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25.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXX



                                                  


Luísa era uma mulher dos seus quarenta anos, alta e magra de rosto simpático e voz suave. Vestia de preto, e tinha no olhar uma expressão de tristeza. A filha, Maria, tinha dezoito anos, e era igualmente alta, e bem proporcionada. Mariana gostou delas.
Miguel acabou contratando-as, embora ficasse estabelecido que Maria faria apenas companhia a Mariana, quando o seu horário o permitisse.
A consulta com o tal doutor Serra, ficou marcada para a Segunda-feira seguinte e no resto da semana, a jovem não viu Miguel.
Saía antes dela, acordar, chegava quase de madrugada. Às vezes, à noite, sentia-o no estúdio, e tinha um desejo enorme de ir até lá.
Como nessa noite, em que se levantara, enfiara um robe e se dirigira à escada em caracol. Parou junto dela sem se atrever a subir.  Que justificação teria para o fazer? Não podia dizer simplesmente que tinha saudades dele. Ia rir-se dela. Arrependida voltou para a cama. Porque não vinha para baixo? O que fazia lá em cima? Caramba, as telas para a exposição, é que não era. Já tinham sido todas levadas para a galeria, onde iam ser expostas. Pinturas novas? Talvez. Mas tinha que ser agora?
Desde o primeiro momento, quando Miguel lhe disse que a escada, era o acesso ao estúdio, e não a convidou a subir, para lho mostrar, Mariana entendeu que aquele era um local que lhe estava vedado. Era um espaço só dele, uma espécie de santuário masculino. Por isso, pese toda a curiosidade que sentia, nunca se atreveu a subir, nem mesmo quando sabia que Miguel tinha saído. Cansada acabou por adormecer.
Eram quase onze horas quando acordou. Finalmente era Segunda- feira. Dia da consulta. Que diria o médico? Seria da mesma opinião do outro? E Miguel? Lembrar-se-ia da consulta?
Vestiu o robe e dirigiu-se à cozinha.
-Bom dia Luísa.
- Bom dia menina. Preparo-lhe o pequeno-almoço?
- Se comer agora, não almoço. Obrigado.
- O senhor disse, para a avisar que vinha almoçar a casa, e para a menina não esquecer que tinham a consulta de tarde.
- Não esqueço. Vou-me arranjar.
“Miguel vem almoçar! E vamos ficar juntos umas horas. Que bom!” – Pensou enquanto mergulhava na banheira, para um relaxante banho de espuma.

24.8.18

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXVIII

Com tudo arrumado, sentou-se na cama. Gostava da casa. Era bonita. Ouviu vozes no estúdio. O arrastar de qualquer coisa. Percebeu que deviam ser os caixotes com as telas. Uma voz desconhecida que se despedia, uma porta que se fechava, e os passos fortes de Miguel. Gostava de saber que estava  por perto. Sentia-se protegida.
Mariana tinha perdido aquela angústia dos primeiros tempos. Claro que continuava, apreensiva e um pouco angustiada. Como não havia de estar, se continuava sem saber quem era. Mas, já não era aquele aperto no peito, que quase a sufocava, dos primeiros tempos. De vez em quando, sem razão aparente, vinha-lhe à memória, uma frase, um rosto, uma rua. Uma coisa tão fugaz que surgia e desaparecia tão rápida quanto um relâmpago. Seria a sua memória a forçar o regresso? Estava ansiosa por voltar ao médico. É que ultimamente sentia-se muito estranha. Sonhava que em breve ia ficar boa, recuperar a memória, voltar para a sua casa, e para a normalidade da sua vida. Ficava tão feliz! Mas quando se sentia no píncaro da felicidade, deslizava de novo para o vale da amnésia.
Voltar para a sua vida, era deixar de viver com Miguel, de o ver a toda a hora, de conversar com ele, de sentir o seu carinho e protecção. E isso causava-lhe uma angústia quase tão grande, quanto não saber quem era. O ideal, seria recuperar a memória e continuar junto de Miguel. Ali, no Algarve, ou em qualquer parte do mundo. Mas isso não era possível. Ela devia ter família, que reclamaria a sua presença! E Miguel certamente, ficaria contente, por se ver livre dela e retomar a sua vida, Sentiu um nó na garganta e as lágrimas deslizaram silenciosas, pela sua face atormentada. Que se passava com ela? Porque era tão complicada? Ensimesmada, nem reparou, que a noite ia descendo de mansinho, o seu negro manto, sobre a cidade. Acendiam-se as luzes na rua. Mas na cabeça e no coração de Mariana continuava a reinar a escuridão.
Perdida, algures em si mesma, nem ouviu as batidas na porta do quarto, quando Miguel voltou duas horas depois.
Ele chamou ao mesmo tempo que batia de novo;
- Mariana!
Sobressaltou-se a jovem.
- Entra. Está aberta.
- Que fazes às escuras? Estou cheio de fome. Afinal de contas, nem lanchámos. Vamos sair?
- Não me apetece nada!
- Podíamos encomendar uma pizza, mas sinceramente, hoje não me apetece pizza.  Vá lá, a noite está muito bonita. Um bocadinho fria, mas nada de especial. Vestes um casaco e pronto. Anda,- e estendia-lhe a mão, - não aceito uma recusa. E depois do jantar, damos uma volta, pelo bairro. Vais gostar. E demais, aproveitamos o tempo para combinarmos algumas coisas.
- Pronto, convenceste-me!



6.8.18

FOLHA EM BRANCO- PARTE VIII


                                      


Enquanto a jovem arrumava a cozinha, na sala, Miguel foi testando as telas e juntando as que já estavam secas, tentando libertar um pouco o espaço. Nunca se tinha preocupado com isso, pois nunca levava ninguém lá a casa, e ele próprio pouco parava por lá. Agora era diferente.
Tinha de sair. Esquecera de comprar roupa para a jovem dormir. 
Se ela quisesse sair, podiam ir às compras.
Minutos depois apareceu na cozinha.
- Quando acabar, podemos sair. Quem sabe se recorda de alguma coisa algum lugar.
- Não,- quase gritou a jovem. Depois mais calma acrescentou:
Se não se importa, eu prefiro ficar. Pelo menos hoje. Tenho medo do que posso encontrar. Por favor!
-Você é que sabe. Mas não pode encerrar-se num casulo e ficar a hibernar. Mais cedo ou mais tarde terá que enfrentar o seu medo, e procurar encontrar o seu passado.
- Eu sei. Mas como fazer isso se não me lembro de nada?
- Pode encontrar alguém que a conheça. Que lhe diga quem é.
- E terei que viver segundo o que me dizem, sem saber se é verdade ou mentira? O senhor mesmo, disse que não me conhece e não sabe quem sou. Mas, eu estava sozinha consigo, quando acordei. Como fui lá parar? Quem me levou? E como é que o senhor não viu nada?
- O que lhe disse é verdade, mas parece-me que não confia em mim. A única coisa que posso acrescentar, talvez sirva para a pôr mais confusa ainda. Por isso não lho disse antes. Mas talvez o devesse ter feito. Você preparava-se para saltar da falésia. Eu impedi que o fizesse, desmaiou e quando acordou foi o que sabe. Não há mais nada que eu saiba, ou que esteja a esconder.
Ante a palidez da jovem, calou-se, ajudou-a a sentar-se e preparou-lhe um copo de água com açúcar.
-Eu… eu, ia matar-me? - Balbuciou incrédula.
- A menos que tivesse algum paraquedas escondido, -brincou Miguel tentando desanuviar a tensão da revelação.
- Mas porquê? O que é que eu fiz de tão errado, para querer acabar com a vida?
- As vezes, não fazemos nada. A vida é alegria e dor, e às vezes a dor é tão grande que acaba com a própria existência. Um dia saberemos o que aconteceu, não se martirize mais.
 - O senhor é um anjo.
-Longe disso, menina, longe disso. E por favor, o meu nome é Miguel.
A jovem levantou para ele os olhos rasos de água, e murmurou
- Obrigado Miguel.






16.11.15

FOLHA EM BRANCO - PARTE XXX




                                                  Foto do google


Luísa era uma mulher dos seus quarenta anos, alta e magra de rosto simpático e voz suave. Vestia de preto, e tinha no olhar uma expressão de tristeza. A filha, Maria, tinha dezoito anos, e era igualmente alta, e bem proporcionada. Mariana gostou delas.
Miguel acabou contratando-as, embora ficasse estabelecido que Maria faria apenas companhia a Mariana, quando o seu horário o permitisse.
A consulta com o tal doutor Serra, ficou marcada para a Segunda-feira seguinte e no resto da semana, a jovem não viu Miguel.
Saía antes dela, acordar, chegava quase de madrugada. Às vezes, à noite, sentia-o no estúdio, e tinha um desejo enorme de ir até lá.
Como nessa noite, em que se levantara, enfiara um robe e se dirigira à escada em caracol. Parou junto dela sem se atrever a subir.  Que justificação teria para o fazer? Não podia dizer simplesmente que tinha saudades dele. Ia rir-se dela. Arrependida voltou para a cama. Porque não vinha para baixo? O que fazia lá em cima? Caramba, as telas para a exposição, é que não era. Já tinham sido todas levadas para a galeria, onde iam ser expostas. Pinturas novas? Talvez. Mas tinha que ser agora?
Desde o primeiro momento, quando Miguel lhe disse que a escada, era o acesso ao estúdio, e não a convidou a subir, para lho mostrar, Mariana entendeu que aquele era um local que lhe estava vedado. Era um espaço só dele, uma espécie de santuário masculino. Por isso, pese toda a curiosidade que sentia, nunca se atreveu a subir, nem mesmo quando sabia que Miguel tinha saído. Cansada acabou por adormecer.
Eram quase onze horas quando acordou. Finalmente era Segunda- feira. Dia da consulta. Que diria o médico. Seria da mesma opinião do outro? E Miguel? Lembrar-se-ia da consulta?
Vestiu o robe e dirigiu-se à cozinha.
-Bom dia Luísa.
- Bom dia menina. Preparo-lhe o pequeno-almoço?
- Se comer agora, não almoço. Obrigado.
- O senhor disse, para a avisar que vinha almoçar a casa, e para a menina não esquecer que tinham a consulta de tarde.
- Não esqueço. Vou-me arranjar.
“Miguel vem almoçar! E vamos ficar juntos umas horas. Que bom!” – Pensou enquanto mergulhava na banheira, para um relaxante banho de espuma.