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15.11.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE LV

 

Os dois homens, entraram na sala, enquanto Anabela se dirigia à cozinha para avisar Isilda de que podia levar a merenda à salinha e perguntar se ela precisaria de alguma ajuda para o jantar. Depois subiu ao seu quarto despiu a bata, tomou um duche e vestiu um conjunto de lã cor-de-mel.

Como Isilda dissera que não precisava da sua ajuda, e o dia apesar do frio intenso, se apresentava bonito, resolveu dar uma volta pela quinta. Hesitou entre o casaco de fazenda grossa, castanho e o casaco parka verde-azeitona, acabando por escolher o último por ser mais quente. Calçou as botas e sentindo-se confortável, desceu as escadas e saiu. 

Olhou o relógio. Quatro e meia da tarde. No fim do ano, os dias eram bem curtos e não tardaria a cair a noite. De qualquer modo ela não sairia da quinta, precisava apenas esticar um pouco as pernas e para ser sincera consigo mesma, também não se sentia muito à-vontade com os dois homens. Peter era simpático, extrovertido e um pouco brincalhão, diferente de Tiago que era um homem sério e muito intenso. Curioso como dois homens tão diferentes podiam ter uma relação de amizade, tão forte. Talvez fosse verdade a história de que polos opostos se atraem.

A bem da verdade, não era Peter quem a inibia, mas sim Tiago. Ela não sabia que se teria passado naqueles dois dias que esteve ausente, para as festas de Natal, mas embora Isilda, não se tivesse apercebido de nada especial, ela sabia que alguma coisa acontecera, e tinha de ter sido muito importante, porque o doente que ela deixara, não era o mesmo que encontrara. 

 A indiferença que ela lia nos olhos dele, tinha sido substituída por algo que ela juraria ser... desejo, talvez paixão. A rebeldia tão frequente anteriormente, tinha desaparecido. Tiago estava muito mais calmo, aceitava sem contestar e executava com entusiasmo todos os exercícios que ela lhe mandava fazer. Às vezes, Anabela tinha mesmo de se impor, a fim de que o entusiasmo masculino, não o levasse a cometer nenhum excesso que viesse a prejudicar o que já tinham conseguido.

Tinha de telefonar ao doutor Azevedo. A sua presença ali, já não se justificava, embora Tiago ainda tivesse de fazer mais algum tempo de fisioterapia, já podia fazê-lo em qualquer clínica, pois mesmo que ainda não pudesse conduzir, Joaquim que era um verdadeiro faz-tudo na propriedade, podia conduzir por ele. Afinal era ele que o fazia, sempre que era necessário ir às compras.

A noite caíra e com ela o frio intensificara-se. Anabela levantou o capuz, tentando proteger-se e iniciou o regresso a casa. Talvez Isilda precisasse de ajuda na cozinha.  Na quinta, o jantar era servido mais cedo que na cidade, e eles tinha em casa um convidado.

12.4.23

CICATRIZES DA ALMA - PARTE XXXVII


Anabela estava preocupada. Ela sabia como ninguém que os pesadelos recorrentes podiam destruir uma pessoa. Ela teve pesadelos depois daquela noite em que Óscar lhe encostara uma faca à carótida. Todavia ela procurara ajuda, fizera amizade com a psicóloga e sabia que mesmo afastada de Lisboa, podia recorrer a ela em qualquer altura se necessário mesmo pelo telefone, todavia depois da morte do marido não voltara a ter aquele pesadelo.

Era estranho, ela sempre se considerara uma pessoa de bons sentimentos, e nunca desejara mal a ninguém, muito menos a morte do marido. Só desejava que a deixasse em paz, aceitando o divórcio e afastando-se da sua vida. E no entanto quando soube da sua morte, não sentiu tristeza, antes uma sensação de alívio.

Tristeza sentia e muita, quando se cruzava com uma mãe transportando um bebé ao colo, ou no carrinho, e pensava que ela nunca conheceria a sensação de gerar e dar à luz um filho. Não, que alguma coisa no seu organismo a impedisse de engravidar. 

A ginecologista dissera-lhe que apenas uma trompa ficara danificada, todo o resto do seu aparelho reprodutor estava em ótimas condições. Apenas numa próxima gravidez, ela teria de fazer uma ecografia logo após a primeira falta, para ver se o óvulo estava no útero e não em qualquer outro sítio, para prevenir uma repetição do problema, embora não havendo doenças como a salpingite, associadas raramente se repetia o problema.

Porém ela estava a caminho dos vinte e nove anos, e depois da experiência do seu casamento não tencionava nunca mais, dar a outro homem o poder de transformar a sua vida num inferno como Óscar fizera.

Claro que ela podia recorrer à adoção e sabia que seria igualmente capaz, de amar como sua, uma criança adotada, mas nunca sentiria todas as alegrias e inconvenientes de uma gravidez, nem a sensação de ver pela primeira vez depois do parto, o rostinho do ser, tanta vez imaginado ao longo dos nove meses.

A menos que recorresse à inseminação artificial, porque aí não corria o risco de gravidez ectópica, já que o óvulo seria implantado no útero, mas conhecia casos, em que as mulheres só conseguiam a gravidez desse jeito, depois de três ou mais tentativas. E não se sentia com coragem para sofrer todo o processo de deceção, cada vez que uma tentativa não resultava.

Passou a mão pela testa, como se ela fosse uma borracha com que pretendia apagar os pensamentos e olhou o relógio. Quase dez horas. Apressada voltou a casa.

 

 

 

6.10.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXVIII


Noite de passagem de ano. Fernando e Helena tinham acabado de adormecer Diogo, e preparavam-se para assistir ao programa televisivo de fim de ano. Não era o melhor programa do mundo, mas por causa do menino, e da própria situação de Fernando, não podiam sair. Ela vestia um bonito vestido de lã branco, ele vestia umas calças de ganga, e uma camisola de gola alta também branca. 
- Queres dançar, doutora? Podíamos desligar a televisão e por um CD.

Em resposta ela agarrou no comando e desligou o aparelho. Ele procurou um CD e colocou-o no leitor. Depois pegou na pequena mesa de sala afastou-a para um canto da  mesma.  
- Assim temos espaço, doutora -disse enlaçando-a

 Dançaram durante algum tempo em silêncio, desfrutando do prazer que sentiam, os corpos juntos como se estivessem colados.
-Danças, muito bem, doutora.
- Porque me tratas sempre por doutora? O meu nome é Helena.
Ela parecia amuada. 

Ele sorriu apertando ainda mais o amplexo.
- Porque gosto. Porque chamar-te doutora, é para mim uma forma de dizer que te amo, sem ninguém mais entender.
- Amas-me? – perguntou ela erguendo o rosto para o fitar, sentindo que a atmosfera se tornara mais pesada, e o coração lhe queria saltar do peito.

- Amo-te mais do que possas imaginar, mais do que eu mesmo sonhei amar algum dia, E amo o teu filho, como se fosse meu, e vou querer-vos na minha vida para sempre, doutora. Quero casar contigo e acompanhar e proteger o Diogo. E fazer amor contigo e ter outros filhos. E espero sinceramente que não te seja de todo indiferente, e que aceites casar com um pianista desmemoriado.

Ela sorriu emocionada. Mal podia falar. Só conseguia pensar, que ele a amava, e que amava também o seu filho. Duas lágrimas rolaram-lhe pela face, e foram morrer na sua boca. E então murmurou:
- É claro que aceito. Tenho um fraquinho por pianistas desmemoriados, não sabias?
-Tinha uma leve desconfiança, - disse sorrindo e inclinando-se para a beijar.

Foi um beijo longo, apaixonado, a língua dele, invadindo-a exigente. Helena, sentiu-se desfrutada com paixão. Sentiu que o desejo percorria o seu corpo, queimava a sua pele, arrastando-a para um abismo de sensações.  Não resistiu, soltou um gemido e disse-lhe com a sua própria língua, que iria até onde ele a quisesse levar.
E então ele deu-lhe a mão e levou-a para o quarto.


Aos amigos que por aqui passam peço desculpa se não consigo visitá-los diariamente, mas tenho que proteger os olhos que não andam muito bem. Prometo voltar sempre que me sinta melhor. Obrigada pela vossa compreensão 

16.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XX

 


Gonçalo quase não dormira naquela noite. Levantou cedo, tomou banho vestiu umas calças de ganga e uma camisa branca e saiu. Parou no quiosque e comprou o jornal do dia, dirigindo-se em seguida para o café-pastelaria do bairro, onde diariamente tomava o pequeno-almoço.

-Bom dia, António, - saudou ao entrar no estabelecimento quase vazio aquela hora, porque era sábado. Aos outros dias começava a encher a partir das seis da manhã.

- Bom dia doutor – respondeu o jovem por trás do balcão.

Sentou--se numa mesa perto do balcão, e abriu o jornal, a fim de se pôr a par das notícias do dia.

--Bom dia, doutor. Então o que vai ser hoje?

Levantou os olhos do jornal e fixou-os na jovem grávida à sua frente. Tinha um ar cansado.

-Bom dia, Idália. Está com um ar cansado. Deve estar quase no fim do tempo, não devia levar tantas horas de pé. Não é bom para si nem para o bebé.

- Eu sei, doutor. Mas o António sozinho não consegue fazer tudo e de momento não podemos manter uma empregada. Precisamos pagar logo a hipoteca ao banco.

Gonçalo, olhou a jovem com pena. Com uma gravidez quase no fim do tempo, devia ser muito difícil para ela continuar a atender os clientes, praticamente todo o dia de pé, com os dias de calor fora de época que se tinham instalado há quase uma semana.

-Traga—me então o mesmo de sempre.

Ela afastou-se e ele ficou a pensar como podia ajudar os dois jovens, sem que eles se sentissem humilhados. Desde que viera para Lisboa que habitualmente tomava ali o dejejum antes de ir para o hospital.

Gostava do casal, eram educados e trabalhadores e de algum modo gostaria de ajudá-los, mas ainda não lhe ocorrera uma maneira de o fazer. Talvez se falasse com a irmã ela tivesse uma ideia. Era isso. No dia seguinte, falaria com a irmã. Desde que ela enviuvara e desde que ele não estivesse de serviço no hospital, sempre passava os domingos com a irmã. Enquanto pensava numa possível solução, Idália voltou e colocou na sua frente a sandes mista e o copo de café com leite que constituíam o seu habitual pequeno almoço.

Agradeceu à jovem, enquanto dobrava o jornal e o colocava de lado para iniciar a refeição.  Olhou o relógio. Oito horas e trinta e cinco. Era cedo ainda. Ele não chegaria ao hospital antes das dez, pois sabia que as manhãs eram complicadas para as enfermeiras e auxiliares com a higiene dos doentes, os pequenos almoços, as trocas de roupas de cama e limpeza do espaço.

Antes das dez e meia, ele não poderia ter um bocadinho de tempo com a menina. E ele queria vê-la, conversar um pouco com ela, embora não soubesse muito bem o que esperaria encontrar nessa visita.

Contrariamente ao que o amigo lhe aconselhara na véspera, não iria fazer qualquer recolha de saliva ou mesmo procurar algum cabelo caído na almofada para pedir um exame de ADN. Apesar de não lhe ter passado pela cabeça que a criança fosse sua filha até que Fernando o tivesse dito, agora essa possibilidade não lhe saía da cabeça. Mas apesar disso ele não era capaz de pedir um exame de ADN sem falar com a mãe dela primeiro.

 

12.12.20

CILADAS DA VIDA - PARTE LXXIII

 


O mês de Setembro aproximava-se do fim, os bebés tinham feito sete meses há dias, estavam grandes e tão desenvolvidos que ninguém diria terem sido prematuros. Os três já se sentavam sozinhos, e interagiam tanto com os pais como com as enfermeiras e as amas.

Aproveitando o bom tempo de Verão, iam todos os dias à rua. Umas vezes com a mãe,  Sandra e uma das amas, outras com as amas e a enfermeira. E até já tinham ido alguns dias à praia, nessas alturas também com o pai, que procurava passar o máximo de tempo em casa com eles, mas que muitas vezes tinha que descer porque os negócios não se compadeciam com o abandono, e ele tinha muitos empregados, gente que dependia daquele emprego para viver.

Quando os bebés tinham cinco meses e meio, Teresa começou o desmame, sempre orientada pelas enfermeiras que continuavam lá em casa. Sandra de dia,  Rosa aos fins de semana, e Gabriela de noite. Reduzindo uma mamada de cada vez a cada quatro dias dias e tirando leite apenas três vezes por dia, compensando com o leite congelado anteriormente, de forma a que o corpo se fosse habituando a produzir consoante as novas necessidades, e evitando assim possíveis complicações como ingurgitamento, obstrução dos ductos, ou mesmo uma mastite. O processo durara quarenta e cinco dias, mas finalmente terminara na totalidade sem problemas de maior.

Pouco depois dos bebés completarem seis meses, marcara uma consulta com a doutora Laura, e conversara com ela sobre a sua vida sexual que ainda não iniciara, apesar de estar agora cada dia mais recetiva às carícias do marido. Contou-lhe que João não sabia se ainda podia ou não ser pai, devido ao tal tratamento agressivo que o fizera recorrer à clínica de PMA para guardar o seu sémen e pediu aconselhamento sobre contracetivos.

A médica disse-lhe que se estivesse no lugar dela, poria um dispositivo intrauterino, (DIU) Ela não poderia engravidar nos próximos anos e embora a eficácia da pílula fosse praticamente total, sempre podia ver o seu efeito anulado com alguns medicamentos. O DIU seria ideal, pelo que depois de um exame, ela mesma lho poderia implantar.

E fora o que acontecera.

Mas ainda não houvera uma noite de amor entre eles, apesar das carícias serem cada dia mais prazerosas, em parte porque João lhe queria proporcionar uma noite especial, fora do ambiente da casa, com as crianças amas e enfermeira.

Naquela Sexta feira, fazia um ano que após a consulta das doze semanas, os dois tinham decidido casar. João pensou que Tinha chegado a hora de iniciarem a vida conjugal, antes que ele perdesse de vez o controlo e acabasse por se esquecer da mini lua de mel que lhe queria proporcionar.

Assim falou com o irmão, que imediatamente se prontificou a falar com a mulher e a  irem ficar na sua casa a partir dessa noite e até domingo à tarde, de modo a que o casal pudesse ter um fim de semana só para eles.  Depois disso telefonou para um hotel nos arredores e marcou uma suite para recém casados,  para essa mesma noite. Marcou uma mesa para jantar num dos melhores restaurantes da cidade e foi a uma ourivesaria onde comprou um fio de ouro com um rubi em forma de coração. Só então voltou para casa.

Teresa esperava que a levasse a jantar fora nesse dia, porque na véspera tinham falado na data, mas não esperava que o marido chegasse a casa e lhe pedisse que colocasse numa mala, roupas para os dois dias que iam passar fora.

-Mas e os bebés? – perguntou.

- Não te preocupes. O David e a Helena estão a chegar, vão ficar aqui até ao nosso regresso. E as amas. E a enfermeira Gabriela de noite e a enfermeira Rosa no fim de semana. Vão estar bem cuidados e nós vamos ter um tempo só nosso. Como se tivéssemos acabado de casar agora. E se a saudade apertar, fazemos uma vídeo chamada. Vou tomar um duche. Mas antes quero dar-te uma coisa. 

Meteu a mão no bolso e entregou-lhe a caixinha que ela abriu com mãos trémulas.

- Meu Deus é tão lindo! – exclamou

- A medalha, - explicou João enquanto lho punha no pescoço– simboliza o meu coração, que é teu há muito tempo. Então, porque choras? - perguntou apertando-a contra o seu peito.

- Choro porque estou feliz, não te preocupes. Anda, vai lá tomar o teu duche, enquanto faço a mala.

 

 

23.10.20

CILADAS DA VIDA - PARTE XLIX



Dez minutos depois, João tinha as duas no seu escritório.

Explicou a situação que estava vivendo e terminou dizendo:

O que eu pretendo é que a Teresa não seja internada. Para isso preciso que a Sandra nos acompanhe ao hospital, fale com a médica e lhe diga que a Teresa vai ter o melhor acompanhamento pois terá sempre a seu lado uma enfermeira para cuidar dela. Leve a sua carteira profissional. Se isso evitar que ela fique internada, a Sandra deixará o serviço no posto médico e passará a cuidar exclusivamente dela. E tu Olga telefonas para a agência com quem costumamos trabalhar pois precisamos contratar mais duas profissionais de enfermagem. Uma para ficar lá em baixo no lugar da Sandra, outra para ficar aqui durante a noite. Não quero que a Teresa fique desacompanhada em nenhum momento.

 - Mas… e o meu trabalho quando a dona Teresa já não precisar de mim? – perguntou Sandra.

- Não se preocupe o seu lugar está garantido no posto médico. A nova enfermeira será avisada de que estará a fazer uma substituição durante um ano.

-E se a Teresa tem mesmo que ser internada? – perguntou Olga.

- Ainda que assim seja, não estará no hospital mais do que uma semana ou duas, até que recupere peso. Voltará para casa e precisará na mesma de quem cuide dela até que os bebés nasçam. E até depois disso, pois cuidar de três crianças ao mesmo tempo, não é tarefa para uma mulher só. Agora a Sandra vem comigo, vou-lhe apresentar a Teresa. Ela quer tomar banho, mas não a deixe fazê-lo sozinha, pode sentir tonturas ou até desmaiar pois segundo a médica disse está muito fraca. E tu Olga vem também. Gostaria que ela pudesse contar com a tua amizade.  Não tem família, e deve sentir-se muito assustada com tudo o que lhe está a acontecer. Além disso, depois enquanto a Sandra cuida da Teresa, precisamos falar. Outra coisa, não quero ouvir ou saber de mexericos na empresa sobre esta situação. Todos os contratos têm uma clausula de confidencialidade, e sinto-me livre para despedir qualquer um que a quebre.

Falava como se a advertência fosse para as duas, mas ambas sabiam que se dirigiam apenas à enfermeira.

Mais tarde depois das apresentações, e de terem conversado um pouco com Teresa ele disse:

- A enfermeira Sandra fica contigo e vai-te ajudar com tudo o que necessitares. Eu tenho que ir lá abaixo ao escritório, tenho uns assuntos a resolver, estarei de volta pelas dez e meia. Estejam preparadas quando voltar para irmos ao hospital. Vamos Olga?

Os dois saíram em silêncio e só quando chegaram ao andar de baixo, junto da secretária de Olga, João disse:

- Vem comigo. Não precisas trazer o bloco, quero apenas conversar.

Já no gabinete, João contou-lhe todas as emoções que sofrera em menos de vinte e quatro horas. Falou-lhe de David, do que ele lhe dissera, do registo de nascimento que lhe trouxera, diferente do seu e da carta que a mãe lhe escrevera e que ainda não tivera coragem de ler. Falou-lhe da emoção que sentiu ao saber que tinha um irmão, e ao descobrir pelas fotos que ela guardara, que afinal a mãe não se desfizera dele como se fosse um traste. Tinha a certeza de que na carta, ela lhe explicaria as suas razões, mas ainda não a lera, pois quando pensava fazê-lo recebera o telefonema da Teresa e depois que soubera que era uma gravidez múltipla e do perigo em que se encontrava, tudo o resto passara para segundo plano.

- Tenho medo que ela não consiga levar a gravidez até ao fim. Está tão magra, parece tão frágil…

-Mas deseja essas crianças com todo o seu coração e fará tudo por elas. Não temas, vai correr tudo bem.  Vou cancelar os teus compromissos para estes dois dias, e assim com o fim de semana, ficarás com quatro dias livres para digerires todas essas emoções. Achas bem?

-Faz isso. E trata do assunto das enfermeiras. É urgente. E que estejam disponíveis para começar hoje mesmo. Agora tenho que ir. São quase dez e meia.

 

20.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE VI




Depois de um intervalo, os seis pares voltaram à pista, e em conjunto dançaram sucessivamente o Samba, o Merengue, o Maxixe, e o Mambo.
Quando terminaram, o público foi informado de que a exibição terminara, podiam utilizar a pista para dançarem, a festa ia continuar e ainda iam sortear um prémio entre todos os bilhetes vendidos. O casal, amigo de Gabriel, queria ir dançar, e ele disse-lhes que não se preocupassem consigo, que ia até ao bar.
Encaminhou-se para o extremo do balcão, pediu uma bebida e ficou observando os pares que evoluíam na pista, ou se espalhavam pelas mesas. Esperava ver de perto a mulher de vermelho. Para tirar da cabeça, a ideia absurda de que podia ser Sandra. Por muito familiar que lhe tivesse parecido o seu perfil, uma mulher com aquele corpo, não podia ser aquele ser ridículo, que os recursos humanos lhe tinham arranjado como secretária.
De súbito a sua atenção fixou-se na mulher elegantemente vestida, com um vestido negro, o cabelo castanho, com uns reflexos avermelhados, solto sobre os ombros, que chegava ao balcão e pedia um refresco. Aproximou-se dela, e então teve a certeza absoluta, de que se tratava da sua secretária.
 Pôs-lhe a mão sobre o ombro, e inclinando-se murmurou-lhe quase ao ouvido:
-Se, eu sofresse do coração, decerto teria um enfarte esta noite.
Ela soltou-se rapidamente, os enormes olhos verdes cravados nos dele.
-Que faz aqui? – perguntou, o rosto vermelho a voz tremente
-Quem diria, que tinhas tantos dotes. Deixa-me adivinhar, secretária e atriz de dia, bailarina e que mais de noite? – perguntou sarcástico.
Ela levantou a mão com evidente intenção de o esbofetear, mas ele foi mais rápido, e prendeu-lhe o pulso dizendo:
- Nem sonhes. Pega a tua bebida e vamos sentar-nos.
- Não sei quem lhe disse que eu estava aqui, mas não vou consigo a lado nenhum.
-Tens a certeza? Queres ver-te envolvida  num escândalo? Por mim fica à vontade. Se não te importas de sair amanhã nos jornais de mexericos, como uma das minhas amantes, que resolveu fazer um escândalo numa festa de beneficência…
-Era capaz disso? – perguntou furiosa, os belos olhos verdes faiscantes
- Não duvides - respondeu com voz rouca, segurando-lhe o braço e empurrando-a para uma mesa.

17.2.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXXIX




- Chegou a hora de me despedir!
Ela estremeceu e largou o pincel. 
Aquela frase, foi como uma faca rasgando-lhe o peito apesar de não ser de todo inesperada.
Desde a véspera, que Luísa sentia a luta que ele travava consigo mesmo, e intuía que a sua partida estava eminente. 
Uma semana se passara, desde aquela terrível noite de tempestade, em que ele chegara meio morto à sua porta. 
Sete dias de convívio diário que  mudaram  a sua vida para sempre. 
Inicialmente cuidara daquele homem, pois ele estava meio inconsciente e completamente vulnerável. Faria o mesmo com qualquer outro ser humano que necessitasse, fosse criança, ou idoso, ou até  mesmo por um animal, (afinal fora assim que ganhara a companhia de Tejo, quando o encontrara abandonado, maltratado e meio morto de fome).
Porém desde o primeiro momento em que ele recuperou a consciência, ela sentiu a forte atração que os uniu. Há muitos anos que se tinha imposto a si mesma uma vida de solidão e até então, nunca se tinha sentido infeliz com essa opção. Porém tudo mudou depois que ele chegou. Era  um homem muito atraente, mas era também educado, simpático, e adivinhava-se carinhoso, pela maneira com que a tratava. 
E embora sabendo que era uma loucura, o desejo de o ter mais tempo consigo, foi crescendo, hora a hora. Sabia que de um momento para o outro, ele podia recuperar a memória, e partir. E ela não era tão egoísta  que desejasse o contrário, mas sim, desejava que não partisse enquanto a atual situação se mantivesse.
  Por isso, para o reter, lhe tinha pedido para posar para ela, e tinha começado a pintar o seu retrato havia três dias. Era como se através do quadro, pudesse perpetuar a sua presença junto dela. Se acreditasse em amor à primeira vista, diria que se tinha apaixonado por ele desde o primeiro momento. Ou talvez fosse apenas atração sexual.  Afinal há mais de doze anos que não sentia o carinho de umas mãos de homem acariciando o seu corpo. Todavia  desde a véspera, ela sentia que a sua partida estava eminente.
- Mas para quê partir, se não sabes para onde? Ou já te lembraste de alguma coisa?
- Não, de vez em quando passam-me imagens rápidas pela cabeça, como se
 fossem flashes fotográficos. Há uma em especial que surge muitas vezes. É um bebé, e sinto que há uma relação forte comigo, mas não consigo lembrar de mais nada.
- Provavelmente, as tuas memórias a quererem voltar à superfície. Mas então porque não ficas mais um dia ou dois? Pode ser que, entretanto, te recordes de tudo.
-Não posso, Luísa. Somos ambos, adultos o suficiente, para nos darmos conta da atração que exercemos um sobre o outro. Por vezes a tensão sexual entre nós é tão grande que quase pega fogo ao espaço que nos rodeia. Ou pelo menos é o que eu sinto, e, creio não me enganar, ao pensar que tu sentes o mesmo. Agora mesmo leio no teu olhar, o mesmo desejo que me consome e não posso nem devo pagar dessa maneira a tua generosidade. Não esqueço que se estou vivo a ti to devo, e eu nem sequer sei se sou um homem livre.
-Compreendo, - disse ela voltando os olhos para a tela, o coração dividido entre a dor que a invadia, pela partida eminente e a alegria de saber que os seus sentimentos eram igualmente sentidos por ele. E sentiu uma enorme tristeza, ao  pensar que em qualquer parte do país, poderia haver outra mulher que estaria em sofrimento, sem saber o que lhe tinha acontecido. 
- E quando pensas partir? - perguntou com voz tremente. 
- Logo após o almoço. Quantos quilómetros são daqui à vila? – perguntou.
- Penacova, fica a pouco mais de três quilómetros. Mas o que vais fazer quando lá chegares?
- Ainda não sei. Mas suponho que se me dirigir ao posto policial, de algum modo a polícia me poderá ajudar.
- Bom, então será melhor que eu vá tratar do almoço. Deixa-me só lavar os pincéis.


20.1.20

OS SONHOS DO GIL GASPAR - PARTE XXVIII



Uma estranha sensação de que não estava sozinha, acordou-a.  Abriu os olhos e voltou a cabeça para a porta. O desconhecido encontrava-se à porta da sala. Os seus olhos percorreram o corpo masculino, da cabeça aos pés. Tinha tirado o penso da cara, cuja ferida apresentava um aspeto limpo de infeções embora com o contorno um pouco inchado e avermelhado. Tomara banho como demonstravam os seus cabelos ainda húmidos, e vestira a roupa que ela deixara pendurada na casa de banho. Deu-se conta que o fato não estava tão bem passado como devia, mas passar a ferro, um casaco masculino era extraordinariamente difícil. Ainda assim ele devia dar-se por feliz, por não ter de vestir a roupa molhada e enlameada. Voltou a levantar o rosto e os seus olhos fixaram-se nos do desconhecido, ficando admirada com a expressão de vazio que encontrou neles.
-Dormiu bem? – perguntou levantando-se.
- Sim... creio que sim – respondeu.
- Sou Luísa Rodrigues - disse ela estendendo-lhe a mão – e o senhor é?
O desconhecido apertou-lhe a mão, murmurando qualquer coisa que ela não entendeu.
- Como disse que se chamava? Desculpe não entendi o nome…
- Não o disse. Na verdade, não sei.
- Como não sabe? - interrogou Luísa. Não se lembra quem é?
- Não. Não sei quem sou, nem se vivo aqui, ou noutro lado qualquer. Tenho a cabeça completamente vazia. A minha esperança é de que a senhora me esclareça.
- Eu? Como poderei fazê-lo? Nunca o tinha visto antes. A única coisa que lhe posso dizer é que alertada pelo meu cão, ontem à noite o encontrei encharcado e meio morto, estendido lá fora. Estava inconsciente e foi com grande dificuldade que consegui, com a ajuda de Tejo, o meu cão, fazer com que recuperasse os sentidos porque sozinha não conseguiria trazê-lo para casa. Estava ferido, encharcado e enlameado, e voltou a perder os sentidos mal se sentou naquele cadeirão. Cuidei de si, mas não pronunciou uma palavra, pelo que não sei se teve um acidente, ou se foi alguma rixa. Cuidei da sua roupa para que quando acordasse, tivesse que vestir, mas não encontrei qualquer documento nos bolsos. Não se lembra mesmo de nada?
- Não - respondeu com uma tal expressão, que lhe lembrou de quando há dois anos encontrara Tejo abandonado e faminto. -  Acordei há pouco, e, não me recordava daquele quarto. Tentei lembrar onde estava e nada. Levantei-me para ver se encontrava alguém conhecido, e entrei numa casa de banho que reconheci. Olhei-me ao espelho e estranhei o penso na cara. Depois vi a roupa, tomei banho e vesti-me. Depois tirei o penso que estava todo molhado, e vi esta ferida no rosto. Mas não sei como a fiz.  Esperava sinceramente encontrar alguém que me dissesse onde estava e o que tinha acontecido.
- O penso fui eu que lho fiz, mas é natural que não se lembre, estava exausto adormeceu logo a seguir ao banho. Não se preocupe, talvez esteja em choque, ou tenha levado alguma pancada na cabeça. De qualquer modo enquanto o temporal durar não poderá sair e tenho a certeza de que mais logo ou amanhã há de lembrar-se. Venha comigo, vou preparar-lhe o desjejum.  



13.1.20

OS SONHOS DE GIL GASPAR - PARTE XXV





Quem seria aquele homem e que faria por ali. numa noite em que nem o diabo se atreveria a sair à rua? – interrogava-se mentalmente a mulher, no seu quarto, enquanto trocava o pijama e o robe molhados por outra roupa seca. Voltou ao corredor,  tentando ouvir os ruídos na casa de banho, por medo de que o homem voltasse a desmaiar, ou adormecesse de cansaço na banheira e se afogasse.
A sua casa ficava isolada a mais de três quilómetros da vila, a uns quinhentos metros da margem do rio.  Era um sítio ermo e por isso sujeito a certos perigos, especialmente para uma mulher que vivia sozinha, mas ela adorava o local, rico de paisagens e cor, ideal para os seus quadros. Não tinha medo. Durante três anos tivera aulas de defesa pessoal, sabia bem como se defender. Depois tinha um excelente cão e um bom sistema de alarme ligado diretamente ao posto da polícia na vila.
Há alguns minutos que não ouvia qualquer ruído e assustada bateu levemente na porta perguntando:
- Precisa de alguma coisa?
A porta abriu-se e o homem apareceu. Agora o rosto livre da lama, ela pôde observar que se tratava de um homem novo e bem parecido embora tivesse um golpe no lado direito do rosto que descia desde a testa, quase no início do cabelo até ao canto dos lábios. Felizmente já não sangrava e não parecia muito profundo.
- Venha comigo - disse levando-o para o quarto do irmão. Desapertou-lhe o roupão e ajudou-o a meter-se na cama, enquanto reparava que as calças do pijama, estavam curtas e a parte de cima, desapertada. Não era de admirar, o homem era bem mais alto e encorpado que o seu irmão.
-Vou preparar um copo de leite quente e desinfetar essa ferida – disse antes de sair.
Ele devia estar completamente exausto, porque quando voltou, encontrou-o profundamente adormecido. Com um antissético desinfetou a ferida, que tal como pensara não era muito profunda, e, colocou uma pomada cicatrizante e um penso sem que ele acordasse. 
Saiu fechando a porta atrás de si, e foi à casa de banho. Apanhou as roupas encharcadas, e procurou uma carteira, ou algum documento que lhe dissesse quem era aquele homem, mas os bolsos estavam vazios. Porém analisando a  qualidade das peças, pensou que o desconhecido podia ser qualquer coisa, menos um mendigo. Levou as roupas para a cozinha onde as meteu na máquina de lavar. Esperava que não fossem daquelas que encolhiam imenso ao lavar, ele precisaria das roupas para se ir embora, e as roupas masculinas que ela tinha em casa pertenciam ao seu irmão, que não tinha a mesma estatura do desconhecido. Estava muito cansada. Precisava com urgência de uma cama.  Apagou as luzes e foi para o seu quarto. Não teve problemas em adormecer. Apesar de ter um estranho no quarto ao lado.
Tejo, não só não atacara o homem, como ajudara a salvá-lo. Ela confiava no instinto do animal. Se o homem fosse perigoso, ele tê-lo-ia atacado..
Lá fora o vento continuava a soprar enraivecido e a chuva recomeçara a cair.

13.12.19

CONTOS DE NATAL - UM NATAL MUITO ESPECIAL


  1.  Um Natal muito especial
  2. Era o primeiro Natal da Rita Ratinha. O céu rasgava-se de rosas e dourados e o ar era frio. Algo cintilava através da janela de uma casa, brilhando na escuridão da noite. — O que é aquilo, mamã? — guinchou a Rita. — Chama-se árvore de Natal — respondeu a mãe. — As pessoas enchem-na de bolas brilhantes, luzes e estrelas. — Quem me dera ter uma árvore de Natal — suspirou a Rita. — E se fôssemos à floresta procurar uma? — sugeriu a mãe. — Podes pô-la tão bonita como aquela que se vê na janela. A Rita achou a ideia maravilhosa. Chamou os irmãos e as irmãs, e lá foram todos à procura. E
  3.  Pelo caminho, encontraram um celeiro e os ratinhos aventuram-se lá dentro, à procura de alguma coisa para colocar na sua árvore. Debaixo de um enorme monte de palha, a Rita encontrou uma boneca. — É igual à que está no cimo da árvore de Natal que se vê à janela — comentou. — É perfeita para a nossa árvore! Mas a boneca já tinha dono. — Grrrrr! — rosnou o velho cão da quinta. — Essa boneca é minha! — Não corras atrás de nós — pediu a Rita. — Só pensei que a boneca ficaria bem na nossa árvore de Natal.
  4. O velho cão bocejou. É verdade que, por vezes, corria atrás de ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por se lembrar da altura em que brincava com as crianças,
  5. junto da árvore de Natal da quinta, o cão disse aos ratinhos que podiam levar o brinquedo emprestado. Os ratos saíram da quinta, levando consigo a boneca, e chegaram ao outro lado da floresta. — Vejam! Encontrei outra coisa para colocarmos na nossa árvore! — exclamou a Rita. Era uma fita dourada, que pendia de um ramo de um carvalho. A Rita trepou pelo tronco acima, agarrou a fita e puxou... Mas a fita pertencia a uma gralha, que queria usá-la para forrar o seu ninho.
  6. — Por favor, não te zangues — pediu a Rita. — Só a queria para enfeitar a nossa árvore de Natal. Ora, normalmente, as gralhas perseguem ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, ou por também ter ficado a admirar a árvore de Natal que se via à janela, ela largou a fita e a Rita levou-a consigo. Ao longe, a Rita viu umas coisinhas vermelhas a brilhar, caídas no chão. Eram muito parecidas com as bolas penduradas na árvore de Natal que se via à janela.
  7. — É mesmo disto que precisamos! — exclamou a Rita, correndo para apanhar uma delas. — Agora, já temos uma boneca, uma fita dourada e uma bola brilhante! Mas as bolas brilhantes pertenciam a uma raposa.
  8. — Essas maçãs são minhas — resmungou. — Estou a guardá-las para ter o que comer no Inverno frio. — Nós só achamos que uma ficaria bem na nossa árvore de Natal — disse a Rita, tremendo de medo. A raposa cheirou-a. Já correra atrás de muitos ratinhos. Mas, talvez por ser Natal, voltou para o interior da floresta, deixando que a Rita escolhesse uma maçã e a levasse com ela. O sol começava a pôr- -se, à medida que os ratinhos avançavam cada vez mais para o interior da floresta. Por fim, numa
  9. clareira, encontraram uma árvore verde muito grande. — A nossa árvore de Natal! — gritou a Rita. E, nos seus ramos, penduraram a boneca, a fita e a maçã. — Oh — disse a Rita, quando terminaram. — Não se parece nada com a árvore de Natal que eu vi. Tristes, os ratinhos voltaram as costas e, desiludidos, caminharam de regresso a casa, para se deitarem.
  10. A meio da noite, a Senhora Rato acordou os seus pequenotes. — Venham comigo — sussurrou. — Quero mostrar-vos uma coisa. Os ratinhos apressaram-se para junto da mãe, seguindo-a em direção à floresta. Pelo caminho, viam alguns animais que passavam por eles, cheios de pressa. Por fim, os ratinhos chegaram à clareira. A Rita parou de repente e os seus olhos começaram a ficar mais e mais redondos e brilhantes. — Oh, vejam aquilo! — exclamou.
  11. Durante a noite, os animais da floresta tinham acrescentado mais enfeites à árvore e a neve começara a cair, cobrindo tudo com o seu brilho. A pequena árvore piscava sem parar na escuridão. — A nossa árvore é ainda melhor do que a que se vê à janela. — sussurrou a Rita, muito feliz. E, talvez por ser Natal, todos os animais se sentaram à volta da árvore, tranquilos e em paz.

  12.  Christine Leeson 
  13. Um Natal muito especial V. N. Gaia,
  14.  Edições Gailivro, 2006 Texto adaptado

Uma história bem levinha para os que não gostaram da história de ontem. Eu adorei-a porque entendi que ela tem, não uma mas duas grandes mensagens. A primeira de amor, do marido e filhos que tudo fizeram para amenizar a dor e o desalento da doente, a segunda a mensagem de que nem sempre o cancro é sinal de morte. Muita gente se cura e essa é a esperança que todos devem ter, a força para lutar contra a doença. 

9.12.19

CONTOS DE NATAL - A PASSAGEM DE UM ANJO






As luzes cintilavam, brilhantes e coloridas, enfeitando o centro da pequena cidade. Quando a noite caía, o manto negro da lua estendidos sobre a localidade, realçava a brancura da neve e as decorações festivas. Os habitantes, bem resguardados do frio, passeavam calmamente admirando a beleza do lugar e a alva dádiva da natureza que se acumulava nos telhados e muros das casas, nas bermas dos passeios, assim como na escultura de pedra no centro do jardim. A mercearia ainda estava aberta, o sapateiro continuava a pregar solas novas nos sapatos, a livraria publicitava a última obra do escritor da terra e a loja dos brinquedos estampava no rosto das crianças o misto da surpresa, da alegria e desejo de receber uma prenda. Era Natal!
- Toni, sou o Toni...para facilitar! dizia com graça e humildade de quem se habituou a pedir. O metro e oitenta de outros tempos esfumaram-se no corpo encolhido para se defender do frio, das pernas dobradas para mendigar e no peso dos anos que se iam adicionando. Já ninguém lhe perguntava o nome mas ele dizia, falando consigo próprio e ao seu companheiro ursinho, um boneco usado, de orelhas redondas e castanhas, os olhos negros, dois simples botões, um pregado e o outro descosido
tombando sobre uma das faces como uma lágrima corrida.
Nessa noite, o frio redobrara de intensidade, os flocos de neve amontoavam-se sobre a já existente e Toni, para se defender da agreste temperatura, espremeu o corpo contra uma das paredes de pedra da escultura no centro do jardim. Pegou no ursinho e poisou-o no espaço livre da escultura, virado de costas para ele. Na escuridão da noite lançou a corda sobre um dos braços da escultura e prendeu-a com firmeza. Subiu para o pedestal de pedra da escultura e enfiou o laço ao redor do pescoço. Olhou para o ursinho que de costas voltadas não via as lágrimas que lhe humedeciam as faces. - Adeus meu amigo!, disse num tom triste. Respirou fundo e fez um apelo ao desespero que é a coragem de quem nada mais tem.
Nesse instante, o latir assanhado de um cão invadiu o silêncio. Direcionara o focinho para o mendigo e ladrava violentamente com as pernas da frente esticadas para diante, num gesto de denúncia. Toni ficara especado, não ousara mover-se, incrédulo com a atitude do cachorro de olhar esgaziado que não parava de latir. O mendigo tirou o laço do pescoço e o animal soltou então um gemido dócil esfregando o focinho entre as patas. - Boa noite meu amigo..., disse tremelicando a voz. O cão agitou vibrante a cauda e desapareceu na noite enquanto o dono caminhava no seu encalço.
Vendo o mendigo que se expunha agora à luz de um candeeiro, saudou-o com um aceno erguendo o braço e dizendo:
-Boa noite, senhor...?
O mendigo sorriu apertando o ursinho contra si.
-Toni, sou o Toni...,  para facilitar!
-  Feliz Natal senhor Toni!


ADRIANO CENTENO  in Chiado Editora  "Natal em Palavras"  coletânea de contos de Natal

26.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XVI


– Não tia. Graças a Deus não. Foi do emprego. Dizem que se não estiver lá amanhã, escuso de ir mais. Já estou ausente há muito tempo, as férias acabaram, não tenho licença, nem atestado médico, - disse pedindo mentalmente perdão pela mentira, mas não podia dizer a verdade à tia.
- Bom, se é isso tudo bem. Mas podias ter dito quando entraste. Fiquei assustada. E sair assim de corrida, vais chegar de noite...
 – Talvez não, tia. Os dias são grandes e escurece tarde, não se preocupe.
- Então vamos mulher, vamos preparar um farnel para a viagem.
E dizendo isto Palmira, empurrava a empregada na sua frente.
- Não se preocupe tia, eu como alguma coisa pelo caminho.
- Era o que mais faltava! - Zangou-se ela – Da minha casa, nunca ninguém saiu sem farnel.
Quando Pedro saiu com as malas para o carro, já as duas mulheres tinham preparado uma cesta, onde não faltava a broa, o presunto, um belo salpicão, várias frutas, e uma garrafa de água.
Na verdade a tia tinha-se cansado durante todo o tempo que ele estivera em sua casa, para que bebesse vinho, mas Pedro sempre fora abstémio.
Abraçou as duas mulheres e saiu. Tinha pressa de viajar. Não queria correr o risco de se encontrar Rita, nem queria que ela o visse partir.

Chegou a casa ao anoitecer. Abriu a porta e sentiu o peso da solidão. A primeira coisa a fazer, era telefonar à mãe e pedir para ela regressar no dia seguinte. Teria que dar uma desculpa convincente, para aquele regresso inesperado pois nessa mesma manhã, quando lhe telefonara, não dissera que tencionava regressar e ele conhecia bem a mãe. Se desconfiasse que alguma coisa não estava bem era capaz de abalar de noite a caminho de casa.
Mais tarde ligaria à tia, para que as duas mulheres dormissem descansadas. Depois das chamadas, estendeu-se em cima da cama e deixou-se dormir.

20.1.19

QUEM SABE, FAZ A HORA... - PARTE I

Reedição





Naquela noite de Dezembro, João chegou cedo a casa. Estava muito cansado. A tarde no escritório, fora de arrasar. Há dois dias que Helena, a colega, estava doente. Ele tinha o dobro do trabalho. Normalmente nem se queixava. Gostava da sua profissão, e não ganhava mal. Mas nos últimos tempos, sentia-se cansado.Física e espiritualmente. A idade começava a pesar. Não que seja velho, longe disso. Acabara de fazer quarenta anos e era um belo homem. Mas um homem chega a determinada altura e começa a não achar graça, às saídas com os amigos, às ressacas do dia seguinte, e principalmente a chegar a casa e sentir sobre si o peso da solidão.
Mergulhado no confortável sofá, João pensava que era chegada a hora de dar um novo rumo na sua vida. Pensou em quantos dos seus amigos de infância estavam solteiros.
O Zé, o Nuno, - não o Nuno casou o mês passado. Solteiros só restavam ele e o Zé.
Pegou no comando e desligou a TV. Não lhe apetecia ver nada. Mas também não tinha vontade de ir para a cama. Engraçado, começava a achar a cama grande demais. E vazia, como tudo o resto naquela casa. Olhou à volta. O silêncio ensurdecia-o. Lentamente levantou-se e foi até à janela. A noite estava fria, mas o céu estava estrelado.  Mergulhou os olhos na escuridão. Nada. Não se via ninguém na rua. Pudera com o frio que fazia, quem se atreveria a ir passear. Voltou para o sofá inquieto.
Acendeu um cigarro, e apagou-o de seguida. Recostou-se no sofá, fechou os olhos e, a pouco e pouco, foi relaxando até acabar por adormecer...
Acordou sobressaltado com o toque do telefone. Atendeu e do outro lado uma voz maviosa, falou o seu nome. Ficou surpreendido e irritado. Quem tinha o desplante de lhe ligar, numa hora tão imprópria.

11.12.18

ESTRELAS DE NATAL






David acordou.
O pai tinha aberto a janela e estava a olhar para as estrelas.
Suspirava.
David aproximou-se. Ouviu novo suspiro.
— O que tens, pai? — perguntou.
O pai pôs-lhe as mãos nos ombros. Continuava a fixar as estrelas, muito nítidas na noite fria e escura. David olhou também para elas. E desejou tê-las.
— Há outros mundos, David… Outros mundos e outras pessoas, sabias?
David não prestou muita atenção às palavras do pai. Estava fascinado com o cintilar das estrelas. E durante muitas noites, mesmo sem o pai à janela a envolvê-lo com os braços, David levantava-se para contemplar as estrelas.
♦♦♦♦
Chegou Dezembro.
Quase toda a gente falava do Natal, e na escola de David também. Óscar contava que a mãe lhe comprara uma estrela muito grande para pôr no cimo do pinheiro.
— É muito grande, muito brilhante e com muitas pontas. E eu vou ter de subir a alguma coisa e colocá-la no sítio mais alto — explicava.
— É como as verdadeiras? — perguntou-lhe David.
— Quase.
David chegou a casa, ansioso.
— Mãe, por favor, compra-me uma estrela como a do Óscar. Muito grande e brilhante para pôr no cimo do pinheiro de Natal. Vendem-nas no mercado. Eu vi-as. Há muitas. Parecem verdadeiras.
A mãe olhou para David. Enxaguou as mãos e secou-as. Pô-las sobre os ombros do filho.
— David, nós não vamos ter nenhum pinheiro de Natal.
— Porquê?
— Porque não festejamos o Natal.
— E o que é o Natal, mãe?
Ela largou os ombros de David e sentou-se. Muito séria, embora os seus olhos ainda mostrassem centelhas de entusiasmos longínquos…
— É uma festa para celebrar…
— Celebrar o quê, mãe?
A mãe calou-se. Não encontrava as palavras certas. Depois disse, olhando para o outro lado:
— Para celebrar tudo o que possa nascer, apesar de todos os sofrimentos. Para celebrar a esperança de que, depois do frio, nasça o calor, depois do escuro a luminosidade, depois do amargo o doce, depois do forte o frágil… E de tudo o que assim pode renascer, o que há de mais frágil, doce, cálido e luminoso do mundo é um menino. Festeja-se o nascimento de um menino.
— De um menino como eu?
— Quase como tu.
E acrescentou imediatamente:
— Mas eu gosto mais de ti.
— Então compra-me uma estrela, por favor! Gosto de estrelas…
— Eu também, David, mas prefiro as autênticas. E a verdade é que nós não festejamos o Natal como o faz o teu amigo Óscar.
♦♦♦♦
Depois das férias, Óscar contou a David muitas coisas sobre a festa.
Mostrou-lhe as prendas.
Já tinham tirado o pinheiro.
Mas a estrela ficara guardada numa caixa dentro do armário.
— Ah! Se eu pudesse ter uma estrela assim… — suspirou David. E lembrou-se de quando o pai lhe explicou que havia outros mundos e outras pessoas.
A casa de Óscar pareceu-lhe ser outro mundo. E talvez os familiares de Óscar fossem as pessoas de quem o pai falara.
Lembrou-se disso, novamente, quando o professor os pôs a todos de pé e lhes falou de um país onde havia bons e maus. Esse país era o seu. Óscar era dos bons. David dos maus. Por isso tinha de abandonar a escola, não devia voltar lá mais.
David não percebeu. Óscar também não.
Um dia, ao regressar a casa, David encontrou a mãe a coser.
Tinha cortado três estrelas de feltro amarelo. Três estrelas de seis pontas.
E pregava uma na lapela do casaco do pai, dando uns pontos pequenos e desajeitados.
— Essas é que são as estrelas que vamos ter em nossa casa, mãe? Uma estrela triste de pano amarelo para cada um de nós?
Não foi a mãe, mas, sim, o pai que respondeu:
— Uma estrela de pano para cada judeu desta cidade. Nós somos judeus, meu filho. Já os teus avós o eram. E é por essa estrela de seis pontas que nos reconhecerão.
— Não são tão brilhantes como as do pinheiro de Natal… — murmurou David, desiludido.
— Nem as do pinheiro tão brilhantes como as verdadeiras. As estrelas feitas pelos homens podem dividir-nos. As do céu, nunca.
David pensou que o pai, às vezes, dizia coisas estranhas raras, estranhas.
A mãe suspirou fundo ao enfiar de novo a agulha.
♦♦♦♦
Com a humilde estrela na lapela, David e o pai encaminharam-se para a casa de Óscar, como sempre, às segundas-feiras. As pessoas reparavam na estrela. David viu que alguns transeuntes também a traziam. Ninguém se olhava nos olhos.
Chegaram à porta da casa do amigo. Bateram. A mãe de Óscar abriu e beijou David em ambas as faces. Convidou o pai a entrar para a sala de jantar. Óscar tinha uma estrela no pulôver. E o pai outra no colete. O avô do Óscar uma no casaco.
— Entrem, entrem…
O pai de David estava admirado, hesitante…
O avô de Óscar esclareceu:
— Não, não somos judeus. Somos cristãos e, acima de tudo, humanos. Mas a ordem do governo, segundo a qual os judeus têm de mostrar a sua condição para não usufruírem dos mesmos direitos que nós, parece-nos injusta. Na nossa Alemanha não sei, mas nesta casa todos devemos sentir-nos iguais. Até o David, e mesmo você, que não é praticante de nenhuma destas religiões… Vamos para o meu escritório, por favor, enquanto as crianças ficam a brincar.
David recordou: “Há outros mundos…”.
E pensou: “E outras maneiras de ser…”.
♦♦♦♦
David e os pais chegaram à Suíça precisamente pelo Natal.
O avô de Óscar tinha organizado a saída do país.
Era de noite e podiam ver-se muitas estrelas cintilando lá no alto, entre os pinheiros que rodeavam a aldeia. No meio da praça havia um pinheiro muito grande e adornado com uma enorme e resplandecente estrela de latão no alto. David pensou que nunca mais teria de usar, como se fosse uma infâmia, uma estrela de feltro.
♦♦♦♦
Muitos anos depois, recordou aquela noite e as estrelas da sua infância, quando morava já em Belém, no Estado de Israel, e o neto mais novo lhe apresentou a sua amiguinha Fátima.
Fátima era pequena, de grandes olhos negros cheios de alegres centelhas resplandecentes como estrelas. Fátima não era hebreia, mas palestiniana. Jacob e Fátima saíram para o jardim. Olharam para o céu. Escurecia, e parecia que a noite sorria em quarto crescente. Fátima disse:
— Olha a lua. Quando fica assim, é o emblema da minha religião.
Jacob respondeu:
— E o da minha é uma estrela.
O avô David soltou um suspiro vindo do mais fundo da sua memória.
Pensou se algum dia iria ver os seus vizinhos marcados com um quarto crescente na lapela. “Se depender de mim, nunca”, pensou. E pôs fim à sua nostalgia, pegando na mão do neto e na da sua amiguinha.
— Acima da lua e das estrelas brilha para todos nós o mesmo sol. É ele que faz com que tudo seja possível, que após a noite venha o dia e tudo renasça neste mundo. — E dirigiram-se para casa. — Sabem que pode haver outros mundos? E outras maneiras de ser? E que…?
A calma do entardecer silenciava as suas explicações.
Era Dezembro e fazia frio em Belém.
Aproximava-se o Natal.
Teresa Duran
Ana Garralón
El gran libro de la Navidad
Madrid, Anaya, 2003
(Tradução e adaptação)



Este é um dos contos de Natal que mais me tocou. Espero que vos agrade igualmente.