfume floral. Sobre a mesa da entrada estava um bonito arranjo de rosas vermelhas. Isabel foi à cozinha buscar uma jarra para colocar o ramo que trouxera do escritório, e viu  sobre a mesa da cozinha, outro arranjo igual ao da entrada. Pensou que devia haver flores em todas as divisões da casa e deixou a jarra em cima do balcão.
Quando passou pela casa de banho, no corredor, ouviu o chuveiro. O marido já estava no banho. Ela chegou ao quarto, abriu a cómoda para tirar a roupa interior que vestiria a seguir ao banho, deu a volta e abafou um grito de surpresa, ao ver um tapete de pétalas vermelhas, que ia até à cama,e se estendia sobre a colcha, e pela mesa-de-cabeceira. Refugiou-se na casa de banho, e fechou a porta. Não sabia que pensar. Aquilo era obra de um homem apaixonado. Pelo menos, assim era nos livros e nos filmes. Mas ele não estava apaixonado por ela, não acreditava no amor, tinha o coração seco. Então porquê aquele teatro?
Tomou um duche rápido, enxugou-se, vestiu as duas minúsculas peças íntimas, enfiou um roupão e sentou-se a secar o cabelo. Depois penteou-o todo para um dos lados do rosto e entrançou-o.
Foi ao quarto retirou uns calções brancos e uma T-shirt. De súbito, lembrou-se da mesa posta na noite do seu casamento, e pensou que aquela roupa não seria adequada, se ele tivesse preparado uma mesa igual, o que era quase certo olhando para o resto da casa.
Voltou a guardar a roupa, e tirou do guarda fato o vestido comprido preto que comprara para o casamento de Natália, e vestiu-o. Calçou umas sandálias de salto alto, desmanchou a trança e escovou o cabelo mantendo-o na mesma posição. Olhou-se ao espelho. Talvez tivesse exagerado no traje, talvez Ricardo estivesse vestido desportivamente. Encolheu os ombros, pegou no embrulho de presente e saiu em direção à sala.



11.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIX


Horas mais tarde, Paula descansava a cabeça no peito masculino. 
-Estás bem? - perguntou António acariciando-lhe o rosto.
- Melhor seria impossível. Amo-te - respondeu
- Repete. Esperei tanto para o ouvir que ainda me parece um sonho.
- Amo-te, amo-te, amo-te. Desde que entraste no meu escritório, e me inquietaste com aquela promessa de beijo, que não me deste. Já gostavas de mim nessa altura?
-Segundo o teu pai, apaixonei-me por ti, no seu escritório, quando tinhas nove anos.
-Não é possível. Por aquela garota triste e magricela? 
-Bom, eu creio que me apaixonei por ti há cinco anos, dias depois do meu regresso de França, quando me cruzei contigo no banco. Mas estavas noiva, e tentei por todos os meios esquecer-te, embora sem o conseguir. Mas é verdade que sentia um carinho especial por ti naquela época, embora acredite que era mais um amor de irmão. Afinal de contas, tinha uma irmã quase da tua idade. Amanhã, vamos para Sintra, - disse mudando de assunto. Vamos falar com o padre Celso e marcar a data de casamento. Depois vamos comprar o anel de noivado, e à noite vamos falar com o teu pai. Oxalá ele não me dê um tiro.
-O meu pai não é tão mau como pensas. Ele sofreu imenso com a morte da minha mãe e andou perdido durante anos. Sentia-se infeliz e descontava o seu sofrimento em quem o rodeava. Hoje está diferente. Tenho a certeza de que só quer a minha felicidade. Mas não falemos mais do meu pai. Vamos dormir? – perguntou
- Se quiseres, - respondeu ele - a boca buscando a dela, a mão esquerda abarcando-lhe o seio, com o polegar acariciando o mamilo, a mão direita, puxando-lhe o corpo de encontro à sua masculinidade, para que sentisse a sua excitação.
Ela riu baixinho, certa de que afinal nem tinha sono.

                                              *************

Tinha passado um ano desde aquela noite. Um ano que trouxe muitas mudanças mas que foi sobretudo de muita felicidade para o casal. Paula era uma mulher independente, não queria viver à sombra do marido, e ele concordara em que continuasse com a sua firma de eventos. Todavia pouco tempo depois do casamento, Paula  descobriu que estava  grávida de gémeos. Primeira gravidez já com trinta anos, e ainda por cima uma gravidez gemelar, o médico aconselhou muito repouso e pouco stress, pelo que ela chegou a pensar fechar a firma.  Porém um dia em conversa com a cunhada, Gabi disse-lhe que poderiam trabalhar juntas, pelo menos durante a gravidez. Paula assinaria os projetos e ela os executaria. E a verdade é que Gabi, revelou-se uma ajuda preciosa. Parecia ter nascido para aquela profissão, e Paula acabou propondo-lhe sociedade. Quando atingiu os seis meses, o médico exigiu repouso absoluto e dona Teresa, a sogra, mudou-se para a quinta a fim de estar perto dela para a ajudar no que precisasse. Era uma senhora amorosa, que a tratava com imenso carinho e Paula gostava muito dela. 
Naquele momento, a senhora insistia com a jovem, dizendo que tinha de comer o lanche que Alice a empregada preparara e colocara na mesa-de- cabeceira. Na cama, ao lado de Paula, um bebé dormia. De pé olhando-a com amor, António tinha nos braços o outro bebé. 
 Ouviu-se uma leve batida na porta  do quarto e dona Teresa foi abrir. Jorge, Cidália e Miguel entraram no quarto.
-Parabéns, - disse Jorge dando uma palmada amistosa, nas costas de António e dirigindo-se em seguida para o leito a fim de beijar a filha.
Depois voltou para junto do genro, deixando a mulher e o filho junto da jovem mãe.
-Esse é o meu neto? - perguntou mirando a carinha do recém-nascido.
-É o Martim,- respondeu António passando-lhe o bebé para os braços. A Mariana está ao lado da mãe.
Os dois homens encararam-se com um sorriso.  Durante aquele ano o ressentimento fora esquecido, não havia mais animosidade entre eles. Na cama, Paula, colocou nos braços do irmão a sua filha. O garoto pegou-lhe com extremo cuidado, os olhos rasos de água, comovido pela responsabilidade que era segurar nos braços a sua minúscula sobrinha.
Mais tarde quando eles partiram, António colocou os bebés nos respetivos berços, e sentando-se na beira do leito, beijou a mão da mulher.
-Meu Deus - murmurou,- não quero mais filhos. Passei as piores horas da minha vida antes de eles nascerem. Recriminei-me tanto pelo que estavas a passar.
-Não sejas tonto. Havemos de ter quantos Deus quiser. Afinal de contas, não temos problemas financeiros, e não nos falta amor para lhes dar.
- Mas e o teu sofrimento? Os enjoos, os pés inchados, as dores nas costas, as dores do parto? Não é justo.
-As dores da gravidez e do parto de qualquer mãe, é esquecido quando ela aperta o filho nos braços. Ou será que estás com ciúmes deles?- perguntou sorrindo.
Ele curvou-se e beijou-a. Não precisou falar. Aquele beijo disse-lhe tudo o que lhe ia na alma.

FIM

Como amanhã se festeja o dia da mãe em grande parte do mundo, (25 países) esta história não podia terminar de outra forma

10.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLVII



De súbito, largou o copo em cima da mesa da sala, e dirigiu-se a passos largos ao quarto de hóspedes, abriu o armário, pegou no saco com a roupa que a jovem esquecera no quarto, meteu o telemóvel no bolso das calças, pegou na carteira e nas chaves e saiu. Foi  à garagem, meteu-se no carro, ligou o motor e arrancou em direção a Lisboa. Olhou as horas. Nove horas. Muito cedo para já estar na cama, e decerto não iria sair no dia do seu regresso. E se tivesse saído, esperá-la-ia à porta até que voltasse. Tinha que ter uma conversa séria e definitiva com ela. Não podia desistir sem ter a certeza dos sentimentos que ela nutria por ele. Era a sua felicidade que estava em jogo. Estacionou junto ao edifício onde a jovem morava, e aproveitou o momento em que um casal de meia-idade saía, para entrar no prédio sem tocar a campainha. Descartou o elevador e subiu os dois lances de escada até ao andar da jovem. Aguardou um momento junto à porta. Não se ouvia nenhum ruído. Será que ela tinha saído? Bom, o melhor era tocar a campainha. E foi o que fez. Depois de uma curta espera, que a ele lhe pareceu interminável, Paula abriu a porta.
- Boa-noite. Desculpa vir a esta hora. Posso entrar?
- Entra - disse franqueando-lhe a entrada. - Não te esperava.
Fechou a porta e dirigiu-se para a sala. Tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, o rosto sem pintura, e os pés descalços. Vestia uns calções brancos, e um top azul. Todo o conjunto contribuía para lhe dar um ar frágil, e um aspeto de miúda.
Estavam os dois de pé na sala, um em frente do outro. Ele observou-a apercebendo-se da sua tristeza. Sentiu um aperto no peito. Era como se tivesse de novo na sua frente aquela menina tímida e triste que o pai levava para o escritório.
- Vim trazer a roupa que deixaste em Sintra, - disse estendendo-lhe o saco.
 -Obrigada - ela pegou no saco e pousou-o sobre a pequena mesa  em frente - mas não fiques aí de pé. Senta-te.
António deixou-se cair no sofá reparando que os seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse estado a chorar. Sentiu de novo aquele impulso antigo, de a sentar no seu colo e a confortar, tantas vezes experimentado outrora no escritório do pai dela. Também lembrou as palavras do Padre Celso. “Seja sincero consigo e com ela. E se os seus sentimentos são tão fortes como parecem, pode ser que ela venha a corresponder.” 
-Chega aqui, por favor, - pediu a voz enrouquecida pela emoção, o olhar fixo no dela.
Atraída pela força do seu olhar ela caminhou para ele, como o passarinho caminha para a serpente. Parou na sua frente. Então ele ergueu as suas mãos, colocou-as à roda da cintura dela, e com uma ligeira pressão sentou-a no seu colo.
-Vejo que estiveste a chorar. Estás tão triste e desamparada, como há vinte anos atrás, - disse com carinho - queres contar-me o que te aflige? Não tenhas medo. Estou aqui, e não vou deixar que ninguém te faça mal.


20.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE V








Contratou um detetive para descobrir tudo o que lhe interessava sobre Jorge Maldonado e a sua filha, uma vez que sabia que o seu inimigo era viúvo. Porém as informações não foram as que esperava. Primeiro porque o homem tinha voltado a casar. Segundo, a filha tinha abandonado a casa paterna, e era agora dona de uma empresa de eventos, que elaborava as festas de algumas empresas e de particulares. Era considerada uma excelente profissional e muito conceituada no meio. E estava noiva de um jovem médico.
Bom, se a jovem estava noiva, ele não ia atrapalhar a sua felicidade. Afinal ele sempre gostara dela, e de modo algum queria fazer-lhe mal. O seu ódio, era contra o pai.
 Porém, no ano anterior, lera numa crónica social que depois de quatro anos a jovem tinha posto um ponto final na relação, com o tal médico, e de novo lhe veio o desejo de a associar à sua vida. Afinal ia a caminho dos quarenta anos, tinha poder económico, uma bela casa, podia trocar de carro quando quisesse, viajar pelo mundo, mas deixara de sonhar com uma vida normal há quase dezoito  anos, por culpa do pai dela.
Sendo atualmente um dos grandes empresários do país, sempre que aparecia nalgum evento era imediatamente rodeado por belas mulheres que rivalizavam entre si para lhe agradarem, até porque fisicamente era um homem muito atraente, embora não fosse nenhum Adónis. Porém ele conhecia o seu valor e não se iludia. Sabia que o dinheiro, era um atrativo capaz de rivalizar com a maior beleza do mundo. Pelo menos para a maioria das mulheres que conhecera. 
 Tinham passado cinco anos desde que regressara de França. Cinco anos em que trabalhara arduamente mas em que duplicara a sua fortuna. Mas quando fazia a si mesmo a pergunta, se era feliz, tinha que reconhecer que não. Continuava com o coração cheio de ódio pelo homem que lhe roubara a coisa mais valiosa que ele possuía. Um nome honrado. Ainda que hoje nos meios em que se movia, ninguém parecesse conhecer essa mancha do seu passado.
Na posição social onde agora se encontrava, a honradez, media-se pelo volume da sua conta bancária. Todavia, ele estava prestes a vingar-se e depois… bom depois punha uma pedra sobre o assunto e ia aproveitar o resto de tempo que tinha pela frente.
Regressou à mesa no momento em que Eduardo, o seu cunhado entrou no escritório.
- Boa tarde. Tens alguma reunião marcada para os próximos trinta minutos?
- Não. Acabei de ter uma reunião com o Jorge Maldonado. Está desesperado.
- Sabes o que penso disso, António. Já passaram muitos anos, devias esquecer e tentar ser feliz.
- Não posso esquecer que me acusou de roubo. É o meu nome, a minha honra, não percebes?
- Claro que percebo. Mas vais conseguir apagar esse facto do teu passado arruinando o homem?  
- Dei-lhe hoje a hipótese de se salvar.
- Como?
-Se a filha dele aceitar casar comigo.
- Vês? Queres comprar a filha do teu inimigo, como se ela também fosse culpada de alguma coisa. Confesso que não te entendo. És jovem, tens saúde e uma posição social invejável. Esquece essa maldita vingança e concentra-te no momento atual e na felicidade que ainda podes ter.
-Esqueçamos os meus assuntos pessoais. Que te trouxe cá?
A empresa de "rent-a-car" que vocês vão comprar em Faro.

Boa Primavera para nós, bom Outono para os nossos amigos do outro lado do oceano.

1.12.18

UMA HISTÓRIA DE AMOR - PARTE XXI


O casal estava sentado na sala, conversando sobre as últimas gracinhas da neta, que passara com eles aquele dia.
Ouviu-se um sinal de mensagem, e Francisca pegou no telemóvel e leu.
“Olá Mãe.
Estou em Paris. Tinhas razão. Às vezes é preciso arriscar.
A fogueira foi ateada. E arde igual dos dois lados. Conta ao pai. Cuida de que não lhe dê algum ataque cardíaco.
Amamos-te. Beijos”
Sorriu feliz enquanto pousava o telemóvel.
Afonso, olhava-a curioso. Não era hábito, a mulher receber mensagens, aquela hora. Teve vontade de perguntar de quem era, mas não o fez.
Francisca, levantou-se. Olhou para ele, como quem vai dizer algo, mas nada disse. Voltou a sentar-se. Brincou com as mãos, num gesto característico de que estava nervosa.
 O marido inquietou-se. A coisa parecia séria. Perguntou suavemente:
-De quem era?
- Da Ana. Está em Paris.
- Em Paris? Mas não disse que ia para Barcelona?
- Mudou de ideias
- Aquela rapariga mata-me. O que é que fez agora, para te deixar tão nervosa?
- Foi em busca da felicidade.
Começava a ficar impaciente.
- Em Paris? Ela arrependeu-se? Não sabia que o Paulo  estava em Paris.
- Não, querido, não é o Paulo. É o Simão
- O Simão? Que Simão? Não conheço... -Interrompeu-se abruptamente.- O nosso Simão?
- Sim
- Não pode ser. São irmãos!
- Não são. E tu sabe-lo melhor que ninguém.
- Sim, tens razão, mas é que é tudo tão estranho. Eu pensava que eles se amavam como irmãos.
De súbito lembrou-se da conversa que tinha tido com Simão no jardim, aquando da festa de aniversário. Percebeu então, a razão que o tinha afastado de casa e da família durante todos aqueles anos. Pensou que ele amava Ana, desde sempre. Apesar da estranheza, gostava da ideia. Fá-la-ia feliz, tinha a certeza.  Mas será que Ana, não ia desistir de novo?  
 - Achas que desta vez, vai ser diferente? Que ela não vai desistir de novo? Sabes como tem sido inconstante.
- Tenho a certeza. Desta vez ela não vai desistir.
- O que te dá tanta certeza?
- O coração, - respondeu sorrindo. Depois pegou no telemóvel e escreveu:
“O pai já sabe. O Carmo não caiu. Estamos muito felizes.
Beijos.”

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Casaram dois meses depois, numa manhã de sol, na mesma igreja onde seus pais o tinham feito, há vinte e cinco anos atrás. Diz quem assistiu, que a noiva estava radiante de felicidade, o noivo muito emocionado, e a restante família muito contente. E que foi uma cerimonia muito bonita.

 Fim

Elvira Carvalho