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15.4.20

À MÉDIA LUZ - PARTE III


E ali estava ela, num impasse. Até agora não tinha visto nada de suspeito no seu chefe. Confirmara a informação que tinha de que era um mulherengo incorrigível, e apercebera-se de imediato, que ela não lhe agradara nada, quando a vira pela primeira vez, contudo não pedira para a substituíram e ela tinha a certeza de que neste momento, ele estava satisfeito com a sua prestação laboral, ainda que continuasse a olhá-la como quem olha para um saco de batatas. 
Todavia era exatamente isso, o que ela tinha pretendido, quando decidiu escolher aquele look severo e antiquado. Não estava ali para o conquistar, muito embora não deixasse de reconhecer que era um homem muito atraente. Na verdade, não estava interessada em nenhum homem por muito interessante que fosse, enquanto não conseguisse provar a inocência do seu progenitor. Ele era de momento o único homem que lhe importava.
Suavizou-se-lhe o rosto com a recordação do pai por quem sentia um carinho a roçar a adoração. 
Não se lembrava da mãe. Morrera quando ela era ainda bebé. Uma gripe, que originara uma pneumonia, agravada por problemas respiratórios de que já padecia. O pai, fora pai e mãe para ela. Sacrificara a sua vida ainda jovem, à solidão para não lhe dar uma madrasta. Criara-a com todo o amor, dera-lhe a melhor educação, muitas vezes à custa de se privar até das coisas mais básicas. Trabalhava no escritório, e em casa fazia ainda contabilidade de micro empresas. Para que ela pudesse frequentar a Universidade.  Quando viu como gostava de dançar, não hesitou em escrevê-la numa academia de dança, embora isso comportasse mais uma despesa para o orçamento. Era o homem mais nobre e reto do mundo. Mas amargava os dias na cadeia. E o pior, Sandra acreditava, seria quando fosse libertado. Ela conhecia o pai. Temia que ele não aguentasse ser apontado por todos como um ladrão. Tinha muito medo, que ele procurasse no suicídio, a solução para a sua vergonha. Sandra procurara um advogado. 
A julgar pelo que pagou por uma única consulta, decerto um dos melhores do país. Mas ele fora peremptório. Sem um dado novo, não havia como reabrir o processo.


8.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XLIV




-Como é que estão as coisas na firma, - perguntou a jovem à madrasta.
-Com dificuldade, mas o Jorge está confiante de que vão melhorar em breve.
As duas encontravam-se sentadas à mesa do restaurante, aguardando que o empregado lhes trouxesse o polvo à lagareiro que tinham pedido para o almoço.
- Tem uma venda já sinalizada e um cliente muito interessado numa propriedade que lhe vai render um bom dinheiro, - continuou Cidália. Entretanto vendi algumas das jóias que ele me foi oferecendo nestes anos, para que pudesse pagar aos empregados este mês. Porque tal como te disse ele foi devolver o cheque ao António Ferreira.
- E como é que ele reagiu? – perguntou interessada.
- Teu pai não me quis contar o que se passou. Só que deixou lá o cheque, e não quis falar mais do assunto.
O empregado chegou com os pratos e as duas aguardaram que ele se afastasse para continuarem a conversa.
-Cidália, se o pai precisar de algum dinheiro nestes primeiros tempos, como te disse eu não tenho muito, mas o que tenho está à vossa disposição.
- Obrigada, mas não será preciso. Sem a maléfica intervenção do António Ferreira, as coisas vão voltar ao que eram. Até porque a crise parece ter terminado, a procura de casas cresce de novo.
Já tinham terminado a refeição, e esperavam o café, quando alguém parou perto da sua mesa dizendo.
-Mas é a nossa amiga Paula!
A jovem olhou e viu Gabi e o marido que se preparavam para se sentar na mesa ao lado. Cumprimentaram-se de modo cordial, e Paula apresentou Cidália, aos novos amigos. Depois perguntou por Pedro.
-Está em Sintra, com o meu irmão. Adora a piscina e o tio.Temos que nos encontrar um dia, tenho tanta coisa para te contar.
- Telefona quando quiseres, - respondeu Paula, pedindo a conta ao empregado que acabava de por na mesa o café.
Pouco depois despediam-se do casal e dirigiam-se ao supermercado onde iam fazer as compras.
- Muito simpática a Gabi. Nem parece irmã de quem é, - comentou Cidália.
- Pese tudo o que ele fez ao pai, o António é uma boa pessoa. Tu não o conheces, mas eu lidei com ele enquanto preparava a festa da irmã, e tive oportunidade de o conhecer.
- Quanto entusiasmo, Paula. Se não te conhecesse diria que estás apaixonada por ele.
-Que disparate. Sabes que tento sempre ser justa. O meu pai foi muito injusto com ele. Mais do que isso, foi cruel. Daí o seu desejo de vingança. Mas como no fundo é boa pessoa, acabou por desistir.
-É isso que me admira. Tanto trabalho para desistir sem mais nem menos. Tens de admitir que é muito estranho.
-Sabes que não foi sem mais nem menos, Fizemos um acordo. Eu cumpri a minha parte, ele a parte dele, como é usual entre pessoas de bem. Já tenho tudo o que precisava. Vamos para a caixa? -  perguntou sem transição.

 



6.5.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XL






Olhou o relógio. Já passava das quatro da tarde. Precisava despachar-se. Dirigiu-se ao quarto, retirou uma mala de cima do guarda-fatos e colocou-a em cima da cama. Começou a procurar a roupa para a viagem. Calças de ganga, T-shirt, calções, fatos de banho, páreos, lenços, pijamas e roupa interior. Não pensava em saídas noturnas, precisava descansar, não de divertimentos.  Começou a arrumar tudo na mala. Antes de a fechar pensou melhor, e foi buscar um vestido de seda estampado com motivos florais. Era um vestido simples mas elegante, ideal para uma saída à noite se algum dia isso lhe apetecesse.
Fechou a mala e foi buscar um saco onde colocou dois pares de sandálias rasas, chinelos de praia, chinelos de quarto, ténis, e um par de sandálias vermelhas, de salto alto, que faziam conjunto com o vestido de seda. Antes de fechar o saco procurou lembrar-se se faltava alguma coisa. Convencida que o que faltava eram só as coisas de última hora como os produtos de higiene e um ou dois dos últimos livros que tinha comprado e ainda não tivera tempo para ler, fechou a mala e o saco e colocou-os no chão.
Sentou-se em cima da cama e relembrou a conversa com a madrasta. Como o pai tinha sido cruel! Porque não se limitara a dar parte à polícia do roubo, sem acusar o empregado? Mais uma vez tentava lembrar de António no escritório da empresa do pai, e mais uma vez não o encontrou nas suas memórias. Também não admirava. Naquela época ela odiava aquele escritório, pensava que era por causa dele que o pai não lhe dedicava tempo nem atenção. Lembrava isso sim que no escritório trabalhavam dois homens e uma mulher. Um dos homens era mais velho, o outro bem como a mulher eram mais jovens. Mas não conseguia recordar o rosto de nenhum dos três. Suspirando levantou-se e voltou à cozinha. Abriu o frigorífico. Lá não havia mais nada senão a caixa da “pizza” guardada na antevéspera. Retirou-a e jogou-a no caixote do lixo. Depois abriu o congelador e lá também não havia nada. Ultimamente nem sequer tinha tido tempo de ir às compras. Desligou o frigorífico, a fim de o deixar a descongelar para limpar depois do jantar. Lavou as duas chávenas do chá limpou-as e guardou-as. Deu uma olhada à sala, ajeitou as almofadas no sofá, fechou a persiana, e pensando que estava tudo em ordem foi ao quarto, retirou da cómoda um conjunto de roupa interior de algodão rosa. E com ele na mão foi para a casa de banho a fim de tomar duche e despachar-se para estar em casa do pai a horas do jantar.
Meia hora mais tarde, saiu de casa envergando um vestido de alças e um casaquinho do mesmo tecido. Levava o cabelo apanhado, e calçava sandálias de salto alto.
Tinha a chave da casa do pai, mas desde que saíra de casa para viver sozinha nunca mais a utilizara. Aquela fora a sua casa até esse dia, agora era a casa do pai. Tocou a campainha e aguardou que a empregada viesse abrir mas foi Miguel, quem a abriu a porta, cheio de alegria. Paula baixou-se e abraçou o menino com todo o carinho.
-Onde estão todos? – perguntou entrando em casa pela mão do menino.
-  A mãe está no quarto, o pai no escritório. Vou avisá-los que já chegaste.


Aviso: Como sabem acabo o tratamento no dia 13. Dia 14 vou fazer exames para ver se a córnea recuperou ou não para a nova cirurgia. Se estiver bem o médico deverá marca-la para os dias que se seguem. Para que esta história não se torne eterna, haverá alguns dias em que sairão dois capítulos. Um ao início do dia e outro às 20 horas. Espero que não se zanguem.




Deixo-vos com a minha última foto. Como vêm o olho está quase tão aberto como o outro.
Só que não vê.



27.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE X



Meia hora mais tarde, Paula tinha delineado o que seria a festa de aniversário de casamento de um conhecido casal da alta sociedade portuguesa, e tomava notas sobre tudo o que ia precisar, para o evento, quando Irene a sua secretária a interrompeu.  
-Acaba de chegar a encomenda que fizeste para a festa de Cascais. E ligaram dos escritórios da imobiliária “Um sonho, uma casa” para marcarem uma entrevista contigo. Parece que é o próprio dono que quer negociar contigo a realização de um evento.
Paula ficou a olhar para a sua secretária surpreendida. A sua primeira reação seria dizer que tinha a agenda preenchida para os próximos meses. Parece que de um momento para o outro, tudo à sua volta tudo girava em volta daquele homem. Primeiro foi a visita da madrasta, depois o pai, agora era o próprio empresário.
-Tinhas-me dito – continuou a secretária, alheia aos seus pensamentos, - para não fazer marcações para as próximas três semana, que ias tirar umas férias, quando terminasses a festa no Estoril, dos Ferraz, mas como é um empresário importante, não sei se queres adiar as férias, pelo que pedi para ligarem mais tarde, porque não estavas e tínhamos a agenda cheia para o mês todo. Se voltarem a ligar o que é que eu faço?
-Diz-lhe que poderei atendê-lo, amanhã às quinze horas.
- Mas amanhã não ias estar todo o dia lá no salão de festas,em Cascais, por causa da festa dos Couceiro, no próximo Domingo?
- Ia. Mas tenho interesse em saber o que esse senhor quer. O salão pertence à paróquia, vou falar com o padre e pedir-lhe se posso ir à noite acabar o que faltar.
- Bom, tu é que sabes. Mas estás a pensar desistir das férias? Tens trabalhado demais.
- Enquanto conseguir executar os trabalhos dentro do prazo, não é demais. Leva esta lista e confere se não falta nada do que pedi na encomenda que vieram entregar. E depois põe tudo na mala do meu carro.
Irene saiu e Paula voltou a enfronhar-se no trabalho. Durante mais de uma hora, fez esboços, tomou nota de materiais, viu preços. Por fim numerou cada esboço, cada lista de material, voltou a fazer contas e acrescentou ao esboço o orçamento. Tudo pronto carregou no botão da secretária.
- Já conferi a encomenda e já está no teu carro, - disse Irene ao avançar para a secretária da sua chefe.
- Tens aqui estes três esboços, orçamentados. Envia-os por fax, para o escritório do senhor Ferraz, para aprovação. Pede urgência na resposta a fim de que possamos ter tudo pronto para a festa.  Leva estas listas, cada uma está numerada com o mesmo número do esboço. Dependendo do que eles escolherem, fazes a encomenda do material. Contactas os fornecedores do costume. Depois é necessário contactar os jornalistas das principais revistas cor-de-rosa. Vê se consegues algumas para essa data.
-Muito bem. Vou mandar os esboços agora e depois do almoço, contato os jornalistas. Não deve haver problema, uma festa destas à borla, ninguém rejeita. O resto só depois de saber qual o esboço que eles vão aprovar. E o “catering”, é o mesmo do costume? Tratas tu disso?
-Não. Desta vez o cliente não quer os nossos serviços a esse nível. Diz que já tem tudo tratado, logo é menos uma preocupação que temos. Vou almoçar e depois sigo para Cascais. Em princípio, não volto hoje ao escritório. Qualquer urgência, liga-me.
-Ok. Bom trabalho.



NOTÍCIAS
Como sabem, estive ontem à tarde a fazer exames médicos por causa do olho e as notícias não são de modo algum aquelas que eu gostaria. A retina mantém-se colada, mas a córnea continua muito maltratada. O Professor, diz que eu tenho um suporte de silicone que será para retirar numa nova cirurgia, se a córnea recuperar o suficiente para colocar a lente. Se isso não acontecer, só com transplante da mesma posso ter esperanças de voltar a ver como deve ser. Entretanto como há apenas um mês que fiz a segunda cirurgia, vamos ter esperanças que a córnea recupere até ao dia 14 de Maio, altura em que vou voltar a fazer exames e à consulta. Entretanto mandou parar com as gotas de antibiótico que estava a fazer e mudou para gotas de cortisona.

25.3.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE VIII




-Não. Ele nem sabe que vim. Mas prepara-te que hoje ou amanhã o tens aí, a  tentar convencer-te.
-E tu? Não vais fazer o mesmo?
- De modo algum. Não casei com o teu pai pelo seu dinheiro. Casei porque o amava, e amo-o hoje muito mais do que nessa altura apesar de reconhecer os seus defeitos. Não me assusta ter de trabalhar. Mas tenho a certeza de que o teu pai virá apelar para os teus sentimentos filiais, e não queria que te apanhasse desprevenida. E também queria saber se vocês se conheciam, entender porque quer ele casar contigo.
-É realmente muito estranha essa exigência a não ser que queira estender até mim o ódio que tem do meu pai.
-E que vais fazer?
- Esperar que o pai me procure e me conte o que acontece. Pode ser que descubra a razão que empurra esse homem, para essa ação. Se bem que muitas vezes não há razão nenhuma especial para esses tubarões quererem abocanhar e destruir quem os impede de aumentar mais uns quantos euros nas suas contas bancárias.
- Bom, querida, tenho que ir. Ainda tenho que fazer umas compras para o almoço. Quando puderes aparece por lá. O Miguel está sempre a perguntar por ti.
- Também tenho muitas saudades dele. Mas tenho tido muito trabalho. Tenho dias que chego a casa exausta.
- Cuida de ti, querida. Até à vista.
- Adeus Cidália. Dá um beijo por mim ao Miguel.
Quando a porta se fechou atrás da madrasta, deixou-se cair na cadeira. Era uma jovem alta, delgada, de rosto moreno, cabelos negros e grandes olhos verdes.  Perdera a mãe, quando criança e fora criada, um tanto por conta própria até aos quinze anos, altura em que o pai voltara a casar.
 Cidália era muito jovem quando casou com o seu pai. Com apenas vinte e cinco anos, dir-se-ia que não seria capaz de aceitar e cuidar de uma adolescente rebelde. Mas não foi assim. Ela impôs-se usando da autoridade necessária, mas sem descurar o carinho de que a jovem estava tão carente. E em poucos meses tinha-a conquistado por completo. O próprio pai se admirou. E foi na madrasta que Paula buscou apoio para resistir ao desejo do pai de que ao entrar na Universidade, cursasse medicina, quando não tinha nenhuma vocação para isso. Depois que terminou a licenciatura, formou a sua própria empresa, e apesar do rápido sucesso alcançado, o pai sempre considerou o seu trabalho como algo menor.  Incapaz de viver em constante conflito com o progenitor, deixou a casa paterna e foi viver sozinha.  Todavia,  tinha uma maior relação de afinidade com a madrasta com quem se encontrava e saía sempre que tinha oportunidade. Aliás muito maior do que com o próprio pai. E adorava Miguel, o seu irmão de sete anos. Abanando a cabeça, como para afastar as recordações que a tinham assaltado, abriu o portátil e escreveu o nome de António Ferreira no motor de busca.


Não vejo melhoras e estou a ficar um tanto apreensiva e desejosa de que chegue o dia 26 para fazer novos exames e ver o que diz o professor.

24.7.18

O DIREITO À VERDADE - XLVII




As duas amigas encontravam-se num recanto de uma pastelaria, na Avenida Almirante Reis, onde se tinham encontrado para lanchar e para porem em dia a conversa, sobre os últimos acontecimentos
-E é tudo Paula.
-Meu Deus, Lena! E eu preocupada contigo, sem saber o que te teria acontecido. Até fui duas vezes tocar a campainha da tua casa. Eras tão ligada à tua mãe, que temia tivesses feito uma asneira com o desgosto, e afinal… quer dizer que conheceste o Cláudio em Coimbra, se apaixonaram, foste em busca do teu pai, e o Cláudio é enteado dele? E agora estás noiva? É inacreditável. Parece um daqueles romances cor-de-rosa, com que alguns escritores que não conhecem a realidade da vida se entretêm.
- Nestes últimos tempos, cheguei à conclusão que a vida é o maior dos autores, Paula. Ela pode ser mãe, ou madrasta, mas é sempre intensa em tudo o que nos dá, seja amor ou ódio, paz, ou guerra, calma ou tempestade. Não adianta lutar contra moinhos de vento. Já sofri muito, chorei noites a fio, mas hoje estou feliz com  o que ela me dá.
-E sendo assim vais viver com o teu pai? E o curso? Não vais acabar?
-Claro que sim. Vou pedir a transferência para Viseu.
- Vou ter muitas saudades tuas, amiga.
-Eu também. Mas agora é lá que está a minha vida. Vou casar em breve, logo que os documentos estejam prontos. Queria que tu fosses a minha madrinha. Sempre foste a minha melhor amiga, a irmã que a vida não me deu. E nada me faria mais feliz do que ter-te a meu lado nesse dia. Aceitas?
- Gostava muito, Lena. De verdade. Mas não sei se será possível. Sabes, o meu pai foi reformado devido a problemas de saúde. Com a reforma, baixou substancialmente a receita que entrava todos os meses em casa. Sabes como são as reformas neste país. Já é um sufoco continuar com os meus estudos, mas apesar de eu estar disposta a abandonar a faculdade eles fazem questão de que termine o curso. Ser madrinha de um casamento implica muita despesa.
- Não tens que fazer despesa nenhuma. O tio Alberto vai ser o meu padrinho e vai pagar o que eu precisar. Isto se o pai deixar, já que discutiam há dias, cada um querendo e dizendo que lhe pertencia a ele pagar a despesa. Só quero mesmo, é que estejas a meu lado nesse dia. E o Sandro? O vosso namoro, como vai?
- Cada dia estamos mais apaixonados. Como sabes, ele acabou o curso o ano passado, e já está a trabalhar . Pensamos casar quando eu terminar o curso, e me empregar.  Vamos ficar a viver com os meus pais. É bom para eles e para nós, pois partilhamos despesas e não temos que alugar casa. Menina, tu não fazes ideia do preço das rendas atualmente.
- E os teus pais estão de acordo?
-Claro. Eles gostam do Sandro, quase tanto, quanto eu.
- Não é preciso dizer-te que o convite é também para ele. E então? Posso contar contigo?
- Já te disse que gostava, mas deixa-me falar com o Sandro e os meus pais. Depois dou-te a resposta.  
- De acordo. Posso fazer-te uma pergunta um tanto íntima?
- Nunca tivemos segredos, Lena.
- Tu e o Sandro… já dormiram juntos? – Perguntou baixando a voz



Ora bem, parece que bem posso pôr os capítulos restantes todos de uma vez. Desde que o Cláudio se explicou, a novela perdeu interesse para vós, não foi? Bom então amanhã, preparem o modelito para a cerimónia. Estão todos convidados para o casamento.

8.9.17

À MÉDIA LUZ PARTE III


E ali estava ela num impasse. Até agora não tinha visto nada de suspeito no seu chefe. Percebera que era um mulherengo incorrigível, que ela não lhe agradara nada, quando a vira pela primeira vez, contudo não pedira para a substituíram e ela tinha a certeza de que neste momento, ele estava satisfeito com a sua prestação laboral, ainda que continuasse a olhá-la como quem olha para um saco de batatas. Mas isso pouco lhe importava. Não estava ali para o conquistar, muito embora não deixasse de reconhecer que era um homem muito atraente. Mas ela não estava interessada em nenhum homem por muito interessante que fosse´
O único homem que lhe interessava, era o pai, e encontrava-se preso por um crime que não cometera.
Suavizou-se o rosto com a recordação do pai por quem sentia um carinho a roçar a adoração. Não se lembrava da mãe. Morrera quando ela era ainda bebé. Uma gripe, uma pneumonia, agravada por problemas respiratórios de que já padecia. O pai fora pai e mãe para ela. Sacrificara a sua vida à solidão para não lhe dar uma madrasta. Criara-a com todo o amor, dera-lhe a melhor educação, muitas vezes à custa de se privar até das coisas mais básicas. Trabalhava no escritório, e em casa fazia ainda contabilidade de micro empresas. Para que ela pudesse estudar. Quando soube de como gostava de dançar, e de como gostaria de saber fazê-lo, não hesitou em escrevê-la numa academia de dança, embora isso comportasse mais uma despesa para o orçamento. Era o homem mais nobre e recto do mundo. Mas amargava os dias na cadeia. E o pior, Sandra acreditava, seria quando fosse libertado. Ela conhecia o pai. Temia que ele não aguentasse ser apontado por todos como um ladrão. Tinha muito medo, que ele procurasse no suicídio, a solução para a sua vergonha. Sandra procurara um advogado. A julgar pelo que pagou por uma única consulta, decerto um dos melhores do país. Mas ele fora peremptório. Sem um dado novo, não havia como reabrir o processo.