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8.10.21

SINFONIA DA MEMÓRIA - PARTE XXIX

 

Acordou cedo. Virou-se, procurando Fernando, mas a cama estava vazia. Esticou a mão e passou-a pela almofada que ainda mantinha a forma da sua cabeça. Estava fria. Não gostou. Saltou da cama, tomou duche e arranjou-se, pensando se o que se tinha passado na véspera, tinha acontecido mesmo ou ela tinha sonhado.

 Preparava as torradas quando ele apareceu na cozinha.
Bom dia, - disse sorrindo, enquanto a abraçava
-Deixaste-me sozinha,- queixou-se desviando o rosto para evitar o beijo. Porquê?
-Nada me daria mais prazer do que acordar a teu lado, doutora. Mas, e se o Diogo acordasse e fosse ter contigo ao quarto? Várias vezes o vi fazer isso quando acorda cedo. O que é que a cabecinha dele, ficaria a pensar?

Ele tinha razão. Que raio de mãe era ela que se esquecera do filho?
- Desculpa. Pões-me tão doida que não consigo pensar. É claro que temos de conversar com ele. Mas é melhor fazê-lo quando voltares.
- E porque não hoje? Tens medo, de que não volte?
-Não. Mas sinto-me inquieta. E se te acontece alguma coisa?
- Ouviste o que disse o inspetor. Não vai acontecer nada. E estou muito esperançado, de que à vista da minha casa, das minhas coisas eu recupere a memória.
- E se isso acontece e esqueces este espaço de tempo? Se não te lembras de mim?
- Isso não é possível, doutora. Estás aqui dentro, -disse apontando para o peito.

A eficiente doutora Helena, aquela que sabia sempre o que fazer, e que não tremia quando tinha de empunhar o bisturi, estava longe da mulher apaixonada, carente e insegura, que se sentia mal, só de pensar o que podia acontecer, naquela separação. Naquele momento as fatias de pão saltaram na torradeira, e ela concentrou-se em tirá-las e substitui-las por outras. 

Então o menino entrou na cozinha e depois de beijar a mãe, foi abraçar o tio, que o sentou nos seus joelhos.
- Bom dia, Campeão. Sabes que hoje começou um novo ano?
- Sei, E tu sabes que este ano já vou para a escola? Já sou crescido.
- Claro que sim, - disse com um sorriso. E como um menino crescido, vais escutar o que o tio Fernando, tem para te dizer sem ficares triste, está bem?
- Vais-te embora? – perguntou muito sério.

Os dois adultos, entreolharam-se admirados com a perceção da criança.
- Tenho que ir, preciso resolver uns assuntos na minha terra. Mas volto em breve. Gosto muito de ti, Campeão. E da tua mamã. Gostava de ficar a viver convosco para sempre. Levar-te à escola, assistir às tuas atividades, levar-te a passear.
- Vais casar com a mamã? 

Mais uma vez, os adultos se entreolharam.
- Gostavas que o fizéssemos?
- Sim. E depois eu já podia dizer aos meus amigos que também tenho um papá!
Emocionados, os dois adultos abraçaram a criança.

25.1.21

SONHO AO LUAR - PARTE VIII

 


Pela primeira vez, viu no seu rosto um leve sorriso.
- Bom parece que está empenhada em mostrar serviço.
- Entusiasmei-me, nem dei pelas horas, - disse ao mesmo tempo que parava o gravador. Imprimiu a última folha, e fechou o computador. Teve vontade de lhe dizer que gostava da história, mas temeu que ele pudesse pensar que estava a intrometer-se.

- Deve estar cheia de fome. Vou pedir à Antónia que lhe faça um lanche.
- Não precisa. Daqui a pouco são horas de jantar. Bom, então até amanhã.
Ele não respondeu. Parecia perdido em qualquer mundo só dele.

Já na rua, a jovem respirou fundo. Tentava recuperar a calma, mas estava difícil. Tinha mais dez anos, era uma mulher adulta, mas no seu íntimo sentia-se como a adolescente de dezasseis anos.

Chegou a casa, tomou banho, mudou de roupa e foi para a cozinha, onde a avó se afadigava a fazer o jantar.
- Senta-te avó. Eu acabo de fazer o jantar. Desculpa, estive toda a tarde a redigir o novo livro do Hélder. Ainda não descobri o nome que usa como escritor, já que confirmei na Internet e não existe nenhum livro publicado por Hélder Figueiredo. Dizes que há dez anos não vinha cá?

-Mais ou menos. Lembro que há uns três anos, vi as janelas abertas, mas foi só um dia, não cheguei a vê-lo. Ou veio buscar alguma coisa e partiu de seguida, ou foi alguém a mando dele. Hoje admirei-me de o ver passar para o lado da serra, e fiquei a pensar o que é que fazias lá em casa, se ele não estava. Eu pensava que ias escrever o que ele te ditava.

- Não é preciso que esteja presente, avó. Quando ele tem ideias novas, dita-as para um gravador. Depois eu oiço e redijo. Isto quando se trate do livro. Haverá muitas outras tarefas que não a redação do livro, mas que fazem parte do trabalho de uma secretária.
- Bom, a falar verdade, eu continuo a achar esta ideia maluca. Penso que devias voltar para a cidade, e procurar dar um rumo à tua vida, esquecendo essa paixão de menina, que temo só te traga infelicidade.

- Pode ser avó. Mas tenho que tentar. Não tens ideia de quantas noites, passei sem dormir a pensar nele. Se não o esqueci, quando não sabia nada dele, como vou esquecê-lo agora, que o tenho aqui e  sei que precisa de mim.
- Temo que confundas piedade com amor, filha.
- Não te preocupes. Sei a diferença. A comida está pronta. Vamos jantar?






24.6.20

ISABEL - PARTE XXXI



Perturbada, Isabel levou alguns segundos para reagir. Algo dentro dela lhe dizia que não podia, nem devia fugir.
- Boa noite, Luís. Não esperava encontrá-lo aqui.
“Caramba não te ocorre nada mais original?”- pensou sem saber se devia ou não estender-lhe a mão.
Ele sorriu. Um sorriso que iluminava o seu rosto dando-lhe um ar mais jovial.
- Com os encontros que a vida nos tem proporcionado, eu já não me admiro se a encontrar à mesa do pequeno-almoço.
A alusão era inconveniente,  pensou Isabel corando.
- Desculpe Luís, preciso comprar umas coisas para o jantar. Outro dia falamos, - disse tentando sair dali o mais depressa possível.
- Não precisa, - disse rápido. Vai jantar comigo. E não me diga que não, será um jantar de amigos, aqui mesmo num destes restaurantes.
- Não pode ser. Mal nos conhecemos…
- Então? Mais uma razão. Vamos conhecer-nos durante o jantar.
 Baixou a cabeça e murmurou quase ao seu ouvido.
- Não tenha medo. Não sou o lobo mau. E depois estamos num lugar público, cheio de gente, que mal podia fazer-lhe?
Ela hesitou. No fundo desejava aceitar. Mas por outro lado aquele homem mexia demasiado com ela, e isso dava-lhe medo.
Luís era um homem experiente. Por isso não lhe passou ao lado, a  hesitação de Isabel. Suavemente pousou a sua mão no ombro dela.
- Venha. Prometo que a deixo seguir em paz, mal termine o jantar.
Sentir o calor da mão masculina na sua pele quase fazia Isabel perder o equilíbrio. Afastou-se rapidamente.
- Sendo assim vamos lá jantar, - disse.
Ele colocou-se a seu lado mas não voltou a tocar-lhe. Percebera perfeitamente a reacção dela e de novo se mostrava perplexo.
Porque é que aquela mulher era tão diferente de todas as que conhecera até ali? Lembrou-se de uma conversa que tivera com a mãe, nos tempos em que ela tentava a todo o custo, convencê-lo de que devia casar. A mãe dizia-lhe, que ele não podia tratar todas as mulheres da mesma maneira. 
Havia milhares de mulheres abnegadas e amorosas, incapazes de qualquer espécie de traição. Claro que ele soltara uma gargalhada de incredulidade.
Porém, ali estava ele, junto de uma mulher que não cabia em nenhum dos padrões, que ele conhecera até ao momento. Não era nenhuma adolescente, e no entanto parecia mais insegura que se o fosse. E por muito que duvidasse das mulheres, os olhos dela, e a linguagem corporal, mostravam que não estava a fingir.  

27.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XVIII



Três semanas se passaram.
 Eva,  perdeu o sorriso que ultimamente voltara a iluminar o seu rosto.  Saía de casa, para o trabalho e deste para casa. Ainda não tinha tido coragem de ir ao orfanato, e naquele sábado tinha que o fazer, pois a Irmã Madalena, telefonara-lhe na véspera preocupada com o seu desaparecimento. Ficaria decerto mais preocupada quando a visse. 
A jovem, perdera o apetite, emagrecera, e nos últimos dias, todas as manhãs tinha enjoos. Fez as contas, e verificou alarmada que o período já lhe devia ter aparecido há doze dias atrás. Doze dias de atraso, ela que era mais certa que um relógio suíço? Uma gravidez, era só o que lhe faltava agora, para agravar a sua situação. Foi à farmácia e comprou dois testes. Fez o primeiro e o resultado positivo repetiu-se no segundo. Como fora possível ter sido tão inconsciente? Como não se lembrara de que interrompera a tomada da pílula depois de ter ficado viúva? Logo ela que sempre se atormentara com o facto de não conhecer os pais, ia trazer ao mundo um filho sem pai. Sim porque apesar de tudo, nem por um momento pensou em abortar.
Embora sem vontade, obrigou-se a almoçar, pensando no pequeno ser que tinha no ventre. E depois do almoço, meteu-se no carro e dirigiu-se ao orfanato. Estava tão necessitada de colo.
A Irmã Madalena, percebeu isso mesmo, mal a viu. Talvez por isso o abraço com que a recebeu foi mais carinhoso que nunca. Depois no seu gabinete, esperou paciente, que a jovem desabafasse.
- E quando cheguei para almoçar, tinha desaparecido, deixando-me esta carta e os documentos de doação da casa, - terminou ela estendendo à freira a missiva que André lhe deixara.
A freira, leu-a em silêncio e devolveu-lha.
- Isso foi há três semanas, e desde aí, nem uma palavra. Que lhe parece Irmã?
- Sinceramente não sei que te diga, Eva. Ao contrário do que aconteceu quando me apresentaste Alfredo, eu gostei do André quando o conheci. Senti que era de confiança, e descansei pensando que não faria nada que te magoasse. O que fez, devolvendo-te a casa, não é de uma pessoa sem escrúpulos. Na carta diz claramente que te ama. Mas quem ama confia, não abandona sem uma explicação. É nestas alturas que eu gostava de ter uma bola de cristal, que me permitisse ver o futuro. Confia em Deus filha. ELE fará o que é melhor para ti. Se te serve de consolo,  pensa no que podia ter acontecido com a atitude maluca do teu marido. Podias ter caído nas mãos de um crápula, ficares sem a casa, teres desaparecido num qualquer antro pecaminoso. E com a Graça de Deus, nada de grave aconteceu. És jovem, tens a tua casa, e o teu emprego, és livre...
- O pior Irmã, - interrompeu-a a jovem soluçando -  é que… estou grávida.
- Valha-nos Deus! - disse a freira abrindo os braços, onde a jovem se refugiou. 



19.3.20

DIVIDA DE JOGO - PARTE XII



A mesa já estava posta, quando entrou na cozinha. André tinha tirado o avental, e tal como no dia anterior, apressou-se a puxar-lhe a cadeira para que ela se sentasse. Eva pensou que tinha que se acautelar. Aquele homem, com a sua gentileza, o ar travesso, o seu sorriso, era um perigo para o seu coração tão fragilizado. Mentalmente pediu a Deus que a ajudasse. Não se podia apaixonar por ele. Era um aventureiro, uma ave de arribação, que não tardaria a levantar voo.
- Que se passa, Eva? Não gostas do meu  “Spaghetti alla Carbonara”?
Não se atreveu a olhá-lo, como se ele fosse capaz de adivinhar os seus pensamentos.
- Desculpa. Estava distraída.
Saboreou um pouco de comida, e olhou-o surpreendida.
-Está delicioso. 
- Aprendi com a minha “nonna”. Já te disse, ninguém cozinha um "Spaghetti" como ela.
- Disseste que eras meio português. Não tens família cá?
- Tenho. Os meus avós maternos e uns tios. Em Braga, terra da minha mãe. Quando éramos crianças, vínhamos todos os anos, passar o verão em casa dos meus avós. Ainda não fui vê-los desde que cheguei. Quem sabe um fim de semana, queiras ir comigo.
- Eu? – Admirou-se. O que é que eu ia fazer contigo? Não conheço os teus avós. E tentando mudar o rumo à conversa, - disseste “éramos crianças”. Tens irmãos?
- Somos três. Pietro, o mais velho, eu e Giovanna a mais nova. Ambos casados. Entre os dois brindaram-me com cinco sobrinhos.
- E tu? És casado?
- Achas, que tenho perfil de homem casado? As mulheres não gostam de aventureiros como eu. Querem segurança, e eu não me dou com amarras. Ou talvez quem sabe, ainda não tenha encontrado a minha alma gémea.
“Toma juízo, Eva. Avisa o teu coração, que não se deixe enredar”, -pensou ela.
Estavam a terminar a refeição. Eva levantou-se para levantar os pratos e por na mesa a fruta.  Disse:
- Quando estava no orfanato, sonhava com o dia em que tivesse a minha família. Casar, ter filhos, sentir o calor de um lar. Não é que lá, tivesse razões de queixa. As freiras não eram más. Severas na educação, mas também amigas. Especialmente a Irmã Madalena. Mas é triste não saberes de onde vens, se teu pai era um homem bom ou um bandido, se tua mãe, era uma  senhora, ou uma prostituta. Se estão vivos ou mortos. Se tens irmãos. Não tens nada para trás, nem recordações, nem história. Consegues entender isto? É como se fosses a primeira pessoa da história da humanidade. És tu a base da história futura, da tua geração. Quando conheci o Alfredo, pensei que tinha encontrado a minha outra metade. Que juntos, íamos iniciar uma família, ter um lugar na história da vida de que todos fazemos parte. Como pude enganar-me tanto?

  

E porque hoje é o dia do Pai, para todos os que o são, e por aqui passem, o meu desejo de que tenham um dia o melhor possível e que S. José os proteja.

7.12.19

CONTOS DE NATAL - O URSINHO COR DE CARAMELO


Ah-ha! Finalmente tinha encontrado o presente perfeito para a meia de Eric!
O urso cor de caramelo estava sentado, todo empoleirado, em exibição junto da montra da frente da loja. Numa mão segurava uma bola de futebol, mesmo com os cordões e tudo e, na outra, um capacete! Depois de ter localizado o urso, já sabia que tinha que me esgueirar até lá mais tarde, para o comprar sem ter os mais pequenos à minha volta. Estava tão entusiasmada!


Todos os anos, a nossa família ia para o centro comercial durante uma hora para arranjarmos as prendas de Natal uns dos outros. O meu marido, David, e eu separávamo-nos, levando um ou dois miúdos a fazer as compras para os outros membros da família. Depois, encontrávamo-nos num sítio combinado e trocávamos de miúdos para completar as listas.

Após o almoço, os três miúdos já tinham acabado as suas listas.
David levou então as crianças, cansadas mas felizes, para o carro, onde eu me juntaria a eles depois de completar a minha incumbência específica. Os miúdos tinham-se portado mesmo bem, e eu não demoraria porque sabia exatamente o que queria e onde estava.

Ao entrar na pequena loja, o empregado cumprimentou-me com um alegre sorriso.
— Posso ajudá-la?
— Oh, não, obrigada! — disse eu, toda confiante. — Estive aqui ainda há pouco, e agora escapei-me de volta sem as crianças para comprar o que preciso.
Apressei-me em direção à prateleira, pronta para agarrar no bichinho e ir embora. Imaginem a minha surpresa! O urso não estava lá! Remexi em todos os outros animais de peluche em exposição — mas nada de urso cor de caramelo.
Interpelei o empregado, que respondeu:
— Oh, lamento. Alguém comprou esse urso mesmo há pouquinho, e não temos mais.

Sentia-me derrotada. Tinham sido só umas duas horas! Quem poderia ter comprado aquele urso? Poderia procurar uma outra coisa, mas já tinha estado em praticamente todas as lojas do centro comercial sem ter visto algo que se aproximasse sequer do presente ideal. Além disso, os meus filhos estavam no carro, à espera. Com um enorme suspiro, apressei-me a sair do centro, ao encontro da minha família.

Na manhã de Natal os miúdos abriram todos os seus presentes.
Agora era a nossa vez.
— Mamã, abre primeiro o meu!
Eric irradiava alegria, empunhando o seu presente embrulhado em papel infantil.
— Está bem. O que é que me terás comprado?
— Não te digo!

Era o primeiro ano em que ele nada dizia, ele que geralmente proclamava bem alto os segredos de Natal que sabia!
Abri a embalagem devagar.
— Humm… O que será isto? — provoquei-o.
Ele riu-se.
— Abre e logo vais descobrir!

Assim que o papel se abriu totalmente, os meus olhos encheram-se de lágrimas. Diante de mim estava o urso cor de caramelo que eu tanto queria para ele!
E ele tinha-o comprado para a minha coleção de ursinhos!
— Gostas?

A sua carinha esperava, ansiosa e orgulhosa.
— Na verdade, eu também queria muito esse urso, mas achei que seria um lindo presente para ti, Mamã!

Engolindo as lágrimas, abracei-o e disse-lhe:
— Adoro, querido. Obrigada. É realmente a prenda perfeita!

Paula F. Blevins


2.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XXI



Ela sentia-se feliz. Era bom ver de novo a alegria do filho. E foi com um sorriso que agitou a mão numa despedida uma hora mais tarde, quando o carro desapareceu na curva da estrada.
Pedro não era homem de velocidades. Por isso não acelerou mais do que o costume. Mas fez a viagem de seguida, não parando uma única vez, nem quando passou pela casa da tia Palmira. Tinha pressa de ver Rita. Queria contar-lhe o porquê do seu comportamento, dizer-lhe quanto a amava, e pedir-lhe que aceitasse partilhar o seu futuro, porque ele já não o imaginava sem ela. Estacionou no parque do hotel, e dirigiu-se à receção:
-  Bom dia. Por favor, podia avisar a menina Rita Sequeira de que Pedro Medeiros deseja falar-lhe.
 – Lamento. A menina Rita e a família já não estão neste hotel.
- Como assim? - perguntou empalidecendo. - Disseram-me que estariam cá até domingo...
 – Parece que anteciparam a partida. Ontem à tarde veio o chefe de família e esta manhã partiram os quatro.
Pedro  sentiu que o mundo ruía à sua volta. Sentiu-se tão mal, que o empregado perguntou:
- Quer um copo de água?
 – Não obrigado.  A menina Rita não deixou nenhum recado para mim? Meu nome é Pedro Medeiros.
 – Comigo não. Só se com o meu colega. Mas ele hoje, só entra às dezasseis horas.
-Obrigado. Eu volto mais tarde.
Arrependido de não ter tido uma conversa franca com Rita, mas recusando deitar fora a esperança de que ainda pudesse haver uma mensagem, Pedro dirigiu-se a casa da tia Palmira, que arregalou os olhos de espanto quando o viu.
- Então rapaz o que aconteceu? Porquê esta volta tão repentina? Estavas tão aflito com o emprego. Despediram-te? E porque é que a tua mãe não me avisou que vinhas?
E sem lhe dar tempo a responder voltou-se para a fiel empregada e disse:



1.10.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XX


Um sorriso rompeu no rosto materno, tão luminoso como um raio de sol em dia de chuva. Ela ergueu a mão, e acariciou-lhe os cabelos, com a mesma ternura com que o fazia em criança, quando o filho procurava a sua cumplicidade, nalguma travessura.
- Vai descansar, filho. Já é tarde e tens que levantar cedo. A viagem até S. Pedro é longa. 
Obedecendo, o jovem levantou-se, e dando um beijo na face enrugada, murmurou:
- Boa noite, mãe. Durma bem.
- Deus te abençoe meu filho. Que os anjos velem o teu sono.
Ao regressar à cozinha, Maria deu-se conta de que não tinham jantado. A mesa continuava posta, esperando a hora que já passara há muito. Encolheu os ombros, guardou a janta no frigorífico, apagou a luz e foi-se deitar.


Pedro, acordou na manhã seguinte com o delicioso aroma do café invadindo-lhe o quarto. Enquanto se dirigia para o duche, os acontecimentos da noite anterior, desfilaram na sua mente, como fita em tela de cinema. Adormecera tarde e tinha a sensação de pouco ter dormido.

Deixou que a água resvalasse pelo seu corpo, como se fosse uma carícia revigorante. Depois, com o corpo envolto na toalha, iniciou o escanhoamento do rosto. Enquanto o fazia a imagem de Rita pareceu sair dos seus pensamentos, e apareceu reflectida ao lado da sua, no espelho. Fechou os olhos e imediatamente soltou um queixume. Acabara de se cortar...

Na cozinha, Maria acabara de barrar as torradas. O filho deveria estar a entrar para o pequeno-almoço, cheio de fome pois não tinham jantado. Se bem o conhecia, não devia ter dormido grande coisa. Nunca em toda a sua vida,  vira o filho apaixonado. Namoricos, quando andava na escola, sim. Tivera muitos. Era um cata-vento, muito mais interessado nos rabos de saias, do que nos estudos. Depois subitamente acalmou, e nunca mais o viu interessado em ninguém. Até à noite anterior. Aí, percebera, mais pelo seu tom de voz, do que pelas palavras pronunciadas que o seu menino deixara de o ser, e era agora um homem profundamente apaixonado. Tentou imaginar como seria aquela Rita. Seria uma boa pessoa, capaz de fazer o filho feliz? Não parecia dar muito crédito aos elogios do filho. Tinha idade e experiência suficiente para saber que um homem apaixonado fica cego para tudo, menos para aquilo que ele próprio idealiza.

- Bom dia, mãe. Hum que cheirinho delicioso – disse curvando-se para a beijar.

- Meu ou do pequeno-almoço? - questionou ela rindo.

- Os dois, mãe, os dois – respondeu rindo também.


21.9.19

VIDAS CRUZADAS - PARTE XII




Pouco tempo depois, uma bola embateu violentamente nas suas pernas e ficou a rodar um pouco à sua frente. Resmungando, pousou o livro a seu lado e apanhou a bola. Ao olhar em volta, viu um rapazinho de olhos claros que o olhava a medo.
- Anda cá pequeno! Toma a tua bola.
- Como sabe que é minha?
 – Deduzi.
- Do...quê? - Perguntou admirado, lutando contra o desejo de se aproximar, e o receio de o fazer.
Pedro sorriu, e enquanto lhe estendia a bola acrescentou:
- Sabes que me bateste com força?
 – Não fui eu que a joguei – desculpou-se o garoto. -Foi a minha irmã. Ela colmo é grande,quer mostrar que tem mais força, por isso joga sempre a bola para longe...
 – Ah! Ela é maior que tu! Mas olha, diz-lhe que os homens não se medem aos palmos.
- Olha, diz-lhe tu. Vais ver como fica zangada.
- Ora, ora, e a tua irmã é perigosa quando se zanga? - perguntou divertido com o jeito do miúdo.
 – Se é. Até assopra como os gatos.
Pela primeira vez, desde há muito, Pedro soltou uma sonora gargalhada. E perguntou:
- Como te chamas?
 –Pedro. E tu?
 – Engraçado. Também me chamo Pedro. Acreditas?
 – Se tu o dizes.
O garoto tinha perdido qualquer espécie de receio, e estava agora à vontade, como se o conhecesse desde sempre.
- Ora vejam só este rapazinho! Aposto que tem estado a maçá-lo.
A voz que soara atrás de Pedro era tão doce, tão maviosa, que o levou a interrogar-se mentalmente, enquanto se voltava, se os anjos teriam voz.
Na sua frente estava a mais bela figura feminina que Pedro algum dia vira. E ele já tinha visto várias. Não era nem de longe, nem de perto o santo que a mãe dizia que era, embora na verdade, as belas mulheres com que se relacionara não seriam nunca daquelas que ele apresentaria à sua velha mãe. Porém aquela era diferente. Tinha tal candura no sorriso, tal pureza no olhar, que mentalmente voltou a associá-la aos anjos. Olhou-a de alto a baixo, maravilhado. Trazia uma blusa vermelha e umas calças pretas que modelavam o seu corpo. Calçava sandálias sem salto e tinha os cabelos apanhados num gracioso rabo-de-cavalo. Apercebendo-se do olhar analítico do homem, a jovem corou. "Santo Deus, era só o que me faltava ver", pensou ele.
- Não maçou nada, é um rapazinho encantador- disse sorrindo.
- Ora, se lhe dá confiança, nunca mais o deixa em paz...
 – Mana, este senhor também se chama Pedro, e sabes uma coisa? Ias-lhe partindo a perna, com a bola – a voz do miúdo, veio quebrar o encanto e devolver normalidade ao encontro.
- Oh! Desculpe. Não queria atingir ninguém. - Estendeu-lhe a mão, e acrescentou:
- Chamo-me Rita. Estou perdoada?
 – Claro que sim
  – disse ele sorrindo e retendo na sua a mão feminina.

1.8.19

LONGA TRAVESSIA - PARTE XIII


Mário não tinha ido almoçar. Precisava estudar a carteira de clientes. Riscar algum que tivesse falido, contactar os que tinham diminuído as encomendas, procurar no mercado novos possíveis clientes. Não adiantava, pôr a empresa a produzir muito se não tivesse clientes para escoar o produto.
Apercebeu-se que o pessoal no escritório ao lado, tinha regressado do almoço. Premiu a campainha de chamada da sua secretária. Logo em seguida, bateram à porta e Luísa entrou.
- Chamou, senhor?                                           
- Sim. – Não levantou os olhos do que estava a fazer. – Pode trazer-me uma sandes e um café, por favor?
- Simples, ou mista?
- Mista. E o café bem forte, e sem açúcar.
- Muito bem, senhor. Volto já.
Efetivamente voltou pouco depois com uma bandeja, onde trazia, a sandes pedida, um guardanapo, uma chávena de café e um bule com o aromático líquido, que poisou sobre a secretária.
- Mais alguma coisa, senhor?
O homem levantou a cabeça e olhou para ela. Esboçou um sorriso.
- Sei que é a minha secretária pessoal. Vou precisar muito da sua colaboração, e vamos ter que trabalhar muitas vezes em conjunto. Sou exigente, mas sei reconhecer quem é eficiente. Irrita-me que me esteja a chamar senhor, de minuto a minuto. Isto não quer dizer que seja dado a intimidades com quem trabalha comigo, entendeu?
- Sim … claro – Ia dizer senhor, mas emendou a tempo.
- Muito bem. Pode retirar-se.
Uma hora mais tarde a luz da campainha acendeu-se de novo na secretária de Luísa. Levantou-se e …
- Chamou?
Sim. Pode levar a bandeja. E de seguida pesquise-me as empresas
que vendem os componentes de que precisamos. Não as atuais fornecedoras, mas outras que existam no mercado. Preciso de todos os nomes, e números de telefone aqui, o mais depressa possível. 
Levantou-se.
- Se precisar de mim, estou nos Recursos Humanos.
Foi impressão sua, ou ela sobressaltou-se? Ia jurar que um lampejo de medo perpassou pelo seu olhar.
Luísa saiu pela porta que dava para o escritório, e ele dirigiu-se à outra porta e fez o mesmo


BOA TARDE AMIGOS. AMANHÃ ESTAREI DE NOVO NA CLÍNICA EM LISBOA, PARA SABER O QUE OS MÉDICOS TENCIONAM FAZER COM O MEU OLHO. ESTOU CANSADA, E A  PERDER A ESPERANÇA.

11.7.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE XLVI

BOA NOITE AMIGOS.  Meu marido está melhor, graças a Deus. Hoje já o puseram de pé e o ajudaram a andar. Continua com visão dupla e isso faz com que não consiga caminha sem alguém que o apoie. Ainda continua em exames, mas estamos com muita fé de que tudo vai correr bem. Muito obrigada a todos pelo vosso apoio. Que Deus vos abençoe






Ricardo que estava de costas junto da janela voltou-se quando a sentiu entrar, e foi ao seu encontro.
-Estás linda- disse pegando-lhe na mão e conduzindo-a ao sofá. 
-Obrigado! Tu também não estás nada mal- disse esboçando um sorriso, e estendendo-lhe o presente. 
Ele abriu-o e mostrou-se o seu agrado.
-Obrigado. É muito bonito - disse dando-lhe um beijo na face.
Curiosamente, como se tivessem combinado, também  ele tinha vestido, o mesmo fato cinzento-antracite que tinha levado ao casamento dos amigos. 
Naquele momento o porteiro informou-o pelo telefone interior que o jantar já ia no elevador. Ele encaminhou-se para a porta, que abriu assim que tocaram. Indicou a cozinha aos empregados que deixaram os recipientes com as várias iguarias sobre a mesa da cozinha, e saíram felizes com a gorjeta. A fatura iria para o seu escritório. Ricardo fechou a porta e voltou para a sala.
- Pedi para a Matilde ficar com os avós, a fim de ter uma conversa séria contigo. Porém será melhor irmos jantar e vamos conversando entretanto. Tenho fome, tu não?
- Nem por isso, mas vamos jantar. Vá que a tal conversa me desgosta tanto, que não consigo comer - disse Isabel, meio a brincar, para esconder a sua preocupação.
Levaram a comida para a mesa.
Ostras com molho de manga como entrada, Risoto de frutos do mar e gengibre, acompanhado por um Sauvignon Blanc, e para sobremesa morangos com chocolate. 
Mais uma vez, Isabel admirou a mesa com as melhores loiças, sobre uma impecável toalha branca, parcialmente coberta com pétalas de rosa e velas aromáticas
Durante a refeição falaram do trabalho, dos amigos, da menina. Do tempo quente de verão, que se fazia sentir lá fora e de uma possível ida à praia no fim-de-semana. Só não falaram daquilo que realmente os inquietava. O futuro da sua relação.
Depois do jantar, levantaram a mesa, levaram a loiça suja para a máquina e tomaram o café, lá mesmo na cozinha.
Quando terminaram, Ricardo enlaçou a mulher pela cintura e levou-a para o sofá. Depois puxou o cadeirão para a frente dela e sentou-se.
- Antes de terminar o serão vou contar-te uma história – disse ele. Era uma vez um homem que queria uma família. Ele conseguiu uma filha maravilhosa e uma companheira de eleição. A sua esposa, era uma mulher maravilhosa. O seu olhar tinha uma luz que o encantava. Ele nunca vira em nenhum outro ser uma tal luminosidade num olhar. Era como se a mulher trouxesse a alma presa nos olhos. Todavia não passou muito tempo, e a mulher foi perdendo essa luz, como se a sua alma estivesse a morrer lentamente. Hoje o homem vive desolado. Sente-se enganado e quer de volta a sua companheira, mas não sabe o que, ou como fazer para a ter de volta.
Estendeu a mão e agarrou a dela. Estava gelada.
- Será que podes ajudar este pobre homem, querida?
Ela inclinou-se para a frente e uma lágrima caiu sobre a mão dele, que ao senti-la empurrou para trás o cadeirão, e ajoelhou na sua frente.
- Que se passa Isabel? Porque choras? Estás arrependida do nosso trato?
Ela olhou-o com os olhos rasos de água e disse:
-Estou. Não sei se conseguirei continuar a levar esta farsa por muito tempo.


21.5.19

UM PRESENTE INESPERADO - PARTE I




-Como é que ela se portou?- perguntou a jovem ao entrar em casa.
- Muito bem. É um amor. Não dá trabalho nenhum – respondeu a mulher com um sorriso. – Conseguiu alguma coisa?
-O costume. Darão uma resposta mais tarde. O pior é que já não posso esperar muito mais. Preciso de arranjar trabalho com urgência. O subsídio de desemprego está quase a acabar, o pouco dinheiro que tinha amealhado está quase no fim, e as necessidades dela são cada vez maiores.
- A Isabel sabe, que enquanto eu puder não lhe vai faltar nada, nem a si nem à menina. Não tenho mais família do que um sobrinho do meu falecido marido, que nem sei se ainda é vivo, pois desde que há dez anos emigrou para a Austrália, nunca mais deu notícias. E demais gosto das duas como se fossem realmente da minha família.
- A Natália é um amor, e eu agradeço muito, mas já basta cuidar da Matilde, sem cobrar nada. É uma grande ajuda, pois neste momento não posso pagar uma creche, e não posso continuar à procura de trabalho, com ela ao colo. Guarde as suas economias, não pode gastá-las connosco, nunca se sabe o dia de amanhã. Eu preciso mesmo de trabalhar, nem que seja a ganhar o ordenado mínimo. É apertado, mas desde que dê para as necessidades básicas, já me dou por feliz.
-Desculpe voltar ao mesmo. Mas custa-me vê-la nessa aflição. Não entendo porque a sua irmã não entrou em contacto com o pai da Matilde. Registou a bebé com o nome dele.
- Sabe como era a Susana, não se abria muito, não sei o que aconteceu para terminarem. Só me disse que o encontrou um dia no Vasco da Gama, e ele fingiu não a conhecer. A Susana ficou de rastos. Pôs o nome dele no registo da menina, por entender que a criança tem direito a saber quem é o pai. Penso que a minha irmã sempre sentiu falta do nosso pai, que ela não chegou a conhecer.
-Já me disse isso. Mas continuo a pensar que a Isabel devia procurar o pai da Matilde. Ele tem obrigação de ajudar, na criação da filha.
- E eu vou procurá-lo se não conseguir algum trabalho até ao fim do mês. Já podia ter começado a trabalhar na caixa do supermercado, mas queriam que fizesse turnos e por causa dela, não pude aceitar.
- Credo Isabel, caixa de supermercado com as suas habilitações?
-O que quer, Natália, se não consigo emprego, como secretária, tenho que me sujeitar ao que me aparecer. E ser caixa num supermercado não é desonra nenhuma. Há dez meses que estou inscrita no fundo de desemprego e só tenho feito cursos, e mais cursos, mas trabalho que é bom, nada.
-Claro que não, Isabel. De qualquer modo continuo a pensar que devia esperar um pouco mais, até arranjar uma coisa melhor. Foi uma pena que a empresa onde estava tivesse aberto falência. Já lá estava há tanto tempo!
-Seis anos. Mas enfim não vale a pena chorar sobre o leite derramado. Vou preparar o almoço. Quer almoçar comigo?
- Sobrou-me uma boa parte do jantar de ontem é só aquecer. De qualquer modo obrigada. A Matilde já dorme há mais de uma hora, deve estar quase a acordar.
-Mais uma vez muito obrigada. Vou preparar-lhe o almoço, porque quando acordar deve estar cheia de fome.
-Então até logo, Isabel. Se precisar de sair é só tocar a minha campainha.
- Até logo Natália. Não conto sair esta tarde, mas se precisar não esquecerei a sua oferta. A senhora é o nosso anjo da guarda.


A quem me perguntou se esta história era uma reedição informo que não.
Fiquei tão baralhada que fui ler o inicio de todas as histórias que já escrevi e a única que tem uma jovem junto de uma falésia no início, é a "Folha em Branco" que começa com um pintor que vê uma jovem sobre a falésia, suspeita das suas intenções e a salva de mergulhar no espaço. Como verão com o avançar da história, o único ponto em comum é uma jovem e uma falésia.


17.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXVII



- Boa tarde Irene. Por favor liga à Margarida Souto, e pergunta-lhe se ela pode ir jantar comigo esta noite. Preciso da sua ajuda para a festa do António Ferreira, - disse Paula mal entrou na sua empresa.
Sem esperar resposta da secretária dirigiu-se ao seu gabinete, ligou o computador e passou as fotos do jardim da casa em Sintra para o mesmo.
Estudava as imagens quando Irene a interrompeu.
- Tenho a Margarida na linha. Ela quer falar contigo.
- Obrigada. Passa a chamada, - disse.
- Guida? Boa tarde.
-Boa tarde, Paula. A Irene diz que precisas de mim com urgência. Onde é o incêndio?
- Em Sintra no fim do mês. Uma boda de estanho, que deve ser de sonho, mas o tempo é muito curto. Só para teres uma ideia, só hoje conheci o espaço e tenho que ter o plano pronto amanhã para que o cliente aprove ou não, porque depois de amanhã ele vai viajar. Se puderes vir jantar comigo esta noite, vemos as fotos, e trocamos ideias. Pode ser?
- O Gustavo está no Porto, pelo que não tenho nenhum programa combinado. Conta comigo. Queres que vá agora já para aí, ou encontra-mo-nos mais tarde em tua casa?
- Podes vir já? A sério? Isso seria o ideal.
-Ok. Dentro de meia hora o mais tardar estou aí.
- Obrigada. Fico à espera.
Desligou a chamada e voltou a estudar as fotos. Vinte e cinco minutos mais tarde, a sua secretária introduzia no gabinete a decoradora.
Margarida era uma mulher de pouco mais de trinta anos. Possuía um rosto agradável, era de baixa estatura, e um corpo mais roliço do que os códigos da moda ditavam. O seu maior encanto era a simpatia que irradiava como uma auréola de toda a sua figura. Paula conhecera-a dez anos atrás, na Universidade, quando Margarida começara a namorar Gustavo, seu amigo e vizinho. A empatia entre as duas foi instantânea e em breve eram grandes amigas, apesar de não frequentarem o mesmo curso. Mais tarde quando a jovem casara com Gustavo, ela fora convidada para madrinha e desde aí os laços de amizade entre os três, estreitaram-se ainda mais.
Margarida fora sua confidente, quando se apaixonara por Adolfo com quem curiosamente a amiga nunca simpatizara. Costumava dizer que não vislumbrava sinceridade nos seus olhos. Quatro anos mais tarde, Paula viria a dar-lhe razão.
-Bom, aqui tens o bombeiro de serviço, - disse com um rasgado sorriso, depois de beijar a amiga.
-Vem ver estas fotos. São de um local onde tenho que realizar uma boda de estanho no final do mês.
- É uma bela casa. É de alguém que conheço?
- Talvez. Conheces o empresário António Ferreira?
- O “rei da Cozinha Portuguesa”?- perguntou a decoradora, que lançou um assobio de admiração perante o sinal de assentimento da amiga. - Mas o homem é casado? Nunca o vi acompanhado.
- A festa é para a irmã dele. Mas senta-te que conto-te tudo. Além da tua ajuda, preciso desabafar.

Esta história volta Segunda-feira. Uma Santa e Feliz Páscoa para todos 


13.4.19

UM HOMEM DIVIDIDO - PARTE XXIV








Recolheu as sertãs de barro onde servira o Bacalhau com Natas, e serviu as Codornizes acompanhadas por uma travessa de legumes salteados. Recebeu os elogios da jovem com um sorriso de agrado e, colocou uma garrafa de vinho tinto “Contos da Terra “ reserva 2015 ao lado da garrafa “Conde da Ervideira” branco reserva 2016, com que tinham estado a acompanhar o prato anterior e retirou-se desejando” bom apetite.”
- Não é uma casa demasiado grande para uma só pessoa?- Perguntou a jovem mal a governanta saiu.
-Tenho uma outra empregada, que só não viste, porque hoje é o dia da sua folga. A governanta folga aos domingos. De resto a empresa que abastece os restaurantes abastece a casa, e a limpeza é feita pela mesma empresa que a faz nos escritórios. Também tenho um sofisticado sistema de alarme que só é desligado por código da pessoa que vai entrar, ou quando como hoje eu avisei que estavas a caminho, e forneci indicações sobre ti e o teu carro. Retomamos o almoço?- Perguntou estendendo a mão para a garrafa de vinho tinto.
 - Desculpa, não podemos continuar com o anterior? Não estou habituada a beber ao almoço, muito menos vinhos de diferentes graduações e regiões. Lembra-te que às três horas tenho que estar na igreja e não quero ir a trocar as pernas.
-Podemos fazer o que quisermos. Se bem que as codornizes, como são estufadas em vinho do Porto, ficam melhor acompanhadas com vinho tinto, mais encorpado. Pelo menos é o que recomenda a etiqueta. Mas como deves saber, não sou homem de etiquetas. Tenho por lema, que o que nos sabe bem é que importa, mesmo que a etiqueta não esteja de acordo. O que achas das codornizes?
-Estão deliciosas! Graças a Deus, não sou de engordar fácil, senão amanhã tinha que perder umas horas no ginásio.
- Ginásio? Não precisas, estás ótima.
-Obrigada.
- Queres repetir? Ou peço a sobremesa?
-Não como mais nada. São duas horas e ainda tenho de fotografar o jardim antes de ir falar com o padre.
-E café?
- Café, sim aceito. Simples e sem açúcar.
- Não queremos sobremesa. Apenas os cafés simples e sem açúcar, - pediu o dono da casa, à empregada enquanto ela retirava da mesa, a loiça do almoço e a colocava no carrinho para levar de volta para a cozinha.
- Acompanho-te à igreja, - disse ele logo que a empregada saiu da sala.
- Tiraste o dia para me pajear? – Já te disse que prefiro ir sozinha.
- Isso porque talvez não saibas o poder que tem uma boa doação para a igreja. Vais ver que será muito mais fácil qualquer acordo depois disso. As paróquias portuguesas estão sempre a precisar de qualquer restauro para o qual nunca há dinheiro.
A governanta entrou com os cafés, o que impediu a resposta da jovem.
Mal terminaram de saborear a bebida Paula pôs-se de pé dizendo:
- Vou tirar as fotos ao jardim, e à parte de trás da casa. Como a festa começará a meio da tarde, preciso ver onde o sol está a incidir para que a decoração seja a ideal.
- Vou ao escritório, criar um código de segurança para que possas entrar e sair sem problemas. Já vou ter contigo.
Paula saiu para o jardim e pegando no telemóvel, foi tirando várias fotografias enquanto se dirigia para o lago no centro do jardim. Fotografou igualmente o portão de entrada, e por fim voltou-se e fotografou a moradia precisamente no momento em que António descia os três degraus do alpendre. Corou envergonhada, e pensou apagar a foto e tirar outra depois que o homem chegasse junto de si, mas acreditando que ele não se apercebera acabou por não fazê-lo.
-Já fotografaste tudo o que querias?- Perguntou ele ao chegar junto dela.
- Deste lado sim. Vens comigo ao outro lado?
- Vou contigo até ao fim do mundo se me deixares.
- Voltou o sedutor, - retorquiu a jovem, adiantando-se para que ele não notasse a sua perturbação.