Seguidores

Mostrar mensagens com a etiqueta confissão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta confissão. Mostrar todas as mensagens

15.3.22

POESIA ÁS TERÇAS - CONFISSÃO - CHARLES BUKOWSKI




ESPERANDO PELA MORTE

como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.




Biografia
AQUI

25.6.21

COMEÇAR DE NOVO - PARTE XXIV

 

Novamente o silêncio. Como se Gonçalo precisasse recuperar a força necessária para continuar a desnudar a alma, despindo todo o sofrimento e angústia que a envolviam.

Lágrimas silenciosas rolavam pelas faces pálidas de Helena, e a sua mão como se tivesse vida própria, apertou a dele tentando dar-lhe ânimo. Ante aquela sofrida confissão, toda a raiva que ela guardara durante aqueles anos desapareceu deixando no seu lugar apenas o imenso amor que sempre existiu no seu coração e que durante anos, ela tentara em vão esconder por trás da muralha do ódio e  uma enorme compaixão pelo nítido sofrimento dele.  Pouco depois ele retomou a palavra.

-O cérebro é um órgão muito complexo. Danos físicos são fáceis de detetar, mas danos psicológicos são mais difíceis de avaliar. A minha neurologista diz que as palpitações e flashbacks que sofro são reais, mas a causa dos mesmos não é nada que ela possa identificar e tratar. Acredita que eles estão relacionados com a perda de memória. Devido ao facto do meu subconsciente ter bloqueado memórias do acidente, eu não fui capaz de processá-las e seguir em frente. 

O psiquiatra diz que talvez o traumatismo que sofri com a pancada na cabeça tenha apagado algum pedaço de memória e o psicólogo que talvez de forma inconsciente, o cérebro tenha bloqueado essa informação por medo de voltar a sofrer ao recordar. O certo é que no início de Setembro faz catorze anos e eu continuo desesperado tentando recuperar uma parte da minha vida que se perdeu nesse maldito acidente.

 Durante todo este tempo, sempre que me cruzava com uma mulher mais ou menos da minha idade, pensava se poderia ser aquela a quem amara ao ponto de querer casar-me, todavia não é nada fácil encontrar uma pessoa de quem não se sabe sequer o nome e nunca senti nada de especial, nem nenhuma mostrou reconhecer-me. Já tinha perdido a esperança, quando um dia fui à escola da minha sobrinha, para uma reunião de encarregados de educação. A minha irmã é viúva e além da Sara, que viu naquele dia, tem outro filho o Miguel ainda bebé, razão porque assumi a responsabilidade de ser o encarregado de educação da Sara, na escola, para evitar deslocações da minha irmã.

Quando a Helena chocou comigo, o meu corpo reagiu de forma estranha, e quando me olhou, vi surpresa e medo nos seus olhos. Quis perguntar se me conhecia, mas você fugiu e desde aí pensava em como encontra-la de novo. A minha sobrinha disse-me que não era professora naquela escola, e que só podia ser uma mãe, que ia para a reunião das onze.

 Não sabia como fazer para a encontrar  e desesperava-me quando atendi a Matilde no hospital. E quando vi a sua filha, levei um choque pelas semelhanças com a minha irmã e minha mãe. 

Acreditei que  tivesse chegado a hora de descobrir aquela parte desconhecida do meu passado, mas fiquei sem chão quando mais tarde fui ver a menina pedindo que me ouvisse e a Helena me expulsou do quarto. 

Desesperado falei com um psiquiatra, amigo de longa data que me disse que parecia que finalmente eu tinha encontrado a mulher da minha vida e provavelmente a menina seria minha filha. Aconselhou-me a fazer o teste de ADN, mas eu seria incapaz de o fazer às escondidas. Por isso decidi fazer mais uma tentativa para que me escutasse e coloquei o cartão dentro do livro que ofereci à Matilde.


 Diga-me por favor, - pediu olhando-a desesperado. É a Helena a mulher a quem amei? E a Matilde é minha filha?

 

22.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE VIII



Gabriel, que até aí permanecera em pé, sentou-se a seu lado. Apesar de toda a  sua fama de homem sem escrúpulos nem sentimentos, nas relações com o sexo oposto, vê-la a chorar,  desestabilizou o seu sistema emocional.  
Estava atordoado. Primeiro tinha sido a surpresa, de descobrir que a sua eficiente mas insignificante secretária, era a lindíssima bailarina. Depois a ideia de que havia alguma coisa por trás daquela insólita atitude, e agora aquela confissão, seguida de um choro angustiante.
Sentia-se enganado, estava furioso e ao mesmo tempo desconcertado. Principalmente porque um estranho desejo de abraçá-la, e confortá-la, lutava contra a vontade que sentia de denunciá-la à polícia. 
Tirou do bolso das calças um lenço imaculadamente branco. 
- Toma. Enxuga esse rosto, e vamos embora. Precisas ir buscar alguma coisa lá dentro?
- Não. Só trouxe a bolsa e tenho-a aqui. 
-Ótimo. Espera aqui por mim, vou só despedir-me do casal com quem estava. 
Levantou-lhe o queixo obrigando-a a fitá-lo.
- Não te passe pela cabeça fugir. Estou tentado a confiar em ti. Não me faças acreditar, que todo esse choro,  é apenas mais uma demonstração da tua arte de fingimento. Acredita que posso ser muito pior do pensas que sou, se descobrir que me tentas enganar.
Afastou-se. Encontrou os amigos no bar, desculpou-se com uma dor de cabeça, o que fez o amigo soltar uma gargalhada, sinal evidente de que pensava que ele tinha arranjado companhia para o resto da noite, mas não se preocupou em dar explicações e voltou ao jardim.
Encontrou-a exatamente no mesmo lugar, os olhos vermelhos, o olhar perdido. Uma tal expressão de sofrimento era impressionante. Não era possível que fosse fingimento. Ninguém conseguia fingir com tal arte, sem que a sua expressão corporal o denunciasse.
Ajudou-a a levantar-se, e caminharam juntos até ao estacionamento.
- Trouxeste o carro?
- Não. Vim com uma colega.
- E não tens que a avisar?
- Quando terminamos a exibição, disse-lhe que estava muito cansada e ia chamar um táxi. Deve pensar que já estou em casa.
Abriu a porta do carro.
-Entra. Vamos conversar como dois adultos. Na tua casa, ou na minha, tu escolhes.
- Num lugar público.
- Não! Ou confias em mim, ou não. E se não confias, também não tenho qualquer interesse no que tenhas para me dizer. De qualquer modo vou levar-te a casa, se me disseres onde moras.
Ela disse-lho e ele dirigiu em silêncio até à porta. Ela também se manteve em silêncio, perdida nos seus pensamentos. Não sabia se podia confiar nele. Mas sentia-se tão perdida e tão cansada!
- Chegamos - disse ele estacionando o carro. 
Virou-se para a olhar. A jovem continuava absorta, como se estivesse ausente. Pálida, os olhos vermelhos, o rosto borrado pela maquilhagem desfeita pelas lágrimas, era a expressão do desalento. Gabriel saiu do carro, deu a volta ao mesmo, abriu a porta e estendeu-lhe a mão. Voltou a sentir uma impressão estranha. Raios, tinha razão para estar zangado, ela acabara por confessar que estava na empresa para o espiar. No entanto passado o choque inicial, e principalmente depois que a vira chorar, sentia  a sua raiva amolecer.  Ouviu-se a dizer:
- Queres deixar para amanhã? Deves estar cansada!
- Não. Se tenho que o fazer, quanto mais depressa melhor.
Pegou nas chaves, mas sentindo as mãos trementes estendeu-lhas:
- Por favor, abra o senhor!

12.6.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XX





- Antes de te expor a minha ideia, quero fazer-te uma confissão. Tenho um amigo, ex-investigador da Judiciária, a quem pedi para te investigar. Deves compreender que aquela carta me deixou meio maluco, pensei que estava a ser vítima de um qualquer esquema, e nem sequer acreditei na história de teres tido uma irmã que se suicidara. Desculpa, não é agradável para ninguém saber que andaram a invadir a sua privacidade, mas deves perceber a minha situação. Por outro lado, eu podia calar-me e talvez nunca viesses a descobrir que o fiz, mas para mim a sinceridade é vital. Também te digo que quando tive o resultado do teste de ADN, fiquei desconcertado, mas esse meu amigo, explicou-me como se processava e foi ele que me disse que só podia ser coisa do meu irmão.  Por razões que talvez te conte um dia, desde a escola primaria, que ele fazia asneiras e arranjava sempre maneira de passar a culpa para mim e ser eu o castigado. Foi o que fez com a tua irmã, apresentando-se como se fora eu. Provavelmente com receio de que a tua irmã descobrisse que ele era casado. E agora temos que resolver este problema. A tua irmã queria que a menina, conhecesse o pai e eu prefiro que ela acredite que eu sou o pai, a que conheça o verdadeiro.
O empregado voltou com os pratos e retirou-se desejando bom apetite.
Ricardo esperou que ele se afastasse para continuar.
- Penso que não é justo, tirar-te a criança, uma vez que seria um sofrimento para as duas, pois como disseste ela nunca conheceu outra mãe. Antes de te fazer a minha proposta, vou perguntar-te até que ponto estás disposta, a sacrificares a tua vida por ela.
- Daria a minha vida, por ela se fosse preciso, – respondeu encarando-o com firmeza.
- Era a resposta que esperava. O que te peço é bem mais simples. Casa-te comigo, e resolvemos o problema.
Ela engasgou-se. De tal modo que parecia sufocar. O seu rosto começou a ficar roxo, e era nítido que não conseguia respirar, nem sequer tossir. Rapidamente Ricardo levantou-se, colocou-se atrás dela, pôs-lhe as duas mãos debaixo dos braços, levantou-a e executou a manobra de Heimlich, fazendo com que expelisse o bocadinho de Salmão, e recomeçasse a respirar. Nessa altura já o empregado se encontrava junto da mesa, a perguntar se era necessário alguma coisa, e havia vários pares de olhos, fixos na jovem, que envergonhada, só tinha um desejo.  Tornar-se invisível. Ricardo ajudou-a a sentar-se e deu-lhe um copo com água dizendo.
- Bebe devagar. Está tudo bem agora. Desculpa, não pensei que podia provocar um acidente.
Esperou vê-la mais calma e só então voltou para o seu lugar na mesa.
- Meu Deus que vergonha! Nunca me tinha acontecido nada assim. Não conseguia respirar, pensei que ia morrer.
- Não te preocupes, pode acontecer a qualquer um. Não te apetece mais? – perguntou ao ver a posição em que ela colocava os talheres.
- Não consigo comer mais nada.
-Nem sobremesa?
- Não. Só café.


20.7.18

O DIREITO À VERDADE - XXXIX






O mês de Outubro chegou sem grandes alterações na vida de Helena. Continuava a falar com o pai quase todos os dias, mas começava a perder a esperança de que alguma vez, a convidasse a passar uns dias na sua quinta. Jorge parecia ter receio de contar a verdade à esposa, e desculpava-se com a sua saúde frágil, para protelar a confissão.  Helena não o recriminava. Afinal a esposa era a sua companheira de vida, a mulher que amava. Se a mulher, não a quisesse por perto, ele não ia contrariá-la. Era a sua felicidade que estava em jogo, e ela não queria ser motivo de discórdia entre o casal.
 Porém o facto de compreender, não queria dizer que não lhe doesse. Sentia-se rejeitada. Naquele dia resolvera fazer uma limpeza à casa. Cabeça ocupada não pensa noutras coisas, e ultimamente, ela só pensava em duas coisas. No pai e em Cláudio. Ficava perturbada cada vez que pensava em Cláudio. Há duas noites, voltara a sonhar que estava naquele quarto que ela nunca vira, a dormir com Cláudio. Bom dormir não era de forma alguma, o que os dois faziam naquela cama, e ela corava cada vez que se lembrava dos sonhos.
 Continuava a pensar em alugar o quarto da mãe a uma estudante, e daqui a pouco começavam as aulas. Assim, vestiu umas velhas calças de ganga, e uma T-shirt desbotada, amarrou um lenço à cabeça e munida de um escadote começou por tirar os cortinados que pôs na máquina de lavar. De seguida limpou a sanefa, os vidros da janela e o candeeiro do teto.
Meteu o édredon num saco para mandar para a lavandaria, e o resto da roupa da cama juntou aos cortinados na máquina, que pôs a lavar. Aspirou o colchão e com um pouco de dificuldade voltou-o. De seguida, abriu a arca de sândalo, onde a mãe guardava as roupas, tirou um par de lençóis lavados e uma colcha de renda branca que a mãe fora fazendo ao longo de muitos serões e pôs sobre o colchão. Limpou o pó dos móveis e só depois fez a cama. Por fim aspirou o chão, e levou o aspirador para o seu quarto, disposta a fazer o mesmo tipo de limpeza. Antes de fechar a porta do quarto, já limpo, foi buscar uma folha de papel e escreveu. “Comprar tapetes para o quarto”  
Jogara fora os antigos, quando a mãe, já sem forças tropeçara num. Preparava-se para iniciar a limpeza do seu quarto quando a campainha tocou. Levantou o auscultador e perguntou quem era. “Correio” responderam. Só podia ser alguma carta registada, o correio era deixado nas caixas da porta, sem que tocassem a campainha. Procurou uma caneta, e abriu a porta, para se deparar com um elegante e sorridente Cláudio.